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REENTRADA  - Daqui a pouco tempo o espírito de férias na política desvaneceu-se: acabam as fotografias dos políticos à beira mar, a comer bolas de berlim ou simplesmente a passear no areal. Imagino que para alguns jornalistas seja um alívio deixar de perseguir notícias e reacções, de microfone em punho, eles razoavelmente vestidos, os entrevistados bastante despidos, em dias quentes, com o oceano como cenário de fundo. Este ano o ridículo da caça à notícia no meio da praia excedeu tudo o que é razoável. Até parece que alguns políticos, nos mais elevados cargos, não tiraram férias, apenas mudaram o cenário das conferências de imprensa. A coisa não correu bem - a política pode ser informal mas quando se vulgariza perde dignidade. Quando tudo se banaliza deixa de haver notícia, passa apenas a fazer-se o relato de ocorrências e tudo se consome de forma apressada como as páginas das antigas gazetas sobre casos de polícia, casamentos e necrologia. Passar as divergências e o confronto cada vez maior entre Governo e Presidente da República para o areal equivale a transformar Parlamento e Palácio de Belém em castelos de areia. A ver vamos como corre a reentrada política entre as eleições regionais da Madeira no final de Setembro, a preparação do Orçamento de Estado - com o cenário de reduções de impostos no horizonte - e a actuação de um Governo de maioria absoluta que bem precisa de um impulso reformista e de uma remodelação. Estes dois pontos, no entanto, dependem de uma única pessoa: António Costa. Que legado quererá ele deixar? Manter Portugal na cauda da Europa? Destruir a classe média? E como é que os próximos meses vão impactar nas guerras internas do PS pela sucessão do líder actual? Vão ser uns meses curiosos de seguir.

 

SEMANADA -  Nesta sessão legislativa o PS chumbou 74 pedidos de audição parlamentar a ministros, 11 deles a Medina; Portugal é o oitavo país da União Europeia onde o IVA mais pesa; desde que António Costa é primeiro-ministro a receita fiscal aumentou 25 mil milhões de euros; Portugal já recebeu quase um terço dos 16,6 mil milhões previstos no PRR, ou seja um pouco mais de 5,5 mil milhões, mas até agora só pagou menos de metade  a projectos apresentados, 2,4 mil milhões; Portugal perdeu num ano 200 explorações agrícolas e os agricultores com menos de 40 anos são menos de 4% do total; no ano passado as Forças Armadas perderam 7,2% dos efectivos e faltam 7732 militares, havendo actualmente 1,7 oficiais e sargentos por cada praça; mais de metade dos portugueses até aos 34 anos vive com os pais; a prestação média do crédito à habitação subiu 40% entre julho do ano passado e o mesmo mês deste ano; o primeiro semestre de 2023 teve mais nascimentos e menos mortes que no período homólogo de 2022; a corrupção no Ministério da Defesa terá lesado o Estado em pelo menos um milhão de euros e o Ministério Público acusou 73 pessoas e empresas; o número de desempregados aumentou cerca de 2,5% no final de julho, face ao período homólogo, e a maior subida deu-se na região Centro, com um agravamento de 8,7%; o aumento dos juros dos empréstimos de habitação está a levar os portugueses a diminuir despesas correntes e, segundo uma sondagem recente, as maiores reduções foram em restaurantes, férias e roupa; os contratos a termo representavam 13,2% dos postos de trabalho na Administração Central no final de 2015, altura do início da governação do PS de António Costa e em junho deste ano, esse número atingia os 15,2%, o que signfica um aumento do trabalho precário no Estado sob a governação da geringonça e PS.

 

 O ARCO DA VELHA - No serviço nacional de saúde ainda há aparelhos de radiologia antigos, que trabalham com película, cada vez mais escassa no mercado desde a conversão ao digital, impossibilitando a realização de muitos exames.

 

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O HOMEM DA VITÓRIA - Churchill é uma das personalidades políticas mais conhecidas e estimadas graças ao papel que teve no combate aos nazis e na defesa da democracia no Reino Unido e na Europa. Mas como foi a vida de Churchill fora do período da segunda grande guerra? Onde estava ele antes e o que já tinha feito? E no fim da guerra, que aconteceu? Em menos de centena e meia de páginas Sophie Doudet, uma autora de romances históricos e de biografias, escreveu de forma divertida sobre a vida de Churchill. O livro chama-se “Churchill na praia - o velho leão na toalha e na areia”.  A autora consegue oferecer ao grande público, com base em elementos biográficos, e de forma rigorosa e acessível, o relato da extraordinária carreira deste homem, considerado um visionário e um dos grandes nomes da História do século XX. Pode ler excertos dos seus grandes discursos, a forma como tomou decisões geniais e também um relato do que foram as suas maiores fraquezas. O livro descreve como Churchill foi um conquistador e um herói, cujo espírito combativo e o desejo de fazer História mudaram o mundo, popularizando o seu gesto de dois dedos a fazerem o V da vitória dos aliados sobre os nazis. Célebre primeiro-ministro de Inglaterra no momento mais crítico da História, os dias sombrios da II Guerra Mundial, deixou ainda a sua marca como jornalista, militar, historiador, Prémio Nobel da Literatura e, por fim, pintor até. Edição Guerra & Paz.

