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A PAISAGEM NACIONAL - O Ministro Eduardo Cabrita deu em fomentar ocupações de propriedades privadas, persistiu na sua teima, mais uma vez viu-se ultrapassado pelos acontecimentos e ficou envolvido em várias contradições, mas António Costa garantiu no Parlamento que tem um excelente Ministro da Administração Interna. Pelo seu lado, Marcelo Rebelo de Sousa demorou cerca de uma semana a afirmar que é preciso tirar consequências políticas da situação em Odemira, considerando que existem problemas na inclusão de imigrantes. A propósito, toda a gente percebe a desgraça do que se passa em Odemira menos Cláudia Pereira, Secretária de Estado para Integração e as Migrações  que há um ano afirmou que “Odemira é um exemplo de integração de migrantes” mas que nas últimas semanas não deu sinal de vida. Mas a coisa não fica por aqui: Constança Urbana de Sousa, a antecessora de Cabrita na Administração Interna, que ficou conhecida pelo seu triste e cruel desempenho nos grandes incêndios de 2017, atirou-se com sanha às declarações de João Cravinho, que em 2018 tinha apresentado um plano de combate à corrupção, esquecido pelo governo de então, dirigido por José Sócrates. O mais curioso é que passados estes anos, e com o PS no poder, depois de todas as juras recentes de combate à corrupção, soube-se agora que este Governo de António Costa vai excluir do novo regime geral de prevenção da corrupção os gabinetes dos principais órgãos políticos e de todos os órgãos de soberania. Estamos pois conversados sobre a realidade dos factos. Nada que espante num Governo onde um dos seus membros, o secretário de Estado da Energia, João Galamba, usou as palavras “estrume” e “asqueroso” para classificar um programa de informação da RTP que já colocou em causa a transparência das suas decisões na atribuição das concessões de exploração de lítio, sob a sua tutela.


SEMANADA - O impacto da pandemia no mundo do trabalho é quatro vezes maior do que aconteceu com a crise financeira de 2008; mais de dois milhões de portugueses, quase 60% dos trabalhadores por conta de outrem, têm uma remuneração mensal inferior a 800 euros; em dois anos o Estado recusou metade das candidaturas a cuidador informal; segundo um estudo da Universidade do Minho os professores consideram que o ensino à distância agravou as desigualdades entre alunos face às suas aprendizagens; segundo a Marktest, durante a pandemia e a alteração nos processos de trabalho e de ensino, verificou-se um grande aumento de utilização de auscultadores, que agora são utilizados por 4,7 milhões de portugueses;  desde o início da pandemia 55,8% dos migrantes viu os seus rendimentos mensais diminuídos, 53% sofreu um impacto negativo na sua atividade profissional e 32,4% estão em situação de desemprego; em 2020, durante a crise e a pandemia,  a carga fiscal em Portugal aumentou  para os 34,8% do PIB, um novo recorde; António José Seguro, ex-líder do PS, criticou os líderes europeus, incluindo António Costa, de “duplicidade” e de “matar a UE”; o juiz conselheiro José Manuel Quelhas disse no Parlamento que o Tribunal de Contas não tem dúvidas de que os financiamentos do Fundo de Resolução no Novo Banco são “dinheiro público” e “oneram os contribuintes”.

ARCO DA VELHA - Em 2017, Evgeny Kazarez assessorou o Banco de Portugal na venda do Novo Banco à Lone Star. Um ano depois, foi para o grupo americano, onde hoje é administrador. No Parlamento disse que não via conflito de interesses na situação.

 

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UM NOVO CALAPEZ - “Debaixo de Cada Cor” é o título escolhido por Pedro Calapez para o conjunto de novas obras que apresenta na Galeria Belo-Galsterer (Rua Castilho 71) até 31 de Julho. São duas dezenas de obras onde Calapez explora várias técnicas, algumas delas pouco usuais na sua obra, ao mesmo tempo que regressa ao trabalho a óleo sobre tela e, noutros casos, explora possibilidades de desenho. De diferentes formatos, as obras têm valores que vão dos 975€ aos 22.755€, e as que aqui se reproduzem estão indicadas a 4.950€. Ao mesmo tempo, noutra sala da galeria está “Desarrumada”, uma nova exposição de Rita Gaspar Vieira. Outras sugestões: na Galeria Vera Cortês (Rua João Saraiva 16), Alexandre Farto, Aka Vhils, apresenta até 12 de Junho a sua  exposição, “Fenestra”, uma instalação de vídeo onde fragmentos de diversas cidades são projectados nas quatro paredes da sala da galeria; na Galeria Francisco Fino (rua Capitão Leitão 76), uma exposição de fotografia de José Pedro Cortes, “Corpo Capital”, mostra até 24 de Julho uma selecção de trabalhos recentes em torno do corpo humano, da natureza e da arquitectura; na Galeria das Salgadeiras (Rua da Atalaia 12) está a primeira exposição de Carlos Alexandre Rodrigues, “Shadows As Memories”, na qual o artista, a partir de uma fábrica de cerâmica, ficciona e encena peças que evocam um tribunal onde se esgrimem argumentos. Finalmente na Covilhã abriu a 14 de maio a primeira edição do Diafragma - Festival Internacional de Fotografia e Artes Visuais, que em quatro espaços da cidade apresenta até 6 de Junho trabalhos de duas dezenas de autores de seis países. Entre as presenças portuguesas destaque para Duarte Belo e Luísa Ferreira.

 

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O DETECTIVE DOS AMORES -  O caso é este: no início de 1989, em Havana, um detective cubano, Mario Conde, é acordado pelo seu chefe para investigar o desaparecimento de Rafael Morin, dirigente de uma empresa estatal, homem de carreira brilhante e futuro promissor, desaparecido desde as celebrações do Ano Novo. Coincidência: Morin fora colega de escola de Conde e a mulher do desaparecido, Tamara, fazia parte da sua lista de amores passados. A Porto Editora começou agora a editar “Quarteto de Havana”, que agrupa como o nome indica, várias histórias do detective Mario Conde, a personagem criada por Leonardo Padura. Neste primeiro volume estão “Um Passado Perfeito”, a investigação do desaparecimento de Rafael Morin, e também “Ventos de Quaresma”, o relato de como Mario Conde foi chamado para resolver o estranho homicídio de uma exemplar professora de Química do Pré-universitário que, anos antes, também fez parte da sua lista de casos sentimentais. Ao mesmo tempo, Conde conhece Karina, uma amante de jazz por quem se perde de amores. E assim, Mario Conde vive dias onde a investigação se cruza com prazeres diversos, alguns vícios, o tráfico de influências, a fraude e a lembrança dos tempos de juventude. O jornal “The Independent” sublinhou que o conjunto de romances de Leonardo Padura sobre o detective cubano Mario Conde mudou a literatura policial latino-americana. O autor nasceu em Havana em 1955, estudou Filologia, trabalhou como guionista, jornalista e crítico, mas foram as aventuras de Mario Conde que lhe trouxeram fama e proveito.

 

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CANÇÕES DE AMOR - Volta e meia, mas é raro, uma voz de que nunca tinha ouvido falar cai-me em cima como um raio de luz. Quando essa voz é acompanhada por arranjos inesperados e inteligentes, executados por músicos virtuosos mas com sentimento (uma raridade - o mundo está cheio de gente que toca bem mas não põe alma no assunto) tudo fica ainda mais fascinante. “The Bitter Earth”, o novo álbum de Veronica Swift, é exemplar. Ela tem 27 anos, vem de uma família musical - o pai pianista de jazz e a mãe cantora. Começou a gravar e a cantar em público cedo - vai com cinco álbuns gravados em nome próprio e participou como convidada em mais uma dezena. Já recebeu prémios e reconhecimento e fez digressões com o trio de Benny Green e com Wynton Marsalis. Tem uma capacidade vocal invulgar e nos 13 temas que integram este novo disco há sobejas provas disso mesmo. Em “This Bitter Earth” ela volta ao cancioneiro norte-americano e aborda-o de forma inesperada como é bem prova a faixa título, que é também a primeira do disco. "This Bitter Earth” foi um dos grandes êxitos de Dinah Washington em 1960. Mas logo a seguir, em “How Lovely To Be A Woman” ela mostra a sua enorme versatilidade - e alguma ironia nestes tempos da era me too. Uma das suas interpretações mais poderosas neste disco é “He Hit Me (And It Felt Like A Kiss)”, que ela encara como uma canção de amor, uma balada a que a guitarra de Armand Hirsch empresta um lado de balada, longe do original das Crystals. O pianista que acompanha Veronica Swift é Emmet Cohen, e o seu papel é decisivo em toda a estrutura musical do álbum. Ouçam este “This Bitter Earth",  disponível nas plataformas de streaming.

 

PETISCO RÁPIDO MULTI-REGIONAL- Hoje volto às receitas - não sem antes confirmar que no regresso à cidade comprovei que o Salsa & Coentros continua em grande forma e com a qualidade de sempre. Aquelas empadinhas, os ovos mexidos com túberas… é melhor não dizer mais nada. Vão lá experimentar. Mas passemos então à receita. É simples e faz-se rápido: puré de batata doce com filetes de atum de conserva em azeite virgem. Mas tem truque - que já direi à frente. Primeiro, convém que a batata doce seja de boa qualidade, de preferência com a polpa alaranjada. A ideia é uma batata doce média por pessoa. Primeiro descasca-se e parte-se às rodelas grossas e coze-se em água abundante, quando se picar bem com o garfo tira-se da água, escorre-se bem, e usando um garfo ou um esmagador, vai-se desfazendo a batata até ficar numa boa consistência - sem ser demasiado triturada. Nessa altura eu adiciono ao tacho com a batata já esmada uma colher de sopa bem medida de manteiga e misturo tudo muito bem em lume brando. No fim um pouco de pimenta preta moída de fresco e misturo bem tudo de novo. Emprato ao lado do atum (já digo qual) e polvilho o puré com cebolinho. E agora o atum: uma lata por pessoa, do açoreano Santa Catarina, variedade filete de atum temperado com gengibre (na Mercearia Açoreana existe esta marca em várias variedades). Vão ver que é uma bela refeição, rápida e cheia de sabores. Acompanha um encruzado do Dão. E remata com uns morangos de Palmela. Prato regional: batata doce de Aljezur, atum dos Açores, vinho do Dão e fruta de Palmela. 

DIXIT - “Como seria bom que a actual direcção do PSD, de vez em quando, pelo menos, apresentasse trabalho digno dese nome. Mas deve ser pedir muito” - Paula Teixeira da Cruz.

BACK TO BASICS - A educação é aquilo que fica depois de se esquecer o que foi ensinado  - B. F. Skinner, psicólogo e filósofo norte-americano.






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PARA QUE SERVE UMA COLIGAÇÃO? Creio que a ideia de uma coligação pré-eleitoral é garantir que os partidos que a integram tragam os seus melhores elementos para a lista de candidatos, contribuindo para que o objectivo de vitória nas urnas possa ser alcançado. Seria pois de esperar que o CDS, integrante da coligação que apoia a candidatura de Carlos Moedas à Câmara Municipal de Lisboa, trouxesse para o núcleo duro da contenda eleitoral aquele que foi o mais destacado vereador da oposição ao longo dos mandatos de Medina - João Gonçalves Pereira. Sem querer menorizar os evidentes méritos de Assunção Cristas nas últimas autárquicas de Lisboa, o resultado que ela obteve deveu-se muito ao conhecimento que João Gonçalves Pereira tem da cidade e dos seus problemas. Acontece no entanto que Gonçalves Pereira não é da facção de quem agora manda no CDS, Francisco Rodrigues dos Santos. E, por isso mesmo, o actual líder do CDS já deu sinais públicos de que não queria Gonçalves Pereira envolvido na próxima e dura disputa autárquica na capital. Eu tenho uma grande dificuldade em perceber estas coisas: porque é que os partidos políticos, em vez de se basearem em guerras internas, não se baseiam no reconhecimento do mérito e eficácia dos seus quadros? Fazem destas e depois queixam-se de que as pessoas não confiam nos políticos. As perguntas às quais o actual líder do CDS deve responder, são estas: qual a ideia de participar numa coligação se não se faz tudo para alcançar a vitória? Francisco Rodrigues dos Santos quer mesmo derrotar Medina, ou prefere ajudá-lo?

 

SEMANADA - Diogo Lacerda Machado, amigo e conselheiro do Primeiro-Ministro, é consultor de uma empresa britânica que tem um projecto de 3,5 mil milhões de euros em Sines, curiosamente anunciado com pompa por António Costa no passado dia 23 de Abril; uma sondagem recente indica que dois terços dos portugueses não confiam na justiça nem nos juízes; a meta estabelecida pelo Primeiro Ministro para entregar 26 mil casas a famílias carenciadas em Abril de 2024 vai derrapar mais de dois anos para o terceiro trimestre de 2026; o número de imigrantes em Portugal é agora cerca de 660 mil, mais setenta mil do que antes da pandemia; mais de 700 mil famílias deixaram de pagar os créditos no ano passado; a compra de automóveis está 40% abaixo do nível pré-covid; a adesão a contas bancárias de custo reduzido disparou 25% em 2020; segundo a Marktest no último ano duplicou o uso de apps em telemóvel para encomendar refeições; o Tribunal de Contas encontrou deficiências nos mecanismos de controlo dos pagamentos efectuados ao Novo Banco pelo Fundo de Resolução, na dependência do Banco de Portugal; a gestão do Novo Banco pretende receber um prémio de 1,9 milhões de euros depois de no exercício de 2020 ter registado um prejuízo de 1329 milhões; a dívida pública portuguesa alcançou novo máximo no final de Março, atingindo 275,3 mil milhões de euros; uma sondagem recente indica que só 10% dos portugueses consideram que vivem em plena democracia; em Portugal cerca de metade dos alunos de 15 anos não sabe distinguir factos de opiniões revela um relatório da OCDE.

