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A GREVE - Aqui há uns anos atrás o PCP organizava greves do sector dos transportes com uma localização cirúrgica no tempo, por forma a provocar o maior desgaste possível no executivo em funções; uns anos mais tarde o PS, pela mão de Armando Vara, esteve ligado ao bloqueio da Ponte 25 de Abril, precipitando a queda do cavaquismo. Desta vez o PS está refém de uma ameaça de greve desencadeada por um sector pouco numeroso mas aguerrido - o dos condutores de transportes de  matérias perigosas, que asseguram a distribuição de combustível a postos de abastecimento, aeroportos e outras entidades e serviços. Com a dependência energética que se criou em relação aos combustíveis fósseis a interrupção do seu fornecimento depressa lança o caos nas principais infraestruturas, no transporte de mercadorias e no transporte privado, além de áreas sensíveis como os serviços e veículos de emergência. Acontece que esta greve, conduzida inicialmente por um sindicato de constituição recente, não filiado em nenhuma das centrais sindicais, organizado em torno de uma estratégia negocial jurídica inesperada e planeada, que deu maior protagonismo ao advogado que ao próprio sindicato, dificilmente podia ser assacada a uma força política de forma clara. Sabe-se agora que Pardal Henriques, o advogado em causa, poderá estar na lista do Partido Democrático Republicano, liderado por Marinho Pinto. O Governo, com a cobertura e até incentivo  do Presidente da República, decretou serviços mínimos muito acima do habitual. A situação criada vai trazer para a ribalta uma questão sensível - até que ponto o direito à greve pode ser restringido, até que ponto uma greve pode ter consequências que podem afectar de forma assinalável o dia a dia dos cidadãos e de actividades económicas como a distribuição alimentar? A resposta a esta questão não é fácil mas nas sociedades contemporâneas o desafio do equilíbrio entre direitos e deveres, entre responsabilidade e liberdade é cada vez maior. Nos próximos anos, neste e noutros sectores, situações como esta vão multiplicar-se e tenho as maiores dúvidas que o sistema político e partidário e as organizações sindicais estejam preparadas para lidar com o caso. A decisão sobre serviços mínimos agora tomada significa na prática uma alteração não legislada da Lei da Greve, feita pelo Governo, com o beneplácito do Presidente da República e a complacência das duas centrais sindicais. Já viram o que um sindicato não alinhado desencadeia?

 

SEMANADA - Segundo o presidente da secção regional Sul da Ordem do Médicos as maternidades da região de Lisboa e do Sul do país estão todas a funcionar a meio-gás e as grávidas andam a “saltar de hospital em hospital”;  a passagem das 40 para as 35 horas de trabalho semanais provocou um déficit de 1700 enfermeiros que não foi ainda resolvido nem com as contratações do ano passado nem deste ano, o que prejudica a assistência prestada nos hospitais do SNS; segundo a Marktest as marcas da indústria automóvel foram as que mais apostaram em publicidade durante o primeiro semestre de 2019; fontes oficiais admitem que a venda de combustível subiu 30% na última semana; Cristiano Ronaldo manteve-se a personalidade mais mencionada nos social media, com Cristina Ferreira na 2ª posição, de acordo com o serviço Social Media Explorer da MediaMonitor;  Manuel Salgado anunciou que vai deixar de ser vereador na Câmara Municipal de Lisboa e avisou que pretende continuar a ter uma palavra sobre as opções urbanísticas da cidade onde autorizou projetos polémicos; um recente relatório indica que o Governo e entidades públicas diversas não cumprem com as suas obrigações de prestar informações ao Parlamento; segundo os dados do mais recente Eurobarómetro os portugueses estão mais pessimistas com a economia; um organismo governamental pretendeu fazer um inquérito dirigido a meio milhão de funcionários públicos que, entre outras questões, queria avaliar se as medidas tomadas pelo actual Governo em relação à Função Pública são mais motivadoras que as medidas do Governo anterior.

 

ARCO DA VELHA - Em 2018 o Estado devia ter pago 18 milhões de indemnizações, nomeadamente por expropriações ou atrasos na Justiça, mas só pagou sete mil euros. 

 

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VER - Os cartazes de campanha eleitoral deviam sempre ser apelativos, inovadores, provocadores, alcançando uma comunicação eficaz e aumentando a notoriedade das forças políticas que os apresentam. No entanto não é isso que acontece nos últimos anos na generalidade dos casos onde o cinzentismo se tornou dominante na propaganda política. A excepção  é a série de cartazes da Iniciativa Liberal que já começou nas europeias e que agora na pré-campanha das legislativas voltou a criar mensagens que despertam a atenção. Numa resposta irónica à actual campanha do PS, em vez de "cumprimos", lê-se "com primos", em letras garrafais, acompanhado da frase  "e outros familiares no governo", em letras mais pequenas. Abaixo, são indicados três índices que suscitam, de acordo com o partido, as falhas do Governo de Costa. Em vez de "mais emprego" e "menos precariedade", a IL escreve "mais impostos" e "menos serviços públicos". Além disso, em contraponto à propaganda de  "mais 350 mil empregos" e "89% de contratos sem termo", a Iniciativa Liberal refere os "539.921 hectares de área ardida em 2017", a morte de "2600 doentes" em listas de espera em 2016 e os "6 mil milhões de impostos cobrados". Os cartazes da Iniciativa Liberal são da autoria do publicitário Manuel Soares de Oliveira. Quer neste quer em casos anteriores o grafismo é simples mas eficaz e o seu conteúdo chama a atenção. Estrategicamente colocados em pontos de grande movimento, eles são também utilizados nas redes sociais - por exemplo sobre a greve dos motoristas de matérias perigosas a página de Facebook da Iniciativa Liberal publicou uma infografia que se resume a um camião autotanque cuja carga está dividida em blocos coloridos - enquanto os salários dos motoristas representam menos de 10% do preço final dos combustíveis, os impostos cobrados pelo Estado são superiores a 50%. Não é por acaso que uma das bandeiras da Iniciativa Liberal é mobilizar os cidadãos para combaterem a opressão fiscal do Estado.

 

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OUVIR - Querem ouvir uma coisa diferente dos tops actuais e das sonoridades que passam pela centena e meia de festivais que se realizam no Verão em Portugal? Aqui têm uma sugestão: Skrurk é o nome de um grupo coral norueguês, de 40 vozes, fundado em 1973 e que ao longo da sua existência já gravou mais de 25 álbuns, centrados na música folclórica da Noruega, em espirituais, world music e em clássicos do jazz. Tem colaborado com muitos músicos, nomeadamente com Tord Gustavsen, um pianista de jazz e compositor, também ele norueguês, que se tornou conhecido por um conjunto de discos lançados na primeira década deste século pela editora ECM. Agora, na mesma editora, foi publicado um disco co-assinado pelo grupo coral Skurk, por Tord Gustavsen e pelo baterista Rune Arnesen, sob o título “Taking Back In The Garden Of Eden”, que inclui 12 temas, todos compostos por Kirsti Dahl Johansen, com arranjos de Gustavsen e sob direcção musical do fundador dos Skurk, Per Oddvar Hildre. A gravação decorreu numa igreja em Oslo e o disco, de uma simplicidade e beleza raras, desenvolve-se num ambiente sonoro entre o misticismo e celebrações litúrgicas. Disponível no Spotify.

 

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FOLHEAR - A revista “Scenario”, editada seis vezes por ano  pelo Copenhagen Institute For Future Studies, apresenta-se como uma publicação dedicada a tendências contemporâneas, visões e especulações sobre o futuro, assim como ideias  que agitam os tempos correntes. Em Lisboa pode ser encontrada na Under The Cover (Rua Marquês Sá da Bandeira 88, junto à Gulbenkian)  e a mais recente edição inclui uma entrevista com Jared Diamond, um biólogo norte-americano, vencedor do Pulitzer,  autor de livros como “Colapso”, “O Terceiro Chimpanzé” ou “O Mundo Até Ontem”. O entrevistado aborda a presente situação mundial, recorda os últimos três séculos de História e as principais crises que afligem o planeta. Jared Diamond coloca no centro da sua análise as alterações climáticas e as pressões migratórias que, na sua opinião são as questões mais graves que se colocam no futuro à humanidade. Outros artigos interessantes são um ensaio sobre o que pode ser um futuro onde deixe de existir privacidade e também um outro ensaio sobre uma cidade que se desenvolve em torno de um aeroporto - um tema que devia ser particularmente caro aos lisboetas. A capa é dedicada a Lene Hald, uma investigadora que nos fala sobre  a epigenética - uma disciplina que nasce nos anos 70 e se desenvolve para estudar a forma como os genes de cada um podem ser influenciados. Finalmente vale a pena ler “Teenage Mutants”, um artigo onde se explora como evoluem as atitudes dos teenagers nestes tempos mais recentes.

 

PROVAR - Encontrar um local sossegado para jantar no Algarve nesta época do ano é uma tarefa quase impossível. Por puro acaso fui ter a um restaurante de um aldeamento turístico em Cabanas de Tavira- O aldeamento chama-se Quinta Velha, o restaurante chama-se DaBoca e a sua lista foi criada por Paulo Runa (que também dirige o Sabores da Ria na marginal de Cabanas). Embora não seja um grande apreciador de menus de degustação deixei-me tentar pela Mixórdia do Mar e fiquei bem agradado. A sua composição é variável conforme a oferta do mercado e no dia onde lá fui tive direito a navalheiras e ostras muito frescas, um brás de espargos, uma açorda de ovas de bacalhau com camarão e um belíssimo lombo de robalo acompanhado de um risotto de coentros e amêijoas.  A rematar uma torta de laranja genuína. A lista de vinhos é razoável mas o vinho da casa, D.Xisto, seleccionado pelo chef, é uma boa escolha - quer no branco, quer no tinto. E, acima de tudo, este é um local sossegado com uma esplanada sem carros nem multidões por perto. Telefone 281 381 078.

 

DIXIT - “A correção da injustiça não se faz com a criação de uma nova injustiça nem com a destruição de um valor, o da ciência e da cultura” - António Barreto.

 

BACK TO BASICS - “Não há expediente a que um homem não recorra para evitar o trabalho que dá pensar”- Thomas Edison.







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publicado às 12:30

BOLA DE CRISTAL POLÍTICA

por falcao, em 02.08.19

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 O PRÓXIMO FUTURO - As sondagens que se vão conhecendo traçam uma perspectiva pós eleitoral em que a vitória do PS é certa, provavelmente sem maioria absoluta, mas com a possibilidade de bastar o apoio do Bloco de Esquerda para ter maioria parlamentar. Assim a grande questão que se coloca é saber se António Costa vai querer romper a actual aliança tripartida PS-PCP-Bloco , substituindo-a por um acordo exclusivo com o Bloco e eventualmente com o apoio do PAN, que tudo indica crescerá em votos, como aliás se prevê que possa acontecer com o BE. A menos que o efeito da greve dos camionistas e dos múltiplos casos que estão a castigar o executivo produzam um desgaste grande da imagem do PS, o resultado previsível aponta para uma continuação de António Costa como Primeiro-Ministro. A única questão em aberto é saber como se formará a maioria que irá sustentar o seu Governo no Parlamento. Colocar o PCP de lado significa abrir a torneira da contestação dos sindicatos da CGTP, mais ainda do que tem acontecido - mas significa também tomar medidas, por exemplo na  Educação, sem ter que aceitar o diktat de Mário Nogueira. Uma facção importante do PS, e que provavelmente será reforçada em futuro executivo, sente-se mais próxima do Bloco que do PC. A questão está em saber se Costa quer já dar palco à geração que lhe sucederá no PS, arriscando romper com os comunistas, que assim ficarão politicamente fragilizados, ainda por cima num cenário de queda eleitoral. O dia seguinte às eleições de Outubro promete ser interessante. Como será a nova carroceria da geringonça?


SEMANADA -  A produção das fábricas portuguesas caiu 5,8% em junho, face ao mesmo mês do ano passado, completando assim o oitavo mês consecutivo de descidas homólogas; em Portugal, 89% dos consumidores assume gostar de comprar e experimentar novas marcas e produtos e quase metade dos portugueses afirmam que agora é mais provável que experimentem novas marcas do que há 5 anos; em 2018 foram constituídas 43 613 empresas, o valor mais elevado desde 2014 e foram dissolvidas um total de 35 578 empresas, mais do dobro do registado no ano precedente; segundo o estudo TGI da Marktest 52.7% dos homens refere ter lido pelo menos um livro nos últimos 12 meses e entre as mulheres a percentagem sobe para 68.2%; o mesmo estudo mostra ainda que 53.8% dos portugueses referem ter adquirido pelo menos um livro nos últimos 12 meses; segundo o Eurostat 41,3% dos portugueses não conseguia, no ano passado, pagar uma semana de férias fora de casa por ano, pior do que a média da União Europeia que é 28,3%; este ano os hotéis para animais em Portugal estão com a lotação praticamente esgotada; segundo o Banco de Portugal o total do crédito concedido pelos bancos às famílias e às empresas aumentou 380 milhões de euros em junho face a maio, somando 192.916 milhões de euros; Manuel Salgado anunciou que deixará de ser vereador na Câmara de Lisboa e disse que pretende continuar a presidir à Sociedade de Reabilitação Urbana.


