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Quando este artigo foi escrito a crise gerada pelo COVID 19 só se desenhava. Não retiro uma linha do que escrevi. Mas reforço aqui o apelo a que todos colaboremos para diminuir os riscos de propagação e para aumentarmos o apoio que podemos dar uns aos outros. Reforço aqui a citação da grande investigadora que foi Marie Curie e que é hoje o Back To Basics:  “Nada na vida é para ser temido, mas sim para ser compreendido”.

 

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UM PAÍS DESIGUAL - As palavras que se seguem não são minhas, são de uma intervenção de Carlos Guimarães Pinto, ex-líder da Iniciativa Liberal, numa conferência recente sobre “Novas Desigualdades”.  É uma análise poucas vezes feita. E certeira. Excertos: “Há uma opção política clara de concentrar o poder político em Lisboa, de concentrar os negócios do estado na capital. Tendo o estado um peso tão grande na economia, esta concentração arrasta inevitavelmente o poder económico, e ambos arrastam o poder mediático. O centralismo garante que o poder no país está concentrado num pequeno círculo de pessoas distante do escrutínio da maioria, facilitando redes de nepotismo e corrupção. (...)  Cada vez mais a elite é um círculo fechado controlado por meia dúzia de famílias e dois ou três grupos mais ou menos secretos. A esmagadora maioria das pessoas neste país, por muito bons que sejam, não podem aspirar a chegar a altos cargos na política ou nas empresas. Esta ausência de meritocracia tem implicações graves na forma como o país e as grandes empresas são geridas. Para termos os melhores no topo, o acesso a esses lugares não pode estar restrito a quem tem o apelido certo ou pertence a uma qualquer organização secreta. Para além de aprofundar desigualdades, a concentração de poder faz com que se desperdice muito capital humano. Há um eixo de Braga a Coimbra onde se concentra muita da criação de conhecimento do país e, acima de tudo, onde ainda se vai concentrando uma boa parte da população jovem. Mas nesse eixo, onde se formam os jovens da geração mais bem preparada de sempre escasseiam as oportunidades de crescimento profissional. (...) Mais 5 anos e podemos ser o país mais pobre da Zona Euro. Daqui a 10 ou 15 anos poderemos ser o país mais pobre não só da Zona Euro como da União Europeia. Estamos num país centralista, com elevada carga fiscal onde redes de compadrio e nepotismo se substituem aos mecanismos de concorrência e mercado que deveriam guiar uma economia desenvolvida.”  É isto. É este o estado da Nação. 

 

SEMANADA - Mais de 60% dos hotéis do Algarve registam cancelamento de reservas; um quarto dos membros do Governo têm participações directas ou indirectas no capital de empresas e alguns dos casos não foram declarados no registo de interesses; a procura de cursos superiores de curta duração aumentou 21%; a Autoridade Nacional de Emergência e Protecção Civil emitiu um parecer desfavorável sobre o projecto do aeroporto do Montijo devido ao risco de acidentes com aves e aeronaves; os tempos de espera para marcações de exames e intervenções cirúrgicas levou mais de 700 mil portugueses a escolherem ser tratados em hospitais fora da sua área de residência; em Penamacor o presidente da Câmara forjou contrato com pais e irmãos da sua chefe de gabinete, e ex-vereadora, para dar cobertura a uma obra de quase 150 mil euros feita ilegalmente três anos antes; Portugal é o país da OCDE onde os custos com a habitação mais subiram; a maternidade depois dos 40 anos duplicou entre 2011 e 2018 devido à precaridade laboral; mais de metade dos bebés são filhos de mães solteiras; em Lisboa a esquadra de Turismo da PSP é a que tem mais denúncias de crimes; os transportes públicos de Lisboa são o serviço com os clientes mais insatisfeitos pelo sétimo ano seguido; nos últimos 15 anos centenas de processos da Relação de Lisboa foram distribuídos manualmente, o que agrava as suspeitas de viciação.

 

ARCO DA VELHA -  Segundo o “Correio da Manhã” a PSP está sem dinheiro para reparar viaturas e há agentes do Corpo de Intervenção que trazem papel higiénico de casa já que o mesmo não está por vezes disponível no local de trabalho.

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NORTE-SUL - Ana Vidigal faz uma incursão na pintura sobre papel, pouco frequente na sua obra mais recente onde a colagem tem estado mais presente. O resultado é a exposição “amor-próprio” que abre sábado no Porto, no espaço 531 do galerista Fernando Santos. A história é simples - Ana Vidigal aceitou o desafio do galerista e de Pedro Quintas para realizar uma série de trabalhos em pequenos formatos para esta exposição (na imagem). Vidigal não utiliza geralmente esse formato com dimensões de cerca de 100 X 70. Mas desta vez estabeleceu uma dimensão e forçou-se a esse exercício de atelier que pode agora ser visto nesta exposição intitulada “amor-próprio” constituída por 16 pinturas sobre papel de 14 de Março a 02 de Maio de 2020 no espaço 531 da Galeria Fernando Santos, no Porto. Outra sugestão é a exposição de José Pedro Croft, “1 nova, 2 nem tanto” que apresenta três esculturas, todas obras inéditas. A peça central é composta por camadas, evocando a imagem de uma cabana, uma espécie de abrigo primitivo constituído por  placas de ferro unidas duas a duas, juntas num ponto, e pintadas. No meio das placas, um conjunto de duas grelhas, recorda os desenhos de Croft e reforça a luz como parte da obra. As outras duas esculturas —uma em madeira, mármore e gesso e a outra em madeira e gesso— são ambas feitas a partir de portas reutilizadas que perderam a sua função original. De 12 de Março a 2 de Maio, na Galeria Vera Cortês, em Lisboa, de terça a sexta das duas às sete e no sábado entre as dez e a uma e dentre as duas e as sete.

 

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POP ROCK - Hoje o tema é música pop, de inspiração electrónica, feita por um duo originário de Brooklyn e que dá pelo nome de Overcoats. O seu segundo álbum  é “The Fight”, acabado de publicar e disponível no Spotify. Hana Elion and JJ Mitchell são as duas compositoras e intérpretes que constituem o duo, cuja estreia foi em 2017 com o álbum “Young”. No início basearam-se na conjugação de um pop de instrumentação electrónica com algumas influências do folk, sobretudo na forma de cantar. Neste novo disco os arranjos são bem diferentes, entram guitarras e bateria e sente-se uma produção onde o rock se faz sentir mais presente, como no no tema “The Fool”, que foi o primeiro single Os dez temas do álbum são bastante diversos entre si, incluem uma balada acústica como”New Shoes”, a encerrar o disco, e um envolvente “I’ll Be There”, onde os arranjos vão crescendo ao lado das vozes. Outros temas em destaque: “Apathetic Boys”, “Leave If You Wanna” e “Fire And Fury”.

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EPISÓDIOS DA JUSTIÇA - Nos últimos anos ouvi numerosas crónicas de rádio de António Canêdo Berenguel, que, na TSF, contava episódios curiosos e algo rocambolescos da justiça portuguesa ao longo dos séculos. Berenguel é advogado em Portalegre e tem-se cruzado com muitas histórias no exercício da sua profissão - mas foi nos fundos dos arquivos judiciais que encontrou algumas das mais incríveis e surpreendentes, ocorridas nos finais do século XIX e início do século XX. Com o título “Histórias da Justiça”, essa sua rubrica da TSF contava coisas que vão da passagem de notas falsas em ceroulas até casos de  barbeiros abortadeiros, passando por furtos de galinha, queijos ou presuntos. Há histórias inacreditáveis como a de um político local que mudou a hora nacional, ou de ex- namorados que foram parar ao tribunal por uma disputa de sabonetes. Os títulos das histórias narradas são por si só um episódio: “A açorda e a morte suspeita”, “O tigre chamado Porfírio vivia no Rossio da vila”, “O porco comeu-lhe a merenda”, “O oficial de justiça apaixonado”, “As cartas da mulher do juiz”, “as mãos por baixo das saias” ou “mordeu a sogra junto à virilha” são alguns deles. O mais delicioso de tudo está nas citações dos registos dos julgamentos, a transcrição de sentenças  ou de boletins do registo criminal. É um retrato de Portugal num determinado tempo - mas em muitos momentos estes parecem ser casos de sempre, que se vão repetindo. Na introdução o autor constata que olhando para o país de então e para o país de hoje, muito mudou e interroga-se: O que mudou no essencial? Que povo fomos e somos? Que justiça é esta e foi a outra? Que valores cimentavam os laços sociais? Segundo o autor, «as respostas estão nos processos, um acervo documental único e o retrato fiel do país ao longo de séculos”. Edição Guerra & Paz.

 

PETISCO - O Folar Limiano é o meu tema desta semana depois de ter levado um que fez sucesso num lanche de amigos há uns dias. Elaborado com carnes seleccionadas e enchidos tradicionais, como o lombo do cachaço, o chouriço de carne, a barriga fumada e o chouriço para grelhar, o seu maior segredo está na massa, regada com vinho verde de Ponte do Lima, que lhe confere um sabor e uma textura inesperados. Este Folar Limiano tem um peso aproximado de 650 gramas, é uma óptima ideia para um petisco de fim de tarde e mantém-se fresco alguns dias. As carnes têm um sabor intenso, a massa tem um paladar delicado numa consistência suave. A receita deste Folar foi criada pelo chef Vitor Lima, que está à frente da Casa do Folar Limiano, em Ponte de Lima. Outra das suas especialidades são os bombons limianos, elaborados a partir de chocolate belga, com recheio de vinho verde, aguardente velha. A casa do Folar Limiano fica na Rua Salvato Feijó em Ponte de Lima mas pode comprar o Folar em Lisboa na Garrafeira Néctar das Avenidas, Rua Pinheiro Chagas 50, nas Avenidas Novas em Lisboa. Aproveite que além do Folar tem lá bons queijos e uma excelente selecção de vinhos.

 

DIXIT - “O coronavírus vai ser a prova de algodão do Governo de António Costa. Pela qualidade do combate à epidemia se verá se ele é um político de mão cheia” - João Miguel Tavares

 

BACK TO BASICS - “Nada na vida é para ser temido, mas sim para ser compreendido” - Marie Curie



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publicado às 12:02

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A CONFIANÇA - “A meio da batalha não se mudam os generais” -  disse esta semana o Primeiro Ministro no Parlamento, a propósito das falhas registadas na actuação das autoridades de saúde e da necessidade de se mudarem os seus responsáveis. A situação provocada pelo Covid 19 está a mostrar as grandes lacunas que existem na coordenação, mas também na disponibilização de meios humanos e materiais e na articulação da informação a profissionais da saúde e público em geral. Em última análise a questão é a capacidade de o Estado desempenhar o seu papel em prol dos cidadãos. E, infelizmente como já aconteceu em situações anteriores - recordo apenas a falta de coordenação do combate aos incêndios 2017 - a obstinação de não mudar responsáveis quando surgem problemas não é uma boa ideia. A Ministra da Saúde, que tem tido um desempenho em geral fraco, é, em última análise, a responsável pelo que se está a passar e os seus desencontros com a Direcção Geral da Saúde são um sinal preocupante. O que está em causa aqui é a forma como vamos perdendo a confiança no Estado, como vamos aceitando passivamente que as coisas não funcionam. A resignação face a um Estado ineficaz é uma ameaça ao funcionamento da democracia e é o caminho que abre campo ao populismo.  Num país onde o funcionamento da justiça levanta tantas dúvidas, onde as finanças distorcem a realidade e onde a saúde defronta problemas graves, avolumam-se as razões para o descrédito do Estado. E isso nunca é uma boa notícia. O Estado que é omnipotente de um lado e ausente de outro é um perigo para todos.

 

SEMANADA - Os serviços postais apresentaram 28 mil reclamações em 2019, mais 18% do que no ano anterior e o atraso na entrega foi o motivo que registou uma maior percentagem de queixas; a dívida pública situou-se em 252,1 mil milhões de euros em janeiro, aumentando 2,3 mil milhões relativamente ao final de 2019; ao contrário do que a Lei prevê, as Finanças não publicam os encargos trimestrais do Estado com as PPP desde há um ano; o Sporting já teve 24 treinadores desde 2000 e sob a direcção de Frederico Varandas já teve seis em apenas um ano e meio; o presidente do Tribunal da Relação de Lisboa demitiu-se depois de surgirem suspeitas sobre a viciação dos sorteios de atribuição de processos, possibilitando a escolha de juízes de acordo com o interesse de uma das partes envolvidas; segundo o Eurostat Portugal está entre os países com sinais mais agudos de degradação do mercado de trabalho no arranque de 2020; Portugal tem quinta maior taxa de desemprego jovem da Europa; as chamadas por telefone fixo caíram 15% em 2019, a maior queda dos últimos quatro anos; os grandes contribuintes, com mais de 750 mil euros de rendimento ou património superior a cinco milhões de euros, aumentaram 34% em 2019; José Sócrates afirmou esta semana à saída do tribunal onde foi interrogado, que as perguntas do juiz sobretudo aquelas sobre umas férias no Algarve, eram "perguntas ridículas".

