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CULTURA – Vai um grande burburinho na área dos agentes culturais – em boa medida graças à inabilidade política da Ministra, mas também em boa parte devido a erros e vícios acumulados no sector. Deixemos a inabilidade política de lado. O problema central da política cultural é que ela vive sem estratégia há muitos anos, basicamente desde que Carrilho foi para o Ministério com uma linha programática que se resumia a isto: subsidiar, subsidiar, subsidiar. Com os planos de recuperação de teatros, património e museus muito avançados quando chegou ao Governo, Carrilho concentrou-se em montar uma complexa teia de modelos de financiamento, para as mais diversas organizações e formas de expressão. Ao longo dos anos o efeito da estratégia clientelar criada por Carrilho entre 1995 e 2001 multiplicou-se. Não é de admirar que os agentes artísticos elogiem este seu consulado – ele limitou-se a aumentar o investimento do Estado em subsídios, dando uma falsa imagem de crescimento do investimento público na área da Cultura. Rui Vieira Nery, que foi seu Secretário de Estado, demitiu-se acusando-o de gestão danosa na Cultura e António Barreto, depois do conflito que manteve com o Ministro a propósito da Sociedade Porto 2001, escreveu um artigo que ficou célebre intitulado «Um Homem sem Qualidades». O modelo da criação de dependência aos subsídios foi exponenciado nessa época e o Estado assumiu então – e continuou a assumir depois – muito mais compromissos fixos em estruturas, de festivais a associações culturais, passando por grupos de teatro ou empresas de produção. O resultado é que o dinheiro claramente não chega para tudo. Não é certo que todo o dinheiro atribuído em subsídios seja um bom investimento e não é certo que ele seja eficazmente reprodutivo, do ponto de vista de resultado artístico e criativo – eu sei que os subsidiados não gostam de ouvir isto mas é uma facto que têm de encarar de frente. O que os Governos não fizeram foi encontrar formas de captar e incentivar o investimento privado nas artes, preferindo manter um modelo de benefícios fiscais duvidoso. E menos ainda fizeram na articulação com as autarquias, que replicaram elas próprias os piores exemplos da administração central - como está bem patente em Lisboa aliás. O resultado está à vista e, desta vez, quem trabalha no sector tem que puxar pela cabeça para construir e reivindicar um modelo sustentado, em vez de promover apenas mais protestos e a manutenção dos subsídios existentes. É simples: acabou-se o dinheiro fácil, o mundo mudou mesmo e não vai ser como dantes.


 


PT – Se o comportamento dos sucessivos Governos ao longo dos anos, em relação à Portugal Telecom, fosse menos político, se não tivesse havido todo o caso da forma como a PT andou a negociar a compra da TVI com o já assumido conhecimento – e aparente incentivo - de homens de confiança do PS, de membros do Governo e do próprio Primeiro-Ministro, talvez a utilização das acções especiais que o Estado detém na Portugal Telecom não tivesse provocado tanto burburinho. Mas a verdade é que o veto da golden share foi utilizado no culminar de um processo onde a existência de pressões políticas à margem dos accionistas se tornou patente. Também não deixa de ser curioso que esses mesmos accionistas não se tenham mostrado muito incomodados com o clima de interferência política baseado nas acções especiais, mas que se tenham agastado quando a sua utilização redundou num veto a um negócio de grande dimensão. Fica-me a sensação de que do lado de Sócrates não se dedicou tempo e atenção suficientes a juntar os seus confessos amigos Zapatero e Lula da Silva para, a três, e já que dizem ter tão boa relação e tanto em comum, se conseguir atingir uma acordo que não descambasse na situação actual.


 


EXTERIOR – É sabido que existe uma curiosa tradição de que as declarações importantes dos políticos portugueses sobre Portugal sejam feitas em entrevistas ou declarações a jornais estrangeiros. Presidentes da República e Primeiros Ministros tornaram-se useiros e vezeiros nesse método. Sócrates lembrou-se disso e fez uma jogada de comunicação brilhante quando decidiu explicar a posição do Governo sobre a utilização das acções especiais da PT precisamente numa entrevista ao «El Pais». Embora Marcelo Rebelo de Sousa tenha toda a razão sobre a falta de cuidado que houve na preparação e negociação do tema da compra da Vivo pelos espanhóis, a verdade é que uma vez usada a bomba atómica os conselheiros de Sócrates tudo fizeram para amortecer a explosão – primeiro com o artigo no «Público» e depois com a entrevista no «El Pais». Em termos de política de comunicação de crise foi uma belíssima jogada.


