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SOBRE A IMPORTÂNCIA DA INDEPENDÊNCIA NAS PRESIDENCIAIS

a esquina do rio é publicada às sextas feiras no weekend do jornal de negócios

por falcao, em 30.12.25

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AS PRESIDENCIAIS - 2026 vai ser marcado pelo resultado destas eleições presidenciais disputadas por um grande leque de candidatos. Entre os que têm ligações e  filiações partidárias há que distinguir aqueles que estão somente a concorrer para usarem tempo de antena em prol dos seus partidos e respectivos ideários, e outros que disputam a possibilidade de vitória a partir das ligações partidárias que têm. E há também quem não deva obediência partidária a ninguém, um fenómeno raro em anteriores eleições presidenciais, nas quais, quase sempre, os candidatos com maiores possibilidades eleitorais  tinham um passado partidário, com militância assumida até ao dia das eleições. Por definição, o Presidente da República deve ter uma postura acima dos partidos - e uma análise honesta das últimas décadas mostra que nem sempre isso aconteceu. De Soares a Cavaco, passando por Sampaio, mais do que opções ideológicas abstractas, as origens partidárias pesaram em várias decisões tomadas por todos eles. No caso de Marcelo Rebelo de Sousa, creio que pesaram menos e algo me diz que ainda podemos vir a ter saudades dele. Com o número de candidatos em disputa existe a natural tendência para se votar, na primeira volta, em quem parece politicamente mais próximo, ou em alguém cuja base ideológica e partidária se pretende reforçar no contexto da política nacional, para depois jogar a cartada do voto útil na segunda volta, aí para derrotar o candidato que não se deseja. Mas, da maneira que estão as sondagens sobre tendências de voto, cada vez me convenço mais que o voto na primeira volta é que  vai dizer quem disputará a inevitável segunda volta e definir quem será Presidente. Qual o perfil que desejo? Alguém capaz de respeitar a Constituição e procurar o entendimento das várias forças políticas, sem ter ou ter tido dependências de nenhuma delas. Não me sinto confortável a apoiar candidatos que têm atrás de si máquinas partidárias bem oleadas, nomeadamente com demasiadas ligações a um Governo que está longe de ser um exemplo de transparência e boas práticas. Não vou votar em nenhum candidato que, no momento de decidir o que estiver na sua esfera de competências, pense naquilo que seria melhor para o partido a que pertenceu e que o apoiou, ou aos clientes que teve. A transparência é um sinal essencial da independência. Está feita a minha escolha e chama-se Gouveia e Melo, 

 

SEMANADA - Num ranking da relação entre salário e custo de habitação Lisboa ocupa a pior posição, com um ratio pior que Moscovo, Nova Iorque, Barcelona ou Londres; na semana passada foi noticiado que existem casas de luxo à venda em Lisboa com o metro quadrado a 30.000 euros; a subida percentual do preço das casas de luxo em Lisboa supera os valores de Berlim, Dublin  e Paris; o preço médio de venda de habitações em Lisboa, o mais caro do país, foi este ano de 4865 euros por metro quadrado; o preço mediano do metro quadrado de habitação a nível nacional foi de 2605 euros por metro quadrado; Portugal é o país da OCDE com o pior acesso à habitação, com preços de casas mais do que duplicados (135% de aumento) contra um crescimento de rendimentos de 33% em 10 anos, segundo dados de 2024/2025; o bacalhau da ceia de Natal está este ano 21% mais caro que no ano passado.

 

 O ARCO DA VELHA - Os inquéritos sobre casos de corrupção abertos pela PJ aumentaram 54% em cinco anos.

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PARA ALÉM DA FOTOGRAFIA - Embora a fotografia constitua o pilar do seu trabalho, Noé Sendas é um artista que trabalha diversas áreas das artes visuais, com recurso a técnicas como a colagem ou a pintura. Nascido na Bélgica em 1972, tem trabalhado em Berlim, Madrid e Lisboa, onde expõe  regularmente na Galeria Carlos Carvalho (Rua Joly Braga Santos, Lote F ). É aí que pode ser vista até final de Fevereiro a  sua nova exposição, “For Keeps”. O núcleo principal é uma série de 14 fotografias intitulada “Crystal Girl”(na imagem), feitas entre 2011 e 2016 e que está na sala principal da galeria. Na sala lateral é apresentada a série “Fragmentos”, com nove peças, de 1992, obras criadas utilizando cera, pintura a acrílico e a óleo, lápis de cor, cola, papel e tela. Na mesma sala estão ainda “Binding”, de 2018, um trabalho com recurso a uma página de livro, postal e pvc, e “Old Studio”, de 2012, utilizando uma velha técnica óptica aplicada à fotografia conhecida por snapscope. Estão também expostas duas obras da série “One Off”, já de 2025, ambas fotografias impressas a jacto de tinta. “For Keeps” remete para a forma como Noé Sendas observa o que o rodeia, como imagina e fixa as imagens e as guarda, perpetuando a existência do que viu e criou. Esta exposição de Sendas é particularmente interessante porque permite ver o seu trabalho feito com recurso a diversas técnicas e em diferentes épocas, num arco temporal que vai de 1992 até 2025.

 

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ROTEIRO - Aqui vão algumas sugestões para começar bem o ano. O destaque vai para a exposição “Ensinamentos para Senhoritas”, de Sara Maia, na Galeria ZET de Lisboa (Rua da Prata 176). Este conjunto de obras foi inspirado no livro de Luísa Costa Gomes, “Visitar Amigos e Outros Contos” (na imagem) e a exposição fica patente até 3 de Fevereiro. Uma chamada de atenção especial para “Há mais para além do que os olhos conseguem ver”, de Luísa Cunha, no Centro de Artes Visuais (Pátio da Inquisição, em Coimbra). Com curadoria de Miguel von Hafe Pérez, a exposição mostra obras recentes de Luísa Cunha, com destaque para uma instalação sonora, num trabalho que abrange som, fotografia, vídeo e objetos, e pode ser visto até 8 de Março. 

 

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UM GRANDE DESAFIO - “O Louco de Deus no Fim do Mundo”, de Javier Cercas, tem uma história curiosa, contada pelo próprio autor logo no começo do livro: em Maio de 2023 foi convidado por um representante das edições do Vaticano para acompanhar o papa Francisco numa viagem à Mongólia, em Agosto desse ano, com o objectivo de “escrever um livro sobre a viagem , sobre o papa, a Igreja, o Vaticano, sobre o que quisesse”. Javier Cercas, que se apresenta como ateu, anticlerical, laicista militante, racionalista obstinado e ímpio inveterado, perguntou ao representante do Vaticano que lhe dirigia o convite: “Mas, oiça, não sabem que sou um tipo perigoso?” Lorenzo Fazzini, o responsável pela Libreria Editrice Vaticana, respondeu-lhe que era a primeira vez que o Vaticano abriria as suas portas a um escritor para falar com quem quiser, perguntar o que quiser e acompanhar o papa numa viagem. E mais, confirmou que no Vaticano sabiam que Cercas não era crente e que justamente por isso lhe propunha que fosse ele a escrever o livro, sublinhando que não era uma encomenda, que o escritor teria toda a liberdade de escrever o que entendesse e que poderia publicar o trabalho onde , quando e como quisesse. A possibilidade de acompanhar a visita do papa Francisco à Mongólia era um desafio: a Mongólia é um país budista, com pouco mais de três milhões de habitantes e apenas quinhentos católicos - e esse é o fim do mundo que aparece no título do livro. “O Louco de Deus no Fim do Mundo” é o relato dessa viagem, mas também do que viu, ouviu e sentiu no Vaticano. O autor dá a sua visão do papa Francisco, a quem carinhosamente chama “o louco de Deus”, do trabalho que ele fez, relata o que sentiu na sua presença e quando ambos falaram. Já no final do livro Javier Cercas tem estas palavras: “Descobri o segredo de Bergoglio. O segredo de Bergoglio é que não tem segredo nenhum: o segredo de Bergoglio é ser um homem comum e corrente.” Esta obra ganhou este ano o Prémio Europeu do Livro Jacques Delors, vai na sua terceira edição em Portugal, pela Porto Editora. 