 

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CESARINY - Em Alfama, na Rua das Escolas Gerais, existe uma galeria de arte que se tem dedicado aos surrealistas portugueses, construindo uma importante colecção de artistas portugueses ligados a esse movimento. A Perve Galeria teve há cerca de uma década a iniciativa de, mesmo junto às suas instalações, criar um espaço a que deu o  nome de “Casa da Liberdade”, dedicado à obra de Mário Cesariny, cuja fase inicial foi ainda acompanhada na vida do artista. Agora, assinalando o centenário de nascimento de Mário Cesariny de Vasconcelos (1923-2006), a  Casa da Liberdade e a Perve Galeria apresentam “Primeira Pessoa” e “... e os seus contemporâneos”, duas exposições que celebram a extraordinária vida e o profundo legado daquele que é uma das personalidades maiores das artes e da poesia em Portugal. Na Casa da Liberdade está o núcleo “Primeira Pessoa”, mostrando o seu universo criativo sem barreiras e livre. A  exposição, entre uma parte significativa de material inédito, apresenta centenas de documentos, fotografias, textos e obras de arte (na imagem), de Cesariny e de vários autores seus contemporâneos e mostra, pela primeira vez, um núcleo de obras e documentação das décadas de 1940 e 1950, proveniente do recém-doado espólio de João Artur da Silva.  No espaço da Perve Galeria são destacadas as relações estabelecidas entre Mário Cesariny “... e os seus contemporâneos” de várias décadas, apresentando perto de duzentas obras de artistas nacionais e internacionais, muitos deles tendo coincidindo com o autor nas múltiplas exposições em que participou entre 2000 e 2006. A exposição, através, da apresentação de correspondência, fotografias e obras visuais podem ser vistas as colaborações de Cesariny com surrealistas portugueses e internacionais, e a sua relação crítica com alguma da tradição nacional. As duas exposições, que ficarão abertas até 26 de Novembro, têm curadoria de Carlos Cabral Nunes, director da Perve Galeria, que começou a trabalhar com Cesariny em 2020, até à sua morte seis anos mais tarde. Rua das Escolas Gerais 13, 17 e 19.

 

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UM DISCO INESPERADO - Incorporar a tradição da música negra dos Estados Unidos com a folk e a country norte-americanos é um desafio conseguido por Rhiannon Giddens, uma contadora de histórias com uma interpretação vocal e instrumental muito próprias. Virtuosa e eclética, Giddens tem percorrido vários estilos até chegar a este seu primeiro álbum de originais que ela própria compôs, “You’re The One” . São muitas as influências musicais que se encontram ao longo dos 12 temas do álbum desde sonoridades zydeco da música Cajun de “You Louisiana Man”, os blues com influência country em “Way Over Yonder” (escrita em parceria com Keb’Mo), a percussão forte a acompanhar palavras certeiras em “Hen In The Foxhouse”, o tom  soul envolvente de “Who Are You Dreaming Of”, o jazzy de “You Put The Sugar In My Bowl” e a energia contagiante de “Wrong Kind Of Right” ou de “Yet To Be” num dueto imparável com Jason Isbell, dos 400 Unit, o relato de uma história de amor entre uma mulher negra e um homem irlandês. Dois destaques mais - para “You’re The One”, que dá o título ao álbum e à faixa final, a divertida e contagiante “Good Ol’ Cider”. Um disco absolutamente irresistível. Só para terem uma ideia da versatilidade de Giddens, em 2019 ela gravou, com o músico de jazz Francesco Turizzi o álbum “There Is No Other”, por onde passam evocações de ópera, bluegrass, gospel e músicas tradicionais americanas. Mas este novo “You’re The One” mostra bem, além da versatilidade e virtuosismo, o seu talento de compositora. Disponível nas plataformas de streaming.

 

PETISCARIA ENTRE MURALHAS  - E se ao fim da tarde rumasse a um castelo, se sentasse numa esplanada que de um lado permite vislumbrar Lisboa e do outro a foz do Sado e o mar? O sítio existe e é o Castelo de Palmela. Lá em cima, entre muralhas e ameias, fica O Bobo da Corte, bar e restaurante de petiscos, aberto ao almoço de quarta a domingo e nas noites de sexta e sábado. A casa é uma petiscaria, e não pretende ser mais que isso, mas usa boa matéria prima: queijo de azeitão, pão da região, chouriço assado cortado em rodelas finas, pasta de atum regular e pasta de farinheira superior. Pode pedir uma tábua de presunto e queijos, uma espetada de enchidos ou uma alheira de caça e convém sempre ver qual o prato do dia. Boas opções são o pica-pau, bem temperado e com boa carne e o frango à passarinho, acompanhado de batata doce frita às rodelas. Numa visita recente foi também provado um bom aveludado de melão com hortelã. O vinho da casa, em jarro, tinto ou branco, é honesto e da região e há sangria - que pode ser de moscatel, a pedido. O largo frente à esplanada convida a passear de copo na mão no intervalo dos petiscos. O local é muito procurado por grupos em festa, por isso se quiser ir na noite de sexta ou sábado convém fazer a reserva com antecedência. O Bobo da Corte, Castelo de Palmela, telefone 935 205 936.

