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MOVIMENTO PERPÉTUO

pensamentos ociosos 29

por falcao, em 26.07.25

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Passear à beira mar, com o oceano por pano de fundo, é das melhores coisas que se pode fazer. Confesso que não sou fã de praia, na torreira do sol, no meio da algazarra estival. Mas gosto muito de olhar para o mar, de ver o areal. Para mim as melhores alturas para sentir a praia são, por esta ordem, o Outono e Primavera, quando tudo está mais sossegado - os fins de tarde, sobretudo no Outono, têm uma luz mágica. Há dias em que areia parece virgem e em que apenas se distinguem as marcas dos passos de uma pessoa, caminhando pelo areal sem destino, rumo ao mar. Quem seria que passou ali? Até onde andou? Por onde voltou? Não vejo  ninguém, mas sinto uma presença. Não há duas linhas de pegadas, apenas a de ida, uma pessoa só, que por ali não regressou. É uma marca efémera, amanhã já terá desaparecido e o areal acordará todo liso até que mais alguém se decida a percorrê-lo. Todos os dias renasce, acariciado pelo mar. Quando olho para esta fotografia recordo-me de uma magnífica série de televisão dinamarquesa, que passou há algum tempo na RTP2, “Um Hotel À Beira-Mar”. O hotel funcionava poucos meses por ano e era sempre frequentado pelas mesmas pessoas, que acabavam por manter entre elas uma relação que se desfazia no final da época, para renascer no ano seguinte, num ciclo de cumplicidades, rivalidades e aventuras. De certa forma é como a relação entre o mar e o areal, vai-se renovando permanentemente, deixando pelo meio mistérios, segredos, paixões. Quem terá deixado estas marcas na areia? Que andou ali a fazer?



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publicado às 09:00

QUE PAÍS É ESTE?

a esquina do rio nº 1049

por falcao, em 25.07.25

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A PAISAGEM PORTUGUESA - A realidade é esta: apesar de haver uma grande falta de habitação muito do que se constrói em Portugal não é feito a pensar nos portugueses, mas em quem nos visita. Já sei da importância económica do turismo, da influência que tem tido na recuperação de património imobiliário que estava em ruína no centro das principais cidades, ou na quantidade de empregos que cria. Mas também sei que tem favorecido a construção desenfreada em zonas do litoral, sobretudo a sul do Tejo, que deviam ter sido protegidas, que há abusos na interdição de passagem para praias, que há uma especulação enorme nos preços nas zonas mais turísticas, que a especulação no mercado imobiliário ultrapassa tudo o que se pensava possível, que nalgumas cidades o número de veículos turísticos e TVDEs é superior ao número de veículos dos residentes em circulação, que muita gente foi levada a sair de Lisboa devido ao aumento dos preços e que o encerramento forçado de lojas históricas e comércio tradicional de proximidade alteram os hábitos sociais. E também sei que as vantagens fiscais concedidas a estrangeiros são negadas aos sobrecarregados contribuintes portugueses, criando situações de flagrante desigualdade. Olhemos pois para Lisboa, uma cidade que deixou de ser para os lisboetas, uma cidade refeita para visitantes e turistas ocasionais. António Costa e Fernando Medina lançaram os alicerces do parque temático para turistas em que Lisboa se transformou, mas Carlos Moedas pôs a feira a bombar ao som de Tony Carreira. Aviões nos céus a toda a hora, congestionamento cada vez maior num trânsito invadido por tuk-tuks e congéneres, lixo abundante nas ruas e descaracterização cada vez mais acentuada são marcas contemporâneas da capital. Aos seus subúrbios regressaram as barracas que se julgavam erradicadas, onde sobrevivem muitos dos que trabalham na grande cidade, enquanto que noutros locais surgem empreendimentos a preços milionários, muitas vezes adquiridos por estrangeiros que nem os habitam nem usam e querem ignorar a lei do país, estabelecendo manigâncias para interdição de acessos a zonas públicas, como praias. A Ministra Graça Carvalho esteve bem ao lançar uma campanha para garantir que todos os acessos ao litoral devem ser livres e sem restrições. Olhou para os portugueses. Uma raridade na política hoje em dia.

 

SEMANADA - Segundo o Eurostat Portugal foi o país da União Europeia que em média mais despendeu em alimentação, com uma despesa real per capita de 3300 euros por ano, uma subida de 43,5% face aos níveis de 2020; o preço da habitação aumentou 18,7% no primeiro trimestre; em Portugal há 115 reclusos por cada 100 mil habitantes, uma taxa de encarceramento superior à média europeia, de 105 por 100 mil; em Portugal existem em circulação 1,6 milhões de carros com mais de 20 anos; no primeiro semestre deste ano registaram-se mais acidentes, mais mortos e mais feridos nas estradas portuguesas do que há dez anos: de acordo com dados da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária, desde 1 de janeiro até 15 de julho registaram-se  70.817 acidentes, mais 3490 do que no mesmo período de 2016 e em quatro anos registaram-se 2300 mortes na estrada; segundo o INE, a região do Algarve e o concelho de Albufeira em particular são os territórios com as taxas de criminalidade mais elevadas do País; Portugal é o país da UE com menos alunos do secundário a aprender duas línguas estrangeiras; segundo o Eurostat, Portugal é o segundo país da UE com a maior proporção de famílias com apenas um filho, ficando somente atrás da Eslováquia; em junho o número de pessoas sem médico de família atingiu novo recorde, com um total de 1.669.695,  mais 24 886 do que em maio e mais 64.738 do que há um ano; há 4721 casais em que ambos os membros estão desempregados.

 

O ARCO DA VELHA - Um total de 847 óbitos fetais e neonatais ocorreram em Portugal continental em 2023 e 2024, representando 0,52% dos nascimentos, com a Grande Lisboa a registar 0,70%, a percentagem mais alta entre as regiões do país.

