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MAIS ESTATIZAÇÃO DA CULTURA - Na semana passada estive num encontro promovido pela Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva. Um dos oradores foi Agustin Gonzalez Garcia, um especialista espanhol em Direito da Arte, que falou sobre a responsabilidade social, o papel do Estado e o regime de mecenato em vários países. Uma das ideias fortes que passou, em jeito de conclusão, no final da sua intervenção, foi esta: “No contexto actual, os incentivos fiscais ao mecenato estão justificados e existe margem de manobra suficiente para que os estados membros da União Europeia aprovem uma melhoria razoável desses incentivos”. O Ministro da Cultura apareceu no final de uma tarde de boas conversas, que contou com Teresa Gouveia num diálogo com Vicente Todolí e com um rico debate incentivado por Pedro Cabrita Reis com José Miranda Justo e Paula Pinto. O Ministro aproveitou uma tarde, que até aí tinha sido proveitosa, para fazer um comício com as conclusões do Conselho de Ministros desse dia, que aprovou a reestruturação na área do património, criando a empresa pública Museus e Monumentos de Portugal e o Instituto Público Património Cultural. A propósito da empresa, que o governante proclamou ser o veículo para a captação de mais financiamento pela sociedade civil, Adão e Silva manifestou a opinião de que, nesse campo, não vale a pena conceder mais benefícios fiscais ao mecenato. Ficámos portanto com a opinião de um especialista que preconiza mais isenções fiscais e de um governante que se mostrou convicto de que empresas e particulares acorreriam a deitar dinheiro em cima do peso do Estado sem mais contrapartidas. Entretanto percebeu-se que as medidas tomadas pelo Governo desagradavam a quase todos os envolvidos, desde responsáveis de museus a municípios e às CCDR, até aos responsáveis das Direcções Regionais de Cultura, que ficarão extintas. O presidente da Comissão de Coordenação Regional do Norte (CCDR-N) , António Cunha, considera que o documento apresentado pelo Ministério da Cultura assenta num “quadro conceptual extremamente centralista” e receia que as decisões anunciadas possam mesmo “pôr em causa todo o processo de regionalização da cultura a partir de estruturas regionais”. O presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Algarve, o socialista José Apolinário, também se pronunciou contra as alterações anunciadas pelo ministro, defendendo que esta reorganização afasta as entidades locais da gestão do seu património e promove a centralização da gestão dos monumentos. Outros responsáveis da área queixaram-se que o sector não foi ouvido sobre as alterações anunciadas e que souberam das decisões pelos jornais. No fim do dia, este é mais um pacote de medidas tomado por gente com pouca ligação à realidade. O Ministro da Cultura, uma das estrelas da galáctica costista, tem fama de ter peso político. É só pena que o use desta maneira.

 

SEMANADA - A maioria absoluta do PS na Assembleia da República impediu 56 audições no Parlamento este ano, treze ministros evitaram ir à AR e Medina foi o que mais ignorou perguntas da oposição; em 2022 registaram-se 2401 mortes por excesso de calor e a população idosa foi a mais atingida; na União Europeia cerca de 40% dos doutorados chegam às empresas, mas em Portugal apenas 6% estão na mesma situação; o programa Mais Habitação alterou o regime fiscal de reinvestimento do valor de venda de casa própria para aquisição de novo imóvel, com prejuízo para os cidadãos no caso de compra de nova casa; no primeiro trimestre deste ano venderam-se menos 20% de casas que no período homólogo do ano anterior;  um terço dos inquilinos gasta mais de 40% do rendimento para pagar a renda de casa e Portugal está entre os países europeus onde a taxa de esforço para pagar habitação é maior; Portugal demorou ano e meio a pedir às autoridades de Paris para interrogar um casal de graffiters franceses que vandalizaram o Padrão dos Descobrimentos e o sistema judicial português demorou 10 meses a traduzir para francês as 19 páginas com as perguntas que as autoridades francesas deviam fazer na investigação deste caso; a viagem de comboio Porto-Faro no Alfa Pendular demora actualmente mais 15 minutos que em 2016 e o mesmo se passa na ligação ferroviária de Lisboa para Braga; as marcas brancas pesam já quase metade da fatura do supermercado;  a subida do preço dos alimentos emPortugal é o dobro da média europeia, nos últimos meses os ovos aumentaram 60%, o arroz 50% e a carne de porco 49%.

 

O ARCO DA VELHA - Com a subida das taxas de juro, num empréstimo com Euribor a 12 meses, o aumento do valor da prestação mensal, de junho de 2022 a junho de 2023, foi de 58%.

 

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A  IMAGEM FOTOGRÁFICA - Esta semana o destaque vai só para fotografia e começo pela exposição que Luísa Ferreira tem patente na Biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, uma retrospectiva que reúne trabalhos por ela realizados ao longo das últimas três décadas, nomeadamente as séries “Há Quanto Tempo Trabalha Aqui?”, “Intimidade”, “Tranquilidade, Fidelidade, Infelicidade”, “Lorento”, “Sem Prata” e alguns inéditos (na imagem). Luísa Ferreira debruça-se sobre a cidade, a casa, as memórias, o centro histórico, a gentrificação, o (des)enraizamento e o (des)alojamento, numa reflexão sobre os efeitos da transformação urbana na cidade de Lisboa. A exposição fica patente até 12 de Julho. Em Coimbra, no Centro de Artes Visuais, destaque para a nova exposição “Auto & Retrato”, uma visita à colecção dos Encontros de Fotografia com curadoria de Miguel von Hafe Pérez que ficará patente até 10 de Setembro. Na exposição, com 97 fotografias,  é possível acompanhar o caminho que a fotografia foi fazendo ao longo do tempo, numa mostra que põe em diálogo artistas nacionais e internacionais e fotógrafos de diferentes períodos. Miguel Von Hafe Pérez sublinha que além dos trabalhos resultantes de encomendas feitas pelos Encontros de Fotografia, é possível encontrar na exposição vários retratos do país, a partir de “um olhar internacional sobre Portugal que, nos anos 80 e 90, ainda era um território por descobrir”, mostrando-se ainda um “confronto entre imagens com um caráter mais intimista com imagens relativamente públicas, ou imagens muito divergentes, como um retrato de Eusébio ao lado do de  Samuel Beckett”. Por fim, na Galeria da Avenida da Índia, por iniciativa da Embaixada de Itália, é apresentada a exposição “Aos Olhos Delas. Mulheres e Trabalho em Itália desde 1950”, que ao longo de uma centena de imagens  investiga a forma como a fotografia realizada pelas mulheres se tem confrontado com o mundo do trabalho na Itália contemporânea.