 

ARCO DA VELHA - O Governo escondeu durante vários dias 1738 páginas de informações detalhadas sobre reformas e investimentos previstos no Plano de Resiliência, com datas e objectivos, entregues em Bruxelas, mas que só foram divulgadas em Lisboa após pressão pública.

 

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UM LONGO MISTÉRIO - “Tinta Simpática”, o novo livro de Patrick Mondiano agora editado em Portugal, foi publicado originalmente em 2019 e relata a investigação feita por um detective, Jean Eyben, sobre o desaparecimento de Noelle Lefebvre. A investigação parte de um cartão de identificação junto dos correios, que permitiria a Noelle levantar correspondência que lhe fosse endereçada para a posta restante. Um cartão com uma fotografia desvanecida, um nome e um carimbo dos correios eram a única pista que tinha. O jovem detective, então no início da carreira, falou com a porteira do prédio, foi verificar se existia correspondência, sentou-se no bar da vizinhança onde ela costumava ir. Zero pistas em todos os lugares. Ninguém a havia visto recentemente. Patrick Modiano, 75 anos, nasceu perto de Paris, escreveu para cinema, ganhou diversos prémios literários em França, incluindo o Goncourt, e em 2014 recebeu o Nobel da Literatura. Neste “Tinta Simpática” o autor mantém os leitores suspensos num mistério contínuo: uma mulher desapareceu, volatilizou-se em Paris, num caso que, mesmo 30 anos depois, continua a assombrar o detetive contratado para a encontrar. E o seu insucesso e frustração fazem-nos compreender até que ponto somos prisioneiros do nosso passado.

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DIZER POESIA - Marianne Faithfull é uma sobrevivente e não apenas musicalmente. Há uns anos lutou contra um cancro e, na primavera de 2020, esteve em estado crítico durante três semanas, nos cuidados intensivos, com Covid-19. Quando contraíu o vírus estava a começar a trabalhar no seu novo projecto com o produtor dos Radiohead e a colaboração de Warren Ellis, dos Bad Seeds. Trata-se de uma viagem pelos poemas românticos do século XIX que a marcaram, ainda estudante, no início dos anos 60, antes da sua viagem alucinante pelos bastidores e palcos do rock. O projecto deu num álbum, agora editado, “She Walks In Beauty”. Marianne Faithfull lê obras de Byron, Keats, Shelley, Tennyson, Wordsworth e Hood, ao todo onze poemas, com um pano de fundo musical delicadamente construído por Warren Ellis e a participação ocasional de nomes como Nick Cave, Brian Eno e Vincent Ségal. A sua voz é forte, a interpretação dos poemas é contida, mas marcante, com uma entoação envolvente. As paisagens sonoras desenhadas por Ellis nunca se sobrepõem à voz de Marianne Faithfull e procuram enquadrar e destacar a interpretação que ela faz dos poemas. A forma perturbante como ela diz “Ozymandias”, de Shelley, mostra a sua enorme capacidade. E vale a pena ver o vídeo disponível no YouTube para o poema de Lord Byron que dá o nome ao álbum, “She Walks In Beauty”. Os dois anteriores discos de Faithfull, “Give My Love To London” de 2014 e “Negative Capability” de 2018 já a tinham mostrado em grande forma e agora esta inesperada viagem pela poesia romântica, aos 74 anos, é um exemplo de como o talento pode ultrapassar todas as dificuldades. Disponível em CD e streaming e ainda numa edição especial em Vinil que inclui um pequeno livro com todos os poemas, à venda na FNAC.

 

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O QUE SE PODE VER - No Porto, na Galeria Nuno Centeno, pode ser vista até 5 de Junho uma exposição colectiva, Os Coniventes (na imagem), com curadoria de Pedro de Llano e obras de Alisa Heil, André Sousa, Ángela de la Cruz, Blake Rayne, Carolina Pimenta, David Lamelas, Dalila Gonçalves, Fernando José Pereira, Gabriel Lima, Gretta Sarfaty, Josephine Pryde, Mauro Cerqueira, Merlin Carpenter, Silvestre Pestana e Stephan Dillemuth. A Galeria Nuno Centeno fica na Rua da Alegria 598. Outras sugestões: na Galeria das Salgadeiras pode ver “Shadows As Memories”, de Carlos Alexandre Rodrigues. Em Lisboa, na Biblioteca Nacional, até 30 de Julho está “O Atlas Suzanne Daveau” que agrupa fotografias que ela efectuou ao longo da sua carreira e que registaram as sociedades rurais ocidentais e sociedades tribais de África. O Atlas Suzanne Daveau agrupa-se em quatro áreas - Rural, Humanidade,  Cidade e Natureza. A exposição resulta de uma pesquisa desenvolvida ao longo de um ano por Duarte Belo e Madalena Vidigal sobre o trabalho da geógrafa que foi casada com Orlando Ribeiro, o autor de obras de referência da geografia portuguesa. E entretanto eis que surge o primeiro NFT português - um Non Fungible Token, uma forma de arte digital. Leonel Moura, um artista plástico que tem explorado recursos tecnológicos, colocou à venda por 40.000 Euros na plataforma OpenSea um quadrado negro com 100 milhões de pixéis, criado por um algoritmo de Inteligência Artificial.

 

O JAPÃO NAS AVENIDAS NOVAS - Inaugurado já há alguns anos, o Go Juu começou por ser um clube privado de sócios que partilhavam o gosto pelo sushi, clientes fiéis de Mestre Takashi Yoshitake, o japonês que verdadeiramente mostrou aos portugueses a melhor tradição da cozinha do seu país. O Aya foi o restaurante que criou e onde formou vários sushimen que seguiram os seus ensinamentos. Alguns desses sushimen, herdeiros da tradição e do saber de Yoshitake san, ajudaram a criar a boa reputação do Go Juu. Aos poucos o conceito de clube privado evoluíu e hoje o restaurante é aberto ao público e a procura é grande. A qualidade e frescura do peixe utilizado é garantida e é uma das bases do sucesso. A sala dispõe de uma dezena de mesas, uma pequena sala reservada e um balcão que fora da pandemia era o ponto de excelência para os clientes se sentarem e assistirem ao trabalho dos sushimen enquanto faziam a sua refeição. A lista é abundante, com algumas especialidades que variam conforme o peixe que chega todos os dias. Num jantar recente, nas entradas distinguiu-se uma tempura de pequenos camarões do Algarve e houve oportunidade de provar uma das especialidades mais procuradas, um toro tataki, uma delícia feita a partir da melhor parte do atum. A sopa miso, servida com um misto de sushi e sashimi, merece também nota positiva. O vinho que acompanhou a refeição foi Um Quinta da Giesta, do Dão, e a presença da casta encruzado combinou muito bem com os pratos escolhidos. Pena que insistam em manter o vinho fora da mesa e que nem sempre haja a atenção suficiente para que ele não falte.  De resto o Go Juu continua a ser um dos melhores locais de Lisboa para quem gosta de sushi. Rua Marquês Sá da Bandeira 46A, telefone 218 280 704.

 

DIXIT - “Nunca me movi no sentido de ser famoso” - Julião Sarmento

 

BACK TO BASICS - Se o conhecimento pode causar problemas, não é certamente através da ignorância que os podemos resolver - Isaac Asimov

 




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A MONOCULTURA - Sempre me disseram que nenhuma organização deve depender de um único cliente e de uma única oferta. Que uma empresa que tem a maior parte da sua facturação proveniente de uma só entidade corre um sério risco se por qualquer razão o cliente deixar de querer os seus serviços. Este parece ser um princípio básico de gestão: alargar a carteira de clientes, diversificar, não deixar de procurar novas oportunidades. Pois foi exatamente neste erro, salta agora à vista, que Lisboa caíu. Vá-se lá saber porquê alguém convenceu quem manda que o turismo era a solução para todos os problemas da cidade. Trazia receitas, fomentava o consumo na hotelaria, na restauração e de uma forma geral no comércio da cidade. O orçamento da autarquia cresceu graças às taxas sobre o turismo e os turistas, mas apesar de tudo Lisboa continuava barata para os visitantes estrangeiros, o nosso clima era o nosso petróleo, e plataformas como o airbnb ajudaram a transformar tudo de forma muito rápida. Tal como as chinchilas na década de 60 e os croissant de chocolate na década de 70, o turismo era agora a nova galinha dos ovos de ouro. Mas como todos os galináceos, tem uma vida incerta. Neste caso não acabou no forno, mas caíu vítima da pandemia. Como essa era a grande fonte de receita do município e de facturação da cidade, quando se esvaíu, tudo se complicou. A única lição a tirar é que convém que uma cidade não dependa de uma só actividade. Por isso o futuro de Lisboa passa por criar mais pólos de atracção, não só para turistas estrangeiros, mas que tenha em conta outras possibilidades competitivas que os portugueses podem oferecer. O mal de Medina não esteve só nos imbróglios do urbanismo - que vamos ver se não acabam prescritos - nem no sistemático desprezo pelo conforto dos lisboetas. O grande mal de Medina foi a monocultura. E quem se enganou assim não é a melhor cabeça para mudar a cidade e fazê-la remoçar.

 

SEMANADA -  Até Março os consumidores portugueses gastaram mais 125 milhões de euros em supermercados, um aumento de 5,5% em relação a igual período do ano passado e as bebidas foram o sector com o maior crescimento, de 20,7%; o estudo  "Radar da Reciclagem" revelou que 46,4% dos portugueses afirmam reciclar mais quantidade de resíduos face há um ano e indica um aumento do lixo doméstico durante os períodos de confinamento; 47% é o peso dos impostos na fatura doméstica da electricidade em Portugal, o que significa que é o terceiro valor mais alto na Europa, apenas atrás da Dinamarca e Alemanha; um estudo da Marktest indica que em Portugal, em 2020, existiam cerca de 7,7 milhões de smartphones a serem utilizados, um crescimento de 14% face ao ano anterior; ainda segundo a Marktest cerca de 1,7 milhões de portugueses afirmaram ter ar condicionado, o que significa que mais do que um em cada cinco portugueses reside num lar com este tipo de instalações; o saldo orçamental das Administrações Públicas agravou-se em 2.358 milhões de euros no primeiro trimestre face ao mesmo período do ano passado; o consumo de combustíveis aumentou 24% em Portugal durante o mês de março face ao mês anterior, em consequência do desconfinamento; o Porto de Lisboa já tem anunciadas 308 escalas de cruzeiros para 2022 com um total de 700 mil passageiros; o estudo Vacation Rental indica que mais de metade dos portugueses que estão a planear as férias  prefere viajar dentro do próprio país e 31% planeia viajar para países europeus; o Primeiro Ministro António Costa inaugurou na segunda-feira uma obra ferroviária atrasada e inacabada na ligação entre Viana do Castelo e Valença.

 

ARCO DA VELHA  - No meio do actual debate sobre a corrupção de políticos, o ex-Ministro João Cravinho veio recordar que em 2006 tinha apresentado um plano anti-corrupção recusado “liminarmente” pelo governo da época, chefiado por José Sócrates.

 

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O DESAFIO DOS NOVOS -  A Galeria Módulo tem um trabalho consistente na descoberta e divulgação de novos artistas. Mário Teixeira da Silva, o galerista, admite que lhe dá particular satisfação acompanhar o início da carreira de um artista, algo que classifica de estimulante.  Até 15 de Maio a Módulo expõe o conjunto de obras “Ponto E Vírgula” de Fátima Frade Reis, que inclui guache, aguarelas e gravuras de exemplar único que a artista encara como “retratos, auto-retratos e ficções”. O trabalho baseia-se numa técnica exemplar e rigorosa que serve o que deseja mostrar. O galerista descobriu-a entre os finalistas da escola ARCO, em Lisboa e mostra-a agora na Módulo (Calçada dos Mestres 34, Campolide). Os preços oscilam entre os 220 e os 700 euros e uma grande parte da exposição já está vendida. Outras sugestões: na Fundação Carmona e Costa “É Só Uma Ferida” de Pedro Barateiro . Na Porta 14  (Calçada do Correio Mor), Pedro Calapez apresenta uma nova faceta da sua obra e em Guimarães até 4 de Julho apresenta no Museu da Sociedade Martins Sarmento uma seleção de obras nos últimos oito anos do seu trabalho. E na Galeria de Santa Maria Maior, (Rua da Madalena, 147), Corrêa dos Santos, 87 anos, repórter fotográfico, há 70 anos a percorrer os acontecimentos e as ruas de lisboa, tem uma exposição de vida.

