Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Uma das coisas que gosto de fazer é olhar para o mar a diversas horas. E uma das coisas mais fascinantes que podemos experimentar é ver como a luz ao longo do dia faz mudar o que vemos - as cores, o brilho, tudo. A luz é uma fábrica de ilusões, tanto acentua a nitidez da realidade como insinua o mistério da fantasia. A fotografia é a extensão do olhar que nos permite moldar a luz, fixá-la, e até mesmo alterá-la- David Hockney, o célebre pintor britânico, tem uma frase de que gosto muito: ”as fotografias não são exactamente o que nós achamos que elas são”. Por isso mesmo a fotografia pode ser realidade ou fantasia mesmo sem usar truques ou manipulações. Moldar a luz, ver para além das aparências, é uma coisa de que gosto. Ver a luz a incidir no mar permite imaginar que estamos a ver algo diferente, que o horizonte se confunde com a água, que na realidade os limites de uma coisa e de outra são variáveis. A luz é a ferramenta do olhar e quem fica a imaginar o que vê à sua frente encontra nas variações da luz a chave para poder descobrir outros olhares, para fantasiar e até para descobrir. Onde nos lava o mar? Ao fim do horizonte? Ou é o horizonte que nos traz o mar? Olhar é um exercício de procurar respostas para descobrir o que a luz nos oferece. E poucas coisas são mais aliciantes do que conseguir parar para ver e pensar. Andamos todos com tanta pressa que olhamos pouco. E sendo assim, pensamos ainda menos.
(Publicado em sapo.pt às sextas-feiras)

LÁ VAI LISBOA - Gosto sempre de ler aquilo que os estrangeiros dizem sobre Portugal e os portugueses. Recentemente o jornal Guardian publicou um artigo de uma inglesa que vive em Lisboa desde há cinco anos, Alex Holder, na qual ela se interroga sobre se estará na hora de, tal como outros nómadas digitais já ponderam, deixar a cidade. A autora admite que existe uma tensão crescente entre os estrangeiros que vêm para Lisboa beneficiar dos incentivos fiscais dados aos estrangeiros e o resto da população que crescentemente olha para eles com desconfiança. E interroga-se, ela própria, sobre se esta situação está a ser mais prejudicial que benéfica ao país que os acolhe e sabe que muitos locais cada vez mais acham os residentes estrangeiros arrogantes e olham para eles de lado. Ela tem consciência que este afluxo de nómadas digitais fez disparar os preços das rendas de casa e do imobiliário em geral, assim como influencia o aumento do custo de vida. E sente que há lisboetas que já não escondem o seu desagrado pela invasão estrangeira, que cada vez torna mais difícil a vida na sua cidade. Eu próprio sou testemunha de que em Campo de Ourique, onde na colónia de estrangeiros há uma maioria de franceses, a arrogância que mostram, típica aliás da sua nacionalidade, é notória e muito desagradável. E no Centro Comercial das Amoreiras, em tempo de aulas, agora quase a recomeçar, as barulhentas invasões de alunos do Liceu Francês, que fica do outro lado da rua, mostram o seu lado arruaceiro, gritando palavrões em francês com a arrogância dos imbecis que julgam que só eles falam esse idioma. Alex Holder relata o rol de coisas que aconteceram na cidade nos últimos anos: lojas tradicionais a fechar, novas lojas abertas por estrangeiros que não têm nada a ver com a cultura local e que funcionam num ghetto onde proprietários e clientes são de outros países e onde mal se encontram portugueses. A autora reconhece que há um crescente isolamento entre a comunidade de estrangeiros de vários países que trabalham remotamente a partir de Lisboa e os portugueses, que ganham menos, pagam mais impostos e se vão vendo desalojados da sua cidade. Holder admite que, face ao aumento dos preços, agravado com a entrada em cena de norte-americanos, que acham tudo barato e são litigantes e conflituais, até mesmo pessoas de outros países admitem já começar a pensar em encontrar novo poiso. E já nem se fala do lixo acumulado e agravado pela invasão de turistas, das ruas sujas e descuidadas, dos jardins que se deterioram. Lisboa, que começou a ser vendida às postas por Medina, continua, infelizmente, nas mãos de Moedas, a ser entregue a quem mais der. Estou certo que não foi nisto que muitos lisboetas, entre os quais me incluo, votaram há quatro anos.
SEMANADA - No primeiro semestre deste ano as câmaras municipais arrecadaram um valor histórico de 65 milhões de euros com a taxa turística, valor que compara com os 33 milhões de euros encaixados no mesmo período do ano passado; Lisboa já cobrou em taxas turisticas, no primeiro semestre deste ano, 38,3 milhões de euros, um aumento de 98% em relação ao mesmo período de 2024; a receita total do Imposto Municipal sobre as Transmissões onerosas de imóveis (IMT) ascendeu a 1.732,8 milhões de euros em 2024, o valor mais elevado de sempre; a receita total de IMI relativa ao ano de 2024 foi de 1.466 milhões; as autarquias arrecadaram portanto cerca de 3,2 mil milhões de euros com impostos relativos à compra ou posse de casa; a fatura média da água subiu mais de 16% em três anos, sendo que a gestão dos resíduos urbanos e das águas residuais é responsável por 59% da fatura do fornecimento de água; por todo o país sucedem-se as queixas pela acumulação de lixo nas ruas cujo tratamento é da responsabilidade das autarquias, e isto apesar de todos os valores que cobram em impostos e taxas; os municípios portugueses já gastaram neste ano eleitoral entre 1 de janeiro e 20 de agosto mais 32% em concertos do que no mesmo período de 2024, num total de 13,4 milhões de euros; há câmaras municipais, como Tábua, Melgaço e Évora, que levam mais de cinco meses a pagar aos seus fornecedores e pelo menos 5,5% dos municípios em Portugal pagam as suas faturas a mais de 60 dias; Setúbal, Santa Comba Dão e Pinhel demoram mais de cem dias a pagar; os fundos do PRR para a construção de faixas de segurança para facilitar o combate a incêndios florestais tinham apenas 23% de execução em junho passado; o Portal da Queixa já recebeu este ano mais 18% de queixas dirigidas a câmaras municipais sobre a falta de limpeza de matas e terrenos.
O ARCO DA VELHA - Há seis entidades diferentes no dispositivo de combate aos incêndios florestais, há dispersão e funções duplicadas, demasiados chefes e não existe um mecanismo comum de coordenação e comando, indica um estudo divulgado esta semana.

UM MISTÉRIO GELADO - Dos livros que já li da islandesa Yrsa Sigurdardóttir “A Presa”, um original de 2020 agora editado entre nós é um dos mais imprevistos em termos de narrativa e inesperados em termos de conclusão. É um misto de livro policial e de história de terror. Ao contrário de boa parte dos livros da autora já editados em Portugal, este não se baseia em nenhuma das personagens recorrentes da sua ficção, como Thóra Gudmundsdóttir ou Freyja & Huldar (que protagonizaram a série DNA). Em “A Presa” Yrsa Sigurdardóttir desenvolve uma história que se desenrola entre a descoberta de um sapato de criança enterrado no jardim de uma casa, a busca por um grupo de aventureiros mal preparados numa expedição nas paisagens geladas da Islândia e uma estranha morte ocorrida muitos anos antes. As duas histórias não se cruzam e têm um remoto ponto comum. Quando o leitor pensa que uma vez resolvido mistério do desaparecimento e morte, pelo frio, dos aventureiros, é confrontado com uma nova situação, que não vou aqui relatar e que mostra a capacidade ficcional da autora. As 400 páginas do livro lêem-se num fôlego, sempre na expectativa do que pode acontecer a seguir. Mas é esse o objectivo de um policial, certo? Boa tradução de Maria José Figueiredo, edição Quetzal.

