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AS IMAGENS DE GASPAR

por falcao, em 12.10.12

RETRATOS - Esta semana fiquei impressionado com duas fotografias de Vítor Gaspar: a primeira, na conferência de imprensa, do enorme aumento de impostos, de olhar alucinado; na segunda, no Eurogrupo, de sorriso satisfeito e matreiro, entre os seus pares. As duas imagens são o retrato perturbante de um homem que se tem enganado em todas as suas previsões, que tem falhado a maioria dos objectivos que estabeleceu para justificar as medidas que tomou, e que até agora nunca teve a capacidade de reconhecer que se enganou. Passei a semana à espera que ele dissesse que tinha errado, que algures se tinha enganado. Nada. Não justifica sequer porque é que calculou tão mal o efeito das medidas que tomou, sem restrições – note-se -  no decurso do último ano. Até o FMI já veio dizer que calculou mal o impacto da austeridade e mesmo Catroga veio distanciar-se das novas medidas fiscais anunciadas. E para onde vai todo o dinheiro dos impostos? De tudo o que é colectado, nada vai para pagar a dívida, mas no Governo não se fala disto. Continuamos, como se sabe, a acumular défices. Continua a ser tudo para o Estado gastar e mesmo assim não chega. Todo o esforço não é suficiente para equilibrar as contas. O que se passa no Governo é o retrato do país: Só o Ministro das Finanças pode falhar e nada lhe acontece; mas contribuinte que falhe, é executado.

Há dias, no Facebook, li um relato que me fez pensar: “Hoje, em conversa com uma alemã comum, perguntei-lhe como olham os alemães comuns para Portugal. Esperando uma resposta do tipo "passam o tempo na praia" obtive " o que vemos é sobretudo um país com muita corrupção, parece ser o vosso maior problema". É verdade: temos um monte de PPP’s, de escândalos como o BPN, de negócios sucateiros, que são a face evidente da pior das ineficiências, que é a falência de uma justiça que favorece objectivamente a corrupção porque, ao não funcionar, garante a impunidade. Portugal é, aos olhos de quem nos visita, uma república das bananas onde os habilidosos se safam e o Estado continua sem nada fazer a não ser gastar o que não tem.

 

 

SEMANADA – A quebra de receita do Estado provocada pelos efeitos da subida do IVA na restauração é estimada em 947 milhões de euros; 11 mil policias estão em trabalhos de secretaria, fora de funções operacionais, o que significa cerca de 25% dos agentes da autoridade; nos primeiros seis meses do ano aumentaram 33% os casos de assassinato que já ultrapassam a centena até final do mês passado; no hospital da Guarda os vivos dormem com os mortos nas enfermarias porque a morgue fecha durante a noite; uma das razões da perca de competitividade das nossas empresas reside nisto: o financiamento das pequenas empresas na banca em Portugal é o mais caro da zona euro – 7,79% contra 4,15% ; o crédito malparado atinge 15,6 mil milhões de euros; o desemprego de longa duração sobe 14%; 300 mil inscritos nos centros de emprego não estão a receber qualquer subsidio; os impostos pagos sobre a gasolina e o gasóleo já são praticamente o dobro do custo do combustível propriamente dito; o Governo quer aumentar tabaco de enrolar em 30%; Portugal está em segundo lugar, a seguir à Argentina, na lista dos países com maiores subidas de impostos; figuras do PS lançaram o nome de José Luís Judas para candidato à Câmara Municipal de Cascais; no 5 de Outubro António Costa parecia já o líder da oposição e não o Presidente da Câmara de Lisboa.

 

ARCO DA VELHA – Um livro de poesia para adultos, de Alice Vieira, sobre o amor, foi incluído numa lista de leituras recomendadas para alunos do 2º ano de escolaridade e foi preciso a autora vir alertar para o facto.

 

GOSTO – A Universidade de Limerick, na Irlanda, vai organizar uma conferência, intitulada “Strange Fascination”, para estudar o impacto cultural da obra de David Bowie.

 

NÃO GOSTO - No final do terceiro ano do programa de ajustamento, Portugal terá menos 500 mil empregos do que tinha quando pediu ajuda externa.