 

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O STREAMING DA SEMANA - Depois de ter estado ausente das plataformas de streaming audio durante uns tempos, “Coffee And Cigarretes”, de Bill Evans, regressou ao Spotify. Trata-se de uma compilação que reúne temas de quatro álbuns, “Everybody Digs Bill Evans” (1959), “Explorations” (1961), e dois álbuns gravados ao vivo, na mesma data, no Village Vanguard embora com momentos de edição diferentes: “Live at the Village Vanguard” (1961) e “Waltz for Debby” (1962). Ao todo quase uma hora e meia de música, repartida por 14 temas, comoSome Other Time”, “Lucky to Be Me”, “Night and Day” , “Tenderly”, ou “My Foolish Heart”, entre outros. Um manual sobre a arte do piano no jazz.

 

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AS CIDADES DA MONOCLE - Já saíu a edição dupla de verão da revista “Monocle” que tem a habitual lista das cidades com melhor qualidade de vida, segundo os editores da publicação. Viena, que no ano passado estava na sétima posição, subiu ao primeiro lugar, seguida por Copenhaga, Munique, Zurique, Estocolmo, Tokyo, Helsínquia, Madrid (que subiu da 15ª para oitava posição), Lisboa (que desceu da terceira para a nona posição) e Melbourne. Nas páginas sobre Lisboa a “Monocle” destaca a segurança, o sentido de comunidade, a hospitalidade e a natureza. Mas chama atenção para o facto de a chegada de estrangeiros que vieram viver para a cidade fomentar a especulação imobiliária. Recomendam uma política de habitação que proteja os residentes nacionais e trave  a subida das rendas. “Enquanto Lisboa continua a ser uma cidade acessível para os nómadas digitais, os salários em Portugal continuam entre os mais baixos da Europa ocidental, com a situação a ser particularmente difícil para os mais novos” - escreve a “Monocle”, sublinhado:”Os políticos precisam de mostrar um sentido de liderança e pragmatismo que impeça que a cidade seja vítima do seu próprio sucesso”. Num outro artigo, que analisa a situação social da cidade, é citado o Presidente da Câmara, Carlos Moedas: ” O turismo é muito importante para nós mas não queremos que Lisboa se transforme só numa cidade Airbnb”.

 

A ACOMPANHANTE DO JOAQUIM - Quando olho para as sardinhas que se vão vendo decido esperar mais um tempo para que cresçam e fiquem mais suculentas. Mas entretanto os jaquinzinhos, esses pequenos carapaus, estão no ponto. E chegou aquela altura do ano em que se coloca um dilema; qual o melhor acompanhamento para jaquinzinhos fritos? As escolhas vão do proverbial arroz de tomate malandrinho, à ideia saudável mas não demasiado atraente, da salada, passando pela açorda. Esta última hipótese é a minha preferida - o problema é que fazer uma boa açorda não é coisa fácil. Há que ter em conta a consistência e o tempero. Para uma açorda não se pode usar um pão qualquer- convém que seja de véspera, pão antigo, de boa massa, de mistura. E depois convém que o azeite  seja de muito boa qualidade. A arte do assunto está na forma como o pão é molhado e depois escorrido, a proporção certa do alho que há-de ir à frigideira para depois receber o pão onde se misturarão os ovos e, por fim, os coentros finamente cortados que hão-de compor o repasto. Já os jaquinzinhos são outro desafio: devem ser pequenos, não podem entrar na categoria de “eram já quase carapaus”, terão obrigatoriamente de ser comidos à mão, com os dedos a segurar a cauda dos peixinhos, que será a única parte não comida. E a sua fritura deve ser impecável, deixando desfeitas as espinhas mas intacta a carne que as rodeia, não lhes alterando o sabor e a desejável frescura, garantido que vêm bem secos para a mesa. 

 

DIXIT -  "Os barcos não podem estar atracados com os motores ligados com energias fósseis" - Carlos Moedas sobre a presença de navios de cruzeiro com os motores ligados no porto de Lisboa, exigindo que passem a só poder usar energia eléctrica enquanto estiverem atracados.

 

BACK TO BASICS - “Maçador é alguém que fala quando queríamos era que ouvisse” - Ambrose Bierce

 




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publicado às 11:00

O INSENSÍVEL ESTADO

por falcao, em 23.06.23

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O CASO DA SEMANA -  Na terça-feira da semana que vem António Costa veste-se de pompa e circunstância, esperemos que sem o cínico sorriso que é a sua máscara usual, para realizar às pressas e sob pressão, a inauguração de um monumento  às vítimas dos grandes incêndios de 2017 em Pedrógão que não quis fazer na data que assinalava o aniversário desse fatídico momento. Nesse dia da semana passada, Costa estava sentado ao lado de um líder da extrema direita europeia, em Budapeste, no dia do aniversário de Orbán, a ver futebol - a final da Liga Europa, em mais um exemplo da forma como o futebol é o terreno onde a elite política se delicia a sujar as mãos. Foi o caso da semana. Regressando ao tema das primeiras linhas, deixem que vos diga que Carlos Rodrigues, Diretor Geral Editorial da Cofina, escreveu no Correio da Manhã aquilo que é mais importante neste caso: a atitude das altas individualidades do Estado face à apresentação do monumento de homenagem é o sinal da forma como olham para o país. Cito o que escreveu: “Na verdade vai para 6 anos que o Estado central não se lembra, ou pelo menos esquece-se facilmente, de quem vive e sobrevive no interior do País. De que vale homenagear os que morreram se não se cuida dos que ainda vivem em Pedrógão Grande e em todos os locais do País cada vez mais abandonados à sua sorte, sem esperança no futuro, sem investimentos, sem uma ideia estratégica para inverter a desertificação rural?”.  Mudar o país dá muito trabalho e exige, ironia das ironias, um pouco de pensamento, atenção às pessoas, medidas concretas. As reformas não vivem de discursos ou de comemorações, vivem de decisões e de acções que concretizem as decisões. Coisas demasiado ausentes da política portuguesa deste consulado costista, retrato perfeito de um Estado que despreza as pessoas, de partidos que só pensam em si próprios e de políticos que só querem ocupar lugares, aqui, ou lá fora.


SEMANADA - 76 municípios portugueses, um quarto do total, têm menos de 12 espectáculos ao vivo por ano, têm um investimento municipal na cultura inferior a um milhão de euros por ano e não têm qualquer entidade apoiada pela DG Artes, sendo assim classificados como de “baixa densidade cultural”; quase metade das freguesias portuguesas não tem multibanco; os chumbos no exame de matemática do 9º ano passaram de 38% para 70%; no conjunto dos primeiros cinco meses de 2023, o movimento registado nas infraestruturas aeroportuárias portuguesas aumentou 34% face ao período homólogo; dez meses depois dos incêndios que devastaram a Serra da Estrela, queimando mais de 24 mil hectares do parque natural, quem teve prejuízos e os declarou ainda não recebeu nenhum dos prometidos apoios; a abertura do memorial às vítimas dos incêndios de Pedrógão Grande em 2017 aconteceu esta semana, sem a presença de quaisquer representantes do Governo; os brócolos aumentaram 10,8% nos últimos dois meses, desde que o IVA Zero entrou em vigor; segundo o Conselho de Finanças Públicas o sector público empresarial tem centenas de empresas com 150 mil trabalhadores e custos operacionais superiores a 11, mil milhões de euros por ano, cerca de 4% do PIB em números redondos; em matéria de política fiscal Portugal ocupa  a 54ª posição entre as 64 economias mundiais analisadas pelo International Institute for Management Development; este ano a inflação em Portugal aumentou de tal modo a base tributária que fez a receita fiscal aumentar 4 mil milhões de euros, saídos do bolso dos contribuintes para os cofres do Estado; Carlos Moedas anunciou um plano de reabilitação e de construção de nova habitação a ser desenvolvido pela Câmara Municipal de Lisboa com um novo investimento de 322 milhões de Euros; Lisboa e Funchal estão no top 10 europeu de poluição por navios de cruzeiro.