 

ARCO DA VELHA - Uma médica afirma ter telefonado 44 vezes para a Linha de Apoio Aos Médicos sobre o Covid 19 sem ter conseguido obter qualquer resposta e a linha Saúde 24 não atendeu 25% das cahamadas no pico da crise.

 

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DESENHOS NATURAIS - Esta semana sugiro uma ida à Galeria Monumental, que inaugurou recentemente duas exposições. A primeira mostra desenhos de Bárbara Assis Pacheco (na imagem), fruto das suas viagens, mas também das suas preocupações ambientais, baseadas na observação persistente da natureza. Num texto recente sobre uma das suas exposições dizia-se que Bárbara Assis Pacheco concorda com Goethe quando ele diz que «falamos demasiado — devíamos falar menos e desenhar». A artista é mesmo bastante lacónica e resume-se a si própria em quatro palavras: «Faz desenhos e coisas». A segunda exposição da Monumental tem um título retirado de um poema autobiográfico de William Wordsworth, “...quando as nuvens são pelo vento arrastadas do seu lugar favorito, onde descansam...” e usa livros em mau estado encontrados em alfarrabistas como a matéria prima, sobre cujas páginas a artista trabalhou. As duas exposições ficam patentes na Monumental até 28 de Março (Campo dos Mártires da Pátria 101). Outras sugestões: até sábado dia 7 ainda poderá ver na Fundação Carmona e Costa a exposição  ”The I Of The Beeholder” do colectivo Musa Paradisíaca, composto por Eduardo Guerra e Miguel Ferrão (Rua Soeiro Pereira Gomes, Lote 1). Para uma experiência perfeitamente diferente recomenda-se o Museu do Dinheiro, aberto em abril de 2016, distinguido em 2017 como “Melhor Museu do Ano” pela Associação Portuguesa de Museologia e que em 2019, cerca de 75 000 visitantes, interessados em saber mais sobre o dinheiro, a sua história e a sua evolução, em Portugal e no mundo. O Museu abriu agora um novo núcleo, “Compreender”, dedicado a explicar  a finalidade do Banco de Portugal, que ganhou relevância nos últimos anos pelos grandes contributos para a crise do sistema financeiro português (Largo de S. Julião).

 

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MÚSICA DARK - Pesadelos, fantasmas, espíritos errantes são os personagens recorrentes das canções de Agnes Obel, uma dinamarquesa com um estilo musical muito próprio, uma voz entre o murmurado e o sinuoso e arranjos instrumentais austeros, com larga utilização de electrónica. Obel tem feito bandas sonoras para algumas séries de televisão dinamarquesas e alemãs, como The Rain e Dark, e até jogos video, como o violento Dark Souls III: The Fire Fades Edition . O seu novo disco, “Myopia”, foi editado pela Blue Note, está disponível no Spotify e foi escrito, tocado, produzido e misturado integralmente pela própria Agnes Obel, que assegurou a voz, piano, teclas, sintetizadores e caixas de ritmos. O primeiro tema do disco dá logo o mote na forma como Obel canta e no clima sonoro que encenou e que se adensa depois. Destaque para “Island Of Doom”, “Roscian”, para a faixa-título “Myopia” e para a última faixa, “Won’t You Call Me”, onde a voz de Obel e o piano se envolvem reforçando um ambiente de mistério, que afinal, é o de todo o disco. Música de câmara pop fantasmagórica é como uma das críticas descreve este “Myopia”, o quarto disco da autora.

 

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RECEITAS & PETISCOS - Desde há bastante tempo que sigo o blogue “O Homem Que Comia Tudo”, do jornalista Ricardo Dias Felner, onde ele vai relatando as suas avaliações sobre restaurantes, petiscos ou coisas tão triviais como iogurtes de supermercado. Aí escreveu guias esclarecedores sobre, por exemplo, o bacalhau que por cá se come e anualmente atribui os prémios Cometa que têm uma extensa lista de nomeações, que vai das melhores sardinhas de conserva até à melhor sobremesa ou melhor empregado do ano. É uma lista incontornável. Agora “O Homem Que Comia Tudo” passou a livro, pela mão da Quetzal, e com o subtítulo “Aventuras culinárias, receitas e restaurantes de Portugal e do mundo”. A nota de introdução ao livro, uma citação de um dos textos de Felner, é por si só todo um episódio: “Se vou em viagem de carro e passo por um boi, começo logo a apreciar os cortes: o lombo, o acém, as abas gordas. No Oceanário toda a gente de volta dos tubarões e dos peixes coloridos e incomestíveis e a única coisa que me detém são as garoupas gordas, as douradas, os pargos”. E depois vem a contextualização da música e da comida, que é uma coisa que me toca muito - de John Cage o autor escolheu a citação “Cheguei à conclusão de que podemos aprender muito sobre música se prestarmos atenção ao cogumelo”; e, de Black Francis, dos Pixies: “ O nosso amor é arroz e feijão e banha de cavalo”. Citações à parte, o livro começa por uma cachupa, passa pelas sardinhas e carapaus e acaba na lagosta, descrita como  o insecto aquático da aristocracia”. Há avaliações de lugares, manuais de instrução para cozinhar, um guia de produtos culinários e considerações sobre a arte da restauração e da comida. Corro o risco de dizer que o livro é tão delicioso como as comidas de que fala com o maior empenho.

 

PÃO COM MANTEIGA - Hoje dedico-me ao pão - e, voltando ao livro de Ricardo Dias Felner acima citado, ele recorda a busca da perfeita baguette em Paris e elogia a baguette da padaria Isco, em Alvalade, na rua José de Esaguy 10. Claro que há outras boas padarias como a incontornável Gleba (Rua Prior do Crato 4, a Alcântara). Mas, voltemos à baguette e à geração de novas padarias que apostam em retomar a tradição da fermentação lenta. Encontrar uma baguette estaladiça é um exercício de perseverança e continuo a considerar que as baguettes são a melhor matéria prima para fazer boas sanduíches. Procurem-nas, então no Isco e já que estão em Alvalade vão ao mercado local, ali perto, e pesquisem queijo ou charcutaria do vosso agrado para rechear a baguette - naquele mercado há das melhores bancas lisboetas para esses produtos - também há bom pão regional, do pão de milho tradicional do norte do país ao pão de centeio.  Como curiosidade não resisto a recordar que a CNN considerou recentemente o pão de milho português como um dos 50 melhores pães do mundo e o da Gleba é muito bom. Se não tiver paciência de ir à Gleba ou ao Isco pode experimentar outras possibilidades. Por exemplo, um dos melhores pães alentejanos, que está disponível em vários supermercados, é produzido pela Fermentopão de Beja, tem uma massa saborosa, com o toque ázimo tradicional e é fácil de encontrar em Lisboa. Outra hipótese, de género diferente, mas também de muito boa qualidade, é o Pão da Lagoinha, produzido pela Maranata, em Palmela. São duas variedades de pão feito com recurso às receitas tradicionais das respectivas regiões, cozinhados diariamente sem recurso às massas congeladas que abundam em muitos locais. São óptimos consumidos frescos em fatias finas para petiscar com queijo, boas azeitonas ou presunto e muito bons, no dia a seguir, em fatias mais grossas, para torradas matinais - com manteiga Rainha do Pico, dos Açores, claro.

 

DIXIT - “Ninguém tira a Nuno Artur Silva o mérito de ter criado as Produções Fictícias e de ter gerido tantos talentos e tantos egos. Mas virtudes passadas não apagam vícios presentes. O equilibrismo que anda a tentar fazer desde 2015 entre cargos públicos e negócios privados não tem defesa possível.” - João Miguel Tavares

 

BACK TO BASICS - “O silêncio é a virtude dos idiotas” - Sir Francis Bacon.






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publicado às 12:56

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A GRANDE CONTRADIÇÃO - Nas últimas semanas assistimos ao anúncio, por Fernando Medina, de uma série de medidas de limitação do trânsito em zonas centrais de Lisboa. As medidas anunciadas vêm na linha das sucessivas barreiras levantadas ao trânsito automóvel com o estreitamento das vias, como na Avenida Defensores de Chaves, onde foram colocados até obstáculos que, além de dificultarem a circulação, colocam em causa a segurança, sobretudo em caso de transportes de urgência. A contradição é também evidente quando se observam obras como as que agora se desenvolvem na Rua de Campolide, onde se projecta alargar as faixas de uma via de entrada em Lisboa. O resultado será maior desconforto para os moradores locais, mais trânsito, ainda mais engarrafamentos no local - em suma mais poluição daquela que se anuncia querer combater. Os maiores problemas do trânsito em Lisboa vêm do enorme número de carros que entram na cidade porque os transportes não funcionam, não são essencialmente provocados pelos carros dos moradores locais. Com esta equipa autárquica Lisboa está a transformar-se numa cidade que é estranha aos seus: uma cidade para visitantes, que prefere não ter os habitantes que lhe deram a aura que os turistas procuram. Ao retirar a população tradicional da cidade, substituindo-a por convidados eventuais, está a derrubar-se um dos pilares de uma cidade viva: ter gente de todas as idades e classes que a habite, no seu centro, e não na periferia. O que a dupla Salgado-Medina fez, aproveitando-se da conivência do simplório e triste Zé, foi fomentar a especulação imobiliária e destruir a diversidade. Agora vivemos numa cidade-montra onde se faz tudo menos tornar a vida mais fácil aos seus habitantes tradicionais. Parece que a cidade foi esvaziada e transformada num cenário. E quem paga os seus impostos na cidade deixou de fazer parte do mapa.

 

SEMANADA - Desde há cinco meses que, por falta de condições, está suspensa a admissão de doentes para transplante de fígado no Centro Hospitalar Universitário de Coimbra; entre janeiro e novembro do ano passado foram comprados nas farmácias 670 milhões de euros de medicamentos, mais 18,5 milhões que em período idêntico do ano anterior; as burlas via sms custam aos consumidores um milhão de euros por ano; as famílias portuguesas gastaram, no ano passado, 9,7 mil milhões de euros em nas compras para casa, incluindo produtos alimentares,  um aumento de 4,8% face ao ano anterior; os portugueses gastaram 890 milhões de euros em novos telemóveis durante o ano passado; as pensões mínimas sobem 54 cêntimos por dia; foi anunciado que o Novo Banco vai pedir mais de mil milhões de euros ao Fundo de Resolução por causa dos prejuízos que registou de novo em 2019;  a Comissão de acompanhamento dos ativos tóxicos do Novo Banco está incompleta há um ano e os seus responsáveis não conseguem encontrar quem se disponibilize a ir para lá; um grupo de generais enviou uma carta ao Presidente da República alertando para “o processo de desconstrução e pré-falência com que as forças armadas se defrontam”; as mortes por enfarte, AVC ou cancro estão nos níveis mais elevados desde 2008; o Ministério da Educação tem recusado dar a listagem das escolas de onde ainda não foi removido amianto.

 

ARCO DA VELHA - A Polónia já ultrapassou Portugal em PIB por habitante, uma evolução de duas décadas, em contraste com quase 20 anos de estagnação em Portugal.

 

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A TRANSFORMAÇÃO DOS MÓVEIS - Neste fim de semana um bom número de galeristas e alguns artistas portugueses estão na ARCO Madrid. Mas por cá pode continuar a ver algumas das exposições que abriram durante o mês de Fevereiro. Comecemos por “Mais do Mesmo”, de Patrícia Garrido, na Galeria Miguel Nabinho (Rua Tenente Ferreira Durão 18). Garrido usou móveis de proveniências diversas que a artista depois cortou em pedaços criando a partir deles novas peças de várias formas, quase como a construção de um puzzle cuja imagem nada tem a ver com a do móvel original. É um campo de trabalho que Patrícia Garrido abriu há cerca de cinco anos e que já a levou a comprar recheios inteiros de casa para transformar em pedaços que criam novas peças. Há um ano, na Fundação EDP do Porto, apresentou uma dessas peças, de grande dimensão, que agora mostra pela primeira vez em Lisboa. A ideia é dar nova vida e nova forma a móveis que fizeram parte de outras vidas e a artista encara este seu trabalho como um olhar para o espaço interior que os móveis habitaram e propor, através da sua manipulação, um novo habitat. Além da peça de chão na imagem Patrícia Garrido expõe igualmente na Miguel Nabinho três pinturas. Outras sugestões: no Centro de Artes Visuais (Pátio da Inquisição 10, Coimbra) estão até 14 de Abril “Invalid Passwords” de Noé Sendas e “Unfinished Past” de Henrique Pavão. Em Lisboa, também até 14 de Abril, Hugo Brazão expõe “Out Of Sight, Out Of Mind” na Balcony, Rua Coronel Bento Roma 12. “Uma lufada de fumo na cara” é uma exposição sobre o ato de camuflar com obras de  Nicky Coutts, Theodore Ereira-Guyer, Mariana Gomes, Jorge Santos, Pedro Valdez-Cardoso e Carmela Garcia, trabalhos de desenho, gravura, xilogravura, fotografia e colagem - na Galeria Diferença, Rua S. Filipe Neri 42  Fora de portas Cecília Costa expôs na Detour,  em Beverly Hills, durante a Frieze Los Angeles. A Detour assume-se como uma plataforma sem local fixo que pretende conectar artistas, instituições e galerias para mostrar novas tendências da criação artística e que acolheu peças de Cecília Costa.