 

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ENTRE GOSPEL E FOLK - Valerie June nasceu em 1982 em Memphis, Tennessee, e cresceu a ouvir folk, blues, muito gospel, soul e country nos seus vários géneros. Publicou agora o seu terceiro álbum, “The Moon And Stars: Prescription for Dreamers”. O disco anterior, “The Order Of Time”, data de 2017 e foi incluído pela revista “Rolling Stone” na lista dos melhores 50 discos desse ano. E exactamente em 2017, numa entrevista, Bob Dylan inclui o nome de Valerie June entre os artistas que ouvia e respeitava. O trabalho de Valerie é indiscutivelmente alicerçado na música popular norte-americana, numa mistura entre blues electrificados e folk tradicional, com toques de country e uma presença marcada de gospel, evidente na sua forma de cantar e fazer arranjos. Neste novo disco, ela é acompanhada pela grande Carla Thomas em “Call Me A Fool”, um clássico instantâneo que é um retrato perfeito daquilo que Valerie June gosta de criar. “The Moon And Stars: Prescription for Dreamers” é um disco marcado pelo sentimento de amor e de perda ao longo das suas 14 faixas, e a crítica tem afirmado que se trata do mais maduro e marcante trabalho - que tem no tema “Within You” o melhor exemplo da sua criatividade e capacidade. “You And I” sintetiza o espírito do álbum: “When the love left just a friendship/ That's when we found our greatest gift”. Ou seja, conseguir olhar para o passado e aproveitar o melhor para seguir em frente. Disponível nas plataformas de streaming.

 

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O LADRÃO SEDUTOR - Maurice Leblanc foi um jornalista e escritor francês que em 1905 criou a figura de Arsène Lupin, apresentado como um elegante cavalheiro ladrão, de monóculo e cartola e que era a sua resposta ao muito inglês Sherlock Holmes. Leblanc estava longe de imaginar que, mais de um século depois de ter escrito as primeiras aventuras de Lupin, o seu personagem se tornaria numa estrela planetária através de uma plataforma de streaming, a Netflix. “Lupin”, a série francesa de 10 episódios estreada em 2021, foi também um êxito em Portugal, fazendo muitos espectadores descobrir os encantos do cavalheiro ladrão nascido na Belle Époque, no século passado, a época que Paris viveu como nenhuma outra capital europeia. Este foi o palco onde se desenrolaram crimes fantásticos e intrigantes da autoria de Arsène Lupin, um ladrão hábil, carismático e sedutor, eternamente perseguido pelo inspector Ganimard. Aproveitando a notoriedade que a Netflix deu ao herói de Maurice Leblanc, a Porto Editora reuniu as primeiras nove aventuras do seu personagem em “Arsène Lupin, Cavalheiro Ladrão”, agora editado. Maurice Leblanc escreveu mais de duas dezenas de aventuras de Lupin e este volume é uma boa introdução ao personagem e aos expedientes a que recorre - para escapar à polícia ou praticar roubos arriscados. Um aventureiro chic. 

 

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O LEITÃO - A raça Bísara é uma das raças autóctones nacionais de suínos. Os seus leitões são alimentados exclusivamente de leite materno até à altura do desmame, que ocorre por volta dos 45 dias. Têm uma carne aveludada, com uma côr rosada e um sabor especial que o distingue de outras raças suínas. O leitão bísaro tem também características morfológicas diferentes dos demais - é mais comprido e delgado, o que permite nomeadamente uma maior penetração dos temperos na carne. Quando se fala de bom leitão assado, é da raça bísara que falamos - mas não é muito frequente encontrá-la, mesmo na zona da Mealhada onde a quantidade nem sempre rima com qualidade. Felizmente a quantidade não é a preocupação do Leitão da Vila, um paraíso para os apreciadores deste petisco, situado em Coina, perto do Barreiro. A casa tem menos de dez anos mas o seu proprietário, António José Rebocho, aprendeu há muito mais tempo o segredo da preparação, do tempero e do forno, para poder servir um leitão assado excepcional. A casa é pequena, menos de duas dezenas de lugares na conjuntura actual, só abre ao almoço e encerra ao Domingo. Faz take away mas em quantidades limitadas para não prejudicar o serviço da sala nem a qualidade do que serve. O leitão chega à mesa muito bem cortado, acompanhado de um competentíssimo molho, um arroz de miúdos e batatas fritas às rodelas, feitas na hora, além da indispensável salada de alface, fresca e viçosa, com rodelas de cebola crua. Antes disso chegam à mesa ou uns rissóis ou umas empadas, obviamente de leitão, e um queijo fresco de ovelha para quem quiser, ao lado de umas azeitonas tem temperadas. A lista de vinhos não é extensa mas tem preciosidades como o Coteis Grande Escolha, um daqueles vinhos intensos, de 16º, proveniente de Moura. No final, se quiser, há um pastel de nata caseiro, que vem quente para mesa, onde a massa e o recheio são perfeitos. A carta aceita reservas mas não vá com pressas que sobretudo ao fim de semana vai ter que esperar uma data disponível. Leitão da Vila, Rua Professora Rita Amaro Duarte, Coina, telefone 935849213.

 

DIXIT - Desde que este executivo assumiu o poder, ficaram por cumprir ou gastar mais de 3,5 mil milhões de euros em investimentos face ao que ficou definido nos vários Orçamentos de Estado” - Luís Reis Ribeiro

 

BACK TO BASICS - “A Liberdade implica responsabilidade e essa é a razão porque a maioria das pessoas a teme” - George Bernard Shaw

(Publicado no Weekend do Jornal de Negócios de 30 de Abril 2021)





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OS PECADOS URBANOS - Luís Afonso, o autor do Bartoon, é um dos grandes humoristas portugueses. Nesta semana, depois de se conhecerem as investigações em curso na Câmara Municipal de Lisboa por suspeitas de corrupção no urbanismo, o comentário do seu personagem central é demolidor: “Que mania de investigar crimes que não existem em Portugal”. Há muitos anos que os serviços de urbanismo da Câmara Municipal de Lisboa são acusados de lentidão, critérios confusos e diferentes e, em diversas ocasiões, surgiram publicadas informações sobre processos recusados de forma incompreensível ou aprovados com suspeita de favorecimento. Seja como fôr há muito que a actual gestão da autarquia lisboeta devia ter resolvido a situação. Mas não  o fez e as acusações foram crescendo e envolvendo desde vereadores do pelouro a responsáveis e técnicos dos serviços. É uma situação insustentável. Segundo a Polícia Judiciária estão em causa suspeitas de práticas criminosas no exercício de funções públicas. Nos últimos anos, até ao eclodir da pandemia, houve uma explosão descontrolada de hotéis e Alojamentos Locais fazendo disparar o valor dos imóveis e rendas, que obrigou os lisboetas a abandonar a cidade. Este é o retrato da gestão Medina. O actual Presidente da Câmara havia prometido seis mil casas de renda acessível no seu mandato e 20 mil a longo prazo para jovens e famílias de classe média até 2021. Onde estão elas? Por outro lado a obsessão por obras marcou a governação de Medina, com um investimento excessivo e muitas vezes sem sentido em ciclovias, que contrasta com uma fraca aposta nos transportes públicos, os quais se tornaram incapazes de responder à procura durante o último ano de pandemia, com veículos lotados, fazendo perigar a saúde pública. Entre as grandes obras, as da segunda circular estão entre as que agora são alvo de investigação. Tal como os transportes públicos, os prometidos novos centros de saúde e escolas não passaram de promessas. Medina desdobra-se agora em inaugurações, novos prazos e novas promessas. Mas convém não esquecer a forma como ele tornou a cidade num parque de diversões para visitantes e num problema para residentes.



SEMANADA - O número de alunos que frequentam cursos técnicos superiores cresceu 6% neste ano lectivo, há quase 13 mil inscritos em mais de 400 cursos curtos e mais de metade dos que os concluem ingressam depois numa licenciatura; na última década duplicou o número de concelhos só com dois balcões bancários; Portugal tem hoje a mesma extensão de linhas de caminhos de ferro que em 1893; das cerca de três mil freguesias portuguesas apenas 370 são lideradas por mulheres; um inquérito da CIP indica que o Plano de Resiliência não terá significado para 48% das empresas; apesar de todas as declarações sobre a importância da Economia do Mar o PRR, dos cerca de 250 milhões de euros que lhe dedica, dirige cerca de 230 para investimento público, sobrando apenas 20 milhões para a economia real e desenvolvimento das empresas do sector; Março foi o quarto mês consecutivo de aumento dos inscritos nos centros de emprego, que agora totalizam 432 mil e em alguns concelhos o número de desempregados mais que duplicou no espaço de um ano; um estudo divulgado esta semana indica que desde o Natal que a mobilidade dos portugueses nos dias úteis não era tão alta e no último fim de semana a circulação da população aproximou-se do que acontecia no verão do ano passado; entre 16 de Março e 18 de Abril duplicou o número de pessoas que responde “não” ao SMS da vacinação contra o Covid-19;  a Sport TV registou um prejuízo de 5,7 milhões de euros no ano passado, um agravamento de 569% face ao período homólogo; os assinantes de TV paga em Portugal triplicaram em 20 anos e  agora 93% das famílias utilizam o serviço, metade delas através de fibra óptica. 

 

ARCO DA VELHA  - A Assembleia da República aprovou 52 recomendações ao Governo no primeiro ano desta legislatura e metade foram ignoradas, entre elas a requalificação das zonas ardidas em 2017 e a elaboração de um plano para evitar a seca do Tejo.

 

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ESCULTURA & FOTOGRAFIA - As esculturas de Alberto Giacometti e as fotografias de Peter Lindbergh coexistem na exposição “Capturar O Invisível”, que está até 24 de Setembro no Museu da Misericórdia do Porto, no centro histórico da cidade. Bronzes e desenhos de obras de Giacometti, selecionados por Lindbergh, que são apresentados ao lado das suas fotografias (na imagem). Lindbergh, que se tornou conhecido sobretudo pela fotografia de moda, é fascinado desde jovem pelo trabalho e pela personalidade de Alberto Giacometti. Em 2017 Peter Lindbergh foi convidado a fotografar na Fundação Giacometti em Paris,  foi-lhe dada carta branca e fotografou as peças de bronze de Giacometti, tratando-as como modelos. Utilizando close-ups e grandes ampliações Lindbergh revela através da fotografia aspectos das esculturas de Giacometti impossíveis de perceber a olho nu. Em simultâneo, ao associar obras de diferentes períodos nas suas imagens, o fotógrafo estabelece um diálogo através de períodos e estilos. Em Lisboa, Na Biblioteca Nacional pode ser vista até 30 de Julho a exposição “O Atlas Suzanne Daveau” que agrupa fotografias que efectuou ao longo da sua carreira e que registaram as sociedades rurais ocidentais, sociedades tribais de África, paisagens quase intocadas pela mão humana, e também as transformações ocorridas num mundo em progressiva mudança. O Atlas Suzanne Daveau agrupa-se em quatro áreas - Rural, Humanidade,  Cidade e Natureza. A exposição resulta de uma pesquisa desenvolvida ao longo de um ano por Duarte Belo e Madalena Vidigal sobre o trabalho da geógrafa que foi casada com Orlando Ribeiro, o autor de obras de referência da geografia portuguesa.

 

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CRUZAMENTOS SONOROS - “Uneasy” é o quarto registo em trio do pianista Vijay Iyer, entre os seis discos que já gravou  para o catálogo da ECM. Neste disco junta-se a Linda May Han Oh no baixo e Tyshaw Sorey na bateria. Esta nova formação reforça o sentido rítmico da sua música e abre novos caminhos em relação aos seus trabalhos anteriores, apresentando-se agora mais jazzy. Ao longo dos onze temas originais deste “Uneasy” desfilam as interpretações musicais que Vijay Iyer faz do mundo contemporâneo. Destaco temas como “Children On Flint”, “Combat Breathing”, a colaboração em “Touba” com Mike Ladd, um poeta e performer de Boston conhecido pelo seu trabalho no hip-hop e com quem tem colaborado ao longo dos anos. Vale a pena ouvir o seu solo de piano em “Augury” ou a evocação oriental em “Entrustment”. Saliento ainda a sua versão de standards do jazz como “Night And Day'' e “Drummer’s Song”. Vijay Iyer, que dentro em breve completa 50 anos, nasceu nos Estados Unidos filho de emigrantes Tamil vindos da Índia e desde cedo na sua carreira se interessou por cruzar experiências de diversas culturas. Edição ECM disponível em streaming.

