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PARADOXOS DO PODER - Ainda durante o Estado de Emergência o Presidente da República e o Primeiro Ministro resolveram deixar a abordagem científica do combate à pandemia, trocando-a pela abordagem política às boas relações com o PCP e a conquista de boas vontades para os próximos orçamentos e actos eleitorais. A coisa consubstanciou-se em torno das evocações do Primeiro de Maio, com a coreografia montada pela CGTP que, de mãos dadas com os comunistas, bem pressionou as duas figuras acima referidas para terem direito à excepção das medidas preventivas. A pressão foi protagonizada pela nova líder da CGTP, Isabel Camarinha, uma sindicalista vinda do sector dos serviços e que se mostra adepta da linha dura de confronto. É curioso notar que , de acordo com os últimos números conhecidos no meio da nuvem de mistério que habitualmente rodeia as estatísticas sobre sindicalizados, a CGTP representará cerca de 550 mil trabalhadores e a UGT uns 480 mil - quase empatadas, portanto. No seu recente congresso a CGTP anunciou novos inscritos, mas evitou dar números de abandonos e total de filiados. É também interessante notar que administração pública, sector de escritórios e serviços , professores e saúde são as áreas que contribuem com maior número de sindicalizados da CGTP - e a dosagem da paz social nestes sectores é a moeda de troca nestas negociações. Para termos uma ideia de conjunto um estudo recente aponta que nas últimas quatro décadas o número de sindicalizados caiu de 60,8% para 15,7% da força de trabalho. E sendo o total de sindicalizados nas duas maiores centrais pouco superior a um milhão, convém recordar que a população activa, nas estatísticas mais recentes, é de cerca de 5,2 milhões. Traduzindo por miúdos: já que UGT se demarcou dos festejos da CGTP, a realidade é que em nome de  dez por cento da população activa Isabel Camarinha e Jerónimo de Sousa conseguiram levar Presidência e Governo a permitir uma violação às medidas de contenção da pandemia. E agora a líder sindical queixa-se, face às reacções que surgiram, de estar a ser perseguida. Isto não é o mundo ao contrário?

 

SEMANADA - No prazo anunciado pelo Governo para o pagamento das primeiras comparticipações ao “lay-off” muitas empresas ainda não receberam um cêntimo do Estado e multiplicam-se denúncias sobre a dificuldade em obter respostas da Segurança Social; Bruxelas continua sem data para anunciar plano de recuperação económica; os profissionais do sector da cultura contam perder mais de 50% do seu rendimento; o Banco de Portugal estima em 8,2% a perda de rendimento  das famílias portuguesas; em relação ao mesmo mês do ano passado caíu para metade o número de vacinas administradas em Abril; na Europa já foram detectados 6000 casos de sarampo por falta de vacinação; a PSP e a GNR receberam 4111 queixas desde o início do ano por golpes com MB Way; as empresas de mídia ouvidas pelo Presidente da República disseram que os apoios estatais são bem vindos, mas sublinharam que os anunciados até agora são insuficientes; um estudo de cinco universidades portuguesas mostra que 45% das pessoas que eram fisicamente inactivas antes da pandemia iniciaram a prática de alguma actividade física durante o período de confinamento; segundo uma sondagem recente da Marktest, 14% dos jovens portugueses não consomem nenhuma peça de fruta por dia; as receitas dos casinos virtuais subiram 58% em comparação com o primeiro trimestre do ano passado.

 

ARCO DA VELHA - Um empresário espanhol colocou uma placa com a inscrição “zona de quarentena Covid-19” para evitar que as pessoas de uma aldeia alentejana circulassem por um caminho municipal que atravessa uma propriedade de que é arrendatário.

 

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ARTE DIGITAL - MAAT modo digital é uma iniciativa do Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia, que propõe uma programação semanal divulgada através do seu site, do Instagram e do YouTube. “Prova de Artista” é uma rubrica publicada na conta do MAAT no Instagram, onde todas as segundas-feiras, durante o maat Mode Digital, é apresentado um artista representado na Coleção de Arte Portuguesa Fundação EDP para dar aos seus seguidores a oportunidade de conhecer melhor os artistas, as suas ferramentas favoritas, as suas inspirações ou até a recomendação de um livro. José Barrias foi o primeiro convidado e confessa que o lápis é a sua ferramenta de trabalho preferida, fala dos dois livros em que está a trabalhar e o livro que sugere é Salto di scala de Ruggero Pierantoni. Na rubrica “Património Energético”, que pode ser vista no site, está uma exposição virtual de cartazes e folhetos sobre o papel da mulher na publicidade aos electrodomésticos nos anos de 1930 a 1950. A programação completa pode ser seguida por exemplo no Instagram na zona onde está a imagem aqui reproduzida - ideias para todos os dias de segunda a Domingo. 

 

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BRITPOP - Ed O’Brien, um dos guitarristas dos Radiohead, lançou o seu primeiro álbum a solo, “Earth”. Muito menos conhecido que outros membros da banda, como Jonny Greenwood ou Thom Yorke, O’Brien optou nesta sua estreia por recuperar algumas das sonoridades que tornaram os Radiohead conhecidos na segunda metade dos anos 80 do século passado. Ao contrário das experiências de outros membros da banda, nomeadamente Yorke, Ed O’Brien, EOB para os fãs, mantém-se fiel às origens e é em torno da sua guitarra que desenvolve este disco - embora o uso da electrónica seja também abundante. Há, se quisermos, duas faixas de referência desta sonoridade, “Brasil” e “Olympic”, ambas a excederem os oito minutos de duração, ambas mais ambientais, calmas, com mais sintetizadores. Depois há faixas mais cruas, como “Deep Days”, onde proclama  “we are the people on the edge of the night”. “Long Time Coming”, onde a guitarra acústica de EOB está em destaque, é outra das canções a merecer atenção. Talvez o ponto alto seja a faixa de encerramento do álbum, “Cloak On The Night”, onde a guitarra acústica se junta à voz de Laura Marling. Esta estreia a solo de EOB é no fundo um disco eclético, que oscila entre o regresso ao britpop que fez os Radiohead célebres e momentos confessionais do autor, aqui acompanhado por um elenco de luxo:a produção é de Flood e nas diversas faixas participam Adrian Utley dos Portishead, Glenn Kotche dos Wilco, e como acima se referiu, Laura Marling. É tão eclético e fora do seu tempo que acaba por ser engraçado.  “Earth” está disponível no Spotify.

 

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CONSELHOS PARA A CRISE - Uma das publicações especiais do grupo “Monocle” é a revista “Entrepreneurs”, um derivado nascido de uma rubrica da radio online Monocle24. A edição que foi agora lançada é dedicada a formas de repensar, ajustar e defender os negócios dos pequenos e médios empresários no contexto da crise gerada pela pandemia. A capa, aqui reproduzida, evoca um canivete suíço com a multiplicidade de ferramentas que tem para resolver os vários problemas - e é isto que a revista se propõe através de um conjunto de ideias, reportagens e artigos de opinião. Esta “Entrepreneurs” dá especial enfoque a alguns empreendedores que estão a recuperar marcas tradicionais, adquirindo a posição dos antigos proprietários. Além disso são mostrados casos de sucesso, sugestões de alguns sectores que podem ser boas possibilidades de investimento;  conselhos de comunicação, externa e interna e de trabalho em equipa estão também presentes. Pequenos negócios em localizações inesperadas e empresas apostadas no aproveitamento de tecnologia estão entre os numerosos casos referidos ao longo de toda esta edição. As últimas páginas são dedicadas a lições que devem ser retidas desta crise - 25 ideias fortes, que vão desde as vantagens de ter uma empresa ágil até à importância do comércio local na defesa da qualidade de vida nas cidades, passando pela mais valia dos contactos cara a cara ou da defesa da privacidade. E o jogo sugerido como bom exercício para resolver problemas, qual é? O Xadrez, claro. Vai uma partida?

 

A SALVAÇÃO ATRAVÉS DA MASSA - Uma das receitas garantidas para a junção de um cozinhado rápido com uma refeição saborosa consiste na combinação de massa com legumes. A primeira questão é escolher o formato da massa, entre as várias marcas de boa qualidade que existem no mercado. Eu normalmente oscilo entre fusilli ou farfalle (espirais ou lacinhos). Estes são os dois formatos que penso que captam melhor o sabor do cozinhado. Há várias possibilidades de legumes - as minhas duas opções favoritas são courgettes e beringelas aos cubos com tomate cherry cortado ao meio e, noutro plano, farfalle com flor de bróculo (a que gosto de juntar dois ou três filetes de anchova de conserva esmagados). Recomendo que salteiem os legumes com um pouco de azeite. Normalmente começo por colocar três ou quatro lâminas de gengibre fresco a aquecer com o azeite e depois lanço os legumes, que tempero com sal a gosto, pimenta negra moída na altura, gengibre em pó e cebolinho fresco picado. Enquanto os legumes estão a ser preparados deito a massa escolhida em água abundante já a ferver, temperada com sal, e deixo-a cozer até dois-três minutos antes do tempo recomendado. Quase no fim retiro o equivalente a um copo da água da cozedura da massa, que reservo. Escorrida a massa, coloco-a directamente com os legumes, mexo tudo bem e vou adicionando a água da cozedura aos poucos para permitir melhor ligação - e por vezes deito também mais um fio de azeite. No caso do farfalle com brócolos, prefiro usar os broccolini, os pequenos brócolos, usando apenas as flores e retirando quase todo o caule. Se fôr o caso, antes de juntar os farfalle mal cozidos, coloco as anchovas esmagadas, envolvo bem nos brocccolini e depois adiciono a massa misturando tudo bem. O segredo é sempre deixar a massa envolver-se no sabor daquilo com que é misturada.