 

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MESA DE CABECEIRA - Dois livros para nos prepararmos para 2026, ambos sobre o estado do mundo. Comecemos por “O Divórcio das Nações - O colapso da ordem mundial visto por dentro”, um livro onde o embaixador João Vale de Almeida nos explica como os países foram caminhando tal como sonâmbulos para agravar as suas diferenças em vez de procurar entendimento e considera que hoje vivemos uma das situações geopolíticas mais perigosas dos tempos modernos. O livro percorre o quarto de século que agora se completa, desde o Brexit às crises económicas, até ao radicalizar de posições que levaram a guerras, passando pela ascensão do populismo. (Edição D. Quixote) O outro livro é “O Plano - Projecto 2025, a Bíblia de Trump para transformar a América e o Mundo”. O “Projecto 2025” é um documento de quase mil páginas publicado em 2023 pela ultraconservadora The Heritage Foundation e que tem sido o guia de acção de Donald Trump, logo desde a sucessão de ordens executivas dos primeiros dias da sua segunda presidência. David A. Graham é redator na revista norte-americana “ The Atlantic”, onde faz cobertura de política e de outros assuntos nacionais e neste livro disseca os aspetos essenciais do Projecto 2025. (Edição D. Quixote)

 

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O MEU DISCO DO ANO  - Depois de muitas voltas decidi que nesta semana de fim de ano voltaria ao disco que, no meu entender, foi o melhor trabalho português em 2025. Falo de “Eu Vou Morrer de Amor ou Resistir”, de Carminho. Como escrevi em Outubro, de entre toda a nova geração de fadistas, Carminho é a intérprete que mais procura experimentar, romper tradições, ousar o acompanhamento de instrumentos improváveis, da guitarra eléctrica até teclados electrónicos.” . Sobre este seu disco sublinhava então que ele entrava “por terrenos musicais pouco explorados pelo fado, ao incluir alguns instrumentos como o mellotron. Dois dos principais temas do disco são baseados em poemas de Ana Hatherly - “Balada do País Que Dói” e “Saber” - este último com a participação de Laurie Anderson, que canta, em dueto virtual, este poema que gravou em inglês a pedido de Carminho. Volto ao meu texto original: “O disco inclui ainda poemas de Amália Rodrigues, Pedro Homem de Mello, a participação de Mário Laginha em “Dia Cinzento” e uma versão de um clássico de Norberto Araújo e Raul Ferrão, “Lá Vai Lisboa”. Na altura escrevi que este é um disco emocionante. Depois de o ter ouvido muitas vezes não tiro uma palavra ao que disse.

 

DIXIT - “Receio que as presidenciais tenham um resultado perigoso – não por quem for eleito, mas por delas resultar uma Presidência de autoridade diminuída. Na fase que o país vive não é o melhor dos cenários.” - José Manuel Fernandes, no Observador.

 

BACK TO BASICS -  “Um optimista fica acordado para ver o Ano Novo entrar; um pessimista fica acordado para se assegurar que o ano velho acaba” - Bill Vaughan.

 

A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS




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publicado às 12:00

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PROCURA-SE ESTADISTA VIVO - Quando olho para a paisagem política neste rectângulo à beira mar penso que estou a ver uma disputa enciumada entre amantes do poder. Vejo ambição, agressão, falta de escrúpulos e de princípios. Sou de uma geração que se habituou a ver estadistas responsáveis pelos destinos de Portugal a liderar Governos, partidos, na Assembleia da República como deputados e em Belém, na Presidência da República. Hoje bem posso andar à procura que, à excepção de Marcelo Rebelo de Sousa em Belém, não vejo estadistas em lugar algum. Na direcção dos partidos não vislumbro ninguém com essas características, no Governo tão pouco e pela Europa fora é preciso um grande esforço para encontrar alguém que seja indiscutivelmente um estadista - basta olhar para a corte de Bruxelas para o perceber. Perguntei à IA o que é um estadista e a resposta é esta: “Um  estadista é uma pessoa com grande habilidade e sabedoria na arte de governar, que conduz os assuntos de um Estado com competência, visão e desprendimento partidário, focando no bem-estar do país e do seu povo, não apenas em interesses políticos imediatos. É um líder que entende os desafios do Estado, demonstra conhecimento profundo da política e atua com dedicação e liderança. “. Confirmei o que pensava: estadistas são bem escasso e a sua falta  é uma das razões que gera grande parte dos nossos males, dos problemas que nos assolam, provocando o descrédito crescente da classe política e a desconfiança dos eleitores. Na realidade não chega ser contra tudo, o que distingue um demagogo de um estadista é a capacidade de encontrar consensos e concretizar transformações sem entrar em rupturas. As propostas que apresentam são na maioria dos casos um rol de banalidades. Querem o poder sem saber o que depois podem fazer a não ser distribuir brindes para manter eleitores. Em resumo: procuram-se estadistas.

 

SEMANADA  - O número de pessoas sem abrigo em Portugal já ultrapassa os 14 mil, o que significa um crescimento de 10% num ano e a maioria são homens, de nacionalidade portuguesa, entre os 45 e 64 anos; o crescimento dos sem-abrigo registados aumentou 260% em nove anos; as escolas com maior concentração de alunos mais pobres são as mais esquecidas nas requalificações de infraestruturas, daí terem maiores sinais de degradação; mais de 80% dos directores de escolas dizem não ter recursos para assegurar a educação de alunos com necessidades especiais; a taxa de sindicalização em Portugal caíu de 63% em 1977 para 7,2% em 2023; a frota pesqueira portuguesa perdeu cerca de 34% da sua força de trabalho na última década e desde o início do ano, 13 pescadores morreram no exercício da atividade; desde o início do ano, Portugal perdeu 37 ecrãs de cinema e está em vias de ver extinguirem-se mais nove, num total de quase meia centena; segundo dados do Instituto do Cinema e Audiovisual três distritos - Beja- Bragança e Portalegre - não têm exibição comercial e diversificada de cinema; a quebra de público registado nas salas de cinema portuguesas em Novembro deste ano face ao período homólogo é de 32%;  a Federação Portuguesa de Futebol fez um acordo de parceria com uma corretora financeira que não tem licença de funcionamento em Portugal; o Estado português admite que não sabe quantos são e onde vivem os imigrantes; em Portugal são vendidas mais de 23 mil embalagens de antibióticos por dia; uma sondagem da Intercampus para o “Correio da Manhã” indica que  65,1% dos inquiridos vão poupar nos presentes de Natal em relação ao ano passado; segundo o Banco de Portugal o peso das casas secundárias ou vazias sobre o parque habitacional ronda os 30% e Portugal mantém-se como um dos países europeus onde esta percentagem é mais elevada.

 

O ARCO DA VELHA - O município espanhol de Encinasola, ao lado de Barrancos, tem um centro de saúde que funciona sete dias por semana, 24 horas por dia, enquanto o de Barrancos fecha às 17h30 e só consegue funcionar ao fim de semana porque o município português paga a um médico espanhol para que sejam asseguradas as consultas de sábado e domingo.

