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DAY AFTER – No seu discurso de vitória Cavaco Silva falou mais do passado que do futuro e, de uma forma inesperada, e em termos práticos, sugeriu estar interessado em ajustar contas com quem se lhe atravessou no percurso antes destas eleições. É um discurso virado para problemas pessoais, mais do que para a situação do país. E é um péssimo sinal sobre o que poderá ser o seu segundo mandato. De uma assentada perdeu iniciativa política e criou um ruído desnecessário.


Na noite eleitoral foi claro que Sócrates só apareceu no Altis para cumprir um ritual e dar por encerrado um assunto incómodo, que foi a desagradável candidatura de Manuel Alegre, para a qual os socialistas foram empurrados pelo Bloco de Esquerda. Como se percebeu logo de imediato a núcleo duro da direcção do PS reagiu rapidamente – convocando eleições internas (em que Sócrates se recandidata), anunciando novas iniciativas viradas para fora do partido, e dando a entender que controlará o timing de uma remodelação governamental. O PS, que foi o grande derrotado das eleições, tinha o contra-ataque preparado.


De uma forma muito clara José Sócrates aproveitou a fase passadista do reeleito Presidente para aparecer ele a marcar a agenda e a preparar o contra-ataque político. Quer legitimar-se internamente, eliminar o espaço daqueles que o contestam dentro do PS e, preferencialmente, conseguir novos aliados que o ajudem a levar até ao fim o ciclo político. Na sua cabeça está certamente posicionar-se para futuras eleições legislativas – as notícias da sua morte política são, como se vê, largamente exageradas. Sócrates vai à luta e tem a estratégia montada, que como se sabe pelas notícias vindas a público, passa por existir um grupo de media impulsionado por figuras que lhe são próximas e o têm defendido. Não é a primeira vez que isto acontece na história política portuguesa: Marcelo Rebelo de Sousa criou o «Semanário» para criar maior diversidade política na comunicação, o PS já tentou fazer isso com a Emaudio há uns anos atrás e o diagnóstico actual é que a influência dos socialistas nos media é reduzida. Vamos portanto ter pela frente um Sócrates determinado, provavelmente com legitimidade acrescida dentro do PS e a tentar ser ele a marcar a agenda política.


O trabalho da oposição não vai ser fácil. Passos Coelho sabe disso e fez um discurso prudente – e provavelmente estará a pensar que lhe vai ser mais difícil chegar ao Governo do que, a certa altura, se imaginava. Pelo seu lado Paulo Portas iniciou um movimento de reorganização do PP que lhe vai dar maior agilidade para se colocar, a ele próprio, na primeira linha da oposição – é também evidente que o grande rival de Sócrates na marcação da agenda política vai ser Paulo Portas, até porque ao PP interessa colocar-se na posição mais vantajosa para, quando for altura, negociar um acordo eleitoral com o PSD.


 


 


VOTAR – A lógica manda que votar deva ser uma operação fácil, confortável para os cidadãos e que não crie angústias, dúvidas ou perturbações. O que aconteceu no Domingo passado é exactamente o contrário disto. O Estado atribuiu novos números de eleitores a uma série de cidadãos, mas não os avisou do facto – nem mesmo quando levantaram o documento de identificação que serviu de justificação técnica para alteração do número anterior. Pior, em muitos casos, colocou os eleitores a votarem longe do local habitual, e também não tomou nenhuma medida para os avisar. A campanha de apelo à participação eleitoral foi má, não esclareceu sobre estes pontos, criou oportunidade para todas as complicações que aconteceram. Seria bom que o Governo, como acontece em muitos países,  proporcione a cada eleitor a possibilidade de escolher o local onde pretende exercer o direito ao voto. Era uma forma simples de combater a abstenção.


 


 


RESUMO DA SEMANA – Houve eleições, o resultado não teve surpresas; Cavaco ganhou, mas com a sua menor votação em candidatura presidencial e fez um mau discurso; Alegre teve uma derrota estrondosa com menos de 10% do total de recenseados; a abstenção e os votos brancos atingiram os maiores valores de sempre; Mário Soares escreveu a explicar que Alegre não devia ter sido o candidato do PS; logo a seguir à eleição os juros da dívida voltaram a subir; e o PS começou a mexer-se, agora que já está livre do Bloco de Esquerda.