 

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A HISTÓRIA DO MARQUÊS - Uma das figuras mais fascinantes da História de Portugal é o Marquês de Pombal, Sebastião José de Carvalho e Melo. Personagem controversa, foi secretário de Estado do Reino durante o reinado de D. José I no século XVIII, tendo sido o responsável pelo plano de reconstrução de Lisboa depois do terramoto de 1755, além de ter lançado importantes reformas económicas, sociais e políticas. Ficou também conhecido pelo reforço do poder do Rei, diminuindo o poder da nobreza e do Clero, tendo nomeadamente confiscado os bens da Companhia de Jesus, que expulsou de Portugal. Pombal foi apelidado como o primeiro-ministro de D. José I, de quem era o homem-forte, com uma enorme influência. Esta “Primeira Biografia do Marquês de Pombal”, um conjunto de manuscritos que agora foram editados pela primeira vez em forma de livro, é baseado na obra escrita ainda em vida do Marquês, no final do século XVIII, por D. José de Mendonça, que foi Reitor da Universidade de Coimbra e, mais tarde, nomeado Cardeal Patriarca de Lisboa em 1786. É um extenso volume que retrata não só a figura do Marquês, mas também os acontecimentos ocorridos no reinado de D. José I, nomeadamente as reformas empreendidas.  A esse nível é um guia precioso para compreender a História de Portugal nesse período e não apenas a figura do Marquês de Pombal. O livro é fruto do trabalho de um grupo de investigadores, entre os quais se destacam Alícia Duhá Lose e Rafael Magalhães. No prefácio, de Pedro Calafate, Viriato Soromenho-Marques e José Eduardo Franco é sublinhado: “Pombal não foi um estadista amado, foi sobretudo um estadista temido, conquistando o poder com pulso firme, aproveitando as circunstâncias, por vezes trágicas, do mundo em que viveu, e capaz de eliminar impiedosamente os muitos obstáculos com que se debateu, em ordem à reforma profunda do país.” . Edição Temas e Debates.

 

 

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ARTE EM ELVAS - Em Elvas, até 19 de Outubro, a exposição “Um Silabário por Reconstruir” proporciona a rara oportunidade de ver uma selecção de obras de quatro dezenas de artistas contemporâneos, oriundas de três origens: a Colecção de Arte Contemporânea do Estado que está em depósito em Coimbra, a colecção da Caixa Geral de Depósitos e a Colecção António Cachola.  O Museu de Arte Contemporâneo de Elvas, MACE, onde decorre a exposição, alberga a colecção constituída ao longo dos anos por António Cachola, está localizado no centro de Elvas, na rua da Cadeia, foi inaugurado em 2007 e nasceu da recuperação do edifício de um antigo Hospital. Para esta exposição o MACE chamou como curador José Maçãs de Carvalho, que além de ser ele próprio artista com obra no campo da fotografia e do vídeo, é Professor no Colégio das Artes de Coimbra e curador do Centro de Arte Contemporânea de Coimbra - e nessa qualidade conhece bem a colecção do Estado. No caso desta exposição chamou para trabalhar consigo um dos seus alunos, Tiago Candeias. Ambos selecionaram obras de 38 artistas como Alberto Carneiro, Ana Jotta, Cristina Ataíde (na imagem o desenho “Todas as Montanhas do Mundo”, de 2010), Ilda David, José Loureiro, José Pedro Croft, Lourdes de Castro, Luísa Cunha, Pedro Cabrita Reis, Pedro Proença e Rui Chafes, entre outros. Na apresentação da exposição é indicado que o projecto curatorial é pensado a partir do universo literário, por um lado procurando as relações entre a imagem e a palavra e, por outro, pela criação de uma narrativa que pretende estabelecer um fio condutor entre as obras apresentadas.

 

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ROTEIRO - Esta semana destaco no Museu Arpad-Szenes- Vieira da Silva a exposição “Notas Sobre a Melodia das Coisas”, o quarto capítulo do projeto expositivo “331 Amoreiras em Metamorfose” concebido por Nuno Faria, que passou a dirigir o espaço no ano passado, para assinalar o 30.º aniversário da abertura do museu. O título, “Notas Sobre a Melodia das Coisas” é inspirado num livro do  poeta  Rainer Maria Rilke, e a exposição acompanha o processo criativo dos artistas e “o fascínio que a vida silenciosa dos objectos sempre suscitou nos poetas e nos pintores.” Para além de dar a descobrir, ou a redescobrir, um conjunto de obras de Vieira e Arpad (na imagem), menos vistas ou conhecidas, como ensaios sobre o tema da natureza-morta, experiências cromáticas ou composições de espaços interiores, a exposição integra trabalhos de artistas próximos do casal como Manuel Cargaleiro, Jorge Martins, Carlos Botelho, Costa Pinheiro e René Bertholo. Integra, ainda, um conjunto de pinturas de Bruno Pacheco, também sobre histórias de metamorfoses narradas por Ovídio, assim como pinturas de Eugénia Mussa e peças em cerâmica de Bela Silva. Outras sugestões: em Serralves poderá ver uma exposição dedicada à obra de arquitectura e design do finlandês Alvar Aalto e das duas mulheres com quem casou, Aino e Elissa, que com ele trabalharam num grande número de projectos. E na Casa Museu Manoel de Oliveira, também no espaço do jardim de Serralves, está patente uma exposição sobre a obra de Luís Miguel Cintra, “Pequeno Teatro do Mundo”. Para finalizar duas exposições de fotografia: em Vila Franca de Xira, no celeiro da Patriarcal, Alfredo Cunha apresenta  até 12 de Outubro a exposição “Rock” uma seleção antológica de fotografias captadas pelo autor desde 1970 até à atualidade, centradas no universo do rock em Portugal; e na Narrativa, em Lisboa, até 9 de Agosto, pode ver uma exposição da fotógrafa francesa Chloé Jafé, “Sakasa”, que documenta  a vida das mulheres da máfia japonesa, a Yakuza, onde o amor muitas vezes se cruza com violência.

 

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MÚSICA ARGENTINA - A sugestão da semana é o cruzamento entre o bandoneon (uma espécie de concertina) do argentino Dino Saluzzi com as guitarra acústica do seu filho José María Saluzzi e a guitarra eléctrica do norueguês Jacob Young, no álbum “El Viejo Caminante”. O disco inclui 12 temas instrumentais, entre os  quais alguns inéditos, outros clássicos da música argentina que  evocam o tango, mas também temas de jazz e a versão de uma  canção da norueguesa Karin Krog. Edição ECM, disponível nas plataformas de streaming.

 

DIXIT - “Tem graça, mas cansa: quando estão no poder, PSD e PS só vêem o que corre bem; quando não estão no poder só vêem o que corre mal” - Bárbara Reis, no “Público”.