UM OÁSIS NO VERÃO - A Galeria Salgadeiras - Arte Contemporânea, que se chama assim por ter nascido na Rua das Salgadeiras, no Bairro Alto, mudou há alguns meses para a zona de Alvalade, que começa a concentrar uma assinalável actividade nesta área. Ao longo dos tempos a Salgadeiras, dirigida por Ana Matos, tem criado uma identidade própria, atenta a novos artistas e a vários géneros de expressão artística, do desenho ao vídeo, passando pela fotografia, a pintura ou a escultura. Agora, quando grande parte das galerias de arte lisboetas ainda estão encerradas para férias, a Salgadeiras abriu na semana passada a exposição «Queimar o céu da boca», que é apresentada como uma colectiva de verão e que teve curadoria de Rui Dias Monteiro, para quem esta mostra “é resultado de um ano de convívio e de trabalho com os artistas e obras da galeria”. Estão expostos até 20 de Setembro trabalhos de Augusto Brázio, Fátima Frade Reis, Martinho Costa, Rita Gaspar Vieira, Rui Horta Pereira (na imagem) e Rui Soares Costa. A Salgadeiras fica na Avenida dos Estados Unidos da América 53D.

ROTEIRO - Em Lisboa, na Galeria Vera Cortês, pode ver até 13 de Setembro “Al Tramonto” uma exposição colectiva com curadoria de Antonia Gaeta, que agrupa trabalhos de Ana Santos, Fala Mariam de Lisboa, Juliana Matsumura e Manuela Marques (na imagem). Mais a a sul, na Casa das Artes , em Tavira, pode ver até 13 de Setembro a exposição que assinala 40 anos da galeria. Sob o título “Empatia e Resistência” são exibidas obras de quatro dezenas de artistas como Adriana Molder, André Cepeda, João Louro, Manuel João Vieira, Pedro Cabrita Reis, Pedro Chorão, Pedro Calapez, Rui Chafes, Xana e Valter Vinagre, entre outros. E para finalizar, no Museu Berardo Estremoz, focado na azulejaria, pode-se ver até novas aquisições, com destaque para o conjunto de azulejos provenientes do Paço Ducal de Vila Viçosa que revestiam as salas mais requintadas deste palácio. Estes azulejos fizeram parte de uma encomenda do Duque D. Teodósio às oficinas de Antuérpia e é considerado um verdadeiro tesouro nacional, por se tratar do primeiro programa azulejar renascentista do país. O Museu está localizado no Palácio Tocha.

UM DISCO DELICIOSAMENTE SIMPLES - Cass McCombs é um músico e compositor norte-americano que tem tido uma discreta mas importante carreira no território folk-rock, que começou no início deste século e que tem já no activo 11 álbuns, o mais recente dos quais é “Interior Live Oak”, editado fisicamente na forma de um duplo LP com 16 músicas que totalizam 74 minutos. McCombs é antes de mais um esplêndido contador de histórias, cada canção desenha-se como um capítulo de uma novela onde ele nos vai contando as suas experiências de vida e desejos em canções que têm títulos como “Home At Last”, “I’m Not Ashamed”, “I Never Dream About Trains”, “Diamonds in The Mine” ou o delicioso “Lola Montez Danced The Spider Dance”. A produção é minimalista, no disco McCombs canta e toca guitarra com mais três músicos: bateria, baixo e teclas. Este “Interior Live Oak” é mais uma prova de que a simplicidade pode ser a melhor forma de fazer música - canções com boas melodias, palavras que fazem sentido e arranjos eficazes. Disponível em streaming.

ALMANAQUE - A Atlas Gallery, de Londres, adquiriu recentemente todo o importante espólio de fotografia da Marlborough Gallery que inclui impressões de exposição assinadas por nomes como Berenice Abbott, Brassai, Robert Frank, Helmut Newton e Bill Brandt. Para assinalar a compra desta importante colecção expõe até 25 de Outubro uma série de fotografias feitas por Bill Brandt sob o título “Beach Nudes”, a maioria nos anos 40 e 50 do século passado na costa leste de Sussex e no sul de França. As fotografias foram feitas quase sempre com uma grande angular que distorcia propositadamente as formas dos corpos fotografados. A Atlas Gallery fica no nº 49 de Dorset Street.
DIXIT - “Um desleixo civilizacional generalizado em relação ao espaço público por parte dos responsáveis em Lisboa” - Teresa Gouveia, a propósito da situação no Jardim do Príncipe Real.
BACK TO BASICS - “Um pacificador é alguém que vai alimentando um crocodilo na esperança que o animal não o devore “ - Sir Winston Churchill
A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS

Cada vez que visito um mercado tradicional lembro-me que deve haver pessoas que acham que a rúcula nasce dentro de pacotes de celofane, que os limões saem da terra envernizados e que se esfregam nas maçãs para com elas partilhar esse verniz. Essas pessoas nunca provaram uma folha de rúcula fresca na banca de legumes de um mercado e não fazem ideia do que estão a perder. Não fazem ideia do aroma que se desprende de um molho de beldroegas das autênticas e não de estufa. Não sabem o que é a lascívia deixada na boca pelas maçãs riscadiinhas de Palmela acabadas de colher nesta altura do ano. Há uma geração que olha para o que consome no dia a dia como tudo sendo naturalmente empacotado e acondicionado. Olhem a fruta - cansada de viagens transatlânticas que baralham as estações, exausta de tanto tempo em câmaras frigoríficas, arrancada às árvores ainda longe de estar boa para consumo, esse ponto ideal de amadurecimento que exalta o sabor e que raramente se consegue na banca de um supermercado. Uma visita a um mercado tradicional é uma lufada de ar fresco que nos faz lembrar aromas e sabores entretanto esquecidos. É uma aprendizagem com talhantes experientes que sabem como cortar a carne de forma a enaltecer o seu paladar, é uma descoberta de conselhos para melhor confeccionar o que sai do mar com peixeiras que sabem amanhar o peixe. E pode ser também a descoberta de um tesouro, como estes alhos bem portugueses, hoje em dia cada vez mais raros, ausentes dos supermercados mas bem presentes nos mercados, viçosos, de côr esplêndida, em vez dos raquíticos exemplares, importados de tão longe como a China, e que cá arribam sem sabor, incapazes de desempenhar o seu papel de dar aroma e sabor ao que se cozinha.

