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Realidades, segurança, sugestões

por falcao, em 23.12.11

BALANÇO  – Estive a rever a mensagem de Natal que José Sócrates dirigiu aos portugueses no Natal de 2010. Ela está no YouTube e é uma peça que merece ser recordada para ver a forma como um Primeiro Ministro andou a iludir este país. Nessa altura José Sócrates ainda negava a necessidade do pedido de ajuda externa, atitude que manteve durante meses. Mas antes do Congresso, que mais uma vez o glorificou, em Matosinhos, no já distante início de Abril de 2011, Sócrates teve mesmo que se render às evidências e fez esse pedido de ajuda. Apesar disso, em Matosinhos, a moção de Sócrates obteve 97,2% dos votos dos delegados, uma unanimidade que ele gostava de cultivar. Passados mais três meses Sócrates foi derrotado nas eleições legislativas antecipadas de Junho e, no Congresso seguinte do Partido Socialista, no início de Setembro, nem sequer se dignou aparecer. Não podemos viver obcecados com o passado, mas é bom lembrarmo-nos do que se passou. Esse discurso do Natal dde 2010 é o retrato vivo do resultado de entregar o Governo à perigosa ilusão de um homem.


 


SEGURANÇA – Esta semana, depois de mais uma vaga de assaltos, reuniram-se os responsáveis de diversas forças de segurança e da reunião pouco mais saíu que um repositório de lugares comuns e de simpáticas declarações de intenções. Os cidadãos acham, com razão, que faltam patrulhas dissuasoras, que em muitos locais a polícia não se vê. A ausência da polícia, já se sabe, torna os criminosos mais afoitos. Há sinais que podem e devem ser dados para mostrar que existe uma atitude de mudança. Vou pegar num caso concreto – todos os lisboetas sabem que o eléctrico 28 é o paraíso dos carteiristas que aí procuram afanosamente turistas descuidados. Os portugueses que utilizam aquela linha como meio de transporte sabem mesmo identificar os ladrões que regularmente ali exercem o seu métier e são capazes de contar vários dos truques utilizados. Todas as semanas vários turistas se queixam de roubos no eléctrico 28 – o que certamente não é bom para a imagem do país. Não me parece que fosse um exercício muito difícil colocar um agente naquele eléctrico – os carteiristas talvez estivessem menos à vontade mas, principalmente, não andariam para cima e para baixo com total impunidade. A função das forças policiais deve ser prevenir – e a sua presença física é a melhor forma de dissuasão. Os senhores comandantes das diversas forças, que se dissolveram em promessas, bem poderiam agir, dar uma amostra de determinação, por mais simples e simbólica que fosse, em vez de, como relataram os jornais esta semana, se preocuparem em ter messes de oficiais com serviço de mesa e messe de agentes em regime de self-service. O ridículo mata.


 


ASAE  -  Eu acho muito curiosa a forma como a ASAE actua cada vez que sente que há uma máquina registadora a funcionar e uma actividade económica que aparenta ter sucesso. Arranja logo maneira de acabar com o despautério, se possível detendo alguém pelo caminho e encerrando algum estabelecimento. O que se passou, pela mão da ASAE, num restaurante lisboeta nas últimas semanas, mostra como aquela organização prefere punir a fiscalizar, prefere abusar do poder a dialogar, prefere terminar com um negócio a procurar soluções. É sabida a minha opinião – acho desde há muito que a ASAE é governada pela mania da perseguição que o seu responsável, António Nunes, inculcou desde que dirige aquele organismo. Não se preocupa em aferir a razoabilidade das situações, não se preocupa em ver se as leis poderão estar desajustadas da realidade. É cega a reprimir, selectiva a escolher alvos. Se no Ministério da Economia existisse alguém com os pés postos na terra já tinha acabado com esta maneira de funcionar. A recente acção da ASAE é uma prova de força – continua a mostrar que pode abusar. E o Governo, deixa.



SEMANADA – O Hot Clube finalmente reabriu, no nº48 da Praça da Alegria; o roubo de cobre mais que duplicou em oito meses; o programa de preparação para os próximos jogos olímpicos apresenta deficit de 300 mil euros; os CTT já receberam este ano 300.000 cartas dirigidas ao Pai Natal; quase desapareceram os postais de Natal, substituídos por mensagens electrónicas.


