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A INJUSTIÇA - Antes de 1974 a justiça serviu descaradamente o poder político, protegendo o Governo e combatendo a oposição. Nos últimos 50 anos a situação foi-se invertendo progressivamente, até se chegar ao actual estado das coisas, em que a justiça tenta - e por vezes consegue - competir com o poder político,  querendo ultrapassar a legitimidade do voto. Justiça e política andam de mãos dadas em Portugal há muitas décadas, mesmo que por vezes a posição relativa de ambas se inverta. Aquilo a que assistimos hoje é a um misto de arrogância, incapacidade e ineficácia, com abuso de direitos por quem os devia defender. O equilíbrio entre a defesa e os direitos dos magistrados e dos cidadãos deixa estes últimos à mercê do subjectivo. Decisões contraditórias, prazos rebentados, sentenças polémicas, o rol é extenso. Como António Barreto sublinhou há dias: “De todas as suas decisões, os magistrados deveriam esclarecer, argumentar e prestar contas. Mas não o fazem. Julgam ser seu direito não o fazer. Consideram que as sentenças e os acórdãos bastam – o que não é verdade.” Os magistrados confundem demasiadas vezes independência com autogestão e desresponsabilização. Há uns que cultivam o estrelato e a sua mediatização. Assistimos regularmente a operações que são mais perseguições que investigações, situações criadas para mostrar nas televisões buscas em directo. Insinuam-se acusações, não se faz depois o balanço do que aconteceu para que os processos ruíssem. Aos poucos vamos desacreditando dos tribunais, desconfiando dos juízes. Ao fim de 50 anos de democracia, muita coisa melhorou, excepto uma - continuamos a ter uma justiça que levanta suspeita. Não é bom sinal e é o problema estrutural mais sério da nossa democracia.

 

SEMANADA - Um estudo recente indica que o 25 de Abril de 1974 é considerado o dia mais importante da História de Portugal para 65% dos portugueses; no mesmo estudo, promovido pelo ICS/ISCTE ,  56% dos inquiridos consideram que se devem celebrar as datas de 25 de Abril e 25 de Novembro; Salazar, Salgueiro Maia, Mário Soares, Otelo e Ramalho Eanes são, por esta ordem os cinco nomes de figuras públicas que os portugueses mais associam à época do 25 de Abril; um em cada três empréstimos à habitação tem risco de incumprimento; desde 2021 já se verificaram 127 mortos em acidentes de tractor; nos últimos cinco anos foram registados 5600 processos de contraordenação por crimes ambientais; desde o início da Legislatura (que começou a 26 de março), já deram entrada nos serviços parlamentares 122 iniciativas legislativas; a Iniciativa Liberal (IL) é o partido que mais projetos de lei produziu (21), seguido pelo Bloco de Esquerda e pelo PCP; a procura de estabelecimentos de ensino privados tem vindo a aumentar e as principais razões apontadas pelos encarregados de educação para não quererem as escolas públicas são falta de professores, más condições físicas dos edifícios  e sentimento de insegurança nos recreios por falta de assistentes operacionais; a agência anticorrupção, criada em 2023, tem menos de metade do seu quadro preenchido, só executou 37% do orçamento que lhe foi atribuído e até agora não aplicou qualquer multa; uma sondagem recente indica que a  ausência de resultados no combate à corrupção constitui a maior desilusão dos portugueses com a política.

 

ARCO DA VELHA - O pior retrato da evolução do regime e da opinião que os cidadãos têm sobre ele é o estudo do ISCSP que indica que, hoje em dia, 47% dos portugueses apoiariam um “governo de um líder forte, que não tenha de se preocupar com eleições”.

 

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HÁ FESTA NA CENTRAL  - “Hoje soube-me a pouco”, título de uma canção de Sérgio Godinho,  foi o nome escolhido para uma exposição que assinala os 50 anos do 25 de Abril de 1974, e que está patente no edifício da Central Tejo, do MAAT, até 26 de Agosto. A exposição reúne os trabalhos de cerca de 40 artistas, a maioria provenientes da colecção da Fundação EDP, outros de colecções privadas e institucionais, além de duas obras inéditas feitas propositadamente para esta ocasião: uma escultura de Inês Botelho, intitulada  “A revolucionada estática e a revolucionada revolucionária”, e uma pintura de Pedro Cabrita Reis, “Prometheus V”, um óleo sobre tela de grandes dimensões, pintado já em Abril deste ano (na imagem). Prometheus, um dos gigantes Titãs da mitologia grega, é um símbolo de revolta e liberdade. A exposição inclui várias das principais figuras da arte contemporânea portuguesa dos anos 1970 e 80, cruzando gerações, com nomes que vão de Ana Jotta a Gabriel Abrantes, passando por Maria Beatriz, Carlos Bunga, Fernando Calhau, Alberto Carneiro, Pedro Casqueiro, Lourdes Castro, Rui Chafes, Patrícia Garrido, Álvaro Lapa, José Loureiro, Paulo Nozolino, António Palolo, Paula Rego, Julião Sarmento, Ângelo de Sousa e Xana, entre muitos outros. Na parede de entrada os visitantes são acolhidos por uma montagem livre de obras de desenho, aguarela, pintura, colagem e vídeo, todas produzidas num período curto que abarca o antes e o depois do 25 de Abril de 1974. Nessa parede, que inclui trabalhos de Júlio Pomar, José Escada, António Sena, Eduardo Batarda, Jorge Martins e Ana Hatherly, entre outros, algumas obras fazem referência directa ao golpe de estado que derrubou a ditadura, outras surgem como comentários e outras ainda são testemunhos de alegria e esperança. A curadoria da exposição é de João Pinharanda e Sérgio Mah.

