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OS TEMPOS ESTÃO A MUDAR - Há 50 anos um grupo de estudantes da Universidade de Coimbra interrompeu uma sessão oficial com a presença do então chefe do Estado, Américo Tomaz, ergueu cartazes de protesto e criou um dos momentos mais simbólicos da resistência à ditadura por parte das Associações de Estudantes. Exactamente 50 anos depois um grupo de jovens activistas ambientais interrompeu  uma sessão oficial do PS, quando António Costa falava, para protestar contra a construção do aeroporto do Montijo e mostrar cartazes onde denunciavam o que entendem ser os perigos que esse aeroporto acarreta. Há uma fina ironia nisto - a cerimónia onde António Costa discursava assinalava o 46º aniversário do PS e homenageava Alberto Martins, hoje deputado socialista, e que foi o estudante que em Coimbra em 1969 pretendeu interromper Américo Tomaz. As situações são obviamente diversas mas é impossível não reflectir sobre a forma como os protestos evoluem: Os jovens de há 50 anos lutavam pela liberdade e contra a guerra colonial, os de hoje estão mais preocupados em salvar o planeta e defender o ambiente. Nos dois casos desafiam o poder e as convenções estabelecidas. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades e o 25 de Abril aconteceu há 45 anos. Quem tem a idade que os estudantes de Coimbra tinham em 1969 não havia sequer nascido em 1974. Cresceram noutro mundo, felizmente com outros direitos, outros meios e com outras ambições. Viver do passado, em política, é terrível e foi isso que se passou com António Costa e o PS esta semana. Foram confrontados com uma nova realidade, a de quatro jovens activistas ambientalistas que irromperam pelo palco, pretendendo falar ao microfone onde o Secretário Geral do PS discursava e  empunhando um cartaz onde se lia “mais aviões só a brincar”. Nas fotografias publicadas na imprensa é visível o nervosismo na cara de António Costa enquanto a sua segurança empurrava os jovens para fora do palco. Costa não esperava passar pelo que Américo Tomaz passou há 50 anos. The Times They Are A Changin’, não é?

 

SEMANADA - Em Portugal são sinalizadas todos os anos 6500 crianças em risco, a maior parte por negligência e maus tratos psicológicos; no final do ano passado existiam 48 mil processos pendentes nos tribunais fiscais; o Ministério Público identificou quatro dezenas de plágios na tese de doutoramento do Presidente da Câmara de Torres Vedras; o Bispo do Porto anunciou que não quer na sua dicocese a criação de uma Comissão sobre abusos sexuais no seio da Igreja; o orçamento global das campanhas eleitorais dos partidos políticos para as eleições europeias de Maio é de quase cinco milhões de euros, mais meio milhão que nas eleições anteriores; desde o início do ano o país exportou em média cerca de mil automóveis por dia e por comparação com o mesmo período em 2018 a produção de veículos aumentou 30,6% e só a Autoeuropa, alcançou as 71.452 unidades; em Portugal há cerca de seis mil filiais de empresas estrangeiras o que representa 0,73% do universo empresarial, percentagem que era a sexta mais baixa entre todos os 28 países da União Europeia e abaixo da média da UE, que atingia 1,2%; o preço das casas subiu 17% em Portugal no ano passado e o valor médio por metro quadrado chegou aos 1849 euros, uma valorização que se regista há cinco anos consecutivos e o preço mais elevado regista-se na região de Lisboa com 2.637 euros por metro quadrado; o Governo está a preparar alteração de regras para subir o IMI; 60% dos docentes de insituições privadas de ensino superior recebem a recibos verdes; em 2018 realizaram-se mais mil casamentos que em 2017, num total de 34.637.

 

ARCO DA PREPOTÊNCIA -  Há seis meses entrou em vigor uma medida que obriga a Autoridade Tributária a reanalisar, até finais deste ano, todos os processos que correm nos tribunais fiscais e que aguardam por decisão final - mas as Finanças não dão informações sobre a aplicação desta medida.

 

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LEITURA AOS QUADRADINHOS - Apresentado como uma novela gráfica (ou seja uma história aos quadradinhos), “Sabrina”, de Nick Drnaso, editado originalmente em Maio de 2018, conseguiu a proeza de ser finalista do Booker Prize - uma novidade para um livro de banda desenhada. Drnaso, um autor norte-americano, estreou-se em 2016 com “Beverly”. É ele que escreve e desenha as suas histórias e esta, já editada em Portugal, desenrola-se ao longo de 200 páginas, de uma forma quase cinematográfica. Muitas páginas fazem lembrar os storyboards que muitos realizadores usam para prepararem as filmagens. Drnaso nasceu em 1989 e “Sabrina” é um retrato dos tempos presentes. Trata-se da história do assassinato de uma mulher, Sabrina, das teorias de conspiração que começam a surgir em torno do crime e da forma como as falsas narrativas (no fundo fake news), impactam a vida de familiares e amigos da vítima. Na história cruzam-se videos espalhados na internet, informações distorcidas e até rumores de que afinal podia não ter acontecido nada e seria tudo uma invenção. Drnaso levou cerca de três anos desde que iniciou Sabrina até o completar e nalguns momentos é impossível não recordar “The Blair Witch Project”, o filme em forma de pseudo-documentário lançado em 1999 e que explorava medos e rumores em torno de crimes não esclarecidos. Mas “Sabrina” tem vida própria e é de facto um livro de tipo novo, uma história de banda desenhada fora da lógica dos heróis da Marvel e que reflecte sobre as tensões e angústia que convivem, neste tempo, com a tecnologia.

 

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O MUNDO EM MARVILA - Até 18 de Maio a Galeria Underdogs (Rua Fernando Palha, Armazém 56, em Marvila) apresenta a exposição colectiva “From The World”, Made In Lisboa. Estão patentes obras, em diferentes suportes e formatos, de artistas internacionais que expuseram na galeria Underdogs desde a sua abertura, em 2013. André Saraiva, Anthony Lister, Clemens Behr, Cyrcle, Ernest Zacharevic, Felipe Pantone, Finok, Okuda San Miguel, Olivier Kosta-Théfaine, PichiAvo, Shepard Fairey e WK Interact são os artistas que criaram obras expressamente para esta exposição.

 

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UM DIÁLOGO DE CORDAS - Um dos mais interessantes diálogos entre instrumentos que se pode  ouvir é entre uma guitarra eléctrica e um contrabaixo. É isso exactamente que Bill Frisell e Thomas Morgan nos mostram em  Epistrophy, um disco gravado ao vivo no Village Vanguard de Nova Iorque em 2016 e agora editado pela ECM (já disponível no Spotify) . São nove temas que mostram a cumplicidade entre os dois músicos, que já tinham tentado o mesmo diálogo em “Small Town”, editado em 2017. Na selecção de canções Frisell foi buscar temas da época do seu trabalho com o Trio de Paul Motian, mas também um tema de um filme de James Bond, composto por John Barry, “You Only Live Twice” ou um excerto de “Save The Last Dance For Me”, um original dos Drifters de 1960 que teve dezenas de interpretações. O nome do disco, “Epistrophy” vem de um tema de Thelonius Monk, aqui reinterpretado. A faixa de abertura é também um tema bem conhecido, “All In Fun”, de Jerome Kern, assim como o tema final é o clássico “In The Wee Small Hours of The Morning”, popularizado por Frank Sinatra em meados dos anos 50. O virtuosismo de Frisell e o seu entendimento com Thomas Morgan são um permanente desafio para que possamos descobrir pormenores escondidos mesmo nas canções mais conhecidas, aqui despidas de voz e reduzidas ao diálogo entre as cordas da guitarra e do baixo.

 

COMER COM OS OLHOS - Que se pode comer com os olhos é coisa sabida; que se pode ficar com água na boca a ver televisão é dado adquirido com a profusão de programas sobre comida; que uma série policial de televisão pode conjugar isto tudo é que é brilhante. Verdade seja dita que os livros que inspiraram a série já eram um desafio à imaginação gustativa - estou a  falar da série de romances de Andrea Camilleri protagonizados pelo inspector Montalbano e interpretados por Luca Zingaretti. A RTP2 tem vindo a emitir ao sábado e domingo, ao fim da tarde, a longa série de filmes que a RAI produziu com base nessas investigações e aventuras. Uma das coisas fascinantes é a forma como Montalbano se delicia com os petiscos que a sua empregada, Adelina, lhe deixa preparados. Um dos que mais me faz salivar - e que mais o delicia a ele - é pasta ‘ncasciata, um prato simples, preparado primeiro ao lume e depois no forno e que inclui, azeite, cebola, pancetta aos cubos, tomate pelado, um pouco de puré de tomate, e um copo de vinho tinto, tudo cozinhado gradualmente. Ao fim de uns 10 -15 minutos passa-se tudo para um tabuleiro de ir ao forno. À parte coze-se massa (penne), bem al dente , escorre-se, e junta-se ao cozinhado que já está no tabuleiro. Depois mistura-se uma beringela crua salgada e escorrida cortada aos cubos, queijo caciocavallo também aos cubos, sal e pimenta a gosto e, por fim, queijo parmigianno regianno ralado por cima. Vai ao forno 15 minutos a gratinar e deixa-se arrefecer um pouco antes de servir. Experimentem.

 

DIXIT - “A esquerda adora greves para usar politicamente contra a direita no poder, mas detesta-as quando ela própria está no poder” -  Luciano Amaral

 

BACK TO BASICS - “Só existem dois dias no ano em que não se pode fazer nada pela vida: ontem e amanhã” - Dalai Lama

 




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publicado às 13:00

O QUE SE PASSOU NESTES QUATRO ANOS?

por falcao, em 18.04.19

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MEMÓRIAS DE UM CIDADÃO - De que me lembro nesta legislatura? Do roubo ainda não esclarecido das armas em Tancos; do regabofe das falsas presenças no plenário da Assembleia da República; da abundância de nomeações familiares cruzadas no círculo do poder; do triste quadro de amnésia que assola quem vai depôr a comissões parlamentares, mesmo de altos responsáveis públicos, como um ex-Governador do Banco de Portugal; de convenientes alianças parlamentares para privilegiar uma classe profissional, a dos advogados; e de mais algumas coisas que estão espalhadas pelo país político - corruptelas locais, atrasos sistemáticos, cativações fantásticas que afectam serviços públicos, falta de reforma na justiça, atraso cada vez maior nos tribunais e um fisco que não olha a meios e quer devassar a seu bel prazer a vida dos cidadãos, um Estado que obriga as pessoas e empresas a cuidados na utilização de dados privados mas que se isenta a ele próprio dessa obrigação. A legislatura é isto; o desgoverno é este. O país está desregulado, o Estado é um complicómetro.

 

SEMANADA - Os monumentos, museus e palácios sob tutela da Direção-Geral do Património Cultural registaram uma queda de 7,8% no número de visitantes, ou seja, perderam quase 400 mil pessoas em 2018; em 2018 foram detidos 113 homens e quatro mulheres por abuso sexual de crianças; há 12 concelhos sem balcões dos correios e da CGD; uma em cada cinco cirurgias no Serviço Nacional de Saúde é feita fora do prazo obrigatório; metade das empresas do PSI 20 tem ex-governantes na administração; em 2018 regularizaram-se cinco vezes mais trabalhadores imigrantes em Portugal, a maioria brasileiros; em cinco anos a Polícia Judiciária Militar abriu 36 inquéritos a furto de armas e munições que resultaram em apenas cinco acusações; em 2018 as viagens dos portugueses aumentaram 10%; a facturação do sector hoteleiro cresceu 4,4% em Fevereiro, em relação ao mesmo período do ano passado; mais de um quinto do desemprego afecta pessoas com curso superior; a taxa de crescimento da economia portuguesa acumulada ao longo desta legislatura deverá ficar cerca de 17% abaixo da previsão de um grupo de economistas que prepararam as promessas eleitorais do PS em 2015, entre os quais Mário Centeno; a despesa com investimento público também foi sempre inferior à meta traçada pelo PS na campanha eleitoral.

 

ARCO DA VELHA - Numa aldeia ribatejana com cerca de mil habitantes cerca de duas centenas receberam em dois dias 200 multas da PSP por excesso de velocidade numa zona onde o limite é de 50 kms/hora.