 

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CRIME HISTÓRICO - Não existem muitos romances históricos em Portugal e os poucos que têm sido publicados são essencialmente à volta de figuras de primeiro plano da História. Construir um romance, com base em factos reais, à volta do relato do julgamento e condenação de uma mulher acusada de matar crianças é a base de “A Assassina da Roda”, de Rute de Carvalho Serra , uma jurista que se tem dedicado a estudar a criminalidade em Portugal ao longo dos tempos. Desta vez dedicou-se a contar o que sucedeu em 1772 quando Luiza de Jesus foi acusada de ter assassinado 33 crianças abandonadas e expostas na roda da Misericórdia de Coimbra. O intendente Pina Manique foi o seu julgador e a decisão do tribunal foi a pena de morte -  Luiza de Jesus foi a última mulher executada em Portugal. O romance detalha os meandros da investigação e do julgamento, com os pormenores do interrogatório, violento, com as torturas permitidas à época. Toda a escrita está cheia de detalhe, mostrando como na instrução do processo pesaram os equilíbrios e ajustes do sistema judicial de então. Do romance não sai a certeza da culpa da condenada - cria-se uma dúvida que fica até ao relato da sua execução pública.

 

image.pngMÉTODO ELECTRÓNICO - A carreira de Rodrigo Leão tem sido uma sucessão de evoluções de projectos, desde os Sétima Legião em 1982, passando pelos Madredeus em 1985, até ao início da sua carreira a solo em 1993 com o disco “Ave Mundi Luminari”. Há quase quatro décadas que o trabalho de Rodrigo Leão, nas várias etapas da sua carreira, marca a música portuguesa, quase sempre inovando. Após uma ausência discográfica de cerca de três anos, depois de “A Vida Secreta das Máquinas”, “O Retiro” e “Life Is Long”, eis que surge novo trabalho, “O Método”. Não é nenhuma mudança drástica, mas é uma evolução assinalável, ao lado dos seus companheiros de sempre, Pedro Oliveira e João Eleutério. Desta vez chamou também um músico italiano, Federico Albanese, que trabalhou sobretudo nos arranjos e na utilização da electrónica, e participa em alguns temas (como o que dá o título ao disco). Além disso Albanese foi o responsável pela presença de Casper Clausen, um dinamarquês que integra os Efterlang, e que empresta a voz a uma das composições, aliás a par do próprio Albanese. A russa Viviena Tupikova, a violinista que há uns anos trabalha com Rodrigo Leão, desta vez surge também a cantar num dos temas, “O Cigarro”. Por fim Rodrigo Leão utiliza a técnica de andar para trás na gravação (reverse), para distorcer a voz da própria filha no tema “Bailarina”. De um modo geral a electrónica é mais presente que em registos anteriores, incorporando as influências de compositores como Nils Frahm, Ólafur Arnalds ou Max Richter , como o próprio Rodrigo leão Aponta. Segundo ele o trabalho que fez de ilustração musical para a exposição “Cérebro, Mais Vasto Que o Céu”, na Fundação Gulbenkian, foi um novo ponto de partida que acabou por resultar neste “O Método”, mais minimalista, mais depurado, com maior recurso à electrónica e, com uma energia renovada a que não é alheia a simplicidade de toda a sonoridade. Edição BMG, disponível no Spotify.

 

O SÁVEL - Esta época do ano é a boa altura para tomar o pulso a duas iguarias: sável e lampreia. De lampreia ainda não lhe vi o rasto e tenho algumas dúvidas sobre o que se passa com o ciclópode face à proliferação de letreiros que dizem “há lampreia” num ano em que, segundo os entendidos, as condições climatéricas não foram as melhores para a espécie. Um dia destes tentarei encontrar uma das boas e raras, que não venha congelada de paragens distantes do outro lado do oceano - e depois falaremos. Já do sável só tenho a dizer bem, os vários que provei já este ano estavam todos em boas condições. Permito-me destacar o mais recente, desta semana, no clássico Alfoz, de Alcochete. O sável veio cortado em fatias finíssimas, invulgarmente bem cortado, com uma fritura impecável, estaladiça e seca. Estava verdadeiramente fora de série, acompanhado por uma açorda de ovas que não desmereceu. Outra possibilidade teriam sido ovas de pescada grelhadas, acompanhadas de legumes salteados. Provadas as ovas revelaram-se bem no ponto e saborosas, grelhadas sem terem ficado secas. Massada de garoupa, caldeirada de línguas de bacalhau com ovo escalfado e garoupa à Bulhão Pato são outras opções. O Alfoz continua a servir bem, a ter produtos frescos e a saber prepará-los, oferecendo uma soberba vista sobre o Tejo e Lisboa. Em meia hora está-se lá e a relação qualidade-preço é muito boa. O Alfoz fica na Avenida D. Manuel I, em Alcochete, telefone 212 340 668. 

 

DIXIT - “Não deite nada fora! Mais que um arquivo a Ephemera é um movimento pela memória, logo, pela democracia”- José Pacheco Pereira no décimo aniversário da Ephemera.

 

BACK TO BASICS -  “O poder não garante inteligência” - Vasco Pulido Valente.




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publicado às 12:00

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MUDE-SE A LEI AO SABOR DO MINISTRO - Portugal tem um Ministro que pensa ser lícito e normal mudar a Lei a seu belo prazer, para que os seus objectivos sejam cumpridos sem sobressaltos. Esta semana, numa Comissão Parlamentar, o Ministro das Infraestruturas, Pedro Nuno Santos, anunciou que o enquadramento legal da certificação do aeroporto do Montijo tem que ser revisto para impedir que a Lei actual se cumpra. A Lei actual dá direito de veto a autarquias que se sintam prejudicadas pela construção de qualquer estrutura aeroportuária e há pelo menos dois municípios da região que já anunciaram que iriam recorrer a essa Lei. A construção do novo aeroporto do Montijo tem levantado polémicas ambientais e de segurança mas, apesar disso, o Governo quer cumprir o negócio, cadas vez mais suspeito, que fez com a empresa concessionária dos aeroportos nacionais. Com as atenções focadas no debate sobre a eutanásia as declarações de Pedro Nuno Santos passaram meio despercebidas. Mas são graves: mostram que um membro deste Governo pode ignorar a Lei vigente e fazê-la à medida dos seus interesses. Talvez alguma alma caridosa possa explicar a este ambicioso político do PS que o expediente de mudar a Lei para um Governo fazer o que quer é coisa típica de ditadores, é um acto de desrespeito para com a democracia e para com os cidadãos. Com Ministros assim não se pode dormir descansado. Pedro Nuno Santos, que tem feito um bom trabalho na ferrovia, esteve mal neste caso. Muito mal. Convinha que dentro do PS alguém lhe explicasse que convém respeitar a Lei em vez de a mudar porque dá jeito.

 

SEMANADA - Portugueses apostam por dia 9,5 milhões de euros em jogos online; dez antigos gestores bancários, de Ricardo Salgado a Oliveira e Costa, passando por Tomás Correia, acumulam coimas de quase 17 milhões lançadas por supervisores como o Banco de Portugal ou a CMVM;  nos últimos seis anos, o Banco de Portugal lançou coimas de mais de 49 milhões e a CMVM quase 17 milhões, mas estas coimas tendem a arrastar-se em tribunal e acabam muitas vezes na prescrição; a gestão de Tomás Correia no Banco Montepio já levou o supervisor a aplicar coimas no valor de quase nove milhões de euros; em 2019 os portugueses endividaram-se a um ritmo de 20,8 milhões de euros por dia em crédito pessoal, compra de automóvel, cartões de crédito e contas a descoberto num total anual de 7,6 mil milhões de euros, o que constitui um novo recorde; as operações financeiras suspensas por suspeitas de branqueamento triplicaram em 2019 e congelaram em Portugal 2,5 mil milhões de euros; o INEM forneceu máscaras danificadas para as equipas de emergência que atendem casos de suspeita de coronavírus; o Tribunal da Relação de Lisboa proferiu uma sentença onde se aceita que possam ser proferidos insultos contra intervenientes num jogo de futebol; um deputado do PS pediu imunidade parlamentar num processo em que é acusado de insultar um árbitro de uma prova de pesca.

 

ARCO DA VELHA -  O secretário de estado das comunicações, Alberto Souto de Miranda, escreveu um artigo em defesa do aeroporto do Montijo onde, relativamente às dúvidas sobre a preservação da fauna animal no estuário do Tejo, afirma: “os pássaros não são estúpidos e é provável que se adaptem”.

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O LABIRINTO E AS CIDADES NO MUSEU BERARDO - Desde a semana passada a arquitectura das galerias do piso -1 do Museu Berardo transformou-se de forma radical. Joana Escoval optou por tratar o espaço como parte da obra em “Mutações, The Last Poet”, a sua exposição que lá estará patente até 19 de Abril, com curadoria de Pedro Lapa. Estou a falar de uma instalação quase labiríntica que se desenvolve numa série de curvas orgânicas onde se vão fazendo descobertas. É como se o visitante percorresse o interior de um organismo vivo onde de repente surgem esculturas, videos, sons, sugestões de desenhos através de fios metálicos ou fotografias. Joana Escoval, 38 anos e expõe desde 2010, tendo feito residências artísticas em vários países. Aqui, numa surpreendente e inesperada exposição, explora o movimento constante de transformação das ideias e formas - daí as Mutações. Ao mesmo tempo, também no Museu Berardo, está patente uma exposição de fotografia de Andreas H. Bitesnich, “Deeper Shades, Lisboa e Outras Cidades”, comissariada por João Miguel Barros. A exposição é o resultado da  residência artística de Andreas H. Bitesnich em Lisboa, em 2019,  e integra a série Deeper Shades: retratos de grandes cidades vistas pelo artista nas últimas três décadas (na imagem). Apesar de o núcleo principal estar centrado em Lisboa, incluem-se ainda imagens dos seus projetos anteriores (Nova Iorque, Tóquio, Paris, Viena e Berlim). Andreas H. Bitesnich combina a fotografia de rua com fotografia de estúdio, oscilando entre o imaginado e o construído. Sábado 22, pelas 16h00, há uma visita guiada à exposição com a participação do autor e do curador.

 

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COUNTRY GREGORIANO - A norte-americana Mackenzie Scott fez três discos para  a etiqueta 4AD e foi despedida. Entrou numa crise criativa e depois de um interregno longo saíu-se com um disco magnífico. Como é seu hábito foi composto, tocado e cantado por ela - mas neste caso com a produção musical ficou também a seu cargo. Assina com o nome Torres, e o disco “Silver Tongues”, lançado recentemente está disponível no Spotify e é uma das minhas descobertas recentes. Musicalmente Torres está algures entre o country contemporâneo e o rock independente, há influências de Anna Calvi ou P.J.Harvey (o que não é espantar porque num dos discos anteriores Mackenzie trabalhou com o mesmo produtor) e nas letras e conceito geral há toques que vão de Ray Bradbury a Kurt Cobain.  E, calcule-se, influências do canto gregoriano - daí a própria dizer que este é um disco “country-gregorian”. O álbum anterior tinha sido editado em 2017 e a sua carreira discográfica, que começou em 2013. é caracterizada por uma sonoridade dura, com a sua guitarra e percussões frequentemente em primeiro plano. O tema do álbum é a estabilidade que Scott sente que o amor lhe proporciona - o disco tem um lado autobiográfico, respeitante à sua relação com a namorada, a artista Jenna Gribbon. No novo disco há menos tensão e dramatismo nos anteriores. “Silver Tongues” é o seu trabalho mais intimista. Destaque para os temas “Good Scare”, “Last Forest” “Dressing America” e o acústico e envolvente “Gracios Day”.

 

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LIÇÕES DA INDÚSTRIA DA MÚSICA - Quando a Apple lançou o primeiro iPod, em 2001, começou a grande reviravolta da indústria discográfica e musical. Ao longo das últimas duas décadas assistimos ao desenvolvimento de uma nova forma de possuir e ouvir música, que culminou com o surgimento do Spotify em 2008 e que desde aí se tem desenvolvido e alargado. A venda de CD’s caíu drasticamente, o modelo de negócio de artistas, produtores de espectáculos e editores discográficos mudou radicalmente. Alan B. Krueger foi um economista americano e esta é a sua derradeira obra, já que ele morreu no ano passado, pouco depois da sua edição. Foi economista-chefe do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos entre 2009 e 2010 e presidiu ao Conselho Económico do Presidente Barack Obama entre  2011 e 2013. Era um apreciador esclarecido e reconhecido de música rock, que fazia parte do seu dia a dia. “Rockonomics” é o livro onde Krueger fala sobre o que a indústria da música nos pode ensinar sobre economia e sobre a vida. Para fazer a interpretação das alterações ocorridas, Krueger realizou entrevistas com músicos, executivos de editoras, agentes de artistas e promotores de concertos e a dados recentes sobre colecta de direitos de autor, receitas de streaming e vendas de merchandise, por exemplo. No livro estão as respostas do autor a questões como estas: como é que uma canção se torna popular? Como pode um novo artista nesta nova economia e paisagem audiovisual? Como podem os músicos e demais trabalhadores ganhar a vida na economia digital? . Nas páginas finais do livro, Krueger reconhece que a música teve um impacto profundo na sua vida e este livro é testemunho disso mesmo. Edição Temas & Debates, do Círculo de Leitores.

