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por falcao, em 22.05.07
NOTAS SOBRE A POLÍTICA CULTURAL EM LISBOA
Em Outubro e Novembro de 2005 escrevi no «Jornal de Negócios» uma série de artigos sobre a política cultural da cidade, os quais estão aliás neste blog.
Resolvi agora agrupá-los e actualizá-los, contributo para um debate sobre o triste estado a que se chegou nessa matéria.

LISBOA E CULTURA

A política cultural de uma cidade como Lisboa deve ser pensada em termos dos públicos a que se destina, tendo em conta a actividade dos diversos agentes e produtores na área das artes e espectáculos que existem na cidade. Não pode ser pensada só para o teatro, nem só para a música. Deve ser uma linha de acção que cative os cépticos e dote Lisboa de novos pólos de atracção. O caso de Serralves, de uma festa constante construída em torno da arte contemporânea, deve fazer reflectir. Quem acha que a arte contemporânea não atrai públicos bem pode pensar nesse exemplo.

Lisboa não pode ser só a capital e sede de instituições culturais, tem que se ganhar a cidade para ser a montra do novo, o palco do espectáculo, a feira das artes, uma permanente festa dos sentidos.

Nesta cidade os criadores modernos devem coexistir naturalmente com a tradição, a recuperação do património pode e deve estar ao lado do apoio a novas formas de expressão e de experimentação. Lisboa é a cidade do S. Carlos, do D. Maria, do S. Luiz, mas também a cidade da Bedeteca ou da Videoteca, de um S. Jorge retomado pelo público, de museus vivos e dinâmicos, de novos equipamentos para novos públicos, em circuitos naturais onde os visitantes possam descobrir uma nova razão para voltar a Lisboa, uma cidade virada para o Tejo e o futuro.

PROPOSTAS ESTRUTURANTES:
Criar um Conselho Metropolitano da Cultura e Turismo que fomente o destino turístico Lisboa na componente cultural e crie mecanismos de consensualização dos grandes Festivais e Festas dos diversos concelhos, articulando datas e fomentando um calendário sempre com atractivos.
A criação de uma Lisbon Film Commission podia estar ligada a esta entidade.

Lisboa concentra o maior número de equipamentos culturais de todo o país e, simultaneamente, o maior número de criadores e produtores artísticos – entre eles a maioria das instituições oficiais na área da museologia, música, teatro, dança e cinema para falar apenas de algumas áreas.

Em Lisboa, mas também e sobretudo nos concelhos limítrofes, nos anos mais recentes, surgiram uma série de novos equipamentos, desde bibliotecas a auditórios, passando por museus e galerias, diversos espaços dedicados a criadores e algumas iniciativas de carácter regular que têm vindo a ganhar crescente peso.

O objectivo não é fazer Lisboa entrar em competição com Oeiras, Cascais, Sintra, Almada, Loures ou Vila Franca, é antes fomentar a cooperação e proporcionar aos públicos de toda esta região uma oferta ainda mais diversificada, uma possibilidade de actuação mais alargada, uma maior utilização de recursos comuns.

Da mesma forma justifica-se criar um órgão permanente de articulação entre organismos do Ministério da Cultura e a autarquia, nomeadamente o IPPAR, IPM, Instituto das Artes e Instituto do Património Arqueológico.

Finalmente é urgente promover uma maior colaboração entre a Câmara e os operadores privados na área do espectáculo, nomeadamente em épocas determinadas como a das Festas da Cidade, fomentando a integração e não a separação de esforços.

PROPOSTAS DE INTERVENÇÃO LOCAL:
Transformação do Pavilhão de Portugal num pólo museológico que se torne numa das imagens de marca da cidade de Lisboa.

Conversão do Cinema S. Jorge numa sala multifuncional para música, cinema e conferências com 1500 lugares;

Recuperação do Pavilhão dos Desportos para sede e sala da Orquestra Metropolitana de Lisboa e afectação do edifício da Standard Eléctrica a áreas expositivas e ateliers.

Intervenção no Parque da Belavista para implantação de uma estrutura permanente de acolhimento de concertos ao ar livre (rockódoromo).

Intervenção num dos pavilhões ribeirinhos para criar um espaço vocacionado para as músicas alternativas com capacidade para cerca de 1000 lugares em pé, que coexista com um conjunto de salas de ensaio que possam ser alugadas à horas ou ao dia.

