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O GRUPO – Foi finalmente conhecido o relatório do Grupo de Trabalho sobre o serviço público de comunicação. Dedica mais atenção à televisão do que à rádio e agência noticiosa, mas isso reflecte o peso das audiências nas decisões políticas. De uma forma geral a primeira constatação é que o estudo é muito marcado pela conjuntura e é bastante mais pródigo em recomendações tácticas do que numa reflexão estratégica assente no estudo comparado de vários modelos e virada para o futuro. Embora use muito palavreado digital, a nova realidade dos media é de facto pouco analisada e, de uma forma geral, a repercussão desta realidade no futuro da comunicação é vista de passagem. É pena, porque se isto é para ser aplicado depois de 2012, como já disse o Ministro Miguel Relvas, este seria o caminho mais interessante a explorar, porque o resto já se encontra decidido pelo Governo – talvez por saber isto mesmo o estudo faz recomendações para o curto prazo, numa espécie de afirmação de demarcação do executivo. O melhor do estudo é apontar um caminho de não concorrência do serviço público aos operadores privados; o pior do estudo é uma sugestão de interferência demasiado grande nas políticas de programação e editoriais, algo que não se esperava. Para resumir de outra maneira, o estudo preocupa-se mais com a forma de distribuição dos conteúdos do que com os conteúdos em si – e essa é a sua maior falha.




SEMANADA – A propósito da audiência com Obama, o “Washington Post” fez esta tradução fonética do nome do Presidente português Anibal Cavaco Silva: ah-NEE’-bal ca-va-COO’ SEEL’-vuh; terça feira de manhã o Ministro Santos Pereira anunciou o fim da crise; no mesmo dia, já depois de almoço, anunciou que afinal era apenas o início do fim da crise;  segundo o Eurostat Portugal é o único país da zona Euro em recessão técnica; em Viseu a PSP não conseguiu efectuar uma perseguição porque todos os seus carros estavam avariados.


 


ARCO DA VELHA –  O coordenador e porta-voz do grupo de trabalho sobre o serviço público de televisão preconizou, na TSF, que  a informação emitida pela RTP Internacional deve ser “filtrada” e “trabalhada” pelo Governo, sublinhando que esse tratamento “não deve ser questionado” e tudo isto, como salientou, «a bem da nação».


 


VER – «Sangue do Meu Sangue», de João Canijo, é um dos mais brilhantes filmes portugueses que me lembro de ter visto. É uma crónica contemporânea do que se passa ao lado das grandes cidades. Eça de Queiroz escrevia sobre os conflitos na burguesia da província, mais de um século depois Canijo filma a tensão nos bairros periféricos. Mas, em épocas e com meios diferentes, ambos acabam por ter pontos comuns, fruto da condição humana e da persistência dos comportamentos. Este não é um filme passadista, é muito actual e real. Canijo é dos realizadores portugueses que mais filmou, graças aos anos em que trabalhou como assistente de realização de Manoel de Oliveira e isso sente-se no domínio da técnica, algo que, no cinema, só vem com o tempo. Mas sente-se nele também a influência da cultura popular urbana, que apareceu em filmes e na música inglesa nos anos 90, e cujos exemplo e linguagem visual João Canijo assume. A ideia do argumento funciona e os diálogos – escritos num processo colaborativo com os actores – são quase perfeitos e, mesmo nas cenas mais duras, são naturais. No filme é muito curiosa a opção, em diversos momentos, por fazer decorrer duas acções diferentes em simultâneo, com recurso a soluções de enquadramento ou de cenário que são uma mais valia da realização. A produção – exemplar, assinada por Pedro Borges – acompanha este esforço de realização ao garantir meios para uma captação sonora que facilitou a criação de ambientes diferentes, ou, ainda, pelo cuidado posto no guarda roupa. E, claro, o filme vive também da intensidade e qualidade da interpretação de Rita Blanco, Cleia Almeida, Rafael Morais, Anabela Moreira, Fernando Luís ou Nuno Lopes. E, também, deve muito à fotografia de Mário Castanheira. «Sangue do Meu Sangue» foge a moralismos fáceis ou cartilhas de encomenda. É um retrato do que se passa à nossa volta e que por vezes muitos não querem ver.