 

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ROTEIRO - Até 20 de Dezembro poderá ver no Palácio Anjos, em Algés, a maior exposição da obra de João Abel Manta, um dos maiores cartoonistas portugueses que antes e depois de 1974 publicou regularmente trabalhos emblemáticos da situação político-social portuguesa em jornais como o “Diário de Lisboa”, “Diário de Notícias” e “O Jornal”. Aqui reproduzimos um desses trabalhos, “Um Problema Difícil”, no qual um grupo de figuras, de Marx a Lenine, passando por Gandhi ou Sartre se interrogam perante um pequeno mapa de Portugal. Arquitecto de formação, cartoonista por paixão, João Abel Manta desenvolveu ao longo dos anos um trabalho pluridisciplinar  que englobou pintura, desenho, ilustração, design gráfico, concepção de painéis de azulejos e tapeçarias, cenografia e figurinismo para teatro. A exposição mostra muitos trabalhos inéditos do arquivo pessoal do artista. Em Coimbra, até 30 de Junho, no Convento de Santa Clara A Nova e noutros espaços da cidade, decorre a 5ª edição da Bienal, este ano sob o título “Fantasma da Liberdade”. Com curadoria de  Ángel Calvo Ulloa e Marta Mestre a Bienal decorre em torno da ideia de liberdade e as estratégias da arte contemporânea para a desafiar. Finalmente, de regresso a Lisboa, “Amor I Love You” é o título da exposição que reúne quatro dezenas de trabalhos de 13 artistas, entre os quais Sara Bichão, Nádia Duvall, Daniela Krtsch e Carla Cubanas, entre outros, que ficará exposta até 8 de Junho na Galeria P28, Pavilhão 31 do complexo do Hospital Júlio de Matos.

 

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O POETA DE PORTUGAL  - Esta é uma boa semana para falar da indiferença com que o Estado português tem encarado o quinto centenário do nascimento de Luís Vaz de Camões, o grande poeta da epopeia dos descobrimentos, uma das maiores figuras da literatura portuguesa e um dos grandes poetas da tradição ocidental. O vento de reescrita da História que varre muitos bens pensantes leva-os a querer ignorar Camões. Boa altura portanto para ler o que sobre Camões escreveu  uma das maiores figuras intelectuais do Portugal do século XX, insuspeito de ser simpatizante do regime anterior. Jorge de Sena fez vários ensaios sobre o poeta, agora reunidos num livro intitulado “O Pensamento de Camões”. O Camões que Jorge de Sena nos oferece é um Camões oposto ao das leituras dos políticos. O que Jorge de Sena faz, como se tivesse previsto o que iria acontecer em 2024, é resgatar Camões da actual perseguição ideológica, para mostrar aos leitores um poeta de uma grande erudição, «o maior poeta em português». No livro “O Pensamento de Camões”, que recupera quatro textos de Sena ele afirma que a lírica camoniana «transcende em muito o âmbito nacional de um destino histórico não-cumprido do seu mais alto sentido, para ser, na verdade, um aviso e um apelo que se dirige a toda a Humanidade». Jorge de Sena ensina-nos que Camões «deve ser lido nas entrelinhas e como um nosso contemporâneo»  e mostra-nos  um Camões  acima da pequenez de orgulhos nacionalistas e piedade cristã. Um Camões que nos fala «como só grandes poetas falam, acerca de angústias, esperanças e desesperos muito parecidos com os de hoje». Edição Guerra & Paz, com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian.

 

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A MUDANÇA - Hoje trago um disco de 1971, reeditado em 2017, actualmente disponível nas plataformas de streaming, que foi um marco na música popular portuguesa. Trata-se do álbum “Mudam-se Os Tempos, Mudam-se as Vontades”, de José Mário Branco. O nome é inspirado num poema de Camões, mote para uma canção que é a última faixa do disco. Álbum de estreia de José Mário Branco, então exilado em França, conta com poemas de Natália Correia (“Queixa Das Almas Jovens Censuradas”), de Alexandre OŃeill (“Perfilados de Medo”), do já citado poema de Camões, dois do próprio José Mário Branco (destaco “Nevoeiro”) e de quatro de Sérgio Godinho (dos quais destaco “O Charlatão”). Pelas palavras cantadas neste disco respirava-se o desejo de mudança, o diferente correr dos tempos, conjugando a lírica de Camões com um país que já estava sobressaltado. Musicalmente o disco era uma revolução, arranjos completamente diferentes do que era usual, na época, na música portuguesa. Não por acaso, no mesmo ano, coube a José Mário Branco fazer a produção e os arranjos de “Cantigas de Maio”, de José Afonso, no mesmo estúdio francês, em Hérouville, onde tinha sido também gravado “Mudam-se Os Tempos, Mudam-se As Vontades”. E era neste “Cantigas de Maio” que estava “Grândola Vila Morena”, um arranjo igualmente inesperado, canção que para sempre havia de ficar ligada ao 25 de Abril. José Mário Branco gravou muitos outros discos (destaco “Ser Solidário” e essa canção extraordinária que é “Inquietação”), fez bandas sonoras para teatro e cinema, foi um dos mais importantes produtores responsáveis pela reformulação do fado, nomeadamente graças ao seu trabalho com Camané. 

