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por falcao, em 06.12.03
A ESQUINA ESCRITA ESTA SEMANA



O QUE SÃO POEMAS?





Palavras que se juntam e que exprimem mais emoções que razões, que mostram mais o sentir que o resumir – será isto uma aproximação ao que pode ser a poesia? Ou devemos apenas esperar que apenas aquilo que lemos pode ser poesia? E será a exist~encia de palavras uma condicionante da poesia?

No meio de tudo o que é efémero, qual o lugar das canções que atravessam os tempos e perduram nas memórias? São produtos menores ou encerram em si o valor dos sonetos publicados em edições de autor manhosas de há cem anos atrás e que com o correr dos anos ganharam o estatuto de obras-primas?

Defendo desde há uns anos um princípio sobre a escrita contemporânea que gostava hoje de partilhar: é minha convicção profunda que alguma da melhor poesia (e, em certa medida, narrativa) do último meio século se encontra nas letras de canções pop e rock. Mais: acho convictamente que as palavras das canções de Bob Dylan, dos Rolling Stones, de Bruce Springsteen, de Neil Young, de Prince, de Tom Waits, dos Smiths, dos Joy Division, de Beck, de Enimen, dos Mind da Gap, de Sam The Kid, de Jorge Palma, de Sérgio Godinho ou de Mafalda Veiga e Carlos Tê representam o melhor retrato do tempo em que foram feitas. São por si sós pequenos contos ou poemas, agora apenas apreciados como acessórios de melodias mas que o tempo encarregará de preservar na dimensão literária que têm.

Os novos declamadores são os cantores, os autores que cantam o que escrevem, que descrevem o que se passa à sua volta, que mostram o que sentem ou querem fazer sentir. São eles que nos emocionam, que marcam a nossa memória, que balizam as épocas e gerações. As nossas vidas são marcadas por canções públicas, por frases que nos tocaram e ficaram gravadas na memória, por palavras que as mais das vezes foram ouvidas e nunca lidas. Há poucos poemas de amor como «Reel Around The Fountain» dos Smiths, poucas histórias de arrebatamento como «Paixão» de Rui Veloso, poucos episódios de sedução como «Vestígios de Ti» de Mafalda Veiga, poucos manifestos como «The Times They Are A Changin’» de Bob Dylan ou «Street Fighting Man» dos Rolling Stones, poucos gritos como «O Primeiro Dia do Resto das Nossas Vidas» de Sérgio Godinho. Há muitos nomes que ficam a faltar nesta lista mas deixo a cada um de vós o encargo de contribuírem com mais uma sugestão para aesquinadorio@hotmail.com, endereço para que vos peço o envio dos nomes das canções que são os vosso poemas preferidos.

No último meio século as décadas são marcadas por momentos saídos da música e do cinema – mas são as melodias que mais reflectem os ritos tribais da comunhão de sentimentos; os cortes geracionais são feitos em torno de estrelas pop e rock e das canções que se tornaram hinos, que marcam anos e viragens, dos grandes festivais rituais feitos em torno das músicas.

Falemos também de amor: nunca ele foi tão bem descrito como em canções, desde os clássicos de Cole Porter e Irving Berlin até Prince, passando por Springsteen ou Ian Curtis. É impossível ficar insensível às palavras de «Love Will Tear Us Apart», essa previsão fatalista e tão real do que é o desenlace dos grandes romances, da mesma forma como não se pode resistir à tentação que Chris Isaac descreveu em «Wicked Games».

Quanta gente continua a ler poesia e quanta gente a ouve e interioriza? E quantos se recordam das palavras, das rimas que ficaram presas a melodias que não nos largam nunca mais? Muita da melhor escrita está na música, está nestas letras que ficam gravadas nas nossas memórias e que nos ajudam a recordar como os tempos estão a mudar.



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