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Juntaram-se os três à esquina a atirar água e a soprar forte. Deram cabo do que lhes apareceu pela frente. Chamam-se Ingrid, que foi a que chegou mais cedo, logo a seguir veio o Joseph e, como era muito brincalhão, chamou a Kristin, que desembarcou com a promessa de ser a mais azougada. É um trio declaradamente cinematográfico, como veremos adiante. Este trio tem-nos atormentado, andou a soprar forte por estas terras, regando-as copiosamente e salpicando-as dessa raridade nacional que é a neve. Dizem os meteorologistas que o trio, Ingrid, Joseph e Kristin, nasceu de uma depressão. Deve ter sido coisa de monta porque da forma como descarregaram em cima de nós as suas ansiedades parecia que estávamos sob ataque. Houve momentos, no início, em que a Ingrid e o Joseph mais pareciam Bonnie & Clyde, a rebentar tudo o que podiam à sua volta. Na altura pensei que este tempestuoso casal se deve ter inspirado num dos casais mais afectuosos do cinema: Gomez e Morticia Adams, da família Adams. O filme tem uma das falas mais fantásticas das fitas, quando Morticia se volta para Gomez e lhe diz: “Whenever we’re together darling, every night is Halloween”. A realidade, estamos nós a perceber, é que se sentiam sozinhos e chamaram Kristin para passar o Halloween a seu lado. Se eu fosse dado a maus pensamentos diria que estavam com vontade de um encontro a três. Os nomes são extraordinários. Um evoca Ingrid Bergman a estrela de Casablanca”, oscarizada em “À Meia Luz”, outro o realizador Joseph Losey, o genial criador do picante “Eva” e de “O Criado”, e por fim o terceiro nome faz-me lembrar Kristin Davis, a Charlotte de “Sex In The City”. Assim se vê como as tempestades provocaram cinematográficos encontros.

O SEMPRE A RIR - Ao fim dos quase dois anos que leva como Primeiro Ministro já é possível saber quais são as principais características de Luís Montenegro, a nível pessoal, no exercício do poder. De um lado há um conjunto de, digamos, obstinações, algumas a roçar o autoritarismo: tem dificuldade em encaixar a crítica, está convencido que nunca se engana, é de ideias fixas e não gosta de ser contrariado. Quando alguém lhe aponta alguma coisa faz-se logo de vítima e não hesita em ocultar factos, procurando adiar até ao limite informações que lhe são pedidas. Não é um político transparente, baseia toda a acção em jogadas tácticas e manobras de bastidores. Foi isso que fez dentro do aparelho do PSD até se tornar presidente do partido e é isso que faz como Primeiro Ministro. Quer o poder pelo poder e, como se tem visto, tem rumo incerto e inconstante. Nos últimos dias percebeu-se mais uma característica: apesar de estar sempre a sorrir quando fala, tem uma notória falta de sentido de humor. O sorriso que desenha permanentemente é como o do Joker, essa personagem do cinema com a cara distorcida por tanto ostentar um simulacro de sorriso. Socorro-me da IA: “No filme “O Homem que Ri”, de 1928, o protagonista Gwynplaine, tem o rosto deformado num sorriso eterno e, mais do que uma expressão facial, esse sorriso representa o caos, a desordem e a desestabilização da psique humana”. Retomemos Montenegro: este homem sempre de sorriso afivelado em frente às câmeras, é o mesmo que entende mal o humor quando é ele o alvo. Pego nas palavras de Eduardo Dâmaso, no “Correio da Manhã”, a propósito das ameaças de Montenegro a quem fez uma sátira recente sobre ele: “Prefiro acreditar que quem diz e faz uma coisa daquelas é só muito ridículo. É como os Anjos contra Joana Marques. E isso é coisa que se cura com uma boa dose de humor e capacidade de rir de si próprio, que se recomenda ao senhor primeiro-ministro e acólitos. Prefiro isso a acreditar que o fazem por apanágio ideológico. Dou-lhes esse benefício da dúvida, da tolice, em vez de acreditar que, por absurdo, seriam capazes de mandar prender o Vilhena, ou o grandioso Bordallo pelas caricaturas e escritos de zoopolítica sobre a sua Grande Porca, a dita política, os seus Governos e ministros. Processar exercícios de humor fenece sempre numa enorme gargalhada.” Não é preciso dizer mais nada.
SEMANADA - Segundo o INE 57% dos portugueses com mais de 64 anos usam diariamente a internet e 11% deles estão ligados cinco ou mais horas por dia; 58% dessas pessoas têm conta nas redes sociais e 11% deles estão online cinco ou mais horas por dia; 49% dos trabalhadores da agricultura, produção animal, floresta e pesca são imigrantes; 34% dos trabalhadores de alojamento e restauração são imigrantes; em Portugal no ano passado só um em cada cinco casamentos se fez pela Igreja Católica; em 2025 nasceram 89 162 crianças, mais 4520 bebés do que os registados em 2024, o valor mais alto dos últimos 13 anos; o custo do cabaz alimentar da Deco Proteste aumentou 9,67 euros desde o arranque do ano de 2026, atingindo o valor mais elevado em quatro anos (251,49 euros); na semana passada o Governo autorizou o abate de mais de um milhar de árvores protegidas, na sua maior parte sobreiros, e no total, só nos últimos dois meses, foi autorizado o abate de 9000 árvores; entretanto o Ministro da Agricultura sugeriu aos responsáveis do Instituto de Conservação das Florestas e Natureza que se poderia mudar a lei para acelerar a aprovação de projectos e recomendou que sejam aprovados mais depressa os projectos que podem entrar em conflito com a lei; um jovem de 21 anos que foi detido pela Polícia Judiciária de Lisboa, por ter engravidado uma menor de 14 anos com deficiências físicas, ficou em liberdade por decisão do Tribunal de Sintra.
O ARCO DA VELHA - Um inspetor da secção da Polícia Judiciária de Lisboa, que era instrutor de tiro, vai ser julgado quarta-feira por uma perseguição a tiro pelas ruas de Odivelas que terminou com um menor de 14 anos baleado duas vezes e um homem que nada tinha a ver com o caso atingido por uma ‘bala perdida’ quando estava sentado num passeio a beber café.