 

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FOTOGRAFIA ANTIGA - Uma das mais interessantes exposições de fotografia em Lisboa é “O que elas viram, o que nós vemos - fotógrafas amadoras em Portugal 1860-1920”. A exposição, que está no Museu Nacional de Arte Contemporânea, no Chiado, até 1 de Fevereiro de 2026, apresenta cerca de 200 imagens captadas por três fotógrafas amadoras portuguesas do início do século XX. Cada uma delas usou técnicas diferentes, desde o colódio húmido, a gelatina e sais de prata e placas de vidro. A exposição resulta de um projecto de investigação e mostra obras de Margarida Relvas e Mariana Relvas, respectivamente filha e segunda mulher de Carlos Relvas e de Maria Da Conceição de Lemos Magalhães. Todas as fotografias expostas foram captadas entre final do século XIX e início do século XX e mostram a evolução do percurso das autoras, perceptível na passagem de uma estética romântica para o pictorialismo fotográfico.  A exposição, que foi inicialmente exposta no Museu do Porto, tem curadoria de Emília Tavares e Susana Lourenço Marques e está integrada no projecto Women Photo Pt. O Museu Nacional de Arte Contemporânea fica na Rua Capelo 13, ao Chiado,  e pode ser visitado de terça-feira a domingo das 10h00 às 13h00 e das 14h00 às 18h00. A  propósito de fotografia desta época cabe relembrar que a Casa-Estúdio Carlos Relvas na Golegã é uma visita obrigatória por quem se interessa pela história da fotografia em Portugal.

 

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ROTEIRO - No Atelier- Museu Júlio Pomar a exposição “Húmus” apresenta trabalhos de Graça Morais e Júlio Pomar em contraste com obras de Daniel Moreira e Rita Castro Neves, duas gerações artísticas distintas. A exposição mostra um extenso conjunto de desenhos pouco conhecidos, mas marcantes, de Graça Morais, muitos com sinais de um universo pagão abundante em Trás-Os Montes, de onde a artista é natural. A ligação às obras de Daniel Moreira e Rita Castro Neves está bem conseguida, num trabalho de curadoria de Ana Rito. A exposição fica patente até 5 de Abril. Em Lisboa, na Galeria Santa Maria Maior (Rua da Madalena 147), 54 fotógrafos portugueses apresentam outras tantas fotografias na exposição "Edição Limitada" que está patente até 17 de Janeiro e que foi organizada pelo colectivo CC11 (declaração de interesse: tenho lá uma fotografia minha exposta). João Miguel Barros, no texto que escreveu para a ocasião, salienta que “esta exposição reflecte, em parte, um olhar autêntico sobre o que é a contemporaneidade fotográfica em Portugal”. Todas a s imagens estão à venda com preços entre 200 e 480 euros. Na Figueira da Foz, Palácio Sotto Mayor, é apresentada a exposição “Em Testemunho da Luz”, que reúne 100 obras de alguns dos maiores nomes da pintura impressionista e da Coleção Norlinda e José Lima, assim como trabalhos da fotógrafa austríaca Renate Graf. 

 

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A ARTE DE ENSINAR - “As Lições dos Mestres” é uma recolha das conferências que George Steiner proferiu na Universidade de Harvard sobre o trabalho e a obra de nomes como Sócrates e Platão, Jesus e os seus discípulos, Virgílio e Dante, Heloísa e Abelardo, Tycho Brahe e Johann Kepler, o Baal Shem Tov, sábios confucionistas e budistas, Edmund Husserl e Martin Heidegger, Nadia Boulanger e Knute Rockne. No prefácio desta nova edição portuguesa de “Lessons of the Masters”, originalmente publicada pela Harvard University Press em 2003, Maria do Carmo Vieira relembra a proximidade de pensamento de Einstein e Steiner relativamente à tendência para o ensino se tornar especializado, o que reforça a necessidade de uma maior atenção às disciplinas de humanidades e das artes “que educam a sensibilidade, ensinam a pensar, promovendo a emancipação e formam cidadãos, sendo imprescindíveis à imaginação e ao pensamento intuitivo”. Cito algumas linhas do texto final de Steiner, o epílogo destas Lições: “Eu diria que a nossa era é a da irreverência. As causas desta transformação fundamental são as da revolução política, da sublevação social (a célebre “rebelião das massas” de Ortega y Gasset), do cepticismo obrigatório nas ciências. A admiração, para evitar falar da reverência, passou de moda. Somos viciados na inveja, na difamação, no rebaixamento. Os nossos ídolos devem exibir cabeças de barro, os louvores são principalmente dirigidos aos atletas, às estrelas pop, aos milionários ou aos reis do crime”. Steiner viveu entre 1929 e 2020, nasceu em Paris, estudou nos Estados Unidos, doutorou-se em Oxford e foi membro do Churchill College em Cambridge, onde faleceu. A edição é da Gradiva.

 

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MESA DE CABECEIRA - Fernando Correia de Oliveira é um jornalista que há mais de três décadas investiga, divulga e publica sobre temas ligados à horologia.  A sua tese de mestrado em História e Filosofia das Ciências é sobre “A Introdução do relógio mecânico em Portugal”. Em “Portugal e o Tempo”, livro agora publicado, parte de algumas perguntas: “Existe um «tempo português», no sentido cronológico, descrito e medido como por nenhum outro povo? De onde virá a nossa má relação com os hábitos de pontualidade? E a história da nossa relojoaria, o que diz sobre nós? Porque desapareceu ou está hoje ao abandono, sem funcionar, muito do património relojoeiro nacional?” No final do livro o autor deixa estas palavras: “continua a não haver nenhuma entidade ou relógio público que emita a hora legal em Portugal”. (Edição Fundação Francisco Manuel dos Santos). “Portugal E o Património da Humanidade” é uma abordagem cronológica da evolução de Portugal, desde os seus antecedentes até à atualidade, inventariando e enquadrando  os dezassete sítios nacionais  reconhecidos como Património Mundial pela Unesco , uma obra  escrita por por João Paulo Oliveira e Costa, professor catedrático do departamento de História da NOVA/FCSH e editada pela Temas & Debates.

ALMANAQUE - “Porta Premium” é uma divertida série de cinco episódios apenas disponível na plataforma RTP Play e que é uma muito bem conseguida sátira ao mercado imobiliário, à proliferação de empresas de intermediação e a todo o universo em que se movem. Boas interpretações de Gonçalo Waddington, Sónia Balacó, Tânia Alves, Mauro Herminio e Janico Durão e realização de Tota Alves.

DIXIT - “Portugal é provavelmente o país da Europa com mais processos, arguições e prescrições de primeiros-ministros. ministros, secretários de Estado, diretores-gerais e presidentes de instituições públicas. E certamente menos condenações” - António Barreto, no Público