 

DIXIT - “Em Portugal somos excelentes a respeitar todas as liberdades e garantias, menos esta: que se faça justiça em tempo útil para quem é rico e poderoso” - João Miguel Tavares

 

BACK TO BASICS - “A injustiça que se faz a um, é uma ameaça que se faz a todos.” —  Charles Louis Montesquieu 

A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS

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PARA QUE SERVE A LIBERDADE?

por falcao, em 19.04.24

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DESIGUALDADES - Todos o país prepara as comemorações do golpe de estado que derrubou a ditadura há 50 anos. É uma data importante para todos os que prezam a Liberdade. Mas isto acontece numa altura em que cada vez mais gente mostra desagrado por algumas opiniões e há até quem diga sem rodeios que o melhor seria silenciar algumas. Ora, o que o 25 de Abril trouxe foi liberdade de expressão, liberdade de opinião, cada um poder dizer o que lhe vai na cabeça sem temer por isso ser perseguido, desde que respeite a liberdade dos demais. Na realidade antes de Abril de 1974 liberdade de pensamento existia, dependia de cada um o que com ela fazia. Uns mostravam o que pensavam e eram perseguidos. Outros calavam-se e eram tolerados. Tenho reparado que muitos dos que hoje mais gritam contra as opiniões dos outros nunca souberam o que era dantes arriscar dizer o que pensavam. Os que se intitulam agora guardiões do templo têm da liberdade uma noção de posse exclusiva, não respeitam a diferença, fomentam a desigualdade como se a Liberdade fosse exclusiva de alguns. Uma das grandes mistificações nascidas, muito por obra e graça do PCP, é  confundir o exercício da liberdade com a defesa do socialismo. De tal maneira que ainda hoje se considera que os que pugnam pelo socialismo, nas suas diversas formas, são os únicos defensores  da liberdade, enquanto os que são contra a ideia do socialismo são classificados de inimigos da liberdade e, para alguns, são até considerados fascistas. Ora acontece que não se pode defender a liberdade pretendendo que deve ser total para uns e limitada para outros. E tão pouco é coerente celebrar a  democracia agitando no ar o espectro da censura de ideias. 50 anos depois de 25 de Abril de 74 a última coisa que precisamos é de polícias do pensamento e da liberdade de expressão.

 

SEMANADA - Em Portugal estão vagas 723 mil casas e há 1,1 milhões de residências secundárias; segundo o FMI, entre os estados da zona Euro, Portugal foi o país onde o custo dos empréstimos à habitação mais aumentou; em 2023 o montante angariado por startups portuguesas caíu 76%; no ano passado, foram apresentados 904 pedidos de patente de invenção, 35,9% dos pedidos  tiveram origem na região Norte e a Universidade de Aveiro liderou a lista com 34 patentes apresentadas; Portugal é o terceiro país da União Europeia com menos homens por cada 100 mulheres, a par da Estónia, e apenas ultrapassado pela Letónia e Lituânia; o Alentejo e o Algarve são as duas regiões onde se verificam maior número de reprovações dos alunos do 1º ciclo e nessas regiões 8%  reprovaram nos primeiros quatro anos de escola; este ano registam-se 54.454 vagas nos cursos do ensino superior, um novo máximo histórico; com mais de meio ano lectivo corrido há cerca de 32 525 alunos sem aulas a pelo menos uma disciplina e Lisboa, Setúbal e Faro lideram listas de horários por preencher; no ano passado desapareceram 4501 veículos em Portugal; metade do poder de compra dos 278 municípios de Portugal continental está concentrado em 26 concelhos, que representam apenas 6% da área total do continente, mas concentram 48% da sua população residente, 28% do parque habitacional, 42% das dependências bancárias, 48% da atividade do Multibanco, 46% dos estabelecimentos comerciais, 60% dos registos de automóveis e 44% do consumo de eletricidade.

 

O ARCO DA VELHA - Entre os dias 12 e 14 de abril, a Autoridade Marítima Nacional registou o salvamento de 249 pessoas e só na primeira quinzena deste mês, já se contam 17 vítimas mortais por afogamento. 

 

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UMA EXPOSIÇÃO INVULGAR  - Até 29 de Setembro o Museu de Serralves apresenta “Yayoi Kusama: 1945 -hoje”, uma mostra que celebra o 95º aniversário da célebre artista japonesa e que é a maior retrospectiva da sua obra jamais realizada. A exposição foi concebida e organizada pelo M+, de Hong Kong, em colaboração com a Fundação de Serralves e o Museu Guggenheim de Bilbau. Yayoi Kusama tornou-se uma referência da arte contemporânea e ao longo das últimas sete décadas refinou uma singular estética pessoal, a par de uma filosofia de vida muito própria e de um posicionamento vanguardista. A obra de Kusama mostra aquilo que no seu entendimento é o espaço ilimitado, associando reflexões sobre os ciclos naturais de regeneração. “Yayoi Kusama: 1945 — Hoje” narra a história da vida e obra da artista, destacando o seu desejo de interconexão e as interrogações sobre a existência que orienta a sua criatividade. Com cerca de 160 trabalhos, incluindo pinturas, desenhos, esculturas, instalações e materiais de arquivo, esta exposição explora a carreira de Kusama desde os seus primeiros desenhos, feitos na adolescência durante a Segunda Guerra Mundial, às suas obras de arte imersivas mais recentes. Organizada cronologicamente e por temas, a exposição percorre toda a carreira da artista, dividida por grandes tópicos: Infinito, Acumulação, Conectividade Radical, Biocósmico, Morte e Força de Vida. “Yayoi Kusama: 1945 -hoje” tem curadoria de Doryun Chong e Mika Yoshitake, com a colaboração de Isabella Tam e a sua apresentação em Serralves contou com o acompanhamento e apoio da curadora Filipa Loureiro.