SEM TÍTULO - João Paulo Feliciano tem uma longa e diversificada carreira a produzir obras em áreas como a música, pintura, desenho, colagem, fotografia, vídeo, instalação, luz, som e performance. Tem discos gravados, participou em bandas, criou espectáculos e teve um papel importante na bienal Experimenta Design. Quase desde o início deste século focou-se essencialmente nas artes plásticas e, hoje em dia, afirma que está sobretudo interessado em recuperar a capacidade dos artistas em fazerem composições visuais. Dos vários universos criativos que trabalhou ao longo da vida guardou referências que utiliza como artista plástico, desde tecnologias que usou na música e em espectáculos até à utilização de imagens fotográficas como base de trabalho. Esta semana inaugurou a sua primeira exposição em Lisboa desde há dez anos e apresenta na Galeria Cristina Guerra duas dezenas de obras. A exposição assinala o seu regresso à pintura, confirmando a disposição em construir imagens, rejeitando as metáforas e retomando a pintura figurativa. Nem as obras nem a exposição têm qualquer nome e tão pouco existe uma folha de sala - “cada obra vale pela sua existência visual”, afirma João Paulo Feliciano que sublinha que esta mostra de trabalhos dos cinco últimos anos “é uma composição de assuntos individuais no espaço da galeria, não pretende dar corpo a um tema”. A exposição fica na Cristina Guerra Contemporary Art até 21 de Março (Rua de Santo António à Estrela 33.

ROTEIRO - No Porto a Galeria Fernando Santos apresenta até 21 de Março a exposição de Raúl Cordero, “Pinturas para bater o recorde de 6 segundos” (na imagem), e as exposições de Pedro Valdez Cardoso, “O Sol quando nasce não é” e “The Great Unknown”. Ainda a norte Vila do Conde acolhe pela primeira vez a Mostra de Fotografia e Autores (MFA) entre 31 de janeiro e 15 de março, com fotografias de Alberto Picco, Ana Baião, Clara Azevedo, Fernando Negreira, Paulo Alexandrino e Ricardo Lopes.

A SEGUNDA VOLTA - Há quarenta anos que não tínhamos uma eleição presidencial disputada a duas voltas. Estas presidenciais têm desencadeado um torrente de memórias do que então se passou. O Observador fez um bom podcast com muitas histórias de bastidores dos candidatos, pouco conhecidas, que mostram as peripécias do que então aconteceu e tem depoimentos esclarecedores, a RTP exibiu um documentário (disponível em RTP Play) com muitas imagens de arquivo que vale a pena conhecer e João Reis Alves, jornalista, fez este livro que hoje vos apresento - “A Segunda Volta- 1986 as eleições que mudaram o país”. Até dia 8 ainda há tempo de o ler (tem cerca de 200 páginas). Começa com um retrato do que foram os anos 80 em Portugal e termina com a tomada de posse de Mário Soares em Belém, depois de derrotar Freitas do Amaral e deixar pelo caminho Francisco Salgado Zenha e Maria de Lourdes Pintasilgo. João Reis Alves percorre os meandros da política portuguesa, numa altura em que a democracia era ainda uma conquista recente e o país enfrentava uma grave crise económica. Nessa época havia de tudo e o livro retrata as coligações que se formaram, o ambiente dos resgates do FMI, reviravoltas políticas, protagonistas carismáticos e bastidores agitados. O autor recolheu relatos na primeira pessoa, contextualizados por recortes da imprensa da época, recorda os incidentes, o ambiente dos comícios, os debates na televisão e os dias renhidos antes da votação da segunda volta. O livro faz um bom retrato dos candidatos e é um documento que nos ajuda a perceber o que se passa na política. Edição Contraponto.
MESA DE CABECEIRA -Trago-vos dois livros sobre o Japão. Um deles, “Uma breve história do Japão” proporciona uma viagem pela vida quotidiana dos japoneses ao longo do tempo. O autor, Christopher Harding, é um professor de História Asiática na Universidade de Edimburgo e permite compreender melhor o Japão, não se ficando apenas pelos relatos de acontecimentos históricos, explorando a visão do mundo dos japoneses através das artes, do teatro, da arquitectura, da comida e das artes marciais. São 200 páginas entusiasmantes, que se lêem de um fôlego. Edição Casa das Letras. O outro livro é uma peça deliciosa, “Lendas e Contos de Fadas Japonesas”, reúne histórias transmitidas de geração em geração, seis extraordinárias narrativas multisseculares, numa viagem fantástica ao imaginário japonês. O livro é maravilhosamente ilustrado, com reproduções de desenhos e estampas japonesas, e leva-nos a um mundo de histórias em que a natureza e o sobrenatural andam de mãos dadas. Edição Guerra & Paz.

A MELODIA DO BAIXO - Björn Meyer é um músico de jazz sueco que explora as potencialidades da guitarra baixo e “Convergence” é o seu segundo disco para a ECM. É um trabalho a solo em que o músico explora a forma como uma viola baixo, normalmente usada para acentuar o ritmo, pode construir melodias e desenhar texturas sonoras, de forma intensa, com um sedutor virtuosismo na sua execução. O disco foi produzido por Manfred Eicher, o homem que fundou a ECM, e o trabalho que ele e Meyer realizaram em estúdio, vai para além do óbvio e explora as potencialidades técnicas e overdubs. É raro que o baixo seja utilizado como instrumento melódico, mas é isso que acontece neste disco, quer quando Meyer toca baixo acústico ou elétrico. Edição ECM disponível nas plataformas de streaming.
ALMANAQUE - Se até 12 de Abril for a Londres não perca na Tate Britain a exposição “Turner & Constable: Rivals & Originals” que mostra em paralelo o mundo destes dois artistas. Nascidos há 250 anos, J.M.W. Turner e John Constable são dois dos maiores pintores britânicos, e ambos dedicaram-se a mostrar como a paisagem pode reflectir as mudanças que ocorreram à sua volta.
DIXIT - “O comportamento do presidente do primeiro partido, que também é primeiro-ministro, deve ser o de tomar partido, de optar, de ajudar a escolher e de se comprometer. O gesto de Luís Montenegro, presidente do PSD, foi errado e inaceitável. É sinal e retrato de uma triste covardia de quem não corre riscos. Resulta de um raciocínio calculista e medíocre - António Barreto, no Público.
BACK TO BASICS - ”A velha ordem não vai voltar e não devemos lamentá-lo. A nostalgia não é uma estratégia” - Mark Carney
A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS

Em véspera de eleições, numa pacata loja de materiais de jardim, dei com este bicho. Meti-me à conversa com ele, obviamente com recurso à IA, e o canito disse-me, com um ladrar metálico, que andava à procura de em quem votar. Eu já sabia em quem votaria e desejei-lhe boa sorte. Espero que o bicho tenha tomado uma boa decisão. Afinal o signo do Cão no horóscopo chinês representa lealdade, honestidade, justiça e um forte sentido de dever. Já Milan Kundera dizia que "os cães são o nosso elo com o paraíso." Pus-me a pensar nos provérbios que a língua portuguesa dedica a esta espécie animal. Por exemplo, o conhecido “cão que ladra não morde” tem algumas variantes como “cão bom nunca ladra em falso”, ou ainda o sábio dizer “quando é velho o cão, se ladra é porque tem razão”, coisa que acontece também com muitos bons seres humanos. Outros provérbios se poderiam aplicar à política, por exemplo “cem cães a um osso“ ou o ajuizado “não acordes cão que dorme”. Nos meandros da política há outro provérbio muito usado, “quem não tem cão, caça com gato”. Quando os afazeres abundam vem logo à memória que se “está a trabalhar como um cão”. E por vezes, no meio de uma conversa mais ácida, há quem pense logo que “quanto mais se conhecem as pessoas, mais se amam os cachorros”. Por outro lado não se deve “tratar abaixo de cão” quem nos desagrada, devendo sempre ter bem presente, mesmo nas mais duras discussões, que “os cães ladram, mas a caravana passa”. Para acabar em beleza aqui deixo uma frase do grande Charles M.Schulz, criador de Charlie Brown: “A felicidade é um cachorro quente”.

QUE QUEREMOS? - O físico Carlos Fiolhais, com a sabedoria que lhe é reconhecida, colocou a questão da segunda volta das eleições presidenciais no ponto certo: “Há um candidato do regime e outro anti-regime. Estou em crer que, por muitos defeitos que tenha, o regime vai prevalecer.” E este é o ponto certo porque entre um candidato incendiário e outro que prefere combater as chamas não há muito que hesitar. De um lado temos António José Seguro, um candidato que em 2013, face ao memorando da troika, com o Governo de Passos Coelho a tentar tirar o país da bancarrota em que Sócrates o deixou, não hesitou em se mostrar disponível para um compromisso de salvação nacional, pedido pelo então presidente Cavaco Silva. Com essa disponibilidade, incompreendida pelo PS, acabou por ser afastado por António Costa. E do outro lado temos André Ventura, o dirigente de um partido que, socorrendo-me de um levantamento feito pela revista “Sábado” em Fevereiro de 2025, tinha então dezena e meia de responsáveis e dirigentes de vários níveis do Chega que estavam envolvidos em roubos, prostituição, violação de menores e pedofilia, violência doméstica e vários outros problemas com a justiça. O que queremos na Presidência: quem procura pacificar as tensões ou quem não consegue sequer manter a ordem dentro de casa? Espero que na campanha eleitoral para a segunda volta, ao contrário do que aconteceu na primeira, se fale mais do papel de Portugal neste agitado mundo em que vivemos: o que pensam os candidatos da interferência militar noutros países? Que acham das intenções de Trump de anexar a Gronelândia e se possível outros territórios? Quem aceita que é legítimo utilizar tarifas alfandegárias como arma coerciva? Quem quer que a Europa resista a Trump e à sua nova estratégia internacional baseada na estabilidade de relações com Putin e no combate à União Europeia e ao desmembramento da Nato? Que acham os candidatos de tudo isto? Estas são questões sobre as quais temos que saber qual o pensamento do próximo Presidente da República. E sobre elas é melhor que os partidos do Governo tenham também posição e digam quem preferem ter em Belém.
SEMANADA - Segundo uma empresa gestora de fortunas, Portugal foi em 2025 o quinto país do mundo que mais milionários recebeu; o risco de pobreza ou exclusão social ameaça 2,1 milhões de pessoas em Portugal, numa percentagem acima da média europeia; o preço da carne subiu 45% em seis anos e o preço do peixe subiu 29%; o número de empresas ligadas ao sector imobiliário cresceu 20% no ano passado, o valor mais alto de todos os outros sectores económicos; no âmbito do programa Escola Segura a PSP encontrou 54 armas nas escolas portuguesas ano lectivo de 2024/25 maioritariamente armas brancas; mais de 80% dos directores de escolas dizem não ter recursos para assegurar a educação de alunos com necessidades especiais; vídeos de agressões realizadas em esquadras foram partilhados por 70 polícias em grupos de whatsapp e foram identificados dez episódios de extrema violência; existem 4800 médicos estrangeiros inscritos na Ordem dos Médicos mas apenas 976 têm contrato com o SNS; em 2025 as duas maternidades onde se realizaram mais partos são de hospitais particulares; seis em cada dez partos em hospitais privados são feitos com recurso a cesarianas, o dobro do que se verifica no sector público.
O ARCO DA VELHA - Na quinta feira da semana passada existiam 108 milhões de dólares investidos em apostas nas eleições presidenciais portuguesas no Polymarket, um mercado online de apostas.

CONVERSAS - Deliciei-me a ler “Susan Sontag - A Entrevista Completa da Rolling Stone” onde aborda temas que vão do corpo à espiritualidade, ao rock, feminismo, amores e sexualidade. Susan Sontag foi ensaísta, professora, crítica de arte, romancista, dramaturga e cineasta, é considerada uma das intelectuais americanas mais influentes do século XX. Escreveu, cerca de 20 livros, entre romances e ensaios sobre temas como fotografia, cultura e mídia. O autor da entrevista, Jonathan Cott, foi aluno de Sontag e, no final dos anos 70, durante alguns meses entrevistou-a, em Nova Iorque e em Paris. Na publicação original feita na revista “Rolling Stone” em 1979, apenas foi utilizado um terço da entrevista. Cott decidiu em 2013 editar em livro todas a versão integral dessa série de conversas e é esse livro que agora foi publicado pela Quetzal em Portugal. É uma excelente forma de conhecer o pensamento de uma das mais importantes figuras da cultura contemporânea. São dela estas palavras: “gosto de entrevistas porque gosto de conversar, gosto do diálogo, sei que boa parte do meu pensamento é o produto de conversas. De certo modo, o mais difícil da escrita é estar só e ter de conversar comigo própria, o que é fundamentalmente uma actividade antinatural”.

