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A Esquina do Rio de 12 de Novembro

por falcao, em 12.11.10

ALERTA 


A mais forte tomada de posição sobre a situação a que chegou o país veio, inesperadamente, da assembleia plenária dos bispos portugueses. No discurso de abertura do encontro sublinharam: «não podemos deixar de evidenciar a nossa perplexidade pela falta de verdade nos centros de decisão da gestão pública e pela ausência de vontade de solucionar os desafios actuais» . Ao mesmo tempo denunciaram «a inverdade frequentemente resultante de querelas pessoais e de jogos político-partidários pouco transparentes que aprisionam os líderes aos interesses instalados nas estruturas público-privadas». E mais à frente: «A verdade é um imperativo colocado a todos, é um acto de honestidade, sobretudo ao nível dos centros de decisão dos diversos cargos».


 


Ora nestas palavras simples e fortes reside o busílis da nossa vida recente. Discute-se muito o Orçamento e a aprovação do Orçamento – mas o que verdadeiramente é mais importante é a sua execução, é a forma como se controla e reduz a despesa. E a experiência destes últimos anos é feita de mentiras dos centros de decisão, de negação da realidade, de adiamento de decisões.


 


A resolução dos problemas portugueses, parece-me, não está na inexistência de um plano, mas na falta de vontade e coragem em executar medidas que todos já sabemos quais são. Se o Orçamento de 2011 não for executado, como não foi o de 2010 e os PECs que já foram devorados, então tudo ficará muito fora de controlo.


 


Por isso, olhando para o que se passa à nossa volta, encaro com desconfiança que a mesma equipa que não conseguiu garantir a execução de medidas anteriores, seja agora capaz de o fazer. Duvido que quem negou as evidências decida agora falar com verdade. Mais cedo ou mais tarde vamos ser confrontados com isto: aceitamos continuar a ser atirados para o abismo pelos mesmos? Ou, como dizem os Bispos, «o sentido de responsabilidade pública e de participação na vida democrática exigirá líderes com propostas novas e sérias que visem promover a equidade e a coesão da sociedade portuguesa»?


 


ARCO DA VELHA


Paulo Campos, Secretário de Estado das Obras Públicas, nomeou para a Administração dos CTT dois ex-sócios seus numa empresa apropriadamente chamada «Puro Prazer», entretanto dissolvida.


 


FOLHEAR 


O mais interessante livro publicado nos últimos tempos chama-se «Como o Estado Gere O Nosso Dinheiro», do juiz jubilado Carlos Moreno, onde o autor defende a responsabilização de quem gasta e utiliza abusivamente dinheiros públicos.


 


IR


Vale cada vez mais a pena ir a Madrid. A cidade está magnífica e apesar da crise (quase cinco milhões de desempregados – praticamente a população activa de Portugal…) tudo funciona. Os taxistas são bem dispostos e educados, nos bares de tapas há animação ao fim de tarde, os preços são simpáticos e a animação é garantida. A uma hora de avião a coisa é tentadora, mesmo com os crónicos atrasos da Easy Jet. Mas voltemos a Madrid: toda a zona central , da Atocha à Gran Via está soberba, completamente recuperada, com a estação pronta para a Alta Velocidade, as ruas cheias de gente mesmo ao fim de semana, um contraste enorme com Lisboa. O renovado Mercado de S. Miguel, muito perto da Plaza Mayor,  é um exemplo do que se pode fazer, bem feito, na recuperação de um espaço tradicional de um velho mercado, para um sítio animadíssimo de tapas, copos e compras onde há de tudo para todos os gostos em matéria de comida e bebida. Já agora – quando estive, há duas semanas, em Madrid, decorria uma Mostra Portuguesa (de programação discutível) e escassa divulgação, e em duas galerias privadas existiam exposições de artistas portugueses – uma de Helena Almeida e outra de Pedro Calapez, ambas com boas referências de imprensa.