 

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ROTEIRO - Em Setúbal, na Casa da Avenida (Avenida Luísa Todi 286) pode ver até 26 de Maio “Intimidade”, uma exposição de fotografias de Luísa Ferreira (na imagem); na Appleton Square (Rua Acácio Paiva 27), até 4 de Maio, fotografias de António Júlio Duarte, sob o título genérico “Rumble Fish”;  no espaço Avenidas (Rua Alberto de Sousa 10A) pode ver até final de Maio a exposição "Rua da Beneficência, 175" que recorda os concertos realizados no Rock Rendez Vous, com fotografias de  Rui Vasco, Peter Machado, Pedro Lopes, José Faísca, Fred Somsen, Céu Guarda, e Álvaro Rosendo e que são a base para o livro “Rock Rendez-Vous, Uma História em Imagens”, coordenado por Luís Amaro e com textos de Ana Cristina Ferrão e Pedro Félix;  na Pequena Galeria (Avenida 24 de Julho 4C), até 8 de Junho, “Lisboa, dez fotógrafos- uma escolha improvável” mostra trabalhos de nomes como António Homem Cardoso, Fernando Ricardo, Marc Sarkis Gulbenkian, José Manuel Costa Alves ou Luís Pavão, entre outros, e ainda fotografias vintage da cidade; até sábado  20 de Abril,  ainda pode ver uma  exposição de obras de Rui Sanches, “Espaços & Corpos”, no Arquivo Aires Mateus, (Rua Silva Carvalho 175). Rui Sanches baseou-se em plantas de espaços que de alguma forma lhe são familiares e em desenhos anatómicos de quando estudou Medicina. As obras, desenhos, pinturas e uma escultura foram feitas entre 2018 e 2023.

 

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UM ROMANCE PARA ESTES TEMPOS - Leram algum escritor turco recentemente? Pois eu também não tinha lido até encontrar “Pedra e Sombra”, de Burhan Sönmez, que é considerado como um dos mais inovadores autores da literatura turca e curda actual. Algumas das análises sobre a sua obra apontam para comparações de Burhan com realistas mágicos como Borges e García Márquez. Outros, como o diário parisiense “Le Figaro” , escrevem que “Pedra e Sombra”  “põe em cena, através de uma arte narrativa estrondosa, personagens cujos destinos se enlaçam com a tumultuosa história da Turquia do século XX.” Na realidade “Pedra e Sombra”  é um romance épico que traça o retrato de uma sociedade complexa, fruto do legado de cristãos, muçulmanos sunitas, dervixes, turcos, curdos, arménios e gregos. Neste romance Burhan Sönmez elabora uma construção narrativa com solavancos temporais de séculos, décadas e até mesmo de horas dentro de um único dia, imprimindo um ritmo e um mistério invulgares. «Quem não tem memória da sua infância não pode conhecer-se a si mesmo … Perder a própria terra quer dizer perder a memória», lamenta-se o protagonista desta história, homem simples, mas de profundo entendimento da condição humana. São dele também estas palavras, tão actuais hoje em dia: «A guerra vira a vida de pernas para o ar. Dá cabo das famílias, das cidades e dos estados. Depois, um dia acaba, mas nessa altura já nada é como antes». Esta proximidade geográfica e histórica aos mais recentes acontecimentos no médio oriente são uma razão suplementar para ler este romance. A tradução é de  J. Teixeira de Aguilar e a edição é da Livros do Brasil.

 

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UM TRIO INESPERADO - Fui ouvir “Owl Song” graças a um elogio que li sobre o disco. Já tinha ouvido alguma coisa de Ambrose Akinmusire, um trompetista e compositor americano nascido em 1982. Os seus primeiros passos no Berkeley High School Jazz Ensemble despertaram a curiosidade do saxofonista Steve Coleman que o convidou a integrar o seu grupo Five Elements numa digressão europeia. No regresso dedicou-se a aperfeiçoar os seus conhecimentos em algumas das maiores escolas de jazz nos Estados Unidos, em Nova Iorque e Los Angeles. Em 2008 gravou o seu primeiro disco e regressou a Nova Iorque onde tocou com alguns dos mais importantes nomes do jazz contemporâneo - Vijay Iyer, Aaron Parks, Esperanza Spalding ou Jason Moran. “Owl Song” é o seu oitavo disco em nome próprio e aqui escolheu dois nomes incontornáveis para o acompanhar: Bill Frisell na guitarra e Herlin Riley na bateria. É um trio absolutamente fora de série, os músicos dialogam uns com os outros com uma naturalidade impressionante e o trompete de Ambrose Akinmusire cria uma atmosfera musical única, demonstrando a razão pela qual, há já alguns anos, foi premiado e reconhecido como um dos mais relevantes trompetistas actuais. A guitarra de Frisell une-se ao trompete numa combinação inesperada , com o suporte certeiro da bateria de Riley. o tema título, “Owl Song”, nas suas duas versões, mostra isso mesmo, a fusão das sonoridades da bateria, guitarra e trompete, criando uma música comovente, empolgante e na realidade inesquecível. É um dos melhores discos que ouvi nos últimos meses. Um obrigado a Miguel Esteves Cardoso, que numa recente crónica me fez descobrir este trabalho. Edição Nonesuch, disponível nas plataformas de streaming.

 

DIXIT - “Sem profundas mudanças nas oligarquias partidárias, do PSD e PS, não se vai a lado nenhum e essas mudanças nos partidos não se dão porque não existem forças endógenas para o conseguir. Quem mais precisa dessa força é o centro político, e o partido onde ela é mais necessária é o PSD.” - José Pacheco Pereira

 

BACK TO BASICS - “A desobediência, aos olhos de quem estudou História, é a virtude original do homem. É através da desobediência e da rebelião que se tem construído o progresso” - Oscar Wilde.