 


ARCO DA VELHA – Numa curiosa interpretação do estímulo à exportação, Paulo Rangel defendeu a criação de uma agência governamental que auxilie os portugueses a emigrarem.


 


PALAVREADO - «Pinto da Costa espirra e os árbitros constipam-se» - Eduardo Barroso


 


VER – Quando tiverem um bocadinho visitem a exposição «Portugal connosco – o olhar dos carteiros». A ideia foi dos CTT, que desafiaram 3500 carteiros a andarem pelo país de máquina fotográfica em punho. O resultado foi um conjunto de 86.500 fotografias que um júri reduziu às 200 que agora estão expostas no histórico edifício dos Correios na Rua de S. José, em Lisboa, e recolhidas no livro que entretanto foi editado. As imagens mostram o país que os carteiros vêem todos os dias, nas cidades e no campo, os contrastes, as curiosidades, as pessoas. Eu confesso ter um fascínio pela actividade dos Correios – sou do tempo em que esperava a chegada do carteiro com as revistas que assinava, com as cartas que aguardava. O que já vi destas imagens – e sobretudo a iniciativa em si – parecem-me exemplares na ligação de uma empresa à comunidade.


 


LER – Há muito poucas pessoas a reflectirem sobre política cultural em Portugal e António Pinto Ribeiro (não o ex-Ministro, mas o ensaísta e programador) é uma delas e certamente quem melhor tem explorado o tema ao longo de vários anos e em diversas circunstâncias. Grande parte desse trabalho foi recolhido no livro «Questões Permanentes, ensaios escolhidos sobre cultura contemporânea», editado agora pelos Livros Cotovia. Aqui se repescam escritos sobre diversas áreas da política cultural, desde a formação dos públicos à cultura das elites, passando pelo papel das Universidades, o populismo, as industrias criativas ou a importância dos documentários, para só citar alguns exemplos. Estes textos, muitas vezes escritos num tom provocador que é próprio do autor, são pedradas no charco do lugar comum e do politicamente correcto sobre as questões culturais. Agitam e fazem pensar e isso é a melhor coisa que me ocorre dizer. Já agora o livro publica a aguerrida e interessante polémica de António Pinto Ribeiro e Vasco Graça Moura sobre Património Cultural e Arte Contemporânea, uma série de escritos sobre livrarias que o autor gosta de visitar em diversas cidades de todo o mundo e, a encerrar, uma inédita «Autobiografia com muitas fantasias», uma espécie de ensaio do autor sobre si próprio, com muito pouco de umbigo e muito de ironia.


 


OUVIR – «Pull Up Some Dust And Sit Down» faz lembrar os primeiros discos de Ry Cooder, baseados em versões de Lead Belly e Woody Guthrie. Na realidade, o álbum deste ano de Ry Cooder merece figurar entre os melhores discos de 2011, é um retrato destes tempos de depressão em que vivemos. A faixa «No Banker Left Behind» é o equivalente musical do incontornável documentário «Inside Job», de Charles Ferguson. Firmemente ancorado na melhor folk norte-americana e nos blues, este CD é o género de disco que Woody Guthrie não desdenharia assinar se ainda fosse vivo.


 


PROVAR – Ao almoço, o buffet do restaurante Roda das Sedas, na Rua da Escola Politécnica 231, já quase a chegar ao Rato, merece ser visitado. Por 14 euros temos ao dispor entradas fartas e variadas, uma boa selecção de queijos e propostas de pratos quentes bem elaboradas e declaradamente portuguesas – desde coisas simples como panados até uma honesta massada de peixe ou polvo à lagareiro. Os doces, para quem ainda exerça essa parte da degustação, não desmerecem. Se quisser no bar servem-se petiscos e cocktails. À noite o regime de buffet é substituído por uma carta com sugestões interessantes, desde uma raia com puré de courgettes e aipo e legumes salteados, até uma empada de perdiz. A garrafeira não é muito extensa mas é bem escolhida e tem preços sensatos. Mas, honestamente, o melhor de tudo é o local, as salas que se sucedem, o bar, a bela esplanada, a forma como foi bem aproveitado o edifício da antiga Real Fábrica das Sedas. Telefone 213 874 472.


 


BACK TO BASICS –  Aqueles que não têm respeito pela verdade nas pequenas coisas não podem ser dignos de confiança nos assuntos importantes – Albert Einstein


 

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