 

DIXIT - “O mesmo Governo que acede a festejos do Dia do Trabalhador acumula atrasos nos pagamentos das situações de layoff, que deixam dezenas de milhar na penúria” - Paulo Rangel

 

BACK TO BASICS - “A felicidade é essencialmente a combinação de ter boa saúde e má memória” - Albert Schweitzer

 

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PRÓXIMO FUTURO - Cada vez que temos uma crise vem à baila o problema da nossa dimensão. Foi uma coisa que sempre me fez alguma impressão quando olhava para outros países europeus e comparava connosco. E, quando olhei para a nossa História, e percebi que há uns séculos tínhamos sido precursores da globalização, fiquei ainda mais convencido de que, se um dia descobrimos rotas novas, adequadas aos tempos presentes, podemos voltar a descobrir um caminho. Os descobrimentos foram a nossa via de expansão. Hoje em dia, quando a globalização está em retrocesso, podemos ser os beneficiários de, pelo menos, segmentos da desglobalização. Isto aplica-se à indústria, onde temos produção de excelência em várias áreas, e tendo em conta o posicionamento da nossa localização em termos de logística comercial. Se temos uma posição geo estratégica relevante em termos políticos e militares, só temos que criar condições para que isso reverta de forma positiva noutras áreas, nomeadamente na economia. Tal como há séculos a nossa via de expansão vai passar pela nossa capacidade, de descoberta e investigação. Estes tempos muito recentes mostram que temos conhecimento e pessoas que conseguem avançar, em diversas áreas, desde a investigação biomédica até ao desenvolvimento tecnológico. As decisões e medidas para conseguirmos este próximo futuro é que serão a pedra de toque da capacidade política de quem nos governa. Na política o que interessa é o que se faz, não o que se promete.

 

SEMANADA - Cerca de 150 mil famílias já têm sérios problemas para comprar comida e pedem assistência a várias instituições; desde o início da pandemia de covid-19 já chegaram ao Banco Alimentar mais de 11.600 pedidos de ajuda de agregados familiares;  a Segurança Social já analisou cerca de 62 mil pedidos de lay-off, mas, até agora, só 62% das candidaturas têm condições para serem aprovadas e, das 38 mil empresas que viram o seu processo viabilizado, 88% preferiram parar totalmente a atividade e só 12% preferiram reduzir o horário aos trabalhadores;  desde o início das medidas de confinamento as autoridades das fronteiras já impediram a entrada em Portugal de 1852 pessoas; na Alemanha é obrigatório o uso de máscaras nos transportes públicos e lojas e as multas por desobediência atingem os dez mil euros; de acordo com a Direcção Geral de Saúde, até agora, o excesso de mortalidade foi de mais 307 óbitos comparativamente com a média dos últimos cinco anos; segundo o barómetro de opinião Covid-19 da Marktest, os portugueses dedicaram uma média diária de 5h54m ao teletrabalho, 4h29m a ver TV, aceder à Internet ou ouvir rádio e 3h13m a estudar; ainda segundo a Marktest 76% dos portugueses consideram que o uso de máscara fora de casa deveria ser obrigatório, mas apenas 47% dispõem delas; finalmente a mesma sondagem indica que ser contaminado, continua a ser o maior receio dos portugueses, logo seguido dos receios de falência da economia nacional e com o aumento do desemprego; em março registaram-se mais 53 mil desempregados que no mesmo mês do ano passado, um aumento de 34%.



ARCO DA VELHA - O Supremo Tribunal de Justiça reduziu e suspendeu a pena de prisão aplicada a um homem de 55 anos, que abusou sexualmente de duas meninas de seis e nove anos, filhas de militares do Exército.

 

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O ESTILO PARR - Martin Parr é um dos mais conhecidos fotógrafos da agência Magnum e criou um estilo muito pessoal de observação do mundo à sua volta. Foca-se em temas que vão do dia-a-dia à moda e a cenas de rua, do quotidiano das praias e espaços públicos. à intensidade da comida e das suas cores e aos contrastes das sociedades. Frequentemente usa teleobjetivas para “aplanar” as perspectivas e colocar em primeiro plano pormenores. Muitas vezes usa um anel de flash à volta da objectiva para criar uma iluminação que faz sobressair as cores. É um observador por natureza e é isso que faz dele um dos mais procurados nomes da Magnum. Tem quatro dezenas de livros publicados (alguns resultantes de encomendas, como um, magnífico, que fez para a Universidade de Oxford), realizou dezenas de exposições (uma esteve em Lisboa, há uns anos, numa galeria dedicada à fotografia, a Barbado, entretanto já extinta), criou em Bristol, onde ainda vive, uma fundação com o seu nome, à qual ofereceu a sua colecção de photobooks, considerada uma das maiores do mundo - e co-escreveu os três volumes da maior obra de referência sobre livros de fotografia, “The Photobook: A History”. No Instagram podem ver a página da fundação, martinparrfdn, e ter uma visão do trabalho do fotógrafo em martinparrstudio , de onde é tirada a fotografia que aqui apresentamos, realizada em Ialta. Vale a pena também a ver o seu site, martinparr.com .  

 

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SEM REGRAS - Lucinda Williams, 67 anos, disse numa recente entrevista que não compreende porque é que as pessoas têm a ideia de que devem ficar mais suaves e contemporizadoras com a idade. O seu novo álbum, “Good Souls, Better Angels” , o 14º disco de originais da sua carreira de quatro décadas, é testemunho disso mesmo, com canções intensas nas palavras e na música  e com a guitarra em destaque. A voz rouca e forte de Lucinda Williams destaca-se logo desde a primeira faixa, no afirmativo “You Can’t Rule Me”, uma declaração de princípios dela própria sobre aquilo de que não abdica - a sua alma, os seus pontos de vista e o seu dinheiro. Cada vez mais bluesy, Williams diz que este é o seu disco garage rock - guitarra, bateria e baixo, um pano de fundo musical que vai bem com o lado explosivo das canções. Eis um belíssimo disco para estes tempos - energia, vontade de mudança, convicções fortes. Destaco uma balada irresistível, “Big Black Train” onde as guitarras se destacam, “Man Without Soul” onde ela proclama “You bring nothing good to this world”, um “Shadow & Doubts” onde promete  “I’m gonna pray the devil back to hell.”. E sobretudo o tema final, “Good Souls”, com o desejo “Help me stay fearless, help me stay strong”. Disponível no Spotify.

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NÚMEROS & ENGANOS - “Como estatísticas, percentagens e análises nos enganam e desenganam” é um subtítulo que chama logo a atenção.  A frase justifica o título, “O Poder Dos Números”, da holandesa Sanne Blauw, escrito em 2018 e que por estes dias ganhou especial relevância com a torrente de informação que envolve a conjuntura actual. Blauw é doutorada em Econometria e divulgadora de Numeracia, procurando guiar-nos a destrinçar a verdade no meio dos gráficos e dados com que somos bombardeados todos os dias. Afirma que a sua missão é pôr os números no seu lugar.  A autora explora as falsidades escondidas pelas análises quantitativas descontextualizadas, muitas vezes usadas para fazer interpretações distorcidas que podem inspirar decisões políticas e, até, pretender explicar comportamentos. Sanne Blauw sublinha que este livro é sobre números, mas é acima de tudo sobre as pessoas por detrás deles e para todas aquelas são levadas a fazer erros de julgamento. Ela revela como até perigosos absurdos são anunciados com base em números, ensinando-nos a olhar de forma crítica para os resultados de estudos. Como Blauw afirma, “as histórias por detrás dos números são mais interessantes que os próprios números”



OVOS BÊBADOS - Antes da receita que experimentei esta semana aqui vai um desabafo: sinto falta dos meus restaurantes preferidos, de coisas tão corriqueiras como ver pessoas que não conheço mas que são também clientes regulares, e com quem acaba por se estabelecer uma cumplicidade de frequentadores de um  local, mesmo que nunca tenhamos trocado uma única palavra. Um restaurante é muito mais que comida, é um ponto de encontro, uma roda de amigos, um espairecer. A este propósito, no fim de semana li uma das melhores coisas sobre o que é um restaurante num ensaio escrito para o New York Times pela proprietária e chef do Prune, Gabrielle Hamilton - o Prune fechou por causa da pandemia e ela duvida que o mundo da restauração, dos pequenos bistrôs onde os clientes são amigos, volte a existir como era antes de tudo isto. Com restaurantes fechados resta-me ir lendo receitas, experimentando e inventando. Esta de hoje foi uma invenção, depois aprimorada por umas leituras que se encaixavam na ideia. Noutro dia tive que aproveitar gemas de ovo que tinham sobrado de um cozinhado e resolvi batê-las com um pouco de espumante, Murganheira Bruto, que é o português que normalmente existe cá em casa. O resultado foi interessante, levou-me a ler sobre o tema e descobri uma receita que encaixa: uma fatia de pão de boa qualidade, levemente tostada, barrada com manteiga, com ovos mexidos com champagne por cima, e com umas fatias de salmão fumado a rematar . O segredo está nos ovos mexidos - depois de os bater levemente, adicionar um pouco de espumante (pouco, não exagerem), temperar com sal e pimenta a gosto e misturá-los depois de forma enérgica com um batedor manual ou, melhor ainda, com o batedor do 1-2-3. Entretanto já ficou a derreter uma colher de sopa de manteiga na frigideira onde se farão os ovos - com lume brando e os cuidados necessários para ficarem cremosos - na realidade o espumante acentua a cremosidade e dá-lhes um leve toque de um sabor diferente. Também experimentei colocar espinafres salteados em vez do pão e o resultado foi interessante - embora prefira o pão. Boas experiências é o que vos desejo.

 

DIXIT - "As plantas não tiram férias, nem fazem lay-off e não podemos cuidar delas em teletrabalho", diz Manuel Silva, presidente da Associação de Horticultores da Póvoa do Varzim.