 

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CONTEÚDOS RIGOROSAMENTE VIGIADOS

por falcao, em 12.04.24

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A COMUNICAÇÃO - Num curioso regresso ao passado o novo Governo retirou a comunicação social da tutela do Ministério da Cultura e passou-a para o centro político do executivo, na dependência do Ministro dos Assuntos Parlamentares, Pedro Duarte, um dos pesos pesados do núcleo duro de Luís Montenegro. Esta área passa a tutelar directamente a RTP, a Agência Lusa, e o enquadramento regulamentar e legal de um sector que é maioritariamente privado. Os argumentos para a mudança, ainda não enunciados publicamente, podem surgir como bondosos - por exemplo criar mecanismos que ajudem os mídia a ultrapassar a crise existente; mas podem também querer dizer uma maior interferência política - e não só económica - no sector, nomeadamente nas duas empresas acima referidas, de que o Estado é accionista. Creio que a actuação do Estado nesta área devia dar prioridade à nossa presença num mundo digital fortemente audiovisual, garantindo a existência de conteúdos que proporcionem a salvaguarda do peso da língua e cultura portuguesas nesse mundo, em clara ligação com o Instituto do Cinema e Audiovisual, ICA e com os privados do sector. E sinceramente, creio que se for dada importância a esses conteúdos, faz mais sentido a localização desta área na Cultura que nos Assuntos Parlamentares. As eventuais medidas de apoio aos privados têm mais a ver com uma política de incentivos fiscais do que com negociatas entre partidos na Assembleia da República e, na minha opinião, não devem passar por criar uma política de atribuição de subsídios que coloque os privados na dependência do Estado - e tão pouco na utilização geral e gratuita do serviço da Lusa que assim seria rebaixada a um canal de transmissão, sujeita ainda mais a todas as pressões. Mas faria sentido que um dos apoios ao sector tivesse a ver com incentivos à leitura e à compreensão digital, por exemplo, o que nos faz voltar à Cultura. Não me canso de dizer que o accionista Estado deve definir o que quer do serviço público audiovisual - nomeadamente se pretende que ele seja concorrente dos canais privados e que continue a investir mais em transmissões desportivas e concursos variados do que na criação de conteúdos estruturantes, em programas  que fiquem para o futuro e não se esgotem no momento em que são emitidos. 

 

SEMANADA - A concessão de crédito para habitação a famílias de menores rendimentos passou de 32% em 2018 para 3% em 2023; segundo o Eurostat o preço das casas na UE caíu pela primeira vez desde 2013 mas em Portugal continua a subir e regista o terceiro maior aumento da zona euro; as pensões médias encolheram 15% nos últimos 15 anos; 26,% dos pensionistas portugueses optaram por reforma antecipada; o mercado automóvel cresceu 13% no primeiro trimestre do ano em Portugal, para um total de 68.520 novos veículos e os carros com motor eléctrico representaram 16% dos automóveis ligeiros; em Fevereiro foram registados mais 7,2 mil desempregados no país; Em termos de PIB per capita expresso em paridades de poder de compra Portugal está no 18º lugar dos 27 países da UE, já foi ultrapassado pela Eslovénia, República Checa, Estónia e Lituânia e atrás de si tem países como a Polónia, a Hungria e a Roménia; mais de 65% dos jovens portugueses abaixo dos 30 anos recebem menos de mil euros líquidos mensais;  o SNS só presta tratamento adequado de reabilitação a 30% dos doentes que sofreram um  AVC.

 

O ARCO DA VELHA -  Um relatório do Tribunal de Contas acusou o anterior Governo de não ter seguido as suas recomendações em relação ao controlo de falhas nas matrículas dos alunos e na detecção de situações de risco de abandono escolar precoce.

 

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UM VELÁZQUEZ - Na Galeria Principal do Museu Gulbenkian pode ver até 9 de Setembro uma das mais importantes obras do pintor espanhol Diego Velázquez, integrada no programa Obra Visitante, desta vez proveniente da Frick Collection. A pintura do Rei Filipe IV de Espanha era uma das obras favoritas do grande colecionador americano Henry Frick e foi realizada na primavera de 1644, altura em que Velázquez acompanhou o monarca na sua incursão militar na Catalunha. Velázquez terá realizado esta pintura num curto espaço de tempo, em condições pouco habituais, num ateliê improvisado, em Fraga, quartel-general das tropas espanholas. Filipe IV é representado  no papel de chefe militar vitorioso após a reconquista da cidade de Lérida. Uma vez terminada, a pintura foi enviada para Madrid, a fim de representar simbolicamente o rei numa missa na Igreja de San Martín, que celebrou o acontecimento. Calouste Gulbenkian era um grande admirador da obra Velázquez - em 1919, adquiriu uma sua obra, Retrato de D. Mariana de Áustria, quadro que viria a ser doado ao Museu Nacional de Arte Antiga. O  ciclo Obra Visitante do Museu Calouste Gulbenkian, foi inaugurado há dois anos, com outra obra-prima da pintura europeia, o Autorretrato com Boina e Duas Correntes, de Rembrandt, então cedido pelo Museo Nacional Thyssen-Bornemisza, de Madrid. 