 

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POLÉMICA À VISTA - Preparem-se para o choque e a polémica: “Teorias Cínicas” é um livro sobre como activistas académicos reduziram tudo a raça, género e identidade - e os efeitos que isso tem gerado nas sociedades ocidentais. A  ensaísta Helen Pluckrose e o matemático James Lindsay procuram desmontar algumas das teses mais polémicas dos movimentos intelectuais que se apresentam sob a capa da defesa da  justiça social e afirmam que os estudos activistas e radicais, com a sua cultura de guerra e de cancelamento, fazem mais mal do que bem às comunidades minoritárias que juram defender. Os autores analisam teorias  como «O conhecimento é uma construção social», «a ciência e a razão são ferramentas de opressão», «todas as interacções humanas são fontes do exercício opressor do poder”, que, dizem os autores, têm vindo a ser normalizadas e infiltradas na opinião pública por académicos activistas que julgam ter a receita para uma sociedade mais justa e paritária, particularmente no que diz respeito a questões de raça, género, sexo e sexualidade. Segundo os autores estes movimentos assumem uma visão do mundo dogmática «que coloca as mágoas sociais e culturais num lugar de destaque, transformando tudo numa luta política de soma zero à volta de marcadores identitários». Lançado em Agosto de 2020 no Reino Unido, e editado agora em Portugal pela Guerra & Paz,  o livro foi considerado o Ensaio do ano em vários jornais britânicos e  analisa, com racionalidade, a inconsistência das teorias identitárias, que ameaçam a democracia liberal.  Segundo Steven Pinker, professor de psicologia na Universidade de Harvard, «este livro expõe as raízes intelectuais surpreendentemente superficiais dos movimentos que parecem estar a engolir a nossa cultura.»

 

NO REGRESSO AO RESTAURANTE - Se passar pela Mealhada é inevitável que se cruze nos  restaurantes locais com um petisco que se chama iscas de leitão. Trata-se do fígado dos pequenos leitões usados tradicionalmente da Bairrada. As iscas de leitão, cortadas muito finas, têm um sabor e uma textura completamente diferente do fígado dos animais adultos, como é bom de ver. É verdadeiramente um petisco e mesmo algumas pessoas que torcem o nariz às iscas deixam-se conquistar. Na Mealhada são servidas à antiga (marinadas em vinho e alho e fritas em banha), mas também grelhadas ou então de cebolada. Eu prefiro quando são preparadas à antiga e são acompanhadas por boa batata cozida, que se deixa embeber no molho. Não é um petisco muito frequente em Lisboa mas volta e meia aparece n’O Apuradinho (Rua de Campolide 209) e neste regresso aos restaurantes foi um dos primeiros onde me deliciei - e em dose dupla: os seus magníficos pastéis de bacalhau com arroz de tomate num dia e as iscas de leitão com batata noutro. 

 

DIXIT - “Somos dominados por uma elite minúscula que vive em circuito fechado, pejada de conflitos de interesses. Isto é o sistema. Não foi criado por Sócrates” - João Miguel Tavares.

 

BACK TO BASICS - “Se não os conseguir convencer, o melhor é tentar confundi-los” - Harry S. Truman

 




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JUSTIÇA - O GRANDE PROBLEMA DO REGIME

por falcao, em 16.04.21

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O PUTATIVO CANDIDATO - Esta semana ficámos a saber, pela escrita do próprio José Sócrates, que a sua detenção e o processo subsequente foram desencadeados para, afirma convicto, impedir a sua candidatura à Presidência da República e também para criminalizar as políticas dos governos que liderou. Está escrito preto no branco logo nas primeiras linhas de um artigo que publicou na passada segunda-feira. Por um curioso acaso a decisão do juiz Ivo Rosa sobre Sócrates foi tomada na mesma semana em que se completavam dez anos sobre o pedido de ajuda externa. Cito, a este propósito, um desabafo do jurista João Gonçalves na sua página de Facebook: “o regime não apodreceu por obra e graça do Espírito Santo, o verdadeiro. Todavia, por entre prescrições e ajustes de contas entre magistraturas, um tribunal, pela primeira vez nestes mais de sete anos que a coisa leva, pronunciou alguém, com antigas responsabilidades de primeiro-ministro, pelos crimes de branqueamento de capitais e de falsificação de documentos, por causa e apesar dessas funções. Sócrates já tinha sido "removido da história". Não, como ele imagina, pelo PS. É o PS "dele", aliás, que anda pelo Governo e pelo Estado. Sócrates foi removido pela história da bancarrota de 2011, que obrigou o país a um ajustamento pretoriano de três anos, e pelo voto democrático. Pretender que isto tudo aconteceu para "beneficiar a Direita e atingir a Esquerda" é delirante. Ele que experimente "depender do voto do povo", coisa a que lhe repugnava voltar, e vai ver o que lhe acontece.” Desde há dias que Sócrates se apresenta como um mártir da democracia mas todo este caso é a prova provada das fragilidades da justiça em Portugal, das suas falhas, demoras, guerras internas, burocracias e contradições. Muito curiosamente soube-se também por estes dias que a Ministra da Justiça e o Governo  não quiseram incluir na Estratégia Nacional de Combate à Corrupção a proposta da Associação dos Juízes portugueses que eleva à categoria de crime a falta de justificação da origem do património dos titulares de cargos públicos - uma medida que por si só evitaria muita coisa. Quando se duvida da justiça abre-se caminho para duvidar da democracia.

 

SEMANADA - Segundo o CEO da Altice o contrato do sistema de comunicações de segurança SIRESP vai acabar a 30 de Junho, não existindo até à data negociações sobre o seu eventual prolongamento; a entidade que gere as certificações energéticas passou a ser abrangida pelas pelas cativações orçamentais; Portugal teve o terceiro crescimento mais lento da zona euro entre 1999 e 2016; no ano passado o total das remessas de emigrantes desceu 1,3% e as remessas dos emigrantes da Suíça superaram pela primeira vez as da França; no primeiro trimestre deste ano nasceram quase menos três mil bebés; quase 300 mil acidentes rodoviários fizeram na última década cerca de meio milhão de feridos e milhares de mortos; em 2020 o consumo de bacalhau caiu 12,6% devido ao encerramento de restaurantes durante a pandemia;  segundo a Marktest cerca de 33% do poder de compra está concentrado em apenas 12 concelhos e em Lisboa e Porto estão cerca de 12% do total do poder de compra de Portugal Continental; Portugal teve a pior queda comunitária nas vendas a retalho e o volume de negócios nos serviços caíu 20%; António Guterres renovou convite a Ivo Rosa para que este se mantenha numa bolsa de magistrados ligada às Nações Unidas; entre Março de 2020 e Fevereiro deste ano foram registadas mais 685 mil  mortes na União Europeia face à média dos três anos anteriores; um estudo recente indica que mais de metade dos portugueses não tenciona fazer férias este ano.

 

ARCO DA VELHA  - No dia em que se voltou a pagar estacionamento em Lisboa, a aplicação ePark da EMEL teve problemas de funcionamento devido a “sobrecarga pontual inusitada”.

 

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VER AS PAISAGENS - Volta e meia - mas é raro - acontece isto: entramos numa galeria para ver uma nova exposição e ficamos surpreendidos. Uma espécie de choque, como quando nos defrontamos com algo inesperado. Foi o que aconteceu com a inauguração, na semana passada, da nova exposição de Cabrita (Pedro Cabrita Reis) na galeria Miguel Nabinho (Rua Tenente Ferreira Durão 18B). Intitulada "Pinturas de Paisagem” a exposição tem mais de 80 pinturas e uma escultura (na imagem), a grande maioria das obras foram feitas durante 2020. A exposição decorre até 22 de Maio. Cabrita tem um fascínio pela paisagem e esta série de novos trabalhos mostra também o que foi a evolução da sua maneira de ver ao longo do confinamento - com algumas surpresas na forma final encontrada.  Os preços oscilam entre os 10 e os 50 mil euros. Outros destaques: na Galeria Filomena Soares está “Places Of War” de Daniel Nave, um trabalho inspirado pelas destruições e cenários de guerra. E na Appleton está “Revolution My Body no.2”, o início de um ciclo de evocação da obra de Ernesto de Sousa. Fora de Lisboa destaque para “Caminhar Oblíquo”, de Duarte Belo, na Casa da Avenida e no Centro de Arte Contemporânea de Coimbra até 20 de junho de 2021 decorre a segunda exposição do ciclo “De que é feita uma coleção?”. E regressando a Lisboa no MAAT pode descobrir três novas exposições: as onze instalações de “Aquaria - Ou a Ilusão de Um Mar Fechado", as nove propostas de design e arquitectura e arte de  “X Não É Um País Pequeno” e uma grande instalação interactiva “Earth Bits- Sentir o Planeta”. Este conjunto de exposições, todas encomendas internacionais, constituem a primeira programação da responsabilidade de Beatrice Leanza, a nova diretora do MAAT e são a concretização da sua ideia dos novos eixos da programação e utilização do edifício, colocando em primeiro plano questões de  carácter social, ambiental e geopolítico.

 

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O SOM DA SAUDADE - Rhiannon Giddens, americana, e Francesco Turrisi, italiano, têm um percurso musical comum - ela no banjo, ele no acordeão e percussão. Ambos vivem na Irlanda, longe dos respectivos países, e o novo disco tem um título que retrata a emoção e intensidade que passa pelas 12 canções do novo álbum, "They're Calling Me Home”. Este é um disco sobre a saudade, sobre a vida e a sua precariedade. Nasceu e reflecte o espírito que Giddens e Turrisi sentiram durante esta pandemia que mudou o curso das suas vidas de uma forma que não teriam imaginado antes de 2020. As inspirações musicais vão do bluegrass ao folk anglo-saxonico, a canções tradicionais americanas, passando pelas tradições musicais italianas. Pelo meio existem alguns temas originais e é neles que mais se encontram as questões colocadas por estes tempos e pelo confronto com a possibilidade da morte. Há versões fantásticas como a que encerra o disco, uma revisitação de “Amazing Grace”, a forma como abordam “When I Was In My Prime”, um original dos Pentangle, ou ainda a incursão pelo século XVII e Monteverdi em “Si Dolci è’l Tormento “. Logo nos primeiros momentos do disco, na faixa-título “Calling Me Home”, a voz de Giddens destaca-se e transmite uma emoção incontornável. Ao longo de todo o disco o banjo, o acordeão e a percussão que são a imagem de marca da sonoridade de Giddens e Turrisi, evidenciam que a simplicidade é muitas vezes a melhor conselheira e a melhor forma de transmitir emoções. Disponível no Spotify.

 

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POEMAS DE AMOR - A poetisa grega Safo nasceu na segunda metade do século VII a. C., na ilha grega de Lesbos. Educada num meio aristocrático, os fragmentos da sua poesia são o testemunho da primeira autora da literatura europeia e considerados a síntese da perfeição lírica na Antiguidade. Nos seus versos é possível entrever o encantamento e o sofrimento amorosos, uma tensão constante entre juventude e velhice, marcados por um erotismo cuja aura chegou até hoje. Dos onze ou doze mil versos que são atribuídos à poetisa grega, chegaram até nós apenas uma ode completa e cerca de 200 fragmentos. Eugénio de Andrade dedicou muita atenção à obra de Safo e trabalhou as suas traduções. Foram esses 200 fragmentos que serviram de base para "Poemas e Fragmentos”, um olhar sobre a poesia de Safo pela mão de outro poeta. A nova edição retoma a versão revista em 1977 por Eugénio de Andrade  que sobre a obra assinalou no texto de abertura:  "os versos incomparáveis onde a experiência íntima e devastadora da paixão, aliada a um sentimento muito vivo da natureza, é comunicada sem ênfase e sem patetismo, com uma naturalidade até então desconhecida, e que a poesia ocidental não terá voltado a conhecer". E na mesma nota de abertura da obra, Eugénio de Andrade argumenta que a sua tradução é um ato de amor, sendo Safo uma das suas "fascinações mais antigas". Diz ainda Eugénio de Andrade que esperava que "o perfume a violetas das tranças de Safo" não estivesse de todo ausente dos versos por si traduzidos. "Os seus poemas de amor dirigiam-se frontalmente a mulheres", recorda ainda  Eugénio de Andrade, o que terá levado séculos depois a sua poesia, reunida em nove livros, a ser destruída pelos cristãos dos séculos IV e XI.

 

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PERDIZ EM BRIOCHE  - Ao fim de tantos meses a inventar alternativas de refeições que proporcionem alguma variedade a imaginação acaba por se esgotar. Estamos em casa com saudades de nos sentarmos à mesa de um restaurante, por mais modesto que seja, e sermos surpreendidos com um petisco ao qual não nos abalançamos. Esta semana Miguel Esteves Cardoso relatava na sua coluna diária a alegria de encontrar jaquinzinhos com arroz de tomate. Serve isto para dizer que à medida que o confinamento avançou o recurso a coisas simples foi crescendo. Aproveitando estes dias mais temperados e a circunstância de alma gentil me ter oferecido um brioche em pão de forma, uma iguaria de múltiplas utilizações, ocorreu-me que um patê seria a sua companhia perfeita. Com recurso a uma lata de patê de perdiz da marca Do Monte, elaborado em Penha Garcia, saíu um jantar leve e petisqueiro. Este patê de perdiz tem boa consistência e melhor sabor e acompanha muito bem a massa do brioche - como era do dia nem precisou de ser aquecido. Foi acompanhado  pelo tinto Dois Terroirs, de Cortes de Cima, da Vidigueira, com as castas aragonês, syrah e pinot noir. Devo dizer que deu muito boa conta do recado. Patê e vinho vieram desse local de boas surpresas que é a rua Acácio Paiva, em Alvalade - no caso da loja “dois dedos de conserva”. 

 

DIXIT - “Este Juiz ou é ingénuo, ou faz-se de ingénuo, ou vive num mundo à parte. Em qualquer um dos casos um homem assim é um perigo à solta” - Marques Mendes, sobre Ivo Rosa.