 

DIXIT - “Toda a gente sabe que pelo menos meia dúzia de ministros e mais ainda secretários de Estado não estão à altura”- António Barreto

 

BACK TO BASICS - “Um bom livro diz-nos a verdade sobre os personagens, um mau livro mostra-nos a verdade sobre o seu autor” - G.K Chesterton




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SOBRE A PROPAGANDA E A REALIDADE

por falcao, em 18.08.23

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PALAVRAS DE ORDEM - Em 1974, logo a seguir ao 25 de Abril, as palavras de ordem mais enunciadas eram “pão”, “saúde”, “educação” e “habitação” - e , também, “paz”, relativamente à guerra colonial.  Hoje, em vez de paz, devia reivindicar-se melhor justiça, um dos cancros da nossa sociedade. O pão, a saúde, a educação e a habitação resumem aquilo que é a aspiração natural a uma vida melhor e mais digna. De uma forma ou outra, ao longo destes 49 anos, todos os partidos têm incluído nos seus programas eleitorais estas aspirações - mas muito está ainda por fazer. António Costa percebeu que a chave para conseguir vencer estava em garantir melhores salários, mas como o dinheiro não dá para tudo, ao mesmo tempo lançou mais taxas e impostos. Na realidade Costa aproveitou as medidas de austeridade provocadas pelo descalabro da governação de Sócrates e exigidas pela troika, para nalguns casos ir ainda mais além, com o seu eterno sorriso bonacheirão. E assim conseguiu receitas fiscais nunca antes vistas, o que lhe permitiu folga orçamental. Injectou dinheiro no sistema de Saúde, mas não melhorou a sua gestão e é claro que a ruptura começa a ficar à vista. O mesmo se passa na educação - com os professores a reclamarem a recuperação do poder de compra que tinham há alguns anos. De uma forma geral Costa seguiu o princípio de aumentar o salário mínimo e as pensões e de não mexer no resto. O resultado foi mais uma cacetada na classe média, que já vinha bem combalida dos anos anteriores e que tem empobrecido nas últimas duas décadas. Se a saúde e a educação são casos de má gestão, a questão da habitação é mais delicada. Centrando a recuperação da economia no turismo, o Governo abriu as portas à especulação imobiliária e à gentrificação das cidades.  A questão volta sempre ao mesmo ponto: como fazer crescer a economia e garantir melhor qualidade de vida às pessoas? Não é com impostos altos sobre o trabalho e sobre a actividade das empresas que isso se consegue. As pessoas gostariam que a oposição explicasse como alcançar aquilo que Costa prometeu e não alcançou: maior qualidade de vida para os portugueses. Resta saber se a oposição que temos consegue fazê-lo. Depois dos primeiros ecos da rentrée política, tenho as maiores dúvidas.

 

SEMANADA - Os aumentos salariais verificados nos últimos dois anos ainda não compensam a subida de preços verificada no mesmo espaço de tempo; as exportações de alta tecnologia portuguesa atingiram em 2022 o valor mais alto desde 2013; o valor total das exportações portuguesas caíu em Junho pelo terceiro mês consecutivo; no total, entre janeiro e junho, os visitantes estrangeiros gastaram em Portugal cerca de três mil milhões de euros, mais 31,3% face ao ano anterior; em Junho o sector do alojamento turístico registou 2,9 milhões de hóspedes e 7,4 milhões de dormidas correspondendo a 622,1 milhões de euros de receita, mais 14% que no mesmo mês do ano anterior; segundo o INE os não nacionais representam 70% das receitas do Turismo e gastaram mais de dois mil milhões de euros no primeiro semestre; até final de Junho os aeroportos portugueses registaram 31 milhões de passageiros, um aumento de 28,4% face ao ano anterior; a economia paralela atingiu em 2022 um novo recorde histórico alcançando 34% do PIB e especialistas fiscais indicam que a carga fiscal alta é a principal razão; a violência doméstica já fez 12 mortes este ano; nos últimos cinco anos 154 menores mudaram de nome e de género; quase 17% dos bebés nascidos em Portugal em 2022 são filhos de mães estrangeiras; quase 20% das freguesias do país estão a ficar despovoadas, com popuação envelhecida e sem oportunidades de trabalho para os  mais novos; num ano Portugal perdeu 128 mil trabalhadores com ensino superior e o aumento de emprego no segundo trimestre deste ano foi feito com trabalhadores menos qualificados.

 

O ARCO DA VELHA - Portugal foi o único país da União Europeia que aumentou o custo do registo de patentes de invenções e inovações industriais.

 

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PINTURA, DESENHO E FOTOGRAFIA  - Se estiver em Chaves não perca a exposição de Pedro Calapez, no Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso. Intitulada “Deste Espaço Luminoso e Obscuro”,  tem curadoria de Joana Valsassina e apresenta até 28 de Janeiro, um conjunto de obras de Pedro Calapez da colecção de Serralves e da colecção do artista, mostrando a relação entre a pintura e o desenho, desde final da década de 70 (na imagem). Neste sábado 19 decorre uma visita orientada pelo próprio artista e pelo historiador de arte e curador Oscar Faria. Outros destaques: dia 19 de Agosto assinala-se o Dia Mundial da Fotografia e o Centro Português de Fotografia, no Porto, inaugura “Mãe d´Água", a partir de imagens da sua colecção. E no Carvalhal, no âmbito das primeiras iniciativas da Terra Foundation, lançada por Guta Moura Guedes, pode ver o projecto fotográfico “O Dia Abre Os Meus Olhos”, resultante de uma residência do fotógrafo Rafael de Oliveira e da sua visão do ecossistema  da região da Comporta, com curadoria de José Cabaço. Ao todo são apresentadas 345 fotografias em formato postal e 24 nos tamanhos A1 e A2. A exposição, com uma bem pensada montagem, decorre no espaço de um antigo café, na Avenida 18 de Dezembro nº5, no Carvalhal, até 27 de Agosto.