 


RTP – A série de dois artigos que Guilherme Costa, o Presidente da RTP, escreveu  no Público no início desta semana tem um sabor a balanço do trabalho feito. Pelo meio dos artigos percebia-se que o cenário de alguma forma de privatização anda no ar . Estes artigos vieram reforçar a convicção, expressa em círculos governamentais, de que seria melhor privatizar antes das próximas eleições – não só para moldar a privatização, mas também para poder haver ainda alguma palavra na escolha de quem possa vir a ficar com o sector ou sectores da RTP que forem privatizados. Quer-me parecer que ainda vamos assistir a algumas surpresas, nesta matéria, nesta legislatura.


 


OUVIR- Em 1957 Thelonius Monk e John Coltrane, durante alguns meses, tocavam juntos num dos históricos locais do jazz em Nova York, o Five Spot Café. Nessa altura foram a estúdio e gravaram uma série dos temas que tocavam em conjunto habitualmente.  Estas gravações  ficaram por editar até 1961, ano em que foi lançado «Thelonius Monk With John Coltrane», considerado um dos melhores discos de jazz de sempre. O piano de Monk e o saxofone tenor de Coltrane encontraram-se de forma explosiva, num entendimento musical perfeito. É essa gravação histórica que a Universal agora reeditou na sua belíssima série Original Jazz Classics Remastered. Fantástico para ouvir nestas noites quentes.


 


LER- António Pinto Ribeiro, programador, investigador, responsável pelos ciclos «Próximo Futuro» na Gulbenkian, tem uma já numerosa obra publicada, predominantemente de ensaios. O seu novo livro, algo inesperado, chama-se «É Março E É Natal Em Ouagandougou» e apresenta-se como um «livro de viagens». É mais exacto dizer que é um diário de viagens  sem organização cronológica, e que evoca outros livros de viagem e outras literaturas, quase como um guia de locais acompanhado de bibliografia para cada circunstância. É, acima de tudo, um livro sobre memórias de locais, impressões de momentos, às vezes quase instantâneos escritos em vez de fotografados. É um bom retrato de sensações – desde a paixão evidente por África à sensualidade de Buenos Aires. A última página é de Lisboa, numa passagem de ano, no Lux, a fazer lembrar o esplendor de Veneza no século XVI.


 


DESCOBRIR- A única forma possível de descobrir o que se passa na capa da edição 43 da revista «Egoísta», que tem por tema a «Liberdade», é colocar a revista dentro de um forno micro-ondas a 500 watts durante 10 segundos. Só aí aparece a imagem de capa – verdadeiramente esta é uma capa que precisa de ser descoberta. Se não tiver micro-ondas contente-se com o interior e não fica anda mal – gosto muito da história desenhada sobre a Mongólia de Rodrigo Prazeres Saias, do texto de Francisco José Viegas «O Navegador Que Morreu À Espera da Primavera», da «Metamorfose» de Rui Zink e das fotografias de João Carvalho Pina. A «Egoísta», cujo Director é Mário Assis Ferreira, deu uma bela festa esta semana para assinalar o seu décimo aniversário, com um concerto de Al Green no Casino Estoril - «Soul» tocada por grandes músicos.


 


PROVAR – Nestes dias de calor intenso fazem falta locais em Lisboa com boas saladas e sanduíches leves e frescas. Não é tempo de bifanas, menos ainda de tostas mistas, e as saladas de farrapos de frango com retalhos de alface salpicados com grãos de milho acabados de sair das latas também são muito pouco convincentes. Por isso mesmo venho aqui louvar a belíssima salada de peixe fria, sobre cama de feijão verde e bem rodeada de outros legumes, disponível na Bica do Sapato, apenas na renovada esplanada, agora bem protegida do vento e do sol. Esta salada é exactamente o modelo do que se pode fazer com bons ingredientes num dia de grande calor.


 


ARCO DA VELHA – Esta semana o país descobriu que em Alcochete o Sporting tinha um pomar de macieiras atacado por alguma praga de bichos – de tal forma que o respectivo presidente se reivindica especialista no tratamento de maçãs podres.


 


BACK TO BASICS – Razões fortes determinam acções fortes – William Shakespeare


 

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