 

BACK TO BASICS - “Um juiz é um estudante de direito que faz o enunciado dos seus próprios exames” - H. L. Mencken

 

(A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS)

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LÁ VAI LISBOA - As eleições autárquicas são aquelas onde os eleitores se podem sentir mais próximos dos eleitos e, teoricamente, a governação feita nas autarquias, mais do que qualquer outra, deveria ter em consideração os desejos das pessoas e a existência de uma relação de proximidade. Lisboa é um caso gritante de abuso dos Paços de Concelho, que só não se revela pior graças à acção de várias juntas de freguesia que se preocupam, essas sim, com o bem estar das pessoas que lá vivem. Peguemos por exemplo na modernização administrativa. É inegável que a nível da administração central as coisas estão mais fáceis e fluídas e diminuiu, em muitas áreas, a burocracia. No entanto, numa cidade como Lisboa, é o contrário que acontece: a burocracia parece que aumenta a cada passo e apesar de muitas promessas de Fernando Medina, o licenciamento de obras continua a ser uma lotaria, as demoras são insuportáveis, os critérios não são uniformes. Em algumas áreas os serviços centrais da autarquia servem para sustentar o poder e não para servir os cidadãos - e essa é uma das maiores falhas da gestão de Medina. Mas pior ainda é, com o argumento de contornar a burocracia, a substituição de eleitos por nomeados - concentrando demasiadas funções e decisões em empresas como as Sociedades de Reabilitação Urbana, a EMEL ou a EGEAC, que aumentaram de poderes, competências e falta de controlo durante os últimos anos. Elas não são escrutinadas pelos eleitores, apenas pelos responsáveis políticos que as nomeiam. E hoje em dia poucos são os que não reconhecem que a gestão de Medina trabalhou mais para fazer uma cidade virada para fora e para quem a visita do que para dentro e para quem cá vive. Nada disto - decisões tomadas por não eleitos, aumentos de taxas, decisões contra os interesses locais de munícipes - foi a votos nas anteriores eleições. Mas é bom que, nas próximas autárquicas, quem concorre diga ao que vem.

 

SEMANADA - Três antigos assessores presidenciais, de diferentes quadrantes políticos, criticaram a decisão política de Marcelo Rebelo de Sousa no caso da Lei dos Apoios Sociais; João Ferreira, do PCP, que tem sido o candidato indicado pelo seu partido para vários cargos, está a iniciar a sua sexta campanha eleitoral nos últimos oito anos; segundo associações empresariais do sector do calçado em 2020 houve uma quebra de venda de cinco mil milhões de pares de sapatos a nível mundial; um estudo realizado pelo Sexlab, da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto, concluíu que quase metade dos inquiridos (47%) fizeram menos sexo durante a pandemia e 40% deram conta de uma diminuição da satisfação sexual durante o mesmo período; em 2020, segundo a APAV, 23 mulheres, 4 homens, 5 crianças e 4 idosos por dia foram vitimas de violência doméstica; desde o início da pandemia, mais de 116 mil pessoas foram já empurradas para o desemprego e o segundo confinamento agravou o desemprego em 78% dos concelhos do país; o Relatório Anual de Segurança Interna relativo a 2020 indica que a ciberespionagem cresceu no ano passado em Portugal - China e Rússia estão entre os países suspeitos; mais de metade (54%) dos portugueses ficaram em casa desde sexta-feira até domingo de Páscoa, uma diminuição em relação a 2020, quando 74% dos portugueses respeitaram o dever de confinamento; por causa da pandemia houve uma diminuição de 21% de transplantes de orgãos em 2020 e mais 24 pessoas morreram no ano passado enquanto aguardavam um transplante. 

 

ARCO DA VELHA   - Vários dias depois do início da venda de testes rápidos em farmácias os formulários para reportar os resultados desses autotestes não estavam disponíveis.

 

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MOLDER EM CINCO SÉRIES DE ÉPOCAS DIFERENTES - Esta foi a semana de abertura de museus e galerias. Até 3 de Outubro poderá ver, no mezanino da Biblioteca de Serralves, uma seleção de fotografias de Jorge Molder feita a partir do vasto conjunto de obras do artista que fazem parte do acervo da Fundação. São apresentadas fotografias das séries “T. V.” (1995), “La Reine vous salue” (2001), “Tangram” (2004/08), “Call for Papers” (2013) e ainda “Zizi” (2013). O trabalho de Molder é conhecido sobretudo pelas suas fotografias a preto e branco, em que o artista se auto fotografa (apenas o rosto, corpo inteiro ou as mãos) vestindo habitualmente fato escuro e camisa branca, ideia que é contrariada pelas duas séries mais recentes. As referências provenientes da literatura, do cinema, da música ou da história da arte, bem como o quotidiano, vida e a sua natureza incerta e imprevisível, são fundamentais na sua obra, na medida em que podem constituir o ponto a partir do qual se pode derivar e construir algo. Como a exposição tem lugar na Biblioteca, a mostra é complementada com um conjunto de referências bibliográficas importantes para o artista disponíveis para consulta e com a apresentação de alguns dos seus livros e catálogos de exposições. A curadoria é de Isabel Braga. A fotografia aqui reproduzida, do cartaz da exposição, é da série “Tangram”. Ainda em Serralves permanece até final de Junho a exposição dedicada ao trabalho de fotografia do cineasta Manoel de Oliveira. E, ainda no Porto e na fotografia, destaque também para a Galeria Salut Au Monde (R. Santos Pousada 620), até 8 de Maio, poderá ser visto o novo trabalho de Tito Mouraz, “Mergulho”, uma coleção de fotografias instantâneas tendo como ponto de partida as paisagens açorianas. 

 

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CANÇÕES AMERICANAS - Durante muito tempo torci o nariz à música country. Era um preconceito, reconheço, descabido ainda por cima. Os programas de rádio que Jaime Fernandes fez durante vários anos espicaçaram-me a curiosidade o suficiente para querer saber mais. Um dos nomes que descobri neste percurso foi o de Loretta Lynn, que agora está a fazer 89 anos e que tem uma carreira de seis décadas. Em 2002 ela lançou um livro com as suas memórias, “Still Woman Enough”, e agora um álbum com o mesmo nome, o seu 50º em estúdio, que revisita a sua carreira através de novas gravações de standards da country music, de êxitos seus e de um original, que dá o título ao álbum e que é a faixa de abertura, na qual é acompanhada por duas convidadas de peso na country  - Reba McEntire e Carrie Underwood. A canção - e o disco - relatam a carreira e a vida de Loretta Lynn desde o Kentucky até se tornar num dos grandes nomes da música popular americana. O álbum é co-produzido por John Carter Cash e pela filha de Loretta, Patsy Lynn Russell e nas suas 13 faixas encontramos interpretações de êxitos da carter Family e de Hank Williams, além de originais seus e êxitos popularizados por outros nomes da country. Os arranjos são simples, deixando espaço à voz de Loretta Lynn, como aliás se pode ver em “I Saw The Light”, um tema de Hank Williams ou em “Keep On The Sunny Side” e “I’ll Be All Smiles Tonight”, da Carter Family, privilegiando instrumentos acústicos. Já na versão do clássico “Honky Tonk Girl”, Loretta faz-se acompanhar por vários músicos, no tema que mais se aproxima do som de Nashville.  “I know how to love, lose, and survive,” canta Lynn em “Still Woman Enough” e dificilmente uma canção poderia resumir melhor uma vida como a sua.

 

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TEORIA POLÍTICA - “Que acontece à política e às suas instituições específicas quando o ambiente tecnológico se altera desta maneira? Que transformações políticas associamos à robotização, à digitalização e à automatização?” - esta é uma das muitas perguntas a que “Uma Teoria da Democracia Complexa”, o novo livro de Daniel Innerarity, vai respondendo, com hipóteses e raciocínios.  Innerarity foi considerado pela revista Le Nouvel Observateur como um dos 25 pensadores mais influentes da atualidade e nesta obra, agora editada em Portugal e que  que esgotou em dois dias em Espanha, o filósofo e investigador defende que a grande ameaça à democracia moderna é a simplicidade dos conceitos políticos que tomámos de empréstimo, ignorando a complexidade crescente em que a nossa organização social se desenvolveu. O autor sublinha que já não se trata de enfrentar os desafios dos séculos XIX e XX, mas sim os do século XXI.  Dividido em três grandes capítulos, “A Compreensão da Complexidade”, “O Governo das Sociedades Complexas” e “Democratizar A Democracia”,  este ensaio aborda questões como a representatividade actual dos sistemas democráticos, o comportamento das várias gerações na política e a democracia digital, entre outros. No fim do livro, citando Ulrich Beck, Daniel Innerarity sublinha que “a política não morreu, apenas emigrou dos clássicos espaços nacionais delimitados para os cenários mundiais interdependentes”. Daniel Innerarity é catedrático de Filosofia  Política e Social na Universidade do País Basco e diretor do Instituto de Gobernanza Democratica.

 

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PÃO À ANTIGA  - No regresso a Lisboa uma ida ao novo mercadinho que às terças feiras acontece em Campolide, no largo de onde agora sai o eléctrico 24. Aí, além de legumes e fruta do produtor, há uma banca de pães que chama a atenção - o Pão do João. O João na realidade é Johannes Rued, um alemão que há alguns anos veio viver para Portugal e se instalou em Torres Vedras, onde faz pão feito à mão, à moda antiga,  com massa mãe e com os componentes básicos: farinha, água e sal. Nalgumas variedades que foi criando incorpora frutos secos, sementes ou legumes. É sempre um produto inteiramente puro e sustentável com ingredientes 100% portugueses. O Pão do João, entrega ao domicílio em Torres Vedras, mediante contacto via as suas páginas no Facebook e Instagram, e em Lisboa aparece às terças em Campolide e ao sábado no mercado da Quinta das Conchas. Há pão integral de milho e de trigo barbela e pão foco de trigo e centeio, além de pão integral de centeio com sementes de girassol, vendidos em porções de quilo ou meio quilo. A experiência da semana foi feita com o pão de trigo barbela, que levemente torrado e devidamente untado de manteiga dos Açores se revelou uma grande companhia de pequeno-almoço. 

 

DIXIT - “A maior e mais triste lição que podemos retirar da actual pandemia, desde o seu início, é a forma abjecta como os seres humanos são capazes de desprezar os seus semelhantes” - António Araújo, jurista e historiador

 

BACK TO BASICS - “É mais fácil lutar por princípios do que viver de acordo com eles “ - Alfred Adler, fundador da psicologia do desenvolvimento individual.



 





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QUEM VÊ TV?  - Segundo a Anacom, no final de 2020, em cada 100 famílias 88 eram subscritoras de serviços em pacote de um dos operadores de telecomunicações, um aumento de 4,4% em relação ao ano anterior. Isto quer dizer que quase 90% dos lares portugueses têm acesso a um conjunto alargado de canais de televisão, além dos generalistas de acesso livre - RTP1 e 2, SIC e TVI. Os dados recolhidos pelas entidades que medem a audiência de televisão indicam que na semana passada cerca de 49% dos espectadores não seguiram estes canais generalistas - 34% preferiram o conjunto dos canais de cabo e quase 15% estiveram na categoria “outros”, que inclui jogos on-line e sobretudo os serviços de streaming, como a Netflix, Disney ou HBO, que têm vindo a crescer. Ao fim de semana a tendência para sair dos generalistas ainda é maior: No sábado passado, por exemplo, os canais de cabo foram seguidos por 37% dos espectadores e na categoria “outros” estiveram 18%: feitas as contas 55% dos espectadores preferiram estar fora dos generalistas. É curioso também ver que género de programas têm maior audiência. Se fizermos as contas, desde o início deste ano, nos dez programas que obtiveram maior audiência os nove mais vistos foram transmissões de jogos de futebol e o décimo foi o debate entre Marcelo Rebelo de Sousa e André Ventura. O jogo mais visto foi o Porto-Juventus para a Liga dos Campeões com 2,4 milhões de espectadores. Tirando o futebol o programa que regularmente tem tido maior audiência tem sido Isto É Gozar Com Quem Trabalha e na semana passada a entrevista de Ricardo Araújo Pereira a Carlos Moedas alcançou praticamente 1,4 milhões de espectadores, à frente das novelas, do Big Brother, de Hell’s Kitchen ou All Together Now. No cabo o domínio da CMTV é avassalador ocupando o primeiro lugar há 50 meses. Em matéria audiovisual, termino com uma curiosidade fresquinha: o Primeiro Ministro espanhol anunciou esta semana o lançamento de um plano de investimento no audiovisual no valor de 1.6 mil milhões de euros  que se destina a fomentar a produção audiovisual espanhola e a atrair produtores internacionais a irem filmar em Espanha. Chama-se a isto desenvolver uma indústria. A da televisão.