 

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PERGUNTAS DIFÍCEIS - Sou fascinado por pessoas que conseguem transmitir conhecimentos complexos de forma fácil. Por cá temos entre outros,  Carlos Fiolhais e  Jorge Calado. Saber comunicar bem temas científicos é importante e Sabine Hossenfelder, uma cientista, na área da Física, investigadora no Instituto de Estudos Avançados de Frankfurt, sabe fazê-lo. O seu novo livro, “A Física E As Grandes Questões da Vida” é disso um bom exemplo. Ela coloca perguntas como: “Existem cópias de nós mesmos? O Universo pensa? A consciência é computável? Afinal, qual é o propósito do que quer que seja?”.  “A Física e as Grandes Questões da Vida” baseia-se nas mais recentes pesquisas em mecânica quântica, buracos negros, teoria das cordas e física de partículas e Sabine Hossenfelder explica o que a física moderna nos pode dizer acerca das grandes questões da humanidade: De onde viemos? Para onde vamos? O que está ao nosso alcance conhecermos?  O  livro inclui entrevistas com outros cientistas de renome e Sabine Hossenfelder mostra o caminho que falta percorrer para que os físicos consigam responder àquelas questões, indica os limites atuais do conhecimento e aponta as perguntas que podem ficar sem resposta para sempre. «Sim, somos uns sacos de átomos rastejando sobre um ponto azul-pálido no braço espiral externo de uma galáxia notavelmente pouco digna de nota. E ainda assim, somos muito mais do que isso.» Fascinante, sobretudo por um apaixonado por física, como eu.

 

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GUITARRA MÁGICA -  Pat Metheny agarrou em algumas gravações suas a solo, dispersas e inéditas, efetuadas nos intervalos de uma série de digressões, em quartos de hotel, ou durante ensaios. A partir daí fez um novo álbum, intitulado  “Dream Box”. Aos 68 anos Pat Metheny continua uma referência para todos que gostam de ouvir uma guitarra tocada a solo e aqui ao longo de quase uma hora estão nove temas que mostram a capacidade criativa do músico, que apresenta versões de clássicos como “Never Was Love”, expurgando-os das palavras que integravam as canções e deixando só a voz da guitarra eléctrica. O disco combina versões de canções, de standards de jazz, mas também novas composições que lhe surgiam no momento em torno de melodias que ía construindo. Metheny é sempre surpreendente pelos caminhos que escolhe e este disco permite perceber o seu processo criativo. Aqui está um álbum que nasceu por acaso, a partir de retalhos, improvisações, devaneios melódicos tardios. Cruzam-se géneros, como a evocação das sonoridades dos blues em “From The Mountains” ou da bossa nova em “Morning Of The Carnival”, um clássico de 1959, composto por Luis Bonfá e António Maria e que se tornou popular por exemplo nas versões de Astrud Gilberto e de  Nara Leão e de músicos de jazz como Gerry Mulligan. Mas esta interpretação de Metheny é ao mesmo tempo saudosista e inovadora. O disco está disponível nas plataformas de streaming.

 

EXPERIÊNCIA SADINA - Uma das coisas que qualquer restaurante deseja é ser reconhecido. Se o reconhecimento vier do BIB Gourmand, o patamar de entrada na constelação das estrelas do Guia Michelin, melhor ainda. Há uns anos atrás Rute Marques decidiu que o seu objectivo era criar um restaurante diferente em Setúbal e inventou o Xtoria. Chamou para o seu lado um jovem Chef, Rafael Portasio, que já tinha experiência em alguns bons restaurantes. Localizado em Setúbal, junto ao Porto de Pesca, o Xtoria é referenciado na lista do  BIB Gourmand de Portugal pelo segundo ano consecutivo. Nota-se o empenho do proprietário, do Chef, e da equipa de sala em seguir à risca os preceitos que são capazes de seduzir o célebre guia, desde a atenção aos produtos locais, a novas técnicas gastronómicas. A decoração é confortável, o serviço é exemplar, os preços são honestos e há até um menu de almoço simpático. No menu normal, nas entradas deixei para uma próxima visita as moelas glaciadas com sésamo e aneto e as enguias fritas de Alcácer. Mas a minha escolha foi para as ostras da região - que podem vir ao natural ou criativas, estas temperadas ao sabor da inspiração do Chef no momento. Arrependi-me de não ter escolhido as ostras ao natural. Na lista há peixe da lota de Setúbal e um  bacalhau em tempura mas eu fiquei  pelas lulas recheadas com arroz, cogumelos, toucinho e coentros. Não me arrependi. Nas carnes havia pato em brioche e vaca Mertolenga. Do outro lado da mesa a opção foi por duas entradas: a primeira foi choco, ponzu, batata negra, maionese de Sriracha, e caviar de lumpo, que foi apreciada. A seguir veio ovo panado com creme de ervilhas e hortelã pimenta, espargos marinados, e chouriço frito. A sobremesa, dividida, e que agradou, foi cremoso de cardamomo com cookie de gengibre. A acompanhar o repasto uma vinho surpreendente, pela relação qualidade-preço, o branco da Quinta da Invejosa, de Palmela, feito a partir das castas Fernão Pires e Verdelho. O Xtoria fica na Rua Guilherme Gomes Fernandes 17, Setúbal,  telefone 961284144.

 

DIXIT - “Portugal não pode ser só o país das casas para estrangeiros e dos hotéis para turistas” - Sónia Sapage.

 

BACK TO BASICS - “Tenham sempre presente que querer obter sucesso é mais importante que qualquer outra coisa para efectivamente terem êxito” - Abraham Lincoln.