 

BACK TO BASICS - “É das grandes complexidades que as soluções de maior simplicidade nascem” - Winston Churchill






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DINOSSAUROS EXCELENTÍSSIMOS - A Assembleia da República e os seus deputados continuam a dar uma triste imagem ao país. Nesta semana foram protagonistas, sobretudo o seu Presidente, de um lamentável pretexto que fomentou  a intolerância a propósito do 25 de Abril. Criaram o anátema de rotular como anti democratas aqueles que chamaram a atenção para as medidas em vigor no âmbito da pandemia e que se opunham a uma reunião alargada. Quem projectou um debate de saúde pública em debate ideológico colocou-se  no lugar, não de quem deve dar o exemplo, mas daqueles que se julgam acima de qualquer lei e ostentam como argumento privilégios que julgam ter para contrariar as instruções do próprio Governo sobre matéria de saúde pública. Deram mais uma vez prova de um completo autismo e de uma incapacidade em compreender a comunicação - podiam ter aproveitado para criar uma celebração virtual da liberdade melhor que os discursos monótonos e repetitivos com que brindam as reduzidas audiências que seguem as cerimónias oficiais, e que cada vez se assemelham mais a exéquias que a festa. Foram, em última análise,  o reflexo do pior que existe no degradado sistema político-partidário actual, verdadeiros dinossauros excelentíssimos. Um ex-deputado socialista, mais lúcido que os actuais, escreveu no Facebook sobre a polémica criada: “A AR, com o seu Presidente à cabeça e a pronta anuência do Presidente da República, conseguiu o que não passaria pela cabeça de um cão tinhoso: pôr uma boa parte dos portugueses contra as comemorações do 25 de Abril “.

 

SEMANADA - Desde o início da pandemia cerca de 38,0% dos consumidores inquiridos num estudo da Marktest deixaram de fazer compras em hiper e supermercados e passaram a fazer compras noutro tipo de lojas, sobretudo no comércio local; segundo os dados da última sondagem do Barómetro Marktest, na semana passada os portugueses dedicaram mais de 5 horas ao teletrabalho, cerca de duas horas a ajudar os filhos nas tarefas escolares e 4 horas a ver Tv, aceder à Internet ou ouvir rádio; o governo britânico consignou uma verba adicional de 40 milhões de libras  exclusivamente para uma campanha de publicidade especificamente concebida para aparecer nos próximos três meses em centenas de jornais locais e nacionais como medida de apoio à imprensa, realçando o seu papel na informação e na liberdade; segundo a GFK, no sector livreiro, o efeito da pandemia e das medidas de confinamento provocou uma queda de faturação de dois milhões de euros relativamente ao período homólogo do ano passado. que equivale a cerca de menos 150 mil livros vendidos; na semana passada registou-se uma diminuição no tempo médio de visionamento de televisão por espectador, que desceu de 8 horas e 9 minutos por dia, para 7 horas e 42 minutos e após um mês de confinamento começa a notar-se uma quebra de audiência nos programas informativos e um ligeiro aumento no cabo; segundo a Marktest em março de 2020, o Primeiro ministro, António Costa, manteve a liderança do top de exposição mediática, ao protagonizar 244 notícias com 13 horas e 36 minutos de duração, Marta Temido, ministra da Saúde subiu para a segunda posição, com 175 notícias de 9 horas e 29 minutos de duração, o Presidente da República  baixou para a terceira posição, com 130 notícias, que ocuparam 8 horas e 5 minutos, Paulo Portas, comentador político, foi quarto, esteve em ecrã cerca de 4 horas e 4 minutos e Pedro Siza Vieira, ministro de Estado, Economia e da Transição Digital, subiu ao quinto lugar, com 70 notícias de 3 horas e 50 minutos de duração.

 

ARCO DA VELHA  - A Câmara Municipal de Lisboa não sabe quantas pensões há para refugiados requerentes de asilo e ignora o número de refugiados nessas pensões,  entre os quais já foram detectados 138 casos de infectados.

 

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SONS E IMAGENS - Agora percebe-se melhor a importância da existência de um serviço público de rádio e de televisão - e não estou só a falar na telescola. Por isso talvez seja interessante aproveitar para conhecer o museu virtual da RTP, onde se pode percorrer a história da sua actividade, desde os primórdios da Emissora Nacional de Radiodifusão, em 1935, até aos dias de hoje. Neste site podemos descobrir cenários antigos de programas de televisão que ficaram na História, aceder a numerosos conteúdos de vídeo e de áudio, a episódios de bastidores, fazer uma visita aos pormenores do primeiro carro de exteriores da RTP, assim como ver um documentário sobre a época do teatro radiofónico, antecessor das telenovelas de hoje em dia. No acervo deste museu virtual estão mais de mil peças, 16 horas de conteúdos e visitas em realidade aumentada. Na secção de exposições temporárias, é possível espreitar  modelos antigos de receptores de rádio, altifalantes ou grafonolas. O Museu proporciona um percurso sobre a evolução da radiodifusão e da televisão em Portugal. Para quem quiser brincar às televisões, há um Estúdio Virtual onde maiores de 13 anos são convidados a vestir a pele de pivôs e a apresentar o Telejornal. O museu virtual da RTP pode ser visitado por todos em museu.rtp.pt

 

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EMOÇÕES CANTADAS - Fiona Apple nasceu em 1977 em Nova Iorque, gravou o seu primeiro disco em 1996 e rapidamente tornou-se conhecida pela pela intensidade das suas canções e pela forma como combina a sua voz com o piano.. Desde 2012 não tinha nenhum novo trabalho, até surgir agora “Fetch The Bolt Cutters”, o seu quinto álbum. Musicalmente estimulante, por vezes quase experimental, este disco é ainda mais assertivo nos temas que aborda e nas palavras que Fiona Apple usa, do que os seus trabalhos anteriores. O novo álbum aborda a vulnerabilidade humana, a dor e o leque de emoções que atravessam uma vida.  O disco foi quase todo gravado na casa da cantora, na Califórnia com um grupo de músicos de sessão, usando arranjos onde a percussão - por vezes quase acidental - tem mais peso que habitualmente nas suas composições. Fiona Apple construíu o disco em cima da sua visão de vida: criamos uma espiral de sentimentos e desilusões, remetendo no final a expressão artística como a forma de expôr as mentiras da sociedade. O título “Fetch The Bolt Cutters”, que pode ser traduzido livremente por “tragam um alicate corta-arame” evoca a necessidade de nos livrarmos das armaduras que construímos à nossa volta. Este é talvez o melhor trabalho da carreira de Fiona Apple, com as canções mais fortes, musicalmente mais trabalhadas. Temas como “Under The Table” são uma janela aberta para a sua forma de pensar:   “Kick me under the table all you want/I won’t shut up.” Disponível no Spotify.

 

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LEITURAS CASEIRAS - A edição de Maio da revista Monocle é já fruto da pandemia e está dedicada à casa - o título de capa é “Why Home Matters” . No seu editorial Tyler Brulé, o editor da Monocle, escreve que estas últimas semanas têm sido as mais complicadas desde que a revista nasceu em 2007 - aliás este número de maio é uma das edições com menos páginas desde que começou a sua publicação - a quebra da publicidade atinge toda a gente. Brulé faz algumas perguntas incómodas, como por exemplo porque é que as pessoas em tantos países permitiram que os respectivos governos deixassem degradar os sistemas de saúde, porque é que se permitiu que tantas cidades tivessem um péssimo planeamento urbanístico e porque é que tantas grandes empresas pensaram que deslocalizar a produção de tanta coisa para a China era uma boa ideia a longo prazo. A revista aponta oito mandamentos para aproveitar a casa onde vivemos e mudarmos os nossos hábitos, dá conselhos sobre exercício simples que se podem fazer, recomenda que se fuja de estar constantemente em cima das notícias, que se ajude os vizinhos e deseja que o hábito de lavar sempre as mãos perdure. Depois há conselhos sobre coisas que se podem fazer para melhorar a casa de cada um e, claro, um conjunto de receitas culinárias provenientes de vários países. Por falar em casas, Portugal está presente, através do trabalho de arquitectos como Alcino Soutinho e Alfredo Viana de Lima na zona de Esposende. Uma reportagem sobre os criativos que estão por trás de alguma da publicidade política mais interessante para as próximas eleições presidenciais nos Estados Unidos é outro ponto alto desta edição da Monocle.

 

PETISCO NO FORNO -  Na presente situação, cozinhar, sobretudo ao jantar, depois de horas em teletrabalho, pode ser um momento de descontracção. É só combinar a happy hour de fim de dia com um pouco de experimentalismo culinário. Basta seguir duas ou três newsletters gastronómicas internacionais para surgirem boas ideias de receitas, que vou ensaiando. Esta semana fiquei atraído por uma sugestão de brócolos no forno com camarões e um tempero algo oriental. Dito assim, reconheço, a coisa pode parecer um bocado estranha. Mas se seguirem algumas indicações básicas verão que são recompensados por uma bela surpresa. Primeiro os brócolos: cortem só a flor, com muito pouco caule. Numa taça grande misturem os brócolos com duas colheres de sopa de azeite, uma colher de chá de coentros moídos, outra de cominhos e outra de gengibre ralado, uma de sal, meia colher de pimenta preta moída de fresco, um toque de piri piri e uma colher de raspa de lima (ou limão, se não tiverem). Misturem tudo bem e reservem enquanto aquecem o forno a 200º. Noutra taça coloquem os camarões crus (convém que sejam de bom tamanho, descascados) e misturem com mais duas colheres de azeite, raspa de meio limão, meia colher de chá de sal e meia colher de chá de pimenta preta. Misturem bem e deixem repousar. Quando o forno estiver à temperatura, coloquem os brócolos bem espalhados num tabuleiro de metal e deixem no forno durante dez minutos. Passado esse tempo colocam-se os camarões no mesmo tabuleiro, borrifa-se tudo com uns salpicos de óleo de sésamo (em havendo)  e agita-se para se misturarem bem com os brócolos, indo o tabuleiro ao forno mais dez minutos. Quando os camarões estiverem opacos e os brócolos tenros está pronto. Retirem do forno e espremam o limão de que usaram a casca por cima de forma generosa. E pronto, basta servir e esperar que gostem. Se quiserem acompanhem com um bom pão ou, até, um arroz. Cá em casa passou a ser coisa a repetir. Vai bem com um vinho branco fresco, no caso foi um Duorum. 