BOA NOTÍCIA - Desde 2015, ano em que foi iniciado o tratamento da hepatite C com antivirais de ação directa, já ficaram curados cerca de 14 mil doentes em Portugal e outros tantos estão a receber tratamento.

 

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 O LEÃO DE OURO ALENTEJANO - Visitar arquitectura vivida pode ser uma experiência fantástica. Visitar uma recuperação em ambiente rural, feita com o objectivo de tornar o local num alojamento de excelência, é ainda mais  aliciante. Já tinha lido bastante e ouvido muito sobre o trabalho do arquitecto Souto Moura na Herdade de São Lourenço do Barrocal, mas só agora pude visitá-lo e vivê-lo. Com este projecto Souto Moura ganhou o Leão de Ouro na Bienal de Arquitectura de Veneza e é extraordinária a forma como recuperou edifícios ancestrais, desde a adega ao celeiro, passando por alojamentos de trabalhadores rurais. Conseguiu um resultado onde a simplicidade se conjuga com a qualidade, algo que é muito difícil de atingir. No desenho de todo o ambiente, nos arranjos exteriores, nos materiais utilizados, nas zonas de lazer, nos espaços comuns, o resultado é acima do que se podia esperar. Não há coisas supérfluas nem descabidas. Tudo está na dose certa no lugar certo, a lembrar e a respeitar um tempo passado, mas a torná-lo possível e adequado ao presente sem ser excessivo um só momento. Claro que o trabalho de Ana Anahory e Joana Astolfi nos interiores ajuda à recuperação da História do lugar e tem um contributo decisivo para o conforto e intimidade do local. S.Lourenço do Barrocal foi pensado e desenvolvido ao longo de mais de uma década por José António Uva, que personifica a oitava geração familiar na propriedade. Não conheço em Portugal outro lugar assim, onde se respeita a tradição e se permite o futuro. É uma obra de arte, que bem merece o prémio que Souto Moura recebeu em Veneza.

 

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 ERA UMA VEZ- Enquanto o filme não estreia por cá aproveitei umas viagens maiores de carro para ouvir a banda sonora de “Once Upon A Time In Hollywoo”, a nova e polémica obra de Quentin Tarantino com Brad Pitt e Leonardo DiCaprio. Segundo Mary Ramos, que tem trabalhado com Tarantino em diversos filmes, o processo de seleção da música começa sempre numa sala onde o realizador tem a sua enorme colecção de discos, maioritariamente LPs em vinil, com tudo classificado por género, desde soul music a bandas sonoras. Segundo Mary Ramos diz Tarantino não queria que nenhuma da música da banda sonora fosse muito distante do ano em que a acção do filme decorre, 1969. Para Tarantino podiam usar-se algumas gravações de anos anteriores mas nada posterior a 1969 - e recusou várias ofertas de intérpretes, como Lana Del Rey, que se propunham gravar novas versões de temas que seriam usados. Deep Purple, Simon & Garfunkel, Neil Diamond, Paul Revere & the Raiders, the Bob Seger System e Vanilla Fudge são alguns dos nomes escolhidos pelo próprio Tarantino entre os 22 temas que fazem parte da banda sonora já disponível no Spotify. Além desses 22 temas há ainda nove anúncios publicitários radiofónicos da época em que o filme se passa. Além dos já citados intérpretes a banda sonora, editada digitalmente, em vinil e em CD, inclui nomes como Chad & Jeremy, Roy Head & the Traits, the Vintage Callers, Buchanan Brothers, the Box Tops, Mitch Ryder and the Detroit Wheels, Buffy Sainte-Marie, Los Bravos, Dee Clark, Robert Corff e Jose Feliciano, entre outros.

 

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MISTÉRIO - Vilborg Yrsa Sigurðardóttir é uma escritora islandesa de romances policiais e ficção infantil que escreve desde 1998. Engenheira de formação, vive em Reiquejavique e a sua actividade profissional é precisamente a direcção de uma das maiores empresas islandesas de engenharia. “Abismo”, agora editado em Portugal pela Quetzal,  é o segundo volume da série DNA, iniciada no ano passado com “O Legado”, que consagrou a dupla formada pelo detetive Huldar e a psicóloga infantil Freyja. O novo policial da islandesa Yrsa Sigurdardóttir, com tradução de José Vieira Lima, conta a história do aparecimento de uma cápsula do tempo, doze anos após a violação e o assassínio de uma rapariga em Hafnarfjördur. Dentro da cápsula são encontradas cartas escritas por crianças que, em idade escolar, imaginam como será a Islândia em 2016, e o que acontecerá nesse ano. Mas, no meio delas, é encontrada uma mensagem anónima, com uma lista de iniciais das pessoas que virão a ser assassinadas no mesmo ano. Só quando partes de corpos recentemente decepados começam a ser descobertas nos sítios mais insólitos é que surge a hipótese de que estas possam estar relacionadas com os nomes da lista e com um crime antigo a que se seguiu outro crime. A acção do livro começa em 2004, termina mais de uma década depois e a sua edição original é de 2015. Um policial daqueles  que não se consegue largar até à última página.


UM RESTAURANTE A EVITAR - Tsukiji , o grande mercado de peixes de Tóquio, não merecia ver o seu nome ser utilizado num restaurante que desmerece a sabedoria da arte de receber japonesa. E, no entanto, o seu responsável é Paulo Morais, que devia saber o que faz e como se faz. O restaurante Tsukiji, em Belém, é um acto falhado, um caso em que o guarda roupa é melhor que os cenários e ambos são melhores que a representação. Uma das coisas que mais me irrita num restaurante é um cliente com reserva chegar à hora aprazada e ser convidado a ir para o bar, na esperança de algum consumo, sendo claro que há várias mesas livres e prontas - e que é aliás para uma delas que o desditoso cliente é encaminhado quando se torna evidente que apenas quer jantar. A coisa agrava-se quando no final a conta é inopinadamente agravada em 20 euros por um engano que, quando detectado, claro que suscita as maiores desculpas. O restaurante novo de Paulo Morais joga pois na carteira dos clientes mais do que na oferta gastronómica - vulgar, sem nada de relevo, até nem no corte do sashimi se encontra uma boa surpresa. O serviço é desatento apesar do número de empregados ser elevado, o chefe de sala é distraído e ausente, os cortinados e o macramé do bar dão um toque de falhado pretensiosismo ao local. Adequado a turistas que não voltarão lá mais, desadequado a portugueses que procurem cozinha oriental e bom serviço e que queiram locais onde possam repetir uma boa experiência.


DIXIT - “A cidade está a transformar-se numa cidade apenas para ricos e turistas. A sua população está a ser expulsa a uma velocidade absolutamente incrível ”- Fernando Nunes da Silva, professor universitário e especialista em urbanismo, sobre a política da Câmara Municipal de Lisboa


BACK TO BASICS - “Sabemos dizer muitas mentiras semelhantes a verdades” -  disseram as musas a Hesíodo.

 

 






 
 

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AS MÀSCARAS E OS DISFARCES

por falcao, em 26.07.19

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PROMESSAS & DISFARCES - Ainda a campanha eleitoral mal começou e já se percebe que estes políticos que se servem de nós através do voto transformaram a política numa actividade pouco recomendável. Na semana passada surgiram muitos anúncios de obras, uma ideia recorrente dos anos eleitorais. Num balanço rápido e não exaustivo recordo-me de nos últimos dias ter ouvido prometer uma nova ponte sobre o Tejo, uma milionária linha circular de metro, uma nova “Expo” na zona ocidental da cidade e mais algumas coisas avulsas que, contas por alto, se atiram para centenas de milhões de euros em obras. Face a esta fartura de recursos só posso ficar espantado que não se encontre algum dinheiro para investir numa política de médio prazo de gestão florestal, que os meios aéreos continuam a faltar, que o ordenamento das zonas do interior, mais vulneráveis aos fogos, continue eternamente adiado. O que se passa nesta matéria é um retrato da política tal como ela é praticada - todos os anos se garante que se aprende com os erros cometidos e no ano seguinte lá estão os mesmos erros, as mesmas incúrias, as mesmas faltas. Há quem se preocupe muito - e com razão - com as fake news das redes sociais. Mas vejo muita pouca gente, em todo o espectro político, a preocupar-se com o mais recorrente problema da sociedade portuguesa: a realidade escondida, o disfarce usado para evitar que se vejam as coisas como elas de facto são. Nestes quatro anos de tirocínio a geringonça tirou um mestrado em camuflar a realidade. O pior aldrabão não é o que mente - é o que esconde, deturpa e disfarça.

 

SEMANADA - Os gastos do estado em assessoria jurídica quase duplicaram no primeiro semestre; no início da semana, em apenas dois dias, duplicou a área ardida desde o início do ano; o Primeiro Ministro tentou passar as culpas dos problemas no combate aos incêndios para os presidentes das Câmaras; quando estes incêndios começaram havia helicópteros de combate aos incêndios parados por falta de autorização da Agência Nacional da Aviação Civil; o transporte de um bombeiro ferido em estado grave para Lisboa demorou mais de quatro horas por uma série de falhas do INEM e de articulação com a Protecção Civil; durante a actual legislatura apenas dois deputados não tiveram faltas registadas no Parlamento; em contrapartida os deputados no seu conjunto faltaram em média 24 vezes ao plenário da Assembleia ao longo dos 4 anos da legislatura; a Protecção Civil  deve meio milhão de euros aos bombeiros relativos ao combustível utilizado nas deslocações para o combate a fogos; segundo o Ministério Público, no caso das armas roubadas em Tancos, o ex-Ministro da Defesa, Azeredo Lopes, exerceu o poder de “forma perversa, bem sabendo que estava a beneficiar e proteger criminosos”.

 

ARCO DA VELHA - “Com tantas sondagens pergunto se ainda vale a pena fazer eleições” - a pergunta foi feita por Rui Rio e é esclarecedora sobre o seu entendimento do funcionamento da comunicação na sociedade.

 

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NAVALHA & NERVOS - Na Rua da Esperança há uma livraria/galeria chamada Tinta Nos Nervos. A exposição que lá está até 30 de Agosto chama-se “Fio da Navalha” e inclui vídeos de William Kentridge, desenhos de Pedro Proença, desenhos e pequenas instalações de Ema Gaspar e fotografia manipulada digitalmente de José Cardoso. A representação de William Kentridge é assegurada por uma selecção dos seus flipbook films, pela projecção de “Second Hand Reading”, uma obra de 2013 com música de Neo Muyanga e de “Tango For The Page Turning”, com música de Philip Miller. Pedro Proença exibe uma série de 14 desenhos a que chamou “O Exílio dos Contos” (na imagem), que funcionam como pedaços isolados de uma banda desenhada do quotidiano. São desenhos cáusticos, onde o humor faz parte do sentido de observação e com o traço inconfundível de Proença. Cada um vale bem os 900 euros, o preço pelo qual estão à venda. Por ocasião desta exposição a Tinta Nos Nervos editou também um livro com desenhos de 2010 de Pedro Proença, “Tomai E Comei”, que tem por subtítulo “Os Teólogos Compra Carne no Talho Errado”, uma espécie de banda desenhada num registo fantástico que o autor fez para o seu filho e que é uma pequena delícia.  Se além da exposição derem uma vista de olhos nas prateleiras da livraria verão o muito que na área do desenho e da banda desenhada a Tinta Nos Nervos tem para oferecer. E ao fundo existe ainda uma pequena cafetaria com esplanada. Tinta Nos Nervos - Rua da Esperança 39, a Santos.

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O DISCO - “Com Que Voz”, de Amália Rodrigues, por muitos considerado como o melhor disco português de sempre, conjugando coerência artística, elevação poética e requinte musical - como faz notar Frederico Santiago, que se tem dedicado a recuperar o arquivo de gravações de Amália, Acabado de gravar em Janeiro de 1969, “Com Que Voz” só foi editado em Março de 1970. Trata-se do primeiro disco de Amália em que todos os fados foram compostos por Alain Oulman, para acompanhar poetas como, entre outros, David Mourão ferreira, Cecília Meireles, Alexandre O’Neill, Ary dos Santos e Luís de Camões - cujo “Com Que Voz” dá aliás título ao álbum. A capa foi concebida pelo atelier Conceição e Silva e as fotografias eram de Nuno Calvet. O LP original tinha 12 temas, incluindo “Havemos de Ir A Viana”, “Gaivota”, “Formiga Bossa Nova” ou “Naufrágio”, entre outros. Neste disco estão incluídos mais nove registos, gravados na época, alguns deles inéditos. O disco foi gravado em pouco tempo, com Fontes Rocha e Carlos Gonçalves na guitarra e Pedro Leal e Fernando Alvim na viola. O trabalho de Fontes Rocha com Alain Oulman foi discreto, mas marcante, nas introduções e finais dos temas, como refere Nuno Vieira de Almeida no texto que escreveu para esta edição. E Nuno Vieira de Almeida finda o texto descrevendo “Com Que Voz” como um “disco perfeito” cujos doze números musicais são “verdadeiras preciosidades” que evidenciam “uma unidade vocal e de tratamento poético invejáveis para qualquer músico”. CD Valentim de Carvalho.

