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TOTALITARISMO ABSOLUTO

por falcao, em 06.03.09

(Publicado no diário Meia Hora de dia 3 de Março)


 

Muito bem produzido, visualmente muito atraente, mas frustrante de conteúdo - o Congresso do PS deste fim de semana foi monótono, bastante vazio de discussão, sem oposição interna à vista, com o progressivo desaparecimento - presencial ou dos órgãos dirigentes - de figuras como Manuel Alegre, João Cravinho ou Jorge Coelho. O núcleo duro de José Sócrates reforçou-se, tudo foi pensado e cenografado para apenas Sócrates brilhar no seu papel duplo de Dr. Jekyll e Mr. Hyde: no Partido Socialista ele é a figura séria, assumidamente de esquerda e preocupada de Dr. Jekyll, no Governo é um tecnocrata implacável, que não olha a meios para atingir fins e deita a ideologia ás urtigas, tal Mr. Hyde. Se não fosse este estranho caso de dupla personalidade o congresso teria sido um enorme bocejo, ou, como ouvi dizer, se alguém transformasse a fórmula do congresso em medicamento o Xanax iria ter concorrência séria.

A única semelhança entre o filósofo Sócrates e o nosso político Sócrates reside na partilha, por ambos, da convicção de que teriam sido incumbidos pelos deuses de uma missão especial. Neste Congresso percebeu-se, de forma particularmente clara, que José Sócrates está convicto de que é um defensor do Bem contra o Mal. O Bem é obviamente personificado por ele, pelo PS e pelo seu Governo – tudo o que fazem está certo; o Mal está nos que os criticam, nos partidos da oposição, nos comentadores que não os compreendem, nos jornalistas que não vergam à propaganda e são acusados praticamente de traidores.

Este foi o Congresso da diabolização, um momento totalitário em que o resumo do conteúdo, de tudo o que se passou, é este: quem não está connosco é nosso inimigo, por isso temos que ter a maioria absoluta para derrotar todos os que não pensam como nós e impôr o que queremos fazer.

No discurso inicial do Congresso, José Sócrates invocou a defesa da decência democrática como a sua razão de lutar, recordou as célebres campanhas negras, as forças ocultas e nomeou órgãos de comunicação que não lhe agradam e que considera inimigos – qualquer outro político, em qualquer país democrático, teria que se explicar muito bem sobre estas palavras. Mas em vez de explicar o que pretende fazer, no discurso final, Sócrates apelou ao totalitarismo da maioria absoluta que tornou na sua causa de vida – não diz o que quer fazer, nem como quer fazer o que pretende, centrou tudo no poder absoluto que só uma maioria absoluta lhe pode conferir. Será para ter um argumento que lhe permita sair de cena se ela não fôr alcançada?

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publicado às 10:41


1 comentário

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De reconstruindoamente a 07.03.2009 às 17:17

parabens pelo blog!!

http://reconstruindoamente.blogs.sapo.pt/

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