 



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PARA MEMÓRIA FUTURA - Como a memória é curta convém recordar como as coisas se passaram. As eleições autárquicas foram há menos de dois anos e quando Carlos Moedas iniciou funções o novo executivo da Câmara Municipal de Lisboa percebeu que a preparação das Jornadas Mundiais da Juventude estava muito atrasada. Em Julho de 2021 António Costa tinha nomeado José Sá Fernandes  para coordenar o grupo de projeto que iria assegurar o acompanhamento dos trabalhos de preparação das Jornadas Mundiais da Juventude. Sá Fernandes teve desde a derrota do PS na autarquia lisboeta uma relação difícil com o novo executivo e era patente que o trabalho que tinha entre mãos andava mal e devagar, a passo de caracol. No final de Janeiro deste ano, face aos atrasos e divergências e com o risco de o evento ter sérios problemas, Carlos Moedas decidiu que a CML passaria a articular directamente com a Igreja a organização, excluindo Sá Fernandes do processo. Nessa altura, Filipe Anacoreta Correia, vice-presidente da autarquia lisboeta com a responsabilidade executiva do evento, afirmou que a Câmara não aceitava mais “pretensos coordenadores que não fazem nada e que não ajudam a resolver nada” e que iria tomar o processo em mãos, a seis meses do evento. Na altura , face aos atrasos verificados, parecia impossível. Mas a verdade é que a equipa montada pela autarquia lisboeta, em conjugação com outras autarquias e a Igreja, conseguiu ter tudo pronto, para além até dos planos iniciais, em termos de localização das várias acções. O papel de Sá Fernandes acabou por ser quase nulo. Foi por isso com espanto que se assistiu, a seguir à JMJ, a uma entrevista a Sá Fernandes, na SIC, em que ele se apresentava como o grande obreiro de tudo e mais alguma coisa. Se dúvidas houvesse, depois do onanismo verbal praticado na televisão sobre a JMJ, ficou provado que José Sá Fernandes é das mais desprezíveis figuras da política portuguesa, um lunático encartado com um umbigo descomunal e vendas nos olhos que só lhe permitem ver numa direção. A realidade, para memória futura, é que sem o trabalho de autarcas como Carlos Moedas a festa tinha corrido mal, de atrasada e desorganizada que estava. Verdade seja dita que as culpas do que estava mal não eram só de Sá Fernandes - quem o escolheu, António Costa tem também culpas no cartório - foi mais uma má escolha na sucessão de más escolhas que tem caracterizado a sua acção como Primeiro Ministro.


SEMANADA - Os  pedidos de asilo em Portugal aumentaram 30% no ano passado; desde 2011 foram destruídos 89 mil ninhos de vespa asiática em Portugal; há 30 mil crianças estrangeiras inscritas para entrar no primeiro ciclo e no ensino pré escolar; só este ano cerca de sete mil cabo-verdianos já pediram vistos de longa duração para Portugal; o número de pessoas singulares e colectivas que pediram insolvência na primeira metade de 2023 subiu 19,2% face ao período homólogo de 2022, num total de 2482; a linha nacional de Emergência Social recebeu 2372 pedidos de ajuda por perda de habitação nos primeiros seis meses deste ano; taxas e multas cobradas no primeiro semestre somam recorde de dois mil milhões de euros, um aumento de 11% em relação ao mesmo período do ano passado; os preços dos quartos para estudantes em Lisboa aumentam 19%; a taxa de desemprego jovem em Portugal é de 17,2%, acima da média de desemprego móvel na UE, que é de 14%; o salário dos jovens em Portugal é o segundo mais baixo da UE, logo atrás da Grécia; seis mil alunos de cursos superiores perderam este ano as suas bolsas de estudo por falta de aproveitamento; dos 230 deputados, 37 exercem cinco ou mais cargos além do mandato parlamentar na Assembelia da República e desses, 34 são do PS e PSD; as salas de cinema portuguesas tiveram em Julho o melhor mês desde 2004, com um total de 1,7 milhões de espectadores e 10,5 milhões de euros de receita, um aumento de 64,5% em relação ao mesmo mês do ano passado; os canais generalistas e os de informação no cabo fizeram 278 horas de emissão sobre a JMJ; 

 

O ARCO DA VELHA - O programa Ferrovia 2020 , lançado por Pedro Nuno Santos, devia ter ficado concluído em 2021 mas a execução está atrasada e não há ainda previsão da conclusão dos trabalhos previstos nem do custo final das obras.

 

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UM CLÁSSICO EM LISBOA - Hoje sugiro uma visita ao Museu Nacional de Arte Antiga para visitar a obra convidada, neste caso pinturas de Albrecht Durer. O primeiro é um clássico do artista alemão, o retrato de Jakob Muffel, que foi presidente da cidade de Nuremberga, datado de 1526. A obra (na imagem) mostra como Durer foi um dos grandes retratistas do Renascimento e foi cedida ao MNAA até 24 de Setembro pela Gemaldegalerie de Berlim. O segundo retrato é do rosto de um português, desenhado por Durer em 1521,  que se supõe ser de  João Brandão, que era feitor português em Antuérpia. Outra sugestão é a exposição “Vita Prima, Santo António em Portugal”, que está no Museu da Cidade, Palácio Pimenta, até 31 de Dezembro. A exposição é uma viagem pela vida de Santo António enquanto jovem, durante o tempo em que viveu em Portugal antes de ingressar na Ordem dos Frades Menores e ter ido viver para França e Itália. Fora de Lisboa, a norte, “Poeta Chama Poeta”  é uma exposição realizada a partir de obras de Ana Hatherly da Coleção de Serralves,  que  fica até 1 de Outubro na Galeria Solar da Porta dos Figos - Casa do Artista, em Lamego. Por fim, se estiver nos Açores, pode visitar, na Galeria Fonseca Macedo, em Ponta Delgada (Rua Dr. Guilherme Poças Falcão) a exposição “1,2,3 O Prado Infinito” de João Miguel Ramos.