 

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UMA INVESTIGAÇÃO POLICIAL - Um facto curioso sobre Martin Amis, um dos mais afamados escritores britânicos contemporâneos, é que até meio da adolescência apenas lia banda desenhada. O seu pai, Kingsley Amis, trabalhou com os serviços secretos ingleses e nessa qualidade esteve em Portugal no tempo da guerra - daí resultando o romance “I Like It Here”. Martin estudou literatura inglesa em Oxford e começou a escrever bem cedo - o seu primeiro romance, “ The Rachel Papers” foi publicado em 1973, tinha ele 24 anos. Mas foi mais tarde que ganhou notoriedade e fama com “Money” (1984) e “London Fields” (1989), ambos centrados na emergente forma de vida de jovens profissionais com êxito na sociedade britânica daquela época. “The Night Train” é bem diferente - foi publicado em 1997, já tinha sido editado há uns anos em Portugal e a Quetzal reeditou-o agora numa nova e boa tradução de Telma Costa. “O Comboio da Noite” é um “thriller” que tem como protagonista Mike Hoolihan, uma mulher polícia de uma cidade americana, que investiga a morte de Jennifer Rockwell, filha do seu antigo chefe, Tom Rockwell. Tudo aponta para um suicídio, Jennifer Rockwell, uma astrofísica bem sucedida e respeitada, não tinha aparentemente razão para tirar a sua própria vida. A detective Hoollihan, uma alcoólica em recuperação, envolve-se no caso e descobre uma série de factos que a levam a mudar de opinião, ou pelo menos a ter muitas dúvidas. perturbada com o que descobriu sobre os últimos dias da vida de Jennifer, a detective entra num bar onde volta a beber… Aqui está um belo policial para este verão.

COMO PARTILHAR UM MOLHO? - Fui cheio de esperança ao restaurante Attla, sobre o qual li e ouvi numerosos elogios. Saí um bocado desiludido. Não comi mal e reconheço que a maior parte do que comi tinha uma preparação cuidada. O problema é que o próprio restaurante incentiva a que os pratos sejam partilhados e na maioria dos casos a partilha é difícil e frustrante. As doses são pequenas, o que até se pode compreender, e partilhá-las é uma tarefa complicada na maior parte dos casos, até porque os molhos são parte essencial da maioria das propostas da carta e os pratos sem esses molhos perdem muito da sua personalidade e interesse. E partilhar molhos é coisa complicada… Por outro lado o próprio empratamento dos pratos a partilhar torna a tarefa ainda mais difícil. Talvez se forem só duas pessoas a coisa se torne mais simples, mas numa mesa de meia dúzia de pessoas a partilha é impossível. Teria ficado bem mais satisfeito se me dessem a possibilidade de me atirar a doses inteiras, e um pouco mais generosas, de algumas das coisas boas como o camarão de ova azul, com leite de amêndoa, bisque e noodle de batata ou a massa de azeite glaceada com cacau, sapateira, sour cream e flor de chagas ou ainda os  cogumelos cantharellus com barigoulle de carapau, trigo sarraceno, nori e espuma de batata. Já a couve flor glaceada com vinagre de sabugueiro, satay de espinafres e azedas foi uma desilusão. Desigual esteve a sobremesa, chocolate do Equador, bolacha de alfarroba e avelã, acompanhado de gelado de eucalipto. A bolacha de alfarroba era insípida e o gelado dominava os outros sabores. A lista de vinhos é curta mas esse não é o maior problema deste restaurante - que terá de decidir se quer privilegiar as provas difíceis ou uma refeição com os sabores e experiências que propõe mas mais tradicional no serviço. O Attla fica em Alcântara, na rua Gilberto Rola 65, está aberto de terça a sábado ao jantar e com reservas através das aplicações habituais ou do telefone 211 510 555.

 

DIXIT -  “O nacionalismo e o populismo extremista - que dantes eram fenómenos marginais na política europeia - tornaram-se agora problemas centrais. Parece-me que a Europa está num estado de espírito semelhante ao dos anos 30” - Graydon Carter, na apresentação da nova publicação online Air Mail.

BACK TO BASICS - “Em última análise ou queremos ser recordados pelo que nos aconteceu ou queremos ser recordados pelo que fizémos” - Randy K. Milholland.



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A CÂMARA DA IMOBILIDADE - O actual executivo autárquico de Lisboa gaba-se de ter implementado políticas de mobilidade que favorecem os residentes da cidade. Ao longo do mandato de António Costa, e depois de Fernando Medina, tenho colocado as maiores reservas a estas afirmações - que têm apenas em consideração políticas parcelares e não um retrato geral da comodidade dos residentes lisboetas. Não vou entrar nas polémicas sobre bicicletas, trotinetas e outras soluções apregoadas como milagrosas e que em muitos casos aprofundam a insegurança - a começar pela dos peões. Nem menciono a insuficiência dos transportes públicos na cidade. Na minha opinião o vereador da mobilidade, Miguel Gaspar, é na realidade vereador da imobilidade. A Câmara Municipal de Lisboa toma medidas contraditórias a que ele dá cobertura - de um lado deseja menos carros na cidade e dificulta a circulação automóvel nalgumas vias (como sucedeu na Avenida da República e nos seus cruzamentos) e por outro toma medidas que visam transformar algumas artérias em vias rápidas. O caso mais recente é o do anúncio por Miguel Gaspar, na sequência das alterações previstas para a Praça de Espanha, de obras na Rua de Campolide que visam apenas criar uma entrada mais fácil daquele lado da cidade, contribuindo para uma circulação ainda mais difícil na Avenida Miguel Torga e na circulação naquela zona eminentemente residencial, em desrespeito total pelos seus moradores. Há poucos anos foram ali implementadas soluções de trânsito, sobretudo no cimo da Miguel Torga e no cruzamento da Marquês da Fronteira, que tornaram a circulação local um inferno para quem lá vive. A medida agora anunciada, conjugada com as malfeitorias anteriores, vai piorar tudo ainda mais. O que ali se está a passar e a preparar é o espelho da política de um executivo camarário mais interessado em obras de fachada e decorativas do que em tornar mais confortável a cidade para quem a vive no dia-a-dia e aqui paga as suas contribuições e impostos. Lisboa está cada vez mais a tornar-se numa cidade feita para quem não a habita e a situação tem culpados claros: Fernando Medina, Manuel Salgado e Miguel Gaspar estão à cabeça da lista de responsáveis pela destruição de uma cidade vivida. Preferiram fazer uma cidade visitada, preferiram favorecer a especulação imobiliária, preferiram penalizar os lisboetas, essa espécie em vias de extinção.

 

SEMANADA - Nos primeiros seis meses do ano a Polícia Judiciária fez seis operações contra a corrupção que visaram 14 autarcas; os bancos emprestaram 900 milhões de euros a grandes clientes sem quaisquer garantias; cerca de 80% das perdas associadas aos maiores devedores da CGD tiveram origem em créditos produzidos em mandatos de Carlos Santos Ferreira como Presidente do Conselho de Administração do banco, equipa de gestão que incluía Maldonado Gonelha a Armando Vara - indica o relatório preliminar da Comissão Parlamentar que investigou a instituição; o número de movimentos de aviões entre a meia noite e as seis chega a duplicar o máximo legalmente permitido; está prevista a abertura de 65 novos hotéis este ano em todo o país - dos quais 22 em Lisboa e 15 no Porto; já existem mais veículos de plataformas electrónicas do que táxis em Lisboa, Porto e Faro; o mais recente relatório da Autoridade para as Condições do Trabalho às empresas detectou aumento de 60% nos salários em atraso; o número de atingidos por doenças sexualmente transmissíveis aumentou 33% em 2018  e verificou-se também um aumento significativo entre pessoas com mais de 65 anos; a taxa de emprego dos cidadãos estrangeiros em território nacional ultrapassa os 73%, está a subir desde a crise e ultrapassa a média europeia; o sistema de ensino teve 40 reformas em 30 anos, das quais 18 desde o início deste século; há 700 mil portugueses sem médico de medicina geral e familiar. 

 

ARCO DA VELHA - A nova Lei das Beatas prevê que restaurantes e similares se possam candidatar a receber apoios financeiros se colocarem cinzeiros junto à entrada…

 

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JOALHARIA, ARQUITECTURA E FOTOGRAFIA  - O destaque desta semana vai para a exposição de joalharia contemporânea portuguesa que abriu na Gulbenkian e que é o prato forte da iniciativa “Convidados de Verão” da Fundação. Cristina Filipe, curadora da exposição, procurou estabelecer relações entre joias contemporâneas e obras do Museu Gulbenkian. A mostra segue a linha cronológica da exposição permanente da Coleção Moderna, apresentando joias realizadas entre 1958 e 2018 por artistas representados na Coleção como Jorge Vieira, José Aurélio, Maria José Oliveira, Vítor Pomar ou Pedro Cabrita Reis. São também criadas ligações entre peças da Coleção Moderna e obras de joalharia e estão presentes artistas como Alberto Gordillo, Kukas, Tereza Seabra ou Alexandra de Serpa Pimentel, entre outros, que iniciaram uma mudança na joalharia em Portugal desde a década de 1960, paralela à que se verificou nas artes plásticas e que demarcou a joalharia do campo das artes decorativas e aplicadas. No MAAT. desde a semana passada e até 2 de Setembro, pode ser vista a exposição “Form And Light”, que através da fotografia de Yigal Gawze, documenta a arquitectura Bauhaus erigida em Tel Aviv entre 1930 e 1940 e que foi uma espécie de laboratório onde os arquitetos, formados em vários países europeus, discutiam e criavam nas margens do Mediterrâneo um “modernismo modificado”. A fotografia dessa arquitectura, feita por Yigal Gawze evoca  a fotografia de vanguarda dos anos 30. Finalmente, e para continuar na fotografia, a Galeria das Salgadeiras (Rua da Atalaia 12) apresenta a exposição Ater, com trabalhos de Cláudio Garrudo, Augusto Brázio, Daniela Krtsch, João Dias, Jordi Burch, Maria Capelo, Rui Horta Pereira e Rui Soares Costa.

 

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GUITAR ROCK - O guitarrista Jack White é uma das mais fascinantes personagens do rock contemporâneo. O seu percurso inclui os White Stripes, uma longa carreira a solo, colaborações com nomes como Neil Young e projectos paralelos como The Dead Weather e  The Raconteurs, uma banda de existência incerta nascida em 2006 e que há 11 anos não editava nenhum disco. O silêncio foi agora quebrado com “Help Us Stranger”, gravado em Nashville mas marcado por Detroit, a cidade onde Jack White e Brendan Benson, os dois mentores do grupo, cresceram e começaram a tocar em bandas de garagem. Jack e Brendan são acompanhados nos Raconteurs por Jack Lawrence no baixo e Patrick Keeler na bateria. Este quarteto atirou-se a este disco como se se preparasse para uma batalha e o resultado é uma espécie de manifesto a dizer que o rock está vivo e se recomenda: quando White e Benson cantam “I’m here right now/I’m not dead yet” está dado o mote. O álbum tem baladas envolventes e duras como “Somedays (I don’t feel like trying)”, temas impactantes como a faixa de entrada “Bored And Razed” onde a guitarra de White estabelece a ordem num diálogo com a voz e a bateria, em contraste com a tranquilidade de Benson em “Only Child”, as harmonias de um quase pop “Sunday Driver” , a evocação dos blues em “Now That You’re Gone”, a energia contagiante de “Don’t Bother Me”, o dramatismo da ruptura cantada em “Now That You’re Gone” ou a inesperada versão de um tema de Donovan, “Hey Gip”. Entre a prova de vida do rock e um exercício de nostalgia este “Help Us Stranger” mostra a versatilidade de White e Benson

 

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JOGOS ANALÓGICOS - Se procura um livro para levar na bagagem de férias considere  “Os Jogos Da Minha Infância”. Trata-se um manual abreviado de jogos tradicionais que dispensam electricidade, computador ou telemóvel e que podem ser jogados em qualquer lado, uns dentro de casa, outros na rua. Desde o clássico pião, à apanhada e cabra cega, passando pelo macaquinho chinês, a barra do lenço, o elástico, a carica, berlindes ou o jogo do mata, o livro percorre mais de cinquenta jogos, cada um com um descritivo e instruções sintéticas. Nos casos em que se requer uma tabela de pontuação há modelos e as ilustrações proporcionam a visualização dos principais movimentos possíveis em cada jogo. O livro resulta de uma recolha da equipa editorial da editora Guerra e Paz em  torno de jogos tradicionais - pedrinhas e arte na esquadria para a macaca; destreza motriz e agilidade para o jogo do elástico; saltos dignos de um campeão olímpico no Mamã, dá licença?; cultura geral para o intemporal stop, pontaria e mestria para o berlinde, também apelidado de «guelas». Para além de jogos para jogar ao ar livre, o livro, “Os Jogos da Minha Infância” inclui também jogos para fazer em casa, da sueca ao jogo do galo ou à batalha naval. 