 

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MARIA MADALENA PENITENTE - Até dia 28 ainda poderá ver no Museu Nacional de Arte Antiga este Ticiano, uma das várias versões que ele pintou de Madalena Penitente. Este que está exposto, é uma tela do Hermitage de São Petersburgo, considerada de todas a melhor – pela expressão trágica da santa e do ambiente que a envolve. Quinta-feira dia 18 é Dia Internacional dos Monumentos e Sítios e a entrada no MNAA é gratuita. Domingo de Páscoa o Museu está fechado mas ainda terá toda a próxima semana, de terça a Domingo, entre as 10 e as 18,  até esta obra ser devolvida ao Hermitage.

 

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UMA QUESTÃO DE GRAMÁTICA - Não sou isento de pecados mas pontapés na gramática irritam-me bastante. Às vezes olho para legendas de filmes ou informações escritas na parte inferior dos ecrãs de televisão durante os noticiários que me causam arrepios - e não são de prazer. É um pouco paradoxal que numa época onde tantas vezes as conversas são escritas - por mensagens, emails, WhatsApp - se escreva cada vez pior. O desaparecimento, na generalidade dos jornais, de revisores e copy-desks, veio piorar as coisas e creio que o ensino de português também tem culpas no cartório. O problema não vem só do ensino básico e secundário - nos últimos anos em que estive em redacções de jornais onde recebia estagiários de cursos de comunicação constatei que o seu domínio do português era muitas vezes fraco e interroguei-me como se pode ensinar alguém a comunicar sem explicar que o domínio da língua é essencial para essa actividade? Vem tudo isto a propósito de um livro agora editado pela Guerra & Paz na colecção Livros Correio da Manhã: “Gramática para Todos - o português na ponta da língua”. O seu autor é Marco Neves, professor na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova. Tem obra publicada nesta área: “ Doze Segredos da Língua Portuguesa”, “ A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa” ou “Dicionário de Erros Falsos e Mitos do Português”, para só falar de algumas. Neste novo livro escreve-se sobre as regras do português, com capítulos de nomes sugestivos como “peças para construir palavras”, “os parafusos da gramática”,  um desafiante “como criar palavras novas” ou “como escrever frases inesquecíveis”. Há conselhos sobre como criar um texto, um repertório de dúvidas e armadilhas, uma viagem pela pontuação e os sinais e acentos. para só citar alguns casos. Este livro devia estar em cima de todas as mesas de trabalho. Poupar-se-iam muitas asneiras.

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FADOS & FADO - Hoje recomendo uma heresia - um disco de Fado onde surge uma guitarra eléctrica. O disco chama-se “Um Fado Ao Contrário” e o seu autor é Pedro Moutinho, trata-se do seu sexto álbum de originais e o título vem da primeira faixa. O tema “Um Fado Ao Contrário” foi composto por Amália Muge para uma letra de Maria do Rosário Pedreira,  que é provavelmente quem melhor escreve para Fado hoje em dia. Amélia Muge também assina a letra  de dois temas – “Não Sei se a Tristeza É Triste” (um fado com música de Filipe Raposo) e “Ruas do Tempo” (com base no tradicional Fado José Marques do Amaral) - e assina a música e letra da balada “Uma Pena que Me Coube” e de um fado que evoca milongas e mornas, “Aquele Bar”. Manuela de Freitas fez parceria com o compositor (e guitarrista) Pedro de Castro, no alegre “Graça da Graça” e foi também a autora da letra de “Chego Tarde, Canto o Fado”, sobre uma rapsódia de fados da lendária dupla de irmãos Ramos – o guitarrista Casimiro e o viola Miguel, conhecidos como “Os Pinoia”. Há clássicos como, “Foi Um Bem Conhecer-te” e “Maldição”. E há uma versão da  “Tragédia da Rua das Gáveas” um original de Vitorino Salomé do álbum “Leitaria Garrett”. “Força do Mar” , o terceiro tema do álbum, é um original de Márcia, uma balada envolvente, arranjada para piano e guitarra eléctrica. A produção foi de Filipe Raposo, que tocou piano e os outros músicos são Quiné Teles (percussão), André Santos (guitarra eléctrica), Pedro Soares (viola), Daniel Pinto (baixo acústico) e Ângelo Freire (guitarra portuguesa).

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RELATO DE UM PRAZER - Aqui há uns anos tive uma má experiência na Mercantina, que então tinha aberto há pouco tempo em Alvalade - quer no atendimento, quer na qualidade das pizzas que eram postas nos píncaros pela respectiva propaganda. Anos mais tarde um querido amigo combinou lá um almoço e outro um jantar - o serviço estava melhor mas a pizza continuou sem me entusiasmar. Nunca mais lá pus os pés. Há pouco tempo dei pela abertura, perto do Saldanha, do Bistro 37, dos mesmos proprietários e sob a insígnia Mercantina. Com uma localização privilegiada, na esquina da Miguel Bombarda com a Avenida da República, o local dá nas vistas. Ao almoço, das duas vezes que lá fui, fiquei com a sensação de que  tinha chegado uma espécie de ladies night em plena luz do dia de senhoras já amadurecidas, que relatavam preocupações conjugais e evitavam excessos para não perderem o efeito dos ginásios de onde tinham saído pouco antes. Constatei que preferiam saladas a pastas ou qualquer vestígio de hidrato de carbono. A excepção era uma rapariga alourada e farta,  vestida executivamente, mas a arregaçar a manga para mostrar uma tatuagem nova à amiga. A meio da conversa tatuada veio a única pizza que vi servida a uma mulher e que dela motivou um comentário esclarecedor: “ai que grande”. Mas adiante, voltemos ao restaurante, confortável aliás, sobretudo na zona mais interior (embora tenha por resolver o problema habitual da reverbação do som - não percebo porque é que os arquitectos não têm mais cuidado com isto). O serviço foi bom e desta vez fugi às pizzas e dediquei-me, com êxito,  a outras experiências. Confesso que tinha ido à procura de arancini - este era de salsicha italiana em vinho tinto, envolvido no risotto panado, com compota de tomate a acompanhar. Excedeu as minhas expectativas. Noutra ocasião comprovei que o carpaccio de carne era honesto, acompanhado de rúcula, lascas de parmesão e - raridade local - alcaparras fritas e pesto. Passei nas saladas (há três e uma de espadarte marinado em citrinos chamou-me a atenção, mas a avaliar pelas mesas à volta a salada caesar era a que tinha mais saída na clientela feminina). E passei também nos risottos, embora um com amêijoas, camarões e calamares me despertasse a atenção. Das pastas só tenho a dar elogios - quer de uns bons ravioli de massa bicolor de camarão e trufa com crumble de avelã - a massa fresca saborosa e cozinhada no ponto, os aromas da trufa bem presentes e o camarão também em boa forma, a avelã curiosa. Noutro dia provei o spaghetti alla carbonara, feito como deve ser, sem natas, com gema de ovo, bacon abundante e crocante. Na mesa havia uma boa focaccia, com manteigas temperadas. O vinho a copo era uma boa escolha - Venâncio da Costa Lima, um pequeno produtor de Azeitão que sabe o que faz. Se tivesse comido um doce optaria pelo crumble de maçã e canela com gelado de baunilha e se tivesse uma certa companhia de certeza que vinha para a mesa o abacaxi marinado com limoncello e especiarias. Fiz as pazes com a Mercantina. Avenida da República 37, telefone 919 134 014.

 

DIXIT - «Marido, mulher ou filha de ministro não têm os mesmos direitos (....) É errada a ideia de que “lá por ser filho ou mulher de ministro não pode ser prejudicado”. Se “prejudicado” quer dizer não nomeado ou não ter subsídio, pode. E deve.» - António Barreto

 

BACK TO BASICS - Tacto é a habilidade de descrever os outros da forma como eles próprios se vêem - Abraham Lincoln.

 







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E COMO VOTAR? - Quando olho para o mês de Maio e penso nas eleições europeias assalta-me uma dose de enjoo. É uma indisposição forte. Custa-me perceber a utilidade do Parlamento Europeu no contexto de uma União Europeia que é o retrato da desunião política, económica e social. Olho para o que se passou desde a anterior eleição e sinceramente não me lembro de uma grande causa que tenha sido assunto de decisão séria, eficaz e consequente nessa Assembleia. Se houvesse alguém que propusesse uma reforma profunda do processo de decisão e do exercício do poder entre a Comissão Europeia, o Conselho Europeu e o Parlamento Europeu ainda poderia pensar em participar. Assim como está, não me apetece votar. Não vejo na cúpula da UE nada que me tranquilize, olho para o que têm feito e só vejo indefinições e hesitações. Não gosto de nenhum dos cabeças de lista apresentados pelos partidos portugueses, não vejo histórico na acção de nenhum deles com benefícios para Portugal e os portugueses. Acredito pouco na União Europeia, no alcance e eficácia de políticas comuns e, além dos subsídios que distribui à periferia para compensar as benesses institucionais dos grandes países do centro, não vejo nenhuma estratégia que tenha o mínimo de consistência. E, a nível interno,  não me apetece entrar no jogo do referendar ou não referendar o que quer que seja de política doméstica neste sufrágio. Não vou votar a pensar no passe social nem nas cativações. Para isso fico a ler algum livro de História, onde certamente aprenderei mais e darei por melhor empregue o meu tempo.

 

SEMANADA - A Associação Nacional de Contabilistas acusou o Estado de querer tomar posse das bases de dados de contabilidade de empresas e particulares devido a um decreto-lei publicado à margem do Parlamento; o  FMI prevê desaceleração de 1,7% do crescimento da economia portuguesa e indica que 14 economias do euro crescerão acima de Portugal, destacando-se a Eslováquia, Irlanda e Malta, com ritmos entre 3,7% e 5%, respetivamente; segundo o Instituto Nacional de Estatística a actual legislatura da geringonça foi a que teve pior nível de investimento público em  duas décadas; segundo o Sales Index, da Marktest, metade do poder de compra do Continente está em 6% da sua área e em apenas cinco concelhos estão concentrados 21.65% do total do poder de compra do Continente, sendo que Lisboa é responsável por 9.6% do poder de compra total; em Fevereiro as exportações aumentaram 4,6% e as importações 12,8% face a igual período do ano passado; no final de 2017, o governo anunciou a criação de 278 camas nos hospitais de Lisboa e Vale do Tejo até ao final de 2018, mas afinal de contas o saldo foi negativo - perdeu 96 camas; segundo a Inspecção Geral da Saúde há hospitais públicos que falham regras de segurança no internamento de crianças e adultos; os Portugueses deitam 200 mil toneladas de roupa para o lixo todos os anos o que representa cerca de 4% do total de resíduos produzidos em Portugal; em Lisboa há quatro mil pessoas quem vivem em casas sem instalação de banho ou duche;  o ministro das Finanças afirmou ao Financial Times que não houve grandes mudanças face às políticas do anterior Governo em termos de austeridade; 25,6% dos deputados acumulam a função parlamentar com cargos no sector privado.

 

JUSTIÇA VIMARENENSE - O Tribunal da Relação de Guimarães baixou de quatro para três anos de prisão efetiva a pena de um ex-GNR que agrediu a mulher à bofetada e ao pontapé durante 12 anos de vida conjugal e um agente da PSP de Guimarães que mandou despir e apalpou uma menor numa revista ilegal foi condenado a pena suspensa e continua no activo.

 

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UM GUIA PARA TOMAR DECISÕES - Em Portugal correr risco nos negócios é quase considerado um defeito, assim como é pecado falhar. Mas o pior de tudo, graças à atávica inveja nacional, é ter sucesso. A coisa estende-se a praticamente todas as áreas de actividade - desde a indústria aos serviços, passando pela política ou o pensamento, não esquecendo a criatividade e a cultura. Quem tem sucesso é muitas vezes penalizado por isso. Bruno Bobone é um empresário que tem ideias, arrisca e tem sucesso nos negócios. Decidiu colocar em livro a sua experiência, enriquecendo-a com reflexões sobre o que vê à sua volta e assim nasceu “do medo ao sucesso”, agora editado. O primeiro capítulo do livro chama-se “Portugal Está Viciado no Medo” e dá o mote ao que se segue, num cruzamento constante de relatos de experiências e reflexões pessoais com evocações da História de Portugal e do Mundo. O medo, diz Bruno Bobone, é um mecanismo de sobrevivência que pode ter duas respostas: ”a fuga apresenta-se como a melhor solução nalguns casos, enquanto o confronto será  a resposta mais apropriada noutros”. Do medo passa-se ao risco, apresentado como uma virtude: “O risco, o fazer coisas novas, o entrar em terrenos proibidos, cria valor. Uma comunidade que não aprecie o risco assumido por quem empreende uma aventura não irá longe” - escreve, para depois sublinhar: “Portugal sempre me impressionou, da pior forma, pelo nível de flagelação que impõe a quem falha (...) uma sociedade extraordinariamente crítica do empreendedor que, tendo arriscado, não tem sucesso, brinca com o fogo”. Ao longo da obra Bruno Bobone reflecte e dá indicadores sobre capital de risco, produtividade, formas de gestão, cálculo de remunerações e forma de encarar os recursos humanos de uma empresa. E, por fim, fala de uma das suas grandes paixões, a economia dos mares - “o mar é o recurso que maior potencial tem para a criação de riqueza”.