 

PETISCOS MOÇAMBICANOS - Uma das boas coisas de Lisboa é que cada vez tem mais restaurantes que representam vários países. Longe vão os tempos em que existiam apenas os chineses, italianos ou os indianos. Já houve algumas tentativas africanas bem conseguidas - e até duas ou três moçambicanas. Mas agora, em plenas Avenidas Novas, surgiu o Chiveve, que neste momento deve ser o expoente da gastronomia de Moçambique em Lisboa. À sua frente está um casal, Edner Abreu a comandar as operações na sala e na cave dos vinhos e a sua mulher, Sheila Abreu, na cozinha.  Há um menu executivo ao almoço, ao competitivo preço de oito euros, com um prato de origem moçambicana e outro português. Mas é na lista do menu que surgem as propostas mais interessantes. Começo por destacar as chamussas de carne, absolutamente impecáveis. Depois surpreendi-me com o caril de camarão com quiabos, tempero no ponto, a evitar abafar o sabor dos camarões, tudo acompanhado de um bom arroz basmati. Ficou para outro dia provar o caril de caranguejo desfiado ou o matapá de peito de caranguejo, com o bicho a ser importado de moçambique - de onde vem também a cerveja que o pode acompanhar. O caril de peixe e gambas é uma receita tradicional, bem conseguida. Como bem conseguido - e elogiado por conhecedores - é o frango à zambeziana, receita clássica, com um piri piri caseiro e enérgico à disposição. Foi provado um bom branco alentejano, o Etc da Herdade do Álamo, feito pela mão de Filipe Sevinate Pinto com uvas das castas Roupeiro, Arinto e Antão Vaz. A sala é confortável, bom serviço, bom ambiente e um busto em bronze de Eusébio a recordar o grande embaixador do futebol moçambicano. O nome do restaurante vem do rio que banha a cidade da Beira e o Chiveve fica na Rua Filipe Folque 19, telefone 218036347.

 

DIXIT - «Convém socializarmos um bocadinho menos, termos alguma distância social, não nos beijarmos tanto, não nos abraçarmos tanto» -  Graça Freitas, Diretora Geral da Saúde.

 

BACK TO BASICS - “Se ensinares, ensina ao mesmo tempo a duvidar daquilo que estás a ensinar” - Jose Ortega Y Gasset

 





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UM CONGRESSO VIRADO PARA O PASSADO - Na semana passado o PSD fez o seu primeiro Congresso após uma grave derrota eleitoral, num panorama de aumento da abstenção, de descrédito generalizado no sistema político e partidário. Quem tivesse ouvido os dirigentes actuais do PSD acharia no entanto que estava tudo bem. Poucas intervenções tiveram a coragem de olhar para a cúpula social-democrata para dizerem: o Rei vai nu (ou o Rio vai seco)... Ironia à parte, a verdade é que faltou uma reflexão séria e organizada pelos poderes vigentes sobre o que provocou a derrota e o que faz com que o PSD tenha cada vez menos votos nas grandes cidades e nos eleitores mais jovens. A intervenção mais incisiva sobre estas matérias foi de José Eduardo Martins que chamou a atenção para a incapacidade demonstrada pelo seu partido em compreender como os tempos têm mudado, quais as aspirações dos eleitores mais novos, o que fazer para conquistar abstencionistas. Dei por mim a ouvir a sua intervenção (curta, sete minutos, disponível no YouTube) e a pensar que José Eduardo Martins é na verdade o líder que o PSD precisava para, como ele afirmou, deixar de “estar entalado entre uma direita reaccionária e uma esquerda folclórica”, desenvolvendo um programa que combata na sociedade “as desigualdades que fazem as pessoas fugirem cada vez mais para os extremos”. José Eduardo Martins não é no entanto um conspirador aparelhístico, é um adepto do reformismo na sociedade e no sistema político e tem ideias claras que exprime de maneira frontal. Isto num partido onde o aparelhismo é premiado transforma-se num problema. Como ele disse, “as pessoas deixaram de votar no PSD porque deixámos de acompanhar os tempos”. Ou o sistema muda, ou tudo vai ter tendência a piorar.

 

SEMANADA - Os empréstimos para compra de casa concedidos em 2019 foram os maiores dos últimos 10 anos e totalizaram 11,6 mil milhões de euros; o preço das casas subiu em dez anos 4,5 vezes mais do que os salários; arrendar uma casa em Lisboa exige uma taxa de esforço na ordem dos 58%, mais do que em Barcelona ou Berlim; nos últimos quatro anos o Governo cumpriu apenas 11% do plano Ferrovia 2020; em Portugal foram importados no ano passado cerca de 80 mil veículos usados a diesel com uma média de idade de 5,5 anos; a idade média dos automóveis ligeiros era de 12,7 anos no final do ano passado; em 2019 ocorreram em Portugal mais mortes que nascimentos pelo 11º ano consecutivo; no ano passado foram recebidas 676 denúncias de pornografia infantil: o tribunal da relação de Coimbra permitiu o regresso ao activo de um comandante da GNR condenado por aliciar uma menor com mensagens eróticas; segundo a Marktest o número de utilizadores de Internet em Portugal é 6 milhões e 387 mil, o que corresponde a 74.6% da população e desde 1997  a percentagem de utilizadores de Internet aumentou quase 12 vezes; também segundo a Marktest há cerca de 5 milhões de ouvintes regulares de rádio, o que corresponde a um crescimento de 5% nos últimos dez anos e entre as classes sociais, foi na média alta que se observou maior incremento de ouvintes.

 

ARCO DA VELHA - Segundo especialistas da área dos transportes e aviação o comprimento mínimo de segurança da pista de um aeroporto deverá ser de 2450 metros e a pista prevista para o Montijo tem um máximo possível de 2140 metros não podendo ser aumentada.

 

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IMAGENS DO FUTURO - Gabriel Abrantes é um caso raro entre os criadores portugueses: as suas raízes estão no cinema, mas faz coexistir as imagens em movimento com pinturas, ilustrações e aguarelas, explorando diversas técnicas. A sua carreira está marcada por curtas-metragens que mostraram um sentido de observação e humor pouco frequentes, várias delas premiadas internacionalmente. O seu trabalho cinematográfico caracteriza-se por se basear numa forma de narrativa inesperada que recorre ao absurdo, ao humor e à observação social e política. Ganhou notoriedade com o filme de longa-metragem “Diamantino”, de 2018, sobre uma das estrelas do futebol português,  mas a sua carreira no cinema começou com uma curta-metragem em 2006, tinha 22 anos. Abrantes nasceu nos Estados Unidos em 1984, estudou arte em Nova Iorque e Paris. Esta semana abriu no MAAT “Melancolia Programada”, onde Abrantes faz coexistir os seus trabalhos enquanto artista plástico com os seus filmes. A exposição abre com uma série de aguarelas, intimistas e autobiográficas, e prossegue com seis ambientes distintos, cada um construído em torno de um dos seus filmes e ainda outra sala onde está a pintura “As Banhistas”. As novas pinturas do artista são realizadas a partir de imagens geradas por programas de animação digital, e mostram a forma como está a trabalhar na intersecção entre animação digital 3D, inteligência artificial e referências da história da arte. Na exposição do MAAT podem ser vistos vários filmes, desde logo o recente, “Les Extraordinaires Mésaventures de la Jeune Fille de Pierre” que, como voz amiga comentava, é um “nonsense que faz sentido” . Um dos pontos altos do percurso da exposição é a instalação criada para a exibição de “Visionary Iraq”, uma curta de 2008. Outro filme em exibição é Too Many Daddies, Mommies and Babies (2009), que lhe valeu o Prémio Novos Artistas da Fundação EDP. A exposição, com curadoria de Inês Grosso, fica até 18 de Maio e é uma das melhores mostras que o MAAT tem organizado. “Melancolia Programada” está na Central Tejo onde também poderá ver “Unharias Ratóricas” da dupla Von Calhau.

 

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CORPOS IMPREVISTOS - Nádia Duvall tem-se afirmado como uma das mais interessantes novas artistas portuguesas e em 2019 foi uma das vencedoras do prémio internacional Jovem Criação Europeia. Expõe desde 2006 e tem desenvolvido uma linha de trabalho em constante evolução, mas mantendo uma coerência que a leva a desenvolver a exploração de novas técnicas no seu trabalho. Por estes dias apresenta “undressed machine” no  Espaço Cultural das Mercês, Rua Cecílio de Sousa 94, junto ao jardim do Príncipe Real. Esta é uma exposição onde combina o desenho com a pintura, a escultura, a fotografia, a performance e o vídeo, em torno da ideia do corpo e das próteses a que pode recorrer para renascer - o corpo e a sua mutação têm sido um dos territórios recorrentes de trabalho de Nádia Duvall. Aqui a narrativa combina histórias de amor com histórias de guerra e as transformações a que ambas sujeitam o corpo, dando espaço à sua redenção e à sobrevivência. A obra de Nádia Duvall é carregada de referências míticas, de reflexões autobiográficas e da permanente afirmação de um percurso criativo de ruptura e provocação. Outras sugestões da semana: na Galeria Belo Galsterer (Rua Castilho 71 r/c esq)  Rita Gaspar Vieira apresenta “Com A Mão Cheia de Pó” e Pedro Boese apresenta duas séries de gravura sob a designação “In A Row”.

 

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EPISÓDIOS MARXISTAS - Livros que contem histórias de bastidores e relatos sobre o que é a vida interna do PCP não são muito frequentes. Domingos Lopes, advogado, membro do gabinete de Álvaro Cunhal quando o líder comunista foi Ministro de Estado nos governos pós 25 de Abril, publicou agora as suas “Memórias Escolhidas”,  numa edição da Guerra & Paz. No livro relata as lutas académicas de Coimbra e Lisboa, o seu percurso na União dos Estudantes Comunistas, o trabalho no gabinete de Álvaro Cunhal, as suas responsabilidades políticas no Comité Central do partido até às divergências que o levaram a abandonar o PC em 2009. Ao longo de duas centenas de páginas relata vários episódios, a sua vida como funcionário partidário, visitas à Coreia do Norte, à Mongólia e a Nova Iorque no âmbito do seu trabalho na Secção Internacional do PC - “por todo o mundo andei com o ideal às costas”, como afirma. Há muitas pequenas histórias inéditas e uma das mais curiosas reporta-se aos incidentes na Faculdade de Direito de Lisboa que levaram ao saneamento de Cavaleiro Ferreira. Domingos Lopes conta com detalhe o clima de tensão entre os militantes do MRPP, que tinham peso na Faculdade, e os do PCP. Visto a esta distância, o relato do episódio faz sorrir mas é um bom retrato das diferenças existentes. Este capítulo do livro termina com a evocação de uma conversa entre o então estudante Domingos Lopes, da UEC , e o assistente Marcelo Rebelo de Sousa: “O que é que ele tinha para me dizer? uma coisa muito simples, ele estava totalmente do nosso lado, o que nos separava era o leninismo, considerava-se apenas marxista. Fiquei espantado com o desabafo e a rápida conversão de Marcelo ao marxismo”, conta Domingos Lopes. E remata: “Este pequeníssimo episódio diz muito acerca das capacidades de manobra do então futuro Presidente da República. Marcelo, já em 1974, tinha no seu ADN esta faceta de ser o que é preciso em cada momento para surfar sem ir ao fundo, mesmo renegando o que era”.

 

TENDÊNCIAS SONORAS - A revista The Economist analisou recentemente os dados do Spotify, o mais popular serviço de streaming de música sobre as preferências dos seus utilizadores. Actualmente o Spotify tem disponíveis 50 milhões de títulos para os seus 270 milhões de utilizadores em 70 países, a maior parte dos quais na Europa e no continente americano. O sistema tem um algoritmo que analisa a sensação de energia e disposição provocada pela música numa escala de um a cem. Por exemplo “Respect” de Aretha Franklin tem uma classificação de 97 e “Creep” dos Radiohead não passa dos 10. A Economist analisou os dados e chegou à conclusão que Fevereiro é o mês em que os utilizadores do Spotify procuram canções mais tristes e Julho o mês em que as canções mais enérgicas e dançáveis são as mais procuradas. O algoritmo considera por exemplo que “Make Me Feel My Love”, de Adele, está na zona mais tristonha, que “Bridge Over Troubled Water”, de Simon & Garfunkel, fica numa zona de melancolia e que “I Put A Spell On You”, de Nina Simone, está na transição para a energia. “Lucy In The Sky With Diamonds” é claramente vista de forma positiva, mas superada a grande distância em matéria de indução de boa disposição por “Shake It Off” , de Taylor Swift. Os países latinos são aqueles onde a música alegre é mais procurada em qualquer estação do ano e Hong Kong, Filipinas, Estados Unidos e Noruega lideram a música mais melancólica.