Criação de um espaço onde se desenrolem actividades que sublinhem a multiculturalidade da cidade e permita às várias etnias uma ocupação regular.

NOVAS PROPOSTAS DE ACÇÃO:
Lisbon Film Commission – O objectivo é ganhar notoriedade para Lisboa como destino de filmagens de publicidade, séries de televisão e cinema; Assegurar a participação em certames internacionais da indústria em moldes profissionais e abrangentes, assegurando uma efectiva representatividade nacional; Proporcionar um conjunto de instrumentos capazes de fornecer aos profissionais do sector todas as informações necessárias para a sua actividade;

Bienal Jovens Criadores da Lusofonia – Reforçar o papel dinâmico de Lisboa no relacionamento com as comunidades e países lusófonos, estabelecendo um ponto de encontro e reflexão de jovens criadores de áreas como as artes plásticas, a música, as artes cénicas e performativas, a fotografia, o vídeo, a moda e o design.

Poesia - Promover o grande Encontro dos Poetas Vivos como a melhor homenagem a Fernando Pessoa e introduzir a poesia na vida da cidade.

Criar um regime especial de Mecenato, em articulação com as Finanças, que permitam Lisboa fazer face aos custos que em matéria cultural ser uma Capital implica, nomeadamente no tocante a novas actividades.

Recuperar as Colectividades de Cultura e Recreio e torná-las no eixo de ligação da política cultural da autarquia aos bairros da cidade.

Manter a Lisboa Photo, a Moda Lisboa , a Experimenta Design e o Africa Festival. Retomar o Festival Internacional de Teatro ou, em substituição, criar a Mostra Internacional de Dança Contemporânea de Lisboa.».

Definir a vocação de cada uma das salas e equipamentos culturais que a Câmara possui é urgente. Várias vezes ensaiada, essa definição nunca foi concretizada e por isso subsiste a maior confusão quanto à tipologia de utilização de cada um dos teatros e salas municipais. Há dois modelos em confronto: ou a Câmara garante ela própria toda a programação, ou se associa a privados que queiram utilizar o espaço dentro de situações normais de mercado, que estão absolutamente tipificadas. A Câmara já tem aliás salas demais – e um dos esforços deve ir no sentido de aumentar a colaboração com os privados e não de criar mais estruturas internas.

O CINEMA SÃO JORGE
Antes de mais uma pequena e pouco edificante história: No final do mandato autárquico do Dr. João Soares, em Lisboa, a Câmara Municipal comprou o Cinema São Jorge a promotores imobiliários, obviamente sem saber o que lhe fazer, que utilização lhe dar. Fez uma obras e pôs lá cinema a exibir. As obras foram de cenário: tinta nas paredes, limpeza geral, máquinas de projectar e sistema de som modernizados. O grosso do problema ficou por resolver: o sistema eléctrico, as infiltrações na cobertura que agravam o perigo de um curto-circuito, climatização inexistente de facto. Pelo meio há umas pantominices engraçadas: os políticos que obrigaram técnicos a certificar a segurança de sistemas (nomeadamente na área eléctrica) que notoriamente a não tinham, uma programação de cinema ao sabor das disponibilidades das distribuidoras, etc. É claro que a equipa do Cinema era esforçada e tentava fazer o melhor, vendendo a ilusão de que a sala podia funcionar.
O S. Jorge é o exemplo acabado de como as pressões de lobbys e de uma pretensa opinião pública, em nome de uma mística salvaguarda do património e das memórias, podem levar a becos sem saída. Sem estratégia definida, em más condições físicas, o Cinema S. Jorge acabou por fechar, provavelmente tarde demais, em nome de conceitos elementares de segurança, antes que aquilo tudo ardesse a meio de uma cerimónia qualquer. E para o fechar, mesmo com o risco que existia, foi preciso bater o pé e contrariar velhos do Restelo. No último ano fizeram-se mais uns retoques, melhorou-se para os mínimos a instalação eléctrica e remodelaram-se vagamente as slas existentes para poderem acolher eventos variados.
O que foi feito não resolve a questão. Temos ali a sala. Enorme. A precisar de obras estruturais. Com um edifício ao lado, que faz parte do Cinema, os antigos escritórios da Rank, vazio e a arruinar-se. Qualquer intervenção tem que ter isto em conta. Se persistir a mania de fazer do Parque Mayer um cemitério de elefantes (equipamentos culturais, delineados sem cuidar de saber se são necessários), há que pensar seriamente o que pode ser o S. Jorge no meio de uma selva de salas. Deve reconstruir-se a sala na sua dimensão original, de cerca de 1100 lugares? O destino principal deve ser a música, ou um centro de audiovisuais (por exemplo sediar a Videoteca na zona dos escritórios devoluta) – apesar de a Cinemateca estar mesmo ali ao lado? Justifica-se aquele imobilizado para isto? Ou, como durante algum tempo se tentou, faz mais sentido traçar um cadernos de encargos e abrir concurso para concessão da sala a privados, que a mantenham como sala de espectáculos, garantam a sua recuperação e utilização – como é o Coliseu, por exemplo?