VAMOS EMBORA - Na semana passada, na pior altura dos incêndios, o primeiro-ministro foi repetidamente fotografado na praia, com o seu permanente sorriso de anúncio dentífrico e mais tarde, talvez no pior dia dos fogos, surgiu radiante na Festa do Pontal, um evento tradicional do PSD que mistura comício com cantorias. Qualquer pessoa tem direito a ter férias e a promover festas, mas um primeiro-ministro tem deveres especiais - retomando uma velha frase, “à mulher de César não basta ser honesta, tem que parecer honesta". Montenegro parece não se preocupar com isso, mas no entanto foi ele próprio, em 2022 e 2023, a criticar a atitude do então governo de António Costa face aos incêndios que assolavam o país. Mais: pouco tempo depois de iniciar funções como líder do PSD e da oposição, em 2022, Luís Montenegro foi a Pedrógão recordar a tragédia que ali ocorrera em 2017 e criticou a falta de preparação do Governo de António Costa para enfrentar os incêndios. Agora, que é primeiro-ministro, preferiu o silêncio que antes denunciava. Ninguém quer que os membros do governo andem de mangueira na mão a apagar fogos e menos ainda que estejam no meio da floresta a atrapalhar os bombeiros. Mas espera-se que definam políticas de prevenção, que controlem a sua execução, que tenham meios prontos a funcionar em vez de aviões Canadair imobilizados por grosseiro descuido, que articulem atempadamente os mecanismos de emergência com outros países, que se mostrem atentos. Montenegro não governa o país há três meses, é primeiro-ministro desde Abril de 2024, não pode proclamar ignorância das situações. O seu Governo teve mais de um ano para tomar medidas e não o fez. De um primeiro ministro espera-se que nestas circunstâncias mantenha um módico de contenção festiva e que fale de políticas para os incêndios, que certamente já terá estudado atendendo ao que defendeu enquanto líder da oposição. Não resisto a citar o que Henrique Gouveia e Melo disse sobre estes dias: “um verdadeiro líder , mesmo sem poder fazer mais, está na frente com o seu povo, mostrando que não se esconde das responsabilidades que pediu para assumir” . E, num artigo no “Correio da Manhã”, Pedro Santana Lopes, reivindicando maior presença das autarquias no sistema de prevenção e combate dos incêndios, escreveu: “Ninguém como os responsáveis das Câmaras e das Freguesias conhece o respetivo território e tem os meios de interagir com os privados que não limpam as suas propriedades. A incompetência política leva a que quem ascende ao Poder, em cada momento, julgue que basta mudar os dirigentes da Proteção Civil e outros responsáveis para as coisas correrem bem. Ainda não se percebeu? É a organização e o sistema que não servem. Acordem.” Era sobre isto, sobre as mudanças necessárias na prevenção e combate aos fogos, que eu gostava de ouvir o Governo falar. Montenegro, como se viu no comício do Pontal, numa das piores noites dos incêndios, culpa quem o critica e não consegue olhar, e muito menos assumir o que faz, um padrão de comportamento que já vem do caso Spinunviva. Em vez de se queixar de jornalistas e analistas, talvez não fosse pior que pensasse que, sob a sua liderança no PSD, o Chega passou de 12 deputados para 50 dois anos depois de Montenegro se proclamar líder da oposição e para 60 deputados passado mais um ano. Em vez de olhar para os outros, Montenegro e o seu núcleo de yesmen, todos muito rodados na politiquice interna do aparelho do PSD, mas com pouco serviço prestado ao país, deviam perceber que na realidade não estão a dar conta do recado. A Ministra da Administração Interna resumiu a posição do Governo sobre os incêndios: “vamos embora”, disse ela.
SEMANADA - Este ano já foram detidas 90 pessoas pelo crime de fogo florestal; os incêndios já consumiram, até domingo passado, 155.000 hectares, 18 vezes mais do que a área ardida em igual período do ano passado, perto de atingir a área ardida no trágico ano de 2017, quando as chamas queimaram 164 249 hectares; até ao fim de semana deflagraram 6296 fogos; cereja no topo do bolo: o objectivo de atingir um milhão de hectares de floresta limpa em 2024 ficou a menos de metade, apenas 400 mil hectares; o comandante Jorge Mendes, do Observatório de Bombeiros Portugueses, afirmou que “temos andado a correr atrás do prejuízo e tem havido falhas de coordenação no posicionamento dos meios no terreno”; Tiago Oliveira, presidente da Agência Integrada para a Gestão de Fogos Rurais , tinha alertado no início do verão ser fundamental “para que se evitasse que o fogo ande à solta”, pré-posicionar os operacionais e os meios nos locais previamente identificados e sublinhava ainda ser essencial “dirigir a vigilância e dissuasão para os locais de maior risco e lá colocar os meios e recursos do dispositivo”; o engenheiro florestal Cardoso Pereira afirmou que apesar de este ano haver “ melhor planeamento e melhor articulação entre entidades, grande parte do planeado não foi transferido para o terreno”; em plena situação de alerta por causa dos incêndios dois homens detidos por atearem fogo em Vinhais vão aguardar julgamento em liberdade por decisão do tribunal judicial de Bragança; os suspeitos tinham sido apanhados em flagrante, a atearem um incêndio com um isqueiro na localidade de Quirás, concelho de Vinhais e foram detidos pela GNR para depois o juiz os soltar; duas dezenas de bombeiros morreram em serviço nos últimos cinco anos.
O ARCO DA VELHA - Este ano já ardeu 2,35% do território português e em média, nos últimos 18 anos, a percentagem foi de 1,05%, quase três vezes mais do que a da Grécia, que ocupa o segundo lugar e deixa a Portugal o título de campeão da União Europeia da percentagem de área ardida do seu território.

LEITURA SILENCIOSA - A minha recomendação de leitura desta semana vai para o livro “História do Silêncio”, do historiador francês Alain Corbin. conhecido pela forma como aborda temas menos convencionais (como a história dos ventos, da sombra ou do prazer e da paisagem). A obra é particularmente interessante nesta época em que o ruído invade todos os espaços - o autor mostra como depois da década de 1950 o silêncio perdeu o seu valor filosófico e a sua dimensão educativa e como a hipermediatização do século XXI torna difícil ouvir-nos a nós próprios e sentir o silêncio. Edição Quetzal.

LISBOA EXPOSTA - Ao fundo do Campo Grande fica o Palácio Pimenta, que alberga o núcleo central, renovado, do Museu de Lisboa, que também integra outros espaços da cidade, nomeadamente o Teatro Romano, junto ao Castelo de S. Jorge e o Museu de Santo António, junto à Sé (ver nota no Roteiro nestas páginas). No núcleo do Palácio Pimenta pode ser vista a exposição “Crónicas de uma Lisboa desconhecida” que, através de uma centena de obras, mostra uma Lisboa ignorada. Algumas das peças expostas nunca foram mostradas e outras foram restauradas para serem exibidas e desvendarem uma Lisboa menos óbvia. A exposição parte da aventura aeronáutica de um italiano no final do século XVIII até às bombas dos primeiros anos da República, passando pelos fados de Amália e a vida de uma poetisa e ativista dos direitos humanos, que no século XIX defendeu o fim da escravatura e a emancipação das mulheres. A fotografia de António Rafael, tirada em 1972, que integra a exposição e que aqui se reproduz, retrata a apanha da minhoca no Terreiro do Paço. Dá para perceber como a cidade mudou. Também no Palácio Pimenta pode ver a exposição “O Palácio da Cidade, de Keil do Amaral”, que mostra quatro propostas que ao longo de 27 anos o arquiteto idealizou para coroar o topo do Alto do Parque Eduardo VII e que nunca passaram da fase de projecto.

ROTEIRO - Começo por uma doce exposição que está no Museu de Santo António, em Lisboa, junto à Sé. A exposição “Quando o Corpo se Faz Doce”, que pode ser vista até 7 de Setembro. mostra exemplos da doçaria tradicional portuguesa que, modelados de forma sugestiva, a partir de açúcar, amêndoa e ovo, ganham contornos de partes do corpo ou de estados de alma, “fazendo a ponte entre vivências quotidianas carregadas de uma profunda religiosidade e a realidade terrena e material das sensações e da natureza do corpo humano” (na imagem) . Em matéria de fotografia este é o derradeiro fim de semana para poder ver duas exposições que mostram imagens de Portugal em 1974 e 1975. Na Sociedade Nacional de Belas Artes em Lisboa pode ainda ver “50 de 25” , que apresenta 50 fotografias de Luiz Carvalho que documentam essa época. E em Almada , junto à Lisnave, no Parque Empresarial da Mutela, pode ver a exposição organizada por Sérgio Tréfaut com o trabalho de três dezenas de fotojornalistas estrangeiros que acompanharam o que se passou em Portugal nesses anos. A exposição é de uma qualidade impressionante, a montagem e iluminação são boas, e este é um fundamental testemunho da maneira de olhar para Portugal naquela altura por alguns dos grandes nomes da fotografia da época (Sebastião Salgado, Guy Le Querrec, Hervé Bureau ou Jean Claude Francolon, entre outros).