 

DIXIT - “A Irlanda votou contra a austeridade que deteriora os serviços públicos, principalmente a saúde. A surpresa que aconteceu lá pode repetir-se em Portugal. PS e PSD que se cuidem “ - André Abrantes do Amaral

 

BACK TO BASICS - Fazer coisas simples é muito complicado - Martin Scorsese

 

 





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O IVA QUE DEU CHOQUE

por falcao, em 07.02.20

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TRABALHOS PARLAMENTARES  - O episódio da guerra sobre o IVA da electricidade trouxe para primeiro plano o que é a realidade política de hoje em Portugal: mesmo quando parece existir convergência de objectivos, os partidos das diversas matizes são depois incapazes de se entenderem em termos práticos e de abdicarem dos pequenos interesses tácticos de cada um. Mas o recente debate parlamentar sobre o Orçamento de Estado teve alguns outros pontos curiosos. Um deles foi o rol de promessas em diversas áreas, entre as quais baixar impostos em 2021. Depois, o mais destacado elemento  da tropa de choque do PS para crises políticas, Carlos César, veio deixar no ar a possibilidade de o Governo se demitir caso o Orçamento fosse desvirtuado. No ar ficou a ideia de que o PS pode mesmo estar disposto a ir a eleições antes do final da legislatura. As promessas visam claramente combater a pequena queda registada pelo PS, e Costa acredita ser possível federar alguns votos resultantes da implosão do Livre e do desgaste do PCP; além disso a grande tentação de António Costa é apostar numa fragmentação maior do espectro à direita, com o Chega a subir, tornando as contas futuras de Rui Rio mais confusas. Um tal cenário futuro possibilitaria ao PS acordos pontuais à esquerda e ao centro direita, facilitando ao mesmo tempo uma renovação do elenco governamental, nomeadamente por causa do factor Centeno. A propósito fica registada uma sibilina sugestão do Presidente da República, que começou a fazer circular a ideia de que o calendário eleitoral ideal para futuras legislativas devia ser antecipado para antes de verão, de forma a evitar que a campanha seja contaminada pelo espectro do orçamento... Será que em 2021 teremos duas eleições em vez de acontecerem apenas as autárquicas?

 

SEMANADA - Em nome do ambiente Medina anunciou a proibição de circulação de automóveis na Baixa lisboeta; por falar em ambiente o ecosistema de 200 mil aves que vivem no estuário do Tejo vai ser profundamente afectado pelo aeroporto do Montijo; ainda sobre ambiente  a poluição provocada por navios é equivalente à causada pelos automóveis nas oito cidades portuguesas com mais carros; na costa portuguesa, as emissões dos navios de cruzeiro foram 86 vezes superiores às dos carros que circularam pelas estradas nacionais.e Lisboa é a sexta cidade europeia mais poluída por paquetes turísticos; em 2018 Portugal só reciclou 12% do plástico que consumiu; em 2018 Portugal recebeu 330 mil toneladas de resíduos perigosos; Azeredo Lopes admitiu em Tribunal ter desvalorizado informações relevantes sobre o roubo de armas em Tancos; em 2019 a Polícia Judiciária fez 50 apreensões de obras de arte falsas de artistas portugueses; 944 pessoas foram detidas em 2019 por violência doméstica; a dívida pública portuguesa voltou a aumentar em 2019 situando-se agora perto dos 250 mil milhões de euros; a Procuradora Geral da República avisou que o seu novo departamento que visa proteger consumidores, a saúde pública, o ambiente, o património cultural e o ordenamento do território nasceu com falta de meios humanos; a proposta de acabar com as isenções fiscais dos partidos políticos, apresentada pela Iniciativa Liberal, foi chumbada pelo PS, PSD e PCP.

 

ARCO DA VELHA - O Banco de Portugal não conseguiu, durante quase três anos, entregar a notificação de várias contra-ordenações ao ex Presidente do Montepio, Tomás Correia, e acabou por ter de fazer as acusações em Edital publicado esta semana na imprensa.

 

GRAVURAS E CERÂMICAS - Nos últimos tempos têm-se realizado diversas exposições que procuram proporcionar o acesso alargado a obras de artistas que não estamos habituados a ver expostos em Portugal. Algumas dessas exposições são organizadas por entidades privadas cuja actividade é promover mostras alargadas que circulam em diversos países, como aconteceu recentemente com as exposições de Escher e de Henri Cartier-Bresson, realizadas em Lisboa e no Porto. Por outro lado entidades ligadas a autarquias, como o Centro Cultural de Cascais ou o Palácio Anjos, em Algés, entraram no roteiro de circulação de exposições internacionais que disponibilizam com acesso gratuito. Em Cascais, por exemplo, realizaram-se mostras de fotografias de Norman Parkinson e de Herb Ritts, nunca antes exibidas em Portugal. E agora, no Palácio Anjos, o Município de Oeiras promoveu a exposição “Picasso, Mestre Universal” que inclui 66 obras de pintura, cerâmica e litografias provenientes de colecções particulares. A exposição, que é de entrada gratuita e estará patente até 30 de Abril mostra peças como a primeira série gráfica de Picasso, a “Suite dos Saltimbancos”, iniciada em 1904 até um exemplar da sua última produção em cerâmica, de Março de 1971 finalizada dois meses antes da morte do artista - a cerâmica foi aliás o suporte mais trabalhado por Picasso nos seus últimos anos de vida. Outra das obras é a série de litografias “Suite Sable Mouvant”, de que aqui se reproduz uma das imagens. Outra sugestão: a série de fotografias “Trinus”, de Cláudio Garrudo, o resultado de uma experiência de viagem a bordo de um navio cargueiro, volta ser exibida, com imagens inédita, na Casa da América Latina (Avenida da Índia 110), até 27 de Fevereiro, por ocasião dos 500 anos da viagem de Fernão de Magalhães.

 

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CANÇÕES DA BALEIA BRANCA - Jaime Fernandes, um amigo que já partiu, e que foi um dos grandes homens da rádio e da televisão em Portugal, ensinou-me a descobrir e a gostar da música country, numa época em que muitos desconsideravam esse género musical. Nos seus programas de rádio dedicados à country e em numerosas conversas o Jaime foi alargando os meus conhecimentos sobre a matéria. Lembro-me do dia em que me falou de Terry Allen e de um dos seus primeiros trabalhos, o magnífico  “Lubbock (On Everything)”. Ao longo da sua carreira Allen já gravou mais de uma dezena de discos de originais, três deles neste século. “Just Like Moby Dick”, é o mais recente e acabou de sair (está disponível no Spotify). O álbum foi gravado em Austin com um grupo de músicos bem conhecidos da área da country e com produção de Charlie Sexton, ele próprio uma lenda musical. A voz grave e quente de Terry Allen percorre histórias por vezes fantásticas, frequentemente irónicas, numa sucessão de episódios que só acidentalmente evocam o Moby Dick de Melville com um fino humor. Allen, que é também um artista plástico reconhecido, fez incluir nos vários formatos da edição desenhos que fez a propósito das suas canções e dos personagens que as habitam. Uma das novidades do disco é a voz de Shannon McNally, sempre presente, e que além de cantar com Allen, faz um dueto fantástico com Sexton. A qualidade de Shannon é bem comprovada no tema em que a sua voz mais se destaca, “All These Blues Go Walkin´By”. Outra novidade é o facto de cinco das canções serem compostas em co-autoria com vários músicos da Panhandle Mistery Band, que o acompanham ao longo dos 12 temas. este Moby Dick é um encanto. Já há quem diga que é o melhor trabalho de sempre de Terry Allen.

 

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O MISTÉRIO DO BARCO VAZIO - A cidade de Lisboa é o ponto de partida de uma das mais brilhantes histórias de mistério que li nos últimos tempos. Em boa verdade eu é que andei distraído - a primeira edição portuguesa data de 2016 e teve então o título de “O Silêncio do Mar”. Este livro, da islandesa Yrsa Sigurdardóttir, uma das grandes escritoras policiais contemporâneas, foi agora reeditado com o título “Lisboa Reykjavik”, numa tradução de Miguel Freitas da Costa. A história é um autêntico mistério - um iate de luxo que havia zarpado de Lisboa com tripulação e uma família como passageira, chega a Reykjavik sem ninguém a bordo. Tudo se passa no período da grave crise financeira que atingiu a Islândia - o barco pertencia a um milionário cujas empresas faliram e os seus bens foram arrestados pelos credores. O iate estava a ser levado de volta à Islândia por ordem de um banco quando de repente os seus ocupantes desapareceram. O livro tem uma escrita sempre em dois planos temporais - o relato da viagem e o relato das investigações que se sucederam ao desaparecimento das pessoas que seguiam no barco. Cada capítulo alterna a narrativa, num ritmo envolvente. A autora, Yrsa Sigurdardóttir vive com a família em Reykjavík, é diretora de uma das maiores empresas de engenharia da Islândia e tem já uma extensa obra publicada onde a luta entre o bem e o mal é uma peça central e onde os conflitos da sociedade e os ódios que geram são uma constante. 

 

MASSA MUITO CASEIRA - Um dos mais interessantes restaurantes italianos de Lisboa, o Ruvida,  comemorou agora um ano de vida. Tem uma esplanada acolhedora e uma sala que tem o benefício de lá se poder seguir o processo de preparação da massa artesanal utilizada no restaurante. Há um menu almoço a 16 euros que muda todos os dias e uma lista com propostas bem variadas, incluindo uma secção dedicada a pratos confecionados com produtos da estação. E é essa a que prefiro. Mas comecemos pelas entradas onde destaco a  mousse de mortadela, ricotta de ovelha, parmesão e pistácio. No Ruvida tudo é feito à mão, sem usar máquinas e o único utensílio utilizado para estender a massa é o tradicional rolo de madeira. Nesta altura do ano, na secção “le proposte del momento” surgem três pratos de pasta de diferentes formatos: passatelli in brodo (massa feita com parmesão, pão ralado e ovos) cozinhada num caldo de vaca e frango capão; outra possibilidade é triangoli di patate su veluttata di funghi di stagione - aqui os triângulos de massa são recheados de batata e azeite aromatizado com louro, sobre um creme aveludado de cogumelos; e, por fim, a minha escolha, que foi gargati ricchi al consiero, uma receita do norte de Itália, da região de Vincenza, que leva uma pasta em forma de macarrões, mas mais curtos, finos e quase maciços, que agarram muito bem o sabor de quatro carnes diferentes,salteadas em banha, e cozinhada com ervilhas tortas, brócolos e abundante salsa picada. O Ruvida fica na Praça da Armada 17 e tem o telefone 213950977.

 

DIXIT - “Em democracia, os políticos não mudam de povo. Mas o povo muda de políticos. Não têm notado o que se passa na Europa, no Brasil e nos Estados Unidos? “ - João Marques de Almeida

 

BACK TO BASICS - “A aventura consiste em recomeçar sempre de novo, sem nunca olhar para trás” - Corto Maltese



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BRUMAS POLÍTICAS - Vive-se de novo um período de sebastianismo em Portugal, no lado direito do espectro partidário. O efeito combinado da ascensão de novos partidos e da falta de rumo dos históricos criou um vácuo político. Não há-de ser por acaso que uma sondagem revelada esta semana atribui ao Chega a mesma votação que à CDU, ultrapassando pelo caminho o CDS que, ainda por cima, também ficou atrás da Iniciativa Liberal na mesma sondagem. Com as novas lideranças do PSD e CDS a verdade é que o PS pode dormir descansado - basta-lhe gerir as alianças orçamentais com os dissidentes ilhéus do PSD Madeira e os desejos do Bloco de Esquerda, sempre permeável a uma negociaçãozita. No caso do CDS, a vitória de Francisco Rodrigues dos Santos é o comprimido de que Rui Rio precisava para poder dormir descansado. À direita não haverá unidade, o CDS tornou-se persona non grata para o PSD. Na ânsia de se demarcar dos social-democratas o CDS iniciou um caminho que o pode levar a ficar com o Chega como único protagonista possível de um acordo político - autárquico, por exemplo. A situação proporciona ainda um outro cenário a António Costa - o de, no futuro, se necessário, escolher entre dar guarida governamental ao PSD ou ao Bloco, dependendo do momento e dos interesses em jogo. No meio da crise da direita o PS conseguiu tornar-se na charneira do regime e agora pode comandar o barco pela trajectória que lhe aprouver. Fará cedências, claro, dependendo de quem escolher para o noivado. Na realidade no início deste novo ano separaram-se as águas da política nacional e afirmou-se uma nova realidade: há uma direita que está orfã, não se revê nas lideranças actuais, há toda uma base de eleitores do PSD que perdeu referências e não se revê em Rio nem em nenhuma das suas alternativas à direita. Provavelmente as autárquicas vão ser o laboratório das coligações futuras e em Belém Marcelo espreita com inquietação a paisagem que se desenhou, entre a bruma do Tejo.