 

SEMANADA - Nos últimos 45 anos fecharam mais de mil quilómetros de linhas ferroviárias, e três capitais de distrito, Viseu, Vila Real e Bragança ficaram sem acesso ao comboio; segundo a Pordata em 2001 existiam 101,6 idosos por cada 100 jovens e em 2019 esse número tinha aumentado para 161,3; ainda segundo a Pordata em 2001 existiam 1.679.191 jovens com menos de 15 anos e em 2019 esse número tinha descido para 1.402.276;  em 2001 existiam 1.705.274 pessoas com mais de 65 anos em em 2019 o número tinha aumentado para 2.262.325; em Portugal  90% dos processos de corrupção acabam sem condenação; o Governo deixou 1% da despesa pública por executar em 2020; a carga fiscal subiu de 34,5% em 2019 para 34,8% do PIB em 2020; também em 2020 o rácio da dívida pública passou de 116,8% em 2019 para 133,6% em 2020; a historiadora Raquel Henriques da Silva escreveu uma carta aberta ao Primeiro Ministro sobre a falta de condições de diversos museus e afirma que  os Painéis de Nuno Gonçalves estarão durante o verão numa sala do Museu Nacional de Arte Antiga  sem ar condicionado ou sistema de alarme a funcionar com segurança; a partir de setembro, o mestrado integrado de Medicina do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto terá uma nova cadeira, a de Introdução à Poesia, que será lecionada pelo escritor (e também médico) João Luís Barreto Guimarães. 

 

ARCO DA VELHA  - O juiz  Rui Fonseca e Castro, suspenso pelo Conselho Superior da Magistratura devido às posições públicas que tomou sobre o estado de emergência, acusou o Diretor Nacional da PSP de ser um idiota e um fantoche e desafiou-o no Facebook para um combate de artes marciais mistas.

 

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O REGRESSO DAS EXPOSIÇÕES - João Jacinto expõe desde 1987, é um artista plástico português com uma obra significativa, que integra diversas colecções portuguesas e estrangeiras, institucionais e particulares. Em 2010, a propósito de uma exposição na Galeria Fernando Santos, no Porto, o crítico Óscar Faria descreveu assim a obra de joão Jacinto: “As diversas declinações a que o artista sujeita as suas obras provêm de um mesmo exercício: testar os limites estruturais de uma obra que ora se afasta de um centro para evocar uma paisagem - abstracta, é certo -, ora se aproxima de uma fisicalidade determinada pela acumulação de matérias, ora assume uma vontade de abarcar outros territórios, dirigindo-se, sem medo, ao exterior de si, e aceitando o erro e a justaposição como elementos de composição. As pinturas, por vezes, são viradas do avesso, outras expõem a sua nudez, mas é sobretudo a sua dimensão corpórea, colorida, excessiva, que aqui importa”. A imagem que aqui se reproduz é de uma das duas dezenas de obras da sua nova exposição, “Solfatara”, que inaugura dia 6, para a semana na Galeria 111, no Campo Grande. Os preços variam entre 1672,50 € para as obras mais pequenas, de 50x42 cms e os 11.150€ para as maiores, de 180x163 cms. Com o desconfinamento as galerias começam pois a abrir e no dia 5, na Galeria Vera Cortês, em Alvalade, inaugura “então aquilo que” de Gonçalo Barreiros. A Galeria Filomena Soares irá reabrir ao público no dia 6 de Abril, com as exposições "Shell Game", de Andreia Santana e Anna-Sophie Berger, e "Places of War" de Daniel Nave. No dia 5 de Abril o MAAT abre três novas exposições - “Aquaria” sobre a relação com o mundo marinho com curadoria de Angela Rui, “X Não É Um País Pequeno” baseada em nove instalações e “Earth Bits”  sobre o impacto da acção humana no planeta. A terminar uma novidade sobre a  ARCO Lisboa - este ano, se a pandemia o permitir, a ARCO Lisboa regressa mas em Setembro, e num novo local, a Doca de Pedrouços. 



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O SOM DA PROMESSA ALCANÇADA - Sam Shepherd é um DJ e produtor discográfico com pergaminhos, conhecido como Floating Points. Nos seus sets de DJ muitas vezes recorria a temas do saxofonista de jazz Pharaoh Sanders. Agora  Sheperd, com 34 anos, juntou-se com Sanders, de 80, e pôs de pé um projecto intitulado “Promises”. Trata-se de uma obra de 46 minutos, em nove movimentos, composta para saxofone, teclados, electrónica e uma secção de cordas de 29 músicos da London Symphony Orchestra. Trata-se da mais significativa gravação de Pharaoh Sanders nos últimos sete anos e aqui se ouve bem a sua capacidade de transmitir emoções através do seu saxofone tenor - notas prolongadas, entoações que se misturam com as sonoridades eletrónicas criadas por Shepherd, solos curtos e vibrantes que se entrelaçam com a secção de cordas. É um disco misterioso, envolvente. Na realidade é a magia musical de Pharaoh Sanders que junta todas as peças deste disco. Numa entrevista de Outubro do ano passado à revista New Yorker, Sanders dizia que se dedicava mais nesta fase da vida a ouvir o que se passava à sua volta do que a ouvir gravações - desde as ondas do mar ao ruído dos aviões ou à cadência dos comboios. O trabalho com Shepherd, que produziu o álbum, prolongou-se durante um ano praticamente. E o resultado final é um daqueles momentos de música aos quais queremos sempre voltar. "Promises'' está disponível nas plataformas de streaming.

 

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ESCRITAS INTEMPORAIS - “Esteiros”, um romance de Soeiro Pereira Gomes publicado originalmente em 1941, é  considerado um elemento marcante da história portuguesa do século XX e uma das grandes obras literárias do neo-realismo. Soeiro Pereira Gomes, foi regente agrícola e dirigente do PCP e morreu em 1949, com 40 anos de idade. “Esteiros” é passado no Ribatejo e a sua acção centra-se na vida de cinco rapazes,  “os filhos dos homens que nunca foram meninos”, como diz a dedicatória que abre o romance. “Esteiros”, esclarece o autor que conhecia bem a região onde situou o livro,  são “minúsculos canais como dedos de mão espalmada, abertos na margem do Tejo”. Para assinalar os 80 anos da sua publicação original a Quetzal fez uma belíssima nova edição de “Esteiros” e Francisco José Viegas, no texto de introdução, escreve que esta obra é um “emblema da nossa literatura politicamente comprometida” mas “ultrapassa largamente a sua inegável vocação de instrumento político”. Sublinha ainda que “graças à qualidade da escrita de Soeiro Pereira Gomes e a um conhecimento detalhado daquele mundo real sobre o qual escreve”, o romance “ultrapassa o quadro de representações ideológicas a que estaria destinado numa leitura estritamente política”. O livro relata vidas difíceis a que ninguém quererá voltar, “degradantes condições de trabalho e de emprego” como Viegas bem sublinha -  uma ideia que convém reter nestes tempos em que estamos.

 

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SIMPLES E BOM - Um amigo meu, com quem trabalhei muitos anos, diz que sem conservas de atum a sua vida seria mais difícil. Tenho tendência a partilhar essa opinião. Não se assustem que hoje não vou falar de empadão de arroz e ovos mexidos com atum. Mas proponho uma receita com inspiração italiana que já me deu várias boas refeições. É rápida e fácil e estas quantidades são para duas/ três pessoas, dependendo do apetite e dieta em curso.  Trata-se de esparguete com atum, mas com um toque para as coisas ficarem mais interessantes. Primeiro escorrem-se duas latas de atum em azeite, uma dúzia de tomates cherry cortados ao meio, três ou quatro anchovas de lata desfeitas aos pedaços, uma colher de sopa bem servida de alcaparras escorridas e um pouco de azeite de boa qualidade. Mistura-se tudo bem, tempera-se com sal e pimenta a gosto e deixa-se repousar uma meia hora. Coze-se o esparguete em água abundante, bem salgada. Quando estiver “al dente'' escorre-se, volta para o tacho e deitam-se por cima todos os outros ingredientes que ficaram a repousar. Mistura-se muito bem, rectifica-se o tempero e deitam-se por cima folhas de manjericão cortadas aos pedaços. Serve-se imediatamente. Um rosé acompanha bem.

 

DIXIT - “O Estado não é forte demais. É fraco e pesado. É frágil. Só é forte nos obstáculos que cria. E para favorecer os seus”  - António Barreto

 

BACK TO BASICS - “Pensem de forma elaborada mas comuniquem com linguagem que as pessoas entendam” - William Butler Yeats.




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LISBOA - QUE CIDADE QUEREMOS?

por falcao, em 26.03.21

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ESTA LISBOA - Nos anos 80 Lisboa começava a dar nas vistas: politicamente havia mais estabilidade, novos negócios começavam a abrir, a noite explorava territórios diferentes, culturalmente havia muita coisa a mexer, da música às belas artes, surgia imprensa inovadora que mostrava outro lado das coisas. Lisboa era a estrela em filmes como “A Cidade Branca”, de Alain Tanner, lá fora havia artigos sobre a transformação da cidade. Os Heróis do Mar apareciam na revista francesa “Actuel” e na britânica“The Face”. No início da década de 90 a agitação era ainda maior -  Portugal foi o país escolhido em 91 para a Europalia, em Bruxelas, o grupo Madredeus, convidado para o programa desse festival, internacionalizou-se a partir daí graças à digressão europeia que fez e uma das suas canções foi escolhida como banda sonora de um spot publicitário de uma marca global. Em Lisboa o CCB abriu portas e a cidade recebeu a primeira presidência portuguesa da Comunidade Europeia. Em 1994 Lisboa foi a Capital Europeia da Cultura, Wim Wenders veio cá filmar “Lisbon Story” e a seguir a Exposição Mundial de 1998 - Expo 98 - mudou a zona oriental da cidade e culminou um ciclo de acontecimentos que colocaram a cidade no mapa de uma forma única. A internacionalização de Lisboa começou aí. Essa foi a semente de toda a notoriedade alcançada depois. Era uma cidade animada, criativa, dinâmica. Que tratava bem quem cá vivia e acolhia quem nos visitava de braços abertos. O que se tem passado nos últimos anos não é isso: a cidade virou costas aos residentes e abriu braços aos visitantes. Problemas que existiam, como a burocracia autárquica, apesar das promessas não foram resolvidos. Foram lançadas mais taxas locais. Os serviços de urbanismo não melhoraram. A cidade ficou menos confortável, mais cara e sobretudo mais descaracterizada. Segundo a Pordata, Lisboa numa década perdeu 10% da população tradicional, mas duplicou o número de residentes de outras nacionalidades. Não se tornou mais cosmopolita: perdeu alma e muito do que a tornava diferente. Está sem rumo. As próximas eleições autárquicas são sobre isto. Que cidade queremos? Seguir assim ou fazer diferente? 

 

SEMANADA - Em fevereiro o registo de desempregados subiu para 432 mil, o maior número desde 2017, mas a cobertura do subsídio de desemprego voltou a cair nesse mês para 56%; a maior parte dos pedidos de ajuda que chegam à Caritas portuguesa, cerca de 60%, são para rendas de casa; segundo o INE em 2020  os preços da habitação aumentaram mais de 8% e o Alentejo foi a única região onde a procura de casas aumentou; o município de Bragança anunciou que convida quatro famílias que possam trabalhar online a mudarem-se durante um mês para este território com tudo pago, no âmbito de um projeto que pretende atrair trabalhadores remotos para a região;  em 2020 os contribuintes portugueses apresentaram mais faturas de despesas de veterinários, lares e reparações de motociclos que em 2019 e a categoria de despesas com veterinários teve uma subida de 14,2%; os professores portugueses são os que apresentam maiores níveis de stress quando comparados com os de outros países da Europa; um dos produtos cujas vendas mais aumentaram no ano passado foi o do chocolate para culinária com um crescimento superior a 25%; o consumo de bens alimentares por parte das famílias portuguesas registou a maior subida dos últimos 25 anos, em 2020; segundo a Sociedade Ponto Verde durante a pandemia o aumento da materiais enviados para reciclagem foi de 13%;  a PSP e a GNR registaram 4901 contra-ordenações na primeira semana de desconfinamento e o dever geral de recolhimento domiciliário foi a regra mais quebrada na semana de 14 a 21 de março;

 

ARCO DA VELHA - Face à progressiva extinção da ovelha leiteira da Serra da Arrábida, conhecida por ovelha saloia, os criadores de ovinos da região criaram o projecto “Adote Uma Saloia” com o objectivo de angariar contribuições para a alimentação dos animais.

