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O PAGADOR DE PROMESSAS - Esta quinta-feira de manhã, ao acordar, olhei para o espelho e sabem o que vi? Apesar da gripe não foram os olhos um pouco congestionados que me chamaram a atenção; o que vi ao espelho foi um pagador de promessas, um bombo da festa da colecta de impostos, taxas e taxinhas, directos e indirectos. Cada vez que alguém no Governo se lembra de anunciar uma nova medida, vem logo aí mais despesa. A receita vem sempre do mesmo sítio: pôr cada um de nós a pagar mais. E foi assim neste suave enlevo que ficámos a saber que não estamos em campanha eleitoral. Quem o veio jurar foi o Primeiro Ministro António Costa numa das cerimónias em que tem assinado contratos de milhares de milhões para obras e aquisições diversas, todas encadeadas na mesma semana. Num rasgo de génio o Primeiro Ministro apresentou.-se numa das encenações, o contrato para construção do aeroporto no Montijo, como o homem providencial que toma decisões que deviam ter sido tomadas há 50 anos. Depois, numa cerimónia das obras previstas para o Metro de Lisboa, garantiu que a ideia de que estes eventos estão ligados ao facto de existirem eleições este ano é uma calúnia de gente mal intencionada e desmentiu qualquer intenção eleitoralista no que tem andado a fazer desde que o ano começou e Centeno o autorizou a abrir os cordões à bolsa - de tal maneira que agora até se fala em acabar com as propinas no ensino superior. A verdade é esta, como escreveu por estes dias Manuel Villaverde Cabral: “Se o governo não paga, o PS não recebe os votos; e se paga, é a economia que se ressente,”

 

SEMANADA - A taxa de utilização dos cheques dentista não chega aos 70%; a dívida do Serviço Nacional de Saúde disparou mil milhões em três anos; os hospitais do serviço nacional de saúde apresentam prazos máximos de resposta aos pedidos de consultas acima do previsto por lei; há casos de esperas superiores a mil dias em primeiras consultas nas especialidades de cardiologia e urologia; há 45.563 idosos a viver sozinhos ou isolados em todo o país; em 2017 o desperdício de água agravou-se em metade dos concelhos do país e o volume de perdas seria suficiente para encher 281 piscinas olímpicas por dia; segundo a Bloomberg a TAP é a companhia aérea com mais atrasos no mundo; cerca de sete milhões de passageiros sofreram perturbações em vôos com partida de Portugal em 2018, como consequência de atrasos ou cancelamentos de 34% das ligações; o governo aumentou o imposto “do carbono” quatro dias depois de baixar o imposto dos combustíveis; o Portal da Queixa recebeu, entre janeiro e dezembro de 2018, em média 250 reclamações por dia (perto de 90 mil ao ano; os bancos vão ser obrigados a comunicar ao fisco as contas bancárias com saldo superior a 50 mil euros, depois da aprovação no Parlamento de uma proposta com  votos a favor de PS, BE e PCP; o ministro dos Negócios Estrangeiros atacou a OCDE porque este organismo internacional atreveu-se a aconselhar um reforço de meios humanos e legislativos de combate à corrupção, tal como já fez com outros países.

 

ARCO DA VELHA - As obras no Liceu Camões, em lisboa, previstas para se iniciarem em Agosto de 2011, no âmbito do plano de modernização da Parque Escolar, ainda não se iniciaram e a ruína do edifício agravou-se.

 

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UM DIÁRIO - Ler o diário de alguém é sempre descobrir uma intimidade. Entrar no diário de um escritor é uma descoberta ainda maior - os desabafos do dia-a-dia,  as dúvidas sobre o que se está a escrever, as hesitações no esboço dos capítulos. Neste segundo volume do “Diário” de Virginia Woolf é apanhado o período entre 1927 e 1941, um dos mais criativos da sua vida durante o qual ela se afirmou definitivamente como escritora e que coincide com a publicação de algumas das suas obras mais importantes como “Rumo Ao Farol”, “Orlando” ou “Um Quarto Que Seja Seu”. A certa altura ela relata que escrever o diário é o que lhe dá oportunidade de escrever com uma caneta, já que quase tudo o resto era escrito - ou reescrito -  à máquina. É fascinante ver como Virginia Woolf viveu este período, é uma viagem ao seu processo criativo, mas também às suas dúvidas pessoais sobre a vida e sobre a morte, as suas reflexões sobre a importância das artes - em consonância com o Grupo de Bloomsbury, de que foi uma das impulsionadoras.

 

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ESPREITAR - Nas próximas semanas há muita coisa para ver nas galerias lisboetas - recomeçou a actividade depois do período de fim de ano. Vou começar pela Módulo (Calçada dos Mestres 34A), onde quinta-feira inaugurou uma exposição de Marco Moreira, “O meu fazer, cogita a tua percepção de ver”, que resultou do trabalho efectuado durante quatro meses numa residência artística na La Térmica, Centro de Cultura Contemporánea de Málaga. No sábado a Galeria Diferença assinala os seus 40 anos de actividade com uma colectiva onde estão representados mais de 50 nomes incontornáveis da arte contemporânea portuguesa e que em algum momento estiveram ligados a este espaço. As celebrações começam pelas 16h00 na Rua de S. Felipe Nery 42. Na próxima semana inaugura dia 17  a nova exposição da Galeria Belo-Galsterer (Rua Castilho 71 R/C esq), que apresenta trabalhos de Rita GT com (Re)membering / (For)getting, e Renzo Marasca com "From Night to Dawn". Se por acaso fôr a Nova Iorque nos próximos tempos não perca a exposição que o Whitney Museum dedica a Andy Warhol com  mais de 350 obras que abrangem quatro décadas, mostrando a evolução de uma carreira, desde os desenhos de estudante até aos anos 80.

 

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AQUELA COISA DA IDADE - Um dia destes dei comigo a pensar que a idade já não é o que era. Vou traduzir isto por miúdos: hoje em dia ouço com prazer novos discos de músicos que comecei a ouvir há uns 40 anos - de Dylan a Springsteen, passando por Neil Young para citar só os mais evidentes. Com quase 70 anos Springsteen cantou a história da sua vida, todos os dias durante um ano, num teatro da Broadway, sozinho em cima do palco e aos 80 anos o saxofonista Charles Lloyd fez um dos seus mais marcantes discos ao lado de Lucinda Williams, que tem agora 65 anos. Aos 82 anos Robert Redford desempenhou um dos melhor papéis da sua vida em “O Cavalheiro Com Arma”, ao lado de uma magnífica Sissy Spacek com 69 anos;  Michael Douglas, aos 74 anos, imaginou e actuou numa fantástica série de televisão, da Netflix, chamada “O Método Kominski”. Assisti ao nascimento e ao desenvolvimento das carreiras destes músicos e destes actores - que de alguma forma são lendas do espectáculo, tal como os Rolling Stones que continuam a tocar como se não houvesse amanhã. Na realidade ninguém diria que a cultura pop, nas suas várias vertentes, saída dos anos 60, tivesse protagonistas com esta durabilidade. Mas a verdade é que é isso mesmo que acontece. A actividade de todos eles é a prova de que aquela coisa da idade já não é o que era. Ainda bem. Já agora: Tintim fez 90 anos e continuo a ler as suas aventuras com gosto.

 

PROVAR - Nunca fui à Arménia e a minha relação com esse país é sobretudo feita através do facto de Calouste Gulbenkian ter sido Arménio (a propósito surgiu uma nova biografia que parece ser muito interessante). Há uns dois meses abriu o Ararate, um restaurante arménio nas Avenidas Novas onde no menu surgem pratos como Khorovats, khachapuri, hamest taty e choban. Não por acaso o restaurante fica muito próximo da Fundação Gulbenkian. Traduzido por miúdos o que se pode encontrar anda à volta de guisados, estufados, espetadas e ensopados, tudo com legumes frescos, carnes diversas e peixes como o esturjão. Para contornar a dificuldade linguística o menu traz uma minuciosa descrição e imagens - e o pessoal de sala é atento e bem informado, esclarecendo as dúvidas existentes. A carne de borrego é amplamente proposta, muitos pratos são cozinhados a baixa temperatura, o recurso a especiarias no tempero é regra, há um menu de almoço a preço competitivo, a sala é ampla, arejada e bem iluminada e a garrafeira razoável a precisar de moderar os preços nalguns casos. Mas quem não gosta de borrego está bem defendido por propostas de outras carnes, nomeadamente de vaca e vitela. Quem quiser começar por petiscar tem um fumado muito interessante, o basturma, no meio de uma bem servida tábua de enchidos que acompanha com matnakash, pão fermentado. O tipo de cozinha proporciona que se faça uma partilha de petiscos - por exemplo de espetadas. O nome do restaurante, Ararate, vem  da mais alta montanha da Turquia, mas local sagrado para os arménios e onde os cristãos acreditam ter encalhado a Arca de Noé após o Dilúvio . Avenida Conde Valbom, 70, reservas 925 451 509.

 

DIXIT - O populismo consubstanciou-se numa chamada telefónica - lido no facebook

 

BACK TO BASICS -"A liberdade de cada um termina onde começa a liberdade do outro.", atribuída ao filósofo inglês Herbert Spencer

 

 

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publicado às 13:00

NÃO SEI EM QUEM HEI-DE VOTAR

por falcao, em 04.01.19

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VOTAR EM QUEM?  - Este ano há duas eleições - as europeias e as legislativas - e confesso que não sei em quem votar nem num caso, nem noutro. Partilho há muito da preocupação do Presidente da República, que, na sua mensagem de Ano Novo, pediu “políticas e políticos mais credíveis”. Marcelo percebeu bem que cresce a desconfiança em relação aos partidos. Mas não é só uma desconfiança em relação aos seus dirigentes e aparelhos, é ao que eles representam e ao modo como funcionam. Num passo interessante da sua mensagem o Presidente da República, falando da constituição das listas eleitorais, apelou a que os candidatos analisem com cuidado o percurso passado. Lembrei-me particularmente desta frase quando constatei que uma das novas forças políticas que irá já a votos nas Europeias escolheu para seu cabeça de lista Paulo Sande, um indefectível de Bruxelas e dos seus organismos (dirigiu o Gabinete do Parlamento Europeu em Lisboa durante oito anos e é professor da Construção Europeia na Universidade Católica). Nem esta Aliança aproveitou a oportunidade que a sua tenra idade lhe dá para se demarcar do caos da União, da Comissão Europeia e do seu Parlamento - que no conjunto são uma das maiores fontes de desconfianças e descréditos entre muitos eleitores de vários países. Ao proceder assim o novo partido entregou o território anti-Bruxelas a populistas que surjam à espreita do descontentamento com a política agrícola e de pescas, com a política monetária, com o processo de decisão. O muro de Berlim caíu há 30 anos, mas o muro de Bruxelas está cada vez maior. E, no momento em que se olha para o que se passará com o Brexit, na cena política portuguesa não há no centro direita quem diga que o rei vai nu, despidinho de todo. Não me apetece nada votar nesta Europa e não sei em quem hei-de votar. Por este andar a abstenção só pode aumentar.

 

SEMANADA - O número de mortes em acidentes rodoviários em 2018 foi o mais alto dos últimos 22 anos; mais de 300 condutores foram detidos por excesso de álcool durante a operação de fiscalização do Ano Novo; o endividamento na compra de automóvel cresceu para níveis anteriores à intervenção da troika e já atingiu 6,1 mil milhões de euros; a dívida pública aumentou 400 milhões de euros em novembro, face a outubro, para os 251,48 mil milhões de euros, atingindo um novo recorde; os organismos públicos gastaram em 2018 pelo menos 15,1 milhões de euros na aquisição de bens e serviços para as festas de Natal e do fim de ano; segundo a Marktest 45,4% dos portugueses que têm conta bancária utilizam Internet Banking, com um valor de 66,6% entre os indivíduos dos 25 aos 34 anos e 76,8% na classe alta/média; em 2017 nasceram mais 1107 bebés que no ano anterior, mas o índice de natalidade continua baixo; quatro mil psicólogos e nutricionistas candidataram-se a 80 vagas no SNS; com uma mensagem de oito minutos no YouTube, fortemente crítica para António Costa, Santana Lopes iniciou a campanha eleitoral da sua Aliança: “o sr. primeiro-ministro vive num país diferente daquele em que eu vivo”; André Coelho Lima, um porta-voz social democrata, afirmou que “O PSD tem resistido - e vai continuar a resistir - a dizer mal de tudo”; o Governo anunciou um novo plano de obras públicas quando falta fazer 80% do anterior.