 

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OLHARES MÚLTIPLOS- A partir deste fim de semana, em Évora, na Fundação Eugénio de Almeida, está patente uma exposição que reúne obras de mais de 180 artistas plásticos de diversas áreas e épocas. Trata-se de Studiolo XXI, com curadoria de Fátima Lambert e que ficará patente até 29 de Setembro. Durante estes cinco meses podem ser vistas obras de nomes como, entre muitos outros, Ana Vidigal, Palolo, João Louro, Carlos Correia, Fernando Calhau, Graça Pereira Coutinho, Helena Almeida, Pedro Calapez, Jorge Martins, José Pedro Croft, Lourdes Castro, Pedro Proença, Ana Pérez Quiroga, Adriana Molder, Beatriz Horta Correia, Bettina Vaz Guimarães e Cristina Ataíde (que apresenta uma intervenção sobre a paisagem e vários desenhos, entre eles este que aqui se reproduz, “Eclipse 1#22”, uma aguarela sobre papel). Outras sugestões: nos Açores, na Galeria Fonseca Macedo, José Loureiro expõe “Máquina Nova de Alcatroar” e no Museu Nacional de Arte Antiga, até 28 de Abril, a obra convidada é “Maria Madalena Penitente”, um Ticiano que foi cedido temporariamente pelo Hermitage de São Petersburgo. Na Galeria Ratton pode ver uma série de painéis de azulejo desenhados por Lourdes Castro entre 1992 e 1998 (Rua da Academia das Ciências 2C). Destaque ainda para a nova exposição de Isabel Sabino, “Ela”, na Sociedade Nacional de Belas Artes.

 

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MÚSICA SEM DATA - Digo desde já que o disco que hoje recomendo é fortemente penalizado pela faixa de abertura. Ela é tão surpreendente e perfeita que dificilmente pode ser comparada com as outras sete do álbum. Ainda por cima é a que dá o título ao álbum e é a única que não é composta pelo intérprete, o pianista italiano de jazz Giovanni Guidi que juntou o quinteto responsável por este disco. Pior ainda: na referida faixa de abertura em vez do quinteto o que aparece é um trio com Guidi no piano, Thomas Morgan no baixo e João Lobo na bateria (um português que estudou na escola do Hot Clube e que está a fazer uma carreira internacional). Trata-se da interpretação de uma das mais célebres canções de Léo Ferré - “Avec Le Temps”, aqui surpreendentemente executada. O tema seguinte, “15th of August” apresenta já o quinteto completo, com a entrada em cena de Francesco Bearzatti no saxofone tenor e e Roberto Cecchetto na guitarra. Talvez o melhor exemplo do trabalho conjunto do quinteto sejam os temas “No Taxi” e “Postludium and a Kiss”, este último com um exemplar trabalho do saxofonista.”Caino” evidencia a versatilidade do baixo de Morgan e do piano de Guidi, enquanto a guitarra de Cecchetto brilha em “Ti Stimo”. A faixa final, “Tomasz” (onde é bem patente a técnica de João Lobo) é uma homenagem à memória de Tomasz Stanko, um dos nomes de referência da editora ECM, que agora lançou este “Avec Le Temps” do quinteto de Giovanni Guidi.

 

DEIXAR AMADURECER - Queijo que é queijo tem de ser bem curado. Comer um queijo que se baba é comer um creme, não é bem a mesma coisa do que prová-lo bem maduro, com os sabores cheios e equilibrados. Abrir um buraco num queijo da Serra da Estrela e tirar uma colher da pasta é um infanticídio queijeiro. É estragar algo antes de estar pronto a comer - por isso é que há por aí muita falsificação que abusa desta mania da pasta mole para colocar mistelas no mercado que não têm nada a ver com o genuíno queijo da serra. O problema é que como a procura do queijo mal curado de pasta mole é grande torna-se difícil conseguir comprar serra maduro, daquele de cortar à faca sem se babar - que é o melhor deles todos. A epidemia da pasta mole também já invadiu os territórios do queijo de Serpa, mas aí tem havido felizmente resistência e bom senso dos queijeiros. Deixar amadurecer um queijo de ovelha dá trabalho, é preciso tratar dele ao longo de meses, deixá-lo respirar, ir virando, mantendo-o vivo e deixando-o atingir o seu esplendor. E nós temos bons queijos curados - desde logo nos Açores, mas também em Nisa, ou em Castelo Branco ou o queijo amarelo da Beira Baixa. Mas para mim o melhor continua a ser o Serpa, bem curado, tão duro que só se parte às lascas.

 

DIXIT - “Uma coisa é certa - o populismo passou das margens para o centro do sistema político” - Nuno Severiano Teixeira

 

BACK TO BASICS - “A Democracia é um mecanismo que possibilita que não sejamos governados melhor do que merecemos” - George Bernard Shaw

 





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Deve existir um problema no edifício da Assembleia da República: diversas mentes brilhantes, ou pelo menos tidas como tal, quando lá se deslocam para uma Comissão Parlamentar de Inquérito, têm ataques súbitos de falta de memória. O que se passou nos últimos dias com o depoimento de responsáveis do Banco de Portugal, nomeadamente de Vitor Constâncio, é um triste exemplo desta aflitiva mas muito conveniente amnésia. Em contraste, um antigo  revisor oficial de contas da CGD recordou-se de muita coisa, disse que oportunamente detectou problemas e alertou para eles e afirmou que governos e o Banco de Portugal nada fizeram na sequência da denúncia desses problemas - o que aliás coincide com as versões do “não me lembro de nada disso”. Também Eduardo Paz Ferreira, ex presidente do Conselho Fiscal e da Comissão de Auditoria da CGD, disse que fez avisos nos sucessivos relatórios que enviou ao Governo e ao Banco de Portugal. Aquilo a que assistimos nas Comissões Parlamentares é uma sucessão de instantâneos de um país desregulado, onde as instituições que são supostas vigiar situações concretas assobiam para o ar ao mínimo sinal de problema, optando por deixar correr em nome das conveniências políticas. Estas audições parlamentares são, também, uma imagem do que tem sido a degradação do sistema político, que premeia a irresponsabilidade e protege a submissão aos poderes. Nada disto espanta quando olhamos à nossa volta e vemos deputados do PS e PSD a negociarem um arranjinho que lhes permite estar com um pé no Parlamento e outro em escritórios de advogados, muitos deles frequentes fornecedores de serviços ao Estado ou seus oponentes nos tribunais. Em S.Bento a imagem que se reflecte nos espelhos é a da decadência política. Um triste espectáculo.

 

SEMANADA - Há 692 mil pedidos de indicação de médico de família por resolver;  quase 2,2 milhões de doentes que foram às urgências nos hospitais públicos no ano passado foram considerados pouco ou nada urgentes, o que significa 40% do total das urgências registadas; o combate às infecções hospitalares podia evitar mais de 800 mortes por ano; mais de um terço do país está em seca severa; Portugal é o segundo país da União Europeia onde a população mais come fruta diariamente, ocupando também o quarto lugar no que toca ao consumo diário de legumes, acima da média comunitária; em Portugal vivem 4268 pessoas com cem anos ou mais; diversos autarcas da região de Castelo Branco, ligados ao PS, inventaram uma ONG que não tem qualquer actividade, e obtiveram subsídios de 350 mil euros; o fisco pediu ao hacker Rui Pinto dados sobre o agente desportivo Jorge Mendes; a Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas denunciou existirem turmas sem professores desde o primeiro período; um relatório do Conselho da Europa afirma que em Portugal são aplicadas penas mais longas que noutros países e que nas prisões portuguesas ocorrem mais mortes; a linha SOS Criança recebe mais de mil chamadas por ano; em Lisboa, no ano passado, foram comprados 1592 imóveis por compradores estrangeiros de 80 países; a ASAE tem um inspector para cada 10.324 alojamentos locais.

 

ARCO DA VELHA - Joaquim de Sousa, um professor da Madeira, que transformou uma das piores escolas do país, em Curral das Freiras, numa das melhores, foi alvo de um processo disciplinar, a seguir foi despromovido e ficou sem salário durante seis meses num processo kafkiano com contornos políticos.

 

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A PROPÓSITO DO DESTINO  - A nova edição da revista “Egoísta”, publicada em Março, tem por tema o destino e a forma como ele se cruza com o Fado - se calhar como o Fado se tornou Destino. A evocação de Amália cruza-se com esta relação com o destino por exemplo nos retratos que Augusto Brázio fez a novos intérpretes do fado, no texto que Aldina Duarte escreveu “quem diz fado diz vida” ou para as belíssimas ilustrações de Miguel San Payo que acompanham a publicação de “A Fadista”, uma letra escrita por Ana Moura. Um dos  pontos altos desta edição é um portfolio de Daniel Blaufuks intitulado “de destino em destino” - fotografias acompanhadas por pequenos textos manuscritos pelo autor, frases que são mais que legendas, formando uma narrativa que acompanha as imagens. Se outra razão não houvesse, este conjunto de fotografias bastava para guardar esta edição. Mas há mais: as fotografias de Cláudio Garrudo que evocam uma sua recente exposição na Galeria das Salgadeiras, “Trinus”, uma história ilustrada e ficcionada por Pedro Proença, “Chamavam-lhe Wittgenstein, Gertrude Wittgeinstein”, a propósito da sua recente exposição “O Riso dos Outros” na Fundação Eugénio de Almeida” e mais um portfolio fotográfico, de Helena Gonçalves, “Raiz” são boas razões para descobrir mais esta edição da “Egoísta”.

 

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O ENSAIO FOTOGRÁFICO - Mário Cruz é um fotojornalista da agência Lusa, já duas vezes nomeado para o World Press Photo - em 2016 ganhou na categoria temas contemporâneos com a reportagem “Talibes, Modern Day Slaves” e este ano volta a estar nomeado na categoria Ambiente com um trabalho sobre a poluição extrema do Rio Pasig, nas Filipinas. Para além do dia-a-dia de cobertura de actualidade da agência, Mário Cruz realiza projectos pessoais, ensaios fotográficos de onde saíu o seu trabalho anteriormente premiado e este “Living Among What’s Left Behind”. As fotografias deste projecto deram origem a um livro e a uma exposição que está patente a partir deste sábado no Palácio Anjos, em Algés. Ao todo, estarão expostas 40 imagens “que retratam o perigoso caminho que a humanidade enfrenta, quando descura os direitos fundamentais e abandona a preservação do meio ambiente”. A fotografia distinguida pelo World Press Photo mostra uma criança que recolhe materiais recicláveis, para obter algum tipo de rendimento que lhe permita ajudar a família, deitada num colchão rodeado por lixo que flutua no rio Pasig, que já foi declarado biologicamente morto na década de 1990. O livro “Living Among What’s Left Behind”  contém 70 fotografias, umas a preto e branco e outras a cores, que retratam a realidade que Mário Cruz encontrou em Manila. Nesta edição, da iniciativa do próprio autor, a capa foi produzida através do processamento de 160 kg de resíduos industriais e desperdícios de uso doméstico. Cada capa é criada individualmante e à mão, resultando em exemplares com capas únicas, que simbolizam a abundância de lixo que deixamos para trás. A exposição estará patente até 26 de Maio de 2019 (erça a sexta das 10h às 18h, sábados e domingos das 12h às 18h, encerra segundas e feriados, entrada gratuita). Permanecendo na fotografia, o Arquivo Municipal de Fotografia de Lisboa (Rua da Palma 246) apresenta 96 imagens de Jorge Guerra, todas realizadas na cidade, entre o final de 1966 e o início de 1967, num registo de “street photography” que constitui um documento sobre aquela época.

