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por falcao, em 13.01.12

INSEGURANÇA – Esta insegurança de que aqui falo hoje não tem a ver com a onda de assaltos, ou carjacking, ou roubos de caixas multibancos. Tem a ver com a onda de insegurança provocada por uma política de comunicação que, em vez de gerir expectativas e procurar criar um sentimento positivo, cria angústias e atira as pessoas ainda mais para baixo do que já estão. O início da semana foi marcado por afirmações de que estariam para chegar mais medias de austeridade, que o Orçamento de Estado, cuja execução começou há menos de meio mês, já tem potenciais desvios que não teriam sido calculados e que, assim sendo, havia que procurar mais receitas para tapar esses desvios. Para a praça passou a ideia de que Vitor Gaspar afinal não era perfeito e que também se enganava a fazer as contas. Com o seu ar de sempre o próprio veio dizer que as causas indicadas não provocarão medidas adicionais de austeridade, mas disse-o de uma maneira que deixou um portão escancarado para que surjam outras quaisquer medidas de austeridade. A palavra austeridade está no ponto em que provoca medo. Todos os dias desta semana surgiram notícias de redução de postos de trabalho em empresas privadas de razoável dimensão; outras preparam-se para fazer cortes salariais. E no Estado, quando se começa a cortar a sério? O maior problema de comunicação deste Governo é que as suas únicas estratégias conhecidas baseiam-se em austeridade e mais impostos. Para além da dívida, não se vê uma estratégia, um objectivo, um plano e a forma de o executar. Se existe, não é comunicado.


 


ISCO – Qualquer pescador sabe que sem isco a pesca é curta e o peixe que se apanha não é do melhor. O quadro fiscal português, em matéria de captação de investimento externo, é um anzol enferrujado e sem isco. Nas últimas semanas percebeu-se, até em empresas portuguesas, como o quadro fiscal é tão confuso e mutante, que quem pode vai daqui para fora. Mas os problemas não se esgotam no quadro fiscal – os atrasos na justiça e a burocracia também demovem os mais audazes. Volta e meia, para alguns projectos pontuais considerados estratégicos, lá aparecem uns incentivos especiais. Isto não chega – não se vai conseguir captar investimento reprodutivo, criar emprego e desenvolver a economia com um anzol neste estado catastrófico. Cada vez que um investidor estrangeiro olha com atenção para Portugal devem-lhe vir à mente estas palavras de uma canção dos Rádio Macau : “Eu não sei, se hei-de fugir / Ou morder o anzol / Não há nada de novo aqui/ Debaixo do sol”. 


 

PROBLEMAS – Quem aterrasse em Portugal na última semana acharia que o maior problema de Portugal está na Maçonaria. Como todos sabemos, mesmo havendo comportamentos estranhos em algumas figuras ligadas à Maçonaria, não é esse o nosso maior problema. Claro que o secretismo que continua a ser cultivado à volta da organização não ajuda a melhorar as coisas. Já muita gente escreveu sobre a origem da Maçonaria – mas actualmente o problema reside na sua falta de capacidade de adaptação a uma sociedade aberta e transparente, onde o escrutínio de pessoas e actos se tornou corriqueiro. Um comunicado publicado nestes dias nos jornais pela Maçonaria é um exemplo acabado do desajustamento em relação ao tempo – a generalidade das pessoas simpatiza com os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade. Mas de há três séculos para cá estes ideais tornaram-se pensamento corrente nas sociedades contemporâneas – já não é uma elite que os promove, é antes a sociedade que, em nome desses princípios, gostaria que não houvesse favorecimentos de qualquer espécie. Os sectores mais retrógrados e conservadores da Maçonaria dizem que estão a ser vítima de uma perseguição igual à do tempo de Salazar. Ninguém consegue levar isto a sério. Nada disto surgiria se algumas pessoas não tivessem tido comportamentos públicos difíceis de aceitar, independentemente de credos, simpatias ou devoções. Se a própria Maçonaria tivesse tido mais cuidado com aqueles que utilizam o seu nome, se tivesse sabido adequar-se aos tempos, se se mostrasse mais desinteressada dos poderes passageiros, talvez estivesse a ser elogiada em vez de acusada. Os problemas só se tornam públicos numa organização quando ela não é capaz de os resolver internamente. Por razões familiares e de educação habituei-me a ver os maçons como um exemplo de honestidade e integridade. Mas a imagem que nos últimos tempos tem passado não é bem essa – e o problema reside aí, não no regresso ao passado.