 

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A VALORIZAÇÃO DA ARTE - “Warrior,”  um quadro de 1982 da autoria de Jean-Michel Basquiat, foi vendido por 41,9 milhões de dólares num leilão on-line realizado pela Christie’s há poucos dias. Não se trata no entanto do maior preço alcançado por uma obra de Basquiat - em 2017, numa venda organizada em Nova York, um coleccionador japonês, o milionário Yusaku Maezawa, pagou 110 milhões de dólares por uma pintura sem título do artista. Este é o valor mais alto alcançado até agora por um trabalho de Basquiat, que no mercado da arte contemporânea é considerado um dos nomes que tem mais procura, em conjunto com Warhol e Picasso. O vendedor de “The Warrior”, o gestor imobiliário e colecionador de arte germano-americano Aby Rosen, também possui obras de Pablo Picasso, Andy Warhol, Roy Lichtenstein, Cy Twombly, Alexander Calder, Damien Hirst e Richard Prince. Rosen comprou a obra na Sotheby’s London em 2012 por 8,7 milhões de dólares. E teve vendas anteriores por 5,6 milhões de dólares em 2007 e em 2005 por 1,8 milhão de dólares. Originalmente ”The Warrior” havia sido comprado por um coleccionador americano em meados dos anos 90 por 250.000 dólares. Basquiat nasceu em Brooklin, numa família porto-riquenha, colaborou com Warhol e tornou-se num dos expoentes da arte norte-americana do final do século passado. Morreu em 1988 com 27 anos. Esta venda culmina uma semana de leilões on-line organizados pela Christie’s e Sotheby’s. Segundo a Art Basel e a UBS o mercado de arte caíu cerca de 22 por cento em 2020, em comparação com 2019, para um total de cerca de 50 mil milhões de dólares, englobando as vendas em galerias, vendas privadas e  leilões públicos O mercado dos leilões teve uma queda ainda maior, na casa dos 30 por cento, para os 17,6 mil milhões. E por cá? Por cá galerias e museus preparam a reabertura para a segunda semana de Abril. Para a semana começamos a falar do que aí vem.

 

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A FUGA DA FAMA - Há dez anos atrás alguém sabia quem era Elizabeth Woolridge Grant? Hoje em dia também muita gente não conhecerá este nome - mas se dissermos que ela assina os seus discos como Lana Del Rey, aí as coisas começam a mudar. O seu primeiro disco como Lana Del Rey data de 2010 e até chegarmos ao novo "Chemtrails Over The Country Club”o ritmo foi de quase um álbum por ano - se incluirmos o disco de poesia declamada por ela, numa edição limitada  no ano passado. A revista norte-americana Rolling Stone considerou este Chemstrails como o seu álbum mais introspectivo, prosseguindo o caminho de ruptura com o sonho americano de Hollywood que ela já tinha iniciado em 2019 em “Norman Fuking Rockwell!”. No novo disco há uma frase que ela canta e que resume tudo: “I’m ready to leave L.A., and I want you to come”. Lana Del Rey continua a cantar a sua desilusão com a fama, afasta-se do mainstream pop que lha deu e aproxima-se das melodias tradicionais da música popular norte-americana. Não é por acaso que a derradeira faixa do disco é “For Free”, um original de Joni Mitchell, gravado em 1970, e onde se faz o contraste entre dois mundos: “I play if you have the money/ Or if you're a friend to me/  But the one man band/ By the quick lunch stand/ He was playing real good, for free.” Disponível em streaming.

 

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A VIDA PODE SER UM ROMANCE - Há uns tempos, em 2019, Rui Nabeiro, o homem que criou um império a partir de Campo Maior e dos cafés Delta, propôs a José Luís Peixoto que lhe escrevesse a biografia. Peixoto agradeceu o convite mas disse que em vez de uma biografia preferia pensar num romance que contasse a experiência de uma vida. Assim nasceu “Almoço de Domingo”,  a história de um “homem de 90 anos, que olha para o seu passado e faz um balanço de vida a partir de episódios significativos da sua história pessoal”, conta o escritor. Peixoto e Nabeiro têm em comum o Alentejo que os viu nascer e crescer. A poucos dias de completar 90 anos no próximo dia 28 de março, Rui Nabeiro serve de personagem ao escritor que pega justamente nesse aniversário para desfiar as memórias de toda uma longa vida. “Almoço de Domingo” decorre entre 1931 e 2021 e conta a história de uma figura que se tornou referência na sua terra, em Campo Maior, que abraçou causas, desenvolveu a actividade das suas empresas para além do país e do café que lhe deu fama. Esta é a história de um empreendedor que ao longo de momentos bem diferentes da vida portuguesa teve sempre um papel activo, que manteve a fábrica a funcionar mesmo em momentos difíceis e soube apostar em inovação quando foi preciso, passando o testemunho às gerações seguintes. Não é caso único em Portugal mas é, mesmo assim, caso raro, E ainda mais raro é escreverem-se romances sobre pessoas vivas. O título? - A família Nabeiro mantém a tradição do almoço de domingo, pano de fundo de todas as histórias que se vão desenrolando.

 

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OVO DEITADO EM CAMA DE COURGETTE - O confinamento produz uma quantidade fantástica de fotografias de comida no Instagram. Esta receita que vos proponho nasceu de uma imagem vista no Instagram - e não resisti a experimentar. Há muito que tenho um espiralizador, que permite pegar numa courgette e fazer longos fios da sua polpa. Chamo-lhe esparguete de courgette e uso-o muitas vezes, por exemplo salteado com atum de conserva. Mas desta vez a ideia era outra. Peguei em duas courgettes que espiralizei e num tabuleiro de ir ao forno fiz dois montinhos. Temperei com um fio de azeite, gengibre em pó, sal e pimenta moída na altura e ainda pimentão doce fumado - um ingrediente que estou a utilizar cada vez mais e que dá um toque invulgar aos cozinhados. No meio de cada monte fiz uma cavidade - já vão saber para quê. Pelo meio espalhei mozarella aos pedaços. Levei o tabuleiro ao forno a 220º durante dez minutos e depois dentro de cada uma das cavidades deitei um ovo. Polvilhei tudo com sementes de sésamo e levei de novo ao forno por mais seis minutos - deve chegar para a clara ficar opaca e a gema estar cozinhada, mas sem ter secado. Transfere-se cada monte para um prato e acompanha-se com um vinho rosé. Bom apetite.

 

DIXIT - “Esta pandemia veio demonstrar que essas luminárias que andam para aí a discutir que menos Estado é melhor Estado não têm noção do que é o Estado” - Isaltino Morais

 

BACK TO BASICS - “A coisa mais notável na política é ter a memória curta” . John Kenneth Galbraith






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A LENTA EUROPA - Isto dava para uma série policial: o estranho caso das vacinas desaparecidas. O tema é a forma como a União Europeia tratou do assunto da compra das vacinas, da garantia da sua entrega e como está a reagir a atrasos e percalços diversos. Todos já percebemos que  Ursula Von der Leyen tratou do assunto como de uma compra pública em vez de uma matéria urgente, sensível do ponto de vista da saúde pública da união dos estados a que preside e do ponto de vista da repercussão política das situações criadas. A impressão que dá é que a União Europeia colocou um amanuense habituado a tratar de compras de papel higiénico e consumíveis a negociar com as farmacêuticas que podiam fornecer as vacinas. O resultado está à vista - contratos não cumpridos, atrasos no fornecimento, ausência de atribuição de responsabilidades, um sensível atraso em relação ao calendário inicial, populações descontentes, estados membros a desalinharem-se das decisões da União. O caos, em suma. Eis o retrato perfeito das ineficiências da burocracia europeia. São efeitos que se estendem desde o processo de avaliação das vacinas, à interlocução e negociação com os fabricantes e vão até à dificuldade em garantir que não seriam feitas exportações da vacina para fora do espaço da UE antes de cumpridos os compromissos de fornecimento assumidos. Já nem falo de se ter conseguido colocar mais fábricas a produzir - recordo apenas que nos Estados Unidos a administração Biden  conseguiu levar a Johnson & Johnson a licenciar a Merck para fabricar a sua vacina de dose única, aumentando assim a capacidade de produção e entrega. Na Europa sabe-se que há várias instalações que podiam produzir vacinas e não o estão a fazer. A Presidência da União sobre estes assuntos não se pronuncia. Por acaso a presidência, até Junho, cabe a Portugal.

 

SEMANADA - Em 2020 os tribunais comunicaram ao Conselho de Prevenção da Corrupção 763 casos no âmbito da Administração Pública, os principais crimes foram de peculato e abuso de poder e a área da administração local surgiu associada a mais de metade dos casos; em 2020 registaram-se 18.889 casamentos, o valor mais baixo desde que há registos; o número de nascimentos em 2020 caíu 2,6% e o número de mortes cresceu 10,2%;  de acordo com dados da Marktest em 2020 o sector do comércio continuou a ser o maior investidor em publicidade, em segundo lugar ficou o sector das marcas de produtos alimentares e em terceiro a indústria farmacêutica; segundo a ANACOM em 2020 cerca de 7,5 milhões de pessoas tinham acesso à internet através do telemóvel e o tráfego em banda larga móvel aumentou 28,1% face a 2019; em 2020 o número de portugueses que viu filmes e séries na internet passou de 38 para 43% e o número dos que fizeram videochamadas aumentou de 52 para 70%; ainda segundo a ANACOM o número de famílias com acesso à internet em casa aumentou para 84,5% em 2020, o maior crescimento desde 2016 com o Alentejo, Algarve e Norte a registarem mais novas ligações;  o centro do SEF onde Ihor morreu cobra às companhias aéreas 100 euros de diária por cada passageiro que ali fica retido.

 

ARCO DA VELHA  - Um depósito clandestino de mais de 120 mil toneladas de resíduos perigosos, que existe há quase 20 anos,  em Setúbal, na Zona Protegida do Estuário do Sado, e que está a contaminar o lençol freático da Mitrena e as águas do rio, só agora foi detectado pelas entidades oficiais.

 

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O QUE É UM NFT? - Esta imagem mostra a aparência de “Everydays – The First 5000 Days”,  uma obra virtual criada digitalmente. Não tem existência física e o seu NFT (Non Fungible Token, ou ficheiro digital insubstituível) é o que tem valor por ser peça única  impossível de copiar e foi leiloado no passado dia 11 de Março por 69,3 milhões de dólares. O seu autor é um artista digital norte-americano relativamente pouco conhecido que assina como Beeple, mas cujo nome real é Mike Winkelman. Trata-se do terceiro valor mais alto alcançado por um artista vivo (os outros são Jeff Koons e David Hockney) . Winkelman iniciou este trabalho em 1 de Maio de 2007 e, desde então, todos os dias criou uma novo desenho. O NFT leiloado incorpora a junção digital de todas essas cinco mil peças feitas ao longo de 13 anos. A Christie’s, responsável pelo leilão, revelou que a quantia final foi alcançada nos últimos 10 minutos do prazo, quando o valor disparou dos 14 milhões, em que então estava, para 30 milhões e depois, num único lance, para o valor final da licitação. E quem foi o comprador? Uma empresa baseada em Singapura, a Metapurse, um fundo financeiro que colecciona NFT’s desde 2016,  dirigida por Metakovan, o pseudónimo do comprador da obra de Beeple. A Christie’s aceitou que o pagamento fosse feito através da criptomoeda Ether, a segunda maior depois da Bitcoin, desenvolvida pela Ethereum, criadora da tecnologia blockchain, que é utilizada em transacções digitais, e que permite a criação de NFT’s. Twobadour, outro pseudónimo, que se apresenta como o porta-voz de Metakorvan, afirmou numa entrevista ao site Artnet News que a peça que adquiriram tem valor não só por ser digital e um NFT, “mas porque representa tempo, os 13 anos que demorou a fazer, e tempo é a única coisa que não pode ser pirateada nesta época digital”. Em relação à utilização que pretendem dar à peça, Twobadour explica: “Queremos construir um grande monumento que só exista no mundo virtual para albergar as obras que vamos comprar. Temos em mente alguns dos maiores arquitectos contemporâneos a quem vamos pedir que pensem no projecto. A ideia é construí-lo de forma virtual, colocar lá as obras de arte virtuais que tivermos  e depois abri-lo a todos os que o queiram visitar, à distância de um click.”

 

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DEZ CORDAS MÁGICAS - A origem da viola campaniça, instrumento típico do Alentejo, é disputada entre Vila Verde de Ficalho e Castro Verde - mas na realidade ela tornou-se popular em todo o Baixo Alentejo. Habitualmente usada para acompanhar os célebres cantes a despique, a campaniça é a maior das violas portuguesas e possui dez cordas metálicas tocadas tradicionalmente de dedilhado apenas com o polegar. Após anos de esquecimento, na década de 80 a viola campaniça começou a ser estudada e recuperada, aproveitando ainda os artesãos que a sabiam construir. O seu ressurgimento fez com que alguns músicos contemporâneos se interessassem por ela. Um deles é João Morais, um músico com carreira feita na guitarra eléctrica do rock e que há uns anos se virou para outras músicas. Morais,  que assina como “O Gajo”, acabou de editar o seu terceiro disco, “Subterrâneos”. Nele João Morais toca ao longo de uma dezena de faixas que ele próprio compôs, ao lado de Carlos Barreto no contrabaixo e de José Salgueiro na percussão - dois músicos muito ligados ao jazz. É uma boa surpresa ver como a viola campaniça vive bem fora do regime de instrumento quase sempre a solo, para conviver com sonoridades que não são suas companheiras habituais. O resultado é um dos melhores trabalhos discográficos  portugueses dos últimos meses. Editado por discos Rastilho, o novo trabalho de O Gajo está disponível numa tiragem limitada de vinil, em CD e nas plataformas de streaming.

