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2024. UM ANO CHEIO DE IMPREVISTOS

por falcao, em 05.01.24

 

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CALEIDOSCÓPIO - Imagino-me a olhar por um óculo mágico para o fim de 2024. E que vejo eu? Uma grande confusão e instabilidade e, nos piores momentos, mais uma eleição a ser convocada depois do resultado das legislativas de Março ter descambado num impasse. Improvável? - Não tanto. Arriscamo-nos a ter um longo período sem Governo estabilizado, sem novo orçamento. Em muitos países, como na Bélgica ou em Itália, situações destas acontecem sem que daí venha mal ao mundo. Aqui, se suceder, vamos ver como as coisas correm. Talvez então alguém se lembre que, 50 anos depois do 25 de Abril, pode ser boa ideia adequar a Lei Eleitoral aos tempos actuais,  evitar  um desperdício de votos tão grande como tem acontecido - criando finalmente um círculo único de compensação que corrija as distorções do método de Hondt. Mas confesso que tenho dúvidas que os políticos de serviço, seja em qual dos grandes partidos estejam, se mostrem interessados em mudar alguma coisa de relevante. São retrógrados no pensamento político, presos de ideias feitas, gostam mais de olhar para o passado, do que encontrar caminhos para o futuro. Adoram romancear o que aconteceu e fogem de criar condições para mudanças e novas soluções. Da maneira que as coisas estão, arriscamo-nos a ter uma maioria de eleitores no centro direita e direita, mas um governo de esquerda, se fôr desse lado do espectro político que estiver o partido mais votado. Resultado: uma grande confusão! Tento ser optimista mas, por mais que me esforce, continuo a pensar que há qualquer coisa que não está a funcionar nesta democracia.



SEMANADA - A economia portuguesa está prestes a sair das 50 mais competitivas do mundo, sendo ultrapassada por países como o Cazaquistão, Peru ou Iraque; Portugal é dos que mais perde numa Europa que passará de mais de um terço do PIB mundial em 2008 para menos de um quinto em 2038; é esperado um aumento de 10% no preço dos bens iniciais no início deste novo ano; a área de produção de abacate em Portugal duplicou no espaço de uma década; segundo o INE em Portugal existem 450 mil filhos e netos de imigrantes, 18,5% da população tem background migratório e a grande maioria está há mais de dez anos em Portugal; em 2023 o SNS realizou 60.000 cirurgias por mês, o número mais alto desde 2013, mas as listas de espera continuam a aumentar; a psiquiatria é a especialidade com uma taxa mais alta de incumprimento de tempo de espera para utentes em todo o SNS; há 5400 casos de cancro do pulmão diagnosticados por ano em Portugal; no dia 26 de Dezembro mais de 26 mil pessoas recorreram às urgências, o número mais elevado do ano; durante a última semana de 2023 as filas de espera em alguns serviços de urgência do SNS ultrapassaram as 16 horas; no final do ano 59,1% dos espectadores seguiram canais de cabo e plataformas de streaming, em detrimento dos canais generalistas; durante a época das festas a GNR deteve 140 condutortes, 81 deles com excesso de álcool; em 2023 nasceram mais 2386 bebés que no ano anterior.

 

O ARCO DA VELHA - A dívida total das entidades do SNS aos fornecedores externos ultrapassava, em final de Outubro, os 2420 milhões de euros, dos quais quase 1576 milhões de euros eram dívida vencida e 771 milhões eram pagamentos em atraso há mais de 90 dias.

 

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A ARTE ANTIGA - Neste início de ano recomendo uma visita ao Museu Nacional de Arte Antiga, para ver “Identidades Partilhadas - Pintura Espanhola em Portugal”, que mostra obras de artistas espanhóis existentes no país em diversas colecções, algumas provenientes de ofertas diplomáticas, outras de patrocínio eclesiástico e ainda outras, mais recentes, de aquisições efetuadas por museus e entidades públicas e privadas. A exposição decorre até 30 de Março, tem curadoria de Joaquim Oliveira Caetano, director do Museu Nacional de Arte Antiga, e Benito Navarrete, professor de história de arte na Universidade Complutense. Esta exposição calha na mesma altura em que a obra convidada do MNAA é “O Bom Pastor” (na imagem) uma pintura de Bartolomé Esteban Murillo. Nascido em Sevilha, em 1617, Murillo foi um dos mais importantes nomes do Barroco espanhol e “O Bom Pastor” do Museu do Prado, obra da fase madura do pintor, é uma das expressões mais exemplares do encontro entre o sagrado e o humano que marcam o seu trabalho. Ainda no MNAA e até 3 de Março pode também ver “Vieira Lusitano - O mito e a alegoria” que agrupa desenhos e gravuras de Francisco Vieira de Matos, mais conhecido por Vieira Lusitano, o mais importante pintor português que atravessou o século XVIII. 

 

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DE NOVO O PIANO - O catálogo da ECM tem dado uma atenção especial a gravações de piano e surge agora o primeiro trabalho a solo do pianista israelita Nitai Hershkovits, “Call on the Old Wise”, que inclui 18 temas, a maior parte dos quais improvisados, com a excepção de dois temas, um de Molly Drake, “Dream Your Dreams” e  “Single Petal of a Rose” de Duke Ellington. O álbum foi gravado em Lugano em 2022, com produção do fundador da ECM, Manfred Eicher. Anteriormente Hershkovits  já tinha gravado para a editora dois discos com o quarteto de Oded Tzur, “Here Be Dragons” e “Isabela” e também com Avishai Cohen para a Blue Note. Em nenhum dos 18 temas  deste disco Nitai Hershkovits ultrapassa os quatro minutos de duração, sempre a explorar ideias e direcções diferentes sem se repetir. Nitai Hershkovits é um pianista de jazz com formação clássica, tendo sido aluno de Suzan Cohen. Esta dedicação ao jazz e à clássica é bem patente nos temas “intermezzo 4”, mais próximo da música clássica contemporânea, e a faixa título, “The Ol Wise”, onde é evidente o seu fascínio pela improvisação. Disponível em Portugal na FNAC e nas plataformas de streaming.