 

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UMA VIAGEM IMPRESSIONANTE - No final do século XIX, em 1887, Bernardo Pinheiro Correia de Melo, também conhecido por Conde de Arnoso, esteve durante nove meses em viagem, de Marselha até Pequim, no coração da China, onde se deslocara para a assinatura do tratado sobre a tutela portuguesa de Macau. Pelo meio visitou lugares do colonialismo europeu, do Mediterrâneo e de Suez, a Hong Kong ou a Singapura. O livro que escreveu com o relato dessa viagem levou o nome de “Jornadas Pelo Mundo”, publicado pela primeira vez em 1895. Bernardo Pinheiro Correia de Melo, mais conhecido por Conde de Arnoso, nasceu em Guimarães, em maio de 1855. Estudou matemáticas e engenharia, foi oficial do exército e secretário pessoal do rei D. Carlos, que lhe atribuiu o título em 1895. Membro dos Vencidos da Vida, como autor usou também o pseudónimo literário Bernardo Pindela (era filho do visconde de Pindela), publicou vários livros e deixou vasta colaboração na imprensa da época. Cito excertos da introdução de Francisco José Viegas à nova edição de “jornadas Pelo Mundo”: «O Conde de Arnoso devia ser também assim: um dos elegantes do reino, cultíssimo, afável, naïve, cheio de monde, de curiosidade, de uma toillete adequada, dos pecados da época e de vontade de literatura.» Podia ser uma personagem de Eça de Queirós, escreve também Francisco José Viegas: «Os seus olhos são os de um ocidental vagamente emprestado ao exotismo.» O relato desta grande viagem mostra como os portugueses de então viam o mundo, numa altura em que o conhecimento que as elites europeias tinham da China era quase nulo. Interessam-no as personagens notáveis, os negociadores, o cerimonial, os vasos de porcelana, os templos, a presença cristã portuguesa. Confrontado com o prodigioso passado da China (as termas do imperador Qianlong, os túmulos Ming ou a Grande Muralha) e com as vicissitudes que o Império do Meio atravessava na época, Arnoso nunca abandona o seu olhar cosmopolita, minucioso, chocado diante da penúria, atento aos pormenores, assombrado perante as ruínas ou a promessa do futuro. Edição da Quetzal, na colecção “Terra Incógnita”, com prefácio e notas de Francisco José Viegas. 

 

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A DANÇA DA BARBIE - A Rolling Stone diz que a banda sonora de “Barbie” é como uma noite numa discoteca em que a música não deixa ninguém parar e quem lá está não quer que a noite acabe. Nicki Minaj, Dua Lipa, Karol G, Lizzo, Billie Eilish, e vários outros estão nas 16 faixas que integram o CD com a banda sonora do filme que está a bater recordes de bilheteira e que em Portugal já teve mais de 500 mil espectadores nas salas de cinema. Com produção do veterano Mark Ronson, “Barbie - The Album” captura em música a história que o filme conta. Vejam bem: Ryan Gosling, uma das estrelas do filme,  canta “I’m Just Ken”, com arranjos e produção que parecem evocar Meat Loaf - um achado. Logo na primeira faixa, “Pink”, Lizzo começa por contar que gosta de acordar no seu mundo cor de rosa, mas reconhece que a vida é mais dura que os sonhos. E a seguir Dua Lipa canta “Dance The Night”, mais à frente Billie Eilish canta “What Was I Made For”. O álbum mistura temas inéditos com canções que evocam memórias e inclui estrelas pop já citadas como Dua Lipa e Lizzo, fenómenos globais como o cantor de reggaeton Karaol Gand ou o grupo feminino Fifty-Fifty e até Tame Impala, um grupo australiano meio psicadélico ou a cantora britânica Charli XCX. E, claro, não falta Sam Smith com o seu hino de dança “Man I Am”, uma pequena provocação no meio do álbum. Disponível nas plataformas de streaming.


PETISCO NO PÃO - Uma das minhas descobertas deste verão é a sanduíche de tomate. Vi a receita numa newsletter norte-americana e lancei mão da adaptação possível em Portugal. Comecei por procurar num comércio local tomate coração de boi bem maduro. Depois fui à procura de pão de crnteio de boa consistência. Tenho grande confiança no que é feito pelo Museu do Pão e que se vende já fatiado. A seguir peguei na minha maionese preferida e coloquei numa tigela duas colheres de sopa, que temperei com pimentão doce fumado, mexendo tudo muito bem. Barrei duas fatias de pão de centeio com esta maionese temperada e, depois, dispus as rodelas de tomate, não demasiado grossas, nem demasiado finas, por cima de uma das fatias. Temperei o tomate com uma pitada de sal, e algumas folhas de manjericão, tapei com a outra fatia de pão, cortei ao meio em dois pedaços. Entretanto para entrada tinha preparado uns figos pingo de mel, partidos ao meio e acompanhados por umas farripas de presunto. Juntei num tabuleiro os figos à sanduíche e sentei-me ao ar livre com um copo de cerveja bem fresca. Um petisco.