 

IDEIAS ORIENTAIS - De repente nos supermercados surgiram legumes a que não estamos habituados e com origens diversas - do Oriente vêm as couves pak choy e as berinjelas roxas chinesas, longas e finas; e do norte da Europa vêm os pepinos holandeses. Todos são diferentes, no paladar e na textura, de outros legumes das mesmas famílias, mas mais comuns em Portugal. O pepino holandês, por exemplo, é mais suave, menos acre que o pepino vulgar. A berinjela roxa é menos azeda e pela sua dimensão e textura, mais fácil de saltear. A couve pak choy fica bem cozida ao vapor ou levemente salteada - cozinha rápido. Estes três legumes não chegam cá vindos das suas paragens originais - curiosamente vêm todos do sul de Espanha, uma zona que parece ter-se especializado no cultivo destas espécies. Os seus sabores são mais suaves, as possibilidades de preparação que se vão descobrindo graças a pesquisas na internet abrem imensas possibilidades. O pepino, cortado em fatias muito finas, fica bem temperado com vinagre de arroz, lima, um pouco de saké, sal e sementes de sésamo - o resultado pode ser usado como aperitivo ou numa salada muito fresca. A couve pak choy funciona bem salteada e polvilhada com sementes de sésamo. Dá um belo acompanhamento. E as berinjelas roxas, salteadas e temperadas com molho de soja, ficam bem misturadas com peixe desfiado e camarões. 

 

DIXIT - “Uma visão positiva é aquilo que nos faz continuar, apesar das contrariedades que surgem ao longo da vida; a única desvantagem é que essa visão positiva dificulta-nos que vejamos as coisas más” - Andrea Camilleri

 

BACK TO BASICS - “A razão tem sempre um ar horrível quando não joga a nosso favor” - Halifax



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E COSTA RI PORQUÊ? Como se viu há dias no Parlamento começou a época das promessas e da deturpação da realidade. Um António Costa sorridente veio garantir que nesta legislatura correu tudo bem, que vivemos quatro anos de grande felicidade e progresso - tudo, claro, graças à geringonça. O êxito foi tal que António Costa e os seus ministros vão correr o país numa digressão intitulada “Cumprimos!”. Mas, terão cumprido o quê? A generalidade dos serviços públicos essenciais degradou-se. O investimento público congelou, os transportes não dão resposta à procura, reformas estruturais não se fizeram, os contratos a termo aumentaram, o trabalho pouco qualificado cresceu. A austeridade agora chama-se cativações. As greves na saúde, na educação e nos transportes voltaram - e estrearam-se na justiça. Os casos de promiscuidade na colocação no aparelho de Estado de familiares de responsáveis governamentais aumentou para além de tudo o que se conhecia. O desrespeito pelos cidadãos atingiu níveis inéditos: um governante culpou as pessoas por fazerem fila para serem atendidos por serviços públicos. Quem trabalha para o Estado foi favorecido em relação a quem trabalha no sector privado. A carga fiscal aumentou para o maior valor de sempre e a Autoridade Tributária continuou a destratar os contribuintes e a exorbitar os seus poderes. A corrupção na classe política tornou-se endémica. Os incêndios de 2017 e o roubo de armamento em Tancos são episódios tristes, inacreditavelmente ainda sem responsabilidade apurada. No Parlamento, no debate sobre o Estado da Nação, o Primeiro Ministro teceu loas à sua governação e aos seus aliados na geringonça, prometeu repetir acordos e teve uma frase memorável - “para a geringonça sobreviver tudo foi suportável”. 

 

SEMANADA - Os portugueses gastam 16 milhões de euros por dia nos jogos da Santa Casa e jogos online; as raspadinhas representam mais de metade do volume de apostas dos Jogos da Santa Casa - 8,5 milhões de euros por dia; por falta de vagas no serviço de psiquiatria do Hospital Universitário de Coimbra há doentes com indicação de internamento compulsivo que ficam além do tempo limite no serviço de urgências; nesta legislatura o Governo não deu resposta a 2049 perguntas de deputados; uma empresa especializada em desinfestações diz que os tratamentos para eliminar percevejos aumentaram 475% em quatro anos e atribui o crescimento da sua actividade ao número de turistas; 1,3 milhões de pessoas têm salários até mil euros e destas cerca de 680 mil ganham entre 600 e 750 euros mensais; Portugal está entre os dez países da União Europeia que perderam habitantes em 2018 e tem a quarta taxa de natalidade mais baixa da região; em 2018, apenas 29 dos 308 concelhos portugueses registaram um maior número de nascimentos do que de óbitos; segundo a Marktest, entre Março e Maio deste ano 51.6% dos portugueses leu ou folheou a última edição de um título de imprensa, num total de 4 419 mil indivíduos; um relatório da WWF revela que em Portugal ardem, em média todos os anos, quase 140 mil hectares, em mais de 2200 incêndios, o dobro do número de fogos dos outros países do Mediterrâneo, assim como a maior área ardida.

 

ARCO DA VELHA - Hugo Pires, deputado do PS e coordenador do Grupo de Trabalho de Habitação, Reabilitação Urbana e Política de Cidades no Parlamento, é sócio de uma imobiliária que está a promover o despejo de uma livraria/galeria em Braga num imóvel que a sua empresa quer mudar para alojamento local.

 

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ROTEIRO - Até 17 de Novembro a Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais exibe “Looking In/ Olhar Para Dentro”, uma exposição que reúne 60 anos de produção de obra gráfica de Paula Rego, exibindo cerca de duas centenas de peças, entre desenhos preparatórios para a execução das gravuras, chapas de cobre e trabalhos mais recentes e menos conhecidos (na imagem).  A curadoria é de Catarina Alfaro,  e a exposição inclui doações da artista, que decidiu completar a coleção da sua obra gráfica pertencente à Câmara Municipal de Cascais, à Fundação D. Luís I e à Casa das Histórias Paula Rego.  Em Lisboa, no Museu Arpad Szenes-Vieira da Silva está patente até 27 de Outubro a exposição “Brincar Diante de Deus, Arte e Liturgia”, com obras de Matisse, Vieira da Silva e Lourdes Castro, feitas para locais de culto religioso. Ainda em Lisboa, na Rua Castilho 5 e até 6 de Setembro, no Espaço M, pode ser vista a exposição “Construir o Nada Perfeito – Tributo a Cruzeiro Seixas”, uma iniciativa do Colectivo Multimédia Perve, em parceria com a Associação Mutualista Montepio e que está inserida no ciclo de celebração dos 70 anos sobre a 1ª exposição do anti-grupo surrealista português “Os Surrealistas”, fundado por Cruzeiro Seixas e Mário Cesariny, recordando a exposição que, em 1949, teve lugar na sala de projeções da Pathé Baby, junto à Sé de Lisboa. Em Coimbra, organizadas pelo Centro de Artes Visuais no Pátio da Inquisição, duas novas exposições de fotografia, de Tomás Maia e de Carlos Vidal; em Ponta Delgada, nos Açores, na Galeria Fonseca Macedo, Olivier Nottellet expõe Emotional Rescue. 

 

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MACHINE MUSIC - A voz e guitarra dos Radiohead, Thom Yorke, tem um novo álbum a solo, “Anima” - praticamente 50 minutos de nove canções baseadas num pano de fundo de sons electrónicos, onde questões ambientais estão na primeira linha - e com o próprio Yorke a proclamar “I Can’t breathe”, um síntese das suas várias ansiedades pessoais e sociais. A saída do disco é acompanhada da distribuição, pela Netflix, de um mini-documentário com 15 minutos de duração, assegurado por um fiel fã dos Radiohead, Paul Thomas Anderson, que inclui três das canções do álbum e onde surge a actriz italiana Dajana Roncione. O filme apresenta três canções unidas como se fossem uma só - “Not the News,” “Traffic,” and “Dawn Chorus”. Musicalmente “Anima” vai no mesmo sentido da banda sonora que Yorke fez para “Suspiria”, de Luca Guadagnino. Tal como aconteceu nos seus dois anteriores projectos a solo, o álbum está baseado num lote de canções marcantes, como por exemplo “I Am A Very Rude Person”, onde a linha de baixo contrasta com a voz de Yorke num registo vocal quase místico, num contraste com “Runawayaway”, uma enérgica despedida com guitarras, que praticamente estavam ausentes desde o início deste “Anima”, essencialmente construído em torno de sintetizadores. E embora na maior parte das canções as situações concretas estejam distantes, em “The Axe”  Yorke canta “Goddamned machinery, why don’t you speak to me?/One day I am gonna take an axe to you”, um alerta que aqueles que consideram que a evolução tecnológica está a ir na direcção errada poderão subscrever.

 

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UM POLICIAL GELADO - Cada vez gosto mais de livros policiais, e confesso que nos últimos anos desenvolvi especial apreço por autores nórdicos. Christoffer Petersen é o pseudónimo de um escritor dinamarquês que decidiu em 2006 ir viver para a Gronelândia e ali se dedicou, durante sete anos, a estudar a tradição e a cultura da região, que considera uma das mais fascinantes em termos mundiais. A Gronelândia é uma região autónoma da Dinamarca, ocupa a maior ilha do mundo e tem uma população de cerca de 60 mil pessoas que vivem num clima ártico e são maioritariamente descendentes de esquimós. Foi na Gronelândia que Christoffer Petersen começou a escrever policiais, como o fascinante “Um Inverno, Sete Sepulturas”, lançado em 2018 e que a Quetzal agora editou. A história é assim resumida: “ Na remota comunidade ártica de Inussuk, no final de cada verão, são cavadas sete sepulturas antes que o solo congele. À medida que o inverno se aproxima, a questão que se coloca é se serão em número suficiente”. Este livro introduz a figura de David Maratse, um polícia prematuramente reformado que um dia, durante a pesca, encontra a filha desaparecida da primeira-ministra. Maratse torna-se o principal suspeito e para provar a sua inocência assume-se como o investigador do homicídio mais célebre da Gronelândia. Para além da trama policial o livro cativa pelas descrições da Gronelândia, da sua cultura e tradições - de tal forma que se fica com vontade de descobrir esta região.

 

AS COMIDAS DA MONOCLE - Ao longo do ano a revista “Monocle” vai fazendo edições especiais sobre vários temas - o futuro, destinos de viagens e, agora, um guia de locais onde se pode comer e beber bem - o “food and hospitality annual”. Nesta nova edição Portugal surge algumas vezes. “A Matter Of Taste” fala sobre os locais do Algarve que, na opinião da correspondente da revista em Portugal, Trish Lorenz, merecem ser conhecidos. E quais são os destaques? O restaurante A Venda, na parte antiga de Faro, o olival de Monterosa, as ostras de Moinho dos Ilhéus, o restaurante Noélia de Cabanas de Tavira (que já conheceu melhores dias, diga-se…), o hotel rural Companhia das Culturas em Castro Marim, o café DaRosa em Silves pela sua doçaria, e as vinhas do Morgado do Quintão. Logo a seguir aparece um artigo dedicado a petiscos portugueses, com receitas de pastéis de bacalhau, peixinhos da horta, favas com chouriço, salada de polvo, bolo do caco com manteiga de alho e bolas de berlim com creme (portuguese doughnuts, chamam-lhe…). Esta edição traz ainda a lista dos 50 restaurantes de todo o mundo que a Monocle recomenda - a primeira referência a Portugal surge na posição 42 com o “Rancho Português”, do Rio de Janeiro. Em 40º lugar surge o Kampo, do Funchal e a terminar, em 31º está o lisboeta Gambrinus. Há ainda um roteiro por diversas cidades e em Lisboa as recomendações vão para o pequeno almoço da La Boulangerie, o almoço da Sea Me Peixaria Moderna, o café da tarde para o Hello Kristof,o jantar para o Café Lisboa e o copo de fim de noite para o Park Bar.

 

DIXIT - “Nos dois anos seguintes, o Governo substituíu os Ministros que defendeu, os altos funcionários que protegeu e os encarregados da Protecção Civil que nomeou (...) Não analisou as falhas do Governo, nem as da administração pública. Parece não haver lições a retirar. Nem erros a evitar.” - António Barreto, sobre os incêndios de 2017.

