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O COSTA DA CULTURA

por falcao, em 13.05.09

(Publicado no diário Meia Hora de 12 de Maio)


Esta semana li, algo surpreendido, um texto de propaganda sobre o que seria a política cultural da Câmara Municipal de Lisboa, protagonizada por António Costa. Publicada no sábado no «Público», a reportagem mostra um António Costa – pela primeira vez no seu mandato – preocupado com as questões da política cultural.


Presidente de uma vereação onde a Cultura é actividade acessória, confinada a estudos estratégicos de programa pré-definido e universo estreito, António Costa pouco mais fez do que mostrar como é presa de preconceitos e de lugares comuns, evitando falar de coisas concretas.


A estratégia de António Costa nesta matéria é curiosa: em vez de fazer uma política para a cidade, fez uma política e desenvolveu uma estratégia para querer seduzir pessoas, organizações e instituições ligadas às actividades culturais, dentro de um círculo razoavelmente restrito e com elevada dose de fidelidade política – na prática desprezou os públicos. O resultado é que a cidade perdeu aura, embora algumas pessoas tenham ganho ocupação subsidiada.


As iniciativas populares e o entretenimento – áreas marcantes da cultura popular contemporânea – têm-lhe merecido desprezo, substituídas por apoios avulsos a iniciativas muito especializadas e demasiado sectoriais. Mesmo num dos seus cavalos de batalha – a multiculturalidade, o seu mandato fica marcado pela extinção do África Festival, substituído por uma África.cont. que ainda ninguém sabe bem o que será e que, a bem dizer, não existe além do papel.


Mas o pior do curto mandato de António Costa em Lisboa tem sido a sua submissão ao Governo: foi assim com a Colecção Berardo, em que a Câmara devia ter imposto a solução do pavilhão de Portugal, na Expo, como equipamento receptor; foi assim no caso do inconcebível projecto do Museu dos Coches; foi assim na discutível transformação do Pavilhão dos Desportos num Museu do Desporto que ninguém sabe bem o que será e para que servirá.


O facto de em Lisboa conviverem instituições culturais nacionais com locais faz com que a Câmara deva ter voz activa nos equipamentos que estão na cidade. Mas como António Costa se demitiu desse assunto para não afrontar o Governo, Lisboa está no marasmo em que se encontra – à procura da fonte milagreira de onde brote o elixir que num instante transforme Lisboa numa cidade criativa – difícil quando se quer regulamentar e planificar a criatividade em vez de a deixar fluir. 

 

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publicado às 12:44

UMA FRENTE SEM SENTIDO

por falcao, em 21.04.09

(Publicado no Diário Meia Hora de 21 de Abril)


Na semana passada surgiu o apelo para que em Lisboa se constitua uma frente única de forças políticas de esquerda com o objectivo de evitar o regresso da direita ao poder na cidade, nas próximas autárquicas e para que António Costa continue Presidente. Valerá a pena?


Comecemos por recordar alguns factos. Após um longo período em que Lisboa foi governada pelo PS em coligação com o PCP, primeiro por Jorge Sampaio e depois por João Soares, no final de 2001 o PSD venceu as eleições e Pedro Santana Lopes exerceu a Presidência da Câmara durante perto de dois anos e meio, até ser indicado Primeiro Ministro, no Verão de 2004. Por força da queda política de Carmona Rodrigues, que venceu as eleições de 2005, foram realizadas intercalares autárquicas em Lisboa em Julho de 2007, das quais saiu vencedor António Costa, que concluirá o seu mandato no final do ano, com praticamente o mesmo tempo de exercício de poder, enquanto Presidente da Câmara de Lisboa, que Pedro Santana Lopes. Portanto, ambos terão tido teoricamente as mesmas possibilidades – até porque, convém recordar, o estado das Finanças da Câmara deixado por Jorge Sampaio e João Soares não era melhor do que aquele encontrado por António Costa. O PS gosta de iludir este pormenor mas o facto é bem real.


Na verdade o balanço comparado dos mandatos de Pedro Santana Lopes e de António Costa não podia ser mais elucidativo: Lisboa agora está sem rumo, faz muitos estudos mas pouca obra, a cidade voltou a estar suja, esburacada, os problemas no urbanismo aumentam, as cedências ao Governo (como na Frente Ribeirinha e nos contentores) aumentam, a reforma do funcionamento do Município parou, a recuperação da Baixa-Chiado desapareceu das conversas, o trânsito está mais caótico e não foi lançada uma única obra infra-estruturante importante.


Para além disso convém recordar que a política de apoio social enquanto Santana Lopes foi Presidente da Câmara foi objectivamente mais à esquerda que a de António Costa e que em matéria de ambiente, cultura e recuperação urbana se fez mais do que se tem feito agora.


Por isso esta Frente é surpreendente: uma Frente que quer juntar pessoas que não conseguem fazer um plano comum, que não conseguem implementar políticas de esquerda quando chegam ao poder, e que deixam a cidade apodrecer, serve para quê?  