 

ARCO DA VELHA - O inquérito do Ministério Público aos 100 maiores devedores da Caixa Geral de Depósitos foi aberto em 2016 mas continua sem qualquer arguido constituído, apesar das suspeitas de gestão danosa na atribuição dos financiamentos, com créditos em incumprimento que ascendem a 2,5 mil milhões de euros.

 

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O ALMANAQUE - Todos os anos repito o ritual logo no início de janeiro - compro o “Borda D’Água”, que se intitula como “o verdadeiro almanaque”, com “reportório útil a toda a gente”. Umas vezes compro-o na rua, outras vezes numa  banca de jornais - foi o que aconteceu este ano e aí ouvi o experiente ardina dizer-me que “já houve anos em que voava, mas hoje já não se vende muito”. O “Borda D’Água” completa agora 90 anos, é editado desde sempre pela Editorial Minerva e tem 24 páginas, com uma tiragem de 100 mil exemplares. Em cada mês tem indicações sobre a hora do nascer e pôr do sol, as fases da lua ao longo dos dias, assim como os santos evocados diariamente ao longo do mês. A folha mensal inclui um oráculo, com recomendações para homens e mulheres, assim como indicações sobre agricultura e jardinagem. Há ainda um mapa de feriados, uma recolha de ditos populares, um quadro com as fases da lua ao longo de todo o ano, tabela de marés, eclipses (em 2019 haverá cinco…), a visibilidade dos planetas e a entrada da lua nos signos do zodíaco, além de um calendário de festas e feiras que se realizam, mês a mês, por todo o país. Este ano de 2019 é regido por Marte “trazendo consigo sentimentos competitivos e de conquista” - indicação que se pode ler na última página onde, além deste Juízo do Ano se pode ler como nasceu e cresceu o “Borda D’ Água”, desde que surgiu há 90 anos pela mão de Manuel Rodrigues, fundador da Minerva, antigo impressor gráfico.

 

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ARTE NA RUA - Volta e meia a arte desce à rua, ao espaço público, e essa é sempre uma boa ideia. Por estes dias, mas por pouco tempo, ainda poderá ver uma fotografia de Jorge Molder, ampliada para grande dimensão (12x15 metros) na fachada do edifício da LACS, junto à Rocha do Conde de Óbidos, na empena virada para a Avenida 24 de Julho e que ali está exposta há cerca de seis meses (na imagem). Trata-se de uma iniciativa que o pólo criativo pretende repetir ao longo do tempo. A fotografia exposta faz parte da série “A Origem das Espécies”, foi escolhida por Sandro Resende, curador e um dos fundadores do projecto de arte pública contemporânea BillBoard, que procura ocupar o que normalmente são espaços publicitários, usando-os como suporte de obras de arte, e que já realizou intervenções em Lisboa, Porto e Faro. Quando a fotografia criada por Jorge Molder sair daquele local (podendo eventualmente ser resposta noutro sítio) será substituída por uma peça de Pedro Cabrita Reis.

 

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SONS SEM RIVAL - “Vanished Gardens” é  um dos discos que mais me surpreendeu em 2018, e que só descobri já o ano ía muito adiantado. Vem assinado por uma junção inesperada: a voz de Lucinda Williams com Charles Lloyd & The Marvels ( Bill Frisell na guitarra, Greg Leisz na pedal steel guitar, Reuben Rogers no baixo e Eric Harland na bateria). Tudo nasceu quando a tradição country e pop de  Lucinda Williams se cruzou com as sonoridades de blues e de jazz de Lloyd e dos seus músicos num concerto realizado na Universidade de Los Angeles em Abril de 2017. Meses depois num estúdio, também em Los Angeles, juntaram-se para gravar “Vanished Gardens”. Aqui e ali há influências de gospel, de folk, mas também de rock - um cocktail da música popular americana. “Dust”, o segundo tema do álbum e o primeiro em que Williams canta, é de uma enorme intensidade e um exemplo do diálogo entre a voz de Williams e o saxofone de Lloyd. Trata-se de uma versão de um original de Lucinda Williams, tal como “Ventura” e “Unsuffer Me”, também presentes neste disco que inclui ainda três originais de Lloyd, entre os quais a faixa-título. Em todo o disco é marcante o saxofone de Charles Lloyd, como aliás se testemunha na derradeira faixa, “Angel”, versão de um original de Jimi Hendrix. Disponível no Spotify. Já agora, Charles Lloyd tem tido ao longo da sua vida numerosas colaborações com a música pop e o rock e, de certa forma, este é testemunho disso mesmo. Edição Blue Note disponível no Spotify.

 

ÁSIA JUNTO AO RIO -  O Okah é um restaurante localizado no terraço do edifício do LACS, o pólo criativo localizado no antigo edifício do refeitório do Porto de Lisboa, junto à Rocha do Conde d’Óbidos. No mesmo terraço existe um bar e uma cafetaria, o Zazah - tudo criado a partir de um conjunto de contentores modificados que acolhem aqueles espaços. A primeira coisa é a vista extraordinária que dali se pode desfrutar. A segunda é a simpatia do serviço. E, por fim, quando chega a comida, percebemos que fizémos uma boa escolha. Apresentando-se como um restaurante de inspiração asiática, o Okah vai buscar ideias a várias gastronomias. Por exemplo uma das entradas mais procuradas é amêijoas à Bulhão Pato, que se diferenciam por levarem uma mistura de especiarias indianas. Na lista das carnes destaca-se um borrego neozelandês com puré de batata e molho de hortelã e um pica-pau asiático com lombo de novilho mal passado e cubinhos de ananás. Na lista do mar destaque para uma dourada grelhada com molho de tamarindo, sobre legumes, e para uns camarões tigres escalados com um molho aromático que salvaguarda o sabor da carne do bicho, dando-lhe um toque inesperado, acompanhado por um couscous muito bem temperado. Lista de vinhos mediana que podia ter preços mais razoáveis. Esperemos que este Okah não se estrague. Lista Telefone 914 110 791

 

DIXIT - “Mais um ano a empurrar os problemas para o futuro” - Nuno Garoupa

 

BACK TO BASICS - “A melhor forma de prever o futuro é participar na sua criação” - Abraham Lincoln.

 

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O ANO DE TODOS OS PERIGOS -  Quando a geringonça chegou ao poder proclamou alto e bom som que vinha acabar com a degradação da coisa pública. Mas este Governo, erguido em nome da defesa do Estado “contra os malefícios do liberalismo”, foi o que acabou por esvaziar o Estado de capacidade para dar resposta às necessidades dos cidadãos. É terrível vermos como passados três anos se constata que a lógica implacável da combinação da incompetência com a nova austeridade encapotada - a das cativações - atirou para o lixo a defesa dos serviços públicos: a educação, a saúde, a justiça, a segurança, os transportes e os equipamentos públicos degradaram-se continuamente; a coordenação entre serviços do Estado piorou, o desprestígio dos deputados e do Parlamento cresceu; o número de paralisações e greves com incidência na economia e no funcionamento de serviços essenciais aumentou; afinal, a geringonça fez o contrário do que prometia. Esta última semana do ano ficou marcada pela mensagem de natal de António Costa - um autêntico manifesto eleitoral, repleto de promessas em todas as áreas, garantindo um futuro radioso se nele votarem, escamoteando qualquer referência a problemas recentes. António Costa joga na maioria absoluta - e  na mesma semana o líder da CGTP anuncia que em 2019 “vamos ter um ano quentinho” de conflitos laborais. É engraçado como surgem ao mesmo tempo promessas desencontradas: António Costa promete novas auroras radiosas e o arauto do seu principal parceiro de geringonça promete um amanhã cheio de greves. E, para finalizar 2018, o Presidente da República deu um sinal vermelho ao Governo no caso dos professores. Este novo ano eleitoral promete ser o ano de todos os perigos.

 

SEMANADA - Uma operação do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras identificou 255 cidadãos estrangeiros em situação de exploração laboral, dos quais 26 eram vítimas de tráfico de seres humanos; segundo a segurança social o emprego cresceu à custa do trabalho precário; a greve na CP levou a que fossem suprimidos mais de 420 comboios no Natal;  em 2017 o número de pensões da Segurança Social voltou a cair ligeiramente  mantendo-se abaixo dos 3 milhões, um número que já não é superado desde 2013; nos últimos dois anos ocorreram mais de 700 acidentes devido à presença de animais soltos nas estradas; o número de alunos portugueses do secundário a escolher aprender o mandarim como língua estrangeira desce há dois anos consecutivos; o total de alunos no ensino superior privado subiu nos últimos quatro anos; em Portugal o número de pessoas que faz compras online cresceu 10% em 2018, totalizando agora 3,9 milhões; o novo recorde do Multibanco foi atingido às 12h00 de dia 24, tendo sido registadas 281 movimentos por segundo nas caixas automáticas e nos terminais de pagamento; Lisboa esteve três dias sem recolha de lixo no período de Natal, caso único nas capitais europeias.

 

PENSAMENTOS OCIOSOS - Se há limites temporais para uma série de cargos, porque não há limite para o número de mandatos nos sindicatos de professores e Função Pública e estão lá os mesmos há anos sem fim?

 

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O LABORATÓRIO DA FOTOGRAFIA  - Entre 1982 e 1994 funcionou na Rua Rodrigo da Fonseca a mais importante galeria dedicada à fotografia que existiu em Lisboa - chamava-se “Ether, Vale Tudo Menos Tirar Olhos” e foi criada por iniciativa de António Sena da Silva, figura controversa mas incontornável quando se fala de fotografia em Portugal. Começou por recuperar a memória do histórico livro “Lisboa, Cidade Triste e Alegre”, de Costa Martins e Vitor Palla, inaugurando a exposição “Lisboa e Tejo e Tudo” a 15 de Abril de 1982, com algumas imagens inéditas. Ao longo da sua existência a Ether mostrou no seu espaço ou em exposições que promoveu noutros locais, como Serralves e  Europália 91, nomes como Gérard Castello-Lopes, Paulo Nozolino, Daniel Blaufuks, António Pedro Ferreira, Carlos Calvet, Helena Almeida, José Loureiro, Augusto Alves da Silva, Carlos Afonso Dias ou Mariano Piçarra, entre outros. A Ether era formalmente uma associação sem fins lucrativos e nela participaram, com António Sena da Silva, Alfredo Pinto, António Júlio Aroeira, Leonor Colaço, Luís Afonso, Madalena Lello e José Soudo, na altura quase todos estudantes. Um novo livro “Ether: Um Laboratório de Fotografia e História”, de Susana Lourenço Marques, recorda e enquadra a época e recupera a história da galeria. É uma obra fundamental para perceber como nesses anos muito se modificou na forma de ver a fotografia em Portugal - e nisso, como este livro bem recorda - a Ether teve um papel fundamental.

 

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EMBAIXADA JAPONESA - Neste tempo de omnipresença da China na nossa paisagem económica, cultural e mediática sabe bem ver e retomar a relação com o país com quem, a Oriente, primeiro criámos laços - o Japão. Até final de Março do próximo ano está no Palácio da Ajuda, na Galeria do Rei D. Luís, a evocação dessa relação na exposição “Uma História de Assombro. Portugal-Japão Séculos XVI-XX”, comissariada por Alexandra Curvelo e Ana Fernandes Pinto. Entre  biombos, lacas, cartografia, manuscritos originais e armaduras,  peças de colecionadores particulares, de instituições públicas e privadas, portuguesas e japonesas, várias expostas pela primeira vez ao público, é narrada a história do encontro e reencontro entre Portugal e o Japão ao longo de cinco séculos. Uma história de aproximações, contendas, tratados, arte e diplomacia; de influências na arte, língua, culinária, religião e na história militar. É a segunda vez que o Japão tem honras no Palácio da Ajuda: há pouco mais de 150 anos,o rei D. Luís, recebeu na Sala do Trono os representantes do governo do Japão, que faziam um périplo pela Europa, passando pelos países com quem tinha reatado relações diplomáticas, no caso de Portugal interrompidas então há mais de 200 anos. Os portugueses, recorde-se, foram os primeiros europeus a chegarem ao Japão.