 

BACK TO BASICS - “Não debato política, pois os eleitos fazem o que querem depois da posse” - João Gilberto

 

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DOIS PARTIDOS SEM IDEIAS -  Há mais de 120 anos um dos grandes escritores portugueses do século XIX traçava um retrato do país que tem estranhas semelhanças em relação ao que se passa hoje. É certo que somos menos resignados, mas continuamos macambúzios, burros de carga de impostos, feixes de misérias na cativada degradação dos serviços públicos. Passava o ano de 1896, Guerra Junqueiro escrevia em “A Pátria” e analisava a paisagem partidária. Se pensarmos que podemos considerar os dois partidos que o escritor referia os actuais PS e o PSD o retrato ainda fica mais certeiro. É impressionante como o texto, nas suas linhas gerais, mantém actualidade.  Ora leiam: “Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta. (...) Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira a falsificação, da violência ao roubo, donde provem que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro. Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País. A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas.  Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar.“ 

 

SEMANADA - Das 375 empresas afectadas pelos incêndios de 2017 na região centro, cerca de uma centena ainda não receberam qualquer valor dos apoios prometidos pelo Estado; foram constituídos 44 arguidos na investigação à atribuição de subsídios para a reconstrução ou reabilitação das casas afetadas pelo incêndio de Pedrógão Grande; a dívida pública portuguesa atingiu em Maio o valor mais alto de sempre, 252,5 mil milhões de euros, mais 200 milhões que em Abril; devido à falta de operadores as chamadas para o INEM chegam a demorar oito minutos a serem atendidas, quando a recomendação é de sete segundos; desde 2000 os partos em hospitais privados passaram de 5,7% para quase 15% do total; há 20 concelhos sem centros de saúde, mas só 12 não têm lojas da grande distribuição; o número de cirurgias em atraso duplicou nos últimos quatro anos; quatro das maternidades que estão em risco fazem um quinto das urgências do país; num inquérito realizado na região de Lisboa 35% das pessoas declararam não pertencer a uma religião e 13,1% afirmaram ser crentes mas sem religião; em 2018 a carga fiscal foi de 35,4% do PIB, a mais elevada desde 1995; a falta de guardas deixa a A1 sem patrulhas da GNR; em seis meses morreram 224 pessoas na estrada, um aumento em relação a igual período do ano passado; Marcelo Rebelo de Sousa foi aos bastidores do concerto de Rod Stewart para fazer uma selfie com o músico; Pedro Silva Pereira, braço direito de Sócrates, foi eleito vice-presidente do Parlamento Europeu numa candidatura que contou com o apoio de António Costa.

 

CONFUSÕES DO ESTADO - O novo Inspector-Geral da Defesa Nacional é membro da Comissão Política do PS. A Defesa Nacional é auditada por um dirigente partidário...

 

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ROTEIRO DE ARTES  - No Museu Nacional de Arte Antiga a “Obra Convidada” em exposição actualmente é o conjunto dos quatro desenhos preparatórios para o São Jerónimo de Durer, pertencentes à Galeria Albertina, de Viena. Ali  se confrontam com a obra final, aqui reproduzida, e que faz parte da colecção do MNAA. São Jerónimo é um pequeno painel a óleo pintado por Albrecht Dürer em 1521, durante a sua viagem à Flandres e Países Baixos , e então oferecido ao secretário da feitoria portuguesa, Rui Fernandes de Almada, com quem manteve relações de amizade. Pela primeira vez, mostram-se entre nós estes quatro desenhos preparatórios, notáveis na técnica utilizada por Durer para o estudo da figura humana. Esta exposição está na sala 50 do piso 1 do Museu até 11 de Agosto. Outras sugestões: na Nanogaleria! (Rua do Centro Cultural 11), Ana Vidigal apresenta Quebra Gesso;  no Espaço Cultural Mercês está a  a exposição coletiva "estoutro" ,  a propósito do Dia Mundial do Refugiado com obras de 12 artistas, entre os quais Bárbara Bulhão, Beatriz Coelho, Joana Galego, Nádia Duvall e Tiago Mourão; na Giefarte está Red As Scarlet, White As Snow de Manuel Caldeira; na fotografia, e até 19 de Julho, na MUTE (Rua Cecílio de Sousa 20), Rudolfo Gil e Rafael Raposo Pires apresentam “Outubro” e “Espaço/ Marca”, um conjunto de imagens com o título genérico de “Grau de Semelhança” que abordam a maneira de ver espaços; para terminar o destaque da semana vai para os novos trabalhos de Daniel Blaufuks. Não há cópias sem originais e vice-versa - no tempo das imagens digitais, o que é a cópia e o que é o original e qual o papel e lugar de cada um deles? - é daqui que parte a nova exposição de Daniel Blaufuks, “Cópia Original”, na Galeria Vera Cortês (Rua João Saraiva 16-1º, até 14 de Setembro.

 

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O NOVO POP - De certa forma o jazz vocal é o novo pop da geração Y, ou millenials, como lhes quiserem chamar - aqueles que nasceram nos anos 80 e 90. Jamie Cullum, pianista e cantor britânico faz parte da nova geração de jazz vocal que vale a pena ouvir. O seu novo álbum, o primeiro em cinco anos, “Taller”, é um bom exemplo do cruzamento com pop e blues, com passagens pelo funk - através de uma série de dez canções, ecléticas do ponto de vista musical, todas compostas pelo próprio Collum e que são uma espécie de carta de amor dirigida à sua mulher, a modelo e escritora Sophie Dahl - com destaque para aquilo que na pop se chamariam dois hinos:  “For The Love” e “Endings And Beginnings”. No disco, com arranjos orquestrais e vocais por vezes surpreendentes, participam um quarteto de cordas, a London Symphony Orchestra, um côro e o grupo de músicos que normalmente colabora com Jamie Cullum, com destaque para Troy Miller, que aliás é co-produtor e fez os arranjos e misturas.

 

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MANUAL SNOB - W. M. Thackeray nasceu em 1811, em Calcutá, e estudou em Cambridge. Fez carreira no jornalismo, antes de se tornar o reconhecido autor de “As Aventuras de Barry Lyndon”, transposto para o cinema por Stanley Kubrick e de “A Feira das Vaidades”. “O Livro dos Snobs”, agora publicado entre nós, é uma das suas obras marcantes e tem origem numa coluna que escreveu para a revista britânica Punch entre 1846 e 1847, na coluna «The Snobs of England, by one of themselves». Quase dois séculos depois, a crítica social, política e comportamental de Thackeray continua com uma actualidade impressionante, que pode encontrar paralelos evidentes com o que se passa nos meandros dos poderes. Este é um livro de humor devastador onde ninguém é poupado, dos mais poderosos monarcas às anfitriãs de banquetes, dos clérigos emproados aos turistas britânicos. Partindo da Inglaterra vitoriana, nem Portugal escapa, muito snobemente representado, de passagem, pela caricatura de Fernando II, marido de D. Maria II, nas suas peripécias de caça. Thackeray faz um retrato pormenorizado de cada tipo de snob, traçando-lhes o jeito e o estilo com uma fina ironia. Segundo as palavras de W. M. Thackeray, um snob pode estar em qualquer parte. E depois de ler este livro começamos a ver o que se passa à nossa volta com um novo olhar...

 

A CASSATA CREMOSA - Se não fossem as amígdalas e os gelados, que na convalescença da sua extracção constituíram a minha alimentação, provavelmente não tinha desenvolvido um gosto especial  pela cassata italiana. Nem sempre é fácil encontrar em Lisboa uma boa cassata, quer à fatia, quer cremosa. Devo aliás dizer que a descoberta da cassata cremosa se deve a uma nova casa de gelados italiana que abriu em Lisboa, no Princípe Real. Trata-se da Casa Nivà- Gelateria Tradizionale, que tem lojas em Turim (de onde é originária), em Cannes e, agora também em Lisboa, na Rua da Escola Politécnica 41. Os gelados Nivà são uma história de família, que começou em 1988, na região de Turim, utilizando apenas produtos naturais e técnicas artesanais. Os gelados são feitos diariamente e podem ser consumidos na loja em cone ou copo ou vendidos em embalagens para serem levadas para casa. A Nivà usa apenas produtos locais e de época e o método de elaboração respeita a tradição italiana. Na circunstância, além da descoberta da cassata cremosa, ela foi combinada com um gelado de pistácio, numa bela harmonia de sabores. O melhor é passarem na loja e fazerem umas experiências - provar a textura cremosa da Nivà é uma experiência que vale a pena ter.

 

DIXIT - “Preciso muitas vezes de legendas para entender Rui Rio” - Sonia Sapage

 

BACK TO BASICS - “A fúria do inferno não é nada comparada com a de um burocrata desprezado” - Milton Friedman.

 



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D. MEDINA I, O DESPOVOADOR

por falcao, em 28.06.19

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OS ASSASSINOS DA CIDADE  - Nos últimos dias vários amigos que vivem em zonas históricas de Lisboa disseram que estão a ponderar sair das casas onde sonharam viver porque já não aguentam o barulho e a feira permanentemente instalada por todo o lado. Percorre-se a cidade e ela está desfigurada - basta olhar para o que permitiram fazer no Jardim de São Pedro de Alcântara, invadido por barracas horríveis e um barulho constante. Ali deixou de haver miradouro, um dos melhores locais para se apreciar as sete colinas está reduzido a uma feira foleira. Um pouco mais à frente o Princípe Real é o retrato do caos. No ar sente-se tensão, à noite o barulho continua, quem ali mora deseja fugir e os alojamentos locais multiplicam-se a uma velocidade desconcertante. Não vejo isto em nenhuma outra capital e cidades há, como Berlim, onde acabou de ser decretado o congelamento do preço das casas durante cinco anos para tentar travar a especulação imobiliária. Dez cidades (Amesterdão, Barcelona, Berlim, Bordéus, Bruxelas, Cracóvia, Munique, Paris, Valência e Viena) pediram a intervenção da União Europeia para impedir o crescimento explosivo do Airbnb, que está a pôr os habitantes locais para fora de suas casas. Contraste: em Lisboa o executivo municipal parece apostado em fomentar uma política de expulsão dos habitantes da cidade. Como afirmava Ana Margarida Carvalho num texto sobre a situação em Lisboa, a propósito do ruído e da confusão permanentes: “Se calhar, a ideia é mesmo essa: tornar de tal maneira insuportável a vida em bairros residenciais, até que estes deixem de ser residenciáveis.”. A edição mais recente da revista “Monocle” coloca Lisboa na décima posição entre as melhores 25 cidades, mas sublinha: “O fluxo de entrada de pessoas coloca questões sobre o turismo descontrolado, nomeadamente o aumento das rendas de casa, situação particularmente dramática num país que tem o menor salário mínimo da Europa Ocidental”. A Câmara Municipal, sugere a revista, “deveria agir rapidamente para evitar que os habitantes locais, que são quem dá vida à cidade tenham que sair para longe”.  

 

SEMANADA - Segundo um organismo do Conselho Europeu Portugal ignorou a maioria das recomendações para aplicação de medidas anticorrupção relativamente a parlamentares, juízes e procuradores; o Ministro das Finanças disse que as cativações não afectam o Serviço Nacional de Saúde; Marcelo Rebelo de Sousa afirmou-se preocupado com o calendário de “contenção de despesas”; o hospital da Guarda está em ruptura com falta de médicos e equipamentos; a Urgência do  Hospital de Santa Maria tem escalas incompletas para 17 dias de Agosto; nas maternidades portuguesas faltam 150 obstetras; a maternidade Alfredo da Costa só tem anestesistas para cinco dias em Agosto; um estudo desenvolvido pela Fundação da Aliança de Democracias indica que Portugal é o terceiro país do mundo onde menos se acredita no governo; a compra de casas a pronto e em dinheiro está a aumentar; os partidos políticos têm um património imobiliário superior a 50 milhões de euros, a maioria isenta de IMI; apesar de proibidos os copos descartáveis continuaram a ser usados nas festas de Lisboa; m 2018 registaram-se 6536 visitas para sexo nas prisões portuguesas; o número de funcionários públicos aumentou 26 mil desde 2016; há quatro mil projectos urbanísticos pendentes na Câmara Municipal de Lisboa, com um atraso considerável e há casos em que as decisões são tomadas de forma mais rápida sabe-se lá porquê.

 

ARCO DA VELHA - Em Guimarães um conjunto de salas de ensaio equipadas, que custaram cerca de 800 mil euros e se destinavam a apoiar o trabalho de músicos locais, foram demolidas três anos depois de terem sido inauguradas devido a falhas estruturais no edifício.