 

DIXIT - “Não aceito que um ritual seja transformado numa autêntica linha vermelha que separa os democratas dos outros” - Sónia Sapage

 

BACK TO BASICS - “Todos recebemos tanta informação ao longo do dia que corremos o risco de perder o bom senso” - Gertrude Stein.

 

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publicado às 11:30

CLAUSURA, TELETRABALHO E LESÕES

por falcao, em 17.04.20

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O TELETRABALHO - Ao princípio achei piada ao teletrabalho. Desde que se disponha de uma infraestrutura tecnológica boa na empresa, de uma ligação de internet razoável e de um mínimo de condições logísticas sabe bem não gastar tempo em deslocações, ficar a observar o trabalho da equipa a uma distância virtual, ter menos interrupções, gerir a agenda de outra forma, poder ter mais tempo para pensar. Mas, depois, sobretudo ao fim de um mês, começo a sentir falta das conversas com mais pessoas, do confronto de ideias mais directo, de poder falar sem ser pelo microfone, de ouvir os outros sem o som roufenho do Zoom ou do Teams, de poder ver caras sem estarem desfocadas ou sem fundos falsos com praias e outras coisas do género. Por sorte, a empresa onde trabalho, a Nova Expressão, tinha migrado todos os sistemas, há cerca de um ano, para a cloud por causa de uma mudança temporária de instalações. Quando a pandemia começou estava tudo operacional e já havia hábito de utilização da cloud e de trabalho remoto. O problema não está na tecnologia, está na falta que as pessoas fazem e na falta do confronto directo de ideias, do debate não electrónico. Com a situação de encerramento das escolas das crianças mais novas ouço muitos pais queixarem-se que não conseguem fazer o acompanhamento das aulas virtuais dos filhos ao mesmo tempo que trabalham. Alguns estão esgotados, outros à beira de um ataque de nervos. Quando sairmos disto, além de todas as outras questões, vamos ter que enfrentar problemas na área dos recursos humanos, saber como recuperar toda a gente que ficou lesionada no meio deste jogo da clausura.

 

SEMANADA - Um estudo da Universidade Católica indica uma quebra de rendimento de 43%  nas famílias que ganham até mil euros; diversos autarcas autarcas têm sido confrontados com o aumento do número de pedidos de comida por parte de famílias carenciadas que, no último mês, viram os rendimentos baixar;  o lay-off em Portugal já atinge cerca de mil trabalhadores; um terço das mortes registadas até agora em Portugal durante a pandemia foram de idosos residentes em unidades de 3ª idade; com uma boa parte das aulas a fazer-se de forma não presencial, e porque grande parte dos docentes não são digitais nativos, a Universidade Aberta e a Direção Geral de Educação vão formar mais de 2.300 professores em ensino à distância; segundo a Marktest 69,8% dos consumidores diminuíram a frequência das compras em super/hipermercados (69,8%), e destes cerca de 38% afirmam que passaram a ir a outro tipo de lojas (maioritariamente ao comércio local: minimercados, mercearias, talhos, peixarias, padarias, etc)  e a encomenda online ou por telefone foi a alternativa referida por um número muito pequeno de indivíduos; em março de 2020 RTP1, SIC e TVI emitiram cerca de 264 horas de informação regular, mais 21.5% do que no mês anterior e mais 7.4% do que o verificado no mesmo mês de 2019. num total de de 797 notícias e 35 horas de emissão sobre a pandemia, com a RTP1 a liderar com 14 horas de emissão e 327 notícias emitidas sobre o tema.

 

ESTE TEMPO - Entre 1 a 14 de Abril, foram matriculados em Portugal 838 ligeiros de passageiros, enquanto um  ano antes, no mesmo período tinham sido 6208, o que significa uma quebra de 86,5%, em termos homólogos.

 

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A FOTOGRAFIA - Quando se fala de fotografia é incontornável que a conversa vá parar à Magnum Photos, a agência fundada em 1947 por um grupo de fotógrafos liderados por Robert Capa e que mudou a forma de encarar o fotojornalismo, a fotografia documental e a fotografia em geral. Ao lado de Capa estavam nomes como David Seymour, Henri Cartier Bresson,  Ernest Hass, René Burri e Inge Morath, entre muitos outros. Os membros da Magnum publicaram nas maiores revistas da época, fizeram trabalhos exclusivos para a Life ou a Look, acompanharam a guerra do Vietnam e muitos outros conflitos. Henri Cartier Bresson descrevia a agência da seguinte forma: “A Magnum é uma comunidade de pensamento, uma qualidade humana compartilhada, uma curiosidade sobre o que está a acontecer no mundo, um respeito pelo que está acontecer e um desejo de o interpretar visualmente''. Ao longo dos anos por lá passaram alguns dos mais marcantes fotógrafos e actualmente podemos encontrar talentos tão diversos como Antoine d’Agata, Elliiott Erwitt, Josef Koudelka, mas também Martin Parr ou Cristina de Middel entre tantos outros. Podem ir seguindo a actualidade fotográfica e a produção da Magnum, assim como os cursos e exposições que organiza  no site da empresa - https://www.magnumphotos.com  , em www.instagram.com/magnumphotos ou ainda em www.facebook.com/MagnumPhotos . A imagem aqui reproduzida do Instagram é de Patrick Zachmann, feita a 16 de Março, em Paris, já com a pandemia declarada.

 

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FOLK CONTEMPORÂNEO - Laura Marling é uma das vozes mais importantes da folk contemporânea e o seu álbum de estreia data de 2008. “Song For Our Daughter”, o novo álbum lançado há dias,  é, nas palavras da cantora, um trabalho quase conceptual, escrito para uma criança imaginária sobre “aquilo que é ser uma mulher na sociedade actual”. O disco é ao mesmo tempo intimista, triste e pessimista, mas cheio de melodias e arranjos magníficos. “Blow By Blow”, uma das canções chave do álbum, fala daquilo que por vezes acontece nas relações: “Note by note, bruise by bruise/Sometimes the hardest thing to learn is what you get from what you lose”. Musicalmente este é claramente um disco folk tradicional, instrumentos acústicos e voz em primeiro plano, sempre a emoção colocada em destaque, como quando os arranjos incluem  um piano discreto ou um côro pontual. O ambiente anda próximo daquilo que se encontrava nos anos 70 em discos folk americanos (Marling, embora inglesa, vive há uns anos perto de Los Angeles). A produção do disco privilegia os arranjos de cordas e vozes. Destaco a canção que dá título ao álbum, “Song For Our Daughter”, mas também “For You”, “Held Down”, “Strange Girl” ou ainda “The End Of The Affair”. Disponível no Spotify.

 

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A CHINA EXPLICADA A OCIDENTAIS - Calhou ter lido “Sob Céus Vermelhos” agora, nesta última semana, no meio de tantas notícias e  especulações vindas do Oriente. É um livro sobre o passado mais recente da China, numa altura em que, pelas razões que se sabem, tanto se fala daquele país e se desenvolvem polémicas à sua volta. “Sob Céus Vermelhos” foi originalmente editado em 2019 e agora lançado em Portugal pela Quetzal. A sua autora, Karoline Kan, aliás Chaoqun Kan, nasceu numa aldeia chinesa em 1989, o ano dos protestos em Tiananmen. Cresceu e viveu nessa aldeia, e depois numa cidade do interior, até ir para a Universidade, em Pequim. Depois de concluído o curso, Kan trabalhou para o New York Times e Radio France Inter em Pequim, foi jornalista na revista “That’s Beijing”, actualmente é editora do jornal digital “China Dialogue” e em 2019 foi distinguida com o Young China Watcher of the Year. “Sob Céus Vermelhos” é essencialmente a história da vida da autora, o relato de como era o dia-a-dia na aldeia, como se estabeleciam hierarquias dentro de uma família ao longo de três gerações, o que era esperado das mulheres e o que era atribuição dos homens. No tempo da política do “filho único”, Chaoqun Kan foi a filha proibida, a que não devia ter nascido. A sua mãe desafiou as ordens do Partido Comunista Chinês ao querer tê-la e viu a sua vida profissional - era professora - prejudicada por isso. O livro relata o que eram as tradições e a cultura tradicional na China de então, quando Deng Xiaoping começou a abrir a economia. ao longo dos anos 90. Conta o choque que foi passar da aldeia para uma pequena cidade, na região de Hunan, que então se começava a desenvolver. Relata a mudança de uma sociedade rural para uma sociedade industrial, no meio de uma corrupção que vivia à sombra dos dirigentes políticos e perante a passividade que os ensinamentos de Confúcio estimulavam. À autora sempre fez confusão porque é que nos livros de História por onde estudou não havia referências ao ano de 1989, o ano dos grandes protestos estudantis - apenas percebeu o que se tinha passado quando finalmente chegou a Pequim. Este livro é a história da descoberta de um país e o relato das suas contradições por uma pessoa que nasceu no despontar da nova China. Indispensável para se perceber tudo o que ali se passou nestes últimos anos.