O ARCO DA VELHA - Rui Costa, Presidente do Benfica, afirmou, a propósito da regulamentação de novos direitos audiovisuais que “o Benfica não irá cumprir nenhuma lei se se sentir prejudicado”.

 

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PINTURAS TRADICIONAIS - Tendo eu estado ausente durante uma semana, colocou-se a questão de saber o que recomendar em matéria de exposições. De forma que resolvi seguir algumas opiniões que considero, manifestadas publicamente. Pelo que consegui perceber a exposição que está a suscitar maiores elogios é “Pau-Podre”, de Mattia Denisse, um francês que vive em Lisboa, e que pinta aquilo que parecem paisagens e naturezas mortas, retomando a tradição da pintura ocidental. A exposição, com 17 obras inéditas feitas entre 2022 e 2023 (pormenor na imagem), está na Galeria Rialto 6, em Lisboa (Rua Conde Redondo 6, 1º andar). Ainda em Lisboa há uma galeria na qual vou descobrindo novos artistas é a Balcony, (Rua Coronel Bento Roma 12). Pedro Magalhães, que dirige a galeria, aposta em divulgar novos nomes como acontece com  “Plan Américan”, de Rodrigo Oliveira, uma revisitação do universo da Avenida dos Estados Unidos da América e do filme “Verdes Anos”, de Paulo Rocha cuja acção era ali situada. Em Coimbra sugiro uma visita à Galeria Sete (Avenida Elísio Moura 53), que apresenta até 8 de Setembro uma série de novos trabalhos de Pedro Pascoinho na exposição “Nada - o triunfo do silêncio”. No Porto, na Galeria Fernando Santos, Gerardo Burmester apresenta “Impossível de Ver II”. Segundo Burmester a exposição evoca e prolonga uma instalação que apresentou em 1997 em Serralves, “Impossível de Ver” e que consistia em ter desenhos sobre feltro entalados num muro de xisto. Burmester sintetiza a razão do título nesta frase: “Vivemos um tempo de excesso de imagem, em que tudo se torna Impossível de Ver. Vê-se apenas o exterior.”

 

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A HISTÓRIA DE UM ARTISTA - Júlio Pomar foi um dos grandes artistas plásticos portugueses dos últimos cem anos, com uma obra incontornável na pintura, desenho, gravura e cerâmica. A sua primeira exposição data de meados dos anos 40 do século passado, estudou em Lisboa e no Porto onde, entre muitas outras coisas, realizou o grande mural do Cine-Teatro Batalha, recentemente recuperado. Em 1963 foi para Paris, onde viveu e trabalhou durante vários anos. Alexandre Pomar, seu filho, é um dos mais relevantes críticos de arte portugueses e seguiu sempre com atenção a obra do seu Pai, estando também ligado à Fundação Júlio Pomar e ao Atelier-Museu Júlio Pomar, em Lisboa. “Júlio Pomar. Depois do Novo Realismo” é o livro que agora editou, e que acompanha o percurso de Júlio Pomar desde o início da década de 40. O livro reúne estudos publicados ao longo dos anos e alguns inéditos e inclui reproduções de uma selecção de obras do pintor. Alexandre Pomar apresenta neste livro o seu olhar sobre a obra de Júlio Pomar e desafia a ortodoxia reinante sobre o período do neo-realismo. Além de percorrer as diversas fases da produção artística de Júlio Pomar, o livro inclui ainda dois anexos com 25 escritos inéditos e dispersos do artista, correspondência que Pomar trocou com Mário Dionísio, Manuel Vinhas, Paula Rego ou Cardoso Pires e ainda cartas enviadas aos filhos nos primeiros anos de Paris. São de Alexandre Pomar estas palavras: “Importa ver o aparecimento do neo-/ novo realismo não isoladamente mas no âmbito do que foi a Geração de 45, protagonizada por jovens artistas surgidos no imediato pós-guerra, que se afirmaram como emergência consciente de si mesma, como mudança e novidade, vanguarda, em acções colectivas, escritos e exposições, para ao mesmo tempo se diferenciarem no seu seio entre o interesse pelo realismo, o abstraccionismo e o surrealismo. De Júlio Resende, um pouco mais velho, a Fernando Lanhas e Nadir Afonso ou Arlindo Rocha, a Júlio Pomar e Vespeira, é uma geração que irrompe, passando por um jornal (página Arte, em A Tarde), as exposições Independentes (1943-50) e uma galeria (Portugália). É o Porto a sede dessa movimentação, mal conhecida em Lisboa e deliberadamente diminuída nas histórias de José-Augusto França e discípulos, para assim se tentar construir uma nova página ou nova geração pelo final da década de 40 inícios de 50. É de uma revisão da história académica ainda vigente que se trata aqui.” Edição Guerra & Paz e Atelier Museu Júlio Pomar.

 

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O ENCANTO DAS CANÇÕES -  Um dos actores que aparecia num episódio da série “Billions”  e no recente filme “Killers Of The Flower Moon”, de Martin Scorsese, é também um guitarrista e cantor experiente e aplaudido. Chama-se Jason Isbell, já ganhou vários Grammy e tem uma longa carreira musical, nos Estados Unidos, mas pouco conhecida na Europa. A partir do terreno original da música country, demasiado desprezado, Isbell cresceu, tornando-se um guitarrista requisitado por muitos músicos. Tocou pela primeira vez no templo da Country em Nashville, o Grand Ole Opry, quando tinha apenas 16 anos. Embora tocando muitas vezes a convite de outros músicos, como Steve Earle, Isbell tem vários discos a solo, mas foi com a sua primeira banda, Drive By Truckers que obteve notoriedade. O ponto alto da carreira da banda ocorreu no álbum “Southern Rock Opera”, de 2001. Em 2009 Jason Isbell criou um novo grupo, com músicos do Alabama e deu-lhe o nome 400 Unit, uma referência à ala de psiquiatria do Eliza Coffee Memorial Hospital. “Weatherwaves”, o novo álbum agora editado, é o seu quarto disco com os 400 Unit e é, talvez, o mais marcante dos seus trabalhos. Alguma imprensa norte-americana diz que “Weathewaves” está para o percurso de Jason Isbell como “Born To Run “ esteve para o de Springsteen, aliás uma das evidentes referências musicais de Isbell. Outras, que se podem sentir ao longo da sua música são, por exemplo, Tom Petty, Allman Brothers, Steve Earle ou Van Morrison. “Weatherwaves” parece um disco feito à moda antiga, com uma sucessão de 13 boas canções, cada uma delas com espaço para se afirmar, uma hora de música que vale a pena ouvir. Sugiro que numa das plataformas de streaming ouçam o que canta em temas como “If You Insist”, “Middle Of The Morning” ou vejam como os cinco músicos da 400 Unit são criativos nas duas faixas finais”This Ain’t It” e “Miles”. Este “Weatherwaves” é um belíssimo disco, um clássico contemporâneo da música americana.