 

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CONTAR HISTÓRIAS EM IMAGENS - Como Carolina Trigueiros escreve no texto  sobre a exposição “Sal Nos Olhos”, que abriu sábado passado na Galeria Diferença, Ana Vidigal “é uma contadora de histórias” que nas suas obras estabelece conexões de pessoas, lugares e momentos. Da mesma forma as obras de Ana Vidigal são histórias, que recorrem à utilização de recortes de imagens e texto, com recurso à colagem e também à pintura,  num processo de cruzamento de informação com um enquadramento plástico que faz cada obra transcender o significado inicial das referências que utilizou. São obras de intervenção, mas acima de tudo de observação do mundo à sua volta, sempre com um sentido de humor acutilante. Frequentemente mostram um olhar entre o crítico e o desapontado, mas na maior parte das vezes são uma narrativa crua que se desenvolve como um manifesto das suas ideias. Também na Diferença, em simultâneo com a exposição de Ana Vidigal, Hugo Brazão, um artista madeirense que trabalha em Londres, faz uma incursão entre a ficção e a realidade. Partiu de uma descoberta científica na Ponta de São Lourenço, na Madeira, para especular sobre os efeitos do erro humano no ambiente. “O’Mouse an’Man” de Hugo Brazão e “Sal Nos Olhos” de Ana Vidigal estão na Diferença até 27 de Julho - Rua de São Filipe Neri 42.

 

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ROTEIRO - Hoje destaco uma peça teatral - Sábado e Domingo são os últimos dias para poder assistir a “Gertrude Stein e Acompanhante”, uma peça de Win Wells que desenvolve em cena um diálogo improvável entre a escritora e poetisa americana Gertrude Stein  e a sua companheira de 36 anos de vida, Alice B. Toklas, levando-a a falar sobre os seus assuntos preferidos: ela própria, a literatura, a pintura, as artes.  O espaço cénico e os figurinos são de António Lagarto e em palco estão Cucha Carvalheiro, Lucinda Loureiro e Nuno Vieira de Almeida. Na sala Mário Viegas do Teatro de S. Luiz. Voltando às exposições destaco “A Chuva Cai Ao Contrário”, uma mostra marcante de João Jacinto na Sociedade Nacional de Belas Artes (Rua Barata Salgueiro 36, até 20 de Julho). Trata-se de um impressionante conjunto de obras de grandes dimensões, numa montagem excepcional num corredor artificial criado no salão nobre da instituição. As 24 obras apresentadas foram aliás propositadamente feitas para este espaço, numa exposição patrocinada pela Fundação Carmona e Costa e com curadoria de Manuel Costa Cabral e Nuno Faria. 

 

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CALIFORNIA SOUNDS - Mesmo quando julgamos que Springsteen não nos podia surpreender, eis que, quase aos 70 anos, ele dá de novo sinais de vida. Depois da sua experiência de estar um ano, noite após noite num pequeno teatro da Broadway, o seu novo disco, “Western Stars” salta para os grandes horizontes americanos e entra musicalmente pela música country e por evocações da sonoridade pop dos anos 60 e 70 de uma forma que ele não havia ainda feito. Este é, digamos, um disco californiano - em vez de operários nas fábricas surge a história de um actor secundário cuja fama vem de ter levado um tiro de John Wayne num western. Os arranjos musicais fazem também lembrar a época, há momentos em que se sente quase a presença do som de Phil Spector e nos coros há um trabalho vocal que não se encontra habitualmente nos discos de Springsteen - que se posiciona ele próprio como um actor que está a querer desempenhar um papel diferente do habitual. “There Goes My Miracle” mostra-nos Springsteen a cantar de forma pouco usual e “Hello Sunshine”, quase no fim do disco, é um exemplo perfeito de todo este “Western Stars”, tal como, aliás “The Wayfarer” ou “Drive Fast (The Stuntman)”.

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DE ONDE VEM A VIAGEM?  - Michel Onfray é um filósofo francês que escreve sobre temas que incluem a gastronomia, a história, a pintura e a geografia, entre outros. Assume-se como um hedonista, numa pose quase libertária e tem cerca de meia centena de títulos publicados. Em tempos “Teoria da Viagem” já havia sido editado em Portugal, mas foi agora recuperado na bela colecção “Terra Incógnita”, que sob a direcção de Francisco José Viegas está a oferecer edições muito interessantes. Publicado em França em 2007, e como refere o editor no preâmbulo, este “Teoria da Viagem” cruza “a literatura propriamente dita com uma aproximação irregular e melancólica à geografia, a poesia com a prosa. O livro fala do desejo de partir, sobre o que nos leva a querer viajar - “Sonhar com um destino é obedecer a um imperativo que, no nosso íntimo, fala uma língua estrangeira.». E que poderemos encontrar nesta obra? - perguntas como qual é a origem do desejo de viajar? Por que razão nos sentimos mais nómadas ou mais sedentários? Porque somos impelidos para o movimento constante, a deslocação, ou amamos o imobilismo e as raízes?  O objectivo da colecção "Terra Incógnita"  é reunir "títulos e autores que desprezam a ideia de turismo e fazem da viagem um modo de conhecimento". 

 

PROVA ALBICASTRENSE - Volta e meia o acaso leva-nos a um restaurante desconhecido e que nos deixa boas recordações. Numa recente viagem pela Beira Baixa descobri O Palitão, que fica numa urbanização relativamente recente de Castelo Branco e que pratica a gastronomia da região. Em primeiro lugar destaco a simpatia e eficácia do serviço, em segundo lugar o cuidado em pormenores como um pão de boa qualidade, embrulhado em pano como deve ser. Do ritual deste restaurante faz parte um cortejo de entradas que inclui ovos mexidos com farinheira, espargos selvagens, saladas frias de polvo e orelha e grão com bacalhau, além de uma salada de tomate saborosa como poucas. Nos pratos principais provaram-se os filetes de polvo e o laminado de carnes que são propostos com uma variedade de acompanhamentos, incluindo arroz com feijão e migas. O prato do dia era ensopado de borrego, elogiado noutras mesas. A garrafeira é variada, os preços são sensatos e a doçaria inclui bolo rançoso e sericaia. As operações são dirigidas por Frederico Vinagre, que ali se estabeleceu há 14 anos. O Palitão fica na Avenida de Espanha Lote 7, o telefone é o 272 323 608. A casa enche cedo, vale a pena marcar.

 

DIXIT - A corrupção é uma "epidemia que grassa pela sociedade" e isso em parte deve-se também a um sistema partidário que escolheu a via do "encastelamento", onde "o mérito foi substituído pela fidelidade partidária" e no qual "a administração pública foi colonizada" pelos partidos  - Ramalho Eanes.

 

BACK TO BASICS - “O principal sinal de que a corrupção está bem viva numa sociedade é a ideia de que os fins justificam os meios” - Georges Bernanos







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ABUSO CAMARÁRIO - Por estes dias muitos munícipes lisboetas receberam uma carta da Câmara Municipal de Lisboa, assinada pelo seu Vice-Presidente, que paga juros sobre a Taxa Municipal de Protecção Civil criada pelo PS na autarquia e que mais tarde foi considerada ilícita. O Município primeiro devolveu os valores indevidamente cobrados e agora enviou os juros indemnizatórios. Cada carta, recebida através dos CTT, incluía um vale postal com o valor calculado para cada munícipe. O meu tem o valor de 5,06 euros. Por acaso gostava de saber qual foi o encargo global da devolução da taxa indevidamente cobrada e dos juros indemnizatórios através deste processo - algum dos autarcas em exercício devia ser responsabilizado pelo abuso na cobrança e pelos custos que provocou. Imagino que para me devolverem os cinco euros tenham gasto quase tanto no envio do correio e emissão do vale postal. Já aquando do  reembolso do valor indevidamente cobrado fiquei a pensar porque é que não tinha sido transferido para a conta bancária de onde foi feito o pagamento - e agora tenho exactamente a mesma dúvida. Mas suspeito que o clã de Fernando Medina aposte na possibilidade de muitos destinatários do vale postal não terem paciência para as intermináveis filas dos CTT ou dos balcões dos bancos e que deixem passar o prazo de um mês em que o vale postal permanece válido. Os expedientes contra os cidadãos são intermináveis na autarquia lisboeta. Quem fez disparate foi a Câmara, quem tem que ir perder tempo são os cidadãos. É o mundo simplex.

 

SEMANADA - O antigo director de grandes empresas da CGD revelou que Joe Berardo enviou uma carta a Santos Ferreira pedindo um financiamento de 350 milhões para a compra de acções do BCP; Victor Constâncio recebeu Berardo no Banco de Portugal um mês antes da reunião da instituição onde a acta sobre a operação em torno do BCP foi aprovada e na qual esteve presente o Governador; uma fonte próxima de Berardo disse que “o comendador está incrédulo com a falta de memória de Vítor Constâncio acerca de uma reunião a sós, em julho” de 2007;  Faria de Oliveira, ex-Presidente da CGD, defendeu que o Banco de Portugal poderia “ter ido mais longe” nos alertas sobre Joe Berardo; o empresário Joe Berardo admitiu poder vir a chamar Constâncio como testemunha no processo que a banca lhe moveu para recuperar 962 milhões de euros em dívida; Duarte Caldeira, o líder do Centro de Estudos e Intervenção em Protecção Civil, afirmou que “o Governo não fez a devida avaliação do que ocorreu” nos incêndios de 2017; em três meses registaram-se quase quatro mil casos de agressões a idosos; um homem residente em Valpaços foi apanhado 17 vezes a conduzir sem carta e o tribunal de Guimarães aplicou-lhe pena suspensa; os funcionários públicos têm hoje em média 47 anos, mais 3,4 do que em 2011; apenas 61% dos obstetras do país trabalham no Serviço Nacional de Saúde e os blocos de parto dão sinais de ruptura; Portugal tem 159 idosos por cada 100 crianças.

 

ARCO DA VELHA - Os CTT são a marca com maior número de reclamações registadas no Portal da Queixa e desde o início do ano, até ao dia 17 de junho, registaram-se 2.743 queixas referentes aos CTT e CTT Expresso.

 

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ARQUIVOS DE IMAGEM - Martin Scorsese diz que a música é uma parte importante da sua actividade criativa e costuma citar o filme “Jazz In A Summer’s Day”, que mostra os bastidores e os palcos do Festival de Newport ao longo de um dia em 1959, como o exemplo de filme sobre o mundo da música que o fascina (este documentário, de Bert Stern e Aram Avakian está disponível no YouTube). Scorsese estreou-se a filmar música com o seu registo “The Last Waltz”, sobre o derradeiro concerto do grupo The Band em 1976 - e foi aí a sua aproximação a Bob Dylan, de quem tinha visto dois ou três concertos até então. Em 2005 Scorsese realizou um documentário sobre Dylan que fez história: “No Direction Home”. E agora foi Bob Dylan que o desafiou para pegar em material inédito filmado em 1975, durante a digressão Rolling Thunder Review, para mostrar o que então se tinha passado. Essa digressão foi pensada pelo próprio Dylan como uma espécie de circo itinerante que iria ser apresentada em pequenas salas na costa leste dos Estados Unidos e no Canadá. Dylan juntou à sua volta uma troupe interessante - músicos como os guitarristas Roger McGuinn (figura central dos Byrds), Mick Ronson, T Bone Burnett,  Ramblin´Jack Elliott, o violinista Scarlet Rivera, Joan Baez e Joni Mitchell, mas também o poeta o poeta Allen Ginsberg e o actor e escritor Sam Shepard (que escreveu um diário da digressão durante essas semanas). O próprio Dylan contratou uma equipa de filmagens para seguir e documentar toda a digressão que foi também registada em fotografia por Ken Regan (como a imagem que aqui é reproduzida). O trabalho de Scorsese foi alinhar todo o material de arquivo, construir uma narrativa com as imagens obtidas, confrontar entrevistas da época com entrevistas feitas agora (incluindo a primeira nova entrevista do próprio Dylan em anos) e transformar imagens dispersas de uma digressão atípica numa história - The Bob Dylan Story, subtítulo do imperdível documentário distribuído pela Netflix.

 

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ARQUIVOS SONOROS - Ao mesmo tempo que a Netflix lançava o documentário de Scorsese sobre a Rolling Thunder Review, Bob Dylan trabalhou na edição de uma caixa de 14 CD’s que recupera ensaios, actuações e gravações diversas feitas em espectáculo, em estúdio, ou sessões improvisadas em casa de outros músicos. Algumas destas gravações já tinham aparecido nas “Basement Tapes”, mas muito do material é inédito. Bob Dylan registava de forma sistemática as gravações dos seus trabalhos, do seu processo criativo, até de encontros casuais e fugazes - sendo que um dos momentos mais surpreendentes é o registo de uma sessão em casa de Gordon Lightfoot, no Canadá, onde também aparecem Patti Smith e Joni Mitchell, Este é o registo de sete semanas alucinantes - desde que os ensaios começaram até ao concerto de Montreal, no Outono de 1975. Um dos momentos chave de todos estes registos é a sucessão de versões de interpretação de “Isis”, uma canção de desamores, feita em parceria com Jacques Levy - que foi o responsável pela concepção cenográfica de toda a digressão. O tema apareceu no álbum “Desire”, e o que está nestes registos são os primeiros passos dessa canção, deste uma versão apenas ao piano até várias outras gravações ao vivo e em ensaios até ao concerto de Montreal. Outros momentos de registo são as versões de Hurricane, a canção que Dylan fez em prol da libertação de Ruben Carter. No Spotify podem encontrar uma versão condensada da caixa de 14 CD’s, um sampler que inclui dez temas da “Rolling Thunder Review, The 1975 Live Recordings”.

