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GOVERNAR – Depois de uma década de disparates, de mentiras, de falsificações, de trapaças (como a triste história das PPP vem elucidando), o mínimo que se espera de um Governo é serenidade e bom senso. Não há nenhuma necessidade de, ao fim de um ano em funções, o Primeiro Ministro ser apanhado em falta no Parlamento por causa de uma decisão na área da saúde – o encerramento de uma maternidade, por mais simbólica que ela seja. Já é tempo de os gabinetes terem os sistemas de comunicação oleados, de a Presidência do Conselho funcionar como centro de decisão e não como reduto da conspiração – que foi o que, no tempo de Sócrates,  Silva Pereira conseguiu fazer. O Governo tem a obrigação de agir, de comunicar e de poupar o dinheiro dos contribuintes. Convém que o Primeiro Ministro seja mantido a par do que, nesta matéria, se vai fazendo. Governar é um acto de coragem – implica tomar decisões, delegar, controlar. Ao fim de um ano o Governo não pode dar a ideia de que anda perdido. Quanto mais se sabe do que atrás se passou, mais exigentes devemos ser em relação ao que agora se passa. Os erros de Sócrates não estão na folha de crédito de Passos Coelho. São um passivo que ele terá de resolver para se reencontrar com o país.


 


EDUCAÇÃO – Com a devida homenagem vou citar um excerto de um texto absolutamente brilhante de Teolinda Gersão, lido esta semana no “Público”, e que mostra o disparate do sistema educativo português, ainda por cima na área da nossa língua. Ora apreciem: “No ano passado havia complementos circunstanciais de tempo, modo, lugar etc., conforme se precisava. Mas agora desapareceram e só há o desgraçado de um “complemento oblíquo”. Julgávamos que era o simplex a funcionar: Pronto, é tudo “complemento oblíquo”, já está. Simples, não é? Mas qual, não há simplex nenhum,o que há é um complicómetro a complicar tudo de uma ponta a outra: há por exemplo verbos transitivos directos e indirectos, ou directos e indirectos ao mesmo tempo, há verbos de estado e verbos de evento,e os verbos de evento podem ser instantâneos ou prolongados, almoçar por exemplo é um verbo de evento prolongado (um bom almoço deve ter aperitivos, vários pratos e muitas sobremesas). E há verbos epistémicos, perceptivos, psicológicos e outros, há o tema e o rema, e deve haver coerência e relevância do tema com o rema; há o determinante e o modificador, o determinante possessivo pode ocorrer no modificador apositivo e as locuções coordenativas podem ocorrer em locuções contínuas correlativas. Estão a ver? E isto é só o princípio. Se eu disser: Algumas árvores secaram, ”algumas” é um quantificativo existencial, e a progressão temática de um texto pode ocorrer pela conversão do rema em tema do enunciado seguinte e assim sucessivamente.
No ano passado se disséssemos “O Zé não foi ao Porto”, era uma frase declarativa negativa. Agora a predicação apresenta um elemento de polaridade, e o enunciado é de polaridade negativa. No ano passado, se disséssemos “A rapariga entrou em casa. Abriu a janela”, o sujeito de “abriu a janela” era ela, subentendido. Agora o sujeito é nulo. Porquê, se sabemos que continua a ser ela? Que aconteceu à pobre da rapariga? Evaporou-se no espaço?  A professora também anda aflita. Pelo vistos no ano passado ensinou coisas erradas, mas não foi culpa dela se agora mudaram tudo, embora a autora da gramática deste ano seja a mesma que fez a gramática do ano passado.”


 


 


SEMANADA – Número de seguranças privados já supera o de efectivos policiais – 58 mil seguranças, 51 mil polícias; o Estado português não sabe quantos criminosos condenados voltaram a reincidir depois de cumprida a pena, nem porquê, nem qual o seu perfil – isto numa altura em que o Governo quer mudar as leis penais; só 45 câmaras municipais de um total de 308 em todo o país dispensam apoio às dividas de curto prazo; 30% da produção de vinho da região demarcada do Douro não tem escoamento; foi conhecida a insolvência da empresa de moda Storytailors na mesma semana em que a dupla de estilistas vestiu Joana Vasconcelos para a cerimónia de inauguração da sua exposição em Versailles; o fisco ordenou à PSP 2769 penhoras de veículos por dívidas fiscais; num assomo de produtividade e oportunidade uma Universidade Alemã anunciou ter descoberto fósseis de tartarugas que estavam a fazer sexo na altura em que morreram; a directora do Público afirmou que a Entidade Reguladora da Comunicação revelou “a sua inutilidade” no caso da disputa com o Ministro Miguel Relvas.