 

CULINÁRIAS - O prazer de um molho de grelos fresquíssimo, em flor, é uma das coisas que só os mercados tradicionais nos oferecem. A sua textura e o seu gosto não têm comparação com os que são sujeitos a longos períodos de frio e chegam enrugados às prateleiras dos supermercados. Um molho de grelos frescos deve lavado em várias águas e arranjado, tirando as folhas que estejam amareladas. Depois, precisam de ser muito bem cozidos, longamente, até ficarem tenros. Só se metem na água quando já estiver a ferver e obviamente destapados para ficarem bem verdes, que é uma belíssima cor - e é quando entram na água que se salgam a gosto. Depois de escorridos com cuidado são um belíssimo acompanhamento. No topo das minhas combinações preferidas está um lombo de bacalhau. Filetes de pescada também são uma ideia e em geral qualquer peixe de qualidade é boa companhia para os grelos. Uma experiência interessante pode ser desfazer uma posta de pescada já cozida e misturá-la com os grelos. Tudo bem envolvido e regado com bom azeite e está pronta uma refeição. Depois há outras possibilidades e à cabeça lembro-me de um arroz de grelos, com arroz carolino, claro. E, finalmente, um pedaço de grelos cozidos e depois levemente salteados acompanha bem uma boa carne grelhada. Sou dos que acreditam que cozinhar descontrai e que nesta época confinada é algo que estimula a imaginação. 

 

DIXIT - “Raramente saímos das crises da mesma forma como entrámos. Acontecem coisas em nós, e na nossa relação com as outras pessoas, que fazem com que tudo mude” - Miguel Xavier, psiquiatra.

 

BACK TO BASICS - “Não devemos temer e sim procurar compreender. Agora é o tempo de compreender, para que tenhamos menos receios” -  Marie Curie.

 

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O PERIGOSO VÍRUS DA ROTINA

por falcao, em 09.04.20

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O CONFINAMENTO - A rotina é nestes dias o nosso pior inimigo. A rotina a que estamos forçados, a rotina do confinamento, a falta de socialização, a rotina da avalanche de notícias. Aos poucos os números elevadíssimos de consumo de internet e de televisão começam a voltar a valores mais próximos das médias anteriores ao Estado de Emergência. Embora continue alto o consumo de notícias, já começa a subir o consumo de entretenimento - filmes, séries, musicais, documentários, e, claro, culinária. O teletrabalho fez explodir a venda de impressoras domésticas e de máquinas de café. Na realidade as antigas rotinas são substituídas por novas. Olhamos para o horizonte e o ar está mais límpido. No espaço de poucas semanas a vida mudou imenso - desde o vazio das ruas das cidades até à maneira como reorganizamos os nossos hábitos. Há um contraste enorme que percorre a sociedade - entre aqueles que estão em casa a trabalhar, com tudo o que isso comporta, e aqueles que estão nos hospitais, na rua, nas tarefas essenciais que garantem a nossa vida colectiva. O Estado, esse ser sem cara e nas mais das vezes com pouco coração, até deu uns laivos de humanidade nestas semanas. Mas falta imenso - há sectores básicos da sociedade e da economia, sobretudo nas microempresas, que continuam a braços com tratamentos discriminatórios. O Estado, que há uns anos fomentou a criação dessas microempresas e a criação de postos de trabalho com a consequente redução dos números e custos do desemprego, ainda tem muito para fazer neste sector. Se nesta altura se criarem novas barreiras e diferenças entre vários áreas de actividade todos vamos perder. A pior de todas as rotinas é a da resignação, e há muita gente que conta com ela e com a aceitação do mal menor. E, no entanto, só recuperaremos se nos excedermos, se ambicionarmos reconstruir e recuperar. É isso que devemos exigir da Europa, é isso que devemos exigir dos Governos. Ficarmos na rotina não basta - é demasiado perigoso.

 

SEMANADA - Foram apreendidos mais de 100 quilogramas de cocaína no Porto de Sines durante uma operação de controlo a um contentor proveniente da América do Sul;  segundo a CNN dois pandas do Jardim Zoológico Ocean Park, em Hong Kong, China, que não acasalavam há dez anos, fizeram-no quando o zoo fechou devido ao coronavírus; uma cobra pitão com 2,60 metros de comprimento que foi capturada na quinta-feira, no Percurso Pedestre da Fonte Benémola, em Querença, no interior do concelho de Loulé, foi transportada para o Zoo de Lagos; foram criadas duas áreas de refúgio para cavalos-marinhos na ria Formosa e as capitanias de Olhão e Faro, determinaram para estas zonas a "suspensão temporária da circulação de todas as embarcações"; um relatório do Conselho da Europa mostra que as penas de prisão em Portugal continuam a ter uma duração muito superior às dos outros países europeus e a taxa de mortalidade nas cadeias portuguesas está entre os 12 países onde essa estatística é a mais elevada; Portugal reciclou mais 10% em 2019, face ao ano anterior, tendo sido encaminhados para reciclagem mais de 388 mil toneladas de resíduos de embalagens, anunciou a Sociedade Ponto Verde; a pandemia está a afectar a indústria livreira e segundo a GFK, na semana de 23 a 29 de Março, venderam-se menos 66,7% de livros que na semana homóloga do ano passado; também segundo a GFK, na semana de 23 a 29 de Maio as vendas online de aparelhos eléctricos alcançaram 33% do total, quando antes do confinamento valiam 8%; comparando com igual período do ano passado a venda de impressoras domésticas aumentou 172% , as consolas aumentaram 122% e as máquinas de café 54% e os portáteis 33%.

 

ARCO DA VELHA - A Junta de Freguesia de Santa Clara, em Lisboa, deixou de ceder as suas instalações aos 150 idosos da Associação Unitária de Reformados e Idosos da Charneca que ali conviviam diariamente, para ceder o espaço ao Instituto de Emprego e Formação Profissional. 

 

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FOTOGRAFIAS - O Instagram tornou-se na galeria que vou visitando. Esta semana dei com a foto que reproduzo, da autoria de João Miguel Barros, um advogado português que trabalha em Macau e que tem desenvolvido intensa actividade como  fotógrafo, curador independente e editor da publicação de fotografia “ZinePhoto”. Esta fotografia é um auto-retrato “Self-portrait of a not so young artist in times of crisis”  e foi uma das imagens seleccionadas e premiadas pelo júri do Fotofestival Lenzburg, para a série “Times Under Pressure”. Pode saber mais sobre o festival em https://www.fotofestivallenzburg.ch/en/. O trabalho deste autor pode ser seguido em www.instagram.com/joaomiguel.barros e em http://www.jmb.photo/ . Outras sugestões, ainda no instagram: David Guttenfelder é um fotógrafo que trabalha regularmente para a revista National Geographic e tem estado a publicar no Instagram imagens de uma viagem que fez por estrada pelos Estados Unidos ainda antes do início da pandemia - podem encontrá-lo em instagram.com/dguttenfelder . Para terminar sugiro que visitem o instagram da cooperativa de fotógrafos Magnum, que tem feito uma série de iniciativas ligadas com estes tempos que vivemos - podem ver em instagram.com/magnumphotos . E um dos fotógrafos da Magnum é o britânico Martin Parr, cujo trabalho pode ser visto em instagram.com/martinparrstudio .

 

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A VOZ - Cantora, pianista, compositora, Nina Simone  percorreu muitos territórios musicais ao longo da vida. Entre os discos da última fase da sua carreira “Fodder on My Wings” é um registo que tem andado esquecido e que teve sempre uma divulgação reduzida. A editora Verve resolveu agora relançá-lo. Editado originalmente em 1982, gravado em Paris, o disco é influenciado pelos músicos africanos que ela encontrou na capital francesa - Paco Sery na percussão, Sydney Thaim nas congas e Sylvin Marc no baixo. A própria Nina Simone assegurou a voz, o piano, os arranjos e a produção musical e fez um dos discos mais pessoais e intimistas e que é dos melhores trabalhos da sua carreira, injustamente pouco conhecido. Há faixas surpreendentes, como “Liberian Calipso”, que juntamente com “Le Peuple en Suisse” e “I Sing Just To Know That I’m Alive”,  são três faixas inéditas incluídas na nova edição. O álbum inclui 13 temas que exploram uma vasta gama de emoções, desde o “Heaven Belongs To You” que evoca os espirituais negros, cantado em francês e inglês, um primor de utilização da voz de Nina Simone em “Vous Êtes Seul Mais Je Désire Être Avec Vous” e a homenagem ao seu pai feito numa pessoalíssima versão de “Alone Again Naturally” (de Gilbert O’Sullivan), completamente transfigurado nesta interpretação - a cantora altera a letra, os arranjos e até a composição musical. “Fodder On My Wings” está disponível no Spotify.

 

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DOIS MUNDOS - “Sementes Mágicas”, de V.S. Naipaul, é a continuação de um anterior romance, também já editado em Portugal, “Metade da Vida”. Destaca-se aqui de novo a forma de escrita de Naipaul, muito bem transmitida e interpretada pela tradução de Maria João Lourenço. Os dois romances acompanham a vida e as dúvidas de Willie Chandran, um homem de identidade incerta que, aos quarenta e cinco anos, se interroga sobre o seu papel no mundo e o sentido da sua vida. Willie Chandran tem atrás de si uma vida errante: saiu da Índia, onde nasceu, viveu em Londres, em Moçambique e em Berlim. E é a partir de Berlim, para onde regressara depois de deixar África e um casamento, que decide regressar à Índia. O seu regresso é estimulado pela irmã, Sarojini, uma realizadora de documentários empenhada politicamente, que considera que Willie leva uma vida passiva, sem direcção nem objectivo. Influenciado pela irmã resolve juntar-se a um grupo revolucionário clandestino e regressa à Índia - mas encontra-se perante uma organização dividida e é apanhado, digamos, pelo lado errado da História. Quando depois de muitas peripécias volta ao Reino Unido, onde a sua demanda começara trinta anos antes, encontra um país que virou costas ao seu passado colonial. Willie dá consigo a reflectir sobre aquilo em que a sociedade britânica se transformou e na sua própria vida. De certa forma “Sementes Mágicas” é a forma de Naipaul reavaliar a sua carreira e a sua obra e a personagem de Willie, assim como a sua evolução, têm não poucos paralelos com o que foi também a evolução da carreira literária de Naipaul e a sua visão do mundo - dos dois mundos da sua vida e da sua escrita, o da colónia e o da potência colonial.