 


OBSERVAR


Há menos de 20 anos toda a zona central de Madrid pouco mais tinha que os grandes armazéns, alguns restaurantes e os monumentos. Há 20 anos não existiam ainda nem o Museu Rainha Sofia nem o Museu Thyssen-Bornemiza (foram ambos inaugurados em 1992). Mas hoje o triângulo dos Museus agrupa o Prado, renovado (uma bela exposição de Renoir), o Thyssen (onde estão fotografias de Mario Testino) e o Reina Sofia, entretanto ampliado em 2006 por Jean Nouvel numa bela e eficaz intervenção arquitectónica (e onde está uma fantástica e supreendente exposição de Hans Peter Feldman) – isto claro, falando apenas de exposições temporárias, para além das respectivas colecções permanentes. Mas a dois passos deste triângulo está a Fundação La Caja e a Fundação MAPFRE – esta com uma bela mostra de arte americana do século XX, da Colecção Philips. Tudo está cheio de gente - espanhóis, estrangeiros também, numa festa permanente que nem os chuviscos de Outono arrefecem. É nestas alturas que me ponho a pensar em Lisboa e vejo como fomos falhando oportunidades, fazendo coisas sem plano, desbaratando recursos (como o Pavilhão de Portugal), espalhando as coisas em vez de as concentrar. Há 20 anos Madrid não tinha nada disto e hoje tem uma zona central recuperada, contenção de novas construções, equilíbrio estético, investimento na cultura como dinamizadora do turismo, obras emblemáticas de grandes arquitectos.


 


VER


A exposição de Hans Peter Feldman no Museu Rainha Sofia, de Madrid, tem um título singelo : «Uma exposição de arte». Lá dentro estão fotografias, instalações de objectos, colecções pessoais, fotocópias, capas de jornais. Mas, em todas elas, há uma ideia, uma ideia criativa. Uma das salas mais impressionantes é a «9/12», onde  estão expostas mais de centena e meia de capas de jornais de todo o mundo, todas do dia 12 de Setembro de 2001 – o atentado às Torres Gémeas visto do mundo inteiro (e lá estão jornais portugueses como o Correio da Manhã, o Diário de Notícias o Público, e a extinta capital, entre outros). A sala é devastadora, a ideia é violenta, o resultado é um abanão nas nossas memórias. Nascido perto de Dusseldorf em 1941, Feldman baseia a sua actividade num espírito coleccionista que é patente nas suas séries de imagens fotográficas, mas também na fascinante instalação «Shadow Play», baseada em peças em movimento num ambiente de sombras chinesas. Só para ver esta exposição vale a pena ir a Madrid.


 


OUVIR


O contrabaixista Charlie Haden juntou de novo o seu Quartet West  (com Ernie Watts no sax tenor, Alan Broadbent no piano e Rodney Green na bteria), juntou-lhe seis vozes femininas contemporâneas (bem escolhidas) e fez uma colecção de 12 standards em torno de um tema clássico de Duke Ellington, «Sophisticated Ladies».  De certa forma este disco é um regresso à ideia de um anterior álbum de Haden e seu quarteto, «The Art Of The Song»,  igualmente dedicado a grandes canções e também com uma voz feminina, Shirley Horn. Desta vez as senhoras que dão a voz neste disco são Cassandra Wilson, Diana Krall, Melody Gardot, Norah Jones, Renée Fleming e Ruth Cameron. A qualidade da interpretação musical e dos arranjos é exemplar e gostaria de destacar o trabalho de Melody Gardot em «If I’m Lucky», a contenção de Norah Jones em «Ill Wind» e sobretudo a forma como Cassandra Wilson pegou numa letra inédita de Johnny Mercer para «Always Say Goodbye» e criou uma preciosidade. CD Emarcy, disponível em Portugal.


 


PROVAR


Se gosta de cozinha indiana e oriental e não sabe onde pode adquirir os adequados temperos, tenho uma boa notícia para si – já não precisa de ir ao Martim Moniz,  na Avenida Visconde de Valmor, no quarteirão entre a Avenida da República e a 5 de Outubro, abriu uma loja especializada, Ayur. Lá encontra especiarias diversas (e raridades como sementes de funcho, folhas de caril ou pasta de Tamarindo), especiarias goesas pré-preparadas, congelados, aperitivos, chá, doces e mesmo, a partir do próximo mês, comida feita para levar para casa. O casal que gere a loja é muito simpático e ajuda a escolher os produtos dando boas sugestões. Mais informações em www.ayur.com.pt .


 


BACK TO BASICS


O meu grande problema é fazer conciliar os meus hábitos em matéria de gastos com a realidade dos meus rendimentos – Errol Flynn 


 

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publicado às 14:01


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