BACK TO BASICS - “Nunca verão um Peru a desejar o Natal” - provérbio irlandês

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publicado às 10:45

O MUNDO AOS QUADRADINHOS

pensamentos ociosos, às sextas em sapo.pt

por falcao, em 20.12.25

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Cada vez que vejo grades numa janela lembro-me da expressão “ver o sol aos quadradinhos”. Mas os meus quadradinhos são outros: ler histórias em banda desenhada é um gosto que tenho desde bem novo e esse gosto tem-se mantido ao longo dos anos. Li alguns dos clássicos da literatura, como “A Ilha do Tesouro” ou a “Volta ao Mundo em 80 dias” primeiro na versão em banda desenhada e só depois nas edições originais. Os quadradinhos não me desviaram da leitura, na realidade incentivaram-na, ajudaram-me a descobrir autores e alargar os horizontes, espicaçar-me a curiosidade. Desde cedo também me habituei a ouvir dizer que havia gente que, por malfeitorias variadas, via o sol aos quadradinhos, através de grades de celas de prisão. Esses quadradinhos nunca me entusiasmaram, o que me parece bastante compreensível. Preferia as aventuras às agruras. Mas uma coisa um pouco paradoxal é que gosto de ver grades antigas, de ferros sólidos. Gosto de ver a paisagem que se vê de uma janela aberta com o horizonte desenhado numa quadrícula, que condiciona o que olhamos, como num enquadramento fotográfico. Mas volto às histórias aos quadradinhos, Na vida li de tudo, do infantil Mickey aos malandros irmãos Dalton a confrontarem Lucky Luke, suspirei por viagens a folhear o Tintim, apaixonei-me pela História de Roma antiga e da Europa desse tempo a ler as aventuras de Asterix, babando a desejar partilhar com Obélix o conhecimento do sabor do  javali. Mais tarde enredei-me noutras bandas desenhadas, no traço maravilhoso de Hugo Pratt nas histórias do seu herói Corto Maltese. E, claro, não perdia um livro ilustrado por Manara e ficava a olhar as excitantes formas das suas personagens. Tudo isto, bem entendido, sem grades.



 

 

 

 

 

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publicado às 09:00

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CABAZ DE PRENDAS - Como esta é época de prendas, aqui vai um rol de sugestões que imaginei para diversos protagonistas políticos. Comecemos pelo Primeiro-Ministro Luís Montenegro. Acho que lhe ficava bem ler “As Lições do Tonecas”, de José Oliveira Cosme, um texto suficientemente acessível, cheio de ensinamentos básicos para ele poder perceber a diferença entre mentira e verdade. Ao seu braço direito Hugo Soares deixo o “Livro das Boas Maneiras”, que o pode ajudar a superar a grosseria que manifesta. Para Leitão Amaro proponho a “Nova História da Imprensa Portuguesa”, de José Tengarrinha, a ver se ele compreende melhor uma área que tutela. À ministra que tem a pasta da Cultura sugiro a “História da Cultura em Portugal”, de António José Saraiva, já que é um conhecimento que manifestamente lhe falta. Passando aos candidatos presidenciais mais visíveis começo por propôr a António Filipe “A Mais Breve História da Ucrânia”, de José Milhazes. Para Jorge Pinto, do Livre, proponho “A Revolução Permanente” de Leon Trotsky. Para Catarina Martins, do Bloco de Esquerda, sugiro “Rumo À Vitória”, de Álvaro Cunhal. Para Manuel João Vieira vai um disco dos Jethro Tull - “Too old to rock’n’roll, too young to die”. Para André Ventura sugiro a “Constituição da República Portuguesa”, que ele por vezes parece ignorar. Para Marques Mendes proponho o DVD de “Tacones Lejanos”, um belo filme de Pedro Almodóvar. Para António José Seguro ofereço um livro de Luís Paixão Martins, “Como Perder Uma Eleição”. Para João Cotrim de Figueiredo desejo “Viagem A Portugal”, de José Saramago, que será uma boa ajuda para conhecer melhor o país fora das grandes cidades. E para Henrique Gouveia e Melo um livro de David Dinis, “Como Proteger A Democracia”.


SEMANADA-  Segundo o Banco de Portugal a entrada de trabalhadores imigrantes em Portugal caiu 40% na segunda metade de 2024;  depois dos máximos atingidos em 2023, as inscrições na Segurança Social passaram de cerca de 20 mil por mês para 12 mil; entre janeiro e outubro deste ano os imigrantes em Portugal pagaram 3,1 mil milhões à Segurança Social, o quíntuplo do que receberam em apoios; em dez anos, 670 pessoas nascidas em Portugal pediram para deixar de ter a nacionalidade portuguesa, das quais quase 100 só em 2024; o total acumulado de emigrantes portugueses em todo o mundo situa-se em cerca de 2,1 milhões de pessoas, o que coloca Portugal na 5ª posição da lista de países com maior proporção de emigrantes, a seguir à Bulgária, Croácia, Lituânia e Roménia; a emigração voltou a subir em 2023, com a saída de 81 426 pessoas, um acréscimo de 14% em comparação com os 71 mil portugueses que deixaram o País em 2022; as taxas de sindicalização em Portugal caíram de 63% em 1977 para 7,2% em 2023; mais de 80% dos directores de escolas dizem não ter recursos para assegurar a educação de alunos com necessidades especiais; a execução do investimento da Defesa, da responsabilidade do ministério de Nuno Melo, foi a terceira pior desde 2006 e só alcançou 66% do orçamento previsto.

 

ARCO DA VELHA -Desde 2020 mais de cem funcionários do Estado foram detidos em operações policiais relacionadas com o tráfico de droga e de pessoas.

 

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PENSAMENTOS - “Para os Caminhantes Tudo É Caminho” é uma recolha de cerca de 150 textos curtos de José Tolentino de Mendonça, de pendor muitas vezes quase diarístico, onde nos vai expondo o seu pensamento sobre a vida, o que o rodeia e os tempos que vivemos. Num dos primeiros textos, “Acolher a surpresa”, Tolentino de Mendonça escreve: “Não nos deixemos ficar ancorados apenas à experiência de ontem, mas abramo-nos aos recomeços que o dia de hoje imprevistamente solicita de nós. Reservemos em cada jornada tempo para escutar com profundidade e frescura, dispostos sempre a aprender qualquer coisa de novo” E, noutro texto: “Uma aprendizagem a que precisamos de regressar é a da escuta. Não nos damos conta, mas escutamos pouco e deixamo-nos a flutuar dispersos entre tantas interrupções. Hipervalorizamos ruídos, sonoridades secundárias, vozes que se sobrepõem, e fica por captar o essencial que nos está a ser revelado”. Já no final do livro, um delicioso texto “O teológico e o digital”, onde Tolentino de Mendonça explora a utilização de termos como “salvar” ou “converter”, ambos do dia-a -dia, mas com significados bem diferentes quando estamos a falar no sentido religioso ou no sentido tecnológico, de salvar um documento ou converter o formato de um ficheiro. Mesmo no fim do livro surge “O verdadeiro brilho”: “A palavra que suporta a vida não pode ser a palavra “medo” e, se pensarmos bem, aceitámos por demasiado tempo transportá-la dentro de nós. Talvez, quem sabe, a tenhamos carregado até este momento e essa constitua ainda agora a nossa carga mais inútil. Pelo contrário, a pedra angular da construção, o motivo auroral, peregrino e futurante é, sim, a palavra “confiança”. A adesão a ela não se faz contudo, sem um processo paciente, complexo, esforçado. Equivale dentro de nós a um parto”. Alguns destes textos serão evidências, poderão alguns dizer. Mas são, sobretudo, chamadas de atenção para estes dias que vivemos. José Tolentino Mendonça é poeta, sacerdote e professor. Nasceu na ilha da Madeira. Estudou Ciências Bíblicas em Roma e vive no Vaticano desde 2018, onde foi responsável pela Biblioteca Apostólica e pelo Arquivo Secreto do Vaticano e é atualmente Prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação. Em 2019, foi elevado a Cardeal pelo Papa Francisco. Para José Tolentino Mendonça, «a poesia é a arte de resistir ao seu tempo». (Edição Quetzal)

 