 

DIXIT - “É evidente que António Costa não foi a Budapeste negociar apoios para um cargo europeu. Primeiro, porque ele disse que ficaria 4 anos e não é pessoa de faltar à palavra. Segundo, porque seria incapaz de instrumentalizar forças políticas radicais para conquistar o poder” - Carlos Guimarães Pinto.

 

BACK TO BASICS - “No mundo dos negócios, o espelho retrovisor dá sempre uma imagem mais nítida que o pára brisas” - Warren Buffet

 



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AS APARÊNCIAS ILUDEM

por falcao, em 16.06.23

 

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COM UM SORRISO ME ENGANAS - A mentira e a dissimulação tornaram-se instrumentos da política. O fenómeno não é novo e é transversal do ponto de vista partidário. O que é novo é ter um Governo, e o partido que o apoia, a escudarem-se na maioria absoluta, que não usam para fazer reformas e melhorar o país, mas utilizam para tapar a confusão que vai no Governo, evitar que se saiba a verdade, negando inquirições, dificultando respostas, iludindo o pagode. De certa forma criou-se a ideia de que é inevitável ocultar e mentir quando se está na política - o contrário daquilo que devia acontecer. Perante aldrabices inqualificáveis há até quem diga que o político tal é habilidoso e um mestre em táctica. O mundo, na realidade, está ao contrário. Outro instrumento recorrente dos líderes dos grandes partidos é o eterno sorriso. Parece uma máscara - e, se calhar, é mesmo. Reparem: Costa e Montenegro aparecem sempre a sorrir e o Primeiro-Ministro mantém a máscara mesmo nas situações mais graves. Políticos que estão sempre a sorrir, e que pelo meio ainda escondem umas verdades, fazem-me lembrar aqueles vendedores de automóveis usados (sem ofensa à classe), que sorriem enquanto dizem que está tudo na ponta da unha com o que querem impingir. Isto nem sempre foi assim. Os grandes estadistas, como Mário Soares, têm expressão facial, não escondem irritações nem frustrações, nem alegrias nem tristezas. São pessoas, não são produtos de consultores de imagem e de especialistas em media training. Estamos a caminhar para uma época em que os dirigentes políticos, pelo menos grande parte deles, parecem bonecos de cera sempre com a máscara do sorriso afivelada. Eu não comprava um carro a esta gente, muito menos lhes punha um país nas mãos.

 

SEMANADA - Em 2021 cada pessoa produziu em média 1,4 kgs de resíduos por dia; a população em Portugal aumentou pelo quarto ano consecutivo, registando-se uma queda nos melhores de 14 anos e um crescimento nos maiores de 65; nos últimos 50 anos duplicou o número de casas existentes em Portugal; segundo a Pordata nos últimos 50 anos as famílias tornaram-se mais pequenas; grande parte dos professores universitários estão a chegar à idade da reforma, que pode atingir 600 docentes por ano; é esperado um aumento de 30 a 50% na produção diária de lixo em Lisboa durante as Jornadas Mundiais da Juventude; no ano passado foram feitas sete milhões de chamadas para o 112, mas apenas 1,4 milhões foram consideradas emergências; segundo a Quercus o consumo médio anual de peixe em Portugal é de cerca de 60 kgs por pessoa, o que significa 2,5 vezes a média europeia; Portugal é o 5º país  da UE com maior lentidão dos tribunais; uma decisão de um tribunal de primeira instância, em Portugal, demora em média três anos a ser tomada; uma sondagem do Expresso indica que 78% dos portugueses estão insatisfeitos com o combate à criminalidade, 87% estão insatisfeitos com o combate à corrupção e 51% não confia nos tribunais; há 861 mil casas em Portugal que não estão ligadas à rede pública de água emais de 1,3 milhões sem saneamento; em Portugal existem 4300 impostos e taxas.

 

O ARCO DA VELHA - “Ainda não sei muito bem o que se passou” - afirmou agora Mário Centeno, que era Ministro das Finanças em 2015, sobre o negócio então realizado entre Neeleman, Airbus e TAP.

 

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PINTURAS & MAIS - Em matéria de exposições o destaque desta semana vai para “Metamorfoses”, de Ilda David, que fica na Sociedade Nacional de Belas Artes até 22 de Julho. É um conjunto de 36 obras, das quais quatro são dos anos 90 e todas as outras foram feitas entre 2020 e 2023. Na exposição coexistem telas a óleo e acrílico, telões de linho bordados e um grande mosaico construído de diversas pedras e que domina o espaço, colocado centralmente no grande salão (na imagem). Desta vez as telas não estão na parede, e sim montadas em estruturas que reproduzem os cavaletes de estúdio. Ilda David conta que habitualmente trabalha em duas telas, colocadas costas com costas no mesmo cavalete, e é assim que elas estão na exposição, que teve curadoria de Nuno Faria, de quem são estas palavras: “livres de paredes, circulamos entre imagens - pintadas, bordadas, montadas - e imaginários”.  Outros destaques: Serralves recebe pela primeira vez, até 12 de Novembro, uma exposição de António Júlio Duarte, trabalhos recentes concebidos especificamente para o espaço onde estão expostos. Na Galeria Contemporânea do Museu estão 50 fotografias de formatos idênticos e na Capela da Casa de Serralves está uma impressão sobre tecido de grande formato da obra Queimado, de 2017; a Fundação Gulbenkian, assinalando o 1º aniversário da morte de Paula Rego, expõe, pela primeira vez, até 24 de Julho, as duas mais recentes obras da artista integradas na colecção do Centro de Arte Moderna, “Anjo” (de 1998) e “O Banho Turco” ( de 1960). As duas obras estão até 24 de Julho no átrio da sede da Fundação Calouste Gulbenkian, junto à escadaria principal, com entrada livre.