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SONORIDADES HISTÓRICAS  - Quem quiser ficar com uma discoteca básica que lhe permita descobrir alguns dos melhores discos de jazz de sempre tem agora à sua disposição a uma série “3 Essential Albuns”, que reúne gravações históricas dos catálogos da Verve e Impulse. Estão já disponíveis oito caixas com três CD’s cada uma, com álbuns essenciais de alguns dos nomes mais importantes da história do jazz e a preços especiais. Da caixa do pianista Keith Jarrett fazem parte os álbuns “Treasure Island”, “Death and the Flower” e “Fort Yawuth”. A caixa do saxofonista John Coltrane inclui os álbuns “Coltrane Time”, “Blue Train” e “John Coltrane - The Paris Concert”. A caixa de Chet Baker conta com os discos “Stan meets Chet”, “You Can’t Go Home” e “Baby Breeze”. De Duke Ellington são reunidos os discos “Play the Blues Back to Back”, “Live at the Whitney” e “Soul Call”. De Charlie Parker são reunidos os discos “Charlie Parker Jam Session”, “South of the Border” e “With Strings: The Master Takes”. De Michel Petrucciani são reunidos os discos “Michel Petrucciani”, “Notes’N’ Notes” e “Oracle Destiny”. Na caixa de Herbie Hancock estão os discos “Maiden Voyage”, “Speak Like a Child” e “Empyrean Isles”. Wayne Shorter está representado com os discos “JuJu”, “Speak No Evil” e “The All Seeing Eye”. Ao todo 24 álbuns incontornáveis. Como diria o outro, “a splendid time is guaranteed for all”.

 

VENTO DE LESTE - No local onde em tempos existiu um apreciado restaurante de cozinha alentejana, no Beato, abriu agora um restaurante de inspiração oriental. Chama-se Tarara e à sua frente tem João Duarte, que passou pelas cozinhas  do Eleven, do Arola, do Midori e  Bica do Sapato . A sua aposta é baseada na cozinha asiática, com algumas incursões sul-americanas por vezes com toques de cozinha portuguesa. A decoração é simples mas confortável, o serviço é atencioso e a casa tem dupla personalidade : à hora de almoço propõe um menu fixo com entrada, prato, sobremesa e uma bebida a 12 euros numa proposta imbatível de qualidade-preço e ao jantar funciona com um menu normal, excepto às quartas , noite dedicada ao sushi. O menu de almoço inclui um couvert sazonal (no caso pepino cortado em finíssimas fatias e  bem temperado e uma sopa miso) e depois as escolhas como gyosas de frango, um yakitori de corvina com batata doce assada e molho algarvia e um gelado de sésamo a rematar. Há sempre propostas vegetarianas. Às quartas-feiras à noite o menu muda de figura e quem reina é o sushi, feito à frente do cliente, ao balcão – há combinados (a partir dos 17,50€) mas também peças à carta, dos rolos hosomaki, uramakis ao peixe fresco fatiado, gunkans e temakis. Da carta fixa fazem parte entradas como Miso à Bulhão Pato, tacos de atum picante, porco preto ou caranguejo e ceviches de peixe branco ou de polvo e marisco por exemplo. O Tarara fica na Rua do Grilo 98, junto à Igreja de São Bartolomeu do Beato, telefone 218680041.

 

DIXIT - “A maior frustração que tenho na minha vida política é nunca ter sido secretário de Estado dos Transportes” - António Costa na sessão de propaganda dos novos passes sociais.

 

BACK TO BASICS - “Qualquer moção a propôr um adiamento é sempre oportuna” - Robert Heilein

 

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COSTA NA ENCRUZILHADA - Além das crises familiares no Governo, duas coisas incomodam António Costa:  o Novo Banco e a União Europeia. A venda do Novo Banco já foi feita pelo seu Governo e o que se está a passar mostra que os termos da venda foram, digamos, mal calculados. E assim, por mais ginástica que Mário Centeno faça, por mais exercícios de contorcionismo que consiga, uma coisa é certa: estamos todos a pagar, seja de que forma fôr, e isto não estava nada no programa - quem decidiu não mediu as consequências, não há volta a dar ao texto. A outra coisa, a Europa, fia mais fino porque mexe nas convicções fundamentais da geração de dirigentes socialistas portugueses e europeus que antecedeu o actual Primeiro-Ministro no processo de construção da União. O seu mal estar foi notório na entrevista em que colocou reservas face ao Euro, aos equilíbrios de Bruxelas e face ao processo de construção da Europa. As ideias que manifestou conseguem, com a habilidade que se tem de lhe reconhecer, um equilíbrio entre o anti-federalismo, as críticas à forma de criação do Euro e o desejo de ter uma voz mais activa no futuro - está tudo ligado aliás. É uma entrevista muito mais significativa que um mero exercício de propaganda no horizonte das eleições para o Parlamento Europeu. É a entrada de António Costa na disputa de cargos internacionais de primeiro plano, querendo demarcar-se dos erros da geração anterior, propondo-se mudar o que nem sequer ainda anuncia e colocando-se na primeira linha do combate a horizontes que assustam, com razão, muita gente. Esta entrevista é o anúncio de que Costa pretende ser uma voz que está a querer falar mais alto que Macron. Apesar dos incidentes internos quer parecer um estadista. Promete e pensa melhor que executa. Voltando à fértil questão da proliferação do governamental convívio familiar mão amiga fez-me chegar um livrinho chamado "Families and how to survive them" de Robin Skynner (psiquiatra) e de John Cleese, e que tem capítulos maravilhosos como “Why did I have to marry you?”, “Who's in charge here?” ou “What are you two doing in there?”. Boas perguntas, não é?

 

SEMANADA - A carga fiscal atingiu novo máximo em 2018 com o peso das receitas de impostos e contribuições sociais a atingir 35,4% do PIB; a Agência para a Segurança da Aviação detectou falhas em helicópteros do INEM e recomendou a sua paragem; avarias em veículos do INEM põem em causa socorro nas zonas do Porto, Gaia e Coimbra; há mais de dois mil doentes à espera da realização de um transplante porque o envelhecimento de dadores faz baixar a recolha de orgãos; em 2018 a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima foi chamada a ajudar três crianças por dia; as zonas norte e centro têm 65,5% das novas construções para habitação; em 2018 foram transaccionados quase 180 mil imóveis num montante global de 24,1 mil milhões de euros, o maior valor de sempre; em apenas um ano o preço médio das habitações aumentou 10%; Catarina Martins disse que deve haver uma reflexão no Governo e no PS sobre a existência de relações familiares e Carlos César denunciou que no Grupo Parlamentar do Bloco de Esquerda são abundantes e directas as relações familiares; o publicitário Manuel Soares de Oliveira descreveu a situação no Facebook: “Finalmente temos um Governo que defende os valores da família e a direita ataca”; uma mulher acusada de violência doméstica mordeu o polícia que a ía deter; ilustrando a justiça que temos, alguns dos crimes de que o sucateiro Manuel Godinho era acusado no processo Face Oculta já prescreveram, entre eles três de corrupção e cinco de tráfico de influências.

 

FENÓMENOS CONTEMPORÂNEOS - A lei que impede abates deixa canis superlotados e várias câmaras municipais admitem que a saúde pública pode estar em risco devido ao aumento de animais vadios nas localidades.

 

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AS POLÉMICAS DO FADO - Cada vez que a música muda de figura aparece sempre alguém a reclamar. Foi assim com os grandes compositores clássicos, com os pioneiros da música contemporânea, com o abanar de ancas do rock’n’roll. Num novo livro Alberto Franco lembra que também por cá se passou o mesmo: «Os ataques ao fado começaram pouco depois do seu aparecimento. Alguns intelectuais oitocentistas associavam‑no ao crime. Achavam-no mórbido, lutuoso, indigno duma nação civilizada».  O autor destas palavras, Alberto Franco, é um homem incómodo - jornalista, escreveu sobre História, regiões, gastronomia e esse pecado hoje mortal que é a arte tauromáquica. Também escreve letras para fados e por isso mesmo se dedicou a fazer a história dos sobressaltos que o canto da Severa atravessou: “Nascido nas franjas marginais de sociedade, baseado em fórmulas poéticas e musicais aparentemente pouco elaboradas, distraído do respeito pelos bons costumes, irreverente para com os poderes constituídos, o canto fadista não poderia deixar de atrair as censuras dos mais diversos quadrantes”. Na realidade, como recordas,  Fernando Lopes Graça considerava o fado uma canção bastarda e Salazar não gostava de Fado. Mas isso não impediu que o Fado fosse confundido com a propaganda do Estado Novo e que muitos opositores vissem o género como um instrumento da ditadura. Muito antes de se ter tornado Património Cultural Imaterial da Humanidade, o fado recolhia ódios e descrenças de todas as áreas da sociedade em Portugal - até mesmo na medicina - o médico Samuel Maia acusou-o, inclusive, de fazer mal ao fígado. Alberto Carvalho recorda o incómodo que Amália causou quando decidiu cantar Camões, a forma como o Fado foi associado ao “escoadouro que temos de tudo, o que temos de pior, a uma verdadeira descida aos infernos da vida portuguesa”, num escrito de António Osório que classificava a Severa a uma meretriz iletrada e que reflectia o que um pensamento de esquerda considerava em Junho de 1974 no seu livro “A Mitologia Fadista”. A resposta a esse panfleto surge agora pela mão de Alberto Franco, neste “As Guerras do Fado”, editado pela Guerra & Paz, em parceria com a Sociedade Portuguesa de Autores.

 

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IMAGENS ARQUITECTÓNICAS - Para assinalar os 30 anos do Photoshop o MAAT escolheu obras de meia centena de artistas que constroem e manipulam imagens feitas a partir de objetos e espaços arquitetónicos, numa exposição intitulada “Ficção e Fabricação” ( e que inclui a imagem de James Welling aqui reproduzida). Com o Photoshop proliferaram ferramentas digitais na produção fotográfica e esta exposição mostra o imaginário da arquitetura como tema fulcral de uma prática expandida da fotografia na arte contemporânea. Podem ser vistas obras de nomes como Andreas Gurski, Thomas Ruff, Jeff Wall, Thomas Demand e criações ficcionais de Beate Gütschow, Oliver Boberg ou Isabel Brison. Até 19 de Agosto poderá ver uma viagem a  “um panorama da fotografia de arquitetura que contorna abordagens objetivas e privilegia as efabulações sobre o real entre o olhar cinematográfico, a desconstrução da imagem ou as narrativas mais politizadas.” Outras sugestões: no Porto, no novo Espaço 531, dedicado a obras de pequeno formato na Rua Miguel Bombarda e que passa a integrar a Galeria Fernando Santos, Pedro Calapez expõe até 27 de Abril 44 placas no formato 42 x 30 cm, todas diferentes, todas com movimentos circulares, um bom exemplo da obra do artista. No Atelier-Museu Julio Pomar, em Lisboa, até 17 de Abril está a exposição coletiva “muitas vezes marquei encontro comigo próprio no ponto zero” , um projecto de Marta Rema que reúne trabalhos que abordam o desejo de pensar o silêncio nas suas várias dimensões e que inclui obras de, entre outros, nomes como Ana Pérez-Quiroga, Cecília Costa, Fernando Calhau, Helena Almeida, Jorge Molder, Rui Chafes, Sandro Resende, Sara & André e do próprio Júlio Pomar, de quem são mostrados os desenhos da prisão realizados no Forte de Caxias, onde o artista esteve detido de 27 de abril a 26 de agosto de 1947.

 

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PODE A MÚSICA SER UM POEMA? - Comecemos por imaginar dois pianos a falar um com o outro. Neste caso os dois pianos, ou,  melhor dizendo, os dois pianistas, Vijay Iyer e Craig Taborn, encontraram-se há uns quinze anos quando ambos tocavam com o saxofonista Roscoe Mitchell. Na altura estavam  no início das respectivas carreiras e procuravam abrir horizontes - que é o que têm feito ao longo destes anos. Vijay Iyer é talvez o mais conhecido dos dois e o que mais tem editado, quer com outros músicos, quer a solo. Mas ao longo deste tempo continuaram a tocar em conjunto sempre que possível. “The Transitory Poems” é o disco agora editado pela ECM e que reproduz um concerto que deram em Março de 2018 na Franz Liszt Academy, em Budapeste. Aqui está um exemplo raro do que pode a improvisação, a capacidade inventiva, quando se juntam dois músicos de excepção. As influências de outros pianistas como Cecil Taylor ou Geri Allen são evidentes e deve dizer-se que os estilos de Iyer e Taborn são bem diferentes: o primeiro é  contido e preciso, o segundo é sugestivo e aberto. O resultado é magnífico.