 

COZINHADOS - Hoje aqui fica uma receita de época. Costeletas de borrego cortadas de forma generosa, não demasiado finas, conte entre 3 a 4 por pessoa, dependendo da respectiva volumetria dos convivas. Em casos acentuados, carregar na dose. Tempere-as generosamente com muito sumo de limão, sal e pimenta preta moída na hora. Faça-lhes uma cama e um cobertor com alecrim e deixe-a assim durante uma hora ou duas. Comece por cozinhar ao lume, numa frigideira que vá ao forno. Basta colocar um pouco de azeite no fundo bem espalhado. Com o lume alto cozinhe-as de um lado e outro até começarem a ganhar côr e a própria gordura das costeletas começar a invadir o recipiente. Quando estiverem a começar a tostar leve-as ao forno previamente aquecido a 200º e deixe-as estar durante dez minutos, virando-as a meio. Se gosta delas muito bem passadas (não é o meu caso), deixe ficar mais cinco minutos. Eu gosto de as acompanhar com ervilhas, levemente cozidas, e depois salteadas com hortelã picadinha bem misturada. Para companhia experimentei um vinho regional da península de Setúbal, da Quinta do Piloto, em Palmela - o Cabernet Sauvignon 2017 e a coisa correu muito bem.

DIXIT - “Há um velho ditado grego que apetece recuperar agora: “Aquele a quem os deuses desejam destruir, primeiro enlouquecem”. A Europa, antes de se destruir, está a enlouquecer” - Fernando Sobral

BACK TO BASICS - “Uma das grandes falhas da raça humana é que toda a gente quer construir de novo, mas muito poucos querem preservar e manter o que existe” - Kurt Vonnegut

 

 

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E DEPOIS? NA EUROPA ? E CÁ?

FICA TUDO NA MESMA? OU MUDAMOS DE RUMO?

por falcao, em 03.04.20

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E A EUROPA? - A situação que vivemos mostra aquilo  que é de facto a Europa: uma confluência egoísta de interesses económicos, não uma federação de vontades nem uma aliança de princípios, muito menos um mecanismo de entreajuda. Cada vez que há crise, há clivagem. É o salve-se quem puder. Olha-se para o que é a estrutura central da Comunidade Europeia e não se vê direcção, não se vê liderança, não se vêem estadistas. Há silêncios, há alarvidades da Hungria à Holanda, noutros países há a procura de uma solidariedade que embate em limites apertados e rigorosamente vigiados. O Banco Central Europeu é uma anedota de capacidade de acção quando comparado com a Reserva Federal Americana. A realidade é esta: ao fim de todos estes anos a Europa não existe como o paraíso prometido quando é mais necessária. Os burocratas convivem mal com a acção e este é um momento de acção. Esta crise vai ser longa. O PIB vai baixar de forma generalizada, muitos sectores vão defrontar-se com a sua própria sobrevivência. Portugal, que tem um mercado interno pequeno, viveu anos de crescimento porque teve uma população visitante, de passagem, que alargou o  mercado muito para além do seu tamanho real. Agora, quando ficarmos outra vez no nosso pequeno rectângulo, provavelmente com menos visitantes, que acontecerá? O Governo português tem reagido bem à situação em termos de prevenção e defesa da saúde pública, atrevo-me a dizer que para além do que era previsível - e ainda bem. Mas a seguir vão sentir-se os efeitos de falta de estratégia de competitividade económica, da falta de reformas. E é quando isto acabar que é preciso começar a pensar no que tem de se fazer para o país poder voltar a prosperar, sem bóias passageiras de salvação. Contando com os nossos recursos e a nossa capacidade. 

 

SEMANADA - A aldeia de São Pedro Velho, em Mirandela, conhecida pela produção de morango, teme pela colheita deste ano com toneladas do fruto que podem ficar por apanhar por falta de trabalhadores e de procura devido à pandemia de Covid-19; técnicos de som e de palco de norte a sul do país, que tinham as suas agendas cheias nos próximos meses, ficaram sem um único trabalho; nos primeiros 22 dias de Março, o número de domínios registados com palavras-chave associadas à pandemia subiram de 3000 para 53 mil; a pandemia está a gerar o maior número de ciberataques alguma vez realizado; o índice mundial dos mercados de ações recuou 13,7% em março, com as maiores quedas registadas na América Latina e na Zona Euro;  as praças de Bogotá, São Paulo, Buenos Aires e Viena foram as mais penalizadas e Lisboa perdeu 16%; o montante médio das compras no comércio online aumentou 6% desde o registo do primeiro caso de Covid-19 em Portugal; segundo as projeções do Instituto Nacional de Estatística, a população residente em Portugal poderá baixar de 10,3 para 8,2 milhões de habitantes em 2080 e o índice de envelhecimento quase duplicará; Portugal continua dependente de outros países para se alimentar, pois só produz 85% dos bens de que precisa para pôr no prato.; a superfície semeada dos principais cereais em Portugal diminuiu pelo sétimo ano consecutivo e a sua produção está no mínimo dos últimos 100 anos.

 

ARCO DA VELHA -  A organização sindical de professores do Sr. Mário Nogueira exigiu que as escolas suspendam já o acolhimento de filhos de profissionais de saúde e forças de segurança.

 

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ARTE NO INSTAGRAM - Nestes tempos o Instagram tornou-se numa imensa galeria virtual - de museus, de artistas e claro de pessoas que mostram o que estão elas próprias a ver. Mas concentremo-nos hoje nos artistas. Um dos que tem estado mais activo durante estes tempos da pandemia é Todd Hido, um americano que hoje em dia vive em São Francisco. O seu trabalho está focado em casas, muitas delas em ambientes rurais, outras em ambientes urbanos pouco densificados. O domínio da luz e da côr, uma cuidadosa escolha da luminosidade natural em que prefere fotografar, são a sua imagem de marca - nomeadamente na série “Homes At Night”. Todd Hido tem trabalhos seus publicados na Artforum, The New York Times Magazine, Eyemazing, Wired, Elephant, FOAM e Vanity Fair. Tem obras suas nas colecções permanentes de museus como o Getty, o Whitney Museum of Art, o Guggenheim, San Francisco Museum of Modern Art e The Smithsonian, entre outros. Por vezes surgem paisagens rurais e muitas vezes foca-se em questões ambientais, como aconteceu com o seu mais recente livro, “Bright Black World”, fotografado fora dos Estados Unidos. Poucas vezes surge o elemento humano, excepto numa série em que fotografa interiores de casas onde surgem corpos de mulheres. Do ponto de vista técnico utiliza grandes formatos, exposições longas e uma enorme profundidade de campo, na tradição de alguns fotógrafos paisagistas americanos de meados do século passado - só que desta vez a cores e não a preto e branco. A imagem que aqui se reproduz é extraída da sua página do Instagram, que merece ser visitada.

 

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O TRIO DE JAZZ - Uma das minhas formações preferidas no jazz é o trio - o mais frequente é ter piano, bateria e baixo, mas outra formação de que gosto particularmente é guitarra, bateria e baixo. “Angular Blues” é o novo disco do guitarrista austríaco Wolfgang Muthspiel, acompanhado por Scott Colley no baixo e Brian Blade  na bateria. Muthspiel tem uma forma de tocar guitarra eléctrica muito característica, com um dedilhar marcante e preciso e um sentido melódico notável. Editado pela ECM, o disco tem uma produção simples que deixa os três músicos mostrarem as suas capacidades de improvisação e sobretudo a forma como se conseguem ligar uns aos outros. “Angular Blues” é um dos discos de jazz que mais gostei de descobrir nos últimos tempos e dos melhores de que me lembro onde a guitarra desempenha o papel principal. O primeiro tema, “Wondering” é uma espécie de manifesto daquilo que se vai poder ouvir ao longo do disco. Logo a seguir, a faixa título, “Angular Blues” mostra como a guitarra de Muthspiel se cruza de forma perfeita com o baixo e a bateria. “Huttengriffe” é uma faixa apaixonante, a mais bluesy de todo o disco. “Camino” é uma ode à guitarra e “Ride” uma demonstração de virtuosismo colectivo. “Kanon in 6/8” é um percurso que evoca o blues-rock e “Solo Kanon in 5/4” é o único tema tocado a solo por Wolfgang Muthspiel. O álbum termina com uma versão do standard “I’ll Remember April”, já interpretada por muitos músicos mas que aqui vive do diálogo entre a guitarra e o baixo. Disponível no Spotify.