 


ARCO DA VELHA – Um estudo revelado esta semana indica que a crise fez Portugal perder 300 milionários em 2011 e o seu total está agora nos 10 400, uma queda de 2,8% – sendo milionários as pessoas com liquidez superior a um milhão de dólares; em contrapartida a nível mundial o numero de milionários aumentou 0,8% para um total de cerca de 11 milhões.


 


VER –  Passear por fotografias no meio de móveis e peças de decoração é uma ideia suficientemente invulgar para ser atraente. Luís Serpa é o responsável pela escolha de imagens doo Gabinete de Curiosidades instalado na loja de Conceição Vasco Costa, na Rua da Escola Politécnica, em Lisboa. Ali estão fotografias de colecção, da colecção de Luís Serpa, de autores como Bob Wilson, Daniel Blaufuks, Álvaro Rosendo, Jorge Molder, Julião Sarmento, Graça Sarsfield, Maria José Palla, entre outros. É uma curiosa experiência que mostra a forma como a fotografia se deixa ver em quaisquer circunstâncias, conseguindo marcar qualquer espaço.


 


OUVIR –   Uma cantora russa em Nova York é sempre um ingrediente para cocktails explosivos. Quando a isso se conjuga com uma razoável dose de canções confessionais e de comentários sociais, tudo fica mais interessante. Chamar a um museu cheio de preciosidades artísticas um mausoléu público é uma aproximação interessante que alguns irão partilhar. Mas eventualmente o ponto mais alto deste disco, baseado em torno de melodias tocadas ao piano, é “How”, uma balada de separação, uma canção de ruptura, que tem as sete palavras mais fortes da música pop dos últimos anos: “Agora não és mais que um convidado”. CD Sire, Amazon.


 


FOLHEAR –  A edição de Junho da Vogue norte-americana, a original, a que é dirigida por Anne Wintour, tem na capa uma fabulosa fotografia de Annie Leibowitz que faz parte do seu portfolio sobre os atletas olímpicos dos Estados Unidos, convenientemente fotografados para a ocasião ao lado de modelos e roupas belíssimas. Anne Wintour dedica o seu editorial à questão da preservação do bom senso em matéria de saúde e alimentação, incluindo no mundo da moda. Mas o que marca esta edição absolutamente fabulosa são as imagens. Além de Leibowitz, temos fotografias de atletas por Bruce Weber, temos Jennifer Lopez fotografada em fato de banho por Mário Testino e temos um fabuloso artigo sobre o homem que concebeu a cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Londres, Danny Boyle, o realizador de “Slumdog Millionaire”. É por causa de edições destas que eu acredito em revistas bem feitas e na importância de conteúdos originais.


 


PROVAR – A época dos caracóis está no auge, e ainda por cima coincide com os jogos do Europeu – nada como um pratinho de vagarosos ao fim da tarde enquanto se assiste a um jogo. Se a coisa acontecer numa sala grande com vários bons ecrãs de televisão e ar condicionado decente, ainda melhor. Existe um local assim em Lisboa, ainda por cima deliciosamente sportinguista. Trata-se do “Filho do Menino Júlio dos Caracóis», um dos mais afamados locais para este petisco. Fica na Rua do vale Formoso de Cima 140-B, ao fundo da parte nova da Avenida dos Estados Unidos da América e perto da Matinha. Além de caracóis há belíssimas moelas, pregos suculentos e, para quem quiser coisas mais sérias, peixe ou carne grelhada na brasa de carvão, e , dependendo dos dias, Cozido á Portuguesa, Galo de Cabidela ou massada de garoupa, entre outras especialidades. A imperial é a 1,20€, a dose de caracóis é a 5 euros e a de moelas a 8.80€. Imperdível!


 


GOSTO –   Parece que o calor começa a chegar no fim de semana.


 


NÃO GOSTO –   As obras do Passos Manuel, geridas pela Parque Escolar, custaram mais 46,5% do que estava inicialmente previsto, diz o Tribunal de Contas.


 


BACK TO BASICS –  "Nos indivíduos, a loucura é algo raro - mas nos grupos, nos partidos, nos povos, nas épocas, é regra." Nietzsche


 


(Publicado no Jornal de Negócios de 22 de Junho)

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publicado às 12:17



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