DIXIT - “Portugal não é bem um país, é uma sala de espera” - Ricardo Araújo Pereira.

BACK TO BASICS - “Não vale a pena ir por caminhos já percorridos, é preferível abrir um trilho novo e deixar uma marca” - Ralph Waldo Emerson




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SEM RÓTULOS  - A situação criada pelas eleições espanholas é um bom pretexto para pensarmos na necessidade de rever o modo como os maiores partidos fazem as suas alianças. Tradicionalmente o que acontece é que replicam blocos à esquerda e à direita, em vez de procurarem entendimentos que garantam estabilidade e possam permitir reformas profundas. Privilegiam a rivalidade à avaliação da competência. Ainda por cima, em nome de uma superioridade moral que há muito deixou de existir, a esquerda impõe regras de alianças à direita que ela própria rejeita. Ao maior partido da esquerda é permitido aliar-se com extremistas do seu lado político, alguns deles com uma história de desprezo pela democracia, mas qualquer aliança à direita é logo apelidada de pecado. Durante as eleições espanholas Alberto Feijóo, líder do Partido Popular, o mais votado no acto eleitoral, propôs a Pedro Sánchez que ambos procurassem uma plataforma comum de entendimento para o Governo, com uma larga base de apoio. Tal como Costa fez há uns anos por cá, Sánchez escolheu aliar-se a extremistas, incluindo partidos saídos de organizações terroristas e separatistas. O mais absurdo é que este comportamento da esquerda mostra que existe um esforço de apagamento de um facto: na Europa, nos últimos 50 anos, foram mortas mais pessoas por organizações que se reclamam de esquerda do que de qualquer outro espectro político. A instabilidade dos sistemas de rivalidade entre dois blocos não é só um problema da Europa. Nestes dias li notícia de criação, nos Estados Unidos, de um movimento que reflecte sobre a necessidade de criar plataformas de entendimento alargadas. O nome é bem achado, No Labels, Sem Rótulos numa tradução livre, mostrando logo que rejeitam catalogações. Inclui destacados membros do Partido Democrático e do Partido Repúblicano. O movimento já divulgou um manifesto e organizou e está a realizar debates em vários Estados. Está em cima da mesa a possibilidade de o No Labels se apresentar a actos eleitorais e uma sondagem feita por uma Universidade indica que um quinto dos eleitores registados votariam por um partido de ”fusão”, como o New York Times classifica o No Labels. No fundo, a proposta é colocar a competência das pessoas à frente das rivalidades partidárias e garantir uma alargada base de apoio. A mim parece-me uma boa ideia, até agora a melhor para que a Democracia recupere dinamismo e o sistema político e partidário se regenere. E isto seria um bom ponto de partida para a criação de um Think Tank, sem rótulos.

 

SEMANADA - Os juros variáveis do crédito à habitação subiram 80% para dois milhões de famílias; na última década uma em cada cinco casas construídas é para férias e outras utilizações que não habitação permanente;  um estudo da Pordata sobre os jovens portugueses entre os 15 e os 24 anos conclui que 95% deles vive com os pais (em 2004, eram 86%) e 60% tem um vínculo de trabalho precário; segundo o mesmo estudo, Portugal é o sétimo país da UE com maior desemprego jovem; as estimativas demográficas do INE para 2022 indicam que, em Portugal há 1 083 445 pessoas com idade entre os 15 e os 24 anos, 10.4% da população total; nos últimos 31 anos, Portugal perdeu 527 mil jovens nesta faixa etária, passando de um total de 1,6 milhões em 1991 para os atuais um milhão; apenas um terço dos 56% dos jovens entre os 14 e os 30 anos dizem-se religiosos,e apenas um terço é praticante; o número de candidatos ao ensino superior cresceu face ao ano passado; o número de reclamações dirigidas ao Ministério da Educação aumentou 285% entre janeiro e julho deste ano, em relação ao mesmo período de 2022; em termos médios 75% da prestação da casa são juros pagos aos bancos; os cinco maiores bancos lucraram onze milhões de euros por dia no primeiro semestre deste ano; o preço médio de venda da gasolina 95 simples em Portugal foi no segundo trimestre superior em 4,7 cêntimos por litro aos valores médios na UE; segundo a Netsonda, 98% dos portugueses estão sempre, ou quase sempre, atentos a descontos e promoções na compra de produtos alimentares em supermercados; a economia portuguesa estagnou no segundo trimestre face aos primeiros três meses do ano. 

 

O ARCO DA VELHA - Por dia há quase 900 multas por excesso de velocidade em Lisboa.

 

