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UMA ESPÉCIE DE BALANÇO

por falcao, em 21.12.12

MUNDO - Começo por vos dizer que, se me estão a ler, é sinal que o mundo ainda não acabou, apesar da profecia que vem do tempo dos Maias. Mas, se isso é verdade, não é menos verdade que este final de ano está cheio de sinais de rupturas. O mundo pode não ter acabado, mas, este ano, para muita gente, mudou de uma forma tal que o modo de vida que tinham acabou mesmo. Nuns casos isso é bom, noutros nem por isso. No espaço de pouco mais de um ano um número assinalável de indicadores regrediu para valores de há uma década, e esse  movimento de regressão vai continuar. É um ajustamento que está a ter repercussões no dia a dia, nas questões mais básicas. Atinge também áreas que muitos consideram marginais, como a criatividade, a expressão artística, a cultura. Gostava, quase a começar um ano que quero encarar como o princípio inevitável de um novo mundo, de recordar estas palavras de Mario Vargas Llosa: “É muito importante que haja participação cívica, fiscalização constante do poder e que este esteja impregnado de ideias, não só de paixões. Para isso, é indispensável a cultura, que dá à política padrões morais.”

PRÉMIOS - Prémio “não sei quem é o Sócrates” para António José Seguro; prémio “Quem? Eu?” para Miguel Relvas; prémio “vou fazer do serviço público um canal horeca” para Alberto da Ponte; prémio  “já vos tramo a todos que vos ponho às voltas no Marquês” para António Costa; prémio “não sei porque não gostam de mim” para Godinho Lopes;  prémio “eu faço tudo bem e vocês não me compreendem” para Pedro Passos Coelho”; prémio “o melhor da raspadinha” para Vitor Raspar, perdão, Vitor Gaspar; prémio “mais vale tarde que nunca” para Cavaco Silva; prémio “a ver se não me molho” para Paulo Portas; prémio  “onde está o Louçã” para Daniel Oliveira; prémio “lá vamos cantando e rindo” para o grupo parlamentar do PSD; prémio “em busca do tempo perdido” para Álvaro dos Santos Pereira.

ARCO DA VELHA - Na mesma noite em que o Conselho Nacional do PSD se reunia em Lisboa, num hotel da capital, soube-se que António Nogueira leite se havia demitido da vice-presidência da caixa Geral de Depósitos. João Gonçalves, um blogger acutilante, escreveu estas palavras que aqui reproduzo, com a devida vénia: “A saison, não o horrível natal, vai "animada" com uma sucessão de demissões. Do director de informação de um operador televisivo a um director-geral de outro, de um inspector-geral passando pela administração da Casa da Música e por um administrador executivo da CGD, constato que nem todos os que pedem a demissão a deviam ter pedido, ao mesmo tempo que alguns que a deviam pedir o não fazem. O pensamento que calcula, para recorrer à expressão de Heidegger, pesa mais que qualquer outro pensamento nos tempos que correm. Muitas vezes, nem sequer vale a pena falar em pensamento, para não ofender o conceito. A ver vamos como dizia o cego.”



OUVIR - Estamos num tempo em que existe uma oscilação, por vezes confusa, entre nostalgia e repetição. Mas é muito curioso que alguns dos melhores registos do ano venham, em várias áreas da música popular, de nomes, digamos, antigos. Neil Young fez um disco absolutamente brilhante com “Psychedelic Pill”; Bob Dylan mostrou que continua surpreendente com “Tempest”. Bruce Springsteen mostrou como continua atento com “Wrecking Ball”. Bobby Womack ressuscitou com “The Bravest Man In The Universe” , Bill Fay volta a dar uma lição em “Life Is People”. Leonard Cohen, coerentemente, mostrou a vitalidade de “Old Ideas”. E, mesmo com o ano a chegar ao fim, Caetano Veloso ofereceu-nos um “Abraçaço” que confirma a sua criatividade e o seu génio. Mas há também outros grandes discos - “Blunderbuss” de Jack White, “Idler Wheel....” de Fiona Apple, “Sun”, de Cat Power. No jazz gostava de recordar “The Cherry Thing” de Neneh Cherry, “Ode” de Brad Mehldau. Por cá, Orelha Negra, Wray Gunn, António Zambujo e Ana Moura foram os portugueses cujos discos mais me fizeram vibrar neste ano de 2012, mas há várias bandas novas, a despontar, que merecem atenção. Bem vistas as coisas, os mais antigos deram uma boa prova de vida, mas a música popular, nas suas várias vertentes, continua vibrante. Muito do que este ano ouvi já não foi em suporte físico - foram discos comprados no iTunes, por impulso, no momento, porque me apetecia descobri-los. Conseguir tê-los tão facilmente mostra também a mudança que vivemos.