MÚSICAS DE VERÃO - Gosto de explorar as playlists do Spotify que alguns jornais compilam. Recentemente descobri no espanhol “El País” a playlist “Un verano por la música”, uma recolha de temas de 1h e 43 minutos, desde “Summertime” na voz de Ella Fitzgerald e Louis Armstrong, até composições de Berlioz, Bach, Tchaikovsky, Vivaldi, Beethoven, Schumann, Debussy, Handel ou Mahler. Pesquisem as playlists do El País no Spotify e podem viajar por esta tentadora selecção.
ALMANAQUE - Na quinta-feira 28 de Agosto , pelas 18h00, o Pavilhão Julião Sarmento organiza uma visita guiada dirigida por Isabel Carlos, a curadora da exposição inaugural daquele espaço. Isabel Carlos, que é também a directora do Pavilhão Julião Sarmento, partilhará com o público a visão, as histórias e os contextos por detrás das obras expostas. A visita terá interpretação em língua gestual portuguesa e a participação nesta iniciativa requer inscrição prévia através do endereço de email bilheteira@pavilhaojuliaosarmento.pt .
DIXIT - “Já basta o que basta: um desleixo criminoso do Estado central e local no ordenamento do território. Que, até agora, nunca teve consequências políticas. (...) O país arde porque, no fundo, os portugueses não responsabilizam quem devem” - João Pereira Coutinho na Sábado.
BACK TO BASICS - “Pouco se pode esperar de alguém que só se esforça quando tem a certeza de vir a ser recompensado”- Jose Ortega Y Gasset
A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS

Fico sempre fascinado quando vejo alguém a pescar e tenho sempre vontade de ficar no seu lugar. Olho para a pesca como um ritual que exige preparação. Não falo do material. Falo da atitude, de pegar nas coisas e ir embora para junto da água. Percebo quem faça da pesca uma obsessão, procurando a cana de fibra com mais elasticidade e sensibilidade, o carreto da linha com mais funcionalidades, o tipo de iscos artificiais e naturais, as bóias, a chumbada e os anzóis ideais. Não sou assim, não tenho a obsessão da técnica nem, do equipamento. O que me fascina é lançar o anzol e ficar a aguardar. Sou daqueles que pensam que o acaso da pesca é apanhar um peixe. Para mim o seu verdadeiro objectivo é adivinhar a água, observar o horizonte. Gosto de estar na margem de um rio, a sentir a corrente a passar mas tenho vontade de um dia ir ao mar. Um dia destes vou voltar a comprar cana e demais apetrechos e faço como este homem que vislumbrei num pontão, a falar com o mar, ali sózinho, com o bugio ao fundo sem mais nada a distraí-lo. Vejo a pesca como uma coisa solitária, um espaço onde podemos desligar-nos do que se passa à volta e ficar a aguardar o que a água nos pode trazer. Não me importo se o peixe não picar, fico contente por estar ali, sem muito mais em que pensar. A pesca é como um exercício de egoísmo durante o qual viramos costas ao mundo e ficamos, sem pressas, a deixar o tempo passar, ao ritmo da água que vai correndo. Esta ideia fascina-me.

ESCURIDÃO - No início desta semana o jornal espanhol “El País” titulava que o Vox, um partido comparável ao Chega, está a aumentar a sua influência entre os trabalhadores e os desempregados. O jornal recorda que esse crescimento também se verificou em França em relação ao partido de Le Pen. E se olharmos para o crescimento do Chega em Portugal, sobretudo nas regiões onde ele foi mais pronunciado, não é preciso ter uma bola de cristal para perceber que algo de muito parecido está a acontecer. O jornal cita um estudo recente que indica que o Vox lidera em três das seis categorias salariais mais baixas e entre os que se consideram pobres. Lá, como cá, o que cativa os eleitores destes partidos de extrema direita é a combinação de um discurso antipolítico que proclama que o Estado não funciona, com um discurso anti-imigração. Em Espanha o Vox já dispõe de uma organização sindical cuja influência cresce de forma relevante, com base em protestos contra a perda do poder de compra dos trabalhadores e a insegurança nos bairros de subúrbios onde há mais imigrantes. Os dirigentes sindicais do Vox acusam os partidos de esquerda de terem abandonado os trabalhadores e as suas reivindicações, substituindo-as pela defesa de questões que não se traduzem na melhoria da qualidade de vida. Entre os assalariados com menores vencimentos apenas no sector de serviços o Vox tem, por enquanto, pouca penetração. Se olharmos para o que se passa em Portugal nos últimos anos a conclusão é inevitável: nenhum dos partidos do bloco central conseguiu desenvolver políticas capazes de ir ao encontro de grande parte do eleitorado e deixou esse terreno ao Chega. O PS esteve no Governo entre 2015 e 2024 e não fez o que agora reivindica e, na realidade, através da sua política de alianças na geringonça e na forma como geriu a maioria absoluta de 2022, deu sempre bons argumentos para o Chega crescer, na esperança de conseguir travar com esse crescimento o PSD. E o PSD, cada vez mais distante das suas origens programáticas, fez o resto. Na realidade PS e PSD trocaram as suas matrizes políticas por tácticas de conveniência apenas com a luta pelo poder em vista e o resultado foi este: o Chega teve 1,9% de votos e um deputado em 2019, 12 deputados e 7,18% dos votos em 2022, 18,7% dos votos e 50 deputados em 2024 e 60 deputados e 22,76% dos votos em 2025. No Parlamento Ferro Rodrigues primeiro, e Santos Silva depois, fizeram tudo o que podiam para dar palco a André Ventura e com isso conseguiram que o PS ficasse atrás do Chega e que o PSD se aproximasse de André Ventura em nome da governabilidade tacticista. A coisa não está brilhante. Na realidade está bastante escura.
SEMANADA - Lisboa é o distrito onde se verifica um maior número de despejos, que aumentaram 21% no espaço de um ano; os custos de construção de casas novas subiram 4% em Junho face a igual mês do ano passado; o preço dos quartos para estudantes subiu 33% em três anos; as apólices individuais de seguros de saúde tiveram um crescimento de 6% em 2024 e já abrangem quatro milhões de pessoas; 96% dos estudantes do 9º ano tiveram nota negativa na prova de matemática; o Governo reconheceu não ter dados sobre o número de mães que pedem direito a dispensa para amamentação dos filhos nem sobre eventuais abusos verificados; Portugal tem 10 aeronaves que podem ser usadas para combate aos incêndios rurais, mas comprou-as sem os "kits" necessários para as adaptar para essa finalidade; a área ardida até agora neste ano já ultrapassou a média dos últimos 20 anos; o plano oficial que previa a limpeza de um milhão de hectares de floresta no ano passado apenas tratou 400 mil hectares; as exportações portuguesas para os Estados Unidos caíram 39% em Junho; o peso do investimento americano no mercado de capital de risco nacional chega quase a 80% ; 58% das equipas do futebol português têm accionistas estrangeiros; o Fisco está a investigar a fuga ao pagamento de impostos de mais de 536 milhões de euros, um crescimento de 26% face a 2023 ; em 2024, existiam em Portugal 563 salas de cinema, mas em 174 concelhos não há nenhuma; um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos indica que no início da década de 1960 nasciam mais de 200 mil bebés por ano e hoje esse número é inferior a 85 mil.
O ARCO DA VELHA - Uma assistente social, casada com o Presidente da Câmara de Esposende, atropelou uma menor que esteve internada 16 dias em estado grave, não parou depois do acidente que diz não ter percebido que ocorreu e nem ela nem o marido contactaram posteriormente a vítima ou a sua família.