 

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ROTEIRO -  Uma boa surpresa é a exposição “Escavar Uma Nuvem” (na foto), que apresenta trabalhos de Rui Horta Pereira, desenhos e esculturas feitas a partir de materiais recolhidos no Parque Natural da Arrábida,  mostrando vestígios d a acção da Natureza ao longo de anos, que pode ser vista até 24 de Maio na Galeria das Salgadeiras (Avenida dos Estados Unidos da América 53D). No MAAT pode ver “Shining Indifference” com pinturas de Luísa Jacinto e “Mar Aberto”, com fotografias, vídeos e peças escultóricas de Nicholas Floc’h.  De 12 a 27 de Abril Alfredo Cunha apresenta “Viva a Liberdade”, uma exposição de fotografias datadas de 1975 que mostram as paredes ocupadas por cartazes e pinturas de palavras de ordem (Rua Franciso Palha,  56 em Marvila). Se for a Paris poderá ver  até 9 de Setembro, no Centre Pompidou, a exposição “Amadeo de Souza-Cardoso/Sonia et Robert Delaunay- Correspondances”, com curadoria de Sophie Goetzmann, Helena de Freitas e Angela Lampe. Em Algés, no Palácio Anjos, pode ver uma exposição sobre a obra de João Abel Manta, nomeadamente com com pintura, cartoon, ilustração e design gráfico, além de outras áreas que o artista praticou. Em Castelo Branco abriu uma nova Galeria, Castra Leuca Arte Contemporânea, que até 21 de Abril apresenta a exposição “4 Elementos” com obras da ceramista Yola Vale (Rua de Santa Marta 129). E na Galeria Santa Maria Maior, o repórter fotográfico João Marques Valentim apresenta, numa dupla exposição,  imagens que recolheu em 1974, sob o título “ E Depois do Adeus” e “O Insubmisso” (Rua da Madalena 147).

 

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O ANTES E O DEPOIS - Estes dois livros, que hoje vos trago, entram na categoria de auxiliares de memória.  O “Era Proibido”,  de António Costa Santos, recorda o Portugal de antes do 25 de Abril numa nova edição revista e aumentada . Como o seu autor escreve, “os leitores nascidos em democracia poderão duvidar da realidade dos factos que aqui são narrados (...) quem viveu sempre em liberdade terá dificuldade em imaginar um país onde os filmes eram cortados aos bocadinhos para defender os bons costumes e se ía parar à cadeia por ouvir a BBC ou ler um determinado livro. Foi um tempo caricato, mas sem graça. Um tempo que convém reconhecer e recordar, porque, como dizia o filósofo espanhol George Santayana, os que esquecem o passado estão condenados a repeti-lo”, o que não se deseja. O outro livro, “No Princípio Era O Verbo” recolhe alguns dos lemas, pinturas de parede e palavras de ordem, das mais diversas proveniências políticas, que invadiram as ruas depois do 25 de Abril de 1974, com texto de Manuel S. Fonseca e ilustrações de Nuno Saraiva. Manuel S. Fonseca começa por um preâmbulo onde visita e descreve, hora a hora, os incidentes e o suspense da noite de 24 de Abril, da madrugada de dia 25 e e da manhã e da tarde desse dia onde os militares de Abril derrotaram o estado a que isto chegara. A seguir, na segunda parte, saltam as ilustrações de Nuno Saraiva, a mostrar frases, palavras de ordem, diálogos que hoje podem parecer inacreditáveis, mostrando como da direita à esquerda, reacionários e  revolucionários, sociais -democratas e socialistas, comunistas, maoístas e anarquistas cruzaram com palavras a paisagem de Portugal. Os dois livros são editados pela Guerra & Paz.

 

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UM QUARTETO DE EXCELÊNCIA - O saxofonista e flautista Charles Lloyd é um dos nomes de referência do jazz norte-americano. Tinha nove anos quando recebeu o seu primeiro saxofone e já adolescente tocou com músicos de blues como Howlin’ Wolf e B.B. King. Aos 18 anos foi estudar música na Universidade da Califórnia e depois das aulas tocava em clubes de jazz com nomes como Ornette Coleman, Don Cherry, Charlie Haden ou Eric Dolphy.  No início dos anos 60 tocou ao lado de grandes nomes do jazz, mas também de bandas como os Beach Boys. Em 1966, aos 28 anos, formou o seu quarteto com músicos como o baterista Jack DeJohnette, o pianista Keith Jarrett e o baixista Cecil McBee, grupo que fez uma actuação histórica no festival de Monterey desse anos, registada no álbum “Forest Flower”.  Hoje com 86 anos Charles Lloyd continua a tocar e acabou de lançar um novo disco, “The” Sky Will Be There Tomorrow”, que recupera temas antigos que interpretou ao longo da sua carreira e também alguns inéditos e foi buscar para o seu lado músicos como o pianista Jason Moran, o baixista Larry Grenadier e o baterista Brian Blade.  Ao longo de 15 temas e hora a meia o novo álbum mostra como Lloyd é um saxofonista notável, capaz quer de improvisações, quer de seguir as melodias sugeridas pelo piano de Moran, como acontece em “Monk’s Dance”, um tema de homenagem a Thelonious Monk, ou na faixa de abertura, “Defiant, Tender Warrior”. Sugiro que ouçam com atenção o seu saxofone em “The Lonely One” e  a flauta em “Late Bloom”. “The Ghost Of Lady Day” é uma homenagem a Billie Holiday que nasce com o baixo de Grenadier, pontuado pela delicadeza de apontamentos rítmicos de Brian Blade, até o piano de Moran e o sax de Lloyd começarem a dialogar. Este tema é um bom exemplo da qualidade e entendimento dos membros deste quarteto que se juntou para esta merecida homenagem a Charles Lloyd. Disponível nas plataformas de streaming.

