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BERLIM - No último fim-de-semana estive em Berlim, onde já não ía há uns 18 anos, pouco tempo depois da queda do Muro, portanto. A minha primeira ida a Berlim tinha sido ainda no tempo da divisão e a parte ocidental da cidade tinha então uma vida fantástica e um ambiente especial, comparada com o ar macambúzio da parte oriental. Uns anos mais tarde, já sem Muro, Berlim era uma cidade confusa, atípica, sem nenhuma da graça nem da aura que antes tinha. Agora, renasceu. Este ano completam-se 20 anos da queda do Muro e a transformação é total. A parte oriental é a mais animada, com melhor arquitectura contemporânea, cheia de vida e movimento e no entanto sossegada nas pequenas ruas por detrás das grandes avenidas. É uma cidade acolhedora, simpática e onde – apesar da barreira do idioma – qualquer turista se sente bem. Faz muita impressão pensar em como Lisboa era há 20 anos e é agora – está pior; e uma cidade que há 20 anos estava dividida e destroçada, cheias de zonas áridas, é agora um verdadeiro paraíso urbano. Alguém por cá devia aprender com o que se fez em Berlim.

 

BURACOS - Quando penso na Avenida da República e nas Avenidas Novas, no que eram e no que são agora, é impossível não me revoltar contra os sucessivos poderes autárquicos que parecem conjugados em destruir Lisboa, em favorecer demolições e construções novas em vez de recuperações, numa Câmara apostada em proteger especuladores imobiliários e em desprezar os habitantes da Cidade. Boa prova desse desprezo está no caos de toda a zona do Saldanha, esventrada por obras do Metro que há anos se atrasam no prazo de conclusão sem que ninguém seja responsabilizado, de novo adiadas para o fim do ano.

 

INCÚRIA - Mesmo ao pé do meu local de trabalho está há umas semanas em demolição um prédio de gaveto, daqueles que foi deixado apodrecer ao longo dos anos para não ter recuperação possível e permitir a construção de algum novo edifício. Esta semana, à hora de almoço, aconteceu um acidente – caiu no meio da rua parte da fachada, por incúria de quem estava a fazer a demolição. Quem dá alvarás a empresas de demolição? Quem as fiscaliza? Quem vai punir este acidente? – Só por acaso os escombros não atingiram alguém.

 

LER - Dois artigos magníficos na «Vanity Fair» de Maio. O primeiro, sobre o roubo da «Mona Lisa» do Louvre, ocorrido em 1911 – ao que parece o roubo terá servido para uma quadrilha de falsificadores venderem a coleccionadores norte-americanos com poucos escrúpulos pelo menos seis cópias perfeitas do quadro de Da Vinci, obviamente cada um convencido de que estava a comprar a obra roubada. O original acabou por ser localizado ano e meio mais tarde, já todo o negócio estava feito e a intenção dos ladrões nunca foi vendê-lo, mas sim aproveitar o momento – muito mais lucrativo vender seis que apenas um… O outro artigo é sobre a crise que começa a assolar o «New York Times», tido como um exemplo do bom jornalismo e um case study de uma boa transição para o on line. O artigo, magnífico, devia ser dado a todos os gestores de empresas jornalísticas, para que percebam quais as questões fundamentais do negócio onde estão envolvidos.

 

PROIBIR - Parece que a cadeia de supermercados «Jumbo» se recusou a vender a reedição da obra «A Casa dos Budas Ditosos» de João Ubaldo Ribeiro (autor brasileiro que ganhou o Prémio Camões em 2008), por considerar a obra pornográfica. É um bocadinho assustador que um qualquer responsável de compras de uma mercearia gigante se arme em censor e guardião dos bons costumes, mas a verdade é que um dia destes, ao entrar no Jumbo das Amoreiras com um livro que andava a ler debaixo do braço, um dos seguranças de serviço me queria colocar um autocolante por cima da capa do livro, estragando-o. Quando os funcionários tratam assim os livros não é de admirar que outros se armem em censores. No meio disto li uma ridícula declaração de alguém do «Jumbo» sobre o livro censurado que é um perfeito manual de incompetência em matéria de relações públicas e comunicação.



 

RECORDAR – A minha geração foi a primeira que cresceu a ouvir os Xutos – eu tinha vinte e poucos anos quando os vi pela primeira vez e foi com muita alegria que há uns 17 anos li «Conta-me Histórias», um livro sobre a vida da banda escrito por Ana Critina Ferrão. Esse livro – o relato de um encantamento, como escrevi na altura - foi agora reeditado, revisto e aumentado, numa magnífica nova edição, mais uma vez com a chancela da Assírio e Alvim. É uma bela e indispensável peça na celebração dos 30 anos dos Xutos.

 

OUVIR – O disco que me acompanha nestes dias é o novo de Bob Dylan, «Together Through Life». As suas dez canções (nove escritas por Dylan e pelo ex-Grateful Dead Robert Hunter), são retratos cáusticos destes tempos que correm, com uma instrumentação dura mas simples, com laivos de blues e bayou, misturando acordeão com banjo e bandolim, tudo produzido de forma crua e eficaz pelo próprio Dylan sob o seu habitual pseudónimo musical de Jack Frost. Cito um dos temas mais marcantes, «Forgetful Heart»: "All night long/I lay awake and listen to the sound of pain/The door has closed forevermore/If indeed there ever was a door." E termino com outra canção arrebatadora, «It’s All Good»: "Big politician telling lies/Restaurant kitchen, all full of flies/Don't make a bit of difference".

 

PROVAR – Se de repente estiver com vontade de experimentar boa comida oriental descubra um restaurante tailandês chamado «Sete Pecados» - boa qualidade de produtos, muito boa confecção, tempero adequado, serviço amigável e familiar. Os petisquinhos do couvert são deliciosos e se gosta de cerveja experimente a tailandesa «Singha», de sabor invulgar mas muito interessante. Av. Luís Bívar 7ª, telefone 213160529.

 

BACK TO BASICS – Uma notícia é aquilo que alguém desejaria que não fosse publicado; publicidade é todo o resto do conteúdo dos jornais - William Randolph Hearst2008)

 

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