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9/11 - O DIA EM QUE O MUNDO MUDOU

por falcao, em 10.09.21

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O DIA 11 - Estava a meio do almoço, perto do sítio onde trabalhava, a Valentim de Carvalho, em Paço de Arcos. No restaurante do então novo Centro Comercial, uma televisão ligada dava notícias, sem som. De repente, vejo um avião a colidir com um prédio. Continuei a almoçar, mas fiquei intrigado. Pensei com os meus botões que talvez fosse o trailer promocional de algum filme novo de Bruce Willis. Mas, um pouco depois, há um sobressalto no estúdio e entram imagens em directo da CNN na emissão da SIC Notícias. Há um segundo avião a embater noutro prédio, ao lado do primeiro, a essa hora já semi destruído. Não queria acreditar no que estava a ver. Eu e outros pedimos ao restaurante para colocar som, e percebemos, então o que se estava a passar. Nem queríamos acreditar. Paguei rapidamente e saí. No Centro não se falava de outra coisa - em todas as lojas onde havia televisores nas montras, estavam ligados à mesma imagem. A essa hora já sabia que tinham sido as torres gémeas de Nova Iorque o alvo do ataque, era visível que ambas estavam destruídas e sabia-se que havia um número enorme de mortos. Quando cheguei ao escritório estava toda a gente alvoroçada. Pus-me na minha sala a procurar canais e mais notícias. A net era ainda incipiente, a informação mais rápida vinha pela televisão ou pela rádio. A TSF não parava. Foi chegando gente àquela sala, improvisado palco de últimas notícias. Nessa tarde, numa conversa com o Francisco Vasconcelos, ainda hoje à frente da empresa, o tema foi só um, e dito por ele: “hoje o mundo mudou e nada vai ser igual”. O que o Francisco então disse confirmou-se em cheio. A fotografia do início destas duas páginas é do memorial construído no local onde estavam as torres destruídas, e fotografei-o numa viagem a Nova Iorque em 2014, três anos depois de ter sido inaugurado. É um local impressionante, os nomes dos mortos esculpidos na pedra. Ninguém se pode esquecer. Naquele dia, percebemos que a guerra pode chegar aos nossos pés, de uma forma sistemática e financiada como nunca antes tinha acontecido. A forma de encarar as viagens, de entrar nos aeroportos, de olhar para as outras culturas, nunca mais foi a mesma.



DESFOLHADA - Em 1 de Janeiro de 2001 começou o terceiro milénio da nossa era; George W. Bush tomou posse como Presidente dos Estados Unidos; a doença das vacas loucas alterou hábitos de alimentação; em Abril aviões dos Estados Unidos e Reino Unido bombardearam posições no sul do Iraque; Tony Blair foi reeleito Primeiro-Ministro do Reino Unido; a 11 de Setembro um ataque reivindicado pela Al Qaeda, dirigida por Osama Bin Laden, destruiu as torres gémeas do World Trade Center de Nova Iorque; nesse dia nos Estados Unidos 19 terroristas sequestraram quatro aviões comerciais de passageiros, colidiram dois contra as Torres Gémeas, um contra o Pentágono, em Washington,  e o quarto caíu na Pensilvânia; quase três mil pessoas morreram nestes atentados, incluindo os 227 civis e os 19 sequestradores que estavam nos aviões; a esmagadora  maioria eram civis de mais de 70 países, incluindo cinco portugueses; a 7 de Outubro os Estados Unidos iniciaram uma operação militar no Afeganistão intitulada “Liberdade Duradoura”; em Novembro foi lançado o primeiro o filme “Harry Potter e a Pedra Filosofal”, o primeiro da saga; em Dezembro nasceu Billie Eilish; o prémio Nobel da Literatura foi atribuído a V.S. Naipaul;  em Portugal, nas eleições autárquicas de 16 de Dezembro 2001 o Partido Socialista perdeu 14 câmaras, em comparação com as eleições anteriores e o PSD ganhou concelhos como Lisboa, Porto e Coimbra, entre outros; na sequência do resultado das Autárquicas o Primeiro Ministro António Guterres demitiu-se, provocando legislativas antecipadas no ano seguinte; em 14 de Janeiro de 2001 Jorge Sampaio havia sido reeleito Presidente da República; a 4 de Março ruiu a ponte Hintze-Ribeiro, em Entre-os -Rios, causando 59 mortes; em 2001 o Boavista foi o Campeão Nacional de futebol pela primeira vez na sua história. 

 

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UM LIVRO EMOCIONANTE - Se fizerem uma busca sobre livros escritos na sequência dos atentados de 9 de Setembro de 2001, um dos que mais aparece bem recomendado é datado de 2019, bem recente portanto. Chama-se “Fall And Rise” e o seu autor, Mitchell Zuckoff, era em 2001 repórter do Boston Globe, um dos jornais de referência norte-americanos. O seu trabalho, na sequência do atentado, reconstruiu os momentos do ataque, evocou as vítimas e testemunhou o sofrimento das famílias. O autor demorou anos a conseguir reconstituir o puzzle de informações que recolheu para construir uma narrativa linear, e apaixonante, do que aconteceu a 9 de Setembro de 2011 em Nova Iorque, no Pentágono e na Pensilvânia. O livro fala dos mortos, mas também dos sobreviventes, cheio de histórias das pessoas que foram afectadas pelos acontecimentos dessa terça- feira, de Setembro de 2001. Há histórias como a de um actor que ficou preso num elevador na torre norte do World Trade Center, os heróis do vôo 93 que decidiram agir e impediram outro atentado, provocando a queda do avião numa zona não habitada da Pensilvânia ou a do veterano de diversas guerras que ficou encurralado no Pentágono. Este é de facto um retrato especial do 11 de Setembro, feito à distância, mas que permite olhar de novo para os acontecimentos, com a clareza que o distanciamento proporciona mas também com a emoção que os relatos evocados trazem ao virar de cada página. Esta é a história de pessoas vulgares num dia invulgar e terrível da nossa História recente. Pode encontrá-lo na Amazon, edição de capa dura com 624 páginas. Está disponível igualmente em versão para Kindle. 