UMA AVENTURA NA ESTRADA - Pode alguém planear uma viagem de duas semanas sózinha e depois seguir um caminho completamente diferente, e pelo meio ter uma série de revelações sobre si própria, os amigos, a família, a sua sexualidade e os seus interesses? “De Quatro”, da norte-americana Miranda July dá uma resposta afirmativa a todas estas questões. O livro conta como uma mulher de 45 anos, casada, um filho, uma artista que trabalha em publicidade, cujo nome nunca é referido, mas que é a narradora de tudo o que se passa, programa uma viagem de Los Angeles, onde vive, a Nova Iorque onde deseja ir rever amigos e ver exposições. Decide ir de carro, sózinha, mas sucede que escassa meia hora depois de sair da sua cidade sai da auto-estrada para meter gasolina e encanta-se por um rapaz que vê numa bomba de gasolina. Decide alugar um quarto num Motel e gasta todo o dinheiro que tinha para a viagem, vinte mil dólares, a remodelá-lo. É nesse quarto que passa todo o tempo que a sua viagem era suposta demorar. Ao marido e filho nada conta, e ilude-os inventando onde está ao longo do itinerário previsto, dando a ilusão que de facto está em viagem. A relação com o rapaz é um misto de atracção com desejo não consumado e as conversas que têm e o que vai descobrindo levam-na a repensar a vida e viver experiências que lhe abrem novos horizontes físicos e sexuais. A protagonista, uma mulher de meia idade, procura, e encontra, uma vida que antes não tinha. Miranda July é realizadora e argumentista de filmes, actriz e, também escritora. Este “De Quatro” é a sua segunda novela. O “New York Times” escreveu que este livro “ inspira as mulheres a fantasiar sobre desejo e liberdade”. Originalmente editado em 2024, foi considerado livro do ano pelo The Observer e foi finalista do National Book Award. Edição Quetzal, tradução de Telma Costa.

A NORMALIDADE DA PINTURA - No regresso de férias, a partir do início de Setembro, pode ver na galeria Jahn und Jahn, em Lisboa, a exposição “normal”, da artista alemã Gülbin Ünlü. O título, pode ser lido como uma espécie de provocação que tem por base a pergunta: o que significa que algo seja normal? As obras expostas respondem a essa questão proporcionando uma visão sobre o método de trabalho do artista através das 14 obras que são apresentadas. Para Gülbin Ünlü tudo o que a rodeia e está no interior do seu atelier, mesmo peças que regressaram de uma exposição num museu, são matéria prima que continua a utilizar, por vezes colocando novas camadas em pinturas e, noutros casos, retirando-as. Ünlü sublinha que para qualquer artista que trabalhe primariamente no domínio da pintura o movimento é fundamental: a velocidade e pressão da pincelada influencia directamente a intensidade da cor. Assim Ünlü, desenvolveu uma técnica que reflecte esse dinamismo, fundindo pintura e gravura. Em muitas das suas obras, Ünlü começa por compor imagens digitalmente, para depois selecionar fragmentos, imprimi-los em película e transferi-los, ainda húmidos, para tela ou tecido, trabalhando-os depois. A exposição pode ser visitada até 10 de Setembro na Rua de São Bernardo 15-1º, de quarta a sábado entre as 12 e as 19h00 e mediante marcação para o telefone 213 950 708.

ROTEIRO - Se estão em Lisboa tenho uma sugestão para os dias de calor: visitem o Museu Nacional de Arte Antiga, onde poderão ver a magnífica selecção de obras primas da pintura europeia com destaque para o tríptico das “Tentações de Santo Antão”, de Jheronimus Bosch na “Sala do Tecto Pintado”( na imagem), junto a outras “tentações” flamengas do século XVI onde se pode perceber a influência do imaginário do diabólico criado por Bosch. Nas nove salas da exposição pode também ver duas pinturas de Nuno Gonçalves e obras de Piero della Francesca, Bartolomé Bermejo, Hugo van der Goes e Dürer, entre outros. Para os mais novos saiba que de terça a sexta, de manhã ou à tarde, há visitas-jogos para grupos de crianças, mediante marcação no site do MNAA. Há outras exposições, entre elas as de novas aquisições e de desenho europeu do século XVI ao século XVIII sobre seres e animais fantásticos e pode sempre percorrer os jardins com uma magnífica vista sobre o Tejo e parar no restaurante e cafetaria que está aberto de terça a domingo entre as 10h00 e 17h30.

MÚSICA REVISTA - No início deste século, há pouco mais de 20 anos,a prestigiada editora discográfica Verve teve a ideia de convidar DJ’s e produtores a pegar em canções do seu catálogo de standards de jazz e blues e dar-lhes uma nova roupagem. Assim nasceu a série “Verve Remixed”, que teve quatro volumes. A capa que aqui se reproduz é do primeiro, editado em 2002 e que inclui remixes de temas de Nina Simone, Billie Holiday, Astrud Gilberto, Sarah Vaughan, Ella Fitzgerald ou Shirley Horn, entre outras. Para assinalar as duas décadas da série a Verve editou o primeiro dos discos numa edição especial em vinil laranja e amarelo. Podem ouvir as várias versões no Spotify e há mesmo uma playlist que junta todos os discos da Verve Remixed.
ALMANAQUE - Em Londres, a partir de 28 de Agosto, poderão ver na prestigiada galeria Gagosian uma exposição com 18 fotografias feitas por Paul McCartney no início da carreira dos Beatles, “Rearview Mirror: Liverpool-London-Paris”. As fotografias foram feitas no final de 1963 e no início de 1964, durante a primeira digressão do grupo aos Estados Unidos, depois do êxito obtido pelos dois primeiros álbuns da banda, “”Please Please Me” e “With The Beatles”.
DIXIT - “A Europa capitulou (...) porque é um projecto político adiado, incompleto, indefeso e crescentemente disfuncional” - Pedro Norton sobre as negociações de taxas alfandegárias entre os Estados Unidos e a União Europeia.
BACK TO BASICS - “O que quero de todos os portugueses é o seguinte: sejam curiosos; e que a organização em sociedade possa ser de tal maneira que eles possam satisfazer essa curiosidade completamente” - Agostinho da Silva
A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS

Em relação à prática da praia sou um pouco paradoxal: em não havendo sombra, não contem comigo. Ficar à torreira do sol não é coisa que me agrade. Fico inquieto, transpirado e, se a coisa demorar muito tempo, mal disposto. Preferia os toldos antigos de lona a estes chapéus meio tropicais que se tornaram a imagem de marca de muitas praias portuguesas. O toldo permitia orientar a sombra, puxando as cordas e fazendo variar o ângulo da lona É toda uma ciência que agora entra para o rol dos conhecimentos desnecessários. O chapéu de palhota é estático, temos que andar à volta dele a arrastar a espreguiçadeira à procura da sombra e há sempre um bocado do corpo que fica de fora. Sombra redonda é sombra incompleta. Por falar nisso, faço parte daquela minoria silenciosa que prefere uma cadeira a uma espreguiçadeira. Ler sentado é bem melhor que deitado e já que se vai à praia iluminam-se as ideias em vez de tostar na cabeça. Mas pronto, palhotas com espreguiçadeira é o que temos, e haver uma nesga de sombra já é bem bom. Só gosto de sol quando caminho à beira mar - e escusam de pensar que faço longas distâncias. Ando um bocado a chapinhar, de vez em quando entro dentro de água para refrescar, dou meia volta e ando para trás. Não corro nem uso aparelhos para medir passos e distâncias. Não vou à praia fazer treino físico, e quando vejo alguém nessa actividade fico sempre a pensar na falta de noção - e elegância - de muita gente. Gosto de andar sózinho, a espreitar o que o mar deixou na areia, volta e meia a ver a espuma das ondas. Andar na areia é um bom exercício visual - quer olhando para o mar, olhando para o chão, ou voltando a atenção para cima a observar o areal e seus habitantes. No fundo, bisbilhotar. Se não fosse assim, a praia não tinha metade da graça.