O PARQUE MAYER
Quando se começou a falar na recuperação do Parque Mayer e surgiu o nome do arquitecto norte-americano Frank Gehry, convém recordar que o que estava em causa era construir uma envolvente para um Casino. Eu sempre achei que um Casino, ali, podia fazer sentido. Iria gerar um fluxo de públicos que alimentaria todo o novo Parque Mayer e que voltaria a dinamizar a Avenida da Liberdade, tornando-a simultaneamente mais divertida e segura à noite. Frank Gehry seria, através da imagem que se esperava criar, um argumento de marketing importante do local. Para a actividade que se esperava, era um investimento que fazia sentido.
Depois, quando no meio das confusões que se conhecem o Casino acabou por deixar de poder ser feito ali, a boa lógica e o bom senso mandavam que se voltasse a equacionar o assunto. Sem Casino a possibilidade de circulação de públicos seria infinitamente menor e o programa de ocupação de espaços anterior estava claramente desajustado. Por si só os novos equipamentos, por melhores que fossem, não teriam grande atracção e, muito provavelmente, seria um sugadouro de dinheiros manter tudo a funcionar. Sem Casino o Parque Mayer, perdoem-me a comparação, seria como um Centro Comercial sem salas de cinema e sem supermercado: perdia a âncora. Valia a pena pensar num plano B, que mantivesse o Capitólio e recuperasse o espaço, em sintonia com o Jardim Botânico.
Arquitectos como Gehry servem para criar ícones, são os cenógrafos das cidades, o pretexto para forçar novas paisagens urbanas - acresce que as suas intervenções geram um considerável fluxo turístico, como tem sido sobejamente demonstrado. Com o Parque Mayer sem casino, para quê colocar o ícone num recanto escondido, atrás da avenida? – Esta é a pergunta a que vale a pena dar resposta, pensando nisto: se o objectivo é construir um ícone, que sirva de novo emblema a Lisboa, então porque não se coloca num local bem visível, obsessivamente visível e que altere a silhueta da cidade? Eu acho que é o que faz mais lógica e que existe um sítio ideal para isso, o local onde está o arruinado e já inútil Pavilhão dos Desportos, no Parque Eduardo VII.