 

Romanceiro Cigano seguido de Pranto por Ignacio S

A POESIA DO TOUREIRO - Frederico Garcia Lorca é um dos nomes mais importantes da literatura espanhola. Nascido no final do século XIX, morreu cedo, em 1936, uma das primeiras vítimas da Guerra Civil de Espanha. Distinguiu-se nas peças de teatro que escreveu (como Bodas de Sangue ou La Casa de Bernarda Alba) e numa vasta obra poética. Dois dos seus poemas mais significativos, Romancero Gitano (1928), e Llanto por Ignacio Sánchez Mejías (1935) foram agora reunidos num único volume, com uma edição bilingue que junta ao original de Lorca a tradução de Vasco Graça Moura. “Romanceiro Cigano” tem um sabor mais popular e o “Pranto por Ignácio Sánchez Mejías”,  é uma composição mais elaborada em memória do célebre toureiro, que morreu colhido por um touro na praça de Manzanares El Real, em 13 de Agosto de 1934. Hoje em dia seria politicamente incorrecto enaltecer um toureiro, como Lorca fez mas quero acreditar que mesmo nestes tempos Lorca não se calaria perante os bons costumes. Ignacio Sánchez Mejías, que escreveu ele próprio duas peças de teatro, foi mecenas da chamada geração de 27, pólo de uma vanguarda cultural na Espanha da primeira metade do século XX. Na introdução que deixou escrita a estas traduções, Vasco Graça Moura sublinha que “o Llanto por Ignacio Sanchez Mejías é talvez a mais fascinante evocação do luto de toda a literatura do século XX”.

 

VISITAR - Em tempos a ideia de ir passar uns dias numas termas não me atraía. Percebi agora que não tinha razão. Estive uma semana no Hotel Fonte Santa, nas Termas de Monfortinho e fiquei rendido - ao hotel, à sua equipa, ao equipamento termal propriamente dito e sobretudo à região. Em tempos estes equipamentos - e o Clube de Tiro Desportivo de Monfortinho - estavam ligados ao banco Espírito Santo. Com o colapso do BES uns foram vendidos outros permanecem no Novo Banco, como o referido Hotel e outros encerraram, como o Astoria. Ambos são exemplares importantes da arquitectura de uma época. O Fonte Santa debate-se com falta de pessoal mas a equipa existente desdobra-se para prestar bom serviço. O Hotel fica colado ao balneário das termas e tem uma piscina com uma implantação perfeita e o terraço do bar proporciona uns belos fins de tarde. Do Balneário das Termas, que não experimentei, só me dizem maravilhas - preferi passar o tempo a ler no silêncio envolvente da região. O Clube de Tiro Desportivo foi entretanto vendido e recuperado. O seu restaurante tem um novo concessionário e os pratos fortes são o polvo grelhado, o arroz de lebre e o bacalhau (este último muito procurado por espanhóis - a fronteira é a dois passos). Mas o Clube de Tiro oferece também um complexo de piscinas aberto ao público e um conjunto de quatro modernos e confortáveis bungalows construídos já pelos novos proprietários, integralmente forrados a xisto, perfeitamente enquadrados na paisagem,  projectados por Tomás Ramos da ARC Arquitectura, e que podem ser alugados. Se quiser dar um salto a Espanha a escassa distância fica Coria, com uma interessante zona histórica onde há um restaurante simpático, El Bobo de Coria. Se andar mais uns quilómetros pode experimentar o Pátio, em Cáceres, detentor de estrelas Michelin.

 

DIXIT - “Nunca me tinha passado pela cabeça sair para o BCP “ - Armando Vara.

 

BACK TO BASICS - “Quando alguém estúpido relata o que uma pessoa inteligente disse o resultado nunca é rigoroso porque o relator inconscientemente traduz o que ouviu para algo que ele próprio possa compreender” - Bertrand Russell.







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VER O QUE É, OU VER O QUE SE QUER?

por falcao, em 14.06.19

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O JOGO DAS SOMBRAS - Em geral prefiro o realismo ao optimismo. O optimismo provoca miopia, encarar a realidade torna tudo mais límpido. As cerimónias do 10 de Junho deste ano foram sobre as diferenças de encarar o país, com o Presidente da República a defender o optimismo,  o Primeiro Ministro a evitar o tema e o Comissário das Comemorações a traçar um retrato realista das coisas que deve ter deixado muitas individualidades agitadas e incómodas na tribuna de honra. É certo que Portugal é mais que fragilidades e erros, como disse Marcelo Rebelo de Sousa; mas é igualmente certo que temos tendência a protelar a resolução das fragilidades e a empurrar os erros para debaixo do tapete. É este eterno adiar que tem de mudar. O Estado precisa de uma varridela profunda e ela deve começar no desenho de um novo sistema eleitoral que permita que novas formações partidárias surjam e tenham representação parlamentar, para que os cidadãos se sintam mais perto dos eleitos e que os eleitos, a todos os níveis, das juntas de freguesias aos mais altos cargos, sejam exemplos de ética e de responsabilidade - o que implica responsabilizar os partidos pelas escolhas que fazem. A prioridade não pode ser criar novos eleitos na regionalização que alguns pretendem, não pode ser manter o jogo da mentira que tem dominado a política, sobretudo nestes anos mais próximos. A prioridade deve ser criar um sistema mais justo e mais escrutinável,  com uma justiça mais rápida nos casos de corrupção política. O tempo é o de proporcionar um sistema eleitoral que traga para a causa pública gente que se interesse pela política sem ser para traficar interesses, de legislação que penalize quem engana e rouba os cidadãos escondido atrás do manto do poder, seja local ou nacional, de partidos que não se limitem a fazer promessas que nunca cumprem. Como disse João Miguel Tavares em Portalegre,“nós precisamos de sentir que contamos para alguma coisa (além de pagar imposto)”.

 

SEMANADA - Armando Vara pediu escusa de ser ouvido de novo na Comissão de Inquérito à CGD mas o pedido foi recusado; dos 15 presidentes de câmara que foram constituídos arguidos nos últimos dois anos, 11 são do PS; o PSD apresentou um projeto de lei que propõe até 3 anos de prisão para quem matar cães ou gatos, mas não apresentou qualquer nova proposta sobre penalizações em casos de corrupção envolvendo políticos; Francisco Assis, do PS, afirmou que “Victor Constâncio é um homem sério e singularmente qualificado no plano económico, que ao longo da sua vida prestou relevantíssimos serviços ao país”; documentos do Banco de Portugal confirmam que a Administração da instituição, presidida por Victor Constâncio, sabia que Joe Berardo não tinha capacidade financeira para ser accionista qualificado do BCP; a CGD anunciou que vai avançar com a penhora dos salários que Joe Berardo receba por ser administrador de diversas empresas; 19,6% dos trabalhadores portugueses recebem o salário mínimo; o Conselho Superior das Finanças Públicas queixou-se de pelo terceiro ano consecutivo não ter acesso a dados financeiros do Sistema de Segurança Social e o Ministro da tutela, Vieira da Silva diz desconhecer a razão de tal facto; investigadores acompanharam durante dois anos a evolução da habitação numa área de 3,6 hectares à volta de uma rua de Alfama e concluíram que, de 150 apartamentos comprados, apenas um foi destinado à habitação própria; Lisboa é a cidade com maior rácio de casas para alugar a turistas no Airbnb face às principais capitais europeias, com um valor superior a 30 habitações por mil habitantes nesta plataforma.

 

EFEITO MEDINA -  Segundo um estudo internacional Lisboa é, pela terceira vez consecutiva, a cidade mais congestionada da Península Ibérica, acima de Madrid ou Barcelona e os condutores da capital passam em média 42 minutos por dia no trânsito, o que, no final de um ano, representa perto de 160 horas de tempo gasto em deslocações.

 

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ARTE VIRTUAL - Leonel Moura tem trabalhado nos últimos anos na aplicação de tecnologia à criação no domínio das artes plásticas. O percurso percorrido já recorreu a robots e agora propõe uma aplicação baseada em realidade aumentada, disponível gratuitamente na Apple Store e na Google Play, sob o nome Lisboa Viral. Através da aplicação Lisboa Viral o utilizador pode visualizar as 17 esculturas virtuais que se encontram espalhadas pela Grande Lisboa, desde vários pontos da capital até Cascais, Sintra, Ericeira, Sesimbra ou Mafra. Percorrendo os locais com a aplicação, em vez de um jogo onde se descobrem Pokémons, encontram-se as esculturas virtuais que são criadas por um programa generativo,  com recurso a realidade aumentada. Esses locais são Torre de Belém, Palácio de Belém, Praça do Comércio, Praça de Camões, Chiado, Rossio, Cais do Sodré (na imagem), Bairro Alto, Alfama, Estação do Oriente, Boca do Inferno, Cascais, Praia dos Pescadores, Cascais, Palácio de Sintra, Cabo da Roca, Sintra, Praia dos Pescadores, Ericeira, Cabo Espichel, Sesimbra e Palácio de Mafra. As obras podem ser visualizadas e também fazerem-se fotos ou vídeos que podem ser partilhados.  Estas esculturas existem também fisicamente em pequeno formato, tendo sido realizadas em impressão 3D e algumas já foram vendidas a colecionadores em Portugal e França com o preço médio de 3.000 euros. Leonel Moura está actualmente a preparar uma exposição a realizar em Pequim no próximo ano.

 

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UM SOM NOVO - Fred Pinto Ferreira já foi baterista dos Orelha Negra, Buraka Som Sistema, Os Dias de Raiva, Yellow W Van, Oiaiai, Laia e recentemente, da Banda do Mar, com os brasileiros Marcelo Camelo e Mallu Magalhães. É também um produtor multifacetado de numerosos discos dos mais variados artistas, entre os quais, por exemplo Mafalda Veiga e Luís Represas e já actuou como baterista da fadista Raquel Tavares. Agora Fred decidiu lançar-se a solo com o disco "O Amor Encontra-te no Fim", composto por 15 faixas. Fred encara este projecto como uma terapia musical para se reencontrar consigo próprio e, ao contrário da maioria dos mais recentes trabalhos discográficos portugueses, frequentemente monótonos e desinteressantes, há aqui a procura de alguma coisa nova e não um mero copiar de tendências. Confesso que este é dos discos portugueses deste ano que mais gostei de descobrir e tornou-se numa escuta frequente no Spotify. O nome do disco, com uma base de bateria acústica que é envolvida por electrónica, essencialmente instrumental,  é uma homenagem a uma canção de Daniel Johnston, “True Love Will Find You In The End”, evocado em “Para Nunca Mais Cair”, a derradeira faixa do álbum. Amaura, Francis Dale, Marcelo Camelo e Carlão são os convidados de Fred em “O Amor Encontra-te no Fim”.

 

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A GESTÃO DAS EMPRESAS FAMILIARES - Em Portugal, as empresas familiares contribuem para 65 % do PIB e são responsáveis por 50 % do emprego. Luís Parreirão, administrador da MGP SGPS, SA, accionista maioritária da Mota-Engil, analisou os desafios complexos de gestão que se colocam nesse contexto e reuniu as conclusões no livro “Empresas Familiares: Da Governance à Responsabilidade Social”. Como é a governança destas empresas familiares? Baseada na razão ou na emoção? Privilegiam mérito ou preferências individuais? Como são encarados os donos - como sócios ou familiares? E como são tomadas as decisões das maiores empresas familiares em Portugal, que representam 25 % das entidades cotadas na bolsa? Para Luís Parreirão as respostas não são óbvias e muito menos «nestes tempos de incerteza(s)», que impõem às empresas familiares «um mais forte, e mais flexível, planeamento estratégico, quer para si próprias, quer para a(s) família(s) accionista(s)». O autor foca temas como o aumento da espera pela sucessão dos herdeiros do accionista maioritário, resultante do aumento da esperança média de vida : «Será que as novas gerações estarão disponíveis para esperar até mais tarde? Quantos estarão disponíveis para conviver com a “síndrome do Príncipe Carlos”?»  Finalmente o autor aborda também, com recurso a dados europeus, o protocolo familiar e a nova realidade dos family offices, permitindo ter uma visão actualizada e prática sobre este universo.