 

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O GRANDE ESPIÃO - Gosto de ler livros sobre espionagem e a figura de Richard Sorge sempre me interessou. Ian Fleming, o criador de 007, chamava-lhe “o espião mais formidável da História”, Kim Philby, o espião russo infiltrado nos serviços secretos britânicos disse que o trabalho efectuado por Sorge “foi impecável” e John Le Carré considerou-o o espião que se destacou entre os espiões e descreveu-o como “um actor no sentido de Graham Greene, e um artista no sentido de Thomas Mann”. “O Espião Perfeito”, editado originalmente em 2019 e agora disponível em Portugal, é uma completa investigação sobre a vida de Sorge e a sua personalidade, a descrição minuciosa do que fez e das suas convicções, com o enquadramento histórico da época, desde o pacto Ribbentrop-Molotov até ao planeamento do ataque japonês a Pearl Harbor. Sorge foi um idealista que entregou a sua vida à causa da União Soviética, um militante comunista que não olhava a meios para atingir os seus fins, um sedutor inteligente capaz de obter segredos dos maiores inimigos. Owen Matthews, o autor deste livro, vai além da vida de Sorge - mostra como era o clima na política e na  diplomacia internacionais no período antes da II Grande Guerra e, depois, no seu decorrer. Conta como a entourage de Estaline escondia a realidade ao ditador, o que teve terríveis consequências. Sorge, que estava no Japão onde criou uma formidável rede de espionagem,  tinha acesso às informações tanto da Alemanha como do exército japonês, e anunciou com antecedência a data precisa do ataque das tropas de  Hitler à União Soviética - mas em Moscovo os seus relatórios foram metidos na gaveta porque contrariavam a convicção que Estaline tinha de que Hitler não o atacaria. Como se sabe, estava enganado e este erro custou a vida a muitos milhares de soldados russos. Fascinante, a narrativa de Owen Matthews é um retrato desses tempos. Os interrogadores japoneses que o prenderam e executaram fazem dele este retrato: “ um exemplo devastador de brilhantismo na espionagem”.

 

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SANDUÍCHE DE SALADA - Gosto de sanduíches, com bom pão. Aqui a ideia é que o principal elemento da sanduíche seja uma boa dose de vegetais - alface de boa qualidade, espinafres, rúcula. O que gostarem ou tiverem à mão mas em boa quantidade. Ao contrário de outras sanduíches deixem a maionese de lado. Temperem os vegetais com bom azeite e limão, deixem-nos a marinar  um bom bocado. Quando chegar a altura de fazer a sanduíche, levem as fatias de pão à torradeira até ficar um pouco tostado, barrem cada fatia com uma generosa porção de queijo fresco de cabra. Partam o que sobrar do queijo fresco em pedaços e misturem na salada entretanto preparada e depois forrem as fatias de pão abundantemente com essa salada. Não sejam tímidos, deixem o verde com uma boa altura entre as fatias e não se importem que transborde do pão. Bom apetite - agora com o tempo a começar a aquecer é um petisco.

 

DIXIT - “Podemos sair melhores ou piores da pandemia, mas não somos a mesma coisa” - Padre Manuel Barbosa, porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa

 

BACK TO BASICS - Arte é fazer alguma coisa a partir de nada e depois conseguir vendê-la - Frank Zappa







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MEDINA E FAKE NEWS - Muito pouco tempo depois de ter sido anunciada a candidatura de Carlos Moedas à Câmara Municipal de Lisboa foi abundantemente colocado nas principais redes sociais um vídeo que pretendia atribuir a Moedas a ideia da privatização da Carris há uns anos. O vídeo é o perfeito exemplo de fake news na luta política. É evidente  que foram os adversários deste candidato, que se afirmam apoiantes da gestão municipal actual, que fizeram o vídeo e o puseram a circular. Pouco depois de o vídeo ter surgido, foi publicado um trabalho de fact-checking sobre as afirmações divulgadas e acontece, como se comprova, que Carlos Moedas já não fazia parte do Governo anterior quando a ideia da privatização foi lançada. Mais, em fevereiro de 2015, quando o então governo  aprovou a concessão do Metro e da Carris, Moedas já tinha iniciado funções como comissário europeu para a Investigação, Ciência e Inovação há cerca de três meses. O vídeo dos adversários de Moedas, pelo que se compreende do texto, é da autoria de apoiantes da corrente gestão autárquica de Medina e os seus autores pretendem, como referem, denunciar “a outra face de Moedas”. Na realidade o que o vídeo mostra é a outra face dos apoiantes de Medina - adeptos de fake news que não olham a meios para alcançarem os seus fins. Fernando Medina teria ficado bem em demarcar-se destas fake news e destas campanhas mentirosas. Ao não o fazer mostra que, no fundo, usa os métodos de Donald Trump - aparenta que não faz, mas deixa fazer, se é que não estimula. Começou o vale tudo. A disputa é sobre Lisboa: se queremos no futuro uma cidade melhor para quem cá vive ou se queremos um cenário fabricado para visitantes. 

 

SEMANADA - Valdemar Alves, o autarca de Pedrogão cuja conduta depois dos graves incêndios de 2017 motivou críticas e deixou suspeitas em relação à aplicação dos fundos para a reconstrução,  volta a ser apoiado pelo PS nas próximas autárquicas; no sábado passado a Iniciativa Liberal anunciou um candidato próprio à Câmara de Lisboa e o indicado, Miguel Quintas, anunciou retirar se da corrida três dias depois, alegando razões pessoais após terem sido apontadas contradições entre declarações suas e do partido pelo qual se candidatava; o Ministro Pedro Nuno Santos defendeu que o PS necessita de um novo programa assente no reforço do papel do Estado; segundo um dirigente da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros Portugal está na cauda da Europa no que toca a hábitos de leitura e a média de compra de livros por habitante e por ano é de um livro e meio em Portugal, na Grécia é entre os três e quatro, em Espanha está entre os quatro cinco, e em França entre os sete a dez livros por ano; de acordo com um estudo da  Marktest, mais de um milhão de pessoas, 12% da população, compraram snacks para cães e/ou gatos nos últimos 12 meses;  um estudo de três universidade portuguesas indica que o jornalismo e a abordagem dos órgãos de comunicação social face à pandemia têm impacto direto nos resultados, isto é, na adesão da população às medidas de segurança; o desemprego efectivo já ronda os 14%; o Metropolitano de Lisboa perdeu cerca de 50% dos passageiros em 2021 e o Metropolitano do Porto teve uma quebra de 45%, a CP teve uma quebra de 40% e os barcos da Transtejo reduziram 45%; 



ARCO DA VELHA - Cavaco Silva fez gala em mostrar que não quis participar nos cumprimentos ao Presidente da República eleito e depois não teve a frontalidade para assumir essa ruptura política e pessoal e deu uma desculpa mal amanhada sobre a sua ausência.

 

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VER - Aos poucos começa a haver movimento em galerias de arte. Algumas estão a montar exposições, outras aguardam poderem abrir portas e outras ainda multiplicam as actividades on line. É o caso da Galeria Belo Galsterer que dia 12 de Março faz o lançamento online de uma exposição que esteva prevista para 2020. A pandemia obrigou a adiá-la, agora ela pode ser mostrada de forma virtual, e espera-se que em breve presencial, até dia 24 de Abril. Trata-se de “A Midsummer Night 's Dream Rewind”, que conta com obras de Cristina Ataíde, Paulo Brighenti, Claudia Fischer, Rita Gaspar Vieira, Renzo Marasca, Chrischa Oswald e Wolfgang Wirth. O título é inspirado na comédia de Shakespeare que mostra o mundo meio fantasioso que o autor criou no século XVII. A acção da peça decorre em torno do casamento da rainha das Amazonas com o rei Theseus, explorando o que é o sonho e o amor. Esta foi a base de inspiração para os artistas, que continuaram a trabalhar durante todo este tempo que levamos de confinamento. Na nova exposição online, “A Midsummer Night 's Dream Rewind”, os artistas falam dos seus trabalhos na primeira pessoa e toda a informação está disponível em formatos audio, video e também escrita. Basta entrar no  site da galeria (https://www.belogalsterer.com/)  a partir do qual se poderá aceder à exposição online, bem como à sua presença nas redes sociais Instagram, Facebook e YouTube.

 

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DEU-ME UMA DE BLUES  - Num dia desta semana acordei a apetecer-me ouvir blues. No meio de uma busca pelo Spotify descobri um disco recente, de finais de 2020, de duas lendas dos blues, Elvin Bishop e Charles Musselwhite - “100 Years Of Blues”. Como li numa recensão do disco num site americano este disco é um “antídoto para a música de plástico”.Bishop e Musselwhite são quase da mesma idade, amigos há muitos anos, companheiros de pescarias mas nunca tinham gravado um disco juntos.  Elvin Bishop, 1942, cresceu em Oklahoma, canta e toca guitarra, enquanto Charlie Musselwhite, nasceu em 1944, cresceu no Tennessee e tornou-se conhecido com a sua harmónica. Nos anos 60 andaram ambos por Chicago, na época a capital dos blues. Na época eram dois músicos brancos a tocar com músicos negros e aí conheceram e trabalharam com grandes músicos como Muddy Waters, John lee Hooker ou Howlin’ Wolf. Neste “100 Years Of Blues” estão 12 canções, nove originais e três versões de clássicos. Além de Bishop e Musselwhite o disco conta com a participação de Bob Welsh no piano e segunda guitarra e de Kid Andersen no baixo. Numa das faixas, “Good Times”, Musselwhite deixa a sua harmónica de lado e toca slide guitar de forma surpreendente. É quase uma hora de grande música que termina com um dueto cantado por Bishop e Musselwhite, no tema que dá o título ao álbum e onde os dois se explicam: “We have been playing this music a long time, between the two of us you are looking at a 100 years of blues, we got our education in Chicago back in the 60’s, playing in bars and breaking all the rules -  If your like what you hear, keep doing just what we do.”

 

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LISTA DE LEITURAS - Uma das formas de fugir às limitações a que o confinamento obriga tem sido ler. E por falar nisso nada como descobrir o que é que um homem com o saber de Eugénio Lisboa, tem a recomendar em matéria de leituras. Acabado de editar, “Vamos Ler - Um Cânone Para o Leitor Relutante” propõe 50 livros de 35 autores da literatura portuguesa. Ensaísta, escritor, crítico literário, poeta, Eugénio Lisboa, aos 90 anos, continua transgressor, provocador, apaixonado pela literatura e pelos livros. Este ensaio com cerca de 100 páginas editado na colecção “livros vermelhos” da Guerra & Paz,  não poupa críticas ao que o autor chama de «snobismo provinciano» que, acredita,  afasta as pessoas da leitura. Antes de chegar à lista propriamente dita Eugénio Lisboa fala de livros e literatura, elogiando a escrita simples. “Gosto de falar português limpo e asseado e não literatês”, afirma, a propósito de Gabriela Llansol: “Proponho que me expliquem, com muito cuidado e jeitinho e com um grande cuidado pelo significado das palavras, o que quer dizer toda aquela algarviada, vestida de pompas e significando nada.” A lista é ela própria um achado, um desafio estimulante a descobrir leituras: começa com “Equador” de Miguel Sousa Tavares e termina com os “Sonetos” de Luis de Camões, passando por clássicos e outros menos clássicos. Não vou revelar a lista, descubram-na nas páginas deste “Vamos Ler”, onde Eugénio Lisboa fala de cada autor, da razão da recomendação e da razão de ser de aconselhar uma obra. Da deliciosa introdução à lista, cheia de pequenas histórias de uma pessoa apaixonada pelos livros, destaco esta citação: “Witggenstein observava que, quando um pensamento se não consegue exprimir com clareza e simplicidade, é porque talvez ainda não esteja suficientemente maduro para ser expresso”. Enquanto as livrarias não abrirem podem comprar o livro no site da editora.

 

FAVAS EM TAKE AWAY - Estou a cumprir as regras do confinamento desde meados de Janeiro e reconheço que está a ser mais difícil que no ano passado. Com quase dois meses disto, parece que o tempo não passa, apesar de me manter bastante ocupado. Gosto de cozinhar e vou descobrindo receitas, mas tenho saudades das minhas mesas preferidas. Nas conversas telefónicas que tenho tido com os responsáveis dos restaurantes que frequento mais regularmente constato que neste confinamento a procura de take away está a ser menor do que aconteceu há um ano. Embora alguns restaurantes tenham criado kits de cozinha que podem ser finalizados em casa, a experiência de estar na mesa de um restaurante de que se gosta é outra coisa. O convívio faz-nos falta. Faz parte da natureza humana. A situação em que estamos levou-nos a privilegiar o isolamento. Mas isso não pode durar sempre e é bom que quando pudermos voltar a sair possamos regressar onde mais gostamos de estar. Quem habitualmente me lê sabe que gosto do Salsa & Coentros, em Alvalade. Têm sempre estado a funcionar com sugestões de pratos diferentes para o fim de semana, além de alguns clássicos do menu. Para este fim de semana as propostas principais são favas guisadas com entrecosto e filetes de polvo com açorda. Além disso há clássicos como a lebre com feijão, a perdiz de escabeche ou o arroz de pato. Se está em Lisboa pode fazer as encomendas eem www.restaurantesalsaecoentros.pt ou pelo telefone 218410990. Bom apetite e saúde!



DIXIT - “De nada vale a liberdade se for esvaziada pela pobreza” - Marcelo Rebelo de Sousa, na tomada de posse do seu segundo mandato como Presidente da República



BACK TO BASICS - “A comédia é apenas uma forma divertida de dizer coisas sérias” - Peter Ustinov



 

 

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