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MESA DE CABECEIRA - Dois livros de banda desenhada têm-me acompanhado nestes dias. Começo pela versão do célebre conto dos irmãos Grimm, “Hansel e Gretel”, uma história sobre duas crianças abandonadas numa densa e escura floresta, cheia de perigos. A história é recriada por dois grandes nomes da literatura e da ilustração: Stephen King e Maurice Sendak com um resultado gráfico e de texto extraordinários (Edição Bertrand). O outro livro é a versão criada por Milo Manara, um dos grandes nomes da Banda desenhada Europeia, do célebre romance de Umberto Eco, “O Nome da Rosa”. Passado na Itália do século XIV este romance histórico relata a investigação de heresias ocorridas num mosteiro beneditino. A edição em BD, com tradução de Jorge Vaz de Carvalho, foi editada originalmente em 2023, está dividida em dois volumes, e o primeiro foi agora distribuído de novo (edição Gradiva)

 

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FOTOGRAFIA HISTÓRICA - Até 31 de Dezembro pode ainda visitar no Museu Militar, em Lisboa, junto a Santa Apolónia, uma das mais importantes exposições deste ano - “José Veloso de Castro: A Revelação de um Artista”. Veloso de Castro foi um major do exército português, destacado em África, apaixonado pela fotografia, que registou imagens no início do século XX. O militar e fotógrafo documentou exaustivamente os locais por onde passou, nomeadamente Angola, onde esteve 16 anos em várias comissões de serviço, testemunhando, para além da componente militar, a vida e costumes das populações locais. São também interessantes os auto-retratos que foi fazendo ao longo dos anos, e que aparecem enquadrados na exposição revelando o autor.A exposição, possível graças ao trabalho de investigação de Carlos Pedro Reigadas, partiu de um espólio de 2355 positivos fotográficos e sete caixas de negativos em chapa de vidro, depositados no Arquivo Histórico Militar. O resultado da investigação foi a selecção de 120 provas inéditas, realizadas a partir dos negativos originais feitos entre 1904 e 1912. A impressão das imagens a preto e branco é magnífica e foi executada por Roberto Santandreu. A exposição estende-se ao longo de 26 salas do Museu do Exército, um espaço extraordinário e pouco conhecido, dedicado à História de Portugal. Veloso de Castro viveu entre 1869 e 1945 e as suas fotografias são muito mais que documentação colonial, evidenciam um olhar fotográfico incomum na época - as duas primeiras décadas do século XX. Carlos Pedro Reigadas, que comissariou a exposição, desenvolveu a investigação que levou a esta exposição no âmbito do mestrado em Curadoria, Crítica e Teoria das Artes em colaboração com a direcção de História e Cultura Militar que tutela o Museu Militar, o mais antigo Museu de Lisboa.

 

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ROTEIRO - Muitas das galerias privadas de arte contemporânea, em Lisboa e no Porto têm, nesta altura do ano, exposições colectivas que oferecem uma boa oportunidade de escolher uma prenda diferente - dos nomes mais recentes e emergentes até consagrados a oferta é vasta e há preços interessantes. As obras expostas em numerosas galerias provêm dos respectivos acervos e de convites dirigidos a artistas para esta ocasião. Na imagem um quadro de Pedro Chorão, evocando a obra de Jasper Johns, patente na Galeria Diferença. E porque não oferecer uma prenda diferente este ano? 

 

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O CONCERTO - Para assinalar o 50º aniversário da edição de “The Koln Concert”, a célebre gravação do concerto de Keith Jarrett na Ópera de Colónia, gravado em Janeiro de 75 e editado originalmente em Novembro desse ano, a editora ECM lançou agora uma edição especial, no formato de duplo LP de vinil, em prensagem de alta qualidade, com uma capa dupla, um pequeno livro de oito páginas com um novo ensaio de Manfred Eicher, o criador da ECM, sobre a forma como o concerto foi produzido e a gravação decorreu, assim como fotos inéditas, incluindo um retrato em impressão separada assinado por Keith Jarrett. Esta edição está à venda na Amazon por 62 euros.

 

ALMANAQUE - Em Londres, no Victoria & Albert, na nova zona de depósitos e acervos, pode ser vista uma colecção de objectos de David Bowie, desde algumas das suas guitarras até roupas usadas em concertos, tudo parte do seu arquivo pessoal que agora está guardado neste museu. E podem também ver a maior colecção de fotografia norte-americana fora dos Estados Unidos, “American Photographs”. E, ainda na área da fotografia, estão expostos os livros de fotografia que têm inspirado Sofia Coppola ao longo da sua carreira, “Sofia Coppola’s Photography Bookshelf”.

 

DIXIT - “Há quem esteja em greve contínua. O Governo, por exemplo, entra em greve mal lhe pedem para explicar a reforma laboral.” - Helena Matos, no Observador 

 

BACK TO BASICS - “Deixei de acreditar no Pai Natal quando a minha mãe me levou a uma loja de brinquedos e um Pai Natal me pediu um autógrafo” - Shirley Temple

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ANDAM À PESCA DE QUÊ ?

pensamentos ociosos, sempre às sextas no sapo.pt

por falcao, em 13.12.25

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Nesta coisa da pesca há todo um ritual, desde a preparação da cana à escolha do isco, passando pela busca do lugar perfeito para colocar o anzol de molho e ficar a aguardar. Os pescadores que trazem este arsenal - a cana, o banco, o balde, o saco - são as pessoas mais sábias na arte de passar o tempo. Se porventura o peixe não pica pensam apenas, para com os seus botões, que para a próxima será melhor e prepararam o regresso noutro dia. A pesca é o pretexto para se obrigarem a sair de casa e poderem ficar umas horas a contemplar o horizonte.  São transparentes, sinceros, verdadeiros. A cana, a linha e o anzol não estão escondidos - toda a gente sabe o que fazem e o que procuram: o prazer de sentir o peixe a morder o anzol. Mas há outros pescadores, dissimulados, que não têm cana nem anzol à vista. Insinuam-se com falinhas mansas e não estão à beira de água. Mais facilmente se encontram numa mesa de um restaurante ou encostados ao balcão de um bar. À mesa portam-se bem, são generosos com a bebida que oferecem, cercam outra pessoa com perguntas e mostram-se hábeis a levar a conversa para onde querem; a sua pesca é conseguir que digam o que eles querem saber. Os pescadores de bar são mais evidentes e descarados. Copo na mão, varrem o horizonte com os olhos como se procurassem o melhor sítio para atirar a linha à água, Metem conversa com facilidade, gabam-se de proezas, são contadores de histórias que usam palavras como se fossem anzóis. Se alguém morder o isco são rápidos a apanhar a presa. Prefiro os tradicionais pescadores silenciosos, discretos, pacientes. Nos dias que correm muitos andam à pesca mas poucos são verdadeiros  pescadores. 



