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(Publicado dia 18 no Jornal de Negócios)


 


SERVIÇO PÚBLICO  –  O deputado do PSD Agostinho Branquinho veio esta semana reintroduzir o debate sobre o serviço público de televisão através de um artigo, no «Diário Económico», onde defendeu implicitamente a sua extinção. Citando alguns números, alguns dados e muito pouco benchmarking, fez algumas extrapolações, todas a partir do actual modelo existente.


Há um vício de forma em toda a argumentação de Agostinho Branquinho – ele parte do pressuposto de que a RTP faz Serviço Público e esse é o erro base. Na realidade, diz o deputado, «o cidadão português não ganha nada com a televisão pública que não possa obter num qualquer operador privado». Mas isso acontece exactamente porque a RTP cada vez se afasta mais do conceito actual, contemporâneo, de serviço público de televisão, nomeadamente dos modelos dos países onde a televisão privada é forte, como os casos da PBS norte-americana e de uma série de estações públicas europeias de países como a Holanda, a Dinamarca, a Alemanha, a Noruega e a Suécia. Convido a uma reflexão sobre estes modelos e a uma análise cuidada das suas realidades.


Para esclarecer as coisas, sou da opinião de que deve existir serviço público, com um único canal nacional, com um forte enfoque em noticiário nacional, regional e internacional, de acesso livre e universal em todo o território português, por difusão hertziana. Este canal único nacional não deve ter publicidade nem patrocínios comerciais e deve privilegiar a informação, o pluralismo, o debate, a programação infantil de qualidade, a produção de documentários de diversa índole e a produção de ficção nacional nas tipologias não concorrenciais com os canais privados. Pode e deve ter um tratamento adequado do entretenimento, desporto incluído – sobretudo não pode ser um canal maçador, sorumbático e cinzento. Existem diversos canais públicos com estas boas características, que inclusivamente exportam formatos, como a «Rua Sésamo». Esse canal deve ter o mínimo de meios necessários e basear a sua produção nos produtores independentes, seguindo as recomendações internacionais sobre esta matéria. Não há razão que impeça que o serviço informativo seja contratado no exterior – há países onde isso acontece em canais de serviço público. E, finalmente, a nível internacional, o operador de serviço público deve acabar com o RTP África e manter apenas um canal que seja a imagem internacional do país – um embaixador audiovisual de Portugal.


Isto é o que me interessa – ou seja, os conteúdos de um serviço público de televisão e as suas obrigações é que o tornam ou não útil e necessário. O resto é uma questão de organização. Mas o primeiro passo é decidir o que deve ou não ser assegurado. Se é concessionado ou não é outra história e não é o mais importante.


Existe acessoriamente uma razão para a existência de um operador de serviço público: a dinamização da produção independente nas áreas menos apetecidas pelos operadores privados, como os documentários, o registo de espectáculos na área do entretenimento ou uma programação infantil acessível, cuidada e baseada no português falado e não em legendagens. Estas áreas são fulcrais para o desenvolvimento e para a nossa sobrevivência no universo dos conteúdos audiovisuais.


Questão final, cuja responsabilidade é dos políticos: garantir que um operador de serviço público possa ser independente do poder político, com um caderno de encargos rigoroso (cujo levantamento aliás existe), fiscalizado de forma técnica e regulado de forma independente. Se os políticos não conseguirem replicar este modelo, que existe em vários países, então o melhor é demitirem-se de serem políticos.


 


POLÍTICA - Para existir liberdade de voto tem que existir liberdade de escolha. Para existir liberdade de escolha têm que existir vários candidatos. Utilizar o argumento de que não devem surgir mais candidaturas, por exemplo à Presidência da República, para que não se prejudique a reeleição de Cavaco ou as possibilidades de Alegre, é o princípio do fim da democracia – ou seja aquilo em que os partidos e muitos políticos esforçadamente andam a tentar fazer. Mão amiga fez-me chegar à memória este dado: nas eleições presidenciais francesas de 2007 existiam na primeira volta 12 candidatos, e em 2002 eram 15. Liberdade de escolha é isto – ter várias propostas, ouvir vários discursos, ter por onde escolher. De qualquer modo, à segunda volta passam sempre apenas dois candidatos e é entre eles que se decide. O que me aborrece muito é a ideia de que basta existir uma primeira volta e com quanto menos candidatos melhor. O que me anima é poder ter uma campanha onde, por exemplo, se discuta o que deve ou não mudar no nosso sistema político-partidário para que o país possa funcionar melhor e sair da crise. Utópico? Serão o voto e a escolha uma utopia?