 

BACK TO BASICS -  “Vivemos com o que ganhamos, mas o que deixamos da vida é aquilo que conseguimos fazer” - Sir Winston Churchill

 

A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS





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publicado às 12:00

POR ONDE PASSEIA O OLHAR?

pensamentos ociosos, sempre no sapo.pt

por falcao, em 19.07.25

 

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Além de comer e conversar, o que se pode fazer num restaurante? Olhar em frente é enfadonho, espreitar um espelho é possível mas pouco entusiasmante. Acho que o mais fascinante é coleccionar vistas dos tectos. Gosto de ir sozinho a restaurantes, de ficar a olhar para o que está à minha volta, pensar quem escolheu o que está nas paredes, imaginar o que cada empregado, cada vez mais temporários, acha do espaço onde passa os dias até encontrar nova ocupação. Quando gosto de um sítio, volto lá com frequência e, hoje em dia, percebo as diferenças ao fim de pouco tempo - sei logo quando há um empregado novo, o que mudou na lista e, por vezes pior ainda, o que mudou na confecção. Lisboa é hoje uma terra de mil paladares, de descobertas sem fim. Há cozinhas de todo o mundo, ingredientes e temperos até há pouco praticamente ignorados por cá. Caminhando por algumas zonas da cidade pode percorrer-se o paladar de vários continentes. Há bairros, ruas, pracetas, onde parece que estamos numa reunião da sociedade das nações. Antes de chegar a lista e a comida que encomendamos,  poucas coisas dão mais a imagem da diversidade do que aquilo que está nas paredes e pendurado dos tectos. Quando olho para cima e vejo luzes como estas sinto-me como se olhasse para um mapa ou folheasse um livro de viagens. Em vez de neons crus ou focos todos iguais uns aos outros, esta explosão de cor contribui para melhorar qualquer refeição. As cozinhas dos orientes  explodiram em Lisboa e são acompanhadas por estas cores fantásticas que nos animam a imaginação e aguçam o paladar. E nos fazem usar o olhar para além dos ecrãs dos telemóveis.



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publicado às 09:00

NOITES EM CLARO

por falcao, em 18.07.25

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O SONO  - Ao contrário do que o Ministro das Infraestruturas, Miguel Pinto Luz,  prometeu em novembro do ano passado, e apesar da aprovação pelo Governo, em Março,  de uma portaria que proibiria os voos no aeroporto de Lisboa entre a uma e as cinco da manhã, a verdade é que nada se alterou e o número de voos nocturnos aumentou mais uma vez. A situação é esta, segundo a associação ambientalista Zero: no período entre as zero e as seis da manhã registam-se o dobro dos vôos legalmente permitidos e, entre a uma e as cinco da manhã, em junho passado,  o número de aviões que sobrevoou os concelhos de Almada, Lisboa, Loures e Vila Franca de Xira entre a 1:00 e as 5:00 passou de uma  média de cerca de 30 por semana para cerca de 60, o que contraria os objetivos anunciados pelo governo. O excesso de ruído nocturno pelos vistos diz pouco ao Governo e, já agora, também aos autarcas envolvidos. Apesar de Câmara de Lisboa ter  aprovado por unanimidade, em Setembro do ano passado, uma moção em que defende a redução do número de movimentos por hora no Aeroporto Humberto Delgado, não se ouve a voz do seu Presidente, muito vocal noutras questões, a exigir o cumprimento da Lei e a defender o direito ao descanso dos lisboetas. Nem Pinto Luz cumpriu o que promete, nem o Governo força o cumprimento da Lei, nem Carlos Moedas toma uma posição de força sobre o que se está a passar, apesar de o aeroporto de Lisboa ter 51% do tráfego aéreo e ter crescido no primeiro semestre face a 2024. O que eu sei é que em vez de contar carneiros e adormecer tranquilo, passo noites a contar aviões e a ficar acordado. Fala-se muito da importância económica do turismo em Lisboa, mas vale a pena recordar que o grupo de trabalho para o estudo e avaliação do tráfego noturno no aeroporto Humberto Delgado, constituído em 2020 por despacho governamental, já tinha calculado que os custos do excesso de ruído entre as 23h00 e as 7h00 se tinham situado em 2019 nos 206 milhões de euros em termos económicos, além dos impactos negativos na saúde dos 400 mil residentes das áreas mais afectadas pelo ruído dos aviões. Nas próximas eleições autárquicas aqui está mais um ponto a ter em atenção quando for a hora de votar.

 

SEMANADA - Em cinco anos foram sinalizados 554 casos de negligência de bebés; desde 2013 realizaram-se 220 greves de guardas prisionais, uma média de 18 por ano; a Infraestruturas de Portugal perdeu 995 milhões de euros de fundos europeus para o projecto de linhas ferroviárias de alta velocidade; segundo a OCDE Portugal pode perder nos próximos 35 anos cerca de 23% da sua força laboral devido ao envelhecimento da população; faltam 12.475 vagas no pré-escolar a nível nacional; há 600 escolas a necessitar de obras urgentes; 40% dos estudantes do ensino secundário frequentam o ensino profissional; mais de 70% dos alunos do ensino profissional têm emprego dois anos após terminarem o curso; o imposto sobre as bebidas adicionadas de açúcar contribuiu com 472 milhões de euros para o SNS em sete anos; em cinco anos  os portugueses consumiram menos 7400 toneladas de açúcar; comprar ou arrendar casa implica taxa de esforço superior a 50% em mais de 75 municípios; dois terços dos concelhos possuem menos de dez agências bancárias; as exportações de alta tecnologia são apenas 5,2% do total das exportações portuguesas, número que compara com os 17,3% de média da União Europeia; voltou a aumentar o número de utentes sem médico de família, em junho havia 1.669.680 utentes sem médico, mais 24.873 do que no mês anterior e a região de Lisboa e Vale do Tejo continua a ser a mais crítica; Portugal é o país que mais depende de fundos europeus e por cada dez euros gastos pelo sector público, nove são suportados por verbas de Bruxelas. 

 

O ARCO DA VELHA - Foram detidos cinco inspectores da Autoridade Tributária sob acusação de serem os cabecilhas de um grupo de funcionários suspeitos de deixar passar várias toneladas de cocaína pelos portos de Setúbal, Sines ou Lisboa, a soldo de vários grupos criminosos internacionais entre eles a MoccroMafia e o Primeiro Comando da Capital (PCC), a multinacional do crime da América do Sul.