FOLHEAR - O que li este ano? Alguns policiais, alguns livros de História, e, claro, muitas revistas e jornais. O kindle e o iPad mudaram de facto a minha vida. Agora vou descobrindo os novos policiais graças ao Kindle e vou folheando revistas e jornais no iPad - algumas descubro em agregadores como o Zite ou o Pulse, que me permitem estar mais informado que pensava possível. Volto e meia descubro também alguma coisa no Twitter. Divirto-me com prazer com  boas edições digitais como a da “Wired”, ou a “Intelligent Life”, mesmo que os seus efeitos sonoros inesperados provoquem sobressaltos no dormir de outrem - problemas de quem gosta de ler na cama. Mas não desprezo boas surpresas em papel como a Monocle, que continua a ser um exemplo e uma referência, a portuguesa “Egoísta” e, se tiver que escolher um livro em papel, vou pelo álbum do ano, que é o LX 60, uma viagem a Lisboa na década de 60.

VER - A Estação Imagem, de Mora, fruto do entusiasmo do fotojornalista Luis Vasconcelos, merece destaque este ano - pela persistência do seu trabalho, pela forma como tem divulgado a fotografia, como tem promovido exposições e edições, como tem estado activa e presente, sem beneficiar nem de financiamentos extraordinários nem de recorrer a lamechices na praça pública. O seu lema, bem presente no site, é uma frase de W. Eugene Smith: “Nunca encontrei limites ao potencial da fotografia”. Nos dias que correm é engraçado vermos como as novas formas de fotografia, como o Instagram, provocam adesão e polémica, como a vulgarização da fotografia digital permite tornar ainda mais realidade o facto de ela ser a forma de expressão visual mais democrática, no sentido de ser acessível a todos. Da mesma forma que com os sms, os messenger, os emails e o Facebook a escrita voltou a ganhar um lugar na comunicação, a fotografia, a imagem fixada do instante, a forma de ver, voltaram a estar na ordem do dia. Esta organização, que hoje destaco, chama-se “Estação Imagem” porque a sua sede é numa antiga estação de caminhos de ferro, entretanto desactivada, em Mora. É de lá que ela irradia actividade, como uma bem visivel em Lisboa, agora por estes dias: na Fábrica de Braço de Prata está a participação portuguesa no projeto Aday - 15 fotógrafos visitaram - documentando-o - um dia na vida de mulheres em Portugal. Dali nasceu um livro e uma exposição. Eu gosto de quem, no meio da crise, encontra espaço para trabalhar e fazer - sejam canções, discos, livros, revistas ou exposições. Apesar do Estado, muitas vezes contra o Estado, tudo isto existe.

PROVAR - Ao pé do escritório onde trabalho, nas Avenidas Novas, fecharam nos últimos meses meia dúzia de restaurantes. Alguns tinham aberto há menos de um ano, eram tentativas, algumas bem engraçadas, de criar pequenas empresas que geravam meia dúzia de empregos. Nasceram no momento errado e não sobreviveram. Em alguns deles passei bastantes almoços solitários este ano - uma experiência que gosto de ter, a olhar para os sítios e as pessoas que os frequentam, a provar o que nos põem na mesa. A vida dos restaurantes é dura - um dos livros que me divertiu e educou nestas férias foi “Cozinha Confidencial” de Anthony Bourdain. Depois de o ler passei a olhar para os restaurantes e para quem lá trabalha de outro modo. Por isso mesmo, nestes tempos em que fecham restaurantes, apetece-me elogiar quem se mete a essa aventura, num projecto que ao fim de poucos meses ganhou logo uma estrela Michelin. Não é que eu ligue muito a estas condecorações - mas reconheço que José Avillez e o seu Belcanto merecem elogios - pela coragem de um investimento destes nesta altura, mas também pelo cuidado posto para que cada cliente se sinta especial. E porque lá se come de facto muito bem.

GOSTO -  Dos que, em todas as áreas, se esforçam por criar ou manter empresas, postos de trabalho e actividade, apesar de tudo o que o Estado inventa.

NÃO GOSTO - Do estado da Justiça, da banalidade com que a responsável do Departamento de Investigação e Acção Penal considera que não se conseguem combater as fugas de informação.

BACK TO BASICS- “Eis ao que leva o intervencionismo do Estado: o povo converte-se em carne e massa que alimenta o simples artefacto e máquina que é esse Estado” - José Ortega Y Gasset

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