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FRENTISMO – Nos anos 30, muito por inspiração dos partidos comunistas, através dos sindicatos, e perante a cumplicidade dos partidos socialistas (ou social-democratas na época), desenvolveu-se a política da Frente Única, que se destinava a juntar as forças de esquerda contra a direita e o capitalismo. Nalguns países a Frente Única teve vitórias eleitorais, noutros ganhou identidade como forma de resistência, já a guerra despontava ou estava em pleno.


 


Assistimos nestes dias a um ressurgir das ideias e práticas da Frente Única, bem expressas no Manifesto encabeçado por Mário Soares contra as políticas de austeridade. Há aqui um fenómeno curioso – nos anos 30 a Frente Única reivindicava protecção social, melhores salários, horários mais reduzidos. Anos mais tarde, no pós-guerra, muitos desses objectivos foram conseguidos criou-se na Europa o Estado Social, que acabou por chegar a Portugal mesmo no anterior regime, e com a satisfação de reivindicações as águas separaram-se e as várias partes da Frente Única seguiram cada uma o seu rumo. O progresso social foi enorme – o problema foi ter deixado crescer a protecção do Estado muito para além das posses do próprio Estado – quase sempre com o pano de fundo do acenar promessas eleitorais. Quem rejeita a ideia de viver melhor? E quem disse quais os custos que muitas medidas teriam a longo prazo? Quase oito décadas depois, e um pouco por todas as economias em crise, ensaiam-se novas frentes únicas – com mais ou menos indignados.


 


Esta nova vaga de protestos acontece porque o Estado Social ameaça ruína e aquilo que se dava por garantido, afinal já não está seguro nem certo. A evolução das sociedades industriais na Europa e o próprio progresso tecnológico aceleraram de forma dramática o desemprego – sem grandes possibilidades de criação em massa de novos postos de trabalho. Em muitos países a produção industrial quase desapareceu. O abandono dos campos, a concentração nas cidades, a ilusão da abundância, alteraram o precário equilíbrio das sociedades – e Portugal, com a desertificação do interior, o abandono das pescas e da agricultura, a falência de sectores da indústria, é um case study do crescimento desorganizado – e fora de tempo – de uma sociedade. A Frente Única, ontem ensaiada na greve, quer que o papel do Estado não mude, apesar de o Estado manifestamente não ter dinheiro. ~


 


Aquilo a que assistimos – e que nos atinge a todos - resulta de anos de encargos excessivos, de deficits acumulados, de dívidas aumentadas. Não se pode distribuir aquilo que se não tem, e distribuir com base em dívida é sempre uma péssima solução como agora vemos – é isto que a Frente Única não percebe, e que Soares bem sabe mas que quer aproveitar em mais um esforço para voltar a ser protagonista da História. Acontece que, em boa parte, foram os seus amigos socialistas, por essa Europa fora, que inspiraram ou incentivaram esta economia cronicamente deficitária, em nome de uma ilusória distribuição da riqueza, que afinal não existia. E em Portugal foram eles que, nos últimos 15 anos, conduziram alegremente o aumento exponencial da dívida, dos encargos do Estado, da falsa prosperidade. A Frente Única é uma receita do passado – e numa certa medida a responsável pela situação que se desenvolveu e que nos conduziu aqui – a do Estado gastar mais do que aquilo que podia. A geração de políticos do pós guerra construiu este modelo e deixou de herança os encargos. E agora aparece, sobressaltada, a querer revisitar o passado sem se preocupar, mais uma vez, com o futuro.


 


ESPIRAL – O sistema financeiro tem evidentes culpas no cartório, os reguladores dos mercados têm evidentes culpas no cartório, mas é justo reconhecer que os Estados têm também uma boa parte dessas culpas. Para satisfazerem os compromissos crescentemente deficitários com as políticas sociais – desemprego, saúde, educação, subsídios diversos – e também para pagarem obras muitas vezes desnecessárias e políticas incompreensíveis, os Estados foram pedindo mais e mais dinheiro aos bancos, já que as receitas não chegavam para a despesa; os bancos acharam que emprestar aos diversos Estados era um negócio seguro, que rendia bons juros e, de certa forma infindável – os deficits aumentavam, o serviço da dívida aumentava, cada vez era preciso maior financiamento. Desta forma os bancos alegremente compraram dívida pública de vários países. Pior, toda a sociedade se habituou a viver de dinheiro que não existia – os particulares com créditos de consumo, as empresas com créditos para toda a espécie de projectos - muitas vezes baseados em planos de negócio utópicos. Criou-se a prosperidade aparente baseada num sistema de dívida crescente.