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ALARGAR O DESERTO - Não é propriamente uma novidade a crise da imprensa: tiragens a descer, investimento publicitário desviado para outros meios, diminuição dos postos de venda. Em resumo: quebra das receitas da venda em papel a um ritmo que não é compensado pelas receitas de assinaturas e publicidade que vêm das edições digitais. Basta olhar para os números do investimento publicitário: no início deste século a imprensa captava a segunda maior fatia de publicidade, cerca de 20%, logo a seguir à televisão. Hoje em dia o investimento publicitário em jornais e revistas impressos significa cerca de 1,5% do mercado total e está em penúltimo lugar. Já existem regiões do país onde não há postos de venda de jornais e revistas e a situação tende a agravar-se já que a VASP, a única distribuidora de imprensa, está a considerar redefinir a sua actividade em oito distritos (Beja, Évora, Portalegre, Castelo Branco, Guarda, Viseu, Vila Real e Bragança), porque nessas zonas os custos de distribuição excedem as receitas obtidas. Além dos jornais, a VASP distribui também livros, o que agrava ainda mais a perspectiva de destruição dos hábitos de leitura em vastas zonas do interior do país. Pedro Duarte, o anterior ministro que acompanhava estes temas, anunciou em Novembro de 2024 um Plano de Acção para os Media. Passado um ano, não se concretizou a prometida ajuda para garantir a distribuição de imprensa em territórios com baixa densidade populacional. Pedro Duarte, que era mais sensível ao tema, foi eleito Presidente da Câmara Municipal do Porto e o novo titular da pasta, António Leitão Amaro, confrontado com a posição da VASP, lavou as mãos do assunto e declarou não querer intervir. A posição do Governo não vem de falta de conhecimento, é apenas uma esperteza que lhe dá jeito: menos imprensa significa menos escrutínio, menos informação, menos acompanhamento noticioso local. Ao Governo pouco interessa que se percam hábitos de leitura ou que haja desertificação noticiosa,  convictos que estão de que as redes sociais onde os Ministros tentam brilhar são mais que suficientes para manter a plebe informada. Não pensam nos cidadãos mais idosos que contam com os jornais em papel como principal fonte de informação. Mas sabem que na imprensa, cada vez com menos receitas, este apagamento de parte do país significará ainda maior quebra de receitas, o que se traduzirá em redacções ainda mais pequenas e com menos capacidade de investigação jornalística. Ou seja, uma sociedade menos informada. Se somarmos a isto os planos para a agência Lusa, agora nas mãos do Estado e com os seus responsáveis a serem nomeados pelo Governo, temos um cenário preocupante quanto à independência, à qualidade e à difusão da informação.


SEMANADA - Segundo o estudo Purchasing Power 2025 cerca de 50% dos portugueses afirmam ter perdido poder de compra no último ano; os produtos de marca própria já pesam 47% nas vendas do retalho alimentar, o valor mais alto dos últimos 14 anos;  nos primeiros dez meses do ano a PSP detectou em média 26 condutores por dia a conduzir com excesso de álcool no sangue; mais de 225 mil episódios de urgência hospitalar em 2023 foram causados por acidentes domésticos e de lazer, que provocaram 90 mortes, sendo que as quedas são o incidente mais frequente e a habitação o local com maior número de ocorrências; em 18 anos, foram condenadas em Portugal 516 pessoas por homicídios conjugais, de um total de 4553 acusadas de homicídio; meia centena de bebés foram abandonados à nascença ou nos primeiros seis meses de vida entre 2019 e 2024; no ano passado 802 estrangeiros viram recusada a entrada e 165 foram expulsos; no final de 24 existiam em Portugal milhão e meio de cidadãos estrangeiros, quatro vezes mais que em 2017; o número de brasileiros a trabalhar formalmente em Portugal já ultrapassa os 400 mil; um estudo de opinião recente indica que a maioria dos portugueses deseja um Presidente da República mais interventivo e que obrigue o Governo a agir.

 

O ARCO DA VELHA - A nomeação de três consultores para o grupo de trabalho da reforma do Estado demorou mais de um mês para conseguir  juntar a assinatura dos três governantes responsáveis.

 

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A VER O MAR - A exposição “Pinturas da Ilha”, na Galeria Miguel Nabinho, mostra duas dezenas de novas obras de Pedro Cabrita Reis e fica patente até 24 de Janeiro. Todas as pinturas foram feitas no verão de 2024 e 2025 e são peças de pequenas dimensões.  Metade das obras são pintadas a óleo em tampas de caixas de charutos e têm a designação genérica de “ondas” e as outras são pintadas a acrílico sobre papel com a designação genérica “le cemitière marin”.  Numa entrevista sobre esta exposição  Pedro Cabrita Reis afirmou : “Todas as paisagens que pinto são provavelmente sempre a mesma paisagem. E é claramente uma paisagem que, para simplificar as coisas, poderíamos dizer que é imaginária.” E prossegue:  “Estas paisagens imaginárias têm uma coisa que as liga - reportam todas ao mar, às ondas do mar, às mutações infinitas que durante o dia a luz do mar tem, as nuvens sobre o céu que está sobre o mar, os milhentos matizes de brancos, verdes, azuis,  amarelos e violetas que são o cronograma do dia no mar - e isto é fascinante, podia-se ficar uma vida inteira sentado na areia a olhar apenas. Mas há um momento em que apetece voltar da praia para o atelier  e transportar a beleza dessa visão para um registo”.

 

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ROTEIRO - Na Galeria Foco (rua Antero de Quental 55A), Nádia Duvall apresenta até dia 20 “O Sombrio Futuro da Memória” que reúne pintura, colagens de diversos materiais, vídeo e escultura. O trabalho de Nádia Duvall (na imagem) rejeita a prepotência, o abuso de poder, a lógica do medo e confronta-nos com um  exercício visual que nos prepara para o confronto, criando a tensão da antecipação de uma guerra que, afirma a artista, já não é possível evitar. Na Galeria Zé dos Bois (Rua da Barroca 59, no Bairro Alto), o artista angolano Yonamine apresenta até 16 de Janeiro a exposição  “Memória Fantasma “. O artista regressa mais uma vez à memória angolana através das páginas do Jornal de Angola. Trabalhando com cartão “Memória Fantasma”, evoca um jornal da parede tão comum em 1975 e 1976 na Angola recém-independente, reforça o papel e torna-o vertical, utilizando os media num meio onde desenvolve a sua arte.

 

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VIDA E ARTE -  “Exposto Sobre As Montanhas do Coração” é uma colectânea de escritos de Rainer Maria Rilke, agora editada para assinalar os 150 anos do nascimento do poeta. A selecção e organização deste livro é de Maria Teresa Dias Furtado, a sua tradutora de sempre para a língua portuguesa, e inclui quase centena e meia de poemas, cartas, um excerto do seu único romance, “As Anotações de Malte Laurids Brigge” e a tradução integral de “O Testamento”, um texto até agora inédito em Portugal e que Rilke escreveu antes da finalização das suas duas obras-primas, “As Elegias de Duíno” e “Os Sonetos a Orfeu“, ambas de 1923. A tradutora, Maria Teresa Dias Furtado, traça no prefácio desta edição uma biografia de Rainer Maria Rilke, um dos autores mais relevantes de língua alemã, tanto na poesia como na prosa lírica, nascido em Praga em 1875 e falecido em Valmont, na Suíça, em 1926. Edição Assírio & Alvim.

 

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MESA DE CABECEIRA - Esta semana escolhi dois livros de História. Começo por “Relações Perigosas - A cumplicidade da PIDE com as secretas ocidentais”, da historiadora Irene Flunser Pimentel. O livro é baseado na investigação de quase três décadas de relacionamento entre a polícia política da ditadura portuguesa, entre 1945 e 1975, com os seus vários nomes de PIDE e DGS, e as polícias e serviços secretos de países ocidentais, através das relações com a CIA norte-americana, a Seguridad espanhola, o BND alemão, bem como com os serviços policiais e de informação europeus e dos países da NATO, nomeadamente de França, da Bélgica e dos Países Baixos. São estas relações que Irene Flunser Pimentel investigou e agora relata (Edição Temas e Debates). O outro livro é “O Círculo dos Traidores de Hitler” e conta a história da resistência na Alemanha ao regime nazi, escrita por Jonathan Freedland. O livro relata a história verdadeira, mas praticamente desconhecida, de um grupo secreto de rebeldes que se uniram contra Hitler. Oriundos da alta sociedade de Berlim, o grupo incluía oficiais do Exército, funcionários do Governo, duas condessas, a viúva de um embaixador e uma ex-modelo, reunindo-se nas sombras, escondendo e resgatando judeus ou conspirando por uma Alemanha libertada do regime nazi. Um dia, em setembro de 1943, reúnem-se sem saberem que um deles está prestes a traí-los a todos e a entregá-los à Gestapo (Edição Bertrand).