 

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COMO SE CHEGOU À ESCRITA - Se não houvesse escrita, não havia livros. É a partir daqui que nasce o “Atlas Histórico da Escrita” por Marco Neves, professor da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. O autor mostra-nos como «estas invenções de aparência banal – uns rabiscos –»  abrem «as portas a uma história tremenda, antiga», e dão ainda a oportunidade de «passar horas com as melhores mentes dos últimos milénios». Dividido em seis partes, este atlas inédito está baseado numa rigorosa investigação e leva-nos a acompanhar a história dos sinais com que temos registado as línguas de todo o mundo ao longo dos últimos cinco mil anos. até Wadi el‑Hol, no Egipto, onde Deborah Darnell e John Darnell encontraram, em 1993, inscrições com quase 4000 anos. O livro mostra a evolução da escrita e apresenta ilustrações com desenhos de alfabetos ao longo dos séculos. Para Marco Neves a escrita é a segunda maior invenção da Humanidade, depois da linguagem e por isso segue a sua história, desde as primeiras inscrições na argila da Suméria às letras digitadas no ecrã de um telemóvel, da expansão da imprensa ao advento da literatura, da alfabetização da população mundial à democratização da escrita, ou seja,  como nasceram, se desenvolveram e se espalharam os sistemas de escrita ao longo dos últimos cinco milénios. Na parte final o Atlas centra-se nas evoluções do nosso alfabeto latino e analisa a terceira grande revolução da escrita que estamos a testemunhar: «A tecnologia aliou‑se à explosão da alfabetização de muitas sociedades, levando a capacidade de ler e escrever a uma percentagem da população que, em muitos países, chega praticamente aos 100 %. A alfabetização de toda a população é um fenómeno inédito na História – mesmo no Império Romano, pensa-se que a alfabetização nunca terá ultrapassado os 20 % da população.»  A edição é da Guerra & Paz.

 

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UM DISCO RARO -  Tenho um fraquinho por Bill Evans e pela magia que extraía do seu piano. A par com Miles Davis e Coltrane, Evans é dos músicos que mais repetidamente ouço. Este ano foi editado um novo álbum de gravações inéditas,  “Bill Evans - Treasures: Solo, Trio and Orchestra Recordings from Denmark (1965-1969)”. Ao longo das 30 faixas que integram o álbum surgem três facetas do trabalho de Bill Evans durante a sua vida : na formação de trio de que tanto gostava, acompanhado por uma orquestra e, finalmente, a solo. Editado sob a forma de triplo LP de vinil, duplo CD ou em streaming, “Treasures” proporciona mais de duas horas de música, gravada para a rádio pública dinamarquesa em diversas ocasiões, entre 1965 e 1969. As gravações em trio registam duas formações diferentes, uma com músicos locais e outra  inclui o baixista Eddie Gomez, que tocou frequentemente com Evans e os bateristas Alex Riel e Marty Morell. As versões de “Autumn Leaves”  e  “Emily” são uma prova da cumplicidade entre os músicos, sobretudo Gomez e Evans. As gravações com a Real Orquestra Sinfónica da Dinamarca e a Orquestra Big Band da Rádio Dinamarquesa, ambas de 1969, são boas surpresas. Os arranjos para orquestra são do trompetista Palle Mikkelborg, e um bom exemplo do seu trabalho é a faixa “Treasures”, composta por Evans para a série de concertos de orquestra então realizados. Nos temas executados a solo destacam-se uma das suas composições, “Re: Person I Knew” a versão de “‘Round Midnight” e a de “My Funny Valentine”. O álbum tem outros clássicos como “Come Rain Or Come Shine”, “Autumn Leaves”, “In A Sentimental Mood” ou “Beautiful Love”. Disponível nas plataformas de streaming.

 

DELÍCIAS DO MAR - Há uns anos nasceu em Campo de Ourique o restaurante Cortesia, que focou as suas atenções na carne - e onde os carnívoros, como eu, têm uma boa oferta. Há poucos meses os mesmos donos do Cortesia apostaram, na mesma zona, num novo restaurante, o Teimar, que se dedica a produtos do mar. A primeira visita aconteceu na semana passada e correu muito bem. Para entrada vieram uns magníficos croquetes de camarão, perfeitos na fritura, recheio cremoso e saboroso, uma gota de maionese de alho a ornamentar cada um. a experiência prosseguiu com um tártaro de atum com alcaparras, cornichons e acompanhado de batata frita às rodelas. O tártaro estava muito bom, as batatas estavam mais cozidas que fritas, único sinal negativo de toda a refeição. uma boa experiência foi o polvo no josper (josper é um forno profissional capaz de atingir rapidamente 350º). Boa quantidade de polvo, tentáculos suculentos, macios, acompanhados de batatinha nova e cebola caramelizada. Estava perfeito. Uma experiência que fica para próxima visita é o arroz meloso de carabineiro, muito gabado em outras mesas e tentador à vista desarmada. A selecção de vinhos não é extensa mas em matéria de vinho branco a copo o Diálogo, da casa Niepoort, desempenha muito bem e a preço equilibrado. Se no fim algum carnívoro tiver fome recomenda-se o trinchadinho de lombo frito em azeite e alho tostado, fatiado à vontade do freguês. O Teimar fica na Rua Infantaria 16, 63 e a reserva é recomendável, através do telefone 213 860 032.



BOM - O Oceanário de Lisboa recebeu 28 milhões de visitantes em 25 anos.

 

MAU -  1,7 milhões de Portugueses não têm médico de família, mais 30% que há um ano.

 

DIXIT - “Daqui a umas décadas, quando o historiador do futuro olhar para os anos de António Costa, ele terá dificuldades em entender que raio de socialismo foi este que nos caiu em cima”- João Pereira Coutinho

 

BACK TO BASICS - “O cuidado a ter quando se combate monstros é evitar tornarmo-nos num deles” - Friedrich Nietzsche

 



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publicado às 16:11

O estado do Estado

por falcao, em 09.06.23

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UMA INUNDAÇÃO DE DINHEIRO - Esta semana fui localizando várias notícias que se relacionam entre si e que têm como ponto comum a dimensão e o (mau) funcionamento do Estado. Aqui vão algumas: segundo o Expresso, na semana passada, o Governo ainda não tinha comprado as vacinas para crianças inscritas no Plano Nacional de Vacinação para 2023, o que produz uma situação de risco. Noutro sítio li que  apesar dos 100 mil milhões de euros vindos da Europa nas três décadas e meia que levamos de integração na UE, Portugal foi caindo no ranking dos países europeus estando agora nos últimos lugares. Depois vejo que segundo o INE, em 2021 a remuneração bruta média dos trabalhadores do Estado era de 2019 euros, enquanto no sector privado era de 1335 euros. A propósito, o economista Ricardo Arroja publicou um artigo onde coloca a seguinte questão: “será normal que o Estado pague em média mais que o sector privado, quando é o privado que produz a riqueza que paga o funcionamento do Estado?” . Se o Estado não funciona não deve ser por falta de gente, mas sim de organização e direcção: o Estado português é cada vez maior e no final do primeiro trimestre havia 745 mil funcionários públicos, um recorde absoluto que no entanto não garante técnicos em áreas essenciais. Que se passa?  José Manuel Fernandes, na sua newsletter semanal do Observador,  diz que o Estado está em semi paralisia e recorda um excerto da aula de jubilação de Miguel Miranda, o anterior presidente do IPMA:A junção entre legisladores sem experiência real de administração pública, transformação da morosidade do Ministério das Finanças em estratégia gestionária do país, e moralismos vários, conduziu o Estado a uma semi paralisia e ao esgotamento dos seus profissionais”. Termino com outra citação, desta vez de Luís Marques, no Expresso, que é lapidar:  “temos um regime em ruínas, mas inundado de dinheiro”.