 


Quando alguém se lembrou de fazer contas e disse que os devedores não tinham dinheiro para pagar as dívidas, o mundo ficou em estado de choque. A espiral tinha tomado conta da situação. Essa é a situação em que nos encontramos e esse é o grande problema – que fez surgir o apetite cada vez maior pela especulação e que acelerou a crise na zona Euro – uma zona artificialmente criada e que, agora, para sobreviver, substitui governos eleitos por técnicos escolhidos. O aprofundamento da Democracia, que a Europa era suposta proporcionar, afinal está a cair por terra.




SEMANADA – Jardim vai gastar três milhões de euros em iluminações de Natal e fogo de artifício; Paulo Penedos recebeu 1,2 milhões de Manuel Godinho; funcionários do parlamento ponderam fazer greve no dia da votação do Orçamento de Estado; em 2010 a violação do segredo de justiça deu origem a um processo por semana.




ARCO DA VELHA – Parece que em 2012 vão desaparecer os incentivos para a compra de carros eléctricos. E agora para que servem os electrões que andam aí pelas ruas a ocupar bons lugares de estacionamento? E o dinheirão que se gastou naqueles equipamentos todos?  - há mais carregadores que carros…


 


VER– Até Domingo à noite, no Pavilhão 1 da FIL, no Parque das Nações, decorre a Arte Lisboa – ainda não percebi porque não realizam esta Feira na Junqueira; Em Coimbra, no Centro de Artes Visuais, fotografias de Pedro Medeiros e de Mauro Cerqueira; na Galeria Avenida 211 (Avenida da Liberdade 211, 1º-esq) fotografias de Álvaro Rosendo (que bom rever o seu trabalho!), de José Drummond e instalações de Edgar Massul; na re-searcher gallery (Rua da Madalena 80D), Luis Miguel Castro expõe curiosos retratos de figuras portuguesas, de Mário de Sá Carneiro ao Marquês do Pombal, num traço onde a ironia e a observação se complementam.


 


OUVIR – Gordon Sumner nasceu em 1951 e a partir de 1977 começou a ser conhecido como Sting, quando os Police iniciaram o seu percurso musical e rapidamente ganharam fama. Na sua carreira Sting tem mais de 100 milhões de discos vendidos e recebeu 16 grammys. A sua música foi oscilante, mas ele é indiscutivelmente um grande compositor de canções, daquelas que ficam associadas a épocas ou episódios da vida de cada um. Para assinalar os seus 25 anos de carreira a solo e 60 de idade foi agora editado um duplo CD com 31 temas dos seus discos, desde “If You Love Somebody Set Them Free», de 1985, até «End Of The Game» de 1910, passando por «Moon Over Bourbon Street», «Englishman In New York» ou «Mad About You». Todos os temas foram remasterizados e  algumas, do primeiro disco, foram remisturadas. Edição AM/Universal


 


LER – Na Vanity Fair deste mês a capa é uma bela fotografia de Scarlett Johansson feita por Mario Sorrenti. Lá dentro a actriz fala do seu novo filme «We Bought A Zoo» de Cameron Crowe, do trabalho com Woody Allen e até dos seus percalços na internet. Outros artigos de interesse abordam os mitos de Jacki Kennedy, uma revisitação dos anos em que Margaret Thatcher esteve no poder e as guerras de sucessão no império Murdoch. Finalmente, aqueles que se interessam pelos negócios do desporto gostarão de ler sobre o método de trabalho de Billy Beane, o homem que revolucionou a gestão da equipa de baseball Oakland A’s com base na psicologia cognitiva.


 


PROVAR – As Conservas Nero renasceram da cinza e propõem dois petiscos: a Muxama de Atum Catraio em conserva e o Peixe Espada Preto de Sesimbra em conserva de azeite. Ambas resultam muito bem em cima de pão tostado, com um bocadinho de azeite e umas gotas de limão. Nestes últimos anos a tradição conserveira portuguesa está a renascer e isso é uma boa notícia. Com estas conservas pode preparar-se uma bela entrada ou até, no caso do peixe espada preto,  uma salada com um toque inesperado. Em época de crise as conservas tradicionais são uma boa alternativa para manter o espírito gourmet numa versão low budget.


 


BACK TO BASICS –  Falar por soundbytes é o estado contemporâneo da política e isso não acrescenta informação nem enriquece o debate – Sting.


 


(publicado no Jornal de Negócios de 25 de Novembro)


 

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