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DEVERES – Cada vez que se fala em direitos lembro-me logo do pouco que se fala em deveres. Os direitos não são coisas abstractas – têm consequências práticas e fazem parte daquilo que deve ser o comportamento de cada um na sociedade – por isso mesmo não são imutáveis porque existem num conceito sujeito a mudanças. Muitas vezes não se pensa nisto, mas os direitos têm também muitas vezes repercussão económica - e devia ser um dever ter em consideração se eles são ou não suportáveis e sustentáveis.


 


Nos últimos dias assistimos a acções, no sector dos transportes, que me parecem carecer de algumas notas: muitos trabalhadores destes sectores acumularam ao longo dos anos uma série de prémios e bonificações, para além da sua remuneração contratada, que manifestamente os beneficia em relação a outros cidadãos; há casos em que existem prémios simplesmente por se comparecer ao trabalho – como no caso do Metro de Lisboa em algumas funções -  e, de uma forma geral, foi montado um sistema complexo de adicionais que contribuíu para levar as empresas de transportes ao estado de falência técnica em que se encontram, com custos fixos de pessoal incomportáveis.


 


O que me parece claro é que os direitos que alguns reclamam não vão de certeza existir se estas empresas falirem e fecharem. Os sindicatos, que patrocinaram e instigaram as reivindicações que levaram a esta situação ajudaram a pôr em causa o equilíbrio destas empresas e em boa lógica devem também ser responsabilizados por isso. E agora, sabendo perfeitamente o que se passa nessas empresas, no sector público e no país, alguns sindicatos estão a reproduzir o modelo clássico de oposição, persistindo em reivindicar o que já é utópico e com o mesmo método de sempre: greves em sectores críticos para agravar o descontentamento popular, preparando terreno para uma greve geral, anunciada para dia 24. Este esquema, tradicional, tem o objectivo de conseguir uma grande mobilização – daí as greves sectoriais, para criarem efeito bola de neve.


 


Acontece que  a evolução demográfica, o agravamento do desemprego, o progressivo afastamento das organizações sindicais das novas formas de trabalho e das novas profissões pode começar também a criar um efeito paradoxal – aumentar o número daqueles que são contra a greve geral e contra a ausência de perspectiva de realidade nas reivindicações apresentadas. Estou com curiosidade de ver como isto evolui – e de observar como fora dos sectores tradicionais, da órbita do Estado e das empresas públicas, a adesão à greve se concretiza. Os sindicatos estão a conduzir muitos cidadãos a desconfiarem cada vez mais de quem trabalha no sector público – e esse não é um bom serviço que estão a prestar a esses trabalhadores.



GERAÇÃO – Pedro Passos Coelho, Miguel Relvas, Jorge Moreira da Silva, Pedro Pinto e alguns outros menos conhecidos fazem parte de uma das primeiras gerações de quadros da JSD que têm uma coisa em comum: há muitos anos atrás participaram em acções de formação política patrocinadas e orientadas por parceiros internacionais do PSD e por organismos ligados aos social-democratas em Portugal.


 


No decurso desse período criaram sólidos laços uns com os outros, desenvolveram um corpo de pensamento, aperfeiçoaram um método de de actuação política e estabeleceram convicções ideológicas que hoje moldam de forma clara o posicionamento do PSD, mais do que na generalidade das anteriores direcções dos social-democratas.


 


De certa maneira quase se poderia dizer que esta é a direcção mais ideológica que o PSD tem, aquela que ensaia a ruptura com as questões paroquiais para se posicionar de uma forma mais globalizada. A minha dúvida é se esta ruptura e este posicionamento não vêm tarde, quando globalmente o posicionamento já é outro.


 


De qualquer forma é interessante seguir este percurso, observar como as formas de actuação são diferentes de anteriores Governos e como no PSD existe um posicionamento ideológico mais vincado e pouco tradicional no partido, por natureza eclético e muito mais táctico que estratégico. Será interessante também perceber como o PP conseguirá manter o seu terreno próprio, bem demarcado nos últimos anos, no meio desta nova forma de intervenção do PSD.