 

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UM LIVRO DE FOTOGRAFIA - Saul Leiter, que morreu em novembro do ano passado, a poucos dias de completar cem anos, foi um dos mais importantes fotógrafos norte-americanos e é considerado um dos pioneiros da fotografia a cores, suporte que começou a utilizar nos anos 40 do século passado. Foi a fotografia de moda, nomeadamente para a “Harper’s Bazaar”, que lhe deu fama e fortuna mas o trabalho solitário que fez percorrendo as ruas de Nova Iorque, nos anos 50 e 60 é um marco na sua carreira. Durante mais de 60 anos todos os dias pintava ou fotografava, criando uma imensa obra, muita da qual ficou inédita durante a maior parte da sua vida. Muitas vezes era nas vizinhanças do seu apartamento em Manhattan, nos quarteirões mais próximos, que descobria a beleza nos sítios mais vulgares. Na rua usava sobretudo kodachrome, em casa, em retratos íntimos, preferia o preto e branco, ao mesmo tempo que pintava aguarelas. No ano passado a Saul Leiter Foundation, em colaboração com a editora Thames & Hudson, publicou “Saul Leiter: The Centennial Retrospective”, um magnífico álbum, de mais de três centenas de páginas, que recolhe 340 fotografias e aguarelas,  organizado por Margit Erb e Michael Parillo e inclui diversos textos sobre as várias fases da sua obra.“Esta é a história de um artista genuinamente brilhante, profundamente iconoclasta, destemidamente imaginativo, fundamentalmente afectuoso e decididamente divertido que cedo foi despertado pela arte e a encarou como a força que animou a sua vida quase centenária” - escreve Michael Parillo na introdução. O álbum mostra o seu trabalho de moda, de rua, as suas aguarelas, mas também as fotos mais íntimas. Um livro de fotografia é das melhores prendas que me podem dar e tive a boa sorte de ter recebido agora esta oferta. Disponível na Amazon.

 

COZINHA AVENTUREIRA - Gosto de começar o ano a experimentar um restaurante que não conheço, uma espécie de aposta no desconhecido. Nuno Mendes, um Chef português que tem trabalhado sobretudo em Londres, é o responsável pelo restaurante do Bairro Alto Hotel, o BAHR, no quinto andar do edifício. A vista é fantástica e, para além do terraço, existe uma sala interior com a cozinha, aberta, acessível a todos os olhares. A lista, diferente ao almoço e jantar, tem propostas tentadoras, algumas surpreendentes. Neste caso foi um jantar e nos petiscos iniciais a escolha recaíu em tostas com percebes fumados, excelente. O couvert, simples, inclui pão de trigo e aveia, crackers de alga e manteiga Rainha do Pico, talvez a melhor manteiga portuguesa. A escolha dos pratos principais apostou, no outro lado da mesa, num Brás de polvo assado à lagareiro com molho romesco, acompanhado, como extra, por um puré de batata doce e laranja. O molho romesco pode ser pedido à parte, é intenso, sabor pronunciado a pimentos e um final picante. O polvo estava excelente, muito bem temperado, os tentáculos macios, o braz com lâminas de polvo a reforçar o sabor. Deste lado da mesa houve dúvidas na escolha mas arriscou-se o lavagante azul com arroz frito e molho marrare. Confesso que a ideia de ter molho marrare no lavagante me levantou reservas, mas desvaneceram-se à primeira garfada. O lombo de lavagante era farto, o molho era perfeito (nada dessas imitações que por aí surgem) e o arroz frito revelou-se um bom complemento. A experiência valeu a pena. A refeição foi acompanhada por um espumante português da região de Távora-Varosa, com base nas castas Cerceal, Malvasia Fina e Gouveio, o Família Hehn, Velha Reserva bruto, que cumpriu muito bem a função. Sobremesas ficaram para outra ocasião, com uma a reter no futuro: a tarte tatin de marmelo e creme de groselha. O BAHR e Nuno Mendes apresentam uma cozinha inesperada com combinações pouco vulgares e um  resultado acima da expectativa. Serviço impecável, com dois pequenos reparos - a recepção na sala não esteve a par do resto e a música era dispensável: não era uma questão de a playlist ser desadequada, que era, o problema era mesmo estar num local assim, com uma cozinha tão perfeita manchada por sons escusados que apenas distraem do essencial. BAHR, Praça Luís de Camões 2, 213408253.

 

DIXIT - “Houve jeito para distribuir, faltou o talento para produzir. Houve vontade de educar, não existiu competência para ensinar. Multiplicaram-se direitos, reduziram-se os deveres. A festa acabou. Mal e tristemente. Se ao menos, em vez de festa, tivéssemos trabalho, estudo, organização, gestão, igualdade e democracia…” - António Barreto 

 

BACK TO BASICS -   “Não é de admirar que as pessoas se afastem da política quando ano após ano ouvem os políticos fazer promessas que nem sequer tencionam cumprir - discursos que são fantasias para ganhar eleições mas que não fazem os países progredir” - Bill Clinton






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