 

SEMANADA - 22% da nossa população tem mais de 65 anos, o que faz de Portugal o quinto país mais envelhecido do mundo, a seguir ao Japão, Itália, Finlândia e Grécia; num ano mais de 500 pessoas mudaram de género e nome no cartão de Cidadão; três em cada quadro responsáveis da Administração Pública estão em regime de substituição por atrasos ou para evitar concursos; em maio deste ano foi atingido um novo máximo de pessoas sem médico de família: são agora 1.757.747; segundo a CAP a agricultura foi completamente esquecida no PRR; os centros educativos para reabilitação de criminosos jovens estão fechados porque o Ministério das Finanças não aprovou a admissão de técnicos de reinserção; a  procuradora geral da República, Lucília Gago, informou que a investigação do processo “Tutti Frutti” está atrasada por falta de recursos; há mais de 1600 pessoas internadas em hospitais por não terem para onde ir, mais 60% que no ano anterior; nos últimos 20 anos os salários de mil euros perderam 42% do poder de compra; em 2022 50% dos trabalhadores recebiam um salário inferior a 1000 euros e nos mais jovens a percentagem era superior a 65%; o jogo online movimentou 3417 milhões de euros no primeiro trimestre deste ano, um aumento de 35% em relação ao mesmo período de 2022; nos primeiros inco meses do ano a PJ apreendeu oito toneladas de cocaína.



O ARCO DA VELHAUm ano e meio depois da entrada em vigor do Estatuto dos Profissionais da Cultura ainda não foi pago um único subsídio de suspensão de atividade porque falta ainda fazer regulamentação do estatuto.

 

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NAS GALERIAS - Começo por uma exposição do norte-americano Matt Mullican. Coincidindo com a realização da ARCO, a galeria Cristina Guerra Contemporary Art (Rua de Santo António à Estrela 33) apresentou um conjunto de obras essencialmente feitas entre 2019 e 2023 e que ali estarão expostas até 17 de Junho. A peça que dá o nome à exposição, “Before Breakfast”, é uma série de trinta e duas fotografias, já de 2023, que nos mostra o que os olhos do artista vêem todos os dias desde o acordar até ao ritual do pequeno almoço. Muitos artistas mostram a intimidade de outros, aqui Mullican expõe a sua própria intimidade. Outra série é um conjunto de onze pequenas aguarelas feitas sobre madeira, datadas de 2020 e 2023. Na entrada da Galeria há um conjunto de peças em ferro e também telas pintadas com acrílico e pastel de óleo (como na imagem que acompanha estas linhas), datadas de entre 2003 e 2019. Um enorme telão a replicar uma bandeira e uma incursão digital numa impressão 3D completam o rol das duas dezenas de obras expostas. Vem a talhe de foice dizer que as galerias de arte contemporânea prestam um inestimável serviço público ao serem o palco de exibição da criação contemporânea em matéria de artes plásticas, mostrando obras de artistas de diversas origens e de estilos e abordagens bem diferentes. Independentemente do mérito das respectivas programações e das opções de cada galerista, lembremo-nos que esta é uma actividade comercial que garante um mercado para artistas de várias gerações e lhes possibilita exposição e notoriedade - parte do serviço que prestam ao terem a porta aberta, de forma gratuita, para quem quiser ver o que expõem. 

 

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OUTRAS EXPOSIÇÕES - O destaque desta semana vai para “Teatro Anatómico” de Maria José Oliveira, na Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva até 17 de Setembro, com curadoria de João Pinharanda. Como é recorrente na obra de Maria José Oliveira, o corpo é o elemento central do seu trabalho, aqui em esculturas e desenhos. Como afirma João Pinharanda, nestes trabalhos “o corpo é mais sentido do que visto”. A exposição coloca em paralelo a colecção de desenhos anatómicos de Vieira da Silva, datados de 1927 com o trabalho de Maria José Oliveira. Retomando as palavras de Pinharanda, trata-se de “confrontar um trabalho a partir de dentro com outro desenvolvido a partir “de fora”. Enquanto em Vieira da Silva a observação é exterior, em Maria José Oliveira o corpo é mais sentido do que visto (na imagem). Ainda na Fundação Arpad-Szenes está uma exposição de fotografias de Maria Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes, feitas pelo fotógrafo húngaro Joseph Kádar, que permite descobrir o universo pessoal e de trabalho do casal. Finalmente, na Casa Atelier Vieira da Silva a dupla Sara & André apresenta uma instalação inspirada na obra da pintora, precisamente o óleo Atelier-Lisbonne de meados dos anos 30 do século passado. Passando para outro local, na Sociedade Nacional de Belas Artes o fotojornalista Rui Ochoa apresenta até 8 de Julho  imagens do seu livro “74-99”, que compila imagens marcantes dos primeiros 25 anos de democracia, um período que parece agora longínquo e que estas fotografias permitem revisitar.

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SOBRE A EUROPA - Timothy Garton Ash é um historiador britânico que ensina Estudos Europeus na Universidade de Oxford e grande parte da sua obra centra-se na história contemporânea da Europa, sobretudo da Europa central e de leste, os seus regimes e as transformações ocorridas nas últimas décadas. Garton Ash  intitula-se um liberal internacionalista e o seu livro mais recente, “Homelands: A Personal History of Europe” teve edição original este ano e a edição portuguesa foi agora lançada pela “Temas & Debates”  com o título “Pátrias: Uma História Pessoal da Europa”. Para Garton Ash  «a Europa dos dias de hoje não pode ser entendida sem recuarmos até àquele período que Tony Judt condensou no título da sua história da Europa desde 1945: Pós-guerra.» No livro, o autor sublinha que “O período do pós-Muro da Europa não foi um tempo de paz ininterrupta. Ele foi pontuado pela desintegração sangrenta da ex-Jugoslávia, nos anos 1990, pelas atrocidades terroristas em muitas cidades europeias, pela agressão da Rússia contra a Geórgia, em 2008, pela sua tomada da Crimeia, em 2014, e pelo conflito armado subsequente e ainda em curso na Ucrânia oriental.” Já no final do livro Timothy Garton Ash vaticina que “ao longo das próximas décadas, o que a Europa fizer na sua periferia será tão importante como qualquer coisa no seu cerne”. “Pátrias” é, como o autor refere, um apelo a preservar o sonho desse projeto político a que chamamos «Europa» – e que defende os ideais de paz, liberdade e prosperidade.