 


SEMANADA – Realizou-se a cimeira do G20; o primeiro ministro grego saíu de cena; os juros da dívida pública italiana continuaram a subir; o primeiro-ministro italiano anunciou ir sair de cena; a Espanha está em vias de mudar de Governo; o euro acentuou perdas face ao dólar; Armando Vara admitiu em tribunal ter recebido robalos e pão de ló de Manuel Godinho, que no anterior regime fez fortuna a comprar sucatas.


 


ARCO DA VELHA – Angela Merkel disse quarta-feira passada num discurso, em Berlim, que a Europa deve agir rapidamente para travar a crise.


 


VER – A pintora mexicana Frida Khalo é uma lenda – confunde-se às vezes o seu génio com a sua saga pessoal. No Museu da Cidade, ao Campo Grande, até 29 de Janeiro está patente uma exposição constituída por 250 fotografias do arquivo da Casa Azul/Museu Frida Kahlo, no México e que permite ter uma visão mais alargada da intimidade da artista. A exposição mostra ainda a forma como alguns fotógrafos viram a pintora – de Man Ray a Manuel Alvarez Bravo, passando por Edward Weston ou Brassai.


 


OUVIR – Isto é que nos faz velhos: perceber que um disco de que gostámos muito quando saíu, e que continua fresco na memória, afinal já foi editado há 20 anos. É isso que se passa com «Achtung Baby» dos U2, na minha opinião o seu melhor trabalho e o pico de uma carreira que a partir daí se centrou mais na glorificação de Bono e na criação de uma máquina bem oleada, mas bem menos criativa. Por ocasião deste 20º aniversário foi feita uma edição especial com dois CD’s, o primeiro a reproduzir os 12 temas da edição original e o segundo com lados B dos singles da época e misturas alternativas. Uma peça de colecção.


 


LER – A revista Monocle do mês de Novembro é muito oportunamente dedicada aos prazeres da comida – quase sem falar de restaurantes, mas abordando o aparecimento de lojas onde estão disponíveis produtos de qualidade, de produção local e biológicos, onde o serviço é um elemento diferenciador e onde a criatividade pode ser decisiva para captar clientes. De certa forma é o reverso da globalização encarnada pelos hipermercados onde existe tudo mas nada tem sabor. É parte do movimento do aproximar a produção de quem a consome. Para além deste tema de capa, a nova edição da revista tem outros pontos de interesse como o nascimento de novos negócios no Egipto, novas formas de trabalho e novas atitudes dos diplomatas (um artigo que seria muito útil para muitos embaixadores portugueses) e uma estimulante reportagem sobre a criação artística contemporânea em Los Angeles. Como a Monocle é essencialmente um sinalizador de tendências, vale a pena destacar a nova aventura dos editores da revista: depois da edição em papel e na internet, eis que surge uma aplicação para iPhone e iPad que permite ouvir a rádio Monocle, uma estação digital que funciona 24 horas por dia, sete dias por semana. Consultem detalhes no site da revista, www.monocle.com, através do qual também podem ouvir as emissões.


 


PROVAR – O Tamarind (Rua da Glória 43) é um dos mais interessantes e peculiares restaurantes de gastronomia indiana em Lisboa, já aqui elogiado. É um espaço pequeno, que foi construindo a fama ao longo dos anos e que é dirigido pelo chef Hardev Walia, nascido na Tanzânia e com formação e experiência adquiridas em Londres. Há uns anos atrás rumou a Lisboa e abriu o Tamarind, que cedo deu que falar. Até dia 15, no âmbito da semana gastronómica da Índia, Hardev Walia mudou-se de armas e bagagens para o Restaurante Terraço, no Hotel Tivoli, na Avenida da Liberdade. Ao almoço funciona um buffet e ao jantar a lista é quem mais ordena – estimulada por danças indianas ao longo da noite. São já célebres as entradas vegetarianas, ou de carne e marisco, os papadums com molho de tamarindo, iogurte e chutney de manga, assim como o caril de camarão malai ou a galinha tikka masala. Podem ser feitas reservas para o Terraço do Tivoli para o telefone 213 198 934.


 


BACK TO BASICS – A forte convicção de que em todas as circunstâncias alguma coisa tem que ser feita, está na origem de muitas más decisões (Daniel Webster)


 


(Publicado dia 11 do 11 de 2011 no Jornal de Negócios)

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