COMUNICAÇÃO - O Governo de Luís Montenegro despacha actividade quase ao ritmo com que Trump assina ordens executivas e na última semana têm surgido notícias que vão da educação à reforma do Estado, passando pela revisão da legislação laboral. Mas começa a saltar à vista que existe um problema de comunicação na atividade do Governo: as medidas são anunciadas mas frequentemente são mal explicadas - o caso da legislação laboral é talvez o mais gritante exemplo disso mesmo nas medidas recentes, mas a extinção da FCT também. É certo que alguns dos ministros envolvidos nestas medidas têm pouco jeito para comunicar, mas os seus assessores podiam aconselhá-los melhor. Não chega dizer que se vai fazer em termos gerais, é fundamental explicar e justificar o que se anuncia. A não ser assim cria-se especulação e dá-se azo à desinformação, que é o que acontece com os casos da revisão do período de aleitamento na lei laboral, a revisão da legislação sobre emigração, as alterações fiscais ou a extinção da FCT ou as alterações na disciplina de cidadania. Já nem falo do caso da saúde onde o que é anunciado esbarra frequentemente com o desmentido que os factos mostram - um confronto entre a propaganda mal feita e a realidade. Por vezes os governantes envolvidos têm uma posição arrogante tipo “quero posso e mando”, noutros casos são apenas desprovidos de senso comum e falam para o país como se estivessem a falar para accionistas na assembleia geral de uma empresa. Na realidade são os cidadãos a pagar o funcionamento do Governo e do país e merecem ser bem informados sobre o que perdem e ganham em cada mudança. E claramente não é isso que está a acontecer - o Governo privilegia o foguetório em vez da serena comunicação. Assim não vai por bom caminho. Quando o Presidente da República afirma, sobre o reagrupamento familiar dos emigrantes que a lei “será julgada pela História” está tudo dito. Como Miguel Monjardino afirmou numa entrevista à revista “Ler”, os governantes contemporâneos, “são líderes que se mantêm no poder através de ‘presidências cinematográficas’: o Governo não interessa, o que interessa é ter um episódio novo todos os dias”.
SEMANADA - A área ardida até meio de Julho triplicou face ao ano passado;só na última semana a área ardida este ano mais que duplicou; nos últimos 12 anos o número de reclusos nas cadeias portuguesas presos por atearem fogos aumentou de 21 para 65; entre 2021 e 2024 houve 72 ordens de encerramento de creches por falta de condições ou de licenciamento; entre 2019 e 2024 foram sinalizadas em Portugal 2211 presumíveis vítimas de tráfico de seres humanos; o aumento do preço da habitação em Portugal no primeiro trimestre de 2025 foi de 18,7%; o número de despejos nos primeiros cinco meses deste ano aumentou 14% em relação ao mesmo período do ano passado; no mês de maio verificou-se um acréscimo de 5% das aterragens diárias de vôos comerciais nos aeroportos portugueses em comparação com o mesmo período do ano passado; entre 2015 e 2024 o número de dormidas em estabelecimentos de alojamentos turísticos aumentou 51%; a idade média do conselho estratégico do PS é de 67 anos; um em cada quatro médicos tem mais de 65 anos; o salário mínimo português, 870 euros, desceu um lugar na tabela europeia, para a 12ª posição, depois de a Grécia ter aumentado a sua retribuição mínima para 880 euros; este ano estão confirmados 383 festivais de verão em todo o território nacional, o maior número de sempre.
O ARCO DA VELHA - Apesar de ter gasto quase 90 milhões de euros nos últimos dois anos a queimar vinho que existia em excesso e que os produtores não conseguiam escoar, Portugal continua a importar vinhos a granel de Espanha.

HISTÓRIAS DO PODER - Para não estar a ler apenas romances policiais em férias, e depois de muito ter ouvido falar de Giuliano da Empoli, atirei-me ao seu mais recente livro, “A Hora dos Predadores”. O autor, de origem italiana e suíça, estudou direito e ciência política e tem ocupado cargos de conselheiro de membros de governos italianos, como o ex-primeiro-ministro Matteo Renzi, e fundou um think tank a que chamou “Volta”. Estar no círculo do governo permite-lhe assistir na primeira fila ao funcionamento das instituições e de dirigentes mundiais. Empoli tem estudado com particular cuidado a modificação operada na actuação política através das redes sociais e os efeitos da digitalização na comunicação - antes tinha escrito, precisamente sobre esse tema,”Os Engenheiros do Caos”. Neste “A Hora dos Predadores” Giuliano da Empoli relata as suas experiências em locais que vão da sede da ONU em Nova Iorque até uma reunião no hotel Ritz Carlton em Riade com Mohammed Bin Salman, o príncipe que governa a Arábia Saudita, passando por uma descrição hilariante de um jantar da Fundação Obama. São nacos de excelente prosa que nos ajudam a ver o mundo de outra forma e a compreender como as aparências iludem - e muito. É um livro de leitura rápida, 120 páginas, e quando acabei de o ler fiquei com a sensação que tinha lido a versão moderna de “O Príncipe”, de Maquiavel, centrada nas comparações dos líderes de vários países e organizações com César Bórgia, o príncipe italiano cuja vida e acções inspiraram Maquiavel. O livro é atual e alerta para a situação grave que a Europa atravessa. Cito um parágrafo, que retrata o presidente norte-americano: “No fundo, Trump é apenas e enésima ilustração de um dos princípios imutáveis da política, que qualquer um pode constatar: não há praticamente nenhuma relação entre o poderio intelectual e a inteligência política”. “A Hora dos Predadores", de Giuliano da Empoli, foi traduzido por Jorge Pereirinha Pires e editado pela Gradiva.

ALGARVE FOTO - Até 23 de Agosto, na 3.ª edição da Mostra de Fotografia e Autores – MFA Faro pode ver 13 exposições de fotografia e uma de cartoons na Fábrica da Cerveja, em pleno centro histórico de Faro, uma organização da CC11 com o apoio do município local, sempre com entrada livre até às 11 da noite de terça a sábado e no domingo de manhã. No piso térreo pode ver “A Fabulosa Máquina de Fazer Parar o Tempo”, um trabalho de João Paulo Barrinha, do Walking Camera Project em que o acto fotográfico é encarado como performance, recorrendo à fotografia à la minute. No piso 0.5 está o projecto vencedor da 1.ª edição do Prémio CC11 Fotografia, “Blessed Ground”, de Ricardo Lopes, um ensaio documental feito durante 2024, sobre o impacto da extracção industrial de ouro em comunidades rurais de Moçambique (na foto em cima). Na sala ao lado pode ver um mergulho nas tradições da destilação de aguardente de medronho, ainda bem vivas nas serras de Monchique e Espinhaço de Cão. "Alambiques & Alquimistas” de João Mariano. No piso 1, Marc Schroeder apresenta “Muito Frágil”, um regresso à fotografia de retrato feito em 2023 na zona da Alameda, em Lisboa, quando ia pedindo a estranhos para os retratar (na foto em baixo).