DIXIT - “O que eu gostava mesmo era de desenhar livremente; com lápis, com caneta, com cores, com o que tivesse à mão, colecionando vistas, sobreposições, acidentes, deformações, insólitos bocados de arquiteturas existentes” - Manuel Graça Dias

BACK TO BASICS - “As campanhas criam fantasias que permitem ganhar as eleições mas nenhuma se traduz num progresso real para os eleitores” - Bill Clinton



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UM EXEMPLO QUE VEM DOS ANTÍPODAS - Uma das séries da Netflix que mais me interessou nos últimos tempos foi “Secret City”, um thriller político passado na Austrália e onde, ao longo das duas temporadas já disponíveis, o centro da história é a forma como membros do Governo tentam iludir os eleitores, com a ajuda das agências de informação e serviços secretos, que repetidamente abusam do seu poder e violam direitos dos cidadãos. A série é uma crítica dura ao funcionamento do Estado. Acontece que a produção desta série foi financiada por um conjunto de entidades governamentais e departamentos oficiais da Austrália, uma política integrado de financiamentos e benefícios que são o elemento chave da reviravolta que o audiovisual australiano sofreu nas últimas duas décadas e meia. Desde meados dos anos 90 a Austrália implementou, sem recuos, uma política e mecanismos de desenvolvimento da produção local que foi dando os seus frutos e agora está madura. O facto de uma série tão crítica em relação ao funcionamento dos responsáveis do Estado ser fortemente financiada por esse mesmo Estado mostra apenas que o sistema funciona muito bem. Em Portugal infelizmente passou-se o contrário e a cedência a lobbies diversos, acompanhada por uma sistemática falta de empenho no desenvolvimento continuado e coerente de uma indústria audiovisual, tem os resultados que estão à vista. Por cá raramente se leva um plano até ao fim. E, como esta semana se viu no parlamento, o debate sobre o audiovisual preocupa-se mais com futebóis do que com outras coisas...

SEMANADA - As Câmaras Municipais de Lisboa e Porto realizaram cerca de mil despejos de habitação social ao longo da ultima década a maior parte por rendas em falta; o Governo anunciou redução dos preços dos transportes públicos para 85% dos eleitores; o presidente do Supremo Tribunal de Justiça reconheceu numa entrevista que não foi possível promover um pacto para a reforma da justiça entre os partidos parlamentares; o Conselho Geral da ADSE acusou a instituição que fiscaliza de não dar suficiente importância à situação dos beneficiários nas zonas mais desfavorecidas; segundo o Presidente da República “não há instituições europeias fortes com líderes fracos e não há líderes europeus fortes com líderes nacionais fracos”; no Hospital de Santa Maria a falta de enfermeiros reduziu o serviço de neonatologia a metade; nos últimos dois anos, o número de pedidos de nacionalidade portuguesa aumentou cerca de 50%, atingindo 176.285 em 2018;  Esta legislatura os pedidos de levantamento da imunidade parlamentar aos deputados quase duplicaram em relação à anterior; Portugal continua bem acima da média europeia na incidência de casos de tuberculose; 1,9 milhões de portugueses têm o hábito de fazer apostas em jogos online.

PENSAMENTOS ACERTADOS - “Fingir que a União Europeia é democrática, com aquele patético Parlamento e estas eleições, ou é inútil, ou é prejudicial”- António Barreto

 

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AS OPORTUNIDADES E AMEAÇAS DO FUTURO - Editada pelo Copenhagen Institute for Futures Studies, a “Scenario” é uma revista sobre tendências, ideias e perspectivas de futuro, publicada seis vezes por ano. A primeira edição de 2019 dedica a capa a Martin Rees, que criou e coordena um grupo de investigadores da Universidade de Cambridge no Centre for the Study of Existencial Risk (CSER). Este centro dedica-se a estudar as ameaças globais que podem colocar a humanidade e a civilização em risco. A entrevista com Martin Rees surge a propósito do seu novo livro, “On The Future: Prospects For Humanity”, uma abordagem aos grandes desafios e oportunidades que irão moldar o nosso futuro colectivo. Outros temas de interesse nesta edição são um artigo sobre a quarta revolução industrial, caracterizada pela ascensão da inteligência artificial e da robótica. O impacto da inovação social na organização das empresas, desde os recursos humanos ao local de trabalho, é um dos temas abordados nesta área. A robótica e a inteligência artificial, sublinha a revista,  colocarão cenários inesperados, muito para além do trabalho, entrando na vida de cada um - a nível do comportamento e até da sexualidade. No entretanto, algumas casas de alta costura, como a Balmain e a Fenty começaram a utilizar modelos virtuais digitais em 3D em vez de pessoas nas suas campanhas publicitárias. Cameron James Wilson criou Shudu, o primeiro supermodelo digital e a Scenario entrevistou-o. A revista está à venda na Under The Cover, Rua Marquês Sá da Bandeira 88b.

 

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O LADO LUNAR DA METADE DO CÉU - Qual é a metade do céu? Segundo Mao Tsé-Tung é aquela que toda e qualquer mulher sustenta. Este foi o ponto de partida assumido por Pedro Cabrita Reis para criar a exposição que assinala os 25 anos de actividade do Museu Arpad Szenes - Vieira da Silva, escolhendo obras de 60 mulheres artistas portuguesas, simbolicamente com início numa natureza morta de Josefa D’Óbidos, do século XVII, até à maioria das obras apresentadas, produzidas entre meados do século XX e a actualidade. “A metade do céu” é pois um projecto de Pedro Cabrita Reis que decorre entre 21 de Março e 23 de Junho e que, nas suas próprias palavras, é uma exposição que procura “trazer ao encontro de Vieira da Silva uma perspectiva singular – pessoal, afectiva, decerto apaixonada” de obras de outras artistas. E ainda: “esta exposição perscruta o lado lunar de cada artista, dando a ver, sempre que possível, o que menos se espera dela – uma ou outra obra não tão frequentemente mostrada, talvez até desfasada, de algum modo inusitada”. Uma outra sugestão adicional: por iniciativa do Sindicato dos Pintores Pedro Calapez aceitou a ideia de por em contacto dois artistas de gerações diferentes e escolheu Carlos Correia. Sob o título “Sem Fim/Endless”, apresentam-se cerca de 50 trabalhos sobre papel de Carlos Correia e um video de Pedro Calapez. Na Box da Appleton, Rua Acácio Paiva 27, entre 23 a 30 de Março. E no dia 29, pelas 18h, uma conversa junta Pedro Calapez com Alberto Caetano e Joaquim Sapinho, numa abordagem à obra de Carlos Correia, morto no ano passado.

 

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UM PIANO ENCANTADO - O trio clássico de jazz (piano, bateria e contrabaixo) é uma das minhas formações preferidas e o piano é claramente o instrumento que muitas vezes move a escolha do que quero ouvir. Aaron Goldberg é um pianista de jazz norte-americano que ao longo da sua carreira, iniciada em finais dos anos 90, trabalhou com nomes como Joshua Redman ou Wynton Marsalis. O novo disco do trio do pianista norte-americano Aaron Goldberg, o seu sexto, chama-se  “At The Edge Of The World” e foi editado no final do ano passado. Alem de Goldberg tocam o baterista Leon Parker e o baixista Matt Penman. O disco começa com uma versão de “Poinciana”, um standard composto por Nat Simon no final dos anos 30, que teve numerosas versões, uma das mais conhecidas sendo a de Ahamad Jamal - aqui recriada de forma marcante, com uma intervenção vocal de Parker que ajuda a criar todo o ambiente do disco. O segundo tema, “Luaty” é um original de Goldberg dedicado ao activista angolano “Luaty Beirão”, composto enquanto ele esteve em greve da fome.  Destaque também para o clássico brasileiro “Manhã de Carnaval”, e sobretudo para a versão de um tema de McToyTyner (“Effendi”) e para as duas homenagens ao vibrafonista Bobby Hutcherson, “Isn’t This My Sound Around Me” e “When You Are Near”. “En La Orilla Del Mundo”, do cubano Gonzalo Rubalcaba, popularizado por Charlie Haden, é o único tema onde Goldberg toca sózinho, ao piano. E a finalizar “Tokyo Dream” é uma abordagem do próprio Aaron Goldberd a um blues, proporcionando um dos pontos altos da participação do baterista Leon Parker. Disco Sunnyside, disponível no Spotify

IGUARIAS FLUVIAIS DA ESTAÇÃO - Todos os anos por esta altura combino com um dos meus melhores amigos a estreia da época da lampreia. Às vezes a partir de finais de Fevereiro já se consegue uma lampreia decente -  mas este ano a falta de chuva não ajudou os rios e ainda menos as lampreias, que precisaram de mais algum tempo para estarem em boa forma. A estreia de 2019 ocorreu na semana passada num dos locais da minha confiança quando se trata de cozinha portuguesa - o Apuradinho, na Rua de Campolide. A lampreia que ali se serve é de confiança, não é importada nem congelada, como já me aconteceu nalguns locais. Além disso a casa sabe preparar bem o ciclóstomo para que ele não fique contaminado com nenhum sabor estranho. Aquele arroz de lampreia é temperado no ponto, leva a dose certa de vinagre, retém o sabor do bicho e o preparo é feito de forma a que os nacos surjam no ponto de consistência. Convém  encomendar o petisco e acertar uma data. Para quem goste há vinho verde tinto,mas eu geralmente passo nesse capítulo. Se tudo correr como previsto ainda há -de haver segunda lampreia este ano e pelo meio estou certo que terei ocasião para provar o outro petisco da época - o sável frito em fatias finíssimas, acompanhado por uma açorda genuína - que no Apuradinho também é excelente. Apuradinho, Rua de Campolide 209, telefone 213 880 501.

DIXIT - “A democracia portuguesa está a tornar-se um asilo de loucos” - Vasco Pulido Valente

BACK TO BASICS - “A aritmética consiste em saber contar até 20 sem ter que tirar os sapatos dos pés” - Rato Mickey



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O MUNDO MUDOU E A LEI ELEITORAL NÃO - Quando se fala da necessidade de mudar o funcionamento do sistema político não é só de modificar o sistema eleitoral (círculos uninominais, número de deputados ou número de câmaras, por exemplo), nem o sistema partidário. O funcionamento da democracia representativa em Portugal foi enquadrado por uma lei eleitoral que regula questões de propaganda política e de comunicação, decisões tomadas numa altura determinada, em circunstâncias especiais, em 1974. As actualizações e aperfeiçoamentos posteriores foram pequenos e não relevantes. O maior desfasamento tem a ver com o que mudou no mundo, na Europa, em Portugal e na comunicação entre as pessoas e entre o Estado e os eleitores nestes 45 anos - basta dizer que a world wide web foi imaginada há 30 anos. Nestes 30 anos tudo mudou menos o edifício eleitoral. A polémica surgida esta semana em torno das recomendações da Comissão Nacional de Eleições é elucidativa disto mesmo. O actual sistema trabalha desde há décadas para ter obras prontas a tempo de serem inauguradas em ano eleitoral. As inaugurações fazem parte da propaganda e das campanhas. Quem está no poder quer mostrar o que fez e quer esconder o que prometeu e não realizou; e quem não está no poder quer criticar o que considera estar mal-feito e denunciar promessas não cumpridas. As redes sociais e os jornais online aceleram o processo da comunicação dos políticos, que cedo aprenderam a usá-los. Tudo isto tornou anacrónicas uma série de disposições sobre o acesso a orgãos de comunicação e tempos de antena. Outro caso: a Lei Eleitoral proíbe publicidade - e hoje em dia essa proibição foi ultrapassada pelos acontecimentos. A proibição vinha do tempo em que as campanhas eram feitas por militantes a colar cartazes, coisa rara hoje em dia. Agora existem empresas de publicidade exterior que trabalham com os partidos nestes períodos, teoricamente como se fizessem parte deles mas na realidade sendo pagas. O mal profundo do sistema político começa na Lei Eleitoral, completamente desfasada da realidade. O próprio funcionamento da Comissão Nacional de Eleições precisa de ser mudado - até na comunicação que ela estabelece com os eleitores.