 

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HISTÓRIAS DE MACAU -  Os mais recentes livros de ficção de Fernando Sobral são orientais, passados entre a China e a Índia. Não são orientais apenas na localização geográfica das histórias que contam, são-no, sobretudo, na forma como estão escritos, nos reparos que as personagens fazem, nas reflexões que evocam ao longo da narrativa, nos pensamentos que deixam no ar. “A Grande Dama do Chá” é o mais recente livro de Fernando Sobral e foi publicado originalmente como folhetim semanal no diário “Hoje Macau” em 2019. O cenário é Macau, em 1937, no momento em que o Japão tinha atacado a China, tomado Xangai, o que leva a um êxodo de refugiados em direcção a Macau - que assim se torna numa plataforma onde se vigiam mutuamente chineses nacionalistas, comunistas e agentes japoneses. É neste ambiente que se desenrola a história de Jin Shixin, que abre a mais famosa casa de chá de Macau, cobertura para a sua ligação com a tríade do Bando Verde que dominava Xangai. O livro retrata o que era a vida em Macau, o papel dos funcionários portugueses da administração local, os conflitos, cumplicidades, pequenas corrupções e também histórias de sedução. O livro conta a noite, os bares, a música, deixa antever todos os vícios e negócios, os segredos e as conspirações. Macau é uma terra de encontros e desencontros, e , como uma das personagens diz no final do livro, “Macau é bela e sem saída. Sejam sempre bem-vindos a esta cidade. Para jogar, para fugir do passado, para encontrarem o futuro. Assim continuará a ser”. É certo que eu tenho um fascínio pelo oriente, mas de cada vez que leio um livro assim fico com vontade de lá voltar. Pelos vistos, agora, infelizmente, não vai ser tão cedo.



VINHOS DURIENSES - Durante uns anos os vinhos do Alentejo dominaram o mercado doméstico português e João Portugal Ramos foi o enólogo decisivo para criar uma marca e uma personalidade que antes estavam difusas. Sem nunca deixar o seu Alentejo, aqui há uns anos aventurou-se, em parceria com José Maria Soares Franco, por terras do Douro. Assim nasceu a gama Tons do Duorum, inicialmente com Tinto e Branco e agora, pela primeira vez, com um Rosé, uma surpresa nas colheitas agora lançadas. As uvas são de terreno xistoso, com as vinhas a uma cota alta, entre os 400 e 600 metros. O Tons do Duorum Rosé 2019 é feito a partir de uvas Touriga Franca, Touriga Nacional e Tinta Roriz, tem aroma marcado por frutos vermelhos, um final de boca prolongado, acidez equilibrada, fresco, graduação de 12%. É uma boa surpresa na gama Duorum, ideal para acompanhar pratos leves e saladas. O Tons do Duorum Tinto 2017 é feito a partir das mesmas castas, Touriga Franca, Touriga Nacional e Tinta Roriz com um processo de vinificação muito controlado. Tem dominante de frutos vermelhos, taninos suaves, aroma intenso, fresco, graduação de 13,5% e vai bem com carnes temperadas. O Tons do Duorum Branco 2019 foi feito com uvas das castas Viosinho, Robigato, Verdelho, Arinto e Moscatel Galego Branco. Tem graduação de 12,5%, aroma intenso, citrinos pronunciados, perfeito para acompanhar uma massa com gambas ou massada de peixe. 

 

DIXIT - “Fazer as duas coisas que parecem ou são contraditórias: este é o grande problema. Fazer com que os cientistas e os técnicos, sem se envolver em política, encontrem os remédios e tratem de quem necessita. Mas fazer também com que os políticos façam as leis necessárias, sem se envolver em ciência.” - António Barreto 

 

BACK TO BASICS - “Por melhor que uma estratégia pareça ser, são os resultados alcançados o que verdadeiramente conta” - Winston Churchill

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A LIDERANÇA - A crise que vivemos é um desafio à capacidade de nos organizarmos, lutarmos e mudarmos, para garantir um novo futuro. Este não é tempo de profetas, mas é tempo para pensarmos pelas nossas próprias cabeças e vermos onde líderes políticos actuais nos levaram. Esta é a fase em que devemos pensar e preparar a resposta - a resposta que garanta a sobrevivência de pessoas, da economia, da sociedade. Por estes dias li uma entrevista do historiador e filósofo israelita Yuval Noah Harari, autor de “Sapiens: Uma breve história da humanidade”, de “Homo Deus: Uma Breve História do Amanhã” e de “21 Lições para o Século 21”. Dessa entrevista retive dois parágrafos - o que reproduzo no Back To Basics e este, que creio resumir o que se passa: “Devido à falta de liderança, não estamos a tirar o máximo partido da nossa capacidade de cooperação. Nos últimos anos, políticos irresponsáveis têm deliberadamente minado a confiança na ciência e na cooperação internacional. Estamos agora a pagar o preço por isso.”  Claro que há mais temas para analisar e reflectir sobre a situação actual, mas a verdade é que o que hoje se passa mostra o desfasamento entre os líderes políticos e as necessidades da sociedade - em termos de estabelecimento de prioridades de investimento em áreas como a ciência e a saúde. Passámos de uma fase em que os Ministros das Finanças faziam com que não houvesse dinheiro para nada, para a fase em que os governos disponibilizam milhões e milhões - esperemos que não seja tarde demais. A situação actual evidencia que é sempre melhor prevenir do que remediar. O remédio, como estamos a ver, é sempre mais caro que a prevenção. Esta é apenas uma das etapas - mas importante - da mudança global de estratégias que tem de ser feita. Fala-se muito de mudança e liderança nas empresas. Aquilo que hoje vivemos mostra que o sentido da mudança e um novo estilo de liderança são também fundamentais na sociedade e na política que é suposto governá-la. O fundamental é melhorar o sistema, e não abandoná- lo.

 

SEMANADA - O preço da carne subiu;  nas lotas os pescadores vendem peixe a metade do preço; foram detectados casos de especulação na venda de produtos como gel desinfectante, máscaras, luvas e até paracetamol; com o fecho dos parques de campismo 13 mil caravanistas ficaram desalojados; um estudo europeu revela que Portugal não tem habitação social suficiente para as necessidades; o mesmo estudo do Conselho da Europa aponta falhas graves na protecção de crianças e jovens; sem o retomar das competições à vista os responsáveis dos jornais desportivos portugueses estão apreensivos quanto ao futuro; 43,7% dos portugueses considera a actuação do governo na pandemia como “pouco eficaz”, 40,9% como eficaz e apenas 5,4% como “muito eficaz”; uma sondagem divulgada esta semana revela um reforço da imagem de António Costa, algum desgaste de Marcelo Rebelo de Sousa, e subidas assinaláveis do Bloco de Esquerda e Chega que ficam, respectivamente, na terceira e quarta posição, logo atrás do PSD e à frente da CDU, PAN e CDS; se a pandemia durar três meses o PIB português pode ter uma quebra de 10%; o valor médio das casas em Portugal subiu 21% em cinco anos; os preços da habitação em Lisboa são 35% superiores à média nacional; o preço de venda das novas habitações subiu cinco vezes mais que o da construção;  o Facebook registou esta semana um aumento exponencial de utilização mas as suas receitas publicitárias diminuíram e o maior aumento de utilização verifica-se nas áreas de mensagens da rede social e do whatsapp.

 

ARCO DA VELHA - Segundo informações da Ordem dos Solicitadores a venda de bens penhorados rendeu 1,6 mil milhões de euros em menos de quatro anos. 

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ARTES - Desde que as medidas de contenção do Covid 19 foram tomadas todos os espaços públicos foram sendo progressivamente fechados. Entre eles estão as galerias de arte privadas, local de eleição de apresentação de obras de artistas contemporâneos, novos ou consagrados. De um modo geral uma série de actividades culturais que por definição implicam a presença de públicos têm as portas fechadas. Muitos  artistas plásticos portugueses preparavam exposições para os próximos meses, em Portugal ou no estrangeiro. Algumas já não se poderão fazer, pelo menos nas datas indicadas. Os artistas plásticos vivem das suas obras que vendem. Se os locais onde as podem mostrar e vender estão encerrados, não há vendas, não há receitas. Não vai ser fácil para muitos. Independentemente das medidas conjunturais que estão a ser tomadas esta é uma boa oportunidade para pensar o que se pode fazer no futuro. E uma das mais simples e evidentes ajudas que o Estado pode dar é criar uma nova Lei do Mecenato , que seja mais fácil de usar para criadores, entidades e mecenas - privados ou empresariais. Há muitos modelos dignos de estudo no mundo e todos passam por uma mesma coisa - incentivos fiscais para os mecenas, taxas reduzidas para os criadores. No caso das artes plásticas há coisas tão absurdas como a dificuldade que é uma empresa comprar obras de arte, podendo considerá~las como custo - tal como outras partes do seu imobilizado. O efeito na receita fiscal do Estado é ridículo, mas esta medida, por si só, permitiria alargar o mercado. É nestas questões que vale a pena pensar para o futuro. Na imagem que acompanha estas palavras está a exposição de Sara Bichão na Galeria Filomena Soares, que foi montada mas nem sequer chegou a ser inaugurada. Podem ver mais em http://gfilomenasoares.com/

 

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PLAYLISTS - Embora em casa, não temos que ficar confinados nem aos nossos discos nem ao que o Spotify nos quiser dar . Sugiro-vos que naveguem pela plataforma Mixcloud, onde DJ’s de todo o lado (incluindo muitos portugueses) e algumas entidades ligadas à música fazem autênticos programas de rádio. A ideia é ouvirem selecções musicais, de vários géneros, playlists bem elaboradas. As possibilidades são imensas, por isso vale a pena explorar bem a plataforma - tem uma aplicação que funciona muito bem em smartphones. Lá poderá descobrir por exemplo o Ronnie Scott Radio Show, preparado pelo lendário clube de jazz de Londres, ou listas de DJ’s portugueses, como a Mixtape Nação Valente de MdeMonica Mendes, ou as Sleeping Dogs Lie de Miguel Santos, a Eclética de Lucinda Sebastião, a Estrada do Guincho de Lucio (José Lucio Duarte) ou ainda as Dance Sessions de João Vaz. Algumas destas listas têm dezenas e até centenas de emissões diferentes, muito moldadas obviamente aos gostos dos seus autores. Em todos estes exemplos a música é boa e as sequências apresentadas são muito bem pensadas. São programas de autor como já é raro ouvir hoje em dia na rádio. Nestes dias tenho acompanhado o trabalho diário de um DJ do Porto, há muito ligado à música e à descoberta de músicos, Pedro Tenreiro. A sua Quarentena Funky tem sempre capas bem escolhidas (como esta que aqui se reproduz) e o que ele propõe é soul e funk do melhor. Muito bom para animar o ritmo destes dias - uma sempre renovada pista de dança em casa.