 

VER – Pedro Cabrita Reis inspirou-se em coisas simples da terra para uma nova série de desenhos que expõe na Galeria João Esteves de Oliveira (Rua Ivens 38, ao Chiado). Com o título “D’Après Nature (possibly...)” estão reunidas obras em que, entre os materiais usados nestes desenhos sobre papel, estão café, azeite, vinho, beterraba ou mel, alem, claro de grafite. Os produtos são maioritariamente oriundos da quinta que Cabrita Reis tem perto de Tavira –  as paisagens locais têm aparecido por diversas vezes na sua obra mais recente. “Trago-vos ainda o mutismo das árvores que aos poucos apaziguamos em febre dourada,  sanguínea e, por fim, negra, que verte dos cachos e flui, purificando os sentidos dessa outra inútil pureza, a do pensamento” – escreve o artista no texto que acompanha a exposição. São cores do Outono estas que percorrem as imagens da natureza assim desenhadas por Cabrita Reis – tranquilas, por vezes provocantemente tranquilas.

 

OUVIR – Confesso que gosto de discos pop, simples e delicados, uma raridade hoje em dia, perdidos que estamos entre produtos pré-fabricados com vozes muito bem afinadinhas e corpos a condizer, feitos para a fotografia, ou o vídeo, mais que para os ouvidos. Felizmente de vez em quando aparece um disco que recupera o prazer da música popular, o prazer de partilhar a diversão, como este “Coexist”, dos XX. Depois do enorme êxito do disco inicial, “The XX”, e da respectiva digressão, o grupo esteve afastado dos palcos e entreteve-se a ir a clubes e a dançar. Parece que daí nasceu uma atracção pela música e os ritmos de dança e Jamie Smith, um dos elementos da banda, desenvolveu uma carreira paralela de DJ. “Coexist”, o novo álbum, vai buscar ambientes e inspiração por exemplo à house-music em temas como “Sunset”. Mas a essência de “Coexist” continua a ser o despojamento e a simplicidade, tão evidente e atraente em canções como “Our Song”, “Missing” ou “Tides” – onde a guitarra de Romy Madley Croft tem um simples e incontornável diálogo com o baixo de Oliver Sim, uma extensão dos diálogos vocais que ela e ele tecem canção após canção. A guitarra de Rodley Madley Croft, quase que me arrisco a dizer a evocar Vini Reilly nos Durutti Column de há anos atrás, é um ponto incontornável dos XX e é para esse tempo - dos Durutti Column, dos Young Marble Giants ou dos Cocteau Twins de então.

 

 

FOLHEAR – A revista “Wallpaper” foi fundada em 1996 por Tyler Brulé, e o êxito foi tão imediato que um ano depois a estava a vender à Time Warner. Brulé continuou como editor até 2002 e, cinco anos depois, lançou a “Monocle”, que continua a dirigir. Nestes últimos anos a “Wallpaper”, sob a direcção de Tony Chambers, que sempre foi marcada pelo forte uso da imagem, dedicou-se cada vez mais ao design, à arquitectura, à moda mas também às viagens – a sua colecção de guias de cidades é célebre (alguns títulos estão editados em português). De vez em quado surge uma edição especial, quase para coleccionadores, como esta de Outubro, que tem três capas diferentes, cada um feita por um dos editores convidados: a fotógrafa Taryn Simon, o arquitecto Ole Scheeren e o pianista Lang Lang (e cada um deles tem direito a um extenso portfolio no interior). Escolhi a capa de Taryn sSiom, “The Picture Collection”, e as 16 páginas que ela criou para a revista são verdadeiramente arrebatadoras. Curiosidades adicionais: um artigo sobre novas tendências do design brasileiro, o guia dos melhores novos hotéis para viagens de trabalho, e a sugestão culinária do mês: ameijoas à Bulhão Pato, numa receita dada e preparada pelo português Pedro Cabrita Reis

 

PROVAR – Volta e meia apetece-me um bife. Um clássico, com batatas fritas. Carne bem cortada, cozinhada no ponto, obviamente com ovo a cavalo. Mão sabedora levou-me, em Aveiro, a um local que depois vim a saber tratar-se de um templo do bom bife. Adequadamente chama-se Alexandre dos Bifes e fica no nº 14 do Cais do Alboi (telefone             234 420 494       ). Que distingue este bife dos outros? Alem da qualidade da substância, a excelência do tempero: parece levemente marinado, os sabores bem entranhados na carne, não é uma coisa feita à pressa na frigideira. As batatas fritas não saíram do congelador para o óleo – são às rodelas, cortadas à mão, deliciosamente irregulares. O pão, fresquíssimo, para tratar do ovo, vem aos nacos suculentos. Ao almoço é um corrupio, mas vale a pena esperar por uma mesa.

 

BACK TO BASICS – Um fanático é alguém que não muda nem de pensamento nem de assunto – Winston Churchill


(A ESQUINA DO RIO 481 - Publicada dia 12 de Outubro no Jornal de Negócios)

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publicado às 16:06


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