 


OUVIR – Jorge Palma é um dos maiores talentos da música portuguesa e um dos compositores que melhor sabe usar a língua portuguesa, uma fonética nem sempre fácil para canções. Muita gente considera que os melhores poetas dos tempos que correm são os que escrevem grandes canções. Se isso é assim – e eu acho que sim – Jorge Palma é um desses grandes poetas modernos da língua portuguesa. Mas neste disco fez questão de cantar outras escritas, como a de José Luis Peixoto em «Pensámos em nada», ou o marcante «Uma Alma Caridosa» de Carlos Tê, que começa logo assim: “Recebi um postal com carimbo do Estado/ Sem razão para tal senti-me logo culpado/fui a quem de direito pedir explicações/ninguém sabia do meu caso nas repartições.” Haverá melhor retrato do nosso Estado do que este? Este novo disco de Jorge Palma, «Com Todo o Respeito», é também surpreendente do ponto de vista musical, na mistura de gerações e influências, de Flak (ex Rádio Macau), que produziu, aos jazzmen Carlos Bica e Carlos Barreto, ao Gabriel Gomes e o seu acordeão, a voz fadista de Cristina Branco e o sólido rock d’Os Demitidos. Tenho o disco há uma semana e é raro o dia em que não o oiço. Destaques: «Página em Branco», «Tudo por Um Beijo», «Anjos de Berlim», «Pensámos em Nada», «Uma Alma Caridosa» e «Soltos do Chão». Aos 55 anos de idade Jorge Palma faz um dos seus melhores discos – e leva dezena e meia no activo.


 


LER – «Cartas do Meu Magrebe», de Ernesto de Sousa, é um livro que de início me aborreceu  – parecia a descrição de alguém encantado com os bons selvagens e irritado com o som dos transístores nas ruas de Marrocos e da Argélia. Depois a coisa suaviza, mas nunca se perde o sentimento do ocidental que foi ver uma revolução anti-colonial no terceiro mundo num estado de algum encantamento. O interessante da história é que tudo isto se passa no início dos anos 60, em crónicas de viagem ao estilo de curtas reportagens, enviadas para o «Jornal de Notícias» - que publicou 17 e guardou outras seis na gaveta porque entretanto começou a Guerra Colonial e a Argélia tinha uma posição contrária a Portugal. As crónicas mais interessantes são as menos políticas, as que derivam mais da observação e de conversas do que de reflexões. Mas na realidade o ponto alto do livro são algumas das fotografias do próprio Ernesto de Sousa, nomeadamente a da página 26, «o amigo marroquino». “Nunca fui um bom turista”, escreve Ernesto de Sousa numa das crónicas deste livro – não esperem por isso encontrar aqui o tradicional livro de viagens. No regresso a Portugal Ernesto de Sousa enveredou decididamente pelo cinema (nessa altura já tinha feito “Dom Roberto”), pela fotografia e pela vídeo arte, de que foi um precursor. Este é apenas um episódio curioso na sua vida.  Edição Tinta da China.


 


PROVAR – O SoulFood Café é aquilo a que se poderia chamar uma cafetaria moderna. Também serve cafés, umas boas empadas e uns apreciáveis pastéis de nata, mas basicamente é um belo sítio para almoçar, comer umas tapas ao fim da tarde e eventualmente fazer um sossegado jantar de amigos. Há sugestões de pratos do dia ao almoço e também uma lista com sanduíches, tostas, massas e saladas, além de hambúrgueres (bons, caseiros, bem temperados) e um honestíssimo pica-pau. Os pratos da lista podem ser pedidos a qualquer hora, das 11 às 23. Ao almoço há sopa de legumes sempre fresca e  nos pratos do dia o campeão das preferências é o Bacalhau SoulFood mas, para mim, o mais surpreendente é o arroz de pato, invulgar e cativante. Todos os dias há sobremesas diferentes, e do bar, além do trivial engarrafado,  pode pedir um smoothie ou um sumo natural, ou uma das boas sugestões de vinho a copo. O serviço é muito simpático, o trabalho da cozinha é atento e criativo e a matéria prima é boa. Os preços são adequados à crise. Falta dizer que a música ambiente é basicamente soul e jazz e que no ecrã de plasma passa muitas vezes a Fashion TV. O ambiente é agradável e confortável – a sala é comandada por Joana Costa e Pedro Pereira e a cozinha por Luísa Sousa. Av. Miguel Bombarda 133 B, telefone 213 161 163


 


BACK TO BASICS – O primeiro sinal da decadência de uma sociedade é fazer crer que os fins justificam os meios – Georges Bernanos


 


(Publicado no Jornal de Negócios de 18 de Novembro)


 

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