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SITUAÇÃO – Durante anos o Estado passou rasteiras à classe média, quer em matéria de impostos e taxas, directos e indirectos, quer através de milhentos ardis para lhe dificultar a vida. Com as novas medidas de austeridade a coisa refina-se: ainda mais impostos e taxas, penalizações nos custos de saúde, nas deduções dos recibos verdes, ameaças de maior desemprego, diminuição do poder de compra. Este aperto da classe média, que vive cada vez mais sufocada entre os empréstimos que a ilusão de progresso incentivou, e a dura realidade da diminuição efectiva dos seus rendimentos, só pode ter efeitos de bola de neve.


As grandes cadeias de supermercados vão facturar menos, os concessionários das auto-estradas vão receber menos portagens, todo um sistema de funcionamento da sociedade que está montado, em boa parte, para viver das receitas do estilo de vida da classe média, está agora em risco de entrar em colapso. Olho para o lado e vejo dezenas de amigos e conhecidos que já sabem, na sua própria família directa, o que é o desemprego; olho para pessoas com cinquenta e poucos anos que não conseguem encontrar trabalho para as qualificações e experiência que têm; olho para o outro lado e vejo jovens recém-licenciados que desesperam por conseguir aplicar aquilo que estudaram e que a proliferação de cursos ajudou a pensar que um diploma só por si seria uma chave para uma vida sem problemas. Estamos agora a enfrentar décadas de irracionalismo – na educação, mas também no consumo, no modo de vida, na falta de incentivo a poupanças, na construção de uma sociedade que beneficiava o facilitismo, a começar pelos políticos que laboriosamente dela se alimentaram.


 


 


MEMÓRIA - Manuel Alegre foi, durante um semestre,  secretário de Estado do I Governo Constitucional. Nessa qualidade encerrou as quatro publicações do grupo da Sociedade Nacional de Tipografia, entre as quais o diário «O Século», em Fevereiro de 1977, atirando para o desemprego 900 trabalhadores.  Talvez a história dos media portugueses fosse bem diferente se Alegre não tivesse assumido o papel de carrasco do maior grupo de imprensa que então existia e que integrava o diário «O Século» e as revistas semanais «Século Ilustrado», «Vida Mundial» e «Mulher- Modas e Bordados». Quando assinou a morte do grupo do «Século»,  Manuel Alegre fez promessas de uma reestruturação que nunca foi sequer iniciada. É este o candidato que se nomeia campeão da Liberdade.


 


PRESIDENCIAIS – Olhando para o que se passa só posso achar que a candidatura de Defensor de Moura é uma lebre propositadamente largada para servir de tambor a Manuel Alegre nos seus ataques a Cavaco. Nestas presidenciais não há ideias, nem linha política, apenas ataques e contra-ataques. É um jogo de futebol mal jogado, um péssimo espectáculo para os eleitores.  Não admira que comecem a aparecer frases como esta, de Pedro Rolo Duarte, no seu blogue: «É desolador querer votar e não ter em quem votar».


 


 


DESTAQUE – O cartonista Luis Afonso resumiu da melhor forma a situação que se vive em Portugal: «Ajuda financeira não sei, mas ajuda psicológica precisamos de certeza».


 


 


ARCO DA VELHA – «Senhor Professor, tomei dois supositórios para poder estar aqui hojea vê-lo» - declaração de uma apoiante de Cavaco Silva durante uma acção de campanha eleitoral no Fundão.


 


 


VER – Quem gosta de banda desenhada não pode perder a exposição que está no Museu Berardo desde o início desta semana, «Tinta dos Nervos» - e que precisamente se dedica à banda desenha contemporânea feita em Portugal, com um selecção cuidadosa de autores feita por Pedro Vieira de Moura. Aqui coexistem nomes menos conhecidos, com actividade quase só em fanzines, como autores mais conhecidos com obra editada e divulgada. E algumas surpresas, como bandas desenhadas feitas pelo pintor Eduardo Batarda ou do músico Carlos Zíngaro.


 


 


LER – Quando passeamos nas ruas de uma cidade e nas estradas que lhe dão acesso vemos continuamente manifestações de arte urbana – dos graffittis a instalações. A editora Taschen reuniu centenas de imagens destas num livro absolutamente fantástico - «Trespass, História da Arte Urbana Não Encomendada». O título em si vale a pena, porque de facto é de arte não encomendada que falamos, quando falamos destas formas de arte urbana contemporânea. É uma actividade que nasce do improviso, do desejo de auto-expressão, do impulso criativo do momento. No prefácio do livro Sara Schiller sublinha que esta é uma viagem «por testemunhos efémeros» que se tornam parte da paisagem e sublinha «o forte espírito de comunidade destes artistas», para depois fazer notar uma evidência que me tinha passado despercebida: «A internet, combinada com a máquina fotográfica digital ou mesmo os telemóveis actuais, permitiu partilhar imagens e torná-las conhecidas do outro lado do mundo»; ou seja, possibilita que se veja mesmo sem se ir ou estar, de forma praticamente instantânea. Quando se folheia o livro, ao longo das suas 320 páginas, percebe-se este espírito de partilha, e de descoberta. No posfácio, Anne Pasternak sublinha que esta é uma «arte não encomendada mas intervencionista, uma arte em que os artistas concretizam as suas ideias por conta própria; onde há parede ou asfalto há uma superfície que pode servir aos artistas intervencionistas, que estão por todo o lado».


 


 


OUVIR – A coisa mais verdadeira que li sobre este CD dos LCD Soundsystem, «This Is Happening», é que cada disco é o resultado da colecção de discos dos seus criadores. Ouvindo este álbum, geralmente considerado como um dos melhores do ano passado, é isso mesmo que transparece. Aqui as influências são de David Bowie, de Eno, de Robert Fripp, mas também de Iggy Pop ou dos Human League. O resultado final é uma conjugação de ritmos que não nos deixa ficar quietos, uma constante provocação dos sentidos e das memórias auditivas. Entretenimento inteligente.


 


 


PROVAR – Uma boa refeição faz-se de um somatório de componentes: conforto da sala, qualidade dos ingredientes, o saber do cozinheiro e, finalmente a simpatia e qualidade do serviço. Vai sendo cada vez mais raro encontrar tudo isto num mesmo espaço, sobretudo em Lisboa, onde às vezes a vaidade de alguns chefes se sobrepõe ao respeito pelos clientes. Felizmente não é o caso de Henrique Mouro, o chefe que está por trás do restaurante Assinatura – que fica perto do Rato, numa perpendicular à Rua Alexandre Herculano. Henrique Mouro ganhou fama no Club, em Vila Franca de Xira, e transportou o seu saber, sem pretenciosismos escusados, para Lisboa. A sala é de boa dimensão, bem iluminada, mesas e cadeiras confortáveis. O serviço é competente e não intrusivo mas é na criatividade colocada na forma de interpretar receitas tradicionais portuguesas que se encontra a chave do sucesso do restaurante. Ao almoço há menus executivos (com a vantagem de se poder escolher apenas um prato ou fazer várias combinações entre as propostas) e à noite, em querendo, há propostas de degustação. A lista de vinhos é boa e a preços moderados. Assinatura, Rua do vale de Pereiro 19ª, Telefone 213 867 696.


 


 


BACK TO BASICS - Uma mudança deixa sempre patamares para uma nova mudança , Nicolau Maquiavel.


 


 

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publicado às 16:55


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