 

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AS FRASES - “Tudo quanto fazemos, na arte ou na vida, é a cópia imperfeita do que pensámos em fazer” - esta citação, de Bernardo Soares, é uma das que se podem ler em “Como Viver (ou não) em 777 Frases de Fernando Pessoa”, uma recolha organizada por Richard Zenith em 2014 e que tem agora nova edição. Zenith, radicado em Portugal há mais de trinta anos, é escritor, tradutor, investigador e um dos mais destacados especialistas da vida e obra pessoanas. É o autor de  “Pessoa, Uma Biografia”, finalista do Prémio Pulitzer em 2022 na categoria de Biografia e galardoado em 2012 com o Prémio Pessoa. Disposto em sete secções temáticas, “Como Viver (ou não) em 777 Frases de Fernando Pessoa” é um conjunto de reflexões e conselhos úteis para, nas palavras de Zenith,“viver, ou não - sendo o não viver uma das estratégias que Pessoa nos propõe para lidar com o misterioso e nem sempre cómodo facto de existirmos”.  Zenith, que descreve Fernando Pessoa como um fingidor inveterado, sublinha: “apresentada isoladamente, uma frase arrebatadora - tal como uma jóia preciosa - pode ganhar mais brilho e ter um sentido luminoso, mais forte”. Ao longo da sua vida Fernando Pessoa escreveu milhares de páginas em diversos géneros, sobre todos os assuntos imagináveis e com muitos nomes diferentes, e cultivou ao longo da vida  frases capazes de impor-se graças à originalidade da sua expressão e à grande capacidade de síntese, como por exemplo nesta outra citação: “Não ensines nada, pois ainda tens tudo que aprender”.  E, mais esta: “Contra argumentos não há factos.” Edição Quetzal.

 

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AGUARELAS -   “The Analysis of Beauty” é o título da nova exposição de Pedro Proença, que decorre até 30 de Agosto no Museu de História Natural e da Ciência. A exposição consiste numa série de 60 aguarelas sobre papel que Proença tem vindo a fazer desde há 5 anos, inspiradas em temas naturais, e com referência à rica tradição da ilustração científica, sobretudo do século XVII ao início do século XIX. Como sublinha a curadora, Sofia Marçal, “Pedro Proença através dos seus desenhos de uma representação metafórica e simbólica, exalta o Universo, enquanto poética, enquanto linguagem figurada, metáfora para uma literalidade crua delicada sem artifício, despojada”. E prossegue: “ o virtuosismo deste artista não nos deixa indiferente. Num contexto de expansão da temporalidade e da espacialidade a exposição habita a sala, em movimento, com gestos, pinceladas repetidos infinitivamente até à exaustão. ”  Outras obras partem de catálogos pessoais de morfologias (que Pedro Proença metodicamente faz e coleciona), para depois criar variações livres com base nessas ilustrações. O Museu de História Natural e da Ciência fica na Rua da Escola Politécnica 56, em Lisboa.

 

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ROTEIRO - Esta semana destaco a exposição “Vernissage”, de Pedro O Novo,  na Galeria Balcony (Rua Coronel Bento Roma 12A) até 6 de Setembro (na imagem). São dez pinturas, que mostram um universo onde a fantasia se cruza com o rigor geométrico do fascínio do autor pela arquitectura e uma imaginação delirante que utiliza o cenário do interior das casas que cria. No MUDE, em Lisboa, até 12 de Outubro pode ser vista a retrospectiva da obra de João Machado, um dos mais importantes nomes do design gráfico português, a partir da colecção doada pelo próprio ao Museu. No Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado Noé Sendas junta obras da sua autoria com uma selecção de peças da colecção do MNAC, numa exposição com o título “...On Thin Ice”, com curadoria de João Silvério, até 25 de Setembro. Em Reguengos de Monsaraz, Pedro Cabrita Reis apresenta até 5 de Outubro uma exposição com duas dezenas de obras recentes de pinturas e esculturas de parede executadas com materiais encontrados, da série “Natura Morta”. A exposição decorre na Igreja de Santiago, em Monsaraz e na Biblioteca Municipal de Reguengos de Monsaraz e tem por título “Pedro Cabrita Reis, Paisagem, Figura e Natureza Morta”. Nos Açores, em Ponta Delgada, a Galeria Fonseca Macedo apresenta  até 13 de  Setembro a exposição "Celebração e Resiliência"  com obras de João Miguel Ramos, Maria Ana Vasco Costa e Pedro Cabrita Reis.

 

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BALADAS IMPROVISADAS- O novo disco do saxofonista Joshua Redman, “Words Fall Short”, inclui oito temas originais compostos por ele próprio, um dos quais com a participação de Gabrielle Cavassa na voz, no último tema do disco, uma balada emocionante intitulada”Era’s End”. Outras participações dignas de nota são da saxofonista chilena Melissa Aldana  e do trompetista Skylar Tang que participam em alguns temas ao lado dos restantes membros da banda que acompanha Redman, o pianista Paul Cornish, o baixista Philip Norris e o percussionista Nazir Ebo. Depois de um álbum anterior essencialmente vocal, este “Words Fall Short” mostra o regresso de Redman àquilo que faz melhor - a construção de temas onde o seu saxofone se articula com os outros membros da banda, em sucessivos diálogos e improvisações, como se pode ouvir logo no tema de abertura, “A Message To Unsend”, o diálogo entre os saxofones de Redman e Melissa Aldana em “So It Goes” ou a forma como o saxofone de Joshua Redman se articula com o baixo de Phil Norris na balada “Borrowed Eyes”. Álbum Blue Note, disponível nas plataformas de streaming.

 

ALMANAQUE - E que tal um passeio na Avenida da Liberdade? Até 27 de Julho decorre a segunda edição do Arte  In Avenida, que decorre em vários espaços como lojas, hotéis e escritórios da Avenida da Liberdade, onde estão expostos originais de pintura, fotografia e escultura, da autoria de artistas da Sociedade Nacional de Belas Artes, responsável pela curadoria e organização da iniciativa. E no sábado 19  decorre o Passeio da Estrela, entre as 15 e as 19 horas, que propõe um percurso entre oito galerias da zona da Estrela e Rato, como 3+1 Arte Contemporânea, Cristina Guerra Contemporary Art, Encounter, Jahn und Jahn, Madragoa, Monitor, No- No e Pedro Cera. Mais informações nos sites destas galerias.