SEMANADA - Em 2019 verificou-se um aumento de famílias sobre-endividadas que pediram auxílio à DECO; o Tribunal de Contas proibiu alguns hospitais de fazerem compras de medicamentos para o cancro, HIV e algumas doenças raras alegando incumprimento de regras orçamentais; Victor Reis, ex-presidente do Instituto de Habitação e Reabilitação Urbana, recordou que Fernando Medina prometeu sete mil fogos de renda acessível para este mandato e ainda não apresentou nenhum; Lisboa é a cidade com pior trânsito da península ibérica;  na actual legislatura o Governo, que se gaba de ter o combate às alterações climáticas como prioridade, anunciou estar a estudar fazer um novo aeroporto civil na base de Monte Real , além do já anunciado para o Montijo; segundo a OCDE nos últimos quatro anos o número de sem abrigo em Portugal aumentou 157%; no último ano duplicou o número de adeptos de futebol proibidos de entrar em estádios por estarem envolvidos em incidentes violentos; as queixas por violência doméstica à PSP e GNR subiram 11,5% em 2019; o juiz Neto de Moura, que ganhou má fama num caso em que justificou o uso de violência doméstica citando a Bíblia e o Código Penal de 1886, passou a assinar as suas decisões como Joaquim Moura para tentar evitar ser reconhecido.

 

ARCO DA VELHA - Os partidos parlamentares fizeram 1272 propostas de alteração ao Orçamento de Estado mas nesta era de contas certas ninguém sabe dizer quanto custam as medidas e alterações propostas.

 

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MEMÓRIAS FOTOGRÁFICAS - “Aos Meus Amores 2.0”, de Álvaro Rosendo, é uma viagem fotográfica às últimas décadas do século passado, centrada na observação privilegiada  do autor, Álvaro Rosendo, em torno da música e em jornais, e na explosão de criatividade em Lisboa nessa época, acompanhando bandas como os Xutos & Pontapés ou os Heróis do Mar, artistas plásticos como Pedro Cabrita Reis, ou vivendo nas redacções do Blitz, Se7e,  Independente e Já. Logo na entrada, na parede frente à porta da Galeria Cisterna, está uma selecção de fotos que evocam esse passado, entre elas pelo menos uma, dos Xutos, que esteve na primeira versão de “Aos Meus Amores”, a primeira exposição a solo de Álvaro Rosendo no início da Galeria Monumental, no final dos anos 80, onde anos depois desenvolveu o projecto pioneiro da escola de fotografia Maumaus. Passada a zona de entrada entra-se na sala abobadada da cisterna onde estão expostas de cada lado da parede cerca de seis centenas de fotografias dos anos 80 e 90, em pequenas impressões a preto e branco e uma grande fotografia colorida já fruto de trabalhos pessoais do autor, mais tarde (na imagem). A exposição levou à recuperação e digitalização de milhares de fotografias, num trabalho de arquivo e curadoria (de Luis Gouveia Monteiro) exemplares. A exposição fica até 29 de Fevereiro, a Cisterna é na Rua António Maria Cardoso 27 e está aberta de terça a sábado entre as 11 e as 19. Nos dias 1, 8, 15, 22 e 29 de Fevereiro Álvaro Rosendo dinamiza ele próprio visitas guiadas à exposição às 15 e 17 horas.

 

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CANÇÕES TRANQUILAS - O primeiro disco de Bill Fay, um cantor e compositor inglês, data de 1970. O segundo disco data do ano seguinte e, depois, há um interregno de edição até 2005. Durante estes anos Bill Fay continuou a compôr e a gravar e em 2005 foi editada uma compilação de originais inéditos datados do final dos anos 70 e início dos anos 80. Depois, novo interregno até 2012, durante o qual foi crescendo um culto em torno das canções simples e arranjos depurados de Bill Fay, da forma como canta as palavras, carregadas de melancolia. Um novo álbum foi editado em 2015 e, agora, acabou de ser publicado novo trabalho, “Countless Branches”, com 10 canções inéditas que reflectem as suas preocupações sobre a situação do mundo. Há uma edição especial que inclui sete faixas bonus, com registos alternativos, alguns com a intervenção de uma banda de suporte em vez das versões acústicas do disco original que têm apenas Fay ao piano, uma característica da sua sonoridade. A maioria das críticas considera que este novo disco é o melhor de toda a carreira de Billy Fay, que agora está com 77 anos. O disco é curto, na sua versão original tem 27 minutos de duração e várias canções marcantes. Uma das causas mais evidentes para o renascer de interesse em torno da obra de Billy Fay vem da admiração que outros artistas têm por ele, nomeadamente os Wilco, que fizeram uma versão do tema “Be Not So Fearful” para o documentário video que produziram em 2002 intitulado “I Am Trying To Break Your Ear”. Neste “Countless Branches”, disponível no Spotify, Billy Fay faz canções místicas, outras bem terra a terra, relata a luta constante entre o Bem e o Mal, ao mesmo tempo que parece cantar para comunicar com diversas gerações. Surpreendente e irresistível.

 

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VIDA SUAVE - A edição de fevereiro da revista Monocle é dedicado a um dos temas mais em voga actualmente: a qualidade de vida. A capa, aqui reproduzida apela a que cada um recomece, defina novos objectivos, adopte uma nova postura, leia mais e se descontraia - em suma, que se viva uma vida mais suave. Esta é uma edição anti stress, focada em combater o imediatismo e a velocidade que pode ser má conselheira no pensamento e na execução. A ideia central da edição é possibilitar que cada pessoa consiga que 2020 corra melhor que o ano passado. Não há-de ser por acaso que aqui estão diversas histórias sobre pessoas que deixaram os seus empregos e procuraram uma vida diferente e mais realizada, de acordo com os objectivos de cada um e com um sentido de utilidade para a sociedade. Entre os artigos desta edição destaque para um trabalho sobre o plano de desenvolvimento e requalificação de Cartagena, na Colômbia, para os ambiciosos planos do novo autarca de Phoenix. O grande tema que passa pelos artigos centrados na capacidade de mudança tem a ver com uma questão básica: como passar dos sonhos para a realidade. como se pode fazer o salto para o desconhecido, fora da zona de conforto, como encarar ideias e debates que ficam de fora da zona do pensamento dominante dos dias que correm. Como se escreve no manifesto “Easy Does It”, vale a pena que cada um se consiga isolar, desaparecer durante alguns momentos e todos os dias fazer uma coisa de que se gosta e não apenas o que tem de se fazer por obrigação.

 

GULODICE - Uma das minhas guloseimas preferidas é uma sábia combinação entre sabores de fruta e chocolate. Nesta área gosto sobretudo de cascas de laranja cobertas com chocolate negro. Há alguns bons sítios para obter o petisco e, até agora, as da Pastelaria Sequeira, ao Saldanha, estavam no topo da lista, muito acima das demasiado sofisticadas ( e pouco frutadas) da Arcádia. Anuncio agora que na lista das melhores cascas de laranja com chocolate negro passaram a estar as que são produzidas nos Açores pela empresa O Chocolatinho, de Rabo de Peixe, São Miguel. As cascas são grossas, levemente cristalizadas, cobertas de abundante chocolate negro e com uma pontinha descoberta da casca de laranja. São simplesmente arrebatadoras. O petisco encontra-se em Lisboa na Mercearia dos Açores, que existem em Lisboa na Rua da Madalena 115 e na Rua Viriato (às Picoas) nº 14. Ali podem ser encontradas outras iguarias do arquipélago, com destaque para as manteigas artesanais do Pico e os vinhos locais, que têm vindo a ganhar notoriedade. 

 

DIXIT - “Um dia não será com dinheiro que se poderá comprar o tempo. Só com mais tempo. O nosso”. - Miguel Esteves Cardoso

 

BACK TO BASICS - “Nada melhor que dar uma aparência de mudança se quiser garantir que tudo fique na mesma” - Giuseppe di Lampedusa





 





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O BANCO DE PORTUGAL

por falcao, em 24.01.20

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O MURO - O Banco de Portugal devia ser um muro intransponível contra a fraude e ameaças ao sistema financeiro português. Como a História recente comprova de forma recorrente tal não sucede. Nestes últimos dias as notícias em torno de Isabel dos Santos e do banco EuroBic vieram avolumar novas suspeitas sobre a ineficácia do Banco de Portugal. Para resumir a história temos um banco central que não vigia os bancos, um banco central que não fiscaliza movimentos suspeitos, ou seja um regulador que não regula. É certo que faz lindos estudos, mas curiosamente não lançou alertas em tempo devido, apesar de tanto estudo, sobre a situação do BES, do BPP, do BPN ou até do Montepio. Não fossem as exigências europeias sobre as nomeações para a banca e até isso provavelmente passaria ao lado no nosso banco central. A instituição tornou-se inimputável. O Conselho Consultivo do Banco de Portugal, de quem não se ouviram reparos ao que tem sucedido, tem integrado distintas figuras do regime como Francisco Louçã, Luís Nazaré, João Talone ou Murteira Nabo. Diz a Lei que a este Conselho "compete pronunciar-se, não vinculativamente, sobre o relatório anual da atividade do banco e sobre a atuação do banco decorrente das funções que lhe estão atribuídas". Ninguém deu ainda por nada de relevante vindo de tão distintas personalidades. Menos ainda do seu sempre sorridente Governador, Carlos Costa, que é perito em atravessar um dilúvio sem se molhar e em se manter a boiar no meio da tempestade. O Banco de Portugal, assim, pouco mais é do que um refúgio de políticos reformados, escola de candidatos a ministros ou trampolim para cargos internacionais. Em suma, em vez de banco central é um albergue espanhol. O  Banco de Portugal mais parece um verdadeiro muro da vergonha.

 

SEMANADA - Em cinco anos foram apreendidos 2,5 milhões de comprimidos por suspeita de falsificação e os estimulantes sexuais estão no topo da tabela; a Câmara de Lisboa gastou 18 mil euros em carimbos para chancelar folhas de papel na mesma altura em que afirma estar a desmaterializar processos; entretanto o espólio da Hemeroteca Municipal continua depositado numa garagem com poucas condições há sete anos; na última década houve uma quebra de 16% nas vendas de livros de ficção; o julgamento de um homem que se fez passar por assessor do Presidente da República foi adiado cerca de um ano por o juiz ter alegado dor de dentes; o Ministério da Educação confirmou que a meio da janeiro continuavam a existir disciplinas que não tinham ainda iniciado as aulas por falta de professores; o sindicato dos inspectores da PJ está preocupado com o aumento de mulheres naquela polícia e pediu à Direcção que trave a entrada de uma maioria de agentes do sexo feminino; o Estado interrompeu as negociações com as famílias dos comandos mortos em instrução no ano de 2016 e o Governo entende que só pagará indemnizações às famílias se for obrigado em Tribunal; as obras num lote de terreno em Soltróia comprado em hasta pública à Autoridade Tributária, com garantia de construção, foram embargadas por uma resolução do Governo; em 2019 foram contabilizados 4192 médicos estrangeiros a trabalhar no país, um aumento de 8,8% em relação ao ano anterior; a filha de Ana Rita, a bombeira de Alcabideche que morreu em 2013 nos fogos do Caramulo, vai receber dez euros por mês de compensação pela morte da mãe, valor  a que se juntam 90 euros para alimentação; Carlos Siulva, militante socialista e líder da UGT, acusou António Costa de maltratar sindicalistas dentro do partido.

 

ARCO DA VELHA - O suspeito de ser o cabecilha do assalto a Tancos poderá ser libertado dentro de dias por atingir o prazo de prisão preventiva sem acusação formal do Ministério Público, tal como já aconteceu recentemente com os Hell Angels, suspeitos de associação criminosa e homicídio.

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LAPA NO DESERTO - Cada vez que passo próximo da sede da CGD lembro-me da Roménia do tempo de Ceausescu: um edifício megalómano e horrível, impositivo e arrogante. É lá que está instalada a Culturgest que podia ser uma das grandes instituições culturais do país se cuidasse melhor da sua relação com as pessoas. Mas, se a instituição mãe, que é o banco, destrata os seus clientes, que esperar do resto? O mais espantoso de tudo, nesta questão da relação com o Banco, é que os clientes da Caixa não têm, por regra, conhecimento do que se passa na Culturgest. E, embora tenham descontos em algumas actividades, elas são-lhes parcamente comunicadas, para não dizer escondidas. Parece que a Caixa tem vergonha de dizer aos seus clientes o que a Culturgest faz. Há uns anos tive ocasião de falar com um responsável da Culturgest na época, chamando a atenção para a forma como a sua instituição encarava a comunicação e como a relação com os públicos não era estimulada. Não pareceu sensível ao assunto, embora muitas vezes se queixasse da falta de pessoas nas actividades que promovia. Vem toda esta conversa a propósito de uma excelente exposição que abriu na Culturgest na semana passada, dedicada à obra de Álvaro Lapa. A exposição está muito bem organizada e montada, em torno da relação do artista com os livros (e a sua própria escrita), evidencia diversas facetas menos conhecidas da sua obra, nomeadamente mostrando a sua biblioteca e os seus “Cadernos de Escritores”. Até 19 de Abril poderá ver (deverá ver…) “Lendo Resolve-se: Álvaro Lapa e a Literatura”, a exposição de que falo e que devia ser amplamente divulgada, fora das rotinas habituais e pouco funcionais. O que motivou as minhas linhas foi o facto de lá ter ido num Domingo ao fim da manhã e praticamente não haver público. A exposição tinha aberto no Sábado anterior e não tinha ninguém, apesar de ser dia de entrada gratuita. Compare-se o que se passa aos Domingos no CCB ou na Gulbenkian e veja-se a diferença. É uma pena, Álvaro Lapa e Oscar Faria, que organizou a exposição, mereciam muito mais.