 

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O ALMANAQUE DO JAZZ - O nome de Norman Granz é capaz de não dizer grande coisa para a maior parte dos apreciadores de jazz. No entanto ele teve uma influência decisiva no desenvolvimento deste género musical e na carreira de muitos músicos e cantores. Entre meados da década de 40 do século passado e o início dos anos 60 esteve ligado a editoras como a Verve, a Clef ou a Pablo. Nascido em Los Angeles, fez a tropa durante a II Grande Guerra no departamento do exército americano responsável por organizar espectáculos para os militares. Quando a guerra terminou aproveitou os contactos e a experiência ganhas para organizar noites de jazz em clubes e, sobretudo para arriscar um grande concerto no auditório da Los Angeles Philharmonic, dando início à série Jazz At The Philharmonic com um grupo de músicos que foi variando ao longo dos tempos e que tocaram um pouco por todos os Estados Unidos. Foi com Granz que começou a carreira de nomes como Louis Armstrong, Nat “King” Cole, Ella Fitzgerald, Count Basie,, Stan Getz, Dizzy Gillespie, Billie Holiday, Anita O'Day, Charlie Parker, Oscar Peterson, Bud Powell, Buddy Rich, Ben Webster e Lester Young, entre outros. A Verve decidu agora homenagear Granz e editou uma colectânea de quatro CD’s, que se foca no período entre 1942 e 1960. São 44 temas, três horas e meia de música. O primeiro CD, de 1942 a 48, consiste sobretudo de gravações ao vivo; o segundo recolhe registos de 1949 a 1954, com destaque para o nascimento do trio de Oscar Peterson; o terceiro disco (1954 1 957) põe em confronto as vozes de Billie Holiday com a de Ella Fitzgerald e o quarto disco, de 1957 a 1960, explora o melhor do catálogo Verve desses anos. Este é um almanaque de uma idade de ouro do jazz.

 

RESTAURANTES HABITUAIS -  Bem feitas as contas não deve haver mais de uma dezena de restaurantes onde vou com frequência e prazer - e incluo todos os géneros e todas as gamas de preços. A uns vou porque sei que quero determinado prato que ali garantidamente é bom, a outros vou porque gosto de ser surpreendido com alguma novidade. Em todos gosto de escolher e não me agrada que escolham por mim - por isso abomino a mania dos menus de degustação. Há dias em que me apetece só umas entradas bem servidas, que as boas casas aceitam fazer como prato principal - por exemplo os ovos mexidos com túberas do Salsa & Coentros (onde também me delicio com as empadas e o arroz de lebre). No domínio do petisco tradicional poucas coisas batem os pastéis de bacalhau, pequenos, ricos de peixe, fritos no ponto, acompanhados por arroz de pimentos do Apuradinho. Nos dias mais carnívoros o meio bife do lombo grelhado no carvão, mal passado, só com batatas bem fritas, da Cervejaria Valbom é um paliativo revigorante. E se quero bons filetes de peixe galo o Polícia é sítio a ir, assim como para uma posta de garoupa bem grelhada o Manuel Caçador, ao Areeiro, é recomendável. Em matéria de croquetes ninguém bate o balcão do Gambrinus, o mesmo se podendo dizer da sanduíche de carne assada em pão de centeio. Já se quero um bacalhau fresco escalfado, lá vou à Bica do Sapato. Em matéria de pastas italianas a recomendação vai para o Bella Ciao, na Rua de S. Julião, e noutro registo italiano, para o clássico Casanostra. Em todos estes sítios claro que há outros pratos de que gosto - desde as iscas de leitão ao cozido ou à lampreia. Falta-me na lista um sítio com uma sanduíche variada e verdadeiramente espectacular - que continua a ser das coisas mais difíceis de encontrar em Lisboa.

 

DIXIT - “O último trimestre de 2018 fez avultar a sensação de corrida contra o tempo, em busca de metas antes ainda do período eleitoral, que se prolongará praticamente por todo o ano de 2019” - Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República.

 

BOLSA DE VALORES - “100 Years, 100 Artworks : A History Of Modern And Contemporary Art”, de Agnes Berecz,  pré-encomenda na Amazon UK por 28 Libras mais portes. O livro mostra um obra de arte por ano ao longo dos últimos 100 anos, desde 1919.

 

BACK TO BASICS - “Somos aquilo que decidirmos ser” - Ralph Waldo Emerson

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O ESTADO FALHOU  - Esta é a frase que sintetiza o ano que passou. Por mais que António Costa insista em clamar que só tem êxitos, a realidade mostra o contrário sobre o funcionamento do Estado: falhas nos comboios e em outros transportes, na protecção civil, na coordenação de serviços públicos, nos hospitais, em escolas, na justiça, na segurança, no Parlamento, nos disparates dos novos ministros da saúde e da cultura, nos numerosos casos de cativações que impedem serviços aos cidadãos que os pagaram nos impostos, impostos desviados para folhas salariais em vez de serem aplicados a garantir meios para que mortes sejam evitadas. António Costa vai entrar em 2019 em plena campanha eleitoral para as duas eleições (europeias e legislativas) do próximo ano sem querer  ouvir falar de Tancos e de Borba - dois exemplos do que vai muito mal no Estado a todos os níveis. O líder do PS encontrou uma caixa cheia de guloseimas quando chegou a S. Bento. Tem vindo a dar cabo delas e a deixar apenas os seus invólucros espalhados por onde passa. Da sua governação pode dizer-se que gastou onde não devia e poupou onde não podia.

 

SEMANADA - Em 2016 Portugal ocupava o 14º lugar europeu no PIB per capita, passou a 15º lugar em 2017 e a 16º em 2018; o Banco de Portugal reviu em baixa a previsão do crescimento do PIB este ano; no mês de Outubro os bancos concederam 640 milhões em empréstimos ao consumo; mais de metade do crédito ao consumo já é contratado diretamente nas lojas onde se fazem as compras;  Marcelo Rebelo de Sousa admitiu que no caso das operações de busca ao helicóptero do INEM “o Estado falhou”; Nuno Sá, deputado do PS, apagou a página do Facebook onde existiam videos e fotografias da sua campanha eleitoral em Famalicão, no dia 12 de Junho de 2017, a mesma data em que foi dado como presente no Parlamento; este ano já se registaram 173 greves na função pública; o turismo já representa 7,5% da economia e em 2019 deverão abrir 69 novos hotéis em Portugal; Lisboa duplicou a taxa turística para dois euros por noite, mesmo para residentes da cidade que precisem de pernoitar num hotel da capital; o diretor de material circulante da CP foi exonerado depois de ter discordado de uma decisão da administração da empresa que , na sua opinião, podia pôr em causa a segurança dos passageiros; o Presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público acusou o poder político de querer impedir o combate à corrupção.

 

SÓ PARA RECORDAR - Este ano Pacheco Pereira esteve do lado de Rui Rio na eleição para líder do PSD e do lado da Presidente do Conselho de Administração de Serralves no caso da interferência na exposição de Robert Mapplethorpe.

 

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LER AS BARRAGENS  - Em 2006 a EDP deu início ao projecto Arte e Arquitectura nas Barragens, um iniciativa que até agora envolveu o trabalho de José Rodrigues, Álvaro Siza Vieira, Eduardo Souto Moura, Graça Morais, João Louro, José Pedro Croft, Pedro Calapez, Pedro Cabrita Reis, Rui Chafes e Vihls. “Sobre A Paisagem - Arte nas Barragens Portuguesas” é o livro-álbum agora publicado pela editora AMAG e pela EDP e que recolhe  o trabalho fotográfico que André Cepeda foi fazendo sobre a relação entre as barragens, as obras dos artistas e a paisagem. No texto de introdução António Mexia sublinha a importância da intervenção artística nas barragens num país “onde os projectos de arte pública são escassos” e sublinha que “as regiões envolvidas ficam dotadas de um conjunto de artistas conceituados, visitáveis por todos” - no caso nas barragens da Venda Nova, Caniçada, Picote II, Bemposta, Baixo Sabor, Foz Tua e Alqueva. Aurora Carapinha aborda a necessidade da paisagem num texto acompanhado por fotografias de Duarte Belo. Isabel Lucas escreve sobre “A Paisagem É O Grande Acontecimento” onde, pelo meio de conversas com os vários artistas que realizaram obras nas barragens aborda questões como o que distingue a criação para o que é arte pública e para as galerias e como pode uma obra de arte viver numa dimensão tão grande como é a de uma barragem. Já perto do final surge um ensaio de Francesco Careri sobre a obra de Robert Smithson, um artista norte-americano que foi pioneiro na criação de ligações entre a arte e a paisagem e um texto contextualizador dos coordenadores da obra, Nuno Crespo e Luísa Salvador. O livro termina com um portfolio de André Cepeda onde ele próprio faz a interpretação das obras e da sua localização, para além da simples evocação documental.

 

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O ESTADO DA ARTE  - Colocar uma instituição no mapa demora tempo, colocá-la à beira do precipício é coisa rápida: este é o retrato do que aconteceu a Serralves este ano. De Museu de referência pela originalidade das propostas apresentadas foi capturado pelo síndrome de treinador de bancada que percorreu a Administração da Fundação e que a levou a querer mandar e interferir na programação artística. João Ribas, Director Artístico, foi ultrapassado pela Presidente do Conselho de Administração, Ana Pinho. O Director Artístico saíu, e como na cultura o crime compensa cada vez mais, Ana Pinho foi reconduzida atendendo aos serviços prestados na destruição da reputação de Serralves. Este foi talvez o caso mais mediático do ano na área das exposições. No pólo oposto, pelo bom trabalho desenvolvido, destaca-se a actividade da Gulbenkian, nomeadamente a forma como a sua Directora, Penelope Curtis, tem vindo a trabalhar a colecção da instituição, explorando-a e cruzando-a de forma imaginativa - como sucedeu com a exposição “Pós-Pop - Fora do Lugar Comum” (na imagem) e, mais recentemente, “Arte e Arquitectura entre Lisboa e Bagdade” que relembra a exposição levada ao Iraque em 1966 e que incluía nomes como Nuno de Siqueira, Artur Bual, Luís Demée, João Vieira Ângelo de Sousa, José Escada, René Bertholo e Júlio Pomar, entre outros, naquele que foi o núcleo inicial da Colecção desenvolvida pela Fundação Gulbenkian. Finalmente, no MAAT, destaque para apresentação, no Porto primeiro e em Lisboa depois, da colecção Cabrita Reis - “Germinal - O Núcleo Cabrita Reis na Colecção de Arte Fundação EDP”, que pode ainda ser vista até dia 31.

 

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TEMPOS MODERNOS - Há uns anos os discos gravados ao vivo eram editados um tempo depois das digressões em que  tinham sido gravados. Este ano Springsteen deu o sinal da mudança, na realidade um sinal dos tempos: o seu “Springsteen On Broadway”  foi lançado na mesma semana em que a temporada na Broadway terminou e praticamente em simultâneo no Spotify e na Netflix - na Netflix foi disponibilizado cinco horas depois de terminada a derradeira actuação na Broadway. O resultado é um registo de cerca de duas horas e meia  com 35 das suas mais conhecidas canções. Mas não é só um registo de canções - todas em versão acústica, Springsteen sozinho no palco com a sua guitarra e às vezes ao piano, intercalando entre as canções a história da sua vida - desde as primeiras memórias, às lições de guitarra, passando pela cidade onde cresceu (My Hometown), o dia-a-dia familiar, os músicos com quem tocou, as suas primeiras actuações e, claro, o momento em que se tornou um nome incontornável da música popular e do rock há quatro décadas. “I am here to provide a proof of life” - diz ele logo no início das actuações que fez durante 236 dias, ao longo do último ano, até ao sábado passado, no pequeno teatro Walter Kerr, da Broadway com uma lotação de apenas 960 lugares, permanentemente esgotados.  Graças à Netflix é possível ver além do que se ouve no Spotify - um concerto íntimo, uma actuação forte e emotiva. Toda a actuação estava escrita como um argumento, que Springsteen repetiu noite após noite e se isto pode parecer o caminho para a rotina, desenganem-se: não só na interpretação das canções, mas também na forma como contou a sua vida, the Boss mostrou uma capacidade de ligação com o público como acontece nas peças de teatro da Broadway que se repetem noite após noite, na mesma encenação. Os grandes actores vencem a rotina. Além de músico, Springsteen provou ser um actor a representar o seu próprio papel, com uma enorme simplicidade mas também convicção: “That’s how good I am” - dizia ele todas as noites. Esta forma de fazer e registar a música é o acontecimento editorial do ano.