MESA DE CABECEIRA - Um filósofo britânico, Tom McClelland, defende que uma das questões mais complicadas da actualidade é que a regulamentação em torno da IA está a avançar muito lentamente, enquanto o progresso na IA está a avançar muito rapidamente. A propósito disto ocorrem-me dois livros. O primeiro é do físico português Carlos Fiolhais e é um autêntico dicionário dos termos mais usados na Inteligência Artificial. Recolhe uma série de artigos semanais que Fiolhais fez para o Correio da Manhã publicados em “Inteligência Artificial de A a Z”, uma edição Gradiva. Outro livro bem actual é “Tech Agnostic”, de Greg M. Epstein, um capelão do Massachusetts Institute of Technology que tem trabalhado nas implicações éticas do progresso tecnológico. O livro aborda como a tecnologia se está a tornar na mais poderosa religião do mundo e porque precisa de uma reforma. A edição é da Temas e Debates.

UMA EXPOSIÇÃO INVULGAR - Até 31 de Maio poderá ver em Serralves, “Meteorizações”, uma exposição antológica de Filipa César que mostra um conjunto de trabalhos desenvolvidos ao longo de década e meia. Filipa César, que vive e trabalha em Berlim, é uma artista e realizadora portuguesa, nascida no Porto, que se interessa pelos aspectos ficcionais do documentário. Esta exposição, com curadoria de Inês Grosso e Paula Nascimento, resulta de um trabalho de investigação em torno da história e da memória do movimento de libertação da Guiné-Bissau, cruzando arquivos, memória e história e desenvolvido desde 2011. Segundo a Fundação de Serralves, “o projeto aborda materiais fílmicos e documentais, práticas de circulação de imagens e modos locais de cuidar da memória visual, dialogando com o pensamento político e cultural de Amílcar Cabral, figura central do anticolonialismo do século XX.” A exposição integra filmes, documentos e materiais inéditos, desde obras iniciais da artista até produções mais recentes, e pretende desafiar o público a reflectir sobre a História do passado colonial.

ROTEIRO - No Círculo de Artes Plásticas de Coimbra (Rua Castro Matoso, 18) José Maçãs de Carvalho apresenta até 21 de Março a exposição “21 minutes pour une image”. A exposição apresenta trabalhos em fotografia e em vídeo, recusando a oposição entre os dois suportes, e evidencia que a imagem em movimento não substitui a imagem fixa, antes a multiplica. A exposição (na imagem) tem curadoria de Daniel Madeira, e pode ser visitada de terça a sábado, das 14h00 às 18h00, com entrada livre. No Centro Cultural de Lagos Rui Sanches apresenta até 4 de Abril“ Linha e mancha, corpo e máquina” uma exposição concebida para o Centro Cultural de Lagos, a partir de um conjunto de obras pertencentes à Coleção de Serralves e a importantes coleções em depósito na Fundação, abrangendo o trabalho de Rui Sanches ao longo de quatro décadas nas áreas do desenho e escultura. Esta mostra integra o Programa de Exposições Itinerantes da Coleção de Serralves que tem por objetivo tornar o acervo da Fundação acessível a públicos de todas as regiões do país. Em Ponta Delgada, na Galeria Fonseca Macedo, Teresa Gonçalves Lobo apresenta um conjunto de novos trabalhos sob o título “A Ilha Como Nascente."

BELAS CANÇÕES - Kurt Weil foi um compositor alemão que fez parte da sua carreira nos Estados Unidos e trabalhou com Bertolt Brecht em finais da década de 1920 na produção e criação de óperas e musicais, como "A Ópera dos Três Vinténs". Weil fugiu da Alemanha nazi e viveu e trabalhou nos Estados Unidos entre 1933 e a sua morte em 1950. A meia soprano Katie Bray pegou nalgumas das composições mais conhecidas de Weil, e noutras menos populares, e em conjunto com o pianista William Vann, o acordeonista Murray Grainger e o contrabaixista Marianne Schofield criou “In Search Of Youkali” um álbum que é uma viagem da vida de Weil enquanto compositor. O tema central do disco é precisamente o tema “Youkali”, que Weill compôs em 1935 inspirado na melodia do tango. Para Weil Youkali era a terra desejada, prometida mas nunca alcançada. O disco inclui temas cantados em alemão, francês e inglês, incluindo canções escritas por Weil para um musical baseado na obra de Mark Twain “As Aventuras de Huckleberry Finn” no qual o compositor estava a trabalhar quando morreu. Destaque para as interpretações de “Barbarasong” , “Je ne t’aime pas”, “Surabaya Johnny”, “Happy End” e “Berlin Im Licht”, uma canção de 1928 que celebrava Berlim dos anos 20, antes de a cidade ter sido escurecida pela vitória de Hitler. Edição Chandos, disponível nas plataformas de streaming.
ALMANAQUE - A prestigiada marca de produtos ópticos e fotográficos Leica tem há meio século uma fábrica em Portugal, perto de Guimarães. E tem uma loja no Porto (Rua Sá da Bandeira 48), que além dos seus aparelhos fotográficos é também uma galeria. É nessa Leica Gallery que a fotógrafa portuguesa Matilde Veiga mostra até 24 de Abril “Dia de Feira”, um trabalho que mostra o ambiente dos mercados tradicionais portugueses. O mesmo espaço recebe no início de fevereiro um workshop com o fotógrafo norte americano Todd Hido.
DIXIT - ”A questão agora é simples: um socialista pode estar errado muitas vezes, mas um populista é perigoso todos os dias. Um socialista vive na mesma casa democrática do que eu, somos colegas de casa e até de quarto – como nesta segunda volta. Um chegano quer destruir esta casa onde vivo, quer a portuguesa, quer a europeia, quer a internacional. Qual é a dúvida?” - Henrique Raposo, no Expresso.
BACK TO BASICS - “Tudo é passado na nossa vida. O presente é apenas um poleiro com rodas, que o vento vai empurrando para cada vez mais longe” - Miguel Esteves Cardoso
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Corria o ano de 1955 quando foi filmada a célebre cena de “O Pecado Mora ao Lado” em que a saia de Marilyn Monroe é levantada pela saída de ar de um respirador do metropolitano, perante o olhar guloso de Tom Ewell, que com ela contracenava. A cena começou por ser filmada em Manhattan, mas juntou-se tanta gente a espreitar a beleza de Marilyn que o seu marido de então, Joe DiMaggio, uma estrela do baseball americano, causou um escarcéu tal que provocou a interrupção das filmagens. Foram mais tarde retomadas em estúdio, já sem o preocupado marido presente e a histórica cena do filme, tal como a conhecemos, nasceu aí. O acaso juntou, numa das feiras de velharias que ao fim de semana abundam pelo país, a imagem da saia esvoaçantemente reveladora de Marilyn com um coelho, outra grande referência do cinema, por via de Bugs Bunny. Adoro descobrir estes pares improváveis que se juntam: estão juntos na mesma feira de rua, mas de onde vieram? Estariam juntos em casa de alguém ou encontraram-se aqui? Quem seria que tinha em casa o grande poster da tentadora Marylin de saia levantada, olhando-a todos os dias? E como viveria o coelho de madeira entre as quatro paredes de uma casa? Andar pela rua a observar espicaça a curiosidade, desafia o olhar. Marc Riboud, um fotógrafo francês, tem uma frase de que gosto especialmente: “Tirar fotografias é saborear a vida intensamente, a cada centésimo de segundo”.