 

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UM QUARTETO - Quando me apetece encontrar alguma coisa nova para ouvir tenho algumas rotinas. Uma delas é ir ao site da editora ECM, ver as novidades e depois passear pelo Spotify a descobri-las. Foi assim que dei com “Not Far From Here”, o novo disco do quarteto de Julia Hulssman, uma pianista e compositora de jazz alemã. Aqui está acompanhada pelo saxofonista Uli Klempendorff, Marc Muellbauer no baixo e Heinrich Köbberling na bateria. O quarteto gosta de arriscar, mantendo uma enorme coerência na forma como dialoga entre si. O disco inclui composições de todos os músicos e uma Interpretação de “This Is Not America”, um clássico de David Bowie, feito em co-autoria com Pat Metheny e Lyle Mays, e que é um dos pontos altos do disco (retomado como derradeira faixa numa outra versão, apenas ao piano). Hulsmann assina cinco composições e uma delas, “Weit Weg” merece especial destaque pela forma como a pianista e o baixista dialogam, com uma quase imperceptível presença da bateria. O saxofonista Klempendorff é o elemento novo nesta formação, até aqui um trio que tocava há cerca de 17 anos e ele tem uma presença marcante, como aliás é patente na faixa de abertura “The Art Of Failing”.

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LÍNGUAS VIPERINAS - Michelle Dean é uma jornalista e crítica literária canadiana, atualmente a viver e trabalhar nos EUA. Tem escrito para as revistas The New Yorker, The New Republic, The New York Times Magazine e Elle e em 2016 foi distinguida com uma menção do National Book Critics Circle pela excelência da sua abordagem aos livros e autores. “De Língua Afiada”, agora editado entre nós pela Quetzal,  permite a Michelle Dean levar-nos a conhecer melhor um conjunto de mulheres que, segundo ela, fizeram da opinião uma arte. A primeira frase do livro é esclarecedora: “Reuni neste livro um conjunto de mulheres que têm o denominador comum de, ainda em vida, terem ficado conhecidas como sendo de língua muito afiada”. Susan Sontag, Dorothy Parker, Hannah Arendt, Rebecca West, Joan Didion, Mary McCarthy, Pauline Kael, Renata Adler, Janet Malcom e Nora Ephron são exactamente as línguas afiadas escolhidas por Michelle Dean. A autora apresenta cada uma destas mulheres, enquadrando-as no seu tempo, relatando como viveram, quase uma mini-biografia com a particularidade de em todas surgirem citações dos seus escritos que permitem ver como de facto tinham as línguas afiadas. Dean sublinha que “estas mulheres, cada uma à sua maneira, desbravaram um caminho para que outras pudessem continuar.”. Delicioso - quer pelas histórias, quer pelas citações.

 

UMA TAVERNA - Confesso que até agora as minhas experiências gastronómicas em Nisa, uma vila no Alto Alentejo, não eram nada entusiasmantes. Na generalidade coisas fracas, insípidas, sem ambiente nem graça - gustativa ou convivial. Desta vez, no entanto, tenho que rever a minha opinião. A culpa desta mudança reside na Travessa da Vila onde Paulo Bagulho dirige a cozinha com saber e imaginação. Mas comecemos pelo local - uma sala simples e simpática, serviço atento e pronto, mesas e bancos corridos. Para começar na mesa havia bom pão, queijo e azeitonas da região, todos de boa qualidade. Da ementa contava açorda de ovas com peixe do rio - no caso um safio frito - uma alhada de cação, lombinhos com molho de azeite e coentros e febrinhas do alguidar grelhadas. Há um vinho da casa, passável, mas para a qualidade da comida o melhor é mesmo ver uma das outras propostas da lista. Desta vez provou-se o safio que estava bem frito, no ponto, sem gordura e a açorda, que era rica em ovas e muito bem temperada. Os lombinhos com molho de azeite mereceram vários elogios. A sopa de cação, que infelizmente não foi provada, pode ser servida como entrada ou como prato principal. A Taverna da Vila fica perto do Castelo de Nisa, no Largo Dr. António José de Almeida 2 e tem o telefone 965890164. Está associada a um outro espaço, o Quintal da Festa, na Rua 25 de Abril 61, onde existe também uma mercearia com produtos locais - espaço mais dado a temperaturas mais altas que as actuais, onde também pontifica na cozinha o mesmo chef Paulo Bagulho, que gosta de vir às mesas falar com os clientes de forma descontraída. Esta Taverna fica no registo.

 

DIXIT - “Portugal deve a Eanes, para além da afirmação democrática e do esforço de consciencialização cívica, a recondução das Forças Armadas à sua função de defesa nacional, a atenção prestada tanto aos Açores e à Madeira, como ao interior e muitas preocupações de solidariedade social. “ - Jorge Miranda

 

BACK TO BASICS - “A arte existe para que a realidade não nos destrua” - Nietzsche





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OS DOIS ESTAROLAS - Aobsil, sabem o que é? Há bandeirolas e anúncios de rua por todo o lado com esta sigla: AOBSIL.  Eu explico - é a nova marca de Lisboa. Na realidade é a palavra Lisboa escrita ao contrário. Esta palavra de difícil pronúncia é a nova marca da capital portuguesa. A bem dizer faz sentido: a gestão de Medina virou a cidade do avesso, faz sentido virar a palavra ao contrário. A nova marca da cidade nasceu na gigantesca operação de propaganda realizada a propósito de Lisboa ser agora a capital verde da Europa. O Sr. José Sá Fernandes, vereador desta causa, considera certamente ambiental caixotes de lixo a transbordar para o chão nas zonas históricas da cidade,  o cheiro nauseabundo que emana dos contentores ou a falta de limpeza que se tornou regra nesta cidade. Mas resolveu criar uma nova marca gráfica para a cidade, dizem os seus defensores que para evocar uma árvore. Em todo este exercício de vaidade e auto-satisfação vão ser gastos dezenas de milhões de euros ao longo do ano. A propósito de oabsil um dos mais prestigiados especialistas em desenvolvimento de marcas, Carlos Coelho, da Ivity, interrogou-se se Madrid passou a chamar-se Dirdam, ou se Paris passou a Sirap ou ainda se Londres pós brexit será Serdnol. De facto a ideia de mudar a marca da capital significa tratar mal a identidade da cidade, perdendo-se a oportunidade de Lisboa aparecer em grande, e com a sua identidade própria, num evento internacional como este. Mas indiferentes a estas questões menores os dois estarolas que nos governam a urbe, Medina&Fernandes, lá vão satisfeitos arredando pessoas da cidade e descaracterizando-a.

 

SEMANADA - Um estudo divulgado esta semana indica que um médico que trabalhe num dos serviços de cuidados paliativos dispõe em média de um máximo de nove minutos por dia para cuidar de cada doente; os atrasos na atribuição de subsídio de funeral chegam a atingir uma ano; os apoios do Estado a deficientes estão atrasados cerca de dois anos; a sede da PSP em Lisboa, na Penha de França, esteve em risco de ver a electricidade cortada por atrasos de pagamento das facturas; os bombeiros portugueses que ajudaram nas cheias em Moçambique ainda não receberam o valor que lhes é devido pela Protecção Civil desde Março do ano passado; o Governo decretou em Maio apoio financeiro para filhos até 6 anos de bombeiros voluntários mas ainda não foi disponibilizada qualquer verba para esse efeito; a Associação Nacional de Municípios considerou o Orçamento de Estado “absurdo e inaceitável” por contemplar um corte de 35 milhões de euros às autarquias e por violar a Lei das Finanças Locais;  em várias prisões os detidos são abastecidos de droga, armas e telemóveis através de drones e só em Paços de Ferreira já se verificaram este ano vários casos; há mais de três mil imóveis devolutos em Lisboa.

 

ARCO DA VELHA - O contrato de leasing de cerca de três dezenas de veículos da Protecção Civil chegou ao fim e os serviços da entidade não fizeram novo contrato, o que levou a firma locadora a recolher os veículos.

 

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UMA SÓ NOITE - Quando lerem estas linhas já não vão poder ver a exposição a que elas se referem. É uma exposição que apenas ficou patente durante algumas horas. Vai acontecer quatro vezes este ano, cada uma integrando novos artistas. Chama-se, por isso mesmo, “Esta Noite” e decorre, como aconteceu terça 14 de Janeiro, no ateliê Pedro Cabrita Reis, no Beato, entre as nove e meia da noite e a uma da manhã. A ideia de Pedro Cabrita Reis foi complementada por João Ferro Martins que com ele escolheu os artistas, todos eles à data da escolha sem galeria. Estão mesmo em princípio de carreira, nesta primeira Noite foram dez, serão meia centena até à última mostra. Os que expuseram na estreia tiveram oportunidade de mostrar o seu trabalho a coleccionadores, críticos, outros artistas. Foram vistos, ouviram opiniões de quem os não conhecia. “Esta Noite” é uma montra para talentos. a ideia da montra é aliás recorrente na forma como Pedro Cabrita Reis gosta de partilhar o palco. Ao longo de um ano, entre Abril de 2017 e Abril de 2018 organizou nas montras do British Bar, ao Cais do Sodré, uma série de exposições de pequenas peças de artistas que convidou, na generalidade com nome feito. Agora, em vez de uma montra física a dar para a rua, no centro da cidade, passou para a montra que forçosamente é o ateliê de um artista, neste caso o seu próprio espaço, que cedeu para que outros o pudessem utilizar e mostrar o que fazem. É recorrente em Cabrita Reis este impulso de descobrir e mostrar obras de outros artistas - foi assim que criou a sua própria colecção, comprando a muitos no início de carreira. “Esta Noite” é uma ideia generosa. Na imagem obras de Xavier Almeida e Cândido. Destaque também para o trabalho de Diogo Pinto e Luísa Passos.

 

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O PRAZER POP - Se quiserem ter uma ideia sobre o estado da música pop no arranque da segunda década do século XXI aconselho a que ouçam o álbum “Seeking Thrills”, de Georgia, agora editado. Está disponível no Spotify e em outras plataformas. Trata-se do segundo disco da intérprete britânica (o primeiro é de 2015) claramente centrado em conquistar as pistas de dança, com uma determinação assinalável e uma eficácia incontornável. Mas este não é só um disco de dança. Como todo o bom pop que se preza é um prazer para os ouvidos, uma companhia perfeita para várias ocasiões. Georgia Barnes tem 29 anos e foi construindo uma carreira de produtora paralelamente à de intérprete. Georgia faz parte de uma geração que quer recuperar a noção da natureza, que pretende uma vida saudável e se preocupa com o planeta, temas recorrentes das canções deste disco. Esta é a nova contemporaneidade que atravessa cada vez mais campos da criação artística, da música à literatura, passando pelas artes plásticas. Este é um disco onde o ritmo comanda - não é de admirar, Georgia é também baterista e, por exemplo, tocou com Kate Tempest. Musicalmente o álbum vai buscar referências aos anos 80, dando-lhes um tratamento sonoro actual - a capa é aliás um grupo de raparigas a dançar fotografadas em 1988 por Nancy Honey. “Seeking Thrills” é um compromisso entre influências musicais antigas com a sonoridade ajustada e preocupações sociais actuais. É, também por isso, um desafio. E um grande disco pop.