 

INTRAGÁVEIS -  Na restauração lisboeta há uma espécie de triângulo das Bermudas onde desaparece o bom senso e a arte da culinária. As pontas do triângulo são o Princípe Real, o Largo da Misericórdia e o Largo de Camões. Aqui se concentram os restaurantes surgidos da caça ao turista -  pouco cuidado na cozinha, serviço displicente, desprezo pelos clientes nacionais e preços abusivos para a qualidade geral final. Basta passear nesta zona e noutra sua concorrente, na Baixa, na Rua Augusta e suas perpendiculares, para perceber que se perdeu a arte do petisco e cresceu a arte do engano. A maioria destes novos restaurantes importa-se mais com a comunicação do que com a qualidade e o serviço. Muitas das boas tascas que existiam nestas zonas foram sendo substituídas por manjedouras repetitivas e, nos casos em que o nome do local não mudou, tudo o resto foi modificado. Hoje em dia trabalha-se mais para o conceito e o cenário do que para a substância - muitos dos novos restaurantes surgidos nos últimos meses mostram isso e mesmo algumas das boas referências na restauração moderna lisboeta que fez uma época dão sinais de quebra de qualidade. Eu por mim dedico-me sobretudo a procurar boas descobertas em cozinhas étnicas que vão surgindo e em localizar e guardar quem pratica a boa arte da cozinha portuguesa. A propósito recomendo que sigam o blogue “O Homem Que Comia Tudo”, de Ricardo Dias Felner, onde se dão sugestões de confiança nestas áreas.

 

DIXIT - “O Natal, para mim, começa por ser um cuidado com os outros” - Gisela João, fadista.

 

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BOLSA DE VALORES - Em 2018 várias novas galerias de artes plásticas destacaram-se e a Balcony (Rua Coronel Bento Roma 12 A) foi uma delas. Aqui está uma obra de Tiago Alexandre, Spread #16, que integrou a  sua exposição ”Words Don’t Come Easy” e que está à venda por  3.750 euros (IVA não incluido). A técnica é barra de óleo sobre papel e mede 220 x 150 cm.

 

BACK TO BASICS - “Para o Pai Natal conseguir sempre saber onde estás, se te portas bem ou mal, se estás acordado ou a dormir, deve ser de certeza dos serviços de informação” - David Letterman

 

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PELA BOCA MORRE O PEIXE - Em Portugal não temos manifestações de multidões vestidas com coletes amarelos e não é por falta de razões: estamos num país onde qualquer dia em vez de comboios voltaremos a ter  carroças, onde em vez de cacilheiros se utilizarão jangadas, um país onde médicos do maior hospital pediátrico se demitem por falta de condições, onde o um porto marítimo fulcral para a economia continua a suicidar-se, onde as greves em serviços essenciais começam a ser mesmo preocupantes. Temos, no entanto, um sistema perfeito de vasos comunicantes bem exemplificado no Orçamento de Estado que acabou de ser aprovado pela frente de esquerda: aumentam-se os gastos do Estado com os seus funcionários, graças ao dinheiro extra que vem da carga fiscal directa e indirecta. A sociedade portuguesa está a criar um funil onde a boca é larga para cobrar mas o tubo de saída é estreito: o que fica de fora do funil são os serviços que o Estado devia assegurar e que são a razão de ser dos impostos. Por aqui continua tudo trocado: os recursos gastam-se para ganhar sossego político em vez de ser para suprir necessidades da população, na Assembleia deputados vigarizam o livro de presenças e votações, no Ministério das Finanças um quadro superior protegido por Centeno está sob suspeita de fechar os olhos a irregularidades. Noutros tempos dir-se-ia que pela boca morre o peixe. Mas começa a ser perigoso usar provérbios destes graças a uns cómicos que acham que falar assim pode ser ofensivo para os animaizinhos e consideram que o tema deve ser debatido no Parlamento. Depois queixam-se que a Assembleia da República tem má imagem.

 

SEMANADA - Até ao final deste ano há 47 pré-avisos de greves em 11 áreas da administração pública, desde a justiça aos hospitais, passando pela inspeção das pescas; a  percentagem de cesarianas realizadas nos hospitais privados é mais do dobro da realizada no Serviço Nacional de Saúde; entre 1 de novembro de 2017 e 31 de Outubro de 2018 o Ministério Público instaurou 3423 inquéritos relativos a crimes de corrupção e crimes conexos; em Outubro, segundo a Marktest, o site noticioso com maior alcance foi o do Correio da Manhã, com cerca de 2,5 milhões de visitantes; segundo o Conselho das Finanças Públicas os gastos das famílias portuguesas com a saúde estão acima da média da OCDE; 1684 euros é o valor que em média cada português gastou em cuidados de saúde em 2017; segundo o Ministério do Ambiente nos últimos dois anos apenas foi retirado amianto em 90 dos 1400 edifícios públicos que estão no plano de remoção daquela substância potencialmente cancerígena; em duas semanas de greve dos enfermeiros prevê-se o adiamento de cerca de  4500 cirurgias; Maria Begonha continua candidata à liderança da Juventude Socialista apesar de ter prestado declarações falsas sobre o seu currículo e da polémica em torno dos contratos que celebrou com autarquias do PS no valor de cerca de 140 mil euros

 

ARCO DA VELHA - O Inspector Geral das Finanças, que integra o Conselho de Prevenção da Corrupção, é suspeito num processo em que se investigam corrupção, peculato e abuso de poder.

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A POESIA IMPRESSA - Eugénia de Vasconcelllos começou a publicar poesia em 2005, com “A Casa da Compaixão” e desde então tem publicado ensaios como ”Cultura Light” ou  “ Camas Politicamente Incorrectas da Sexualidade Contemporânea”, contos como “Do Banco Ao Negro” e poesia como “O Quotidiano a Secar em Verso” - que João Mário Silva descreveu como «um meteorito que cruzou o céu da poesia portuguesa»”. Está traduzida em catalão, alemão, sérvio e romeno. Nascida no final dos anos 60, em Faro, Eugénia Vasconcellos elege como poetas favoritos Camões, Walt Whitman e Herberto Hélder . O seu novo livro, “Sete Degraus Sempre A Descer”, percorre etapas do amor, da descoberta à desilusão, do encontro à despedida, entre dúvidas e desejos. Como Eugénia de Vasconcellos escreve logo no primeiro poema do seu novo livro, “A poesia não é coisa das páginas dos livros -/ não se faz na tipografia./ Ainda que seja nas páginas dos livros que/se fixa depois de a tipografia lhe dar um corpo de papel -/ é sempre de amor que se faz um corpo,/ é por amor que um corpo se dá./A poesia é da vida. É de quem tem.”

 

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O PARADOXO CONTEMPORÂNEO - A Galeria Cristina Guerra Contemporary Art exibe, até 4 de Janeiro, uma exposição que reúne 42 obras de arte contemporânea de artistas portugueses e estrangeiros - de Julião Sarmento a John Baldessari, passando por Horácio Frutuoso, Vasco Araújo ou Joseph Kosuth, Ed Ruscha ou Matt Mullican, entre muitos outros. As obras têm proveniências diversas, nomeadamente de colecções particulares e do acervo da própria Galeria e foram agrupadas por Alexandre Melo sob o título “1000 imagens-  uma imagem vale mais que mil palavras”. Existe um ponto comum entre muitas das obras que é a utilização da palavra escrita, seja de forma isolada, seja numa frase. No texto que acompanha a exposição Alexandre Melo sublinha que “a presença das palavras no contexto criativo das artes plásticas é marcante nas vanguardas históricas do início do século XX” para depois esclarecer que o critério de curadoria da exposição foi apresentar “uma grande diversidade de obras realizadas por autores que, cada um segundo a sua sensibilidade e no âmbito da sua linha de pesquisa, deram um lugar de destaque às palavras, e assim nos dão, a nós próprios, a possibilidade de pensar e decidir qual o valor e a atenção que queremos, ou não, continuar a conceder às palavras”. Esta reflexão está enquadrada numa época em que as imagens se banalizaram e a sua utilização se globalizou e multiplicou - e por isso este confronto das palavras com a imagem se torna interessante. Mas, ao mesmo tempo, a montagem da exposição evidencia um paradoxo que por vezes se torna repetitivo na arte contemporânea - e que passa por viver de uma teoria e da sua sublimação,  mais do que de uma emoção ou de um acto de comunicação. Evidenciar este paradoxo é a marca destas “1000 imagens”.

 

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UMA ESTRELA NO FADO - Carminho está  a fazer um dos mais interessantes percursos artísticos entre as fadistas da sua geração e mistura o fado que conviveu com ela toda a vida (a mãe é a fadista Teresa Siquiera) com outros géneros musicais e nomeadmente a música brasileira. Sinal disso é ter já gravado nos seus quatro discos anteriores duetos com Chico Buarque, Milton Nascimento, Marisa Monte e Nana Caymmi. O seu quarto disco é aliás inteiramente dedicado à obra de Tom Jobim e é, também, uma prova da versatilidade da sua interpretação. “Maria”, agora editado, é o seu quinto álbum e marca um regresso ao território musical de origem - o Fado. Carminho envolveu-se mais do que é costume na produção e escreveu várias das canções que interpreta naquele que parece ser o disco mais pessoal da sua carreira . A concepção dos arranjos e a escolha de instrumentos (desde a tradicional guitarra de fado à guitarra eléctrica) mostra que a ousadia de Carminho não se manifesta só na sua forma de cantar, mas também na abordagem musical que concretiza. A guitarra portuguesa esteve a cargo de Bernardo Couto, José Manuel Neto e Luis Guerreiro, a viola de fado é de Flávio César Cardoso, no baixo acústico esteve José Marino de Freitas, no piano João Paulo Esteves da Silva e na guitarra eléctrica Filipe Cunha Monteiro  - aliás Carminho também toca guitarra eléctrica no tema “Estrela”, por sinal um dos melhores do disco. É muito interessante o contraste que Carminho consegue criar entre as suas composições originais (nomeadamente “Mulher Vento”” e “Estrela”), a interpretação de clássicos (como “O Começo”, de Pedro Homem de mello e Acácio Gomes), tradicionais (como “Sete Saias” de Artur Ribeiro) ou a abordagem a “As Rosas” (de Joana Espadinha). CD Warner.

 

SABORES LIBANESES -  A zona do Princípe Real levanta-me a maior reserva em termos de restaurantes. Não tenho tido boas experiências, sobretudo no atendimento que parece penalizar quem não é turista. Mas recentemente tive uma boa surpresa num novo espaço que nasceu num local onde antes existia um desses restaurantes o, no caso o Prego da Peixaria. O Sumaya - Mesa Libanesa tem um acolhimento simpático, um serviço atencioso e os empregados sabem explicar o que é cada prato deixando os clientes decidirem por si. Há combinados que juntam várias especialidades ou pode seguir-se o menu e ir pedindo. A comida libanesa apela à partilha de petiscos (mezze), portanto a ideia é pedir várias coisas e ir partilhando e saltando de uma para outra. Veja na lista os mezze frios e quentes, pegue no pão achatado que lhe colocam na mesa e vá fazendo experiências. Numa recente visita a escolha recaíu sobre Labneh (iogurte  com tomilho, azeitonas e hortelã), Baba Ghanouj (uma pasta  de beringela com tahini, limão e romã ),  Fatayer (empadas de espinafre com limão e azeite) e Makanek  (salsichas caseiras cozinhadas num molho de romã com pinhões). Há vinhos libaneses, mas também portugueses e, na circunstância, optou-se por um Catarina a copo. A sobremesa vai variando todos os dias mas na altura veio um  Mohalabie, uma espécie de panna cotta libanesa que leva pistácios aos pedaços e fez um bom contraste de sabores com o resto da refeição.  Sumaya - Mesa Libanesa - 213470351, reservas@sumaya.pt, Rua da Escola Politécnica 140

 

DIXIT - “Não podemos ir além do limite, sob pena de que PSD e CDS se fiquem a rir de nós e digam que tinham razão” - António Costa, no Parlamento, sobre o Orçamento de Estado para 2019.

 

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BOLSA DE VALORES -  Claudia Fischer expõe na Galeria Belo-Galsterer (Rua Castilho, 71, RC, Esq ) a obra Spatien #8, 2018, impressão sobre papel, edição 1/3 emoldurada, com a dimensão 26x73 cm, por 750 euros (IVA de arte incluído).