 


 


ARCO DA VELHA - A operação em torno das novas declarações do célebre Bibi, a propósito do processo Casa Pia, é um acabado exemplo de como em Portugal, em matéria de Justiça, vale tudo menos a sua aplicação.


 


 


VER – Ligada à agência Kameraphoto, a K Galeria, no Bairro Alto, apresenta ainda hoje (ultimo dia) a exposição «Retratos com História», de Eduardo Gageiro, um dos mais importantes fotojornalistas portugueses das décadas de 70 e 80. Estes retratos, que vão de Amália a Zeca Afonso, passando por Sophia de Mello Breyner, Spínola ou Orson Welles, permitem perceber a importância de Gageiro na fotografia portuguesa. Se puderem, não percam – Rua da Vinha 43 A, das 10 às 18h00. Podem também ter uma ideia das imagens em www.kameraphoto.com


 


 


LER –  Na edição de Fevereiro da Vanity Fair há um belíssimo artigo sobre os bastidores da tomada de posse de Kennedy, ocorrida há 50 anos. Desde os prepartivos para a cerimónia, ao grande baile inaugural , passando pelos discursos e os problemas com os convites, até ao portfolio de fotografias da época, tudo contribui para um retrato desses primeiros momentos do curto mandato de John Kennedy. Outro curioso artigo desta edição conta a história da polémica aliança entre o circunspecto diário britânico The Guardain e Julian Assange, o fundador do Wikileaks. Na capa, Justin Bieber – 17 milhões de fãs no Facebook, 100 milhões de dólares facturados no ano passado e o vídeo mais visto de sempre do YouTube.


 


 


OUVIR – O mais recente álbum de Brian Ferry, «Olympia», é polémico, inesperado, nalguns momentos surpreendente – como na versão de «Song To The Siren», de Tim Bucley, que conta com participações de nomes como Phil Manzanera, Nile Rodgers, David Gilmour e Johnny Greenwood nas guitarras e Brian Eno (que está presente também em várias outras faixas) nas teclas. A sonoridade evoca por vezes o álbum «Manifesto», dos Roxy Music (1979) e atinge o ponto alto em temas como «Me Oh My», «Reason Or Rhyme» ou «Tender Is The Night», esta talvez a melhor interpretação de Brian Ferry desde há muitos anos.


 


 


PROVAR – Há dias dei comigo num simpático restaurante, perto do convento do  Beato, em direcção a Braço de Prata. Chama-se Entra e é um bom exemplo de um local onde a cozinha é honesta, os preços recheados de bom senso e o serviço eficaz e simpático. O Entra tem duas salas, uma de entrada, com vista para a rua e a cozinha, e outra, no interior, ideal para juntar um grupo de amigos. A decoração é simples mas imaginativa – por exemplo os candeeiros são feitos de garrafas sem fundo, as mesas e as cadeiras são de boa dimensão e confortáveis.


Os menus de almoço incluem sugestões como osso bucco com linguini, filete de peixe espada sobre legumes ou arroz de polvo, e vão variando durante a semana. O vinho da casa é um generoso vinho novo da zona de Azeitão e, na mesa, existem fatias de quaijo da ilha e de queijo de ovelha da serra da Gardunha. Nas sobremesas há uma mousse de requeijão com abóbora que se revelou uma boa surpresa.


Ao jantar o serviço é à lista e, desde os ovos mexidos com farinheira nas entradas, ao lombo de porco com molho de amêijoas e coentros acompanhado de grão e grelos salteados com chouriço, ao pregado frito com espinafres salteados com puré de batata e aipo, a escolha é variada. A lista de vinhos não é ambiciosa mas tem boas propostas a bom preço. Resumindo: uma boa casa. Rua do Açucar 80, telefone 212 417 014.


 


 


BACK TO BASICS – Os vencedores adquirem, imediatamente, os vícios dos vencidos – Roger Gard 

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