 


MUNDIAL - Estava a ouvir Carlos Queiroz no final do jogo com a Costa do Marfim e, de repente, olhando para o seu sorriso naquelas circunstâncias, achei que ele e Sócrates são gémeos no discurso: Mau resultado? – Nada disso. Problemas? - Nenhuns, ânimo que conseguiremos. Críticas? - Devem ser influências de manobras do estrangeiro. Dificuldades? - De todo. Mudanças? - Nenhumas. Erros? – Disparate. Este é o discurso da cegueira – já se viu onde levou nas finanças nacionais, vamos a ver o resultado no Mundial. No futebol ganha quem marca golos. Ainda não percebi bem como se chama o jogo que a selecção anda a fazer.


 


LER – Nick Hornby tem uma carreira literária a contar histórias feitas no universo do rock e do pop. Este «Juliet, Naked», recentemente publicado e já traduzido aliás para português, é talvez o seu melhor livro. A história é deliciosa e conta como um mediano músico norte-americano, Tucker Crowe, se tornou num, fenómeno de culto a partir do seu desaparecimento da cena musical a meio de uma digressão, sem que nenhuma novidade a seu respeito surja durante 20 anos. Deste ponto de partida começa uma descrição das relações entre as pessoas que têm gostos comuns – no caso a música do desaparecido Tucker. A publicação de uma gravação inédita, mas de qualidade discutível, provoca uma série de reacções entre os seus fiéis e sobretudo mostra como os nossos ídolos só ganham a dimensão que projectamos a partir das fantasias que elaboramos sobre eles. Incidentalmente, uma das teorias entre os fanáticos do músico dizia que Tucker viveria isolado numa garagem em Portugal – mas episódios à parte o livro vale pela construção de personagens, pela exploração dos mecanismos de formação do gosto, e pela forma como as obsessões nos afastam da realidade. Este é o livro de Hornby de que mais gostei. «Juliet, Naked», edição de bolso Penguin, na Amazon, cerca de 10 euros. Se puderem leiam o original, em inglês, vale a pena.


 


OUVIR –  A capa do disco é uma paródia aos westerns e o conteúdo é surpreendente – tanto que se transformou num clássico pouco tempo depois da sua edição original, em 1957. «Way Out West», de Sonny Rollins, resiste de forma impecável aos 53 anos de vida que já tem. Destaque para o clássico «I’m An Old Cowhand» , para a versão de «Solitude», um original de Duke Ellington, para um «Wagon Wheels» perfeitamente cinematográfico e para o tema título, do próprio Sonny Rollins, «Way Out West». Esta nova edição da excelente série Original Jazz Classics da Universal tem remasterização digital e inclui ainda versões até aqui inéditas de três dos temas do álbum original.


 


PROVAR – A Bica do Sapato fez 11 anos esta semana e renovou a esplanada, que agora conta com um bar – muito bom para fins de tarde -  tem mais sombra e está mais protegida do vento. Além disso  introduziu novidades na lista de verão, como um novo menu de almoço onde se destacam um delicioso carpaccio de carapauzinhos marinados, um hamburguer de frango do campo e farófias como sobremesa. O menu almoço custa 21 euros e inclui vinho a copo. No resto da lista também há boas novidades, algumas a valer uma experiência. Reservas pelo telefone  218 810 320.


 


BACK TO BASICS – A prudência inscrita no livro da covardia tem o nome de senso comum – Oscar Wilde


 

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publicado às 11:46


1 comentário

Sem imagem de perfil

De Luis Melo a 18.10.2010 às 14:10

A propósito deste assunto da TV Pública, escrevi em 26 Setembro 2010:

O tabu da TV Pública (http://eramaisumfino.wordpress.com/2010/09/26/o-tabu-da-tv-publica/)

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