BACK TO BASICS - “Nunca devemos interromper o inimigo quando ele está a fazer um erro” - Napoleão Bonaparte

 

 

 

 

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O ADUBO POPULISTA - Afinal porque cresce o populismo? O aumento do peso político do populismo está na proporção directa das revelações sobre corrupção, da ineficácia da justiça, da forma de funcionamento dos partidos  institucionais, do funcionamento dos parlamentos, do comportamento de muitos políticos. O populismo que assume proporções preocupantes é o resultado directo da falência dos partidos mais presentes no poder, das jogadas de bastidores e entendimentos à revelia dos resultados eleitorais, dos arranjinhos e distribuições de benesses. O adubo que fomenta o populismo está no apodrecimento do sistema. O retrato do futuro próximo um pouco por toda a Europa é dado pelo que se passou na Andaluzia: o descrédito no regime leva a deslocações surpreendentes de voto - analisando os resultados constata-se que foi do eleitorado do PSOE que saíram maioritariamente os votos que deram entrada aos populistas de direita. Não precisamos só que surjam novos partidos, precisamos fundamentalmente que exista uma nova ética política e uma outra agilidade da justiça. No caso português precisamos de um sistema eleitoral que possibilite a entrada de novos participantes, precisamos de uma varridela nos partidos antigos que acabe com os escândalos que se têm passado na Assembleia da República e que andavam bem escondidinhos da vista de todos. Deixaram alastrar a vigarice, não se queixem do resultado. O mundo já não é feito de dogmas. Os partidos e quem os dirige não se podem julgar donos da verdade depois de terem sido apanhados tantas vezes a mentirem.

 

SEMANADA - Mais de 57 milhões de seringas e mais de 30 milhões de preservativos foram distribuídos nos últimos 25 anos em Portugal; o Ministro do Ambiente preconiza uma redução de entre 25 a 50% da população de bovinos como uma das medidas para reduzir as emissões poluentes de gases para a atmosfera; quase metade das instituições portuguesas de solidariedade social têm prejuízos graves; a não actualização dos escalões do IRS no Orçamento de Estado vai causar um aumento  deste imposto em 2019; os futuros pensionistas só vão receber 74% do salário que tinham à data do início da reforma, indica um relatório da OCDE; Guarda, Portalegre e Bragança são os distritos com menor número de nascimentos e Lisboa, Porto e Braga são os que registam natalidade mais elevada; mais de 150 mil crianças e jovens não têm médico de família; o Tribunal de Contas criticou as regras da Assembleia da República e diz ser impossível fiscalizar se os pagamentos feitos aos deputados são devidos; o Presidente da Assembleia da República,  Ferro Rodrigues, admitiu ao fim de algumas semanas ter havido irregularidades e  “registo de presenças falsas” de deputados em sessões plenárias do Parlamento.

 

DISTRACÇÕES ESTATAIS - O Estado português  perdeu o rasto a cinco jovens romenos que tinha à sua guarda, depois de os seus pais, que obrigavam os dois rapazes e três raparigas a mendigar, terem sido presos.

 

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ESCRITOS TURÍSTICOS - Não é inédito: uma publicação periódica vai melhorando depois do primeiro número, afinando detalhes e estabelecendo a sua própria identidade. No caso de “Electra”, a revista editada pela Fundação EDP e dirigida por José Manuel dos Santos, identidade ideológica é coisa que não falta. Mas nos primeiros dois números houve alguma indefinição de temas, alinhamento e problemas gráficos. Neste terceiro número há um salto qualitativo - quer a nível da diversidade de conteúdos, do alinhamento editorial, quer a nível gráfico e da edição fotográfica. O tema central desta edição é o turismo nos tempos actuais e o geógrafo Álvaro Domingues, em “Turismo On Fire”, aborda a evolução dos tempos, desde a viagem elitista à viagem democratizada pelo turismo massificado. Jean-Didier Urbain aponta que o turista actual é um viajante maltratado e considera que o turismo no nosso tempo não deve ser desclassificado, mas sim encarado como uma verdadeira experiência de viagem, tese criticada por Thierry Parquot, que defende ser urgente interromper o movimento crescente do turismo mundial, negando que o passeio turístico tenha agora alguma coisa a ver com o conceito de viagem. O arquitecto Pedro Levi Bismark tem uma certeira observação sobre os efeitos do turismo nas cidades contemporâneas e o economista Álvaro Matias faz uma análise dos negócios gerados pelo turismo, que classifica como uma exportação fácil. Turismo à parte destaque para um livro de horas de Pedro Cabrita Reis, sob a forma de fac-simile de nove páginas da sua caligrafia e desenhos, a tinta da china sobre papel, que exemplificam alguns dos seus registos diários. Finalmente uma menção ainda para o texto de Rui Chafes sobre as esculturas de Manuel Rosa, artista que, ao fim de vários anos, resolveu de expôr de novo as suas obras.

 

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VIAGENS FOTOGRÁFICAS - Há uma fotografia que mostra a realidade e outra que alimenta a ilusão. Cláudio Garrudo, que tem vindo a experimentar diversas abordagens à imagem fotográfica (numa sua recente exposição utilizou cianótipos), encarou  agora o mar e utilizou uma técnica de duplas exposições que cria uma dimensão muito especial nas imagens e uma ilusão quer de cores, quer de perspectiva. A exposição leva o nome de “Trinus” (na imagem) e está na Galeria das Salgadeiras (Rua da Atalaia 12) até dia 19 de Janeiro. A exposição, nove fotografias e um video, resulta de uma viagem que Cláudio Garrudo fez a bordo de um carregueiro, que zarpou de Lisboa. “Viagem”, um poema de Miguel Torga, foi o ponto de partida para esta expedição. Bem diferente é uma exposição no Arquivo Municipal Fotográfico, centrada no espólio de Helena Côrrea de Barros e que é uma viagem à sua família e amigos, mas também uma mostra de trabalhos que ela apresentou a salões fotográficos, comuns nos anos 50 e 60. A exposição, “Fotografia, A Minha Viagem Preferida”, que fica patente até 23 de Fevereiro, foi organizada de forma exemplar por Luís Pavão e Paula Figueiredo Cunca, mostrando um lado da realidade do Portugal dos anos 50 e 60 que separa a visão familiar e festiva feira a cores, em Kodachrome, da prática artística de Helena Côrrea de Barros, a preto e branco, feita para os salões de fotografia de então. Na Rua da Palma 246.

 

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EDIÇÃO ESPECIAL  - Em Janeiro deste ano foi editado “Nação Valente”, o primeiro disco de originais de Sérgio Godinho dos últimos sete anos -  um álbum com nove originais e uma versão de “Delicado”, um tema de Márcia, intensamente interpretado por Godinho.  Na altura escrevi aqui que este era o melhor disco do autor neste século e destaquei o tema “Grão da Mesma Mó”, um poderoso manifesto com letra de Godinho e música de David Fonseca. Na mesma altura sublinhei que “outro ponto alto é “Maria Pais, 21 Anos”, onde as palavras de Godinho se cruzam mais uma vez com as ideias musicais de José Mário Branco naquela que é certamente a mais elaborada e emocional composição deste disco, não por acaso uma espécie de retrato de uma geração para a qual ambos os autores olham com um agudo espírito de observação”. Agora “Nação Valente” teve uma edição especial, com um CD extra gravado ao vivo nos Coliseus de Lisboa e do Porto e que inclui algumas das canções de Nação Valente tocadas ao vivo com arranjos diferentes da gravação de estúdio, mas também interpretações novas de temas clássicos de Sérgio Godinho, entre os quais  destaco “Balada da Rita”, com a participação de David Fonseca e o magnífico “Às Vezes O Amor” com a participação de Márcia. CD Duplo Universal Music.

 

UM CLÁSSICO LISBOETA  - O Petite Folie é um restaurante com uma história longa - no início dos anos 80 abriu inspirado pela cozinha gaulesa, por iniciativa de uma francesa que vivia em Lisboa e que queria aumentar a então reduzida oferta gastronómica do seu país em Lisboa. Passados uns anos decidiu sair  e o restaurante passou para as mãos de Almerindo Gonçalves, um minhoto com uma longa carreira na hotelaria e na restauração e que saíu do então prestigiado Clube de Empresários para abrir uma casa só sua em 1988 . Manteve o nome francês mas trouxe a comida portuguesa, sobretudo alguns pratos da sua região de Monção - como a lampreia na época em que é devida. Com uma decoração clássica e muito bem conservada onde a madeira predomina, tem um serviço único, um cruzamento de profissionalismo e gentileza. Um dos seus pratos mais apreciados - e estamos na altura ideal do ano para ele - é a perdiz à Convento de Alcântara e outro muito apreciado é um folhado de lebre com castanhas. No peixe destaca-se a garoupa grelhada com molho de alcaparras e os supremos de cherne com molho de champagne. Se quiser uma coisa mais simples tem sempre o entrecôte à Café de Paris. Nos doces o leite creme queimado tem boa fama. O Senhor Almerindo Gonçalves sabe receber como poucos e nas mesas o Sr. Artur garante uma atenção rara nos dias que correm. Garrafeira a preços sensatos, vinho a copo bem escolhido. Fechado ao Sábado e, ao Domingo, ao jantar. Petite Folie, Av. António Augusto de Aguiar 74-cv, telefone  213 141 948.

 

DIXIT - “Neste tempo de guerras civis nas redes sociais, em que o Facebook e Google lêem por nós, é bom ler e escrever (...) É do confronto de ideias que nasce a liberdade, a democracia política, económica, social e cultural” - Fernando Sobral, no derradeiro “Pulo do Gato”.

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BOLSA DE VALORES - Na Galeria das Salgadeiras (Rua da Atalaia 12), além das fotografias da exposição “Trinus”, de Cláudio Garrudo (que estão à venda por 1100 euros) está disponível uma edição especial do catálogo, limitada e numerada, em caixa de madeira, com uma prova assinada de uma das imagens, por 185 euros.

 

BACK TO BASICS - "O telescópio faz encolher o universo,  o microscópio aumenta-o"- G.K. Chesterton

 





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A MINISTRA SOBRESSALENTE - Nos últimos tempos tivemos um Ministro da Cultura que entrava mudo e saía calado; agora temos uma Ministra da Cultura que sofre de incontinência verbal. Em comum têm, entre eles, o facto de não dizerem uma palavra sobre política cultural. Acresce que esta Ministra da Cultura dá sinais de ser defensora de algo perigoso para quem ocupa o cargo onde foi colocada: uma política determinada pelo seu gosto pessoal - considera-se uma iluminada, coisa sempre perigosa em geral e, em especial, na área que tutela A isto junta um desprezo acentuado pela opinião dos outros - evidenciado nas suas declarações sobre o enfado que lhe causa seguir o que se escreve em Portugal, afirmação cinicamente proferida num certame literário, a Feira Internacional do Livro, de Guadalajara. Arrogante, a senhora prefere não ser incomodada e muito menos recordada de episódios desagradáveis - na sua auto-suficiência parte do princípio que relatos da  realidade são fake news. Graça Fonseca, um dos expoentes da mentalidade politicamente correcta na área do Governo, está a dar mostras de gostar de secar as ideias à sua volta e tem mostrado um assinalável vazio e desconhecimento sobre questões de política cultural. É uma Ministra sobressalente, calhou estar à mão quando foi preciso mudar as peças do tabuleiro. Está a revelar-se um problema de casting.

 

SEMANADA - Há dez anos que cada português anda a dar 15 euros por mês para salvar bancos; entre janeiro e outubro 2 milhões e 226 mil pessoas já recorreram ao crédito ao consumo, cerca de 26%  da população; um novo estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos indica que mais de 60% dos contratos das câmaras municipais são feitos por ajuste direto sem concurso; entre 2013 e 2017 dez câmaras municipais não fizeram qualquer concurso público; 51 câmaras têm taxas de endividamento superiores a 100% ; 45 câmaras municipais não disponibilizam publicamente qualquer informação documental sobre as suas contas; no ano passado o número de greves em empresas cresceu 39% e o número de trabalhadores envolvidos em greves quase triplicou em relação ao ano anterior; no primeiro semestre o preço médio da electricidade em Portugal era a sexto mais caro da União Europeia e no gás o país ficou no quarto lugar; a carga fiscal representa 55% da fatura da luz, o triplo do que se passa em Espanha; o deputado Feliciano Barreiras Duarte, um fiel de Rui Rio, apareceu registado na votação do orçamento de Estado por a sua password ter sido utilizada, apesar de ter estado ausente do plenário; Portugal tem mais de mil novos casos de VIH registados no ano passado e a taxa de diagnóstico mais elevada regista-se nos jovens entre os 25 e os 29 anos.

ARCO DA VELHA - Em Braga um homem foi condenado a prisão efectiva por ter roubado seis euros; também em Braga um Tribunal libertou o núcleo duro de um gang violento relacionado com tráfico de droga e uma vaga de assaltos violentos, apesar de terem sido presos em flagrante delito.