 


SEMANADA – Crédito à habitação caiu para menos de metade em 2011; venda de música caiu 38% no 1º semestre de 2011; Daniel Ortega tomou posse como Presidente da Nicarágua com o venezuelano Hugo Chavez e o iraniano Mahmoud Ahmadinejad a apoiá-lo; A PSP admitiu não ter carro para patrulhar centro histórico do Porto; Soares quer país a bater o pé à troika; ritmo de destruição de emprego vai duplicar em 2012.


 


ARCO DA VELHA – Os funcionários do Banco de Portugal vão manter em 2012 os subsídios que outros trabalhadores do Estado vão perder.


 


PALAVREADO – «Vamos todos pagar implantes mamários» – título no Jornal de Notícias de dia 10.


 


VER – Ora aqui está uma semana cheia de ideias visuais. Começo por elogiar a mais recente edição da revista Egoísta, sob o tema “Viagem” onde a fotografia ocupa um lugar preponderante (declaração de interesse: publicam um portfolio de instagrams minhas). Graficamente este número da “Egoísta” esta um achado – ainda bem que por cá se fazem revistas assim. A seguir, ainda na fotografia, elogio a ideia da renovada grelha da TVI24 em fazer um programa semanal, de 15 minutos, que tem a fotografia como tema. A responsabilidade é de Luiz Carvalho, o programa chama-se «Fotografia Total» e vai para o ar ao Domingo, às 11h45. E finalmente deixo aqui já o aviso que na próxima semana, a partir de dia 19, vai estar patente na Sociedade Portuguesa de Autores uma exposição dedicada á obra de João Ribeiro, um dos mais importantes fotojornalistas portugueses da última metade do século XX.


 


OUVIR – Nunca é fácil escrever sobre um disco póstumo – é um objecto que fica a meio caminho entre o testamento e o abutre, incómodo em ambas as situações. Hesitei um bom bocado antes de escrever sobre «Hidden Treasures», de Amy Winehouse, mas a única conclusão possível, depois de ter ouvido o CD várias vezes, é que ele é uma prova do grande talento que Amy Winehouse tinha, da sua enorme capacidade de interpretar canções – suas, mas também clássicos que ela aqui recria, como «Our Day Will Come», «Will You Still Love Me Tomorrow», «Valerie», «The Girl From Ipanema», ou «Body And Soul» (este um dueto com Tony Bennett) e «A Song For You». Mas para além destas versões há vários temas da própria Amy Winehouse, e tenho que referir aqui «Like Smoke», uma prova do seu enorme talento também de compositora. É engraçado notar que um disco póstumo assim, que mistura novas versões de temas originais da autora, com temas inéditos e versões de temas de outros autores acaba por ser a prova do talento multifacetado de Amy Winehouse. E, nessa medida, por ser uma homenagem que ela bem merece.


 


PROVAR – Se quiserem um petisco para uma das tardes de fim de semana procurem a conserva de escabeche de frango com essência de figo, preparada no Porto e vendida em Lisboa na Mercearia Criativa (Av Guerra Junqueiro 4A) experimentem-na com um bom pão, como o de Castro Verde que também lá se vende. E no fim rematem com a Tarte (de amêndoa).


 


BACK TO BASICS – Uma viagem de mil milhas começa com o primeiro passo – Lao Tse.


 


(Publicado no Jornal de Negócios de dia 13 de Janeiro)

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publicado às 17:57



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