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ARTE EM PAPEL - Fundada em 2009 a revista “Elephant” é publicada em Londres quatro vezes por ano, sazonalmente, e propõe-se acompanhar as tendências da arte contemporânea. Tem uma forte presença online, num site próprio (elephant.art) e está no twitter, facebook e instagram. O seu lema é “life through art”. A revista dedica especial atenção a artistas emergentes e entre as suas actividades criou um laboratório onde promove residências artísticas, que depois são mostradas e relatadas nas várias plataformas. O site é permanentemente actualizado, com uma agenda diferente da edição em papel e, por exemplo, esta semana a notícia em destaque era uma visita à casa das Histórias Paula Rego, em Cascais. Já a edição em papel, datada deste Inverno, a número 41, parte de uma pergunta: “Será que a Arte pode salvar-nos, a nós e ao planeta?”. O debate sobre as alterações climáticas serve de pano de fundo para uma série de artigos e imagens que colocam em primeiro plano a forma como o mundo natural e os animais são apresentados visualmente. O lema da edição é conseguir voltar a tornar o mundo mais selvagem, com menor peso da intervenção humana. Regularmente há ideias editoriais interessantes - por exemplo a volta ao mundo em cinco cidades, falando do que do ponto de vista da arte contemporânea se passa em cada uma delas ou ainda a “Paper Gallery” onde se mostra de forma alargada a obra de um artista. Ligados ao tema da edição destaco o artigo “10 ideias sobre arte e meio ambiente” . Outro bom artigo fala sobre a importância do trabalho dos assistentes dos artistas, neste caso a propósito da montagem de uma peça complexa de Kara Walker  no enorme espaço da Turbine Hall da Tate Modern. A revista em papel pode ser comprada na Under The Cover, na Rua Marquês Sá da Bandeira 88, em Lisboa.

 

PETISCO - Esta semana vi-as, pela primeira vez neste ano, a serem vendidas à beira da estrada, em pequenos sacos - falo das túberas, esses tubérculos maravilhosos a que alguns chamam as trufas portuguesas. Mais abundantes no Alentejo, aparecem também no Ribatejo e normalmente entre finais de Janeiro até meados de Abril. Não é fácil perceber onde estão, debaixo da terra e descobri-las é um segredo bem guardado, que passa de pais para filhos. O seu sabor não é tão intenso como o da trufa, mas é delicado e envolvente. Misturadas com ovos mexidos é a forma mais frequente como são apresentadas. No restaurante lisboeta Salsa & Coentros elas fazem parte da lista de entradas e são muito bem confeccionadas. Por mim fico bem com ovos mexidos com túberas como prato principal, acompanhado de um bom pão fatiado fino. É um petisco. Em casa do meu Pai, que era um apreciador, às vezes eram feitas de fricassé - e ficam também deliciosas. Noutras vezes eram servidas como aperitivo, cortadas em fatias de uns 2mm que são bem grelhadas na chapa e polvilhadas com sal grosso. Ainda hoje, quando lhes deito a mão, não dispenso guardar algumas para fazer este aperitivo. Mas a minha preferência vai para os ovos mexidos, muito mal passados, com as túberas pelo meio. Para as cozinhar assim devem ser lavadas muito bem e descascadas, tendo cuidado para remover toda a terra. Se não forem consumidas nos dias mais próximos, podem ser congeladas depois de descascadas. Mas vamos à receita, bem simples: o ideal é cortar as túberas em fatias finas como se fossem batatas para fritar às rodelas, a seguir salteá-las  em azeite até estarem passadas, juntar ovos batidos com sal (com um pouco de pimenta se gostarem) e envolver. Os ovos devem ficar mal passados.  Para além da beira da estrada às vezes aparecem em boas lojas como a histórica Frutaria Bristol, na Rua das Portas de Santo Antão, junto ao Coliseu.

 

DIXIT - “Uma obra de arte é tão importante na construção da cidade quanto a habitação social, ou o desporto e a cultura…”  - Pedro Cabrita Reis.

 

BACK TO BASICS - “Os políticos deviam ler mais ficção científica e menos policiais e livros de cow-boys” - Arthur C. Clarke





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CENTENO NA DANÇA DO ORÇAMENTO

por falcao, em 10.01.20

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O BAILE ARMADO - O Orçamento de Estado é o contrário do que devia ser um documento que regulamenta como se gastam os dinheiros da nação. Devia ser transparente e é opaco - pelos vistos há verbas escondidas, e não são pequenas, para serem usadas e outros indicadores, como a verba para despesas imprevistas, a célebre “almofada” que não se vislumbram. A Unidade Técnica de Apoio Orçamental  do parlamento encontrou 255 milhões camuflados e considera poder existir uma suborçamentação naquele valor das receitas na proposta de Orçamento de Estado apresentada por Centeno. O Ministro das Finanças jura que esta análise está incorrecta, mas não falta quem ache que Mário Centeno criou um baú que permite ter uma confortável margem de manobra por parte do Executivo de António Costa para as negociações do OE2020 com os partidos pró-geringonça. Adicionalmente já se percebeu que o Orçamento de Estado para 2020 prevê maiores cativações do que as efectuadas em 2019. Com vários partidos a anunciarem que se vão abster ou votar contra, a maioria necessária para fazer aprovar o Orçamento vai estar dependente de muita negociação e de cedências aos partidos pró-geringonça. As negociações vão ser duras e a imprevisível deputada do Livre pode ter um grande protagonismo, de que gosta, em todo o processo. Em qualquer dos casos, mesmo depois de aprovado na generalidade, se isso acontecer por obra do Livre ou dos deputados da Madeira, há muito para renegociar nas votações na especialidade - onde a opacidade é ainda maior. E não há-de ser por acaso que na proposta de Orçamento para 2020 há muitos pontos em branco propositadamente deixados para essa negociação na especialidade. Na realidade o baile está armado em S. Bento. Para já o PS é o único a dizer que sim a Centeno, mas há uma fila de espera de pedidos e um baú para dar umas esmolas. E por cima disto tudo temos também a certeza de que esta será a maior carga fiscal de sempre. Os próximos dias vão ser animados, cheios de danças e contra-danças.

 

SEMANADA - A deputada Joacine Katar Moreira quis impedir a Assembleia da República de utilizar uma fotografia em que aparece na Comissão de Ambiente do Parlamento; segundo o presidente do Tribunal Constitucional, Manuel Costa Andrade, as verbas previstas para criar a nova Entidade da Transparência, que vai fiscalizar os políticos, não chegam para assegurar o seu funcionamento e  não há a "mínima preparação" para instalar este novo organismo; o preço das casas na periferia de Lisboa aumentou mais de 20% no terceiro trimestre de 2019; cerca de 1400 condutores já atingiram o limite de infracções e arriscam ficar sem carta de condução, triplicando o número dos que estavam nessa situação em 2018; as queixas relacionadas com os atrasos na atribuição de pensões aumentaram cerca de oito vezes em apenas três anos e atingiram 1600 no ano passado; a taxa de desemprego subiu para 6,7% em Novembro, o valor mais alto no espaço de um ano; na época do Natal, entre 1 de Dezembro e 2 de Janeiro, foram feitos pagamentos via multibanco a uma média de 242 milhões de euros por dia; em 2019 os portugueses gastaram em média 35,5 milhões de euros por dia a comer fora de casa; a maioria das câmaras municipais do norte do país não conseguiu atingir 50% de receitas próprias; pela primeira vez em 16 anos venderam-se mais carros a gasolina; em 2019 morreram 57 pessoas em acidentes com tractores registaram-se mais de cinco mil acidentes rodoviários entre o Natal e a passagem de ano que causaram 17 mortes; o Fisco cobrou imposto automóvel em excesso a cerca de 130 mil carros importados. 

 

ARCO DA VELHA - A nova Feira Popular de Lisboa, anunciada por Fernando Medina há quatro anos, ainda não saíu do papel nem tem data prevista de inauguração mas já se sabe que custará 70 milhões.

 

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IMAGENS MARGINAIS - Américo Filipe e Teresa Almeida e Silva apresentaram esta semana  na Galeria Monumental uma nova etapa do seu projecto comum “Estrada Marginal”, que mostra  pintura e video de Américo Filipe e pinturas de Teresa Almeida e Silva. (Campo dos Mártires da Pátria 101). Na Módulo - Centro Difusor de Arte, inaugura sábado “A Cor da Sombra” de Joana Hintze (Calçada dos Mestres 34). Outros destaques: “Os Dias das Pequenas Coisas” de Sarah Affonso no Museu Nacional de Arte Contemporânea, no Chiado e “Sombras e Outras Cores” de Manuel Baptista no Museu Arpad Szenes- Vieira da Silva.  Entretanto até sábado ainda podem ver algumas das exposições marcantes das últimas semanas: obras de Sérgio Pombo feitas entre 1973 e 2017 na Fundação Carmona e Costa, “Parasita” de Rita Ferreira na Travessa da Ermida, “Formas Antigas, Novas Circunstâncias” de André Guedes na Galeria Vera Cortês, “O Narcisismo das Pequenas Diferenças” de Pauliana Valente Pimentel no Arquivo Municipal de Lisboa - Arquivo Fotográfico, “Jorinde e Joringel”, de Daniela Krtsch e “Double Poetics” , de Joana Gomes, na Galeria Belo Galsterer.

 

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UM TRIO INESPERADO - Não me canso de dizer que o trio é uma das minhas formações preferidas no jazz. O trio clássico inclui geralmente piano, baixo e bateria, mas no caso do disco de que hoje falo há uma curiosa situação: um dos músicos toca piano, trompete e teclados e ainda tem umas participações vocais. O músico em questão é Nicholas Payton, aqui acompanhado por  Kenny Washington na bateria e por Peter Washington no baixo. “Relaxin’ With Nick” é um duplo CD gravado nos dias 30 e 31 de Maio e 1 de Junho de 2019 no palco do Smoke - Jazz and Supper Club, de Nova Iorque. Ao todo são quinze temas, divididos pelos dois discos deste duplo CD, disponível no Spotify. Um dos temas incontornáveis é “Jazz Is A Four Letter Word”, a meio do primeiro disco. Payton começa com acordes do seu Fender Rhodes, acompanhado pelo baixista, enquanto explica que a música foi inspirada por um livro em que Max Roach estava a trabalhar na altura em que morreu. Payton, que fala e canta neste tema, passa do Fender Rhodes para o piano e depois para o trompete, num diálogo arrebatador com os outros dois músicos. Arrisco dizer que este é o tema mais emblemático de um disco onde também se destacam “1983”, “I Hear A Rhapsody” ou “Five”.

 

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GESTÃO POLÍTICA - Luis Reis, um dos nomes fortes da gestão histórica da Sonae, tem vindo a aumentar a sua actividade mediática, quer através de colunas de opinião, quer envolvendo-se mais directamente em política, como no caso das eleições internas do PSD em que aparece a apoiar um dos candidatos contra Rio. Aqui estão cerca de seis dezenas dos artigos que Luis Reis publicou entre Setembro de 2012 e Outubro de 2019 e que reflectem a sua observação da realidade económica e política portuguesa nesse período. Nos seus textos Luis Reis passa em revista a actuação dos governos de Passos Coelho e de António Costa e a acção dos ministros das finanças, nomeadamente de Vitor Gaspar e Mário Centeno. Luis Reis aborda os problemas que na sua perspectiva melhor caracterizam as dificuldades da nossa sociedade e da nossa economia. Além da sua actividade enquanto gestor, Luis Reis tem uma extensa carreira académica e participações em associações empresariais portuguesas e internacionais. Nas suas intervenções que aqui se recolhem tem insistido na necessidade de uma oposição mais activa que faça propostas novas, aponte reformas, defenda a modernidade. A última frase do livro, escrita depois das eleições de Outubro passado, diz tudo: “Lamento o pessimismo com que encaro os próximos quatro anos, mas navegar com Costa à vista é receita segura para naufrágio!”.

 

UM CLÁSSICO - Os buffets de almoço são geralmente uma aposta arriscada - coisas requentadas, sobras diversas, muitas vezes um aspecto um pouco enxovalhado. Uma boa excepção a esta regra é o buffet do histórico São Bernardo, hoje em dia na Junqueira, desde que há uns anos saíu da Lapa. Para além do take away que deu nome casa, o São Bernardo tem no segundo andar uma zona de restaurante que ao almoço funciona em buffet e que à noite pode ser reservado para grupos ou eventos. Mas vamos ao que interessa - este buffet é um clássico:  não sofre das maleitas da maioria, é diversificado, inclui sopa, entrada, prato de carne ou peixe, bebidas (vinho da casa branco ou tinto, água, sumo do dia ou limonada), além de sobremesa e café. O preço é 17,50, as mesas são confortáveis. Não é fácil encontrar clientela abaixo dos 40 e a orientação da cozinha é a gastronomia portuguesa. Num destes dias havia umas tenras tiras finas de choco frito acabado de fazer, uma belas empadinhas de frango e um saboroso frango com alecrim e mel. Nos acompanhamentos destacavam-se umas migas de couve, arroz árabe e batatinhas no forno,  além de uma boa variedade de saladas. Nas sobremesas há sempre fruta laminada e doces. no caso um bolo de chocolate e uma tarte de frutos silvestres. A qualidade da confecção é muito boa, a qualidade da matéria prima é constante. No São Bernardo não há lugar a más surpresas e no fim do almoço pode sempre escolher um dos pratos cozinhados e embalados para levar para casa.

 

DIXIT - “Era giro que, ao entregar o Orçamento ao Presidente da AR, Centeno fosse parado numa daquelas operações stop organizadas pela Autoridade Tributária e lhe esquadrinhassem a pen à procura de receitas ocultas” - José Diogo Quintela

 

BACK TO BASICS - “Um bom gestor garante que as coisas fiquem bem feitas; um líder consegue que se façam as coisas certas” - Peter Drucker

 



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