 

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UMA VISÃO DO NOVO PODER EM ANGOLA - O que tem acontecido em Angola desde que João Lourenço se tornou Presidente, em finais de Setembro de 2017? O que mudou no dia-a-dia do país, dos bastidores, do próprio Palácio que é o símbolo do poder presidencial? O jornalista Luís Fernando, hoje secretário para os Assuntos de Comunicação Institucional e Imprensa do Presidente da República de Angola, faz um relato de tudo o que se foi passando desde então, entre a crónica e a reportagem, em “Notícias do Palácio” -  que relata o primeiro ano do mandato de João Lourenço. O livro, agora editado em Portugal, começa nos dias da transição de poder de Eduardo dos Santos para o novo Presidente, passando pelo primeiro Conselho de Ministros, descrições de viagens e visitas oficiais ou a primeira entrevista coletiva do novo Presidente a jornalistas nos jardins do Palácio. Mas também relata a presença de João Lourenço no encontro de Davos, a ida ao Parlamento Europeu, o encontro com Macron, a reunião com Putin, a visita à China e até a recente visita de António Costa a Luanda, relatos enquadrados nas suas circunstâncias, a partir do ponto de vista privilegiado de um colaborador próximo de João Lourenço. É uma visão necessariamente comprometida e parcelar, mas é um testemunho destes tempos de mudança, uma observação particularmente interessante para todos os que seguem o que se passa em Angola - uma viagem ao processo de tomada de decisão do novo poder de Luanda.

 

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O TEATRO DE REVISTA - O Parque Mayer hoje em dia diz muito pouco ou mesmo nada a quem tiver menos de 40 anos. Digamos que era a coisa mais parecida com a Broadway que por cá havia, tendo em consideração todas as diferenças de escala. Tinha quatro teatros construídos entre os anos 20 e os anos 50 do século passado (Maria Vitória de 1922, Variedades de 1926, Capitólio de 1931 e ABC de 1956). Além dos teatros, havia restaurantes, esplanadas, casas de fado, barracas de tiro, e até luta livre e boxe - era um local de boémia por excelência. Muitas das peças levadas à cena eram musicais e ali nasceram algumas das grandes canções populares e ali artistas ganharam fama e reconhecimento. O Teatro de Revista, assim ficou conhecido o género ali encenado,  tinha antes de 1974 alusões e indirectas à situação política que se vivia, num permanente jogo do gato e do rato com a censura. Local de muitas histórias o Parque Mayer marcou uma época de Lisboa e passou agora do teatro ao cinema, pela mão do realizador António-Pedro Vasconcelos e do produtor Tino Navarro. “Parque Mayer”, que estreia a 6 de Dezembro, mostra a cidade -  e através dela o país - no início do salazarismo. O filme, escrito por Tiago Santos, decorre em 1933, numa altura em que o Estado Novo começava a formar-se. A história segue a preparação de uma nova revista, os ensaios onde há de tudo: amores não correspondidos, dramas pessoais e tentativas de contornar a censura - no fundo a luta pela liberdade de criação numa altura em que as palavras e atitudes começavam a ser rigorosamente vigiadas. O engraçado é como o realizador, a partir da evocação daquele espaço entre a Avenida da Liberdade e a Praça da Alegria, faz um retrato de Portugal inteiro naquela época e da nascente resistência ao regime, com base num quadro da revista que é o centro de toda a acção. António-Pedro Vasconcelos continua  a ser um grande contador de histórias, o argumento de Tiago Santos cria momentos emocionantes e destacam-se grandes interpretações da estreante Daniela Melchior, de Francisco Froes, Diogo Morgado, Miguel Guilherme e Carla Maciel.

 

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O PODER DO SAXOFONE - Ricardo Toscano tem 25 anos e desde os 15 que estuda e toca jazz, tendo escolhido o saxofone alto como forma de expressão. O seu primeiro álbum de originais saíu agora na editora Cleanfeed - o disco é sobriamente intitulado Ricardo Toscano Quartet. Além do próprio, aqui estão João Pedro Coelho no piano, Romeu Tristão no contrabaixo e João Lopes Pereira na bateria. Dos seus temas, cinco são originais de Ricardo Toscano e um, “The Sorcerer”,  é a recriação de um original de Herbie Hancock. Numa recente entrevista Ricardo Toscano afirmou que o verdadeiro virtuosismo de um músico reside na sua capacidade de expressão e isso sente-se neste disco. Como Ricardo Toscano também reconhece uma das suas maiores influências é Coltrane e percebe-se ao longo deste álbum que o território musical dos blues é algo que o atrai e onde se sente à vontade - o tema “Lament” é prova disso mesmo. Ao longo de todo o disco Ricardo Toscano destaca-se como o pólo agregador, fomentando um diálogo permanente com os outros músicos do quarteto, por vezes até de forma inesperada. Por exemplo no tema final, “Grito Mudo”, é o saxofone que fala com a bateria, em paralelo com a relação que se cria entre o piano e contrabaixo. Destaco ainda a balada “Song Of Hope” e a declaração de intenções inicial, do tema de abertura, “Almeria”, onde o saxofone de Ricardo Toscano mostra o que vale. Em virtuosismo e em expressão.

 

COZIDO ILIMITADO -  Lembro-me que há uns anos tinha o hábito dominical de frequentar o cozido à portuguesa que nessa altura era servido na “Doca do Espanhol”, cuja cozinha era supervisionada por Justa Nobre ainda antes de ela ser conhecida por força da TV. Várias voltas da vida depois Justa e José Nobre estabeleceram-se no Campo Pequeno, no Spazio Buondi-Nobre e ali retomaram o buffet de cozido à portuguesa ao almoço de domingo. Claro que existe a lista habitual (que inclui até uma opção vegetariana), mas aquilo que os clientes procuram nesse dia é mesmo o cozido - abundante em tudo e como mandam as regras - carnes diversas de boa qualidade, legumes em fartura e cozidos no ponto, arroz do dito confeccionado como deve ser, enchidos das espécies requeridas e de boa qualidade. Tudo é permanentemente reabastecido e, no final, ainda existe uma sopa de cozido para quem quiser acabar de confortar o estômago. A acompanhar o cozido (25 euros por pessoa, bebidas à parte), veio o honesto vinho da casa, um Douro, da região de Mesão Frio, o “Consensual Justa Nobre”. Embora Justa e José Nobre façam questão de verificar como vão as coisas em todas as mesas, por vezes o serviço deixa a desejar, sobretudo nas zonas mais esconsas do restaurante. É o único senão.

 

DIXIT - “No país ideal de Graça Fonseca não havia notícias, havia comunicados” -  Pedro Santos Guerreiro

 

BOLSA DE VALORES - “Stardust”, a nova exposição de Nuno Gil tem 14 obras, reunindo um grupo de pinturas sobre tela e um conjunto de trabalhos em papel. Os valores de venda vão dos  1800 aos 8000 euros. A que aqui é reproduzida tem um preço de 3000 euros. Está na Módulo - Centro Difusor de Arte, Calçada dos Mestres 34, em Lisboa, até 29 de Dezembro.

 

BACK TO BASICS - “O mundo é um palco, só que a peça está pessimamente encenada” - Oscar Wilde

 

 

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QUEM VIER ATRÁS, QUE FECHE A PORTA

por falcao, em 23.11.18

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UM PAÍS DESCONTROLADO - Cada vez que há uma desgraça neste torrão à beira-mar plantado destaca-se uma tendência fatal para ninguém assumir responsabilidades. Quem olhar para as fotografias das pedreiras de Borba e da estrada que se equilibrava de forma instável entre elas percebe que a falta de bom senso, o laxismo e o desprezo pela segurança dos cidadão é total. Desde quem devia fiscalizar as pedreiras (o Estado), até quem devia garantir as estradas (as autarquias),  todos lavaram as mãos como Pilatos, embora há vários anos existissem alertas para o perigo existente. O caso da estrada entre Borba e Estremoz e o rol de declarações produzidas por governantes e por autarcas é o retrato de um país descontrolado, o retrato de um país onde nenhum poder gosta de ser escrutinado e onde os políticos fogem da realidade e das consequências dos seus actos como o diabo da cruz. Fez-se uma descentralização que atribuiu competências às autarquias sem lhes proporcionar recursos e deixa-se que o Estado continue laxista sem exercer a vigilância que lhe compete. O resultado desta receita só pode ser mau. O caso da estrada, das mortes por intoxicação numa habitação sem condições, no meio da pobreza total, mostra o outro lado do país da web summit: um país onde a miséria coexiste com a irresponsabilidade, no meio da ostentação de Estado. Falta dinheiro para a saúde e para a educação, as cativações são o emblema desta legislatura  - mas não nos devemos preocupar: António Costa gosta da ideia de acolher o Mundial de Futebol de 2030 por cá. Sócrates trouxe o Europeu, ele quer mais, venha o Mundial. Em 2030 já Costa provavelmente não será governo - quem vier atrás que feche a porta e pague as contas. Assim, lá vamos cantando e rindo, de vitória em vitória, até à derrota final…

SEMANADA - O Governo de António Costa já fez em três anos mais cativações que o Governo de Passos Coelho nos quatro anos da legislatura; a Comissão Europeia considerou que a proposta de Orçamento do Estado de Portugal para 2019 coloca um “risco de incumprimento” do Pacto de Estabilidade e Crescimento;  na última década o porto de Lisboa perdeu 31,2% das escalas de navios de mercadorias; em compensação o porto de Lisboa registou em outubro o melhor mês de sempre em número de passageiros de cruzeiro, batendo o anterior recorde de Outubro de 2013e atingindo agora os 108.875 passageiros; o Parlamento prevê gastar no seu funcionamento  mais 3,2 milhões de euros em 2019 do que este ano; as dívidas dos hospitais a bombeiros e a privados estão a provocar problemas no transporte de doentes por ambulâncias; segundo a Marktest 22,6% dos portugueses viram filmes, séries ou documentários online nos últimos 30 dias, mas entre os espectadores até 34 anos este número sobe para 54,2%; a produção de vinho deverá ser este ano a mais baixa das últimas duas décadas e o INE prevê uma quebra de 20%; segundo uma sondagem do Guardian os partidos populistas europeus mais que triplicaram o apoio de eleitores nos últimos 20 anos; o número de jovens colocados à guarda do Estado por terem cometido crimes aumentou 85% no ano passado.

PRODUTIVIDADE PARLAMENTAR - Desde o início da legislatura já foram contabilizadas 4.576 ausências dos deputados nas 324 sessões plenárias realizadas, uma percentagem de faltas de 6,54% e 87 foram classificadas como injustificadas. As sessões de quinta-feira são as que registam mais faltas e com a entrada da Primavera e o bom tempo aumenta o número de ausentes.

 

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MISTÉRIOS POR RESOLVER - Uma mulher esteve presa 15 anos, cumprindo pena por um crime que sempre afirmou que não tinha cometido. Quando Casey Carter foi presa as redes sociais mal existiam, a circulação da informação era completamente diferente. Ao sair da prisão choca de frente com a nova realidade quando um site de mexericos mostra fotografias suas num centro comercial a comprar roupas, noticiando a sua libertação, poucos minutos depois de tudo acontecer. Ao ver um reality show de televisão,  sobre crimes não desvendados, convence a produtora do programa a investigar o seu próprio caso. “A Bela Adormecida Assassina” é o novo policial de Mary Higgins Clark em parceria com Alafair Burke. Relata a busca da acusada pela sua inocência, num novo mundo complexo a que tem dificuldade em se adaptar. Enquanto as pessoas que lhe são mais próximas querem evitar que ela se sujeite à lógica de um reality show, Casey persiste e a produtora responsável pelo programa começa a vislumbrar que ela pode de facto estar inocente, contrariando aliás o parecer de parte da sua própria equipa. É um policial fascinante, com um final completamente imprevisível. Mary Higgins Clark é autora de mais de trinta romances e vendeu em todo o mundo mais de 150 milhões de exemplares. Alafair Burke é uma antiga advogada de acusação, actualmente professora de direito criminal e autora de mais de uma dezena de livros. “A Bela Adormecida Assassina”  foi editado em Portugal pela Bertrand.