 

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UM SOM DE MANCHESTER - “The Return of the Durutti Column” não é um disco novo da banda de Manchester que deixou uma marca nos anos 80. É, na verdade, o título do seu primeiro disco, resultante da colaboração entre o produtor Martin Hannett e o guitarrista Vini Reilly, misturando a sonoridade da forma de tocar guitarra eléctrica de Reilly, muito inspirada na guitarra clássica, com efeitos electrónicos. O que acontece é que foi agora lançada uma edição especial desse disco, para assinalar o seu 45º aniversário, e que inclui a remasterização das gravações originais além de diversos materiais gravados e ilustrações que sublinham a originalidade do trabalho de Reilly na guitarra, com edições em vinil e num duplo CD, ambas com extensas notas e um livro.

 

ALMANAQUE - A Cooperativa Cultural Diferença, que assinala 47 anos em Janeiro do próximo ano, apresenta até 7 de Janeiro uma exposição com importantes obras do seu acervo, algumas das quais já não são apresentadas há muito tempo. Vão estar expostos trabalhos de mais de duas dezenas de artistas,  fotografia, desenho e pintura, de nomes como Ana Hatherly, Ana Vieira, Alberto Picco, Albertina Sousa, Ana Vidigal, Ângelo de Sousa, António Cerveira Pinto, Daniel Malhão, Eduardo Nery, Fernando Aguiar, Gaetan, José Afonso Furtado, José Barrias, José Conduto, José Moura, José Paulo Ferro, José Pedro Cochofel, Jorge Pinheiro, Malangatana, Manuel Valente Alves, Pedro Chorão e Vítor Belém. (Rua de S. Filipe Nery 42).

 

DIXIT - Montenegro e Margarida (Balseiro Lopes) flutuam inefáveis pelo sector (da cultura) como num mar de rosas de um verso chinês. Ė poucochinho. “- João Gonçalves na sua coluna Balázio 

 

BACK TO BASICS -  “Toda a gente tem direito a ser estúpido, mas algumas pessoas abusam desse privilégio” - Anónimo

 

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SOBRE AS UTILIDADES DA FARINHA

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por falcao, em 06.12.25

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A língua portuguesa tem expressões que são um verdadeiro achado e que nos dão que pensar. Uma delas, que agora anda em desuso, mas é das mais interessantes, reza assim: ”não faças farinha!”. O que quer isto dizer? A expressão “não faças farinha” pode ser dita numa conversa entre várias pessoas  quando alguém está deliberadamente a empatar em vez de fazer o que está combinado. Também se utiliza quando não se consegue convencer uma pessoa a fazer determinada coisa ou se está a enrolar uma conversa, no sentido de enganar outra pessoa. Línguas viperinas dizem-me que também se aplica quando, num casal de namorados, uma das partes se esquiva aos desejos da outra parte, mas disso nada sei. Portanto, todos aqueles que pensavam que me estava a referir às utilizações de um pacote de farinha para fazer bolos, enganaram-se redondamente. O tema não é a gulodice, é a riqueza da língua portuguesa. E de onde vem este “não faças farinha”? A minha convicção é que provém da observação do que se passava nos antigos moinhos onde era moído o cereal. Os moinhos tradicionais tinham duas pedras circulares, que rodam uma contra a outra, indo moendo os grãos de cereal entre elas, transformando-os em farinha. O processo, que foi usado durante séculos para trabalhar os cereais, é lento - uma das mós estava fixa e a outra era giratória. Lembrei-me de tudo isto quando vi estas  duas mós abandonadas num moinho meio arruinado. Há um encanto nestes vestígios de outros tempo, e este interior de moinho faz-nos logo pensar no que aquelas paredes testemunharam - entre o trabalho do moleiro, as conversas que ele teve com quem lhe vinha comprar farinha, o regatear do preço, os encontros que testemunhou. Enfim, coisas de quem faz farinha. Este moinho fica na Serra do Louro, perto de Palmela, e, logo por acaso, fica ao lado de uma padaria tradicional onde se usa a farinha para fazer bom pão. 




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DESDE QUANDO A CULTURA É LUXO?  - Na semana passada o Parlamento aprovou a descida do IVA das obras de arte, dos 23% que o Governo de Montenegro tinha fixado em Março passado, para 6%, à semelhança de vários países europeus como a França, Alemanha, Itália, Luxemburgo e Bélgica. Noutra votação o Parlamento também aprovou a possibilidade da dedução do IVA cobrado em espectáculos, livros e museus. Estas duas alterações, que beneficiam o sector da cultura e os seus agentes, foram aprovadas sem o voto do PSD e CDS e com o voto a favor de todos os outros partidos. No debate parlamentar sobre a redução do IVA da venda de obras de arte para 6% o líder da bancada do PSD e seu secretário-geral, Hugo Soares,  afirmou que “o IVA que os deputados desceram foi o IVA das obras de arte de luxo que são vendidas nas galerias”. “Tenham decoro”, disse Hugo Soares, criticando os deputados que votaram a favor da descida, o que mereceu um abanar de cabeça de concordância de Luís Montenegro. A anterior Ministra da Cultura, Dalila Rodrigues, tinha-se pronunciado publicamente contra o aumento do IVA das obras de arte quando ele foi anunciado há uns meses e defendeu a sua descida. Não foi reconduzida depois das eleições e foi substituída por Margarida Balseiro Lopes que, antes do debate sobre o OE no Parlamento, quando interrogada sobre a proposta de descida do IVA das obras de arte, afirmou que essa redução “faz naturalmente sentido”. Não se lhe conhecem declarações após a intervenção de Hugo Soares, mas é evidente que a opinião da Ministra que tutela o sector não foi tida em conta pelo PSD e CDS, os dois partidos do Governo. Margarida Balseiro Lopes, que tem andado num frenesim de entrevistas e declarações nas últimas semanas, arrisca-se a ficar conhecida como a Ministra da Cultura que fala muito mas que não tem peso político nem influência no Governo. A política cultural não se faz de declarações, mas sim de actos. O sentido do voto assumido pelo Governo e as palavras de Hugo Soares contra o trabalho dos artistas e as galerias de arte, oculta que é nessas galerias que os jovens artistas têm frequentemente a primeira oportunidade para mostrar e vender o seu trabalho. Os artistas necessitam da actividade das galerias, não só no país, como nas feiras internacionais onde os galeristas levam as suas obras, contribuindo assim para a afirmação da cultura portuguesa no estrangeiro, coisa que o Estado faz muito pouco. Os mais cínicos, raça abundante entre governantes e políticos de várias origens, dirão que essas questões da Cultura são um problema menor e agem em conformidade. É o país que temos, a Ministra que temos, o Primeiro-Ministro que temos. Comparar a produção cultural a produtos de luxo é um triste exemplo de demagogia e uma triste constatação da forma como o PSD de hoje vê a Cultura.