O PAVILHÃO DOS DESPORTOS
Quando o Pavilhão dos Desportos de Lisboa foi construído a cidade não tinha infra-estruturas de grande dimensão para a prática desportiva. O Pavilhão, mais tarde baptizado de «Carlos Lopes», foi o local dos grandes jogos de hóquei e de muitas disputas entre colectividades e clubes populares. A utilização do Pavilhão Carlos Lopes para espectáculos começa de uma forma mais sistemática nos anos 70, antes ainda do 25 de Abril . Logo a seguir ele tornou-se no ponto obrigatório de comícios e congressos partidários e no palco do culminar de campanhas eleitorais. Isto até ter ficado impossível de utilizar, que é a situação em que agora se encontra.
Devido à forma como foi concebido e aos materiais de construção utilizados, o Pavilhão sempre teve má acústica (péssima, de facto), e em função da época em que foi feito apresenta graves problemas estruturais. Actualmente o Pavilhão, para além de estar em ruína porque desde há décadas não lhe é feita uma conservação eficaz (na realidade há risco de utilização por causa do estado em que está o tecto), não tem o mínimo de condições de comodidade, nem condições técnicas e de segurança. As bancadas não têm cadeiras, não há ventilação nem aquecimento e muito menos ar condicionado, a instalação eléctrica é insuficiente segundo os padrões actuais, os camarins/cabinas/vestiários são obsoletos, o sistema de incêndios é de anedota, o tecto técnico é inexistente. Além disso foi construído numa época em que não se pensava que uma sala destas poderia ter utilizações diversas e a sua própria estrutura dificulta qualquer recuperação séria segundo padrões contemporâneos – a começar pelo problema das colunas que destroem a visibilidade e dificultam a operação do espaço. Em suma, como está, não serve para nada.
Por outro lado a infraestrutura de equipamentos desportivos da cidade evoluíu. Com os novos estádios construíram-se novos pavilhões bem equipados e o Pavilhão Atlântico é hoje a sala de referência equivalente ao que o Carlos Lopes foi há 30 anos – já para não falar dos vários pavilhões de bairro que foram surgindo aqui e ali. Por isso acho que faz sentido pensar numa utilização não desportiva para o local. Sentimentalismos à parte, a estrutura tem de facto pouco interesse do ponto de vista arquitectónico e mesmo uns azulejos decorativos que posssui podem ser salvaguardados num outro contexto. Pensemos pois que o local pode – e deve - ser utilizado para outra coisa.
Retomemos agora o tema de uma obra arquitectónica emblemática, que seja parte da linha de horizonte de Lisboa, e que possa ser a alternativa de imagem aos planos actuais para o Parque Mayer. Querem melhor local que o alto do Parque Eduardo VII? Bem dotado de acessos e com área e possibilidade de estacionamento, qualquer obra que ali se faça pode contribuir para dar nova dinâmica à cidade, em local de grande visibilidade e comodidade.
A questão das valências, que deve ser bem estudada, pode ter em conta a necessidade de uma estrutura que possa acolher música, conferências, reuniões; ou, em alternativa, que possa por exemplo alojar uma orquestra como a Metropolitana (que assim poderia deixar livre o local onde está, na Junqueira); ou, então, que possa ser o local de eleição para a instalação de um novo Museu, a grande sala de exposições da capital, onde alguma grande colecção possa encontrar o seu destino: já imaginaram ali um espaço como a Tate Modern? Em qualquer caso, a estrutura pode e deve prever equipamentos que permitam ser o ponto central de animação da Feira do Livro, em vez das estruturas provisórias que se vêm construindo há anos e que já consumiram, tudo incluído, cerca de dois milhões de euros, absolutamente a fundo perdido.
No fundo é uma questão de contas: como está, o Pavilhão não serve para nada. Para o remodelar, não faz sentido manter nem a estrutura, nem a finalidade desportiva face à oferta entretanto surgida e à que há-de desenvolver-se a nível de freguesias e clubes. Por isso é importante pensar no assunto agora, sem preconceitos e, sobretudo, de forma integrada: esta é uma peça da construção da cidade; temos que ver como se encaixa e relaciona com outras, para que cada uma fique com uma função diferente, complementar e útil.



ESTADO, CIDADES E CULTURA
Em véspera de autárquicas o caso da Experimenta Design é um bom pretexto para falar um pouco da relação das autarquias com as formas contemporâneas de arte e cultura. O caso ganha ainda mais importância quando a gestão de Carmona e Amaral Lopes decidiram asfixiar a Experimenta.
Vejamos: dois acontecimentos ajudaram a projectar desde há bastantes anos uma imagem de Lisboa diversa dos choradinhos, da luz e dos carris dos eléctricos: falo da Moda Lisboa e da Experimenta. Depois, em 2005, iniciou-se o África Festival, que se propôs fazer assumir a Lisboa o papel de plataforma giratória de contacto entre as culturas de África e da Europa, abrangendo música, artes plásticas, lietratura e audiovisuais.
Estes três projectos são estruturantes, estratégicos em áreas que vão para além da moda, do design ou da música e artes plásticas: a sua repercussão na imprensa internacional produz uma imagem positiva da cidade, moderna e activa, empenhada. Lisboa precisa de mais alguns projectos de dimensão que a façam projectar além-fronteiras como uma cidade de diálogo e de acolhimento.
É nestes projectos, escolhidos e preparados com critério, que vale a pena investir – e não disseminando os fundos públicos em pequenos subsídios que aumentam a dependência e não premeiam, nas mais das vezes, o trabalho sério e de qualidade.

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