 

SEMANADA - Quase metade das instituições de ensino superior não têm acessos para deficientes; o Observatório Judicial da Violência Doméstica e de Género, anunciado há um ano pelo Conselho Superior da Magistratura ainda não avançou; o pedido de levantamento de imunidade a José Magalhães, num processo em que é acusado de peculato, esteve parado seis meses por falta de um parecer de um deputado do PS; a falta de material circulante da CP, que era tutelada pelo candidato do PS ao Parlamento Europeu, Pedro Marques, tira cinco comboios por dia dos carris; um gang de quatro pessoas que raptou uma menor por uma dívida de droga de 45 euros, e cujos membros foram detidos em flagrante pela GNR,  ficou em liberdade a aguardar julgamento; o preço médio de arrendamento das casas em Portugal em 2018 aumentou 37% face a 2017, fixando-se nos 1106 euros em termos de valor médio; na madrugada de terça-feira um drone transportou telemóveis para a cadeia de Custóias; a Ministra da Justiça admitiu no Parlamento que o Governo só soube pelos ‘media’ das festas privadas, sem a presença de qualquer guarda, ocorridas na prisão Paços de Ferreira e divulgadas em vídeos nas redes sociais; uma empresa que ganhou um concurso de fornecimento de serviços de saúde para as prisões faliu, deixou de pagar a fornecedores, e descobriu-se que era co-gerida por um detido que estava na cadeia de Sintra e tratava dos assuntos da empresa por um telemóvel que teoricamente não podia ter na sua cela; o presidente da Câmara Municipal de Braga quer colocar pulseiras electrónicas aos funcionários da autarquia para controlar a sua assiduidade; a estreia do programa da SIC “Quem Quer Casar Com o Agricultor” teve quase tantos espectadores como a transmissão do jogo entre o Benfica e o Dínamo de Zagreb.

 

DITOS PIEDOSOS - “Não é um secretariozeco ou um qualquer ministro que vai afastar os órgãos sociais democraticamente eleitos” - Padre Vitor Melícias sobre a situação no Montepio e em defesa de Tomás Correia.

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O QUE É A ARQUITECTURA?  - A revista “Kinfolk” publica-se quatro vezes por ano em Copenhaga e a edição desta Primavera, a nº 31, é dedicada ao tema do design, entendido de forma lata, e em particular à arquitectura. No editorial a Kinfolk destaca que a arquitectura é a disciplina do design mais ambiciosa, que define as forças que moldam os locais e ambientes onde vivemos. Num dos vários textos sobre o tema sublinha-se que na Europa, na segunda metade do século passado, “a arquitectura foi a forma de construir algo de positivo a partir das ruínas da guerra”. Destaque nesta edição para os trabalhos sobre a arquitecta francesa Charlette Perriard que defendia que o seu trabalho era conceber espaços funcionais na crença de que um design melhor ajuda na criação de uma sociedade melhor, e também para uma casa construída na Rivieira Francesa pelo arquitecto irlandês Eileen Gray, hoje considerada como um dos símbolos do modernismo. Nesta edição de Primavera da Kinfolk merece atenção uma entrevista a Kyle Abraham, o coreógrafo do New York City Ballet cuja ambição é conseguir um dia reproduzir numa das suas coreografias o movimento das flores, e para uma conversa com pintora Fabienne Verdier que esteve dez anos na China a estudar a caligrafia com velhos mestres que sobreviveram à reeducação imposta pela Revolução Cultural a quem se dedicava a esta arte milenar. Finalmente o prato forte é uma entrevista fascinante com Ryuichi Sakamoto onde o músico confessa que para si o silêncio ganha importância à medida que envelhece e que admite que ouvir música pode ser uma perda de tempo quando há sons tão belos na natureza - por isso, revela, cada vez que chove abre a sua janela e grava o som da chuva. A Kinfolk está à venda na Under The Cover, Rua Marquês Sá da Bandeira 88b.

 

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VER O CÉREBRO POR DENTRO  - O título da exposição “Cérebro: mais vasto que o Céu”, que esta semana inaugurou na Gulbenkian, inspira-se num poema de Emily Dickinson, “The brain is wider than the Sky”, no qual a poetisa norte-americana descreve o cérebro humano como “mais fundo que o mar” e “com o exato peso de Deus”.  À entrada está uma instalação vídeo com um ambiente sonoro original da autoria de Rodrigo Leão e imagens da obra “Self-reflected” do artista e neurocientista norte-americano Greg Dunn. A partir daí a exposição desenvolve-se ao longo de três núcleos temáticos, enquanto  vários robots pintores do artista Leonel Moura executarão telas em tempo real durante todo o período da exposição. O primeiro módulo, “No princípio não havia cérebros” aborda a origem dos cérebros, enquanto processo de evolução biológica, destacando a complexidade do cérebro humano como parte dessa evolução.  Aí existe uma monumental escultura de um neurónio com 12 metros de comprimento suspensa do teto e iluminada com leds que simulam disparos neuronais em reação à presença de visitantes. O segundo módulo, “Pense no Cérebro” tem como peça central uma Orquestra de Cérebros, que consiste numa instalação multimédia na qual quatro visitantes podem visualizar e ouvir, em simultâneo, a sua atividade cerebral. Os sinais, captados por um capacete, são projetados numa tela de grandes dimensões e a sua tradução em sons foi desenvolvida por Rodrigo Leão. Um quadro de Bridget Riley, da Coleção Moderna do Museu Gulbenkian, ilustra como os princípios perceptivos por detrás das ilusões ópticas foram utilizados pela corrente artística OpArt. O terceiro módulo, “Mentes Artificiais” mostra como o desenvolvimento da tecnologia na área da inteligência artificial e da robótica tornou possível replicar a complexidade de organização do cérebro e do seu modo de processamento de informação em sistemas artificiais. Aqui há mais experiências para os visitantes - por exemplo o Mindball, um jogo de futebol mental em que dois visitantes se defrontam movimentando uma bola em direção à baliza do adversário com base nas suas ondas cerebrais. Estão também expostas várias peças interactivas, como uma aplicação em tablet sobre dilemas éticos levantados pela utilização de carros autoguiados. Ao longo da exposição há obras de artistas como Greg Dunn, Bridget Riley, David Goodsell, Leonel Moura e desenhos científicos do início do século XX que mostram o cérebro humano, de Santiago Ramón Y Cajal. “Cérebro: Mais Vasto Que O Céu” tem curadoria científica de Rui Oliveira, estará exposto na Galeria Principal da Gulbenkian até 10 de Junho e o catálogo sairá na próxima semana.

 

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CANÇÕES SOBRE A VIDA- Sharon Van Etten lançou o seu primeiro disco aos 28 anos e ao longo de uma década editou cinco álbuns - o mais recente já este ano, “Remind Me Tomorrow”. A preparação deste novo disco coincidiu com o desenvolvimento dos seus estudos na área da psicologia no Brooklyn College. Van Etten, que criou uma imagem de marca em torno de canções melancólicas, muitas vezes apontadas como exemplos de ilustração sonora da tristeza, muda de forma considerável neste disco, quer do ponto de vista musical, quer nos textos das canções. Logo na faixa de abertura, “I Told You Everything” ela evoca a conversa inicial que teve com o seu actual parceiro: “Sitting At A Bar/ I told you everything/ you said “holy shit, you almost died”. Mas temas como “Malibu”, “Comeback Kid” ou “No One’s Easy To Love” abrem portas para uma evolução na sua forma de encarar a vida e o mundo que a rodeia. Do ponto de vista musical, comparado com os anteriores, o disco é menos acústico, mais orquestral, mais estridente, com maior recurso à electrónica e à percussão. O facto de o produtor ter sido John Congleton, que tem trabalhado com St Vincent, influenciou certamente a soonoridade deste “Remind Me Tomorro”, disponível no Spotify.

 

DIXIT - “A transparência é um empecilho para os políticos” - José António Cerejo, sobre a forma como o regulamento de protecção de dados está a ser usado para ocultar informações sobre contratações públicas.

 

BACK TO BASICS - “A realidade é a maior causa de stress para os que têm que lidar com ela” - Jane Wagner







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publicado às 13:00

 

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GEPETTO, PINÓQUIO E O GRILO FALANTE  - A fábula de Pinóquio está cheia de ensinamentos políticos nestes tempos das fake news. Sonhei que Marcelo era o carpinteiro Gepetto, que Costa era Pinóquio e que o papel de Grilo falante estava reservado para José Magalhães. Cá para mim o Gepetto da actualidade portuguesa deixa Pinóquio à vontade nas suas brincadeiras: o Governo prometeu que os contribuintes não iriam pagar mais para salvar bancos e está-se a ver o que acontece; Pedro Marques, que era mesmo o maior descendente de  Pinóquio do Governo, foi mandado espalhar mentiras no território natural da ilusão que é a União Europeia; João Galamba, seu rival directo no campeonato dos jovens Pinóquios, já está num Ministério. E Costa superintende em tudo, sempre com transbordante imaginação e uma cativação orçamental na mão. Para a história ficar completa José de Magalhães, assume com galhardia o papel de Grilo falante. Magalhães descobriu que o maior perigo das campanhas eleitorais que se sucedem este ano reside no proliferar das fake news e propõe-se, no Parlamento,  tomar medidas para as combater. Aguardo ver como irá  ensinar Costa, Marques e Galamba a evitarem que os narizes lhes cresçam. Este Grilo vai ter muito que fazer com Pinóquios assim debaixo da sua alçada, à solta pelos ministérios e pela sua própria bancada parlamentar. É que, em matéria de fake news, o Governo não tem rival.

 

SEMANADA - No Porto há senhorios que pressionam os inquilinos, sobretudo os mais idosos, para abandonarem as suas casas, usando métodos que vão de ameaças até cortes de água; o juiz Neto de Moura anunciou ir processar os seus críticos aproveitando a isenção de taxas de justiça de que pode beneficiar; Tomás Correia pôs em acta que será o Montepio a pagar as multas que lhe foram aplicadas pelo Banco de Portugal, no valor de 1,25 milhões de euros; o Palácio Foz foi utilizado gratuitamente pela Secretaria Geral da Presidência do Conselho para uma festa de Carnaval onde colaboradores do Primeiro Ministro usaram disfarces - uma mascarou-se de Che Guevara e outro de Donald Trump; no ano passado o PIB cresceu 2,1% quando a estimativa do governo era 2,3%; em 2017 a produtividade caíu 0,2%; nos primeiros dois meses do ano foi apreendida quase tanta cocaína como no total do ano passado e Portugal está a tornar-se numa das portas de entrada da droga na Europa; os apoios dados pelo Estado aos bancos já atingem um montante de 1800 euros por cada português; a escola básica Patrício Prazeres, em Lisboa, tem 29% de alunos estrangeiros de 22 nacionalidades e há turmas onde são a maioria e os com melhores notas; um coronel que liderou os comandos na altura em que morreram dois instruendos, em 2017, é arguido por falsificação de provas relacionadas com o caso; até à data não houve ninguém a pedir apoio à linha de crédito criada pelo Governo para ajudar na limpeza de matas e o prazo termina no próximo dia 15.

 

PERGUNTAR NÃO OFENDE - Que terá acontecido na  vida do juiz Neto de Moura que o levou a fazer as considerações que fez e a tomar as decisões que tomou? Com que situações marcantes terá sido pessoalmente confrontado? Em que é que um trauma psicológico pode condicionar a decisão de um juiz?