SEMANADA -A PSP detetou, em média, ao longo dos primeiros 10 meses do ano,  26 condutores por dia  a conduzir veículos com excesso de álcool no sangue; em Portugal é registado um acidente a cada quatro minutos, 16 por hora, 396 por dia. As estatísticas indicam que os acidentes rodoviários continuam a ser a principal causa de mortalidade de crianças e jovens entre os cinco e os 29 anos em Portugal;  entre 1 de janeiro e 13 de novembro ocorreram 125.621 acidentes rodoviários, mais 3.730 do que em igual período do ano anterior e morreram 379 pessoas, registaram-se 2.451 feridos graves e 39.316 feridos ligeiros; uma em cada seis famílias vive em casa sobrelotadas, o que corresponde a 1,2 milhões de pessoas; entre 2020 e 2024 os portugueses consumiram uma média diária de 4079 calorias, o dobro do que é recomendado para um adulto; desde o início do ano, Portugal perdeu 37 ecrãs de cinema e está em vias de ver extinguirem-se mais nove, num total de 46; segundo  o estudo “Os Portugueses e as Redes Sociais”, da Marktest, 56% dos utilizadores de redes sociais seguem figuras públicas através destas plataformas e o Instagram é a rede mais utilizada para esse efeito; segundo os dados da Associação Portuguesa de Bancos em 2024, existiam em Portugal um total de 3283 dependências bancárias de 23 instituições e um quarto destes estabelecimentos está concentrado em apenas 10 concelhos do país, os mesmos em que estão concentrados 43.5% do valor do IMT ; em 2024, 38% dos portugueses tinham mais de 55 anos, e as projeções apontam para 46% em 2050, ou seja quase metade da população.

 

O ARCO DA VELHA - Portugal é atualmente o 2.º país mais envelhecido da UE, apenas atrás da Itália, e por cada 10 trabalhadores que saem para a reforma, entram apenas 7 jovens no mercado de trabalho.

 

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PELA ESTRADA FORA - Lumina é o nome de uma nova galeria dedicada à fotografia, que abriu em Lisboa na semana passada. O seu impulsionador é o fotojornalista e curador Bruno Portela que pretende neste espaço dar proeminência à fotografia documental, quer de autores portugueses quer estrangeiros. O objectivo é apresentar seis exposições por ano, uma delas de um autor estrangeiro. A exposição inaugural é de um trabalho feito por Luís Vasconcelos ao longo da histórica Route 66, a estrada que atravessa os Estados Unidos de uma ponta à outra. Em 1995, inspirado em “On the Road” de Jack Kerouac, e embalado pela banda sonora de “Bagdad Café”, Luís Vasconcelos partiu de Chicago ao volante de um Pontiac Catalina, acompanhado por três amigos. Na Lumen estão duas dezenas de fotografias dessa viagem, que tem um texto de apresentação onde o jornalista Ferreira Fernandes sublinha que a Route 66, que completa 100 anos em 2026, é “uma tabuleta que atravessa em diagonal os Estados Unidos, 4 mil quilómetros, a América inteira condensada, uma solidão para ser caçada em instantâneos”. Logo na sala de entrada da galeria há uma parede que Bruno Portela entregou a Rute Reimão para ali mostrar obras visuais que de alguma forma se relacionem com as fotografias expostas. Nesta primeira exposição está um triptíco de António Faria intitulado “Road To Nowhere”. Do acervo da Lumina fazem parte trabalhos de vários fotojornalistas e a próxima exposição, prevista para Fevereiro, mostrará trabalhos de Inês Gonsalves e Ana Paganini. A Lumina fica na Rua Actor Vale 53 A, junto à Fonte Luminosa, pode ser visitada de quarta a sábado entre as 15 e as 19 horas.

 

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ROTEIRO - Where Is Onde” é a nova exposição da Galeria Cristina Guerra Contemporary Art, com curadoria de Alexandre Melo e obras de João Pedro Vale+Nuno Alexandre Ferreira (na imagem), Julião Sarmento, Yonamine, Lawrence Wiener, Jack Goldstein, Robert Barry, Juan Araujo, Vera Luther, Rirkrit Tiravanija, Tomory Dodge e Fischli & Weiss. A exposição decorre até 17 de Janeiro. Até 13 de Dezembro ainda pode ver na Sociedade Nacional de Belas Artes os 30 trabalhos finalistas do prémio Sovereign Art Foundation que foi ganho por Edgar Martins. Entre os outros finalistas estão nomes como Ana Malta, Inês Raposo, Vera Midões, Mário Macilau, João Pina ou Daniela Kritsch. Na Galeria Sá da Costa decorre até 4 de Janeiro a exposição colectiva “nonchalant” com obras de Ana Paganini, Carlota Mantero, Inês Cannas, Nazaré Tojal ou Susana Paiva, entre outros. A Galeria das Salgadeiras (Avenida Estados Unidos da América 53D) apresenta a primeira exposição individual de Rita Magalhães, “Festina Lente”. E na Galeria  3+1 (Largo Hintze Ribeiro 2) pode ver até 17 de Janeiro novos trabalhos de Tito Mouraz sob o título Selva Oscura.

 

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O POEMA DESAPARECIDO - “O Que Podemos Saber”, o novo romance de Ian McEwan, começa em 2119, depois da Inundação, a catástrofe que submergiu grande parte do hemisfério norte depois de uma ogiva nuclear russa ter explodido acidentalmente a meio do Atlântico, causando um tsunami que, em conjugação com o aumento do nível do mar, deixou apenas a salvo as partes mais altas das montanhas de vários países. O cenário do início do livro mostra como o século 21 terminou da forma que todos tememos que aconteça, a Europa reduzida a um arquipélago onde os topos das montanhas são as ilhas habitáveis, com os Estados Unidos em guerra civil entre vários senhores da guerra que se defrontam. Nesse tempo a Nigéria tornou-se a potência dominante, que aloja digitalmente todo o conhecimento da humanidade. Há falta de alimentos, a internet tem condicionamentos, as viagens são difíceis e perigosas. A primeira parte do livro é narrada por Tom Metcalfe, que ensina literatura numa das universidades sobreviventes e que procura um poema desaparecido, de que só existirá uma cópia, manuscrita, da autoria de Francis Blundy. Escrito no nosso tempo actual, o poema foi uma prenda  para a sua mulher e chama-se “Uma Coroa para Vivien”. Foi lido uma única vez pelo autor em público, no jantar de aniversário de Vivien, perante uma plateia de familiares e amigos próximos. Desde essa altura nada se sabe sobre o poema mas vários dos presentes no jantar descreveram “Uma Coroa para Vivien” como uma obra prima, o melhor trabalho de sempre de Blundy. Metcalfe e a sua mulher percorrem os arquivos de Blundy e Vivien, em busca desse texto lendário, sem sucesso, no meio de numerosas peripécias, até pessoais. Este romance cruza duas épocas onde, no meio de todas as diferenças, a literatura coexiste com as paixões, com amores cruzados e até um crime. Ian McEwan escreveu um livro que é sobre a natureza da literatura, com reflexões  sobre política, filosofia e a natureza das relações entre pessoas, em torno de um mistério que cresce numa teia de intriga e cria no leitor a vontade de saber o que aconteceu ao poema e como as personagens se cruzaram. A segunda parte do livro é onde tudo se revela e não vou contar o que aconteceu. Apenas digo que este é um romance extraordinário, muito actual nos tempos que correm, que o New York Times considerou uma das melhores obras de McEwan. Edição Gradiva.

 

ALMANAQUE - Reabriu ao público o Museu Abade de Baçal, em Bragança,com uma exposição temporária do Museu Nacional de Arte Antiga intitulada "Olhar Portugal" que apresenta pintura, escultura, têxteis e ourivesaria dos séculos XII a XIX. O Museu apresenta também obras de artistas como Silva Porto e Teixeira Lopes e oito pinturas do Museu Nacional Soares dos Reis.

 

DIXIT - “Um dos problemas mais graves das democracias actuais é a ausência de líderes com sentido de missão” - José Roquete, no Expresso.

 

BACK TO BASICS -  Quando a compra e a venda são controladas por legislação, a primeira coisa a ser comprada e vendida são os próprios legisladores - P. J. O’Rourke

 

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