 

A BELA MASSA - Várias pessoas já tinham elogiado o restaurante italiano que abriu recentemente na Praça da Armada, perto de Alcântara. Na semana passada pude finalmente lá ir com um grupo de amigos, por acaso de várias nacionalidades. O restaurante, que abriu no início deste ano, chama-se Ruvida e é gerido por um casal italiano que se estabeleceu em Lisboa - Valentina Franchi e Michel Fant. Tem uma sala com poucas mesas e cozinha aberta, um grande balcão onde Valentina ao fim da noite prepara a massa fresca para o dia seguinte (um espectáculo digno de se ver) e uma esplanada simpática. A decoração é simples e de bom gosto, infelizmente os arquitectos continuam a não ter cuidado com a acústica das salas de restaurantes - será que os arquitectos apreciam a cacofonia? Acústica à parte a cozinha do restaurante só merece elogios e a qualidade das massas é acima da média. O menu de almoço custa 16 euros e inclui entrada, prato principal, sobremesa, bebida e café - e pode ter a sorte de ser dia de tagliatelle com tomates e alcaparras, uma especialidade. Nas entradas destaco a mousse de mortadela, o tártaro de vitella alla piemonte e as sardinhas fritas marinadas num molho de cebola cozinhada em vinagre, com pedaços de pinhão - uma especialidade veneziana. Na lista das pasta destaco os tortelloni burro
 e oro, a massa bem no ponto, boa para tomar o gosto do molho de tomate e manteiga, muito suave, que vai às mil maravilhas com o recheio de ricota, parmesão e noz moscada. A lista de vinhos podia ser melhor sem ser maior, mas em compensação o spritz mereceu elogios de um especialista francês que estava na mesa. O serviço na sala pode melhorar um pouco. O Ruvina fica na Praça da Armada 17 e está aberto para almoços e jantares de quarta a sexta e aos sábados e domingos non stop das 12 às 23. Reservas pelo  213 950 977.

 

DIXIT - “A verdadeira modernidade da Administração, com que tantas autoridades e tantos políticos gostam de rechear os seus discursos, não é a da tecnologia, é a da humanidade e a da igualdade” - António Barreto.

 

BACK TO BASICS - “Há  tipos tão batoteiros que usam cartas marcadas quando jogam solitário” - personagem de um policial de Desmond Bagley.



 




 

 

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publicado às 13:00

A POLÍTICA INTERESSEIRA

por falcao, em 07.06.19

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INTERESSES EM VEZ DE IDEAIS  - O caso de Joaquim Couto, o autarca de Santo Tirso que meteu cunhas a outros quatro autarcas recomendando os serviços de consultoria de comunicação de empresas da mulher, é apenas o mais recente de uma longa lista dos pecadilhos abundantes na paisagem política e partidária portuguesa - em todas as áreas ideológicas, como se tem visto. Uma sondagem recente mostra que mais de metade dos portugueses não têm confiança nos líderes políticos e nos deputados e que quase metade dos inquiridos está pouco satisfeita com a democracia. Querem cenário mais preocupante que este? A culpa não é dos eleitores mas de um sistema calculista que deliberadamente procura menosprezar a participação, manter o status quo, e dificultar o aparecimento de novas alternativas. Houve um tempo em que na política entravam homens com ideais e causas; hoje, na maior parte dos casos, está na política gentinha que se move apenas por interesses e vantagens pessoais. O resultado está à vista: todos procuram uma causa para a crise e ela não é segredo nenhum: a corrupção, o abuso de poder, o compadrio. Há quem diga que esta conversa fomenta o populismo, mas a minha sincera opinião é que a causa do populismo está no sistema que permite tudo isto e não se corrige. O problema está nisto: varrer os interesseiros da política significa destruir grande parte dos aparelhos dos principais partidos. E ninguém quer ir por esse caminho, muito menos em ano de eleições.

 

SEMANADA - Poucas semanas depois de o Governo ter anunciado que queria melhorar o serviço de comboios a Infraestruturas de Portugal decidiu extinguir as equipas especializadas em segurança e manutenção ferroviária; à semelhança de outros serviços de transporte público, depois do anúncio da descida dos preços dos passes sociais, o Metro de Lisboa mandou retirar bancos para caberem mais passageiros, em piores condições de conforto e segurança; a empresa acusada de roubar mantimentos para as messes da Força Aérea e de pagar luvas a militares foi convidada e contratada de novo para fornecer bebidas e aperitivos naquele ramo das Forças Armadas; o concelho de Montalegre tem uma área superior à ilha da Madeira mas é habitado apenas por nove mil pessoas; 21,3% da população portuguesa tem mais de 65 anos, valor apenas superado na Europa pela Itália;  Celorico da Beira é o último município do Rating Municipal Português divulgado pela Ordem dos Economistas e todos os 20 piores municípios do ranking divulgado são de pequena dimensão e estão no interior; em ano e meio foram apreendidos 2990 telemóveis nas cadeias portuguesas; um quinto das salas dos hospitais e centros de saúde não têm ar condicionado.

 

O MURO - No funeral de Agustina foi notória a ausência dos habituais nomes da intelectualidade que se afirma de esquerda, aqueles que não perdem uma oportunidade para prestar vassalagem nas campanhas eleitorais e para coçarem as costas uns aos outros, mas que são incapazes de atravessar o muro da ideologia para reconhecer o génio - que na verdade sempre os incomodou. Como podia aquela mulher escrever tão bem, não sendo da esquerda deles?

 

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REVIVER - Em 2014 a editora Guerra & Paz lançou “ O Livro de Agustina”, uma autobiografia da escritora, com 120 páginas e dezenas de fotografias dos álbuns de família e de recordações avulsas. Podem encontrá-lo na Feira do Livro e nas livrarias. Neste livro revivemos a vida de Agustina Bessa-Luís, contada por ela com enorme humor, escrita na primeira pessoa, e que começa, assim, evocando os avós, para explicar as suas próprias origens: “O avô Teixeira, com todo o ar dostoiewskiano, casou em Março de 1987 com Justina, filha de José Bento de Bessa, do Lugar do Barral. Ele tinha 41 anos quando casou e ela 28, idade que, para uma noiva, era já um pouco avançada, nesse tempo. Explica-se assim porque Justina ficara enamorada desde os sete anos por José, com 20 anos, quando ele a ajudou a passar um ribeiro em dia de invernia e lhe disse que casaria com ela, um dia”.  E, já quase no final do livro, Agustina conclui: “ Esta é a minha história que a memória abreviou, quando não é que a modéstia a repreende. Somos sempre muito faladores com o insignificante e muito calados com o que nos assusta. Assusta-nos o íntimo das nossas vidas, por passarmos todas as portas sem pensar que elas se fecham para sempre atrás de nós. Não podemos voltar para compor o inacabado ou as palavras soltas a que faltou a experiência”. São poucos os escritores que conseguem contar assim a sua própria vida.

 

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A VISÃO DO FOTÓGRAFO - A certa altura, em 1951, Fernando Lemos estava em Paris com José Augusto França (um amigo com quem se correspondeu toda a vida) e queria expôr fotografia na capital francesa. Essa  exposição nunca se concretizou mas Lemos e França conviveram na altura com Vieira da Silva e Arpad Szenes, em casa de quem conheceram Man Ray, que expunha na cidade por essa altura e cujo trabalho influenciou Lemos. Esta história vem na introdução que Filomena Serra escreveu ao quarto volume da série Ph., uma colecção criada na Imprensa Nacional para publicar o trabalho de fotógrafos portugueses contemporâneos, dirigida por Cláudio Garrudo. A primeira fotografia deste livro é exactamente do jovem José Augusto França, fotografado na Galeria das Quimeras, na Notre Dame. Filomena Serra destaca que “uma das propriedades que Lemos atribui à fotografia é a fusão: fusão de luz e sombra, fusão de formas, de linhas e contornos, que deambulam e desmaterializam os corpos, podendo até surgir o informe”. A primeira fotografia de Fernando Lemos foi feita em 1949, a partir da janela do seu quarto, na Rua do Sol ao Rato, com uma máquina rudimentar e está reproduzida nesse livro. Como Filomena Serra sublinha Fernando Lemos descobre com a fotografia que ”afinal numa fracção de segundo tudo muda”. E começa a fotografar amigos, as pessoas com quem se dava, uma geração de pintores, poetas, escritores, artistas. Neste livro, que inclui numerosas imagens inéditas, estão retratos que Fernando Lemos fez de nomes como Agostinho da Silva, José Viana, Arpad e Vieira da Silva, Mário Cesariny, José Cardoso Pires, António Pedro, Fernando Azevedo e Vespeira, Mécia e Jorge de Sena, Alexandre O’Neill, José Blanc de Portugal ou Sophia de Mello Breyner, todos fotografados entre 1949 e 1952, a época em que mais trabalhou o meio, num testemunho de cumplicidades e na descoberta de técnicas de exploração de luz ou de sobreposição de imagens.

 

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AS MUITAS DIMENSÕES DE FERNANDO LEMOS - Esta é a semana do regresso de Fernando Lemos a Portugal e uma oportunidade única para quem não o conhece descobrir a sua obra multifacetada e pouco conhecida pelos mais novos. Lemos, nascido em 1926, estudou na Escola de Artes Decorativas António Arroio e ao longo da sua vida dedicou-se à pintura, à fotografia e ao design gráfico e industrial, para só citar as áreas onde a sua presença é mais marcante. Em 1953, desiludido e em ruptura com o clima político que se vivia em Portugal, foi para o Brasil, onde reside desde então. Para além do livro de fotografia acima referido, editado pela Imprensa Nacional, a partir desta semana pode ser descoberta a sua obra multifacetada e que permanece actual. Comecemos pela exposição dos seus trabalhos em azulejo, que está na Galeria Ratton (Rua da Academia das Ciências 2C) até 6 de Setembro, e onde esta fotografia de Fernando Lemos, tendo por fundo um dos seus painéis, foi feita. A exposição da Ratton chama-se “Máscaras do Tempo” e inclui um conjunto de padrões de azulejo mostrados em painéis e um conjunto de 11 desenhos reproduzidos em chapa de alumínio. Na Galeria 111 (Campo Grande 113) está até 14 de Setembro a exposição “Mais a Mais ou Menos” que mostra a diversidade dos suportes que utilizou e inclui fotografias, desenhos a carvão, desenhos em técnica mista sobre papel, cartões postais, aguarelas e acrílico sobre cartão e papel - uma introdução indispensável à obra de Fernando Lemos. Finalmente, por iniciativa do MUDE, no Torreão Poente da Cordoaria Nacional e até 6 de Outubro está “Fernando Lemos Designer”, a é a primeira exposição especialmente dedicada a Fernando Lemos enquanto designer e artista gráfico. Das suas mãos nasceram logótipos, livros (e uma editora de literatura infantil – editora Giroflé), muitas ilustrações, cartazes, azulejos, murais, tapeçarias, estampas para tecidos, pavilhões expositivos. Esta exposição, que está a ser preparada pela equipa do Mude desde 2017 reúne 230 obras, a maior parte delas desconhecidas em Portugal, está documentada num bom catálogo editado pelo MUDE e a Imprensa Nacional e tem ainda a particularidade de permitir perceber o processo criativo do autor e de mostrar, pela primeira vez, trabalhos inéditos que nunca saíram do papel.

 

ROTEIRO - O Fotobox é o único programa sobre fotografia que existe na televisão portuguesa - passa aos Domingos à tarde na RTP3. Neste próximo domingo Luiz Carvalho revista a reportagem que fez em 1992 sobre o último dia de trabalho da fábrica vidreira Stephens na Marinha Grande, voltando a falar, agora, com operários que fotografou nesse dia.  Na edição da semana passada o Fotobox chamou a atenção para a exposição “Fotografia Impressa e Propaganda Visual em Portugal (1934-1974)” , que está até 30 de Agosto na Galeria do Auditório da Biblioteca Nacional (Campo Grande, Lisboa) e revisita a História do Estado Novo português através da fotografia impressa e da propaganda visual, comissariada por Filomena Serra e Paula André. A terminar deixo a sugestão de um disco, “O Amor Encontra-te No Fim”, a estreia a solo de Fred Pinto Ferreira, depois de trabalhar em projectos como os Buraka Som sistema, os Orelha Negra ou a Banda do Mar. Ouçam no Spotify que vale a pena. Petisco guloseima:  um gelado artesanal italiano daLuc Duc, ao cimo da Rua de Campolide, esquina com a Marquês da Fronteira.

 

DIXIT - “Com 16% em Lisboa e 22% no Porto o PSD é agora um partido rural, que vai bem a Rui Rio, um homenzinho autoritário e colérico, que chegou ontem de 1970 e não se distingue pela inteligência política” - Vasco Pulido Valente.

 

BACK TO BASICS - “O país não precisa de quem diga o que está errado; precisa de quem saiba o que está certo” - Agustina Bessa-Luís

 

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