Na outra sala, “Margem Sul” , de Luís Ramos, mostra um território de contrastes, das migrações internas dos anos 60 aos recém-chegados nómadas digitais. No piso 1.5, “Joy Bangla” é projecto de 2024 de Filipe Bianchi, que dá a conhecer o quotidiano da comunidade bangladeshi do bairro do Intendente, em Lisboa. Ao lado Alberto Picco olha para a cidade de Setúbal e os seus vestígios industriais, transformando ruínas e estruturas abandonadas em símbolos de memória e identidade. A mistura de técnicas e suportes de “Crossing Boundaries” levanta questões sobre os eventuais limites da fotografia enquanto possível espelho do real, através da mistura de técnicas e suportes. No piso 2, cinco exposições: na primeira sala está uma retrospectiva,do percurso do fotojornalista Carlos Lopes (1949- 2021), a partir de uma selecção de Clara Azevedo e Daniel Rocha, “O’ Lopes”; a sala seguinte acolhe 31 fotografias do projecto “Cante”, de Ana Baião, o retrato de quem dá corpo e voz ao cante alentejano, feito ao longo de uma década, numa selecção dos curadores António Pedro Ferreira e João Mariano. No mesmo período de tempo (entre 2014 e 2024), mas numa geografia distinta, Joe Wood emigrou para a Lituânia e “Middle Ground” é uma viagem fotográfica pelo país, mostrando a sua transformação e identidade. “Change Of Season”, um projecto da Procurarte, mostra o trabalho de 13 fotógrafas que reflectem sobre os processos de transformação, identidade e mudança: Adriana João, Ana Alejos, Beatriz Banha, Beatriz Blasi, Carla Rebelo, Carolina Lino, Carolina Tardin, Catarina Cesário Jesus, Cristiana Ortiga, Eugénia Burnay, Joana Hintze, Rita Ruivo e Vera Cruz A fechar este piso, um salto no tempo. com “O Algarve de Asta e Luís de Almeida d’Eça”, um mergulho no passado, no arquivo fotográfico deste casal que se notabilizou na fotografia vocacionada para a promoção turística ao longo das décadas de 1960 a 1980. O piso 3 está inteiramente dedicado a “Da Ucrânia Com Amor” de Adriano Miranda, que reúne fotografias e crónicas publicadas no jornal Público que dão um testemunho directo da guerra. E no piso térreo pode ver “Senhor Lobo”, de André Carrilho, uma selecção de ilustrações criadas para a imprensa ao longo de 2024. Mais uma vez a Mostra de Fotografia e Autores – MFA Faro é uma oportunidade para ver o trabalho de fotojornalistas consagrados e de jovens fotógrafos.

ALMANAQUE - E que tal escolher Málaga como destino de uns dias de férias? Na cidade estão museus como o Thyssen Bornemisza, o Museu Picasso, o Centro Pompidou de Málaga, o Museu da Cidade, além de temáticos sobre automobilismo, vinho, videojogos ou História Militar, para só citar alguns. No Thyssen pode ver a exposição American People. American Documentary Photography (1930–1980), com trabalhos de Harry Callahan, Imogen Cunningham, Walker Evans, Louis Faurer , Robert Frank, Lee Friedlander, Anthony Hernández, Helen Levitt, Susan Meiselas, Tod Papageorge e Garry Winogrand /esta foto de Marylin). E no Pompidou pode ver uma exposição sobre a obra de Vassily Kandinsky, pioneiro da arte abstrata”. Málaga, a sexta maior cidade de Espanha, fundada pelos fenícios no século XII, localiza-se na Andaluzia, na costa sul do país, junto ao Mediterrâneo e lá está a praia da Malagueta. Além disso é um bom destino gastronómico.
DIXIT - ““Um painel situado algures entre os hóspedes de um lar e a respectiva família não augura estratégia nenhuma.” - Manuel Carvalho, no “Público”, sobre o Conselho Estratégico do PS.
BACK TO BASICS - “Já não sou suficientemente novo para achar que sei tudo” - Oscar Wilde
A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS

Um cais é sempre um lugar de surpresas que puxam pela imaginação. Por exemplo este barco,descoberto num passeio acidental à beira da amurada, é incontornável. O contraste entre a sua cor e a da água onde se equilibra prende logo os olhos. Sózinho num pequeno barco no alto mar não deve ser agradável. Mas imaginar-me naquele barco, ali perto do cais, a remar ao longo da amurada, é uma tentação. Um barco assim pode ser um refúgio, um salto fora do quotidiano. Quando estou no meio da cidade, nestes dias de calor intenso, às vezes vem-me esta imagem à cabeça e sonho em sentar-me ali na popa, a namorar com o banco em frente, o fresco da água a acariciar-nos, livres dos ruídos, sem distracções. O barco ocorreu-me quando, no meio do trânsito, fiquei parado num engarrafamento, entalado entre dois carros e olhei para o que estava do meu lado esquerdo. Lá dentro um casal na casa dos 30 anos, carro recente, de boa marca, cada um com o seu smartphone na mão, ambos a olhar para os ecrãs, sem falarem um com o outro, como se fossem estranhos num autocarro sentados em bancos próximos. O mundo deles resumia-se aos telemóveis, não havia nada, nem os outros carros, nem o trânsito à volta, nem eles próprios se calhar. Estavam isolados da realidade, imersos sabe-se lá em quê.. Quando o semáforo abriu, dois ou três carros à sua frente, não deram por nada - só foram despertos pelo insistente buzinar de alguns condutores que atrás deles, queriam andar e não podiam. Fizeram má cara por terem sido distraídos dos seus ecrãs. Encolho os ombros, o meu pensamento volta ao barco que parece chamar por quem passa. A mim só me apetece dizer-lhe fique onde está, a alimentar-me o desejo. (os pensamentos ociosos estao à sexta em sapo.pt)

O ECRÃ MÁGICO - O poder atrai a imagem e a imagem glorifica o poder. Por isso muita da acção de propaganda dos políticos continua ainda a passar pela televisão, apesar de os blocos informativos dos canais generalistas já terem tido melhores audiências. Hoje, do total da população portuguesa, perto dos 10 milhões de pessoas, há cerca de 8,2 milhões que vêem regularmente televisão e, destes, apenas 40% vê os canais generalistas, enquanto cerca de 20% vê plataformas de streaming e cerca de 40% vê o conjunto dos canais de cabo. Se olharmos para números recentes, de Julho, constatamos que, nos seus melhores dias, o Telejornal da RTP tem uma audiência de cerca de 660 mil pessoas, o Jornal 2 é visto por cerca de 64 mil, o Jornal da Noite da SIC anda nos 950 mil e o Jornal Nacional da TVI consegue cerca de 720 mil. Ao todo, os principais blocos informativos do país são vistos por cerca de 2,4 milhões de pessoas de entre os 8,2 milhões que olham para o aparelho de televisão - o que quer dizer que quase seis milhões não liga aos noticiários. E quando ligam às notícias, que imagens lhes oferecem? Socorro-me de números recentes da Marktest: em junho de 2025, o primeiro-ministro, Luís Montenegro, manteve-se na liderança da exposição mediática na TV, ao protagonizar 139 notícias de 6 horas e 4 minutos de duração durante o mês; o presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, subiu à segunda posição, com 116 notícias de 5 horas e 11 minutos de duração; André Ventura, presidente do Chega, manteve a terceira posição, protagonizando em junho 105 notícias de 4 horas e 52 minutos de duração; José Luís Carneiro, eleito este mês secretário-geral do PS, ocupou a quarta posição, intervindo em 101 notícias com 4 horas e 11 minutos de duração; Mariana Mortágua, coordenadora do Bloco de Esquerda, subiu à quinta posição, com 62 notícias de 3 horas e 12 minutos de duração. Na lista dos dez nomes com maior presença nas notícias em Junho passado estão ainda, por esta ordem, Roberto Martínez (selecionador nacional de futebol), Paulo Raimundo (secretário-geral do PCP), Gouveia e Melo (candidato à Presidência da República), António Leitão Amaro (ministro da Presidência) e Inês Sousa Real (porta-voz do PAN). Este é o estado da Nação, algo de que pouco se fala em S. Bento.
SEMANADA - Oeiras, Lisboa, Alcochete, Cascais e Coimbra são os cinco municípios com os rendimentos por pessoa mais elevados e Resende é o município com rendimento mais baixo; o rendimento médio da região do Algarve é o menor de Portugal continental; o preço médio de um quarto para estudante ultrapassou os 400 euros e em Lisboa chega a atingir 700 euros; apesar de em 2024 o parque habitacional ter ganho mais 28 mil novos fogos os preços continuam a subir mais de 10%; em 14 dos 24 grandes municípios o salário mínimo não chega para pagar uma renda de uma habitação de 80 metros quadrados; a compra anual per capita de livros em Portugal é de 1,3 que compara com 1,7 em Espanha, 2,6 na Bélgica, 2,9 no Reino Unido e 4,6 em França; este ano o turismo norte-americano em Portugal já aumentou 6% e os Estados Unidos são o mercado emissor que mais cresce entre os 10 países que lideram o turismo estrangeiro em Portugal; as cidades de Lisboa e Porto estão no top 20 das taxas turísticas mais caras na Europa, ocupando, respectivamente, a 16.ª e 20.ª posição; a execução do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) no primeiro trimestre de 2025 permanece muito aquém do ritmo necessário para cumprir as metas de 2025 e alcançou apenas 7,2% do objectivo anual; 30% dos governadores dos bancos centrais europeus vêm dos governos dos respectivos países; nos próximos cinco anos vão ser precisos cinco mil novos professores nos diversos graus de ensino; nos primeiros seis meses do ano a GNR registou um aumento de 25,9% de infracções por condução com excesso de álcool e de 38,9% por condução sem carta.
O ARCO DA VELHA - O Tribunal de Coimbra condenou a uma pena de prisão suspensa um homem de 24 anos por ter violado uma rapariga de 18 anos que estava inconsciente. A vítima era amiga da namorada do rapaz.