QUE FAZER? A figura do Zé Povinho foi criada há 150 anos por Rafael Bordalo Pinheiro, um homem cosmopolita que fundou oito jornais humorísticos, viajou por toda a Europa, viveu no Rio de Janeiro quatro anos, um grande amante do teatro e das artes visuais. Ao fundo do Campo Grande, em Lisboa, há um museu com o seu nome que tem agora uma exposição que dá uma boa ideia do que fez. Perspicaz observador da sociedade portuguesa, viveu entre 1846 e 1905 e deixou uma obra notável: foi caricaturista, ilustrador, fez trabalhos gráficos diversos, figurinista, e também ceramista, decorador, empresário caricaturista, ilustrador. Criou a figura do Zé Povinho em 1875, personagem resignado perante a corrupção e a injustiça, ajoelhado pela carga dos impostos, criticando de uma forma humorística os principais problemas sociais, políticos e económicos do país e ao mesmo tempo caricaturando o povo português, sempre revoltado contra a classe política, mas sem fazer quase nada para alterar essa situação. Que diria Bordalo face a este país que se tornou campeão das filas, seja à porta dos Pastéis de Belém, seja nos aeroportos, nos serviços de legalização de imigrantes, nos serviços de urgência, e, agora, até filas de ambulâncias à espera da devolução de macas nos hospitais. No boletim de voto das eleições de 18 de Janeiro há uma fila de candidatos, a maior de sempre, e até há três que não vão a votos, mas estão lá para confundir. No meio desta barafunda, que diria o Zé Povinho de tudo isto? Resignamo-nos aos políticos com experiência de nos enganarem, ou, nestes tempos difíceis, escolhemos alguém diferente, com provas dadas na defesa do país e fora das guerrilhas partidárias? Preferimos um árbitro ou um cúmplice? Para mim o papel do Presidente da República passa por chamar a atenção para os problemas que o Governo desvaloriza, deve ser a voz da realidade e não a voz do dono, e deve compreender a complexidade do mundo actual e os desafios geoestratégicos que se colocam internacionalmente. Só vejo um candidato nestas condições e chama-se Gouveia e Melo.
SEMANADA - Cerca de 1,6 milhões de portugueses vivem a mais de meia hora do hospital mais próximo e a chegada até um serviço de urgências pode levar mais que uma hora, dependendo da resposta do INEM; há vários concelhos em que o Hospital mais próximo fica do outro lado da fronteira, em Espanha, como é o caso de Melgaço; no fim de 2025 mais de 1,5 milhões de pessoas não tinham médico de família; em 2025 mais de metade das primeiras consultas no SMS foram feitas fora do tempo adequado; na última década o número de portugueses com seguros de saúde duplicou e ultrapassa agora os quatro milhões; dos mais de 89 mil bebés nascidos no ano passado 28% têm mãe estrangeira; Portugal está na 5ª posição na lista dos países mais envelhecidos do mundo, liderado pelo Japão, Itália, Finlândia e Grécia; Portugal é o segundo país mais caro em habitação da UE, apenas ultrapassado pela Hungria; Portugal foi o país da Zona Euro onde os preços das casas mais subiram no terceiro trimestre do ano passado, quando aumentaram 17,7% face a 2024; a pesca perdeu cerca de 34% da sua força de trabalho na última década e desde o início do ano, 13 pescadores morreram no exercício da atividade; segundo a Marktest em 2025 apenas 29% dos portugueses leu ou folheou a última edição de um título de imprensa; nos últimos seis anos foram apreendidas pelas autoridades policiais mais de 19 mil armas; mais de 850 presos exigem indemnizações do Estado alegando más condições nas cadeias.
O ARCO DA VELHA - A juíza de instrução criminal do Tribunal do Funchal, deixou em liberdade, com pulseira eletrónica, um homem de 31 anos constituído arguido por violência doméstica, e poucos dias depois o mesmo homem foi detido pela violação e roubo de uma prostituta de 47 anos, com ameaça de faca.

UM CENTENÁRIO - Para celebrar o centenário do nascimento de Júlio Pomar é apresentada no CAMB- Centro de Arte Manuel de Brito, no Campo Grande, em Lisboa, uma exposição com uma seleção de obras de 1944 a 2004, que percorre praticamente todas as fases do artista. Júlio Pomar expôs na Galeria 111 durante quase meio século, é o artista mais representado na coleção Manuel de Brito e uma das obras expostas é este “Tigre et Tortues”, de 1979. Na Galeria estão expostas 51 obras, sendo 28 de grandes e médios formatos e vinte três de pequenos formatos, estas últimas oferecidas pelo próprio Júlio Pomar. Na folha de sala da exposição destaca-se que “a exaltação dos corpos humano e animal que, por vezes se fundem, são uma prática constante” na obra de Pomar. E cita-se uma frase do artista no seu livro Então e a Pintura ? “O fim que me propus: inscrever na tela o vivo da vida”. Por outro lado, no Atelier Museu Júlio Pomar continua até 5 de Abril a exposição “Húmus” que apresenta trabalhos de Júlio Pomar e Graça Morais, em contraste com obras de Daniel Moreira e Rita Castro Neves, duas gerações artísticas distintas. A exposição põe em paralelo obras de Pomar com um extenso conjunto de desenhos pouco conhecidos, mas marcantes, de Graça Morais. A exposição fica patente até 5 de Abril.