 

DIXIT - “A qualidade do debate político aproxima-se a grande velocidade do mais perfeito cafarnaum” - António Barreto

 

BACK TO BASICS - “Afirma com energia o disparate que quiseres, e acabarás por encontrar quem acredite em ti” - Vergílio Ferreira

 

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AS MUITAS MANEIRAS DE VER TELEVISÃO

por falcao, em 05.04.24

 

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RETRATO MEDIÁTICO - Nos últimos 20 anos as mudanças no panorama de consumo dos media em Portugal sofreram mudanças enormes, propulsionadas pelo crescimento do acesso à internet e do desenvolvimento das redes sociais - recordo que o Facebook nasceu em 2004. Um dos sectores onde se registaram maiores mudanças foi na televisão tradicional, aquele que mais sofreu com o crescimento da internet. No início deste século, os canais generalistas (RTP1, RTP2, SIC e TVI) captavam a maioria dos espectadores, os canais de cabo eram ainda minoritários e streaming nem vê-lo. Hoje em dia a situação é completamente diferente. Na semana passada apenas 40% dos espectadores de televisão viram canais generalistas, os outros 60 por cento dividiram-se pelo cabo e pelas plataformas digitais, que englobam as gravações automáticas das boxes dos operadores, os videojogos e as plataformas de streaming como o YouTube ou a Netflix. Quer isto dizer que dos cerca de oito milhões que viram televisão apenas cerca de 3,2 milhões viram RTP1, RTP2, SIC ou TVI. No primeiro trimestre as preferências dos espectadores deram o primeiro lugar de audiências à TVI, seguida da SIC, RTP1 e CMTV - o indiscutível líder dos canais de cabo, com mais do dobro da audiência do seu rival mais directo, a CNN. No serviço público a RTP3 aparece no fim da tabela dos 20 canais mais vistos e a RTP2 já nem nos vinte mais aparece. A TDT revela-se a extravagância mais cara do sector, não chega a ser vista por 1% da audiência total o que dá o custo por espectador mais caro do mercado. 

 

SEMANADA - O número de pessoas em casas sobrelotadas aumentou quase 40% em 2023, o maior salto em 20 anos;  a renda mediana das casas fixou-se em 7,71 euros por metro quadrado no último trimestre de 2023, mais 11,6% que no mesmo período de 2022; infiltrações de água, humidade e mau isolamento térmico são problemas que afectam cerca de 30% das casas dos portugueses; pelo menos 30% dos terrenos rústicos estão em nome de defuntos; segundo o Relatório Anual de Segurança a criminalidade atingiu em 2023 o valor mais elevado dos últimos 10 anos; em 2023 foram denunciados 1020 crimes por dia, 42 a cada hora; os crimes com maior expressão são violência doméstica, condução com taxa-crime de álcool, agressões e burla; as agressões a profissionais de saúde quase duplicaram em 2023; segundo o Eurostat Portugal ultrapassou Espanha e Itália e tornou-se no ano passado o segundo país da União Europeia com mais peso de contratos precário; em 2023 registou-se um aumento de 8,2% do tráfego automóvel face a 2022; os gastos das famílias portuguesas durante o período da Páscoa com um cabaz de bens alimentares essenciais registaram, no espaço de um ano, uma subida de cinco euros e, face a 2022, uma subida de mais de 30 euros; os centros comerciais registaram um aumento do volume de vendas em dezembro do ano passado, com um crescimento de 15,9% face a 2019.

 

O ARCO DA VELHA - Em seis anos ficaram por reclamar prémios no valor de quase 68 milhões de euros nos jogos da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

 

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IDEIAS RECICLADAS - O artista plástico Yonamine nasceu em Luanda em 1975, vive na Grécia e trabalha entre Atenas, Luanda, Lisboa e Berlim. O seu trabalho utiliza nomeadamente a pintura, desenho, graffiti, fotografia e vídeo e as suas instalações multimédia assumem-se como diários pessoais e reflexões sobre a História de África e da sua política. Nas suas obras o artista utiliza uma grande variedade de trabalhos que vão desde páginas e fragmentos de jornais, serigrafias, desenhos e colagens reaproveitando materiais como cartazes relativos à cultura popular, cartazes de filmes, retratos de personalidades, de artistas populares e figuras políticas, passando ainda pelo reaproveitamento de material tecnológico de diversas proveniências. Até 11 de Maio pode ser vista na Galeria Cristina Guerra Contemporary Art, Lisboa, a exposição “ ETC - Extraction/Trade/Cashtration” . Esta exposição é também uma evocação e homenagem da obra de Paulo Kapela, um artista congolês que nos anos 90 se fixou em Luanda e que trabalhou com base “na ideia da reciclagem - não só de materiais mas também de pessoas e palavras”, como escreveu Alicia Knock, curadora do Centre Pompidou. Por isso, sublinha, o que Yonamine apresenta  é um novo Kapelismo, ou, nas palavras de Yonamine, “uma fusão de ideias, tendências e temporalidades”. A exposição inclui 15 obras, incluindo uma homenagem a Kapela em coexistência com fontes sonoras e painéis nas paredes. ETC ficará até 11 de Maio na Cristina Guerra Contemporary Art, Rua de Santo António à Estrela 33. 