 

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AS POSES DE RODIN - Na galeria de exposições temporárias da Fundação Gulbenkian está uma imperdível exposição que reúne três dezenas de esculturas das coleções do Museu Calouste Gulbenkian e da Ny Carlsberg Glyptotek de Copenhaga sob o tema da pose na escultura francesa do século XIX. Feitas praticamente ao mesmo tempo, estas duas colecções, que mostram a escultura que se fazia em Paris no tempo de Rodin, são mostradas em conjunto pela primeira vez. Rodin, Carpeaux ou Dalou, são os autores representados nesta exposição que estará na Gulbenkian até 4 de Fevereiro, seguindo depois até à Glyptotek de Copenhaga. Na imagem “As Bençãos”, de Rodin. Nota: A exposição está aberta nas  sextas feiras até às 21h00. Outras sugestões: em primeiro lugar a nova exposição de Miguel Teles da Gama, Lux in Tenebris, que estará até 5 de Janeiro na Fundação Portuguesa das Comunicações; Cláudio Garrudo viajou num cargueiro em alto mar para criar o seu novo trabalho, a exposição de fotografia Trinus e o livro homónimo,  que serão apresentados neste sábado dia 24 de novembro, às 18h00 na Galeria das Salgadeiras  (Rua da Atalaia 12 a 16, Lisboa); finalmente no Museu Berardo “Saudade, China & Portugal – Arte Contemporânea”, com obras de artistas portugueses e chineses como André Sousa, José Pedro Croft, Luísa Jacinto, Joana Vasconcelos, Pedro Valdez Cardoso, Rui Moreira, Vasco Araújo,  Leng Guangmin, Tao Hui, Liu Jianhua, Rui Moreira, Cheng Ran, André Sousa, Guan Xiao, Sun Xun, Shi Yong, Xia Yu e Liang Yuanwei.

 

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O ENCANTO DO PIANO - O pianista norueguês Tord Gustavsen começou por estudar psicologia e tem uma tese publicada sobre os paradoxos da improvisação - ao mesmo tempo que estudava jazz. Mais tarde dedicou-se à musicologia e ensinou piano e jazz na Universidade de Oslo. O seu primeiro disco data de 2003 (“Changing Places”) e foi gravado com um trio. Mas foi na formação de quarteto que se fez mais notado com “The Well (2012) e “Extended Circle” (2014). Agora regressa à sua formação original de trio com o novo “The Other Side”, onde mostra temas originais , temas influenciados pela música folk do seu país e outros trabalhados a partir da música de Bach. A formação inclui, além de Tord Gustavsen no piano e teclados electrónicos, o baterista Jarle Vespestad que com ele tem tocado e o baixista Sigurd Hole, que se estreia com Gustavsen e que é o principal responsável pela inclusão de referências folk e de uma sonoridade diferente  - e basta ouvir os temas “Duality” e em “Re-Melt” para se perceber como traz um contributo ao grupo. Ao todo são doze temas - e a faixa de entrada, “The Tunnel” estabelece o ambiente musical, envolvente, que caracteriza a sonoridade poética de Tord Gustavsen - também evidente nos outros originais, como a faixa título “The Other Side”, “Left Over Lullaby no.4” e “Curves”, que encerra o disco e nos remete para memórias passadas do grupo. Tord Gustavsen Trio, “The Other Side”, ECM Records, no Spotify.

PROVAR -  Quando não se sabe o que podemos fazer para jantar, qual a solução? Ver se há ovos e o que se pode cozinhar com eles. Para mim ovos simplesmente mexidos são um prato magnífico - e podem vir sozinhos. Experimentem fazê-los muito bem batidos (usem uma varinha mágica em vez do garfo tradicional e sentirão uma diferença), cozinhados em manteiga - coloquem generosos pedaços de manteiga e os ovos ao mesmo tempo (sem deixar a manteiga derreter primeiro). O truque é cozinhar os ovos em lume o mais brando possível, mexendo sempre. Quando os ovos começarem a ficar mais sólidos desliguem a chama e acabem de mexer só com o quente residual da frigideira e sirvam logo de seguida. Estes ovos, muito batidos, mal passados em manteiga e cozinhados lentamente fazem toda a diferença. Se quiserem adicionem cogumelos que saltearam antes, ou pedaços de tomate com bocadinhos de um bom chouriço que também previamente cozinharam um pouco. Claro que tudo melhora ainda mais se tiverem à mão túberas ou, melhor ainda, trufa preta. Mas no fim do dia uns suaves ovos mexidos, cozinhados no ponto, acompanhados de um bom pão e umas lascas de presunto cortado fino fazem um belíssimo e leve jantar.

DIXIT -  “Portugal está para a Madonna como Lloret del Mar está para os putos” - Herman José

 

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BOLSA DE VALORES - Pedro Cabrita Reis criou para a Vista Alegre uma peça de porcelana, uma taça, que recebeu o nome “De Natura” e tem um preço de venda ao público de 600 euros.

BACK TO BASICS - “A lógica leva-nos do ponto A ao ponto B; a imaginação leva-nos a todo o lado” - Albert Einstein

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Esta semana destaco dois factos políticos. O primeiro é apenas curioso - o Bloco de Esquerda anunciou querer ser Governo, com o PS, claro, e apontou até nomes ministeriáveis. A partir de agora o suspense não é saber quem serão os próximos ministros após as eleições legislativas do próximo ano; o suspense é saber o que o PCP fará se o Bloco, ou alguma das suas margens, entrar para um futuro Governo de António Costa. O segundo facto político é importante, bem mais importante, e decorre de uma intervenção doutrinal do Presidente da República sob o tema “Portugal Independente - A partir da sua história, que futuro desejável para Portugal?”. Tratava-se o primeiro Encontro de reflexão promovido pela Fundação Batalha de Aljubarrota e nele Marcelo Rebelo de Sousa fez uma intervenção, escrita, cheia de alusões ao presente e carregada  de recados diversos virados para o futuro próximo. Numa alusão concreta a factos recentes o Presidente da República, no contexto do enquadramento dos actos eleitorais de 2019 (Europeias e Legislativas), pediu aos partidos “clareza dos propósitos” e “verosimilhança da solidez da sua base de apoio político  - para que as propostas não fiquem apenas como meras intenções sem capacidade de ser poder”. Depois fez uma alusão a alguns protagonistas políticos que têm estado, digamos, apagados, numa frase que parece destinada a alguma oposição:  “Quem se atrasar ou faltar mesmo à chamada para o encontro com os portugueses não se poderá queixar do destino nem da penosidade do recomeço da caminhada nos idos mais próximos”. Mas o Presidente não se ficou por aqui: reconheceu que existe um debate a aprofundar sobre o sistema eleitoral e aconselhou os partidos parlamentares a terem em conta o debate que sobre o tema já começou fora do Parlamento, na Sociedade Civil - uma discreta referência às ideias de um recente encontro da SEDES e da Associação Por Uma Democracia de Qualidade, onde Marcelo aliás esteve, e em que o tema central foi a revisão da Lei Eleitoral. E, finalmente, referindo-se à necessidade de manter a coesão do território, o Presidente da República foi claro a elogiar o trabalho desenvolvido nas Regiões Autónomas da Madeira e Açores, mas também claríssimo a deixar no ar que não será a criar novas regiões que o problema do desenvolvimento do país se resolverá. Sumário da lição parlamentar: partidos deixem-se de fantasias e sejam realistas, oposição faça o favor de trabalhar, Assembleia da República assuma a questão da revisão da Lei Eleitoral e senhores políticos desenvolvam a descentralização mas não fragmentem o país. Marcelo pegou na pá da padeira de Aljubarrota e não foi brando.

 

SEMANADA - 32% das crianças portuguesas entre os 2 e os 10 anos têm excesso de peso; o movimento de passageiros nos aeroportos portugueses atingiu os 52,7 milhões em 2017 e Lisboa destacou-se com o maior número,  26,6 milhões; de acordo com os dados de 2018 do Bareme Internet da Marktest, 526 mil lares de Portugal Continental possuem televisão com acesso à internet (smart TV) e a penetração deste equipamento duplicou nos últimos 3 anos; segundo a Marktest,  em termos musicais, em Portugal, as mulheres preferem o pop e os homens preferem o rock; durante a Web Summit deste ano registou-se, em Lisboa, um aumento de 20,5 por cento no número de compras e levantamentos nas redes de caixas automáticas e terminais de pagamento; os visitantes do Reino Unido ) foram os que mais operações efectuaram, seguidos dos cidadãos provenientes de França , Estados Unidos, Espanha e Alemanha; efeito colateral da  Web Summit: Lisboa foi citada em 8.195 notícias em meios online de mais de 110 países e segundo um estudo da Cision, os Estados Unidos foram o país que mais destaque deu ao evento seguido da Espanha, Reino Unido, França e Alemanha; a greve dos estivadores do porto de Setúbal está  a pôr em causa a capacidade de escoamento da produção  Auto-Europa ; no terceiro trimestre a economia portuguesa cresceu ao ritmo mais baixo do ano; a diminuição das exportações é a explicação avançada pelo INE para explicar os sinais de abrandamento que a economia portuguesa está a dar; na PSP há sindicatos com mais dirigentes que sócios.

 

ESTATÍSTICAS LISBOETAS - Lisboa tem actualmente 7230 edifícios “em mau ou péssimo estado de conservação”, a par de um total de 2626 imóveis total ou parcialmente devolutos.

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UMA HISTÓRIA DE ANGOLA - Aí está a nova edição de “Teoria Geral do Esquecimento”, um dos mais aclamados livros de José Eduardo Agualusa, editado originalmente em 2012, e que foi distinguido com o Prémio Literário Fernando Namora em 2013, finalista do Man Booker International em 2016 e vencedor do International Dublin Literary Award em 2017. “Teoria Geral do Esquecimento” relata, na personagem de Ludo - Ludovica Fernandes Mano - a história de uma Angola sem rumo no fim da época colonial e nos primeiros anos da independência. No meio de tumultos generalizados Ludo, uma portuguesa assustada pelo que vê passar-se à sua volta, decide proteger-se e isolar-se no seu apartamento, em Luanda, erguendo uma parede que separa o seu apartamento do restante edifício e do resto do mundo e assim vive num universo só seu durante quase trinta anos, costas viradas à realidade que se desenha à sua volta e a tudo o que nessa época se passou - das lutas internas pelo poder à guerra civil, passando por negócios pouco limpos . A ficção desenvolve-se a partir de um imaginário de notas, poemas, desenhos e prosa que Ludo escreveu nesse período, conhecidos depois da sua morte, num hospital, aos 85 anos. Este é um exercício de ficção que se confronta com o recordar de uma dura realidade da Luanda desses tempos, assim evocada por José Eduardo Agualusa.

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ARTES DE TODOS OS TEMPOS - Até dia 18 a Sociedade Nacional de Belas Artes acolhe pela primeira vez a nova Feira da Associação Portuguesa de Antiquários, que passa a coexistir, naquele espaço e nesta época, com a outra Feira da Associação, que decorre em Abril na Cordoaria e que ali se realiza há mais de duas décadas. No novo espaço estão presentes 15 expositores (na Cordoaria este ano estiveram 25). A ideia é proporcionar uma maior selecção das peças expostas, condições de montagem e iluminação mais interessantes e um espaço mais contido. O resultado é bom e a opção de incluir expositores de várias áreas cria um contraste interessante proporcionando a descoberta de peças de todo o mundo representativas de diferentes épocas, países e correntes artísticas, desde a arte antiga à contemporânea, passando pela moderna. Destaco a presença da Galeria Bessa Pereira com peças de mobiliário moderno de referência, nomeadamente as desenhadas por Le Corbusier para alguns dos edifícios do seu plano de criação da nova Chandigarh, a capital do Punjabe na Índia,  no início dos anos 50, em colaboração com Pierre Jeanneret. Mas existem outras peças , como as que estão na fotografia - uma magnífica secretária do arquitecto e designer brasileiro Sérgio Rodrigues, acompanhada por uma cadeira original de Gerrit Rietveld, da segunda metade dos anos 60. Destaque também para as peças de decoração e jóias expostas por Isabel Lopes da Silva, para as obras mostradas pela Galeria S. Mamede e para as preciosidades mostradas por Manuel Castilho. Esta nova Feira de Arte e Antiguidades da APA ficará na Sociedade Nacional de Belas Artes até dia 18 - hoje das 16 às 21h00, sábado das 14 às 21H e domingo das 12 às 19h00. Rua Barata Salgueiro 36.

 

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REVISITAR A SOUL - O cantor de jazz norte-americano José James tem feito carreira introduzindo alguma inovação em repertórios antigos de grandes nomes - a sua reinterpretação de temas de Billie Holiday editada em 2015 sob o título “Yesterday I Had The Blues” passou com distinção na sempre difícil tarefa de fazer versões de obra alheia. Mas é precisamente esse o território onde José James se sente mais à vontade. Reincidiu agora com “Lean On Me”, que pega nos grandes clássicos de Bill Withers, um nome da soul music injustamente pouco recordado. Withers, que ainda vive, gravou entre 1971 e 1985, ano em que se retirou de cena, desgostoso com o caminho que a indústria discográfica levava. Pelo meio ficaram temas como “Ain’t No Sunshine”, “Grandma’s Hands”, “Lean On Me”, “Use Me”, todos retomados neste  novo disco onde José James consegue duas coisas: prestar uma homenagem e, sobretudo, mostrar o talento de Bill Withers, bem exemplificado nas suas 12 canções aqui recriadas. Para além dos temas já citados, destaque para as interpretações de “Who Is He” ou “Hope She’ll Be Happier” e para os arranjos de “Better Off Dead” e de “The Same Love That Made Me Laugh” que são especialmente interessantes, assim como um dos pontos altos deste disco, o dueto de James com Lalah Hathaway em “Lovely Day”.