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A PAIXÃO DAS VIAGENS - Tenho um fascínio por literatura de viagens e um dos livros que mais me marcou foi “O Grande Bazar Ferroviário”, de Paul Theroux, originalmente editado em 1975 e que, por cá, foi editado em 2008. A Quetzal, que já havia feito a primeira edição portuguesa, lançou agora uma nova colecção “Terra Incógnita” e escolheu reeditar a obra de Theroux. O formato é próximo do livro de bolso, bom para levar em viagem. O bom livro de viagens não é um roteiro turístico, esse é o princípio inspirador do escritor. Num segundo prefácio a esta sua obra,  publicado nesta edição, Theroux conta como o livro nasceu e demarca-se de uma escrita sobre férias e confortos, preferindo contar verdadeiras viagens e relatando o passar do tempo, incluindo os atrasos e os transtornos. O Grande Bazar Ferroviário, é o relato emocionante que Paul Theroux faz da sua viagem de comboio entre a Europa e a Ásia: “O livro de viagens em que estava vagamente a pensar tinha algo a ver com comboios, mas não fazia ideia de para onde queria ir - a minha ideia era simplesmente uma longa viagem solitária”. Partiu de Londres a 19 de setembro de 1973 e lá regressou quatro meses depois, tendo viajado no Expresso do Oriente, ido até Teerão, depois Deli, Kuala Lumpur ou o Transiberiano. Uma aventura que Theroux partilha, descrevendo lugares, culturas e as pessoas que conheceu ao longo dos milhares de quilómetros que percorreu. Como diz Francisco José Viegas na introdução a esta nova edição, “num mundo assim, como ele está, os livros de Theroux continuam a expor o mistério prodigioso de conhecer os outros”.

 

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O OLHAR DE LUÍSA - Uma das pessoas que melhor tem fotografado os protagonistas das noites lisboetas, nas mais diversas áreas, ao longo das últimas décadas, é Luísa Ferreira. O seu trabalho no entanto vai muito para além disto - como se viu recentemente na Galeria Monumental com a exposição “Branco” ou, noutro género, em “Há Quanto Tempo Trabalha Aqui?”, sobre lojas históricas de Lisboa. Mas voltando às pessoas e às noites, Luísa Ferreira tem sido sempre uma persistente observadora de quem foi passando em casas como o Frágil e o Lux, com o acesso que Manuel Reis lhe proporcionou e que ela soube sempre respeitar e enquadrar - são imagens que retratam o espírito do tempo e as mudanças que o mesmo tempo provoca. Desta vez  Luísa Ferreira veio mostrar como olha para quem habita os palcos e, para assinalar o aniversário do Teatro do Bairro (Rua Luz Soriano 63), montou uma mostra de imagens que fez ao longo dos anos e que animaram a festa do referido aniversário. mas vão poder ser vistas por todos quantos a partir de dia 20 lá forem ver a nova produção da companhia, “Terror E Miséria no III Reich”, de Bertolt Brecht, que estreia no próximo dia 20 - uma escolha aliás oportuna para os tempos que correm. As imagens da Luisa Ferreira que encontrarão nas paredes do Teatro do Bairro integraram a exposição “Ouro Azul”, que Luisa Ferreira teve em 1996 na Mitra e também uma outra que mostrou no Teatro Viriato, em Viseu, em 2002 e incluem um conjunto de provas de contacto de trabalhos que fez à volta do teatro e da noite onde ele se desenha.

 

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O NOVO PIMBA- Nunca fui fã do Festival da Eurovisão e não sou dos que acham que aquilo é coisa que valha a pena. Sou mais do que acham que aquilo tudo é uma foleirice que raras vezes adiantou alguma coisa à música e deixou sons que perdurassem. Também não embandeirei em arco com a cosmética aplicada ao Festival RTP da Canção há uns anos e dedico-lhe pensamentos idênticos aos que acima escrevi sobre a Eurovisão. No caso português reconheço alguns méritos, sobretudo a Simone de Oliveira há uns anos largos e a Salvador Sobral há pouco tempo. Na generalidade, nestes certames, pratica-se má música, péssima música pop sem imaginação e cheia de pastiches. Este ano já percebi que existe alguma emoção em torno de Conan Osiris e pessoas que estimo até o acham semelhante a António Variações. Para mim este novo cançonetista é o contrário do que Variações foi: é um amalgamado de cópias provenientes de diversas origens, é uma construção plastificada, é uma demonstração de falta de talento e de originalidade construída sobre um cenário falso. Fala-se muito de fake news - Conan Osiris é fake music making fake news, uma espécie de banda sonora da mentira. E é a prova de que na vida tudo se transforma - o pimba também.  

 

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O OLHAR DE ÁFRICA - Uma das melhores exposições que podem ser vistas em Lisboa está na Galeria Underdogs (Rua Fernando Palha, Armazém 56, em Marvila). “Nha Fala” é o título da exposição que integra 19 marcantes fotografias do guineense Abdel Queta Tavares - onde a influência de nomes incontornáveis da fotografia africana como Seydou Keita ou Malick Sidibé são notórias.  “Nha Fala” significa “Minha Voz” em crioulo - e neste caso significa a forma como Abdel Queta Tavares encena o que vê, interpretando personagens e tornando o vulgar em único e indo além das influências onde se poderá ter inspirado. Os preços das obras expostas variam entre os 600 e os 5000 euros. Outras sugestões: no Pavilhão 31, localizado no parque da saúde que funciona onde era o Hospital Júlio de Matos, vive um espaço que concilia a mostra de obras de artistas consagrados, com aulas de artes plásticas aos utentes do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa. “Arte de Furtar/ Furto na Arte” inclui obras de Ana Pérez Quiroga, João Louro, José Luis Neto, José Maçãs de Carvalho, Claudia Fischer, Pedro Cabral Santo e Sara e André, entre outros. Na Pequena Galeria (Avenida 24 de Julho 4C) Pauliana Valente Pimentel mostra “A Vida É Feita de Likes”, um mero registo do seu quotidiano pessoal feito em instagram.

 

DIXIT - “Ele tinha imensas namoradas” - Fernanda Tadeu, mulher de António Costa, falando sobre ele, enquanto o marido cozinhava cataplana de peixe no programa de Cristina Ferreira.

 

BACK TO BASICS - Nunca confio numa pessoa por aquilo que ela proclama, mas sim pelos actos que pratica - Ann Radcliffe

 




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EUROPA: UM BARCO À DERIVA

por falcao, em 01.03.19

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CONFIANÇA ZERO -   As próximas eleições para o Parlamento Europeu decorrem sob o duplo signo de uma crise profunda na União Europeia - de que o Brexit e a ascensão dos populismos é apenas a ponta do iceberg e, no caso de Portugal, que este ano acolhe três eleições - as europeias, as regionais dos Açores e Madeira e as legislativas - o ciclo eleitoral decorre perante um descrédito cada vez mais acentuado no funcionamento do sistema político. As eleições para o Parlamento Europeu estão marcadas para 26 de Maio e neste momento ninguém pode garantir se o Reino Unido nessa altura ainda estará dentro da União ou se o Brexit já se terá então concretizado. Melhor dizendo - ninguém neste momento pode garantir que não haverá adiamento, que não haja segundo referendo, que a Europa não engula uma tonelada de sapos e não volte atrás em tudo o que jurou sobre o Brexit. Enfim, o panorama geral é o de que nada está certo e que mais uma vez os políticos meteram os pés pelas mãos ao induzirem os cidadãos em erro e ao não conseguirem encontrar uma solução para a situação que eles próprios fabricaram. Na realidade o perigoso poker jogado por Cameron, quando convocou o referendo sobre o Brexit, transformou-se num pesadelo que assusta o sistema financeiro, cria graves problemas às economias do Reino Unido e de uma série de países da Europa e voltou a colocar na ordem do dia a questão da Irlanda - com a hipótese, até há pouco impensável - de ressurgir nova fronteira de arame farpado entre o norte e o sul da ilha, com todo o provável retomar e agudizar de conflitos que isso trará. Mas, passando para o caso português, uma sondagem, realizada a pedido da União Europeia, conhecida esta semana, indica que apenas 17% dos portugueses confiam nos partidos, somente 37% no Parlamento e só 43% manifestam confiança no Governo. Trocado por miúdos a maioria não acredita em nada disto. É um balanço terrível do funcionamento do sistema, que cada vez se parece mais com um barco desgovernado que partiu amarras e saíu desarvorado sem destino.

 

SEMANADA - Segundo a Provedoria da Justiça os portugueses estão a esperar dez meses para ter a reforma atribuída quando a lei prevê resposta em 90 dias e o número de queixas por atrasos na atribuição de pensões triplicou em 2018; no ano passado os portugueses gastaram 2.431,8 milhões de euros em apostas desportivas e jogos de fortuna e azar online; os preços da banda larga móvel caíram em 2018, mas em Portugal estes custos ainda são mais caros do que a média da União Europeia; 47% dos portugueses não foram ao dentista em 2017; entre 2001 e 2017 o número de pescadores diminuíu 56%; em 2018 foram apreendidos 1938 telemóveis nas cadeias e segundo o sindicato dos guardas prisionais o número não reflete a dimensão real do problema, que é muito maior;  em Portugal cerca de 915 mil mulheres trabalham ao sábado, mais de 538 mil trabalham ao domingo, 382 mil trabalham por turnos e 162 mil à noite, o que lhes dificulta a conciliação do trabalho com a família; o juiz Neto de Moura, conhecido por evitar condenar a violência doméstica, resolveu eliminar as medidas coercivas aplicadas a um homem que rebentou o tímpano da mulher ao soco; mais de 219 mil pessoas receberam o Rendimento Social de Inserção em janeiro, o valor mais elevado dos últimos três meses; o actual Governo efectuou mais cativações financeiras em três anos que o anterior executivo em quatro; esta semana encerrou a Tema, a maior loja de revistas e jornais estrangeiros de Lisboa, localizada nos Restauradores, devido à perda de clientes portugueses que praticamente desapareceram da zona, substituídos por turistas.

 

PENSAMENTOS OCIOSOS- Enquanto a Amazon procura afinar um sistema de entrega por drones, alguns reclusos portugueses já conseguiram introduzir telemóveis e drogas nas prisões precisamente com recurso a drones: Portugal sempre precursor na adopção de novas tecnologias...

 

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UMA EDIÇÃO FRACA - Já se sabe que a revista “Monocle” é uma grande utilizadora criativa do conceito de conteúdos patrocinados, frequentemente dissimulados de forma editorial elegante e sedutora. O grafismo da revista continua contemporâneo apesar de não ter tido muitas evoluções desde que foi lançada em 2007. Em contrapartida o espaço ocupado por conteúdos patrocinados tem vindo sempre a aumentar, por vezes demais, até se chegar a esta edição sobre França que é insultuosamente dedicada a propagandear aquele país quase sem deixar escapatória aos leitores para outros assuntos. Tyler Brulé, um misto de canadiano com nórdico, é um admirador confesso de Macron, deposita nele as esperanças da Europa e fez aliás questão de afirmar que a sua revista vai deixar de ser impressa no Reino Unido por causa do Brexit. Mudou a sede das suas operações para a Suíça e passa a imprimir na Alemanha - desta edição em diante. Talvez por ser excessivamente dedicada a um país que passou o século XX, nos seus grandes conflitos, a claudicar e render-se,  esta edição da “Monocle” é fraca e muito pouco interessante. Não há muitas coisas que me agradem em França, a pose arrogante e o discurso pretensioso de muitos franceses faz-me espécie e provoca-me uma rejeição natural - Macron não é excepção. Uma nota de humor, mas que reflecte algum desleixo editorial, surge numa página dedicada a citar Mário Centeno a propósito do Brexit, com a particularidade de a sua fotografia estar trocada. Ainda pensei que fosse fruto de alguma cativação que lhe tivesse alterado as feições, mas é mesmo erro.

 

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AS VISTAS DO PAÍS - Nos últimos anos têm surgido um pouco por todo o país galerias e centros, muitas vezes ligadas de alguma forma a autarquias, onde com poucos recursos se vai fazendo um trabalho importante de divulgação da obra de artistas contemporâneos portugueses fora do circuito das grandes cidades, dos museus de maior dimensão e das mais activas galerias comerciais. Por exemplo o Centro de Artes de Águeda apresenta trabalhos de Pedro Calapez sob a designação comum “Terra” (na imagem uma das obras) que ali estarão expostos até 17 de Março. “O desenho é uma das formas mais antigas e perfeitas de interpretação e criação do mundo” - este é o mote para o conjunto de exposições designadas por “O Desenho como Pensamento” onde a presente mostra de Pedro Calapez está integrada. Até há poucos dias, no Centro Internacional de Artes José de Guimarães, em Guimarães, esteve patente uma mostra de trabalhos de desenho de Rui Chafes, muitos deles inéditos. E em Famalicão, na Ala da Frente, uma galeria municipal, está uma exposição de 29 desenhos a carvão sobre papel de Alexandre Conefrey, sob o título “Anima Mea”, que ali ficará até 18 de Maio. Bem recentemente esta galeria acolheu trabalhos de nomes como José Pedro Croft, Pedro Cabrita Reis, Alberto Carneiro, Rui Chafes ou Jorge Molder.