 

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ROTEIRO - Começo este roteiro por recomendar um passeio no Jardim das Amoreiras onde, desde a semana passada, pode ser vista a escultura que Cristina Ataíde criou para assinalar a homenagem à Vigília da Capela do Rato. A partir de duas grandes peças de mármore, unidas entre si por um jogo de peças metálicas que as mantêm em equilíbrio, a obra simboliza um dos marcos mais importantes da resistência dos sectores católicos à ditadura. A escultura prossegue a paixão de Cristina Ataíde pela pedra, aproveita o seu conhecimento na forma de trabalhar o mármore e proporciona um diálogo com o aqueduto das águas livres, que marca aquele local (na fotografia). Outros destaques: no Mercado do Forno do Tijolo, em Arroios, José Pacheco Pereira apresenta a exposição documental “10 Dias que Abalaram Portugal”, a partir do arquivo da Ephemera. Até 26 de Abril Ângela Ferreira apresenta “Campo Experimental”, um trabalho feito em colaboração com Alda Costa na Galeria Rialto (Rua do Conde Redondo 6, apenas às sextas entre as 15 e as 19h30). Em Coimbra, no Centro de Arte Contemporânea, pode ser vista a exposição “Do Lado Mais Visível das Imagens”, que agrupa obras da colecção Norlinda e José Lima e também da Colecção de Arte Contemporânea do Estado com obras de artistas como Ana Cardoso, Fernando Calhau, José Pedro Croft, Pedro Cabrita Reis, Marisa Ferreira e Sandra Baía, entre outros. Na galeria No-No (Rua de Santo António à Estrela 39, pode ver até 25 de Maio “ST#17641”, uma exposição de cinco novas obras de Rui Neiva. Finalmente, na Galeria das Salgadeiras (Avenida dos Estados Unidos da América 53D), está patente até 24 de Maio “Escavar Uma Nuvem”, de Rui Horta Pereira, que agrupa desenhos e esculturas feitas  a partir de materiais recolhidos no Parque Natural da Arrábida.

 

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UM LIVRO ESPECIAL - Depois de ter frequentado a Escola de Belas Artes, em Lisboa, Rui Chafes aprofundou os seus estudos, de 1990 a 1992, na Kunstakademie Düsseldorf com Gerhard Merz onde desenvolveu a sua pesquisa sobre a cultura e arte alemãs. Foi nessa época que traduziu de alemão para português os “Fragmentos de Novalis", que foi editado originalmente em 1992 pela Assírio & Alvim. Há muito tempo esgotado, mesmo depois de  uma segunda edição em 2000, a tradução que Chafes fez de “Fragmentos de Novalis” teve agora nova edição, também bilingue e com 25 dos seus desenhos. Os fragmentos de Novalis seleccionados por Rui Chafes vêm de oito textos diferentes, escritos entre 1797 e 1800 e, citando Chafes, “espalhando fragmentos de ideias, fragmentos de pensamentos, instaura-.se a possibilidade de eles florescerem algures.”  Novalis é o  pseudónimo de Philipp Friedrich von Hardenberg, que viveu entre 1772 e 1801, no tempo do esplendor do idealismo alemão, dos poetas e filósofos do romantismo. Os idealistas e  pensamento estético do Romantismo Alemão tem sido uma das bases de trabalho de Rui Chafes. Na tradução, sempre que possível, Chafes tentou manter “o jogo musical e conceptual das palavras, procurando guardar a limpidez cristalina das palavras de Novalis”. E são também dele estas palavras: «Não sou escritor nem tradutor. Nem tenho essa pretensão. Esta é uma tradução de escultor, não de escritor. Este livro é um projecto completo, pois compreende a tradução de fragmentos de Novalis, por mim seleccionados, acompanhada de um bloco de desenhos que não são, de modo algum, uma forma de ilustração dos textos: eles existem em simultâneo com a tradução. Ambas as coisas se interpenetram aqui, fazendo que este objecto, este livro, tenha o estatuto de escultura.» Termino com um dos escritos de Novalis incluídos no livro: “Toda a ciência se torna poesia - depois de se ter tornado filosofia”.

 

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IMPERDÍVEL  - Rezam as más línguas do mundo pop que Beyoncé terá decidido fazer um álbum baseado no universo da country music depois de, em 2016, ter sido vaiada na gala dos prémios da Country Music Association. Uma cantora negra entrar no terreno da country music, sulista, branca de nascimento, pode parecer algo de estranho - apesar de grande parte dos músicos mais procurados para acompanharem as gravações nos estúdios de Nashville, a capital da música country, serem de origem afro-americana. A country, recordo, é o terreno de origem de Taylor Swift, onde ela cresceu e se fez uma estrela. No fundo Beyoncé entrou a pés juntos nesse mundo da música branca tal como Eminem tinha entrado a pés juntos no terreno do rap, na época dominado por negros. Do ponto de vista de produção este “Cowboy Carter” vai buscar influências a muitos lados e do ponto de vista de distribuição de royalties vai ter uma factura pesada - ela foi buscar inspiração a nomes como Dolly Parton, Willie Nelson, Chuck Berry, Lee Hazelwood, Beach Boys, Hank Cochran e até Beatles. As suas versões de “Blackbird” dos Beatles e “Jolene” de Dolly Parton vão ficar para a história da pop. Mais que fazer um disco country, Beyoncé trabalhou sobretudo a partir da tradição da música cajun, do Louisiana, envolvendo-se aqui e ali nos blues. Nas 27 faixas que se desenrolam em 80 minutos, na versão disponível nas plataformas de streaming, mais longa que as versões editadas em formato físico em CD e LP.  Temas como “16 Carriages” ou “Daughter”, com o pano de fundo de guitarras sobre as quais surge a incontornável voz de Beyoncé são também imagens sonoras do seu enorme talento , assim como o hip hop de “Spaghetti” é o contraponto do country de “Texas Hold’Em”. Este “Cowboy Carter” é um marco da música popular norte-americana. Não o percam - está nas plataformas de streaming.

 

DIXIT - “ O Parlamento está refém de um irresponsável. Esse irresponsável chama-se André Ventura” - Rui Rocha

 

BACK TO BASICS - “A obra precisa do espectador para ganhar existência”- Rui Chafes

 

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