Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



 


NEGOCIATAS – Nos últimos anos são muitos os casos de negociatas feitas à sombra da política – quase se tornou num hábito adquirido. A forma como se encara a questão das finanças na política é a grande culpada deste assunto e, na minha opinião, tem três planos de análise, todos eles em situação crítica: o financiamento partidário (cuja nova Lei é melhor que as anteriores mas ainda muito insuficiente); as limitações ao custo das campanhas; e os vencimentos dos titulares de cargos políticos. A questão dos limites aos custos das campanhas é das situações que mais proporciona o actual estado de coisas. Na verdade, ao estabelecer limites objectivamente baixos para os tempos que correm, fomenta-se o financiamento encapotado – já que os dinheiros não declarados se destinam em teoria  a pagar as despesas que ultrapassam os limites, situação que toda a gente sabe que existe na maioria dos partidos. O dinheiro ilegal que entra nos partidos serve para isto e a sua existência desculpa muita coisa. Nas autárquicas a situação ainda é pior – quer em relação aos partidos, quer em relação aos independentes (que são penalizados e nem o IVA podem deduzir – um escândalo!). A hipócrita forma como se proíbe a aquisição de publicidade em campanhas políticas fomenta o aparecimento de empresas, muitas vezes ligadas a pessoas dos aparelhos dos partidos, que exploram materiais de publicidade exterior não regulamentada, que desenvolvem marketing digital, que produzem sites, gerem actuação nas redes sociais, produzem filmes e por aí fora, tudo numa actividade semi-encoberta para não ofender a lei. O evoluir da tecnologia e do mercado impossibilita o pensamento angélico da Lei – um mundo onde a propaganda política e partidária nunca é paga e é feita de voluntariado. Em nome da igualdade (fictícia) de oportunidades para os concorrentes a eleições, na verdade fomenta-se o financiamento ilegal e proliferam empresas informais que concorrem abusivamente no mercado da publicidade e da comunicação – em resumo, é uma fantochada. Fantochada igual é a da remuneração dos cargos políticos – quando meros assessores de gabinetes governamentais ganham mais que deputados ou quando assessores de autarquias ganham mais que vereadores, o mundo está virado ao contrário. Enquanto isto não fôr mudado, prosseguirão os escândalos e há terreno para a corrupção e o compadrio medrarem.

 

ESCUTAS – Duas perguntas: Se Sócrates, como repetidamente disse em público, nada se interessava nem sabia sobre a TVI, porque era então esse um tema de conversa entre ele e o seu amigo Vara? E outra pergunta, mais dura: até que ponto as simpatias politicas, públicas, do Presidente do Supremo, Noronha do Nascimento, pesaram na sua decisão – nomeadamente de não haver qualquer pronunciamento antes das eleições legislativas quando o material já estava na sua posse? E, claro, é polémico – vários juristas o admitem - que caso existam suspeitas de relevância criminal numa conversa em que o escutado estava a ser vigiado dentro dos limites da Lei elas não possam ser investigadas. Por acaso a Lei que fundamenta a simpática decisão do Presidente do Supremo deriva de uma proposta do próprio Governo Sócrates. O cidadão comum, que não é jurista, acha que há coisas feitas por favor, conveniência e compadrio em todo este caso. Quando a política e a justiça vivem envolvidas num manto de mentiras e cumplicidades quem fica pior é o regime – a ética republicana anda mesmo por baixo em véspera de faustosas comemorações.

 

CULTURA – Por ocasião da tomada de posse deste Governo escrevi que a nomeação de Gabriela Canavilhas podia ser um bom sinal. Mas as suas primeiras declarações à imprensa, pondo a tónica na necessidade de, na Cultura, transformar o pouco de que se dispõe em muito, fazem-me lembrar as fatais declarações do seu antecessor, José António Pinto Ribeiro, que também entrou a matar com o lema de fazer mais com menos. A questão da política cultural é dupla: desde que Sócrates é Primeiro Ministro esta área tem tido uma completa ausência de estratégia e, por outro lado, tem objectivamente cada vez menos orçamento. De nada servirão as declarações de Sócrates sobre a importância do sector se continuar na prática a subalternizá-lo e a levar os seus Ministros a defenderem que a melhor omolete é a que se faz sem ovos. No fundo a Ministra da Cultura sabe que precisa de mais meios para poder criar uma nova estratégia – não faz sentido cair nos erros dos seus antecessores.

 

OUVIR – Tenho uma devoção especial pelos Eeels – estou a falar da banda rock norte-americana e não das enguias da Murtosa em conserva, que por acaso também fazem as minhas delícias. Eu gosto dos Eeels porque fazem canções simples, parecem genuínos e tocam de uma forma absolutamente arrebatadora,. Sou fã do seu mentor, Mark Oliver Everett, conhecido como E. , desde o disco «Beautiful Freaks» de 1996. Una anos depois, se a memória me não falha na altura do álbum «Daisies Of The Galaxy», eles actuaram ao vivo no Lux, em Lisboa e eu fiquei rendido à energia que saía de toda aquela simplicidade. De modo que quando este ano vi um novo disco da banda nem hesitei - «Hombre Loco», subtitulado «12 Songs Of Desire» é mais um trabalho magnífico. Se querem ter uma ideia do assunto procurem no youtube o video the «The Look You Give That Guy», protagonizado pela modelo, actriz e escritora Padma Lakshmi (avassaladora!), que faz olhinhos ao próprio Everett. Transcendente – musical e visualmente.

 

VER – Uma das revistas de que procuro não perder nenhuma edição é a portuguesa «L+Arte», sem dúvida a melhor publicação na síntese entre arte contemporânea, apresentação de novos artistas, noticiário de artes plásticas e o mundo das antiguidades. Destaque na edição de Novembro para o portfolio de António Olaio, para o artigo sobre a retrospectiva de Amish Kapoor em Londres e para um bom artigo de antecipação sobre as próximas Feiras de Arte em Lisboa e em Vigo.

 

LER – «Blackpot» é uma novela policial, até agora inédita, de Dennis McShade, ou seja, Dinis Machado. Tem 58 páginas, foi publicada pela Assírio & Alvim e lê-se de um jacto. Percebe-se também que foi escrita de um jacto, depois de muito pensada e estruturada. Tem uma narrativa veloz e formalmente invulgar e uma acção decalcada de uma tempestade. Se eu fosse realizador de cinema pegava já nesta história e filmava-a. Está escrita para ser um filme.

 

BACK TO BASICS –Raramente a verdade é pura, e nunca é simples -

Oscar Wilde.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 09:54



Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.



Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2016
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2015
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2014
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2013
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2012
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2011
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2010
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2009
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2008
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2007
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2006
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2005
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2004
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D
  222. 2003
  223. J
  224. F
  225. M
  226. A
  227. M
  228. J
  229. J
  230. A
  231. S
  232. O
  233. N
  234. D