ROTEIRO - O destaque desta semana vai para “Os Dias Mais Curtos”, de Joana Galego, na Galeria Belard (Rua Rodrigo da Fonseca 103B). É uma exposição invulgar: entre os dias 22 de Dezembro, 2025 e 8 de Janeiro 2026, a artista ocupou o espaço da Galeria como seu atelier de trabalho (na fotografia) . Joana Galego criou ali uma colagem que cobriu as paredes e tecto de uma sala inteira, que depois usou como base para as suas pinturas, utilizando toda a superfície disponível, num trabalho que procura “eliminar as fronteiras entre a criação artística e o seu consumo e subverter o posicionamento de uma galeria enquanto espaço neutro e estéril”. No CEFT - Centro de Estudos de Fotografia de Tomar pode ver a exposição "Na paisagem do Médio Tejo - a Fotografia como mediação cultural", que mostra o olhar de dois fotógrafos, António Ventura e Duarte Belo. Até este sábado pode ainda ver na Galeria 3+1 a exposição “Selva Oscura” de Tito Moraz. No sábado, pelas 17h00, decorre ali uma conversa entre o autor e outro fotógrafo, António Júlio Duarte. E na Galeria Diferença (Rua de S. Filipe Neri 42) pode ver duas novas exposições - na Espaço Quadrado está “Encontros com a Ilha” de Luís Brilhante, que apresenta catorze gravuras resultantes de uma temporada na ilha de São Miguel, nos Açores, e na sala e na Espaço Triângulo está “Escolha O Título”, do colectivo OTIA TVTA formado por Agostinho Gonçalves, André Catalão, Eduardo Petersen e Paulo Lisboa.

DE UM FÔLEGO SÓ - O novo romance de José Eduardo Agualusa, “Tudo Sobre Deus”, é bem diferente de “Mestre dos Batuques”, a sua anterior obra. O pano de fundo é sempre África, mas enquanto o “O Mestre dos Batuques” relatava uma aventura com um toque surreal, uma narrativa no domínio do fantástico que mistura acontecimentos históricos com as tradições e rituais do Bailundo, este novo “Tudo Sobre Deus” é um exercício de meditação sobre a vida e a morte, as relações familiares e a amizade. O livro conta a história de um homem que está a morrer e que procura um lugar onde possa passar os seus últimos dias. Encontra-o numa igreja abandonada, no meio do deserto, onde passa a viver, acompanhado do amigo que lhe resta neste fim da vida. Esta obra, que fica algures entre a ficção e a poesia, é assumidamente uma homenagem ao político e escritor senegalês Leopold Senghor. Ao longo da narrativa surge o relato de amores e desamores, os conflitos entre Pai e filha e o relato de uma amizade antiga que é o pretexto para uma das mais belas páginas do livro, onde Leopoldo Borges, o protagonista, se despede do seu amigo Inácio Brito Capitanga: “Nunca te disse, mas foi contigo que aprendi a verdadeira medida do silêncio que se pode partilhar sem constrangimentos. A ausência de explicações.” O livro deixa marcas, e lê-se de um fôlego só. África é o caderno onde Agualusa escreve os seus livros. Edição Quetzal.

AUTOBIOGRAFIA MUSICAL - O primeiro disco português do ano saíu a 1 de Janeiro nas plataformas de streaming, é de Miguel Araújo e chama-se “Por Fora Ninguém Diria”. É um exercício intimista, em torno da vida pessoal do músico, depois de se ter separado e se ter reencontrado e redescoberto. Integralmente tocado por ele em todos os instrumentos, foi gravado ao longo de vários anos no seu estúdio pessoal. Numa entrevista recente ao Diário de Notícias, Miguel Araújo explica como chegou a este disco : “Desde que tenho o estúdio em casa, desde finais de 2018, que tenho uma ética de trabalho que é ir trabalhando quase todos os dias em pedacinhos de ideias, coisas soltas, algumas coisas mais concretas, umas mais acabadas, outras menos. E vou gravando. Vou gravando assim numa perspetiva descomprometida, sem estar muito a pensar se aquilo depois um dia vai ser editado ou não (...) O disco fala sobre separação, as músicas têm todas elas algum ângulo sobre esse processo, seja de uma pessoa com quem se teve uma relação amorosa, um amigo, ou alguma outra coisa, mas as músicas têm todas isso. Algumas têm uma coisa que é o pós-separação, a esperança que aí vem.” Com 11 temas, os mais marcantes e conseguidos são “Sinto Muito”, “As Vidas Que Esta Volta Dá”, “Charlie Brown” e o derradeiro tema, um manifesto musical intitulado “Eu Não Vou Mudar”. O título do disco é tirado da primeira canção, “Meia Vida”, onde Miguel Araújo se confronta consigo próprio. “Por Fora Ninguém Dirá” vai ser apresentado ao vivo numa série de espectáculos que arranca dia 14 de Fevereiro, em Vila Real.
ALMANAQUE - No início do ano cabe destacar que almanaque só há um: o Borda d´Água e mais nenhum. Sob o slogan “O Verdadeiro Almanaque”, o Borda d´Água está com 97 anos de idade, custa três euros e apresenta-se contendo “todos os dados astronómicos e religiosos e muitas indicações úteis de interesse geral”, desde as fases da lua em cada mês até indicações sobre agricultura e jardinagem e as feiras e festas que se desenrolam ao longo do ano. Com tiragem de 100 mil exemplares, surge pela mão da Editorial Minerva. Todos os anos compro um.
DIXIT -”Coleccionar ambulâncias à porta dos hospitais porque as macas não são devolvidas (...) é só mesmo incompetência” - João Miguel Tavares, no Público
BACK TO BASICS - “Tudo é passado na nossa vida. O presente é apenas um poleiro com rodas, que o vento vai empurrando para cada vez mais longe” - Miguel Esteves Cardoso
A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS

Chegar a uma cidade que não a nossa e desempenhar o papel de turista foi a minha experiência dos últimos dias. O mais engraçado é que gostei, e bastante. Descobri coisas maravilhosas que não conhecia, andei mais a pé do que faço em Lisboa, subi e desci escadas, estive em filas numerosas e demoradas e percebi que o desejo de descobrir é o melhor remédio para o cansaço, a dor na barriga das pernas, o frio e as multidões por todo o lado. Florença foi onde tudo isto se passou, sob o pretexto de ver duas exposições que mostram a obra de Fra Angelico, um pintor italiano da época do início do renascimento, no século XV. Monge e pintor, a sua obra vai desde iluminuras a frescos de grandes dimensões, passando por uma impressionante quantidade de quadros que, em muitos casos, recriam cenas bíblicas e são sempre relacionados com a religião e a Fé. Fra Angelico viveu e trabalhou em Florença e ali deixou a sua marca, como tantos outros artistas, cujas obras fazem da cidade um museu vivo. Mesmo nesta altura do ano a multidão de visitantes, por todo o lado, é imensa. E olhar para esta multidão, fazendo parte dela, foi uma sensação completamente nova. A célebre Ponte Vecchia, onde esta fotografia foi feita, é um cenário de excelência para as selfies. Num só olhar vêem-se numerosos telemóveis, uns a captar pessoas, outros a guardar a paisagem, todos a fabricar memórias. No século passado a Kodak inventou um slogan publicitário extraordinário para popularizar a fotografia: “Para mais tarde recordar”. Hoje, já sem película, cada vez se guardam mais imagens. Será que mais tarde são recordadas, ou esgotam-se na primeira rede social que encontram?

ÁRBITRO OU CÚMPLICE? - No arranque do novo ano tornou-se evidente como existem dois países bem diferentes na mente dos dirigentes nacionais. A fechar 2025 Luís Montenegro escolheu como exemplo para Portugal os resultados alcançados por Cristiano Ronaldo e justificou-se assim: “É a escolha entre continuar a fazer o suficiente ou ambicionar atingir o excelente. É a escolha entre jogar para não descer de divisão ou jogar para entrar e ficar na Liga dos Campeões. Por isso falo da mentalidade positiva e construtiva de quem ‘entra em campo para ganhar e não para empatar’. Por isso falo da mentalidade ‘Cristiano Ronaldo'”. Claro que Montenegro diz isto apesar de os piores exemplos de falta de resultados virem do seu Governo, que deixou degradar-se a situação na saúde, na justiça, na habitação e criou o caos nas chegadas ao aeroporto de Lisboa, e na paralisação de mais de 2000 contentores no Porto de Leixões. Mas há outro Portugal, e Marcelo Rebelo de Sousa deu resposta pronta a Montenegro, contrapondo Eça de Queiroz a Ronaldo. Evocando "A Ilustre Casa de Ramires", Marcelo descreveu um país cheio de especialistas em fogachos que acabam em fumo, desleixo, trapalhadas nos negócios, “sempre alimentado pela esperança num milagre salvador”. No topo do poder estão duas visões diferentes, uma feita de promessas sem rumo certo e outra de compreensão da realidade - e é salutar que estas diferenças existam. É precisamente por isso que, no horizonte das próximas presidenciais, fiquei a pensar que o melhor seria não colocar os ovos todos no mesmo cesto, ou seja, deixar Luís Montenegro a cozinhar uma omelete a meias com Marques Mendes. O desenrolar desta campanha mostra como Marques Mendes está capturado pelo actual PSD, com a sua campanha marcada por aparições de Luís Montenegro, de ministros, deputados e notáveis, todos a marcar presença como se as presidenciais fossem um referendo ao Governo. É bom recordar que Luís Montenegro é Primeiro Ministro desde 2 de Abril de 2024 - o que, em termos práticos, quer dizer que quando houver novo Presidente da República o actual Primeiro Ministro estará no poder há quase dois anos, meia legislatura na prática fez pouco além de comprar votos, fazer promessas e armar-se em orador motivacional. A campanha começou agora, até ao lavar dos cestos é vindima, mas seria bom que os eleitores pensassem se querem votar num referendo ao Governo ou na eleição de um Presidente da República que seja árbitro e não cúmplice.
SEMANADA - O número de bombeiros feridos no combate a fogos aumentou de 212 em 2024 para 281 em 2025; o Relatório Anual de Segurança Interna, relativo a 2024, indica que cerca de 24 mil mulheres foram vítimas de violência doméstica, o que dá uma média de um crime a cada 22 minutos; em Portugal registaram-se pelo menos 108 homicídios em 2025, o valor mais elevado desde 2018; 72% das freguesias portuguesas não têm balcão bancário nem multibanco; o valor médio das casas em Portugal subiu 27% desde o primeiro pacote de medidas do Governo sobre habitação, em maio de 2024; um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos indica que cerca de 1,7 milhões de pessoas continuam a viver em pobreza; entre elas estão mais de 300 mil crianças, tendo-se registado um agravamento da pobreza nas famílias com crianças dependentes, sobretudo nas famílias monoparentais; segundo o Observatório Fiscal da União Europeia Portugal está entre os países que percentualmente têm mais riqueza colocada em offshores, cerca de 115,8 mil milhões de euros, o que corresponde a 40% do PIB português; a mensagem de Natal deste ano de Luís Montenegro foi a segunda mensagem de um Primeiro Ministro menos vista dos últimos cinco anos, sendo superada apenas pela de António Costa em 2022, enquanto a Mensagem de Ano Novo de Marcelo Rebelo de Sousa foi vista por mais de 2,7 milhões de espectadores; A Câmara do Funchal recolheu 14 toneladas de lixo após os festejos da passagem do ano.
O ARCO DA VELHA - Em 2025 os autocarros da Carris bateram novo recorde de lentidão, tendo feito uma média de 13,66 km/hora.