 

TINTO OUTONAL -  À medida que o Outono entra pelo calendário apetece comida de conforto, acompanhada por um vinho honesto. Esta semana recomendo um vinho facilmente disponível e com uma boa relação de qualidade/preço (cerca de 5 euros)  - o Marquês de Borba Colheita, 2017, feito por João Portugal Ramos a partir das castas Alicante Bouschet, Aragonez, Trincadeira, Touriga Nacional, Petit Verdot e Merlot, fermentação dividida por lagar de mármore e cuba de inox, com controle de temperatura e estágio de seis meses em meias pipas de carvalho francês. É um vinho tinto jovem e suave, recomenda-se que seja servido a uma temperatura entre os 14°C e os 16°C. Tem uma bom aroma, com destaque para os frutos vermelhos, com equilíbrio entre fruta, acidez e taninos suaves. Acompanha bem carnes vermelhas, queijos intensos, pratos de bacalhau ou o tradicional cozido à portuguesa. João Portugal Ramos produz seis milhões de garrafas por ano de várias regiões do país, que têm como destino o Brasil, Estados Unidos, China e Suécia, além de Portugal e o Marquês de Borba é uma das suas marcas mais antigas e mais vendidas.

 

DIXIT - “Estaremos  no Governo quando o povo quiser” - Catarina Martins

 

BOLSA DE VALORES - Hoje, amanhã e Domingo são as últimas oportunidades para ver o magnífico “Worst Of” da companhia Teatro de Praga na sala Garrett do Teatro Nacional D. Maria II, uma revisitação do teatro português feita com humor  e uma encenação invulgar - bilhetes de 10 a 17 euros.

 

BACK TO BASICS - “Não há regras absolutas de conduta, quer na paz, quer na guerra. Tudo depende das circunstâncias” - Leon Trotsky

 

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VITAMINAS ABSTENCIONISTAS - Se o Parlamento não se respeita a si próprio, como podem os eleitores respeitá-lo e porque hão-de os abstencionistas querer votar? A pergunta surge numa semana em que se descobriu mais um caso no Parlamento, depois das moradas falsas que deputados indicaram para ganharem mais uns cobres em subsídios de deslocações. Desta feita a coisa desceu a um nível ainda mais baixo, com um deputado, que é secretário geral do maior partido da oposição, a vigarizar a folha de presenças no plenário, pedindo a um colega de bancada para assinar por ele - no caso electronicamente através de uma password de exclusivo uso pessoal que assim, contra todas as normas, foi desviada da sua finalidade. Nem parece que estamos num parlamento, a coisa assemelha-se a um recreio onde miúdos inconscientes fazem asneiras que pedem a amigos para depois ocultar. A pouca vergonha cometida vale 69 euros por dia - curioso número como em tempos disse um Presidente da Assembleia da República. O facto de um deputado entrar na batota - e o embaraço silencioso dos seus pares - diz tudo sobre o estado a que chegámos. A coisa chegou ao nível das anedotas do menino Tonecas, só que a asneira, em vez de punida exemplarmente pelo líder do partido a que pertence, é classificada por Rui Rio como uma “pequena questiúncula” sem importância. Tenciona ele manter José Silvano como Secretário-Geral do PSD ou vai reforçar a dose de vitaminas abstencionistas ao eleitorado? Este Parlamento está a entrar na idade das trevas. E ao PSD não há luz que o ilumine.

 

SEMANADA - Na semana da Web Summit em Lisboa, a capital grega, Atenas, foi designada Capital Europeia da Inovação; no caso de Tancos, desde que se realizaram as detenções de elementos da PJM, o Presidente da República e o Primeiro Ministro já se pronunciaram publicamente 19 vezes sobre o tema - 11 por parte do Presidente e oito pelo chefe do Governo; António Costa afirmou que o Presidente da República manifestava ansiedade em relação a Tancos; um estudo divulgado esta semana indica que dois em cada três portugueses lêem as notícias de actualidade on line; o total das transações imobiliárias realizadas em 2017, representou um investimento de 24,3 mil milhões de euros, mais seis mil milhões de euros que em 2016, uma variação homóloga de 33,5%; há 14 concorrentes à construção de uma base espacial nos Açores; 50 milhões de euros é o investimento para os próximos cinco anos do STARLab, um laboratório conjunto de investigação e desenvolvimento tecnológico para o Espaço e para os oceanos que vai ser criado por Portugal e a China;  o Governo anunciou 100 milhões de euros para startups tecnológicas provenientes do Fundo Europeu de Investimento Estratégico; a Liga dos Bombeiros Portugueses classificou esta quarta-feira como "completamente desajustada da realidade do país" a nova lei orgânica da Autoridade Nacional de Proteção Civil.

 

IDIOSSINCRASIAS SOCIALISTAS - Manuel Alegre escreveu uma carta-aberta a António Costa, a propósito da posição da Ministra da Cultura sobre as touradas, onde sublinha que “é chegada a hora de enfrentar cultural e civicamente o fanatismo do politicamente correcto”.

 

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ANA, EU GOSTAVA DE IR CONTIGO PARA ÁFRICA - “Metade da Vida”, de V.S. Naipaul, originalmente publicado em 2001 (o ano em que o escritor  ganhou o Nobel) é um romance absolutamente cativante em que parte da história se passa com referências a Moçambique, ainda no tempo em que era uma colónia portuguesa. As origens familiares de Naipaul, vêm da Índia - embora tenha nascido em Trindade e Tobago e ido cedo para Inglaterra, onde estudou. Este romance cruza o dilema da própria família de Naipaul, entre as tradições e castas da Índia e a descoberta de novos mundos. O romance gira à volta de Willie Somerset Chandran, fruto da união entre um pai brâmane e uma mãe de casta inferior. Willie vai estudar para Londres onde, entre várias peripécias e aventuras, publica um livro de contos e se defronta com a descoberta da sua sexualidade - afastada de qualquer sentimento. O amor descobre-o por acaso numa noite londrina com Ana, uma jovem mestiça, de Moçambique, que ali estudava e que lhe escreve elogiando esse livro de contos. Apaixonado pela primeira vez, Willie segue Ana até ao seu país, ainda sob domínio colonial. As páginas do livro em que Willie conta a sua experiência africana, relatadas do ponto de vista de um homem que não sabe de onde vem, são brilhantes. No fim, após 18 anos, em vésperas da independência, Willie decide que precisa de viver outra vida - a que deixou de viver. E parte, dizendo a Ana: “Tenho quarenta e um anos. Estou cansado de viver a tua vida”.  V.S. Naipaul, “Metade da Vida”, tradução de José Vieira de Lima, editado pela Quetzal.

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DE OLHOS NOS OLHOS - Pedro Calapez produziu quatro dezenas de novas obras para serem apresentadas de forma invulgar - a maioria delas cirurgicamente colocadas ao longo das salas da Casa Museu Medeiros e Almeida (na imagem). A exposição tem um percurso recomendado e sugere-se a consulta de uma folha informativa que permite ir seguindo sala a sala o que se passa - e aí procurando e descobrindo as obras (algumas delas em locais pouco evidentes). O título da exposição é “Olhos nos Olhos” : “Procurarmos perceber porque determinados olhares não se fixam no nosso é o que permite penetrar no interior da pintura” - escreve Pedro Calapez no texto que acompanha a exposição. A montagem é muito cuidada, cada obra de Calapez integra-se nuns casos e provoca noutros, no meio da colecção de preciosidades do local, desde a capela à biblioteca, passando pelas outras salas do 1º andar. Na realidade trata-se de uma dupla descoberta - a de visitar este espaço pouco conhecido com a memória que lá está salvaguardada e, paralelamente,  ver a nova produção artística de Calapez, que em várias peças abre pistas de desenvolvimento da sua obra. Para além da miscigenação com a colecção da Casa Museu, há um espaço onde várias obras se apresentam a solo, com destaque para um conjunto da série de onze telas “ A Dor passou Para Os Quadros” e a pintura a pastel de óleo sobre papel “Como Os Homens Se Metem Para Dentro”. Todas as obras seguirão depois para a Alemanha, onde Pedro Calapez terá uma mostra brevemente. A exposição pode ser vista até 21 de Dezembro na Casa Museu Medeiros e Almeida, Rua Rosa Araújo nº 41.

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MAGANICES  - Segundo o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa Magano é quem demonstra pouca ou nenhuma responsabilidade e é dado à lascívia, quem é jovial ou gosta de se divertir ou ainda quem demonstra malícia ou malandrice. Dito isto é também o nome de um trio dedicado à música popular alentejana, sem conservadorismos e com arrojo. Francisco Brito no contrabaixo e teclados, Nuno Ramos na guitarra e voz e Sofia Ramos na voz e no harmónio constituem os Magano cujo disco de estreia acaba de ser editado. O disco tem ainda participações de André Sousa Machado na percussão (exemplares, por sinal) e André Santos na Viola de arame e braguinha. Das 13 faixas deste álbum a maioria é baseada em temas populares.alguns com intervenções nas letras de nomes como João Monge ou Vanda Rodrigues. Dois são originais - “Que É Feito Dos Velhos Montes” de José Borralho e o magnífico “Açorda d’Alho”, uma deliciosa receita cantada de Joaquim Marrafa e Joaquim Banza. Tenho para mim que uma das razões da importância deste disco está nos arranjos e na sua conjugação com a voz de Sofia Ramos - o expoente é o tradicional “Trigueirinha Alentejana”, mas “Promessas” não lhe fica atrás. Sofia Ramos é uma voz rara, pela sua capacidade de interpretação, pelo timbre, pelo ritmo, pela entoação. Não é frequente em Portugal encontrar uma voz assim e, só por si, ela é razão bastante para ouvir este “Magano” com muita atenção.

 

ÁGUA-PÉ E CASTANHAS -  De onde vem a tradição de S. Martinho? Remonta ao início do século V e evoca Martinho de Tours, que fundou o mais antigo mosteiro conhecido na Europa, na região de Ligugé. Conhecido pelos seus milagres, o santo atraía multidões, foi ordenado bispo de Tours em 371 e foi sepultado a 11 de Novembro de 397 DC em Tours, que, por isso,  poucos anos depois se tornou local de peregrinação. Manda a tradição que desde essa época, na véspera e no dia das comemorações, o tempo melhora e o sol aparece, o que está na origem da expressão “verão de São Martinho”. O dia de São Martinho é festejado um pouco por toda a Europa, de forma diferente. Por exemplo em Espanha matam-se porcos, tradição que deu origem ao ditado popular “a cada cerdo le llega su San Martín” (“cada porco tem o seu São Martinho”). Em Portugal é tradição fazer-se uma festa, o magusto, beber-se água-pé ou jeropiga e provar-se  o vinho novo saído das vindimas de Setembro - seguindo o ditado popular, “no dia de São Martinho, vai à adega e prova o vinho”. Mas a grande bebida deste dia é a água pé - que resulta da adição de mosto remanescente das uvas pisadas para o vinho com água e o engaço esmagado - o resultado é uma bebida leve, frequentemente um pouco gasosa. As normas europeias e a cegueira dos burocratas nacionais arredaram a água pé da legalidade e ela passou a ser mais ou menos clandestina ou comercializada com outros nomes. Acompanha bem os petiscos naturais desta época do ano, na celebração do Outono - castanhas, marmelo nas suas várias formas, e romãs.

 

DIXIT - “Se pensam que me calam, não me calam” - Marcelo Rebelo de Sousa

 

BOLSA DE VALORES - A Balcony é uma das mais recentes galerias de arte de Lisboa que trabalha com jovens artistas. “Sanditosamente” é uma exposição de Philipp Schwalb e DeAlmeida e Silva com obras muito estimulantes cujos preços vão de 600 a 8000 euros, dependendo dos materiais e dimensões, a grande maioria entre os 1500 e os 2000 euros. Rua Coronel Bento Roma 12A, www.balcony.pt

 

BACK TO BASICS - Não é a morte que devemos temer, mas sim não sentirmos que devemos começar a viver - Marcus Aurelius Antoninus

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