 

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publicado às 16:27

(Publicado no diário «Meia Hora» de 17 de Fevereiro)


 


Quando Costa ganhou as eleições autárquicas intercalares em Lisboa – provocadas por uma gestão política suicidária de Marques Mendes – alguns inocentes pensaram que a cidade iria conhecer tempos de paz, progresso e respeito pelos seus habitantes.

A realidade é bem diferente. A cidade está pior, os seus melhores espaços tornaram-se palco de aventuras comerciais – desde patrocínios de marcas a alugueres para apresentações de produtos, passando por passeios de fórmula um na Avenida da Liberdade. O espaço público é desrespeitado, tirado aos cidadãos que cá vivem, que cá pagam impostos e taxas e a quem a Câmara retira a possibilidade de viverem bem na sua cidade, precisamente quando ela está mais vazia pelo êxodo das invasões suburbanas – ao fim de semana.

Um plano sem nexo nem conteúdo varreu há meses a Praça do Comércio dos itinerários possíveis durante o fim de semana; agora o mesmo espaço foi transformado num estaleiro de obras e, já se sabe, estes quatro meses de enormes buracos no coração da cidade, irão tentar ser utilizados para fazer permanecer o louco projecto de impedir o trânsito, gizado por Manuel Salgado – cuja actividade em termos de urbanismo tem sido invisível, mas em termo de desconforto para os residentes tem sido bem patente.

Lisboa, no Verão passado cheirava mal e tinha pequenos buracos no pavimento, no asfalto, que não foram reparados; os pequenos buracos, com o Inverno chuvoso que ocorreu, tornaram-se em crateras. Tudo indica que Lisboa, mal aumente a temperatura, vai continuar a cheirar mal, mas com buracos ainda maiores. A gestão da equipa de António Costa caracteriza-se por estes dois vectores – falta de limpeza, falta de manutenção dos pavimentos – desinteresse pela qualidade de vida e conforto dos cidadãos contribuintes. Bem pode o Presidente da Câmara dizer que procura melhor ambiente – na realidade persegue moinhos de vento em vez de resolver problemas concretos – que, já se sabe, são sempre mais trabalhosos. Lisboa, hoje, é um buraco.

As eleições, nunca é demais recordá-lo, servem não para votar em programas mas para avaliar experiências. António Costa pode aparecer com mil promessas, mas a experiência destes dois anos não é para repetir – nunca a cidade caiu tanto, nunca foi tão descurada, nunca os seus residentes foram tão descriminados e maltratados. Costa, na prática, é um buraco.

 

 

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publicado às 17:15

LISBOA GOVERNAMENTALIZADA

por falcao, em 05.05.08

(Publicado no diário «Meia Hora» de 30 de Abril)


 


Nesta semana o Primeiro Ministro anunciou oficialmente um conjunto de importantes obras em Lisboa, que vão ter repercussões na vida dos lisboetas e que vão provocar grandes transformações numa das zonas mais importantes da cidade, Alcântara.


O mais curioso de tudo é que Sócrates fez o anúncio sozinho, sem a presença de António Costa, presidente da Câmara Municipal de Lisboa e ex-membro do actual Governo. A ausência, por mais justificações que sejam dadas, é sintomática. Existe uma corrida a protagonismo nas grandes obras públicas e existe alguma precipitação no anúncio de soluções que ainda não recolheram consenso de todas as partes envolvidas. Este Governo tem tratado Lisboa como um feudo seu – diz onde quer o aeroporto que serve a cidade, onde quer a ponte, onde vai fazer obras. O problema de ter na Câmara de Lisboa um aliado do Primeiro Ministro é mesmo este: Lisboa deixou de ser governada pela sua autarquia, o centro de decisão passou da Praça do Município para S. Bento, como aliás já se tinha visto na questão da sociedade que vai gerir a frente ribeirinha, estratégica para a cidade, mas dependente exclusivamente do Governo.


Sócrates entrou oficialmente no ciclo eleitoral. Após anos de paralisia das obras públicas, agora, como que por acaso, a ano e meio das eleições, vai entrar-se numa época de grande fartura de obras fantásticas – linhas de comboios, mais auto-estradas, barragens, hospitais, nova ponte, novo aeroporto, gigantescas reformulações urbanísticas.


Desde há um século os grandes debates nacionais são em torno dos mesmos temas – que obras fazer, onde as fazer. Raramente alguém pergunta para quê fazê-las, raramente se desenhou alguma estratégia coerente de desenvolvimento sustentado. Na realidade,


sem obras nada parece funcionar, sem obras quase nem há debate político – se virmos bem, o novo aeroporto e a nova ponte foram os dois grandes momentos de polémica da sociedade portuguesa do último ano. É triste, mas é assim. A política portuguesa vive há demasiados anos enredada nos negócios em torno das obras públicas. Seja qual for o partido no poder, esta é uma sina imutável. E como os interesses em jogo são imensos, ele há momentos em que as coisas se agitam de alguma forma mais intensa, digamos.


Na realidade, o vislumbre de grandes obras públicas no horizonte pode acelerar fortes convulsões no sistema político. Estamos a viver um desses períodos. 

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publicado às 11:02


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