 

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AS MEMÓRIAS DE DYLAN -  Dia 2 de Junho, enquanto Bob Dylan estava em Portugal nos seus aguardados concertos, foi lançado mais um novo álbum, o seu 40º trabalho de estúdio, com novas versões de 13  temas clássicos e um inédito, instrumental, que encerra o disco, “Sierra’s Theme”. O álbum chama-se “Shadow Kingdom” e retoma as canções que tocou durante uma transmissão ao vivo com o mesmo nome, em streaming, no mês de Julho de 2021, em plena pandemia. Aos 82 anos Dylan voltou ao estúdio para retomar esses 13 temas da fase inicial da sua carreira, todos com versões bem diferentes, e que são:  “When I Paint My Masterpiece”, “Most Likely You Go Your Way (and I Go Mine), “Queen Jane Approximately”, “I’ll Be Your Baby Tonight”, “Just Like Tom Thumb’s Blues”, “Tombstone Blues”, “To Be Alone With You”, “What Was It You Wanted”, “Forever Young”, “Pledging My Time”, “The Wicked Messenger”, “Watching The River Flow”e “It’s All Over Now”. Trata-se do primeiro novo disco de estúdio de Dylan desde o aclamado “Rough And Rowdy Ways”, de 2020. O disco serve de banda sonora para o filme “Shadow Kingdom: The Early Songs Of Bob Dylan” e embora não exista indicação dos músicos participantes sabe-se que aqui estão alguns velhos companheiros de Dylan, como T Bone Burnett e Don Was. Como curiosidade diga-se que este é o único disco de Dylan em que ele interpreta as suas canções com um grupo de músicos que não inclui bateria nem percussão. As versões são bem diferentes dos originais, sente-se que refletem a experiência ganha em palco ao executá-las. O disco está nas plataformas de streaming, ouçam-no que irão ter uma boa surpresa. 

 

MAU - Das 24 freguesias da capital 16 já ultrapassaram o rácio de alojamentos locais em relação a fogos de habitação permanente.

 

BOM - A Câmara Municipal de Lisboa suspendeu a atribuição de novas licenças de alojamento local no Beato. 

 

DIXIT - “O problema da direita em Portugal é não saber o que é. A esquerda sabe o que é, e sabe o que quer, mas a direita não sabe o que é (…) a direita, em Portugal, não tem um programa. Medidas, talvez; ideias, poucas; visão: zero” - Martinho Lucas Pires em oestrangeiro.blog 

 

BACK TO BASICS - “De uma escorregadela a andar pode recuperar-se depressa, mas de uma escorregadela a falar muitas vezes não se recupera” - Benjamin Franklin.

 

 

 



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UM GOVERNO OPACO E FALSO

por falcao, em 02.06.23

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SEGREDINHOS - Desde há meses que o Primeiro Ministro repete que o seu objectivo é todo o apuramento da verdade, doa a quem doer e custe o que custar. Já o repetiu e, na semana passada, no Parlamento, jurou estar disponível para responder a tudo onde quer que seja questionado. Independentemente de logo ali, na tribuna da Assembleia da República, se ter esquivado a responder às contradições da actuação do Governo no caso do SIS, o mais espantoso é que quase ao mesmo tempo em que Costa proclama disponibilidade, o PS, partido de que o Primeiro Ministro é Secretário-Geral, recusou todas as perguntas em sede parlamentar e inviabilizou a própria inquirição de António Costa, usando o peso da sua abusadora maioria absoluta para manter os segredinhos. Temos portanto um António Costa do Governo que se diz disponível e um António Costa de um PS que diz que ele está indisponível. Será isto um caso de dupla personalidade? Ao mesmo tempo o Secretário de Estado adjunto de Costa,  Mendonça Mendes, que é quem o PS quer impedir que seja ouvido e diga o que se passou na noite das facas longas do SIS, conta já, entre ele e o primeiro ministro, com 28 recusas de resposta a perguntas sobre o caso no espaço de uma semana. É obra e deve estar a entrar para o Guinness. Quando achamos que a degradação do sistema político já atingiu o ponto mais baixo, há sempre alguma coisa que nos espanta ainda mais. A metódica e preparada ocultação da verdade é das piores coisas que esta maioria absoluta faz. Bem pode Costa pregar que quer que se saiba toda a verdade, mas enquanto o diz, esconde com afinco o que ajudaria a perceber o que de facto se passou.

 

SEMANADA - Segundo a Marktest, entre 2018 e 2022, o número de pessoas que utilizam a internet com mais de  65 aumentou 20% e representa agora 41% dessa faixa etária; segundo o mesmo estudo, nas pessoas entre os 15 e os 24 anos e entre os 25 e os 34 anos, a percentagem de acesso atinge o pleno, 100% e entre os 45 e 64 anos, os valores de acesso são de 84%; a taxa turística rendeu 21,4 milhões de euros de receita aos 13 municípios que já a aplicam nos primeiros quatro meses deste ano; os turistas norte-americanos já são os principais clientes dos hotéis de Lisboa; António Costa pediu mudanças em 15 dos 20 componentes do PRR para tentar cobrir falhas e dar mais um ponto percentual ao PIB; dos 18 ministros empossados há 14 meses após a vitória eleitoral do PS, apenas cinco não estiveram envolvidos em casos polémicos; 255 mil pessoas têm segundo emprego, o número mais alto dos últimos anos, segundo o INE; em Portugal 210 mil pessoas acima dos 65 anos continuam a trabalhar; de acordo com dados da Autoridade Tributária  53% das famílias portuguesas vive com menos de 964 euros por mês, e, dentro destas, 1/3 vive com menos de 714€/mês; de acordo com a Segurança Social 67% dos pensionistas têm pensões de reforma abaixo de 443 euros  e 82% têm pensões de reforma que não ultrapassam os 665€;  os portugueses têm um esforço fiscal  de 32%, acima da média europeia e temos o quarto pior valor da UE; na última década 15% dos empregos criados são da responsabilidade de novas empresas entretanto surgidas; o Presidente da República só soube da intervenção das secretas no caso do Ministério das Infraestruturas ao fim de três dias; a direcção executiva do Serviço Nacional de Saúde trabalha há oito meses sem ter regras de funcionamento aprovadas.

 

O ARCO DA VELHA - Três fiscais da EMEL espancaram um condutor que estava mal estacionado, pontapeando-o no chão e ferindo-o em plena Avenida da República.