 

DIXIT - “A escola tem de ser democrática, não tem de impingir a doutrina democrática “ - António Barreto 

 

BACK TO BASICS -  “Cultura não é ler muito, nem saber muito; é conhecer muito” - Bernardo Soares

 

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SOBRE O DESEJO

pensamentos ociosos 27

por falcao, em 12.07.25

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Passeio por uma feira e de repente sou surpreendido por esta imagem:  um vestido desabitado à procura de alguém que o leve. É um vestido justo, exuberante, decotado, quase provocante. Chama a atenção, é impossível escapar-lhe. É fácil imaginá-lo a ser vestido por  alguém, a sair daquele terreno de feira para um corpo, ganhando outra vida, longe do carrossel. Irá para um salão de baile? Em que festa poderá ser usado? Quem o vestir de que música gosta? Vai ser usado mais vezes à noite ou durante o dia? Irá ajudar à vaidade de quem o vestir? Este é um vestido que levanta perguntas e desassossega a imaginação, cumpre na perfeição o papel de agente provocador. Roupa assim vistosa como este vestido vive em feiras de todo o mundo, com um carrossel por fundo e passeantes que circulam sem sequer o olharem. E, no entanto, ele é como um cartaz de propaganda, a pedir: “levem-me daqui!”. Nada se compara com esta realidade, palpável, que se desenrola à frente dos olhos. Um vestido assim não teria nenhum impacto num catálogo, não pode viver dentro de uma caixa de papelão de uma empresa de comércio electrónico. Precisa de espaço, de ser tocado, apreciado, desejado. Funciona na banca de uma feira, não funciona num catálogo de compras online. Fica na cabeça de quem por ali passa, talvez alguém volte para o resgatar do terreiro da feira e lhe dê um corpo para passear. Gosto de imaginar qual terá sido a sua vida e que ilusão deu a quem o usou. Por um dia, foi a feira das vaidades de alguém.



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GANHAR ELEIÇÕES SEM PODER GOVERNAR?

por falcao, em 11.07.25

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AS AUTÁRQUICAS - Faltam cerca de três meses para as eleições autárquicas de 12 de Outubro. Vão ser três meses de intensa campanha eleitoral, que muitas vezes se vai confundir com as festas de verão que se realizam por todo o país. É inevitável surgirem grandes alterações, já que um número elevado de autarcas atingiu o limite de mandatos e terão que ser substituídos e também porque o leque partidário mudou. O Chega teve uma grande subida nas legislativas, mas nas anteriores autárquicas não conquistou nenhum concelho e agora apresenta 21 dos seus 60 deputados como candidatos a câmaras importantes. Acresce que é nestas eleições  que surge um número elevado de candidatos independentes, fora do sistema partidário existente, o que também pode provocar surpresas. Nas autárquicas todos os candidatos, no entanto, se defrontam com uma situação bizarra, que não acontece noutras eleições: mesmo que ganhem podem ter que dividir a governação do município ou freguesia com pessoas que não são da sua confiança, e frequentemente são levados a acordos pouco naturais. Uma das queixas recorrentes dos autarcas nessa situação é a dificuldade em aplicar um programa e cumprir promessas quando, tendo vencido as eleições, a maioria dos vereadores é da oposição. A Lei Eleitoral Autárquica de 1976 criou, fruto da época e das contingências da então jovem democracia, executivos autárquicos onde coexistem vencedores e vencidos. Isto, apesar de a diversidade política e partidária se encontrar garantida nas Assembleias Municipais e de Freguesia, que têm importantes competências, nomeadamente em termos da aprovação dos orçamentos anuais. As sucessivas alterações à Lei Eleitoral de 1976 não mexeram nesta situação. Na minha opinião o candidato vencedor nas eleições autárquicas devia poder formar um executivo da sua escolha, tal como o Primeiro-Ministro escolhe os seus Ministros. As Assembleias Municipais ou de Freguesia seriam o órgão fiscalizador, com capacidade para votar algumas questões estruturais, tal como acontece entre Governo e Assembleia da República. Uma tarefa urgente e necessária em próxima revisão de leis eleitorais seria corrigir esta anomalia, devolvendo aos eleitores a concretização cabal das suas escolhas. Se assim não for fica difícil verificar se os vencedores, que tiveram bloqueios da oposição, conseguiram cumprir o que prometeram nas campanhas eleitorais. E assim se cria mais desconfiança no sistema e nos políticos.

 

SEMANADA - O Governo retirou a promoção da ética e responsabilidade na vida pública do seu novo código de conduta; o constitucionalista Jorge Miranda considera que a proposta de nova lei da nacionalidade do Governo contém várias inconstitucionalidades; dados da OCDE mostram que sem imigrantes, a população activa em Portugal diminuiria e aquela organização defende que é preciso continuar a atrair estrangeiros, sobretudo para áreas menos qualificadas; existem actualmente 515 mil pessoas com pedidos de nacionalidade pendentes, dez vezes mais que há uma década; apenas 25% das naturalizações são de migrantes residentes em Portugal há seis anos; 60% dos “novos portugueses” vivem fora do país; 21% dos comboios da CP sofreram atrasos em 2024, o valor mais elevado em 11 anos; o Alfa Pendular regista o pior desempenho, com atrasos em 66% das viagens; em Lisboa foi criada uma plataforma de associações cívicas que pretende diminuir o ruído nocturno e o consumo de bebidas alcoólicas na via pública; o número de agentes da Polícia Municipal de Lisboa está no valor mais baixo dos últimos anos e apenas estão instaladas 64 das 216 câmeras de videovigilância cujo licenciamento está efectuado há quase quatro anos; a proibição de voos nocturnos entre a uma e as cinco da madrugada, anunciada há sete meses, ainda não se concretizou e o Ministro das Infraestruturas, Miguel Pinto Luz, desculpa-se dizendo que a medida “ demora um tempo a ser implementada”; o Aeroporto de Lisboa, o oitavo com maior número de passageiros na União Europeia,  registou 1137 voos noturnos nos últimos 14 dias de junho.