 

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UM QUARTO COM VISTA  - Rita Barros é uma fotógrafa portuguesa que vive em Nova Iorque e testemunhou e fotografou o ataque às torres gémeas. Em Novembro de 2002 apresentou no Porto, no Centro Português de Fotografia, a exposição “Um Ano Depois” (cujo cartaz aqui se reproduz). Depois a exposição seguiu para o Centro de Artes e Espectáculos da Figueira da Foz, de 5 de Abril a 1 de Junho de 2003. Em Novembro de 2001 a Câmara Municipal de Lisboa promoveu a exposição colectiva “Tributo a Nova Iorque” nos Paços do Município, na qual estavam incluídas algumas das imagens de Rita Barros. Ao longo dos anos Rita Barros tem fotografado, da sua janela - a partir da qual fez as primeiras imagens do ataque - a evolução da linha do horizonte e o semanário “Expresso” publicou em 2012 um artigo onde surgiam as fotos de 2001 e as que que Rita Barros fez em 2011. Também a revista do Correio da Manhã publicou uma foto tirada por ela da sua janela com as torres a arderem e o mesmo enquadramento em 2011 e 2021. Rita Barros vive em Nova Iorque desde 1980, onde estudou e agora ensina fotografia na New York University. Um dos seus trabalhos mais importantes pode ser visto na exposição “Room 1008: The Last Days”, que até 10 de Outubro está patente no Centro Cultural de Cascais, Fundação D. Luís. 1008 é o número do quarto onde vive desde 1984 no famoso Chelsea Hotel. “Room 1008: The Last Days”  prossegue o trabalho apresentado em anos anteriores e inclui uma série de impressões fotográficas e um livro em forma de acordeão. A esta série, juntou-se, especificamente para esta exposição, um conjunto de pequenos vídeos realizados durante os forçados confinamentos que a pandemia impôs a todos.

 

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CANÇÔES DE RESISTÊNCIA - Dezenas de músicos e cantores fizeram e interpretaram canções que têm por pano de fundo os atentados de 11 de Setembro de 2001 e a forma como eles alteraram as nossas vidas e, em especial, mudaram Nova Iorque. Entre todos eles gostava de destacar “I Can´t See New York”, de Tori Amos, em 2002, uma canção em que  ela descreve a surpresa de um passageiro que ao chegar a Nova Iorque de avião não consegue localizar o World Trade Center. 50 Cent gravou “Patiently Waiting” em 2003 e em 2004 os Beastie Boys gravaram “An Open Letter to NYC”. A primeira canção que se conhece sobre o tema, de 2001, foi “Song For The Lonely”, de Cher.  Em 2004 Leonard Cohen escreveu “On That Day”, os Coldplay em 2002 gravaram “Politik” e logo a seguir os Eagles fizeram “Hole In The World”. Paul McCartney com “Freedom” e Sheryl Crow com “God Bless This Mess” e os Cranberries com “New New York” são outros nomes que evocaram os atentados na sua música. No álbum “The Rising” (na imagem), Bruce Springsteen incluíu nove temas relacionados com o atentado, entre os quais a faixa título, mas também “You’re Missing”, “Into The Fire”, “Empty Sky” ou “Lonesome Day”, entre outras. No Spotify há uma lista intitulada “9/11- songs about nine eleven” onde podem ouvir muitos destes temas.

 

E A COMIDA? - Os americanos fazem inquéritos sobre tudo - até sobre as alterações de hábitos alimentares ocorridos após os atentados de 11 de Setembro. Pois a conclusão é simples: cresceu em 15% o consumo daquilo a que se convencionou chamar "comfort food”, cozinhados simples mas com capacidade para saciar o apetite, muitas vezes baseados em receitas tradicionais. E cresceu, também, em 15%, o consumo de doces e sobremesas. O resultado: um em cada dez norte-americanos ganhou peso nos dois meses seguintes. Mas nos dias a seguir aos atentados, com extensas zonas do centro de Nova Iorque interditas e abastecimentos complicados, houve momentos emocionantes como os carros de venda na rua que alimentaram gratuitamente os bombeiros, os delis que levavam sanduíches de pastrami aos que estavam a trabalhar na busca de feridos, as pizzerias que entregavam aos que estavam a trabalhar na zona do desastre. Foi a comida de rua que alimentou as equipas de socorro, a mesma que cada vez que vamos a Nova Iorque é uma tentação - seja um pretzel gigante, um hotdog ou uma deliciosa sanduíche de pastrami, de longe a minha preferida.

 

DIXIT - “Se não aprendermos mais nada com esta tragédia, retenhamos que a vida é curta e que não há tempo para o ódio” - Sandy Dhal, mulher de Jeff Dahl, que pilotava o vôo 93.

 

BACK TO BASICS - “Aquilo que nos distingue dos animais e nos separa do caos é a nossa capacidade para sofrermos em relação a pessoas que não conhecemos” - David Levithan

 

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