 

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ENIGMA E SUBVERSÃO - Uma das melhores exposições deste ano está no MAAT /Central Tejo e é “Hello Are You There?”, de Luísa Cunha. Trata-se da maior retrospectiva da obra de Luísa Cunha, produzida na sequência da atribuição do Grande Prémio Fundação EDP Arte 2021. Com mais de meia centena de obras, e curadoria de Isabel Carlos, a exposição (na imagem) abrange peças sonoras, vídeo, desenho, pintura e escultura. Na exposição estão algumas das marcas autorais de Luísa Cunha como a colocação de peças em espaços inusitados, meios minimalistas e o uso da própria voz e da palavra como matéria plástica, com um sentido de humor desarmante. É uma exposição que tanto é para ser vista como escutada, sentida, descoberta. Vai estar no MAAT até 28 de Agosto e é uma oportunidade única de descobrir a obra de Luísa Cunha “um universo artístico intrigante, enigmático e subversivo”, nas palavras de Isabel Carlos. Ao mesmo tempo foi lançado o mais completo catálogo da obra da artista até à data. “Luisa Cunha. Obras / Works 1992–2022” que abarca ao longo de duas centenas de páginas um total de 108 obras  e dois ensaios originais, uma da autoria de Isabel Carlos,  e outro de Joshua Decter, escritor, curador e historiador de arte norte-americano. Mais exposições a não perder por estes dias: a série de desenhos e a instalação “Poems For Tourists” de Pedro Barateiro, até 29 de Julho na Galeria Filomena Soares; o trabalho de “Plan American” de Rodrigo Oliveira na Galeria Balcony até 8 de Julho; “Looking for Eden” de Daniela Krtsch e “tre-due-no” de Joana Rebelo de Andrade na Galeria Belo Galsterer, até 21 de Julho; a instalação “São Dinis de Paris?, de Rui Sanches, na Galeria da Casa A. Molder;  e deixo para o fim uma exposição a que regressarei na próxima semana, “Before Breakfast”, de Matt Mullican, que fica na Galeria Cristina Guerra até 17 de Junho.

 

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DIÁRIO DE GUERRA - Ernst Jünger é um dos grandes nomes da literatura alemã, nasceu no final do século XIX, fez uma carreira militar e integrou o exército alemão na Primeira e Segunda Guerra mundiais, tendo estado ligado aos conjurados do atentado de 1944 contra Hitler. Nos seus diários manifestou desprezo pelos nazis e vergonha pelas estrelas amarelas impostas aos judeus. “Tempestades de Aço”, que agora é publicado pela primeira vez em Portugal, combina ficção e notas dos diários do autor nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial. Descrições realistas da guerra, um hino ao heroísmo e elegia do sofrimento no campo de batalha são os ingredientes deste livro. Jünger, evoca e revive, com objectividade e sem condescendência, os aterradores combates que os soldados viveram na Frente Ocidental, de Janeiro de 1915 a Agosto de 1918. O que distingue este dos outros livros de guerra é a sua chocante violência: a guerra surge como coisa objectiva, independente de qualquer inimizade pessoal, um território de terror. Num tempo em que a Europa vive novo conflito armado, pela escrita do soldado alemão Jünger, entramos nas trincheiras, tombamos nos buracos dos morteiros, debaixo de fogo de artilharia. E, no meio disto, descreve o contraste: «A coisa estranha é que as avezinhas na floresta pareciam imperturbáveis pela miríade de explosões; estavam tranquilamente pousadas na ramagem despedaçada, por cima das espessas nuvens de fumo. Nos curtos intervalos do tiroteio, podíamos ouvi-las cantar alegre ou ardentemente, como se inspiradas ou até encorajadas pelo aterrador barulho de todos os lados.» A tradução é de Maria José Segismundo dos Santos e a edição é da Guerra & Paz.

 

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SILÊNCIOS -   Paul Simon tem 81 anos e desde há seis décadas é uma referência da música popular. Tudo começou quando em 1964, juntamente com Art Garfunkel, gravou a canção “The Sounds Of Silence” no seu álbum de estreia. Agora, depois de ter anunciado há meses que iria parar a sua actividade musical, edita um disco que é, de novo, uma busca pelo efeito do silêncio na música. O disco chama-se “Seven Psalms” e é composto por uma faixa única de 33 minutos, dividida em sete partes. O título do disco tem a ver com os salmos bíblicos do Rei David, algo que Paul Simon afirma ter descoberto recentemente. O primeiro dos momentos do disco chama - se “The Lord” e o derradeiro “Wait” e o álbum é mais uma incursão pelo universo da espiritualidade que foi sempre presente ao longo da sua obra - apesar de ele proclamar não saber se é, ou não, crente. Algures no disco Paul Simon canta:“I lived a life of pleasant sorrows until the real deal came.” E este assunto, passará por ser a fé - que relata no momento final, “Wait” cantado em dueto com Edie Brickell, com quem está casado há mais de 30 anos.  “My hand’s steady/My mind’s still clear/ I hear the ghost songs I own/Jumpin’, jivin’, and moanin’ through a heartbroken microphone. - canta Simon a meio do disco. Todo o trabalho é maioritariamente feito apenas com a voz de Paul Simon e sua guitarra, pontualmente com a presença de outros instrumentos como a harmónica, ou de vozes de um coro e a de Edie Brickell. A voz de Simon, às vezes um sussurro, é bem descrita num dos seus salmos, “My Professional Opinion”, uma faixa inspirada nos blues, onde ele canta “What in the world are we whispering for?”

 

SALADA ROSADA - Desta vez fui apenas o observador e provador, com gosto, de uma salada fria, boa para o verão, preparada pelo outro lado da mesa. Trata-se de um prato onde o bacalhau e a beterraba são os principais protagonistas, coadjuvados pelo aipo e a quinoa. O primeiro passo é cozer dois bons lombos de bacalhau e reservar a água da cozedura - que vai servir para cozinhar uma chávena de chá de quinoa - seguindo as instruções de cozedura. O segundo passo é desfiar o bacalhau, tendo o cuidado de tirar bem a pele e as espinhas. Entretanto aproveite para escorrer a quinoa e deixar repousar. O passo seguinte é ralar uma beterraba, das que se vendem já cozidas, e numa taça larga misturar a quinoa escorrida, a beterraba ralada e o bacalhau desfiado. Regue tudo com o sumo de um limão e misture bem. A seguir pique dois ou três talos de aipo, lavados e crus, adicione aos restantes ingredientes e volte a misturar, temperando com azeite de boa qualidade, sal e pimenta. No final coloque por cima hortelã fresca e sirva. Um rosé seco e fresco acompanha bem, na cor e na conjugação de aromas, esta salada invulgar que, nas quantidades indicadas, dá bem para seis pessoas.

 

BOM - Nas eleições europeias de 2024 os cidadãos vão poder escolher onde votar e saber as mesas sem filas.

MAU - A Segurança Social de Braga tem dificultado o apoio terapêutico a crianças com necessidades especiais.

DIXIT - “Não cabe ao Presidente da República pronunciar-se sobre a oposição” - Rui Rocha, Presidente da Iniciativa Liberal

BACK TO BASICS - “Quando acharmos que estamos ao lado da maioria, chegou o tempo de pensar em reformarmo-nos” - Mark Twain




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