UMA HISTÒRIA DE ÁFRICA - V.S. Naipaul escreveu sobre as viagens que fez, o mundo que descobriu, desde Trinidad, onde nasceu, até Londres onde viveu, depois de ter estudado em Oxford. Os seus primeiros livros revisitam as suas memórias de Trinidad, antes de ir para o Reino Unido. Mais tarde visitou a Índia, de onde a sua família era originária, e escreveu sobre esse país e a sua cultura, que lhe causou profunda impressão. A sua escrita, riquíssima, deu-lhe um Prémio Nobel de Literatura em 2001, uma entre as muitas distinções que recebeu. O livro que aqui vos sugiro, “ A Curva do Rio” foi escrito em 1977 e 1978 e publicado em 1979. É o fruto da sua descoberta de África, dos países que tinham iniciado um processo de descolonização e das divisões tribais, sociais e raciais que marcaram essa época, aliada ao surgimento da corrupção de poderes locais e de uma grande instabilidade política. “A Curva do Rio” é um relato disso mesmo, situado num país africano sem nome, narrado pela voz de Salim, um comerciante de ascendência indiana, personagem que tenta navegar as ondas turbulentas da época e que acaba por ter que fugir de África para a Europa. E é um livro que marca o início da exploração literária de Naipaul sobre tradições históricas nativas, em vez dos seus relatos do ambiente em que nascera em Trinidad e em que vivia no Reino Unido. O livro foi editado em Portugal pela primeira vez em 2011 e reeditado agora pela Quetzal.

FOTOGRAFIA EM COIMBRA - Em Coimbra, até 24 de Agosto, no Museu Municipal de Coimbra – Edifício Chiado está patente a exposição de fotografia “To travel the road of possibilities”, com obras de António Júlio Duarte (na imagem) , José Maçãs de Carvalho, Pedro Medeiros e Rui Calçada Bastos. Todos os fotógrafos representados têm construído a sua obra a partir da experiência de viagens entre Portugal e vários lugares no mundo, nomeadamente com permanências longas e extensas na Ásia, com especial incidência em Macau. O curador da exposição, José Maçãs de Carvalho sublinha que “To travel the road of possibilities” propõe uma reflexão sobre a relação histórica entre a fotografia e a viagem, o título é retirado de uma entrevista com Robert Frank e remete para a viagem como lugar de descoberta e experiência, traço comum nas obras apresentadas. Ainda em Coimbra, por iniciativa do Centro de Artes Visuais, e prosseguindo no âmbito da fotografia, está patente até 20 de Setembro a exposição "Cave” que apresenta obras da Colecção dos Encontros de Fotografia de Coimbra. A exposição, com curadoria de Miguel von Hafe Pérez ocupa os 3 pisos do antigo armazém de móveis “A Feira”, junto à Estação Nova, na rua António Granjo, 6D . Esta exposição conta com obras, entre outros, de Albano Silva Pereira; Álvaro Rosendo, André Cepeda, Bernard Plossu, Daniel Blaufuks, Debbie Fleming Caffery, Hannah Starkey, Inês Gonçalves & Kiluanje Liberdade, Larry Fink, Marianne Müller, Paulo Nozolino, Victor Torpedo, Wim Wenders e Carlos Lobo.

ROTEIRO - Em Lisboa pode-se ver até Novembro a exposição “Neorrealismos”, que aborda a politização da Arte em Júlio Pomar. A partir de meados da década de 1950 Pomar incorporou a politização do seu trabalho artístico, a par da sua sempre presente atracção pela experimentação formal. O Atelier-Museu Júlio Pomar, onde decorre a exposição, sublinha que a exposição propõe “uma revisitação de diferentes momentos e linguagens do trabalho visual de Júlio Pomar, ao longo de 50 anos de criação plástica e gráfica”. Além de documentação histórica, a exposição conta com mais de cinquenta obras, provenientes de colecções públicas e privadas em Portugal. Entre elas encontram- se algumas das telas mais emblemáticas de Pomar, como “O Almoço do Trolha” (na imagem), “Gadanheiro”, “Guantanamo” e outras raramente vistas, como “Carpinteiros” ou “Marcha” (1946). Também estão expostos os desenhos que Pomar realizou na Prisão de Caxias, os cartazes que fez para a celebração de várias efemérides ligadas à Revolução do 25 de Abril de 1974, ou ainda as ilustrações que concebeu para o romance “A Selva” de Ferreira de Castro. A curadoria é de Afonso Dias Ramos e Mariana Pinto dos Santos. Na Sociedade Nacional de Belas Artes pode ver “ Os Poderes da Imagem- 40 anos do Centro Português de Serigrafia” que reúne uma seleção de 40 obras editadas pelo Centro , com obras de Júlio Pomar, José de Guimarães, Pedro Cabrita Reis, Pedro Calapez, Cruzeiro Seixas e Mário Cesariny, assim como nomes ligados à arte urbana como Vhils e Miguel Januário, artistas estrangeiros como Ken Rinaldo e ORLAN e arquitectos como Álvaro Siza, e ainda a primeira serigrafia com realidade aumentada, criada por Leonel Moura.

PIANO TRIO - Fred Hersch, hoje com 70 anos, é um dos grandes pianistas de jazz, discípulo de Thelonius Monk e Bill Evans, mas com um estilo muito pessoal. No seu novo disco,”The Surrounding Green”, o terceiro para a ECM, percorre temas originais e versões de temas de outros compositores, acompanhado pelo baixista Drew Gress e o baterista Joey Baron. Dos sete temas, três são originais de Hersch, “Plainsong”, “The Surrounding Green” e “Anticipation”. Pode ainda ouvir “Law Years” de Ornette Coleman, “Palhaço” de Egberto Gismonti, “Embraceable You” dos irmãos Gershwin, e “First Song” de Charlie Haden.
ALMANAQUE - Até 5 de Outubro decorrem os Rencontres de Photographie em Arles, no sul de França, que este ano apresentam 47 exposições, com temas que vão dos povos primitivos da Austrália à fotografia brasileira contemporânea, mostras dedicadas à obra de Nan Goldin, Louis Stettner, Yves Saint Laurent ou Letizia Battaglia, mas também uma curiosa mostra de fotografia anónima, saída de arquivos históricos, sem autores atribuídos, mas com uma enorme importância documental.
DIXIT - “Antes de ir a banhos, o governo da AD resolveu pôr um presentinho em cada toalha: suplemento para pensionistas, baixa de IRC, mão firme na imigração. (...) com autárquicas à porta e presidenciais logo a seguir, é uma receita promissora. Como atitude reformista, nem por isso” - João Pereira Coutinho, na “Sábado”.
BACK TO BASICS - “Não sei quais as armas que serão usadas na III Guerra Mundial, mas estou certo que a IV Guerra Mundial será combatida com paus e pedras” - Albert Einstein
A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS
A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.