MARCAS EXPOSTAS - Sugiro que visitem na internet o novo Museu das Marcas, Artes Gráficas e Publicidade, que está ligado ao Museu do Caramulo e que inclui uma extensa colecção de cartazes publicitários, anúncios de imprensa, embalagens e até papel de embrulho. Constituído a partir de várias colecções particulares relevantes nesta área, algumas de pessoas ligadas à publicidade, da própria colecção do Museu do Caramulo e do acervo da Litografia Portugal, entre outras, o Museu das Marcas, dinamizado por uma equipa dirigida por Salvador Patrício Gouveia, tem “tem como objectivo preservar e divulgar a história das marcas, produtos e campanhas aos quais os consumidores portugueses estiveram expostos e que nos definem como sociedade” e funciona “como uma viagem no tempo que ajuda os mais jovens a compreender as gerações anteriores e o seu estilo de vida”. Desde prospectos e panfletos até rótulos e embalagens, suportes de publicidade interior em lojas ou anúncios de imprensa, o Museu tem também rótulos de hotel que eram colocados em malas de viagem e cadernetas de cromos publicitários. O site tem rubricas como um rol das marcas representadas, informações sobre a colecção, algumas exposições virtuais (como sobre a publicidade alimentar em tempo de guerra ou cartazes de prevenção de acidentes de trabalho), artigos sobre aspectos da colecção e uma secção de vídeo que apresenta spots de publicidade de várias épocas. O museu pode ser visitado em museudasmarcas.pt

ROTEIRO - Uma selecção de edições de peças em serigrafia, cerâmica, azulejo ou escultura de Alexandre Farto/Vhils (na imagem) está patente no MUDE- Museu do Design (Rua Augusta 24) até 1 de Março. “Alexandre Farto Aka Vhils - Selected Editions. 2008-2024” mostra o trabalho do artista nesta área, algumas vezes em colaboração com outros artistas, noutras em parceria com marcas, como é o caso das louças Bordallo. A exposição mostra a exploração de diferentes materiais e técnicas que Vhils tem utilizado (na imagem). Ainda no Mude pode também ser vista até 26 de Abril a exposição “Meu Nome António”, um conjunto de fotografias que acompanham a carreira de António Variações, feitas por Teresa Couto Pinto, que foi sua agente e amiga. Esta é também uma boa altura para visitar o Museu da Cidade de Lisboa, instalado ao fundo do Campo Grande, no Palácio Pimenta. Este Museu foi um dos nomeados pelo European Museum Forum para os EMYA Awards de 2025 e o resultado será conhecido em 2026. Esta nomeação acontece depois do processo de renovação do núcleo-sede do Museu de Lisboa no Palácio Pimenta, que culminou na sua reabertura com novos percursos expositivos e num rebranding que reposicionou o Museu de Lisboa. No MAAT pode ainda ver além da exposição permanente e da exposição de obras da colecção de Arte Fundação EDP, as esculturas de luz de Cerith Wyn Evans, “Formas no Espaço” e as pinturas que traçam uma retrospectiva de Pedro Casqueiro em “Detour”.

FOTOGRAFIA NÃO ENCENADA - Entre 27 de Janeiro e 5 de Maio de 2024 cerca de 40.000 pessoas visitaram a exposição “Factum”, que apresentou, nos dois andares do Torreão Nascente da Cordoaria Nacional, 170 fotografias de Eduardo Gageiro, feitas ao longo de toda a sua carreira de fotojornalista. O catálogo da exposição, que reproduz todas as fotografias expostas, devidamente identificadas com legendas, é uma peça fundamental para testemunhar a importância da obra de Gageiro, que morreu a 4 de Junho de 2025, aos 90 anos. Durante o período em que a exposição esteve patente Gageiro estava muitas vezes presente na Cordoaria Nacional, falando com os visitantes, respondendo às suas perguntas e contando numerosas histórias da sua vida como fotojornalista. Ele próprio participou activamente na selecção das imagens a expôr, ao lado de Sara Matos e Pedro Faro, que comissariaram a exposição. O catálogo agora editado inclui “Isto Não É Encenado”, um notável texto do jornalista Sérgio B. Gomes, que tem estudado a obra de Gageiro, no qual afirma: “Encenar é dispor as coisas com o objectivo de iludir, fazer passes de mágica para enganar. Eduardo Gageiro tem estruturado a sua fotografia com o desafiante desígnio de que através dela pode contribuir para nos desenganar, para nos esclarecer”. O catálogo, editado pelas Galerias Municipais, tem design de Pedro Falcão, está excelentemente impresso e tem 270 páginas. Está à venda nas várias Galerias Municipais e também na livraria Lisboa Cultura, no Rossio.

MESA DE CABECEIRA - Esta semana escolho duas revistas. Destaco a edição inaugural de “Primitiva”, uma ousada iniciativa de Luís Octávio Costa que é simultaneamente uma aposta na relevância do papel enquanto suporte de comunicação e na convicção de que a fotografia é parte fundamental da memória dos sítios que visitamos. Esta primeira edição mostra-nos imagens de vários pontos do mundo, relatos de quem foi conhecer, descobrir, fotografar, do distante Iraque à ilha Terceira nos Açores, entre paisagens e pessoas. Se a fotografia é o assunto da revista, existem também artigos sobre pessoas, como Rosa Pomar ou Duarte Belo, por exemplo. Esta é a mais surpreendente e estimulante revista portuguesa dos últimos tempos, visitem o seu site primitivamag.com. A outra revista é a edição anual da “Egoísta”, dirigida por Patrícia Reis, desta vez dedicada ao bicentenário do nascimento de Camilo Castelo Branco. Destaque para as pinturas inéditas de Ana Vidigal que dominam visualmente esta edição da “Egoísta”, logo a começar na capa, e também para o texto de Nuno Nunes Ferreira que apresenta a sua colecção de capas das diversas edições de “Amor de Perdição”.
ALMANAQUE - No local onde existiu uma fábrica de Pneus da Pirelli, e que agora é um grande centro de arte o Hangar Bicocca, em Milão, é apresentada até 2 de Fevereiro a maior exposição de sempre da artista visual norte-americana Nan Goldin com o título “Thie Will Not End Well”. A exposição apresenta diaporamas, filmes e fotografias de trabalhos como The Ballad of Sexual Dependency (1981-2022) , The Other Side (1992-2021) ou Sirens (2019-2020). São também apresentadas obras recentes e um conjunto de seis filmes é projectado, cada um numa sala diferente e em simultâneo.
DIXIT - “É um insulto aos portugueses atirar-nos como modelo motivacional da psicologia barata o Ronaldo. Estamos ao nível do Big Brother”- José Pacheco Pereira, no Público.
BACK TO BASICS - “Não há nada mais assustador do que observar a ignorância em acção” - Johann Goethe
A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS
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