 

O ARCO DA VELHA - O transporte de emergência durante a noite conta com apenas um helicóptero para todo o território nacional e a empresa à qual o Governo entregou o helitransporte de emergência médica durante os próximos cinco anos não tem aeronaves nem pilotos e anda agora a tentar arranjá-los.

 

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A EVOLUÇÃO DAS ESPÉCIES  -  Jason Roberts é um jornalista norte-americano que tem escrito ficção e sobre temas científicos. Já ganhou vários prémios, entre os quais um Pulitzer, pelo livro “A Invenção da Biologia - Linnaeus, Buffon e Todos os Seres Vivos”, publicado originalmente em 2024 e agora editado em Portugal. O livro, escrito como um relato de aventuras, traça as origens do darwinismo no século XVIII, ou seja antes do próprio Darwin. Roberts investigou durante uma década as vidas e os legados científicos de dois grandes pioneiros: Carl Linnaeus e Georges-Louis de Buffon. Nesse século XVIII ambos tinham a mesma idade mas personalidades totalmente opostas. E ambos dedicaram as suas vidas a identificar e descrever todas as formas de vida na Terra. Carl Linnaeus, um médico sueco muito devoto e com dotes de comerciante, considerava que a classificação devia corresponder a categorias ordenadas e estáticas. Pelo contrário, Georges-Louis de Buffon, aristocrata, polímata e diretor do Jardin du Roi de França, via a vida como um turbilhão dinâmico e complexo. O livro de Roberts narra de forma envolvente as vidas destes sábios e acaba por traçar, a partir dos trabalhos originais, um arco de descoberta e conhecimento que se estende depois por três séculos. Edição Temas & Debates.

 

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UMA CASA PROVOCADORA  -   O destaque da semana vai para a nova exposição de Serralves, “Sussurro”, que mostra 26 obras do artista italiano Maurizio Cattelan e que poderá ser visitada até 11 de Janeiro. A exposição está montada na Casa de Serralves, um edifício Art Deco dos anos 30, e que se situa no extenso parque da Fundação de Serralves. As 26 obras estão distribuídas pelos dois andares da casa e pelo seu parque e foi concebida e desenvolvida para esta localização, com curadoria de Philippe Vergne, director do Museu de Serralves. Ali podem ser vistas algumas das peças mais conhecidas de Cattelan, como a imagem do Papa caído, dois homens dormindo num estreito leito, um cavalo suspenso (na fotografia, de NV Studio) e várias outras, como como Him, L.O.V.E., Comedian, La Nona Ora, Breath e Daddy Daddy, que  são apresentadas pela primeira vez em Portugal. A obra de Cattelan, polémica, provocante, com um sentido de humor especial, é apresentada como uma reflexão sobre a história do nosso tempo e nas palavras de Philippe Vergne “demonstram o interesse de Maurizio Cattelan pela História: mudanças históricas, traumas históricos e ícones históricos (...) O instante suspenso e fugidio entre a infância e a idade adulta, entre a vida e a morte, entre eras históricas, entre o riso e o choro, é a origem da sua iconografia. Ele transforma esses momentos em ícones”

 

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ROTEIRO - Por estes dias, se forem visitar a magnífica exposição de Miriam Cahn no MAAT Central não deixem de ver, no mesmo local, a exposição “lápis de pintar dias cinzentos - obras da colecção de arte da Fundação EDP”. Inspirada num título de um projecto de Carlos Nogueira, a exposição inclui obras de nomes como Ângelo de Sousa, Carlos Nogueira,Eduardo Batarda, Eduardo Gageiro, Helena Almeida, Jorge Martins, José Loureiro, Luísa Cunha, Maria Beatriz, Maria José Oliveira e René Bertholo na imagem), entre outros. Para apresentar esta exposição, com curadoria de Margarida Almeida Chantre, o MAAT remodelou o espaço Cinzeiro 8, no rés do chão do edifício Central, criando divisões que permitem uma nova forma, muito bem conseguida,  de expôr e ver. “lápis de pintar dias cinzentos” fica até 27 de Outubro. Outras sugestões: na Sociedade Nacional de Belas Artes o fotojornalista Luiz Carvalho apresenta uma selecção de imagens que fez logo nos primeiros dias de liberdade com o título “50 de 25”, um documento importante de uma época. Também em Lisboa, no MUDE, pode ser vista até 12 de Outubro a retrospectiva da  obra de João Machado, um dos mais importantes e influentes nomes do design gráfico português, a partir da colecção doada pelo próprio. E para finalizar  no Museu Berardo Estremoz, focado na azulejaria, pode ver novas aquisições, com destaque para o  conjunto de azulejos provenientes do Paço Ducal de Vila Viçosa que revestiam as salas mais requintadas deste palácio. Estes azulejos fizeram parte da uma encomenda do Duque D. Teodósio às oficinas de Antuérpia e é considerado um verdadeiro tesouro nacional, por se tratar do primeiro programa azulejar renascentista do país. O Museu está localizado no Palácio Tocha.

 

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JAZZ PORTUGUÊS - O  Indra  Trio é uma das formações de jazz portuguesas que tem mantido uma actividade mais constante. O seu novo disco, “Brahma”, o terceiro de originais, continua a contar com a participação de Luís Barrigas na composição e piano, Jorge Moniz na bateria e João Custódio no contrabaixo, mas acrescenta a participação do saxofonista alemão Uli Kempendorff. O disco continua no caminho da combinação dos ambientes do jazz europeu contemporâneo, com influências do folclore português, como em “Mondadeira Alentejana”, um dos nove temas do álbum. O Indra Trio procura agora a internacionalização e o concerto de apresentação vai ter lugar dia 16 de Julho no Zig Zag Jazz Club, em Berlim. Disponível em CD e nas plataformas de streaming.

 

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ALMANAQUE - Desta vez a recomendação do Almanaque mistura comida com Arte. Para celebrar os seus 25 anos de existência, a pizzaria Casanova (na Bica do Sapato, junto ao Lux) convidou Pedro Calapez a criar duas obras que estão na parede de entrada e criam um novo ambiente no espaço, agora também remodelado e ampliado do restaurante. As pizzas continuam boas, a esplanada pede um Campari e, se lhe apetecer outra coisa, a lista vai além das pizzas.