 

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SEMPRE O PIANO - Tenho uma atracção especial pelo som do piano e pela sua utilização no jazz. Esta semana descobri o novo disco do quarteto do pianista alemão Florian Weber, “Lucent Waters”, e fiquei fascinado desde as primeiras notas. Ao longo dos oito temas os músicos criam uma tensão permanente, sempre com o piano em local central a articular o diálogo com os outros instrumentos, criando uma relação próxima com todos, mas destacando de forma especial o trabalho elegante do trompetista Ralph Alessi, sobretudo num belo solo em “Buttelfly Effect”. Destaque também para a discreta baixista Linda May Han Oh em “Honestlee” e para o subtil baterista Nasheet Waits em “Time Horizon”. Finalmente “Fragile Cocoon” é um bom exemplo do entendimento entre todos os músicos deste quarteto. Duas influências marcantes de Weber são Paul Bley e Lee Konitz, detectáveis em vários pontos deste registo. CD ECM, disponível no Spotify.

 

O SABOR DE DOIS MUNDOS - Na avenida Conde Valbom há um restaurante que junta dois mundos: a gastronomia da Índia e a de Marrocos. Quando abriu, há uns anos, o Restaurante Marrakesh dedicava-se só à cozinha de inspiração árabe e era rigoroso: não disponibilizava bebidas alcoólicas aos seus clientes. Entretanto já há uma escolha limitada de vinho, o que sempre ajuda a acompanhar tagines e couscous que continuam cheios de sabor e de aromas. Quando os clientes se sentam à mesa surgem dois menus - o árabe e o indiano. Ambos têm múltiplas escolhas com os pratos mais tradicionais de cada origem. Há um enorme cuidado na confecção. Depois de ter aprovado tagines e couscous em visitas anteriores, esta semana deliciei-me com um prawn karahi, camarão picante num molho intenso, que antecedeu - numa refeição partilhada - um chicken tika, que chegou fumegante e cheio de bons aromas. O arroz basmati foi o acompanhamento escolhido e a refeição terminou com um gelado de gengibre, artesanal, e que tinha mesmo gengibre. Serviço atencioso, paladares intensos, preço honestíssimo para a qualidade. Restaurante Marrakesh, Avenida Conde de Valbom 53, junto à Avenida Miguel Bombarda.

 

DIXIT - “O primeiro-ministro e o ministro das Finanças ora fazem de polícia bom, ora de polícia mau” - Assunção Cristas sobre a estratégia negocial do Governo com os sindicatos

 

BACK TO BASICS - “Gosto de jornais, mas alguns têm um grande problema - não são bem escritos; a sobrevivência dos jornais diários em papel depende muito da forma como as pessoas escrevem” - Karl Lagerfeld.

 

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publicado às 13:08

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SOBRE A PROMISCUIDADE NA POLÍTICA -  Marcelo Caetano criou em 1969 a “Conversa em Família” que a RTP transmitia. A coisa deve ter deixado lastro na mente do então muito jovem António Costa, que resolveu transpor a conversa familiar para dentro do Conselho de Ministros a que preside - e onde agora, depois da recente remodelação, estão além de um casal de marido e mulher, também a singela presença de um pai e sua filha. Tudo em família portanto, conversando. Não sei como é que isto se articula com as declarações republicanas e anti- nepotistas dos fundadores do PS mas os actuais detentores da marca deverão certamente saber o que fazem. Este incidente - menor mas significativo - da paisagem política recente é no entanto pouca coisa quando nos lembramos de outros incidentes, mais graves, que marcam um género de actuação que tem outros pontos de contacto com os hábitos, digamos, marcelistas. Vou apontar dois exemplos - a ingerência num relatório da OCDE, apresentado na sua versão censurada pelo Ministro Siza Lápis Azul Vieira, e, mais grave - perante a complacência dos sindicalistas da geringonça - a forma como a greve dos enfermeiros tem sido atacada: desde querer passar um parecer a força de Lei até à ingerência de uma entidade policial (a ASAE) para avaliar como foi feita a recolha de fundos dos grevistas. Se alguma destas actuações tivesse sido tomada por qualquer partido à direita do PS mil vozes se levantariam em nome da luta contra a prepotência. Mas de facto a geringonça tem um poder sedutor e anestesiante. Por falar nisso lembrei-me esta semana, a ver uma interessante série sobre Trotsky na Netflix, como muitas coisas do comportamento do Bloco e do PS se explicam se recordarmos o que a História nos conta. Pronto, era só um desabafo.

 

SEMANADA - Dos 27.367 beneficiários do regime fiscal do não residente habitual, 25 mil são pensionistas e só cerca de dois mil desenvolvem profissões de elevado valor acrescentado; uma mulher que foi morta na Golegã tinha feito queixa do agressor no ano passado, mas o assassino continuava a ser calmamente investigado pelas autoridades policiais sem que nenhuma medida tivesse sido tomada;  na escola António Arroio, encerrada esta semana devido a problemas com a electricidade no edifício, as obras de recuperação que decorriam estão interrompidas desde 2009; um juiz de um tribunal de Braga considerou curada e sem incapacidades uma mulher que ficou com dificuldades graves de locomoção após um acidente de trabalho; o número de famílias sobre-endividadas que procuram a ajuda da DECO voltou a subir no ano passado e totalizou 29.350 casos, maioritariamente de pessoas entre os 40 e 65 anos de idade; só três países da Europa de Leste (Eslovénia, Hungria e Bulgária) são piores do que Portugal em pobreza energética, segundo um estudo europeu que avaliou a capacidade de famílias manterem as suas casas com temperaturas confortáveis e pagar as faturas da energia; há mais de 2,6 milhões de subscritores de seguros de saúde; apenas 37% dos alunos acabam o ensino secundário sem chumbar pelo caminho; a OCDE considera que é preciso melhor o combate à criminalidade económica e  financeira em Portugal, incluindo a corrupção; a área semeada de cereais está a cair há seis anos consecutivos e desde 1918 que Portugal não cultivava tão poucos cereais; se o Independente ainda existisse já tinha um epicurista com vocação de repórter a almoçar frequentemente na Vela Latina para relatar os curiosos encontros que lá ocorrem.

 

CURIOSIDADES AFECTIVAS - Um agricultor de Oliveira do Hospital que perdeu o que tinha num incêndio, em 2017, recebeu do Presidente da República uma cabra, a que chamou Vitória, e deu o nome de Marcelo ao cabrito que agora nasceu.

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PEQUENAS HISTÓRIAS - Susan Sontag foi uma escritora e ensaísta americana, vencedora do National Book Award, colaboradora de revistas como a The New Yorker ou jornais como The New York Times. A sua actividade foi multifacetada, envolveu-se em causas políticas, escreveu romances e um ensaio ainda hoje de referência, “Sobre A Fotografia”. Mas ao longo de toda a sua vida dedicou-se também à ficção curta. “Histórias”, agora publicado pela Quetzal, reúne a totalidade da ficção breve que produziu, 11 textos, traduzidos por Vasco Teles Menezes, originalmente editados em publicações como as já citadas, mas também na Atlantic Monthly, na Harper´s Bazaar e até mesmo na Playboy e foram escritos entre 1963 e 1987. Estas histórias, salienta a nota de capa,  “passam pela alegoria, pela parábola e pela autobiografia, e mostram uma personalidade em confronto com problemas não assimiláveis pelo ensaio, a forma mais praticada por Sontag . Aqui Susan Sontag apanha fragmentos da vida, em relance, dramatiza os seus desgostos e temores mais íntimos e deixa que as personagens se apoderem dela como e quando querem”.

 

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SOLO DE CONTRABAIXO - O contrabaixo, instrumento volumoso e voluptuoso, tem uma sonoridade muito especial e várias formas de ser tocado.  Larry Grenadier é um dos grandes baixistas e o seu nome figura em numerosos discos de jazz e em muitas formações, com destaque para o seu trabalho com Brad Mehldau, Paul Motian, Joshua Redman ou Pat Metheny. Agora, pela primeira vez, e por insistência de Manfred Eicher, o fundador da  sua editora, a ECM, Grenadier fez um disco a solo onde ele é o único músico e o contrabaixo o único instrumento. O álbum chama-se ”The Gleaners”, inclui sete temas originais do próprio Grenadier e uma série de versões de compositores como Coltrane ou Gershwin. O tema inicial, “Oceanic”, é tocado com arco mas no resto do álbum predomina o dedilhar das cordas - entre o ritmo e a harmonia, com uma técnica arrebatadora e uma sensibilidade notáveis que são capazes, por exemplo, de replicar nas cordas o calor e a emotividade da voz de de Rebecca Martin na versão original, cantada, de “Gone Like The Season Does”.  É aliciante ouvir estes 12 temas onde os sons do baixo ocupam todo o espaço, permitindo ter uma ideia mais exacta do talento de Grenadier. “The Gleaners” está disponível em CD, vinil e no Spotify.

 

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A RELAÇÃO ENTRE O DESENHO E A ESCULTURA - Rui Sanches tem uma história curiosa. Começou por frequentar medicina, depois o ARCO e acabou por estudar no Reino Unido e nos Estados Unidos, onde completou a sua formação académica. Quando regressa a Portugal ensina em diversas instituições e desenvolve o seu trabalho artístico. Estamos a falar sobretudo da segunda metade dos anos 80, época em que a sua actividade se desdobra em diversas áreas e durante a qual colabora com vários outros artistas seus contemporâneos, participa em numerosas exposições - e começa a figurar em algumas colecções. Ao longo dos anos o desenho coexiste naturalmente com a escultura, de forma harmónica. No entanto são sobretudo as suas obras escultóricas - onde muitas vezes é patente a influência dos seus estudos de Medicina - que o tornam conhecido. Na escultura há recorrentemente uma evocação da figura humana, que também deixa uma marca nos desenhos, algumas vezes como que explorando a visualização do pensamento. A forma de trabalhar a madeira em conjugação com outros materiais tornou-se numa das suas imagens de marca (na imagem). Na semana passada inaugurou nova exposição de Rui Sanches na Galeria Miguel Nabinho (Rua Tenente Ferreira Durão 18B, Campo de Ourique, Lisboa) com o título “Os Espaços Em Volta” onde mais uma vez junta a escultura e o desenho.

 

PROVAR - Nestes dias mais primaveris que invernais almoçar num varandim a poucos metros do Tejo e comer um peixe fresquíssimo é um daqueles privilégios lisboetas que fazem a inveja de muita gente. Junto à Doca Seca de Belém ficam uma série de construções, frente ao rio, que inicialmente eram apoios de clubes e associações de vela e que hoje, além dessa função, desenvolveram os restaurantes originais que tinham, remodelaram-nos e criaram uma nova oferta. O mais engraçado é que, sendo ao lado uns dos outros e sendo naturalmente concorrentes, dão-se todos bem. Um deles é sede do Clube Naval de Lisboa e hoje em dia é um dos mais procurados. Em baixo tem uma esplanada para petiscos que funciona ao longo de todo o dia e no primeiro andar tem uma boa sala com varandim fechado, além de uma outra sala, reservada para sócios do clube, onde estão os troféus conquistados pela agremiação, assim como fotografias de episódios da sua História. Sem desfazer na concorrência, a qualidade e frescura do peixe servido no Clube Naval é de facto impressionante - assim como o cuidado posto na grelha. Recentemente tive ocasião de fazer a prova dos nove com um besugo grelhado, peixe injustamente pouco apreciado, aqui obviamente não escalado. Há muito que não comia um peixe assim, fresco, saboroso, suculento, cozinhado no ponto. Antes disso umas belas ameijoas à bulhão pato e um queijo de cabra deram acompanhamento a um pão acima da média no que toca a couverts. Manda o bom senso que se marque mesa, que o sítio é procurado e fica no roteiro dos que por ali andam a passear. Restaurante do Clube Naval de Lisboa, Avenida Brasília, Doca Seca de Belém, telefone 213 636 014.

 

DIXIT - “Se o PSD perder as legislativas será por culpa própria e por incompetência” - Miguel Castro Almeida, vice-presidente social-democrata, para memória futura

 

BACK TO BASICS - “Encaremos os factos: na realidade as pessoas não querem uma broca, querem apenas um furo na parede” - Theodore Levitt



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