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A MAGIA DA PINTURA - Ruy Leitão , um artista precocemente desaparecido, ainda antes dos 30 anos, no final da década de 70 do século passado, deixou uma obra significativa. O Centro de Artes Manuel de Brito, que fica no nº 113 do Campo Grande, onde nasceu a Galeria 111, tem até final do ano uma exposição (na imagem) com dezenas das suas obras, que lhe é dedicada - “Ruy Leitão, Com Alegria”. Por ocasião de uma exposição realizada em 1994, Maria Filomena Molder escreveu estas palavras: “Encontramos nas suas obras, e justamente devido à exatidão, à mestria com que se domina o afeiçoamento de cada um dos materiais e técnicas utilizados e os movimentos da mão, um poder mágico, uma eficácia sensível imediata, que determina a transformação do objeto de arte em caminho redentor”. Outros destaques: em Coimbra, no Centro de Artes Visuais (CAV), pode ver até 10 de setembro uma exposição baseada na colecção desenvolvida pelos Encontros de Fotografia de Coimbra e que inclui nove dezenas de fotografias de nomes como Horst P. Horst, Debbie Fleming Caffery, Walker Evans, Weegee, Raymond Pettibon, Lyalya Kuznetsova ou Marianne Mueller, entre outros, numa mostra que se centra na auto-representação e no retrato, com curadoria de Miguel von Hafe Pérez, responsável pela programação do Centro de Artes Visuais durante os próximos quatro anos. Em “auto & retrato”, é possível acompanhar o caminho que a fotografia foi fazendo ao longo do tempo, numa exposição que põe em diálogo artistas nacionais e internacionais e fotógrafos de diferentes períodos; e no Museu do Neorealismo, Vila Franca de Xira, apresenta “Uma Poética Neo Realista”, exposição dedicada à obra de Querubim Lapa. Finalmente no Porto e até 9 de Setembro, a Galeria Fernando Santos apresenta uma colectiva com nomes que vão de Álvaro Lapa e Costa Pinheiro a Pedro Cabrita Reis, Pedro Calapez, Ana Vidigal, Bertholo, Rui Sanches, Sandra Baía ou José Loureiro, entre outros.

 

Os Últimos Dias de Roger Federer.jpg

AS ÚLTIMAS COISAS - Geoff Dyer escreveu, usando as suas próprias palavras, um  livro “sobre as últimas coisas”, ou seja um livro sobre aquilo que podíamos não ter lido ou experimentado antes de morrer. O livro chama-se “Os Últimos Dias de Roger Federer E Outros Finais”, tem uma tradução de Bruno Vieira do Amaral e, recorrendo mais uma vez às palavras de Dyer: «Haverá alguma vez um exemplo mais angustiante do que Roger a servir na final de 2019 em Wimbledon contra Djokovic com 8-7 no quinto set? […] Foi uma derrota particularmente difícil e pesada.» Geoff Dyer explora os últimos dias, as últimas obras ou as obras tardias de escritores, pintores, músicos, cineastas e estrelas do desporto que marcaram a nossa memória. Com charme, ironia e inteligência, revê o colapso de Friedrich Nietzsche em Turim, as reinvenções de antigas canções de Bob Dylan, a pintura de Turner com a sua abstração harmoniosa, a ressurreição tardia de Jean Rhys, as derradeiras melodias de John Coltrane, mas também os últimos quartetos de Beethoven, os poemas finais de Larkin ou as últimas canções dos The Doors, o último sopro criativo de Walter Scott, Joyce, Updike ou David Foster Wallace. O livro percorre um vasto catálogo dos tópicos preferidos de Dyer, que vão do rock à história militar.

 

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GUITARRADA - O disco que hoje recomendo é para os amantes da guitarra. Neste disco há dois instrumentos: a guitarra e as mãos de quem a toca, Ralph Tower. O álbum chama-se “At First Light” e é um disco maravilhosamente simples, um solo de guitarra acústica tocada por um dos grandes nomes do jazz. Towner começou a gravar em 1970 para a ECM, a editora fundada por Manfred Eicher, que desde o início tem um compromisso com a qualidade técnica das suas gravações. Os padrões de qualidade, desde a gravação, à edição, passando pelas capas, têm-se mantido ao longo dos anos e Towner, hoje com 83 anos, continua a seguir a cartilha que o trouxe a esta editora. “At First Light” inclui 11 temas, todos originais de Towner, à excepção de três - o tradicional “Danny Boy”, o clássico standard de Jule Styne “Make Someone Happy” e “Little Old Lady”, de Hoagy Carmichael. Nas notas da capa do disco Towner explica que estes temas o influenciaram quando começou a tocar guitarra. De entre os temas originais destaque para “Fat Foot”, “At First Light” e “Flow”. Editado pela ECM, disponível nas plataformas de streaming.

 

BARES - Há uma tradição portuguesa de fazer longos almoços sob o pretexto de uma conversa. Eu gosto muitas vezes de almoçar sozinho, ganhando um tempo de equilíbrio a meio do dia; e agrada-me a ideia de desafiar um amigo para uma conversa de fim de tarde num bar de hotel - pouco barulho, competência no acolhimento e na execução dos pedidos.  Estou a falar de hotéis com bares onde existam barmen que sabem o que fazem. Há pouco tempo estive na cavaqueira amigável no balcão do bar do recente Hotel das Amoreiras, no jardim homónimo, e fiquei agradado com o cuidado posto pelo barman na preparação de um dry martini - com todos os preceitos e segundo as melhores práticas. Um bar de hotel é um sítio pensado para se estar sossegado - pode usufruir-se do conforto de um grande hotel sem ter que lá dormir. Uns tempos antes tinha estado num fim de tarde no bar do Sheraton, onde pedir uma flûte de Murganheira bruto é um pedido recolhido com atenção e competência e onde também se pode petiscar alguma coisa a acompanhar. E há uns anos era frequente marcar reuniões no bar do Ritz - onde aliás numerosas figuras da política e negócios passavam a tarde, como se de um escritório se tratasse, a receber pessoas para conversas sabe-se lá de quê, umas atrás das outras. Se os bares dos hotéis falassem…


DIXIT - “Entre greves, inoperância e burocracia, os tribunais mostram-se cada vez mais incapazes de assegurar níveis aceitáveis de justiça” - António Barreto.

BACK TO BASICS - “Dizer o que pensamos é como cavar a própria sepultura” - Sinead O’Connor



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