 

DIXIT - “Voto em (...) quem demonstre que está realmente interessado nos serviços municipais, no espaço público, na beleza das cidades, no conforto dos cidadãos, na paz e no sossego das pessoas, no descanso de quem trabalha, na alegria de viver em comunidade” - António Barreto

 

BACK TO BASICS -  “Tenho a teoria de que a verdade nunca é dita em funções oficiais” - Hunter S. Thompson

 

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OS DIAS DA BRASA

pensamentos ociosos 27

por falcao, em 05.07.25

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O calor era imenso. Todos o sentimos nestes dias. O sol escaldava desde bem cedo e, mesmo quem gosta de calor, sentia-se incomodado. Pessoalmente creio que, mais que o frio ou o vento, é o calor o que mais perturba. Tolhe o raciocínio, corta-nos os movimentos, faz-nos parecer pasmados. Há no entanto três coisas que nos podem animar no tempo quente: aquele momento do dia em que a luz começa a desaparecer e sopra uma brisa, as árvores que nos abrigam e água no horizonte. O fim da tarde à beira de um rio é nestas alturas a melhor coisa que pode acontecer. A luz muda de figura, desenham-se as sombras e os meios tons, atenua-se o contraste da luz dura e brilhante, o rio é um espelho que reflecte as margens. E é nestas alturas que me vem à memória, cada vez mais nestes dias, estas palavras de Bertolt Brecht:  “Do rio que tudo arrasta se diz que é violento/ mas ninguém diz violentas as/ margens que o comprimem”. Nestes dias da brasa, de calor intenso e em que o mundo salta de confusão em convulsão, lembro-me sempre do poema de onde estes versos são tirados, “Sobre a Violência”, escrito no final dos anos 30 do século passado quando o mundo começava a sentir a agitação que levaria a uma guerra mundial. Fico a pensar nisto enquanto olho para esta paisagem, que descobri nas Portas de Ródão, onde o Tejo se mostra e vence as margens. 



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OS PROBLEMAS DA RTP

por falcao, em 04.07.25

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A VACA SAGRADA- Na semana passada subiram aos céus vozes indignadas pelo anúncio de mudanças na RTP.  Para um sector da opinião pública, mas sobretudo da opinião política, a RTP é uma espécie de vaca sagrada intocável à qual tudo se deve permitir. As mudanças agora anunciadas foram justificadas pela perda de audiências, que é real em todos os canais de televisão do grupo, mas não é o seu problema fundamental. Há muito tempo que o conceito de serviço público se foi desvanecendo e a maior parte das recentes mexidas já devia ter sido feita, mas este CA da RTP tem uma inércia considerável. A reestruturação agora anunciada tem coisas positivas como a remodelação da área da informação e alterações na direcção de canais da rádio e televisão. Mas é insuficiente,  continua a faltar coragem para diminuir o número de canais como, por exemplo,  fazer um só canal internacional e, sobretudo, definir com clareza o papel de cada um sem criar ghettos. O maior equívoco, no entanto, é considerar que a perda de audiências é o grande problema da RTP, quando, na realidade, o seu grande problema é a irrelevância de conteúdos, em termos de serviço público, quer na programação, quer na informação. A RTP funciona por quintas, entre direcções de canais das diversas áreas, o que provoca uma clara falta de coerência de actuação aos mais diversos níveis. A solução para isto seria seguir o modelo, existente em tantos grupos de mídia,  ter um Director-Geral que garantisse a coordenação de acordo com os perfis de cada canal e os alvos de público que pretende fixar, alguém que supervisionasse  e harmonizasse a programação e a informação dos vários canais e, sobretudo,  os enquadrasse dentro do espírito de serviço público, complementar e não concorrencial aos canais privados. Por exemplo, a RTP gasta uma verba importante do seu orçamento nos direitos de transmissão dos jogos da selecção portuguesa, da Taça de Portugal e de outros jogos, aos quais acrescem os custos técnicos e humanos da operação, que não são pequenos. Esta tradição vem do tempo em que não havia outros canais para os emitir e justificava-se para garantir o acesso do público à transmissão dessas provas desportivas em sinal aberto. Hoje essa razão não existe, os canais privados teriam aliás interesse em ser eles a fazer essa transmissão, mas a RTP assume como serviço público uma coisa que de facto já não é. Do meu ponto de vista questões como o reforço da informação regional, a produção de programação infantil, a criação de mais documentários  e séries de ficção nacionais são de facto áreas onde faz sentido o serviço público investir meios.  Na informação a RTP preocupa-se mais com as guerras em S. Bento, Belém e nas sedes dos partidos do que o que se passa no resto do país. Os debates que promove são maioritariamente sobre tricas da capital política, através de comentadores que são eles próprios políticos, meros megafones das posições partidárias. Protegida por um CGI que teoricamente seria um Conselho Geral Independente mas que é, na verdade, um colégio de comissários políticos que bem merecem o nome de Conselho Geral Inútil, a RTP tornou-se maioritariamente um serviço dispensável, dando assim razão aos que não percebem, ou não querem perceber, como é importante existir um serviço público audiovisual. Já agora, comissários políticos por comissários políticos, mais valia extinguir o CGI e voltar a colocar a RTP nas mãos da Assembleia da República. Ganhava-se transparência.


SEMANADA - Cerca de 30% dos trabalhadores e 22% das empresas estão no distrito de Lisboa e a diferença salarial aumentou em 10 anos, sendo que a capital paga mais 335 euros que o Porto, 534 que Braga e 643 que Bragança; nos primeiros seis meses deste ano já se verificaram 17 homicídios em contexto de violência doméstica; um estudo recente revela que em Portugal existem actualmente mais de 4.300 impostos e taxas cobrados pelo Estado a vários níveis, sublinha que existe falta de transparência na sua aplicação assim como dificuldade em identificar a base legal aplicável; no ano passado, 24,3% da população tinha 65 ou mais anos e a faixa etária até aos 14 anos não chegava a 13% do total, o número mais baixo desde 1970;  em 2023, registaram-se 518 óbitos por ingestão de água contaminada e falta de higiene, 57% dos quais em maiores de 85 anos; três mil pessoas sofreram quedas em hospitais nos últimos cinco anos; fogo posto esteve na origem de 82% da área ardida no ano passado e as perdas na floresta foram estimadas em 67 milhões de euros; dos 1500 edifícios públicos que deviam ser intervencionados para melhoria das acessibilidades das pessoas com deficiência, apenas dez têm as obras concluídas e os prazos de execução desta intervenção financiada ao abrigo do PRR terminam já no final deste ano; só 30% dos alunos concluem o mestrado nos dois anos previstos e nas licenciaturas de três anos pouco menos de metade (45,6%) acaba no tempo esperado.

 

O ARCO DA VELHA -Uma dermatologista do hospital de Santa Maria teve registadas em seu nome a realização de cirurgias enquanto se encontrava fora do país.

 

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O NOVO MUNDO  - Bruno Maçães foi Secretário de Estado para os Assuntos Europeus durante a crise da Zona Euro¸ é consultor nas áreas da geopolítica e tecnologia, e também colunista na New Statesman. No seu novo livro, agora lançado,  “Construtores de Mundos- a Tecnologia e a Nova Geopolítica” defende que, tendo a política mundial mudado, a geopolítica deixou de ser simplesmente uma competição pelo controlo territorial, mas também pela adopção de novas tecnologias. Bruno Maçães enquadra nesta  «construção do mundo» os acontecimentos mais importantes dos nossos tempos, que assim surgem subitamente ligados , como as guerras tecnológicas entre a China e os Estados Unidos, a pandemia, a guerra na Ucrânia e a transição energética. No livro Maçães considera um futuro mais distante, em que o metaverso e a inteligência artificial  transformam o mundo.  «Num livro original e ricamente documentado, Bruno Maçães afirma que a revolução tecnológica está a transformar o significado de “geo” na palavra “geopolítica”. É um argumento sofisticado e muitíssimo estimulante, que fará refletir todos os interessados em questões internacionais, afirma o historiador Timothy Garton Ash, autor de “Pátrias: Uma História Pessoal da Europa” . Edição Temas e Debates.

 

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VER OS CORPOS -    Uma das melhores exposições que pode ser vista em Lisboa é “Miriam Cahn - O que nos olha”,  até 27 de Outubro no MAAT Central. Com curadoria de João Pinharanda e Sérgio Mah, esta é a primeira exposição individual da artista suíça em Portugal e incide maioritariamente na sua produção recente, embora o conjunto de quase 160 obras que o MAAT apresenta inclua alguns trabalhos das décadas de 70, 80 e 90 do século XX.  Miriam Cahn é uma das mais importantes artistas contemporâneas europeias, com destaque para a pintura e o desenho, mas  também a escultura, a instalação, o vídeo e a fotografia. Tem explorado tópicos sociais relacionados com a sua objeção a todas as formas de opressão e abordado questões políticas da atualidade, incluindo a violência de género, os conflitos migratórios e os conflitos armados. Na sua obra é frequente a utilização de figuras humanas, caras, uma presença constante do corpo, como acontece nesta obra aqui reproduzida, “unser fruhling”, “a nossa primavera”.

 

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ROTEIRO - Na semana passada abriu uma nova galeria em Lisboa, a "Ilha" na Praça das Flores 48. A exposição inaugural chama-se ¨Raízes, Narrativas Brutas do Brasil¨ e apresenta obras de diversos autores que, nas palavras do curador, “evidenciam as fronteiras entre a técnica e a criação intuitiva, mostrando as diferentes linguagens visuais baseadas nas experiências pessoais e em formas de expressão originais desenvolvidas fora das instituições académicas“. Na exposição estão trabalhos de Amadeu Luciano Lorenzato (na imagem), Chico da Silva, Leda Catunda, Paulo Monteiro, Miriam Inez da Silva, Mestre Didi, Odoterres Ricardo de OZIAS, Markus Avelino Sales e Tarsila do Amaral. Até 11 de Julho pode ver na Galeria Fundação Amélia de Mello, no edifício da Biblioteca da Universidade Católica de Lisboa, a exposição “Civilization and It Poisoned Me“,  com obras de Ana Jotta, Carlos Bunga,Cecília Costa, Clara Menéres, Hugo Canoilas, João Louro, Jorge Queiroz,Kiluanji Kia Henda,Maria Capelo, Sara Bichão e Sara Sadik. Finalmente, na Casa da Imprensa, pode ser vista uma exposição sobre a obra do cartoonista Vasco, organizada pela CC11, com desenhos originais, capas de jornais que desenhou, livros e revistas, além de um excerto de um filme do cineasta Rui Simões. 

 

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O SPRINGSTEEN ESCONDIDO - Aos 75 anos Bruce Springsteen acabou de lançar um conjunto de sete discos, sob o título “Tracks II- The Lost Albuns“, com 83 canções, 74 das quais nunca tinham sido editadas. Para este conjunto de gravações, que no total tem cinco horas e 20 minutos de duração, Springsteen e Ron Ângelo, o produtor e músico multi-instrumentista que tem trabalhado com ele desde 2010, optimizaram a qualidade das misturas e adicionaram algumas novas partes instrumentais, sem no entanto alterar nada à gravação original da voz. Os sete álbuns foram gravados ao longo dos anos, desenvolvidos como projectos que Springsteen elaborou no seu próprio estúdio, e seis deles incorporam estilos que vão desde a country à low-fi, passando pela Ranchera Mexicana à retro-pop. O sétimo, “Perfect World“, é uma compilação de canções rock que Springsteen gravou desde os anos 90 até 2010 e uma delas, “Rain In The River” já é considerada uma das suas criações mais fortes, uma balada onde faz uma das suas melhores interpretações vocais de sempre. Os registos mais antigos datam de 1983, há uma série de gravações da épooca do álbum “Western Stars” de 2019, um outro disco tem temas escritos e gravados em 2005 para a banda sonora de um western e que nunca foram utilizados. É curioso seguir a evolução da voz de Springsteen ao longo dos anos, ver como continua a contar sob a forma de canções a história de pessoas, como utiliza arranjos simples e como é tão confessional sobre o que vai sentindo. Disponível nas plataformas de streaming.

 

DIXIT - “A Defesa e a Nacionalidade são coisas sérias. Com elas não se brinca. Nem se faz política  barata.“ - António Barreto, no “Público“.

 

BACK TO BASICS -   “Se Deus tivesse pensado em eleições ter-nos-ia dado candidatos“ - Jay Leno

 

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