 

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MISTÉRIOS NÓRDICOS - Bem sei que estes tempos já são bastante misteriosos. Mas por isso mesmo pode ser boa ideia pegar numa boa história dos tempos de guerra, ainda por cima baseada em factos reais. Henry Rinnan é a personagem central de “Léxico da Luz e da Escuridão” e torna-se odiado por ser um agente duplo que mata noruegueses para os nazis. O seu autor, Simon Stranger, é um prestigiado escritor norueguês e o presente livro, agora editado pela Quetzal, com boa tradução de João Reis,  foi galardoado com o Prémio dos Livreiros Noruegueses. A história desenrola-se a partir de uma acaso: a família da mulher do escritor, depois da guerra, vai morar para a casa que serviu de quartel general a Rinnan, onde ele próprio vivia e onde os resistentes noruegueses que ele entregava eram torturados. É uma visita a um passado sombrio, um retrato duplo de um traidor criminoso e de uma família que havia sido devastada pela guerra - o bisavô da mulher de Stranger morreu depois de ter sido entregue pelo próprio Rinnan. A família acaba por descobrir a história terrível da casa para onde foi morar, o que cria tensões enormes. Muito bem escrito, o livro é passado na cidade de Trondheim, que quase ficamos a conhecer pela minuciosa descrição dos locais. Envolvente do princípio ao fim, este é um daqueles livros que não se consegue largar até terminar.

 

OS MERCADOS - Na maior parte dos supermercados e nas grandes superfícies há filas e muitas vezes há falta de produtos, nomeadamente frescos. Nesta semana entrei num mercado tradicional e quase ninguém lá estava, além dos vendedores nas suas bancas. E as bancas estavam bem fornecidas - de peixe, de carne, de fruta, de legumes e até de alguns produtos regionais. Alguém me explicava que muitos restaurantes abastecem-se nos mercados e agora, com o encerramento dos restaurantes, os mercados tradicionais tiveram um decréscimo de actividade. Vale a pena lá ir - comprei peras como ainda não tinha provado este ano e tomate coração de boi absolutamente fantástico. O tomate, maduro, temperado com um pouco de flor de sal fez as minhas delícias e foi um acompanhamento fantástico do peito de frango no forno, temperado com mel. A entrada consistiu nuns bons rabanetes cortados em fatias finas e temperados só com sal. Na mesma ocasião comprei também umas sumarentas laranjas que foram a base de uma salada que brilhou noutra refeição. Por cima das rodelas de laranja descascada coloquei filetes de cavala de conserva a que escorri o azeite. A coisa foi acompanhada por uma boa fatia de pão de mistura cozido em forno de lenha, que também veio do mercado. E as peras garantiram a sobremesa. O regresso aos mercados vale a pena. E quem os mantém vivos bem merece.

 

DIXIT -  “É preciso investir mais. Agilizar mais os procedimentos. É preciso uma estratégia clara a nível europeu, que oriente, apoie e reforce as respostas que estão a ser dadas pelos diferentes países. Temos de subir a parada à escala da ameaça que enfrentamos” - Maria da Graça Carvalho, eurodeputada.

 

BACK TO BASICS - “A crise realça a fragilidade do nosso sistema global, mas a reacção correcta é melhorar o sistema em vez de abandoná-lo”- Yuval Noah Harari.

 

 

 

 

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O VÍRUS DEU CABO DAS FOLHAS DE EXCEL

por falcao, em 20.03.20

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A CRISE - Em duas décadas já tivemos três crises severas neste século. A primeira com os ataques de 11 de Setembro nos Estados Unidos; a segunda com a crise financeira de 2008; e agora, a terceira, com o COVID 19. No 11 de Setembro de 2001 lembro-me de estar à hora de almoço num restaurante e ver, perplexo, os aviões a derrubar as torres gémeas de Nova Iorque. Nessa tarde, já a perceber melhor o que se tinha passado, pensei que o mundo nunca mais iria ser igual ao que era antes. Não me enganei. A geração que tem agora entre 20 e 30 anos viveu sempre na incerteza e isso explica muito da sua forma de pensar e agir. A crise desencadeada em 2001 gerou medo e insegurança físicas. Anos depois, em 2008, a crise financeira gerou medo e insegurança económica; agora, esta crise do COVID 19 arrisca-se a gerar insegurança e medo físicos e pânico na economia. Esta é  a maior insegurança destas crises dos últimos 20 anos, é a primeira vez em que, a milhares de mortes e a uma sensação de impotência do Estado, se junta a hipótese de colapso de uma série de economias de diversos países. O retrato da Europa nestas semanas não é bonito de se ver. A Comunidade responde pouco, o Banco Central Europeu acordou tarde quando comparado com a Reserva Federal Americana e os alemães, mais uma vez, assobiam para o ar à espera que a coisa passe. Mas é certo que os rendimentos vão diminuir, que o consumo vai cair. Tudo vai ser diferente. Este vírus deu cabo de todas as folhas de excel e os burocratas não sabem o que fazer. O que se vai passar a seguir? Adopto a sigla de uma amiga minha, médica, em situações de grande crise: LSV - logo se vê. As prioridades são viver, ajudar, reconstruir. 

 

SEMANADA - Quase dois em três portugueses declaram ser optimistas, revela um estudo da Marktest divulgado esta semana; segundo o Telenews da MediaMonitor, o noticiário sobre o COVID 19 continuou a ser dominante na semana passada, tendo-se registado  um total de 1059 notícias e 42 horas de emissão sobre este tema; foram encontradas 1680 caixas de esteroides anabolizantes num descampado em Elvas; o Tribunal de Contas desconfia do regulador da aviação civil que tem à sua frente gestores da maior empresa regulada por esse organismo, a ANA; o Tribunal Constitucional defendeu que facilitar a prostituição não deve ser crime; os resultados líquidos dos CTT subiram 35,8% desde que a empresa mudou de liderança em Maio do ano passado e registaram lucro de 29 milhões de euros; o montante de novos créditos ao consumo aumentou cerca de 13% no final de Janeiro, em relação a igual período do ano passado; o Festival da Eurovisão foi cancelado; o Euro 2020 foi adiado para 21; o debate instrutório da Operação Marquês foi adiado sine die; a Auto-Europa suspendeu toda a produção até 29 de Março; o controlo de fronteiras foi reintroduzido em Portugal;  António Costa disse que o país não vai parar; Fernando Medina não disse nada sobre Lisboa.

 

BOA IDEIA - Na Índia várias operadoras de comunicações substituíram os toques de telefone (ring tones) por mensagens de 30 segundos com conselhos sobre como evitar o COVID 19.

 

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A PINTURA - Não podemos viajar, mas podemos ver belíssimas obras on line. Escolhi esta porque me parece adequada ao nosso estado de espírito. “The Night Watch”, “A Ronda da Noite”, é uma obra de Rembrandt, criada em 1642, e que tem a curiosidade de ser uma das primeiras pinturas a retratar um grupo de pessoas em acção, no caso diversos guardas que se preparam para actuarem. A utilização da luz é extraordinária, a dimensão da obra é imponente. A pintura mede 380 cm de altura e 454 cm de largura e mostra a milícia do capitão Frans Banning Cocq no momento em que este dá a ordem para marchar ao alferes Willem van Ruytenburch. Atrás deles aparecem os 18 integrantes da Companhia. Está exposta em Amsterdão, no Rijksmuseum. Graças à iniciativa da Google Arts & Culture pode não só visitar este e outros grandes museus, mas também, no caso desta obra, pode observar com atenção os pormenores, acompanhados por informação, que ajuda a compreender o tempo em que foi criada. Vale a pena visitar o site artsandculture.google.com, uma iniciativa feita em conjunto com a Unesco, e ver o que oferece em matéria de visitas virtuais a locais históricos, museus, colecções de arte e géneros artísticos, entre muitas outras coisas.

 

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A VIDA - O álbum “async”, de Ryuichi Sakamoto, foi editado em 2017, após quase oito anos sem discos do músico japonês. São 14 temas, muito ambientais, que retratam os anos difíceis de luta contra um cancro da garganta. As canções são sóbrias, como sempre,  com produção e arranjos discretos. Há uma canção em particular que é a razão desta escolha, “Life, Life” - um hino tranquilo à necessidade de superarmos os dias mais complicados, pensando na vida. A voz é a de David Sylvian, um colaborador de longa data de Sakamoto. É o décimo sexto álbum a solo do autor, bem diferente da fase mais pop de há alguns anos. Em “async”, disponível no Spotify, melodias e texturas sonoras - a grande matéria prima da obra de Sakamoto - desenvolvem-se de forma natural, colando os temas uns aos outros. Sakamoto, um homem que fez algumas das mais marcantes bandas sonoras para cinema (Merry Christmas Mr. Lawrence, The Last Emperor ou The Revenant), diz que concebeu este disco como uma banda sonora imaginária para um filme de Andrei Tarkovsky. “Life,Life”, a canção que marca o disco, foi feita a partir de um poema do pai do cineasta, o famoso poeta russo Arseny Tarkovsky. Aqui fica um excerto do que Sakamoto escolheu e Sylvian interpretou:

To one side from ourselves, to one side from the world

Wave follows wave to break on the shore

On each wave is a star, a person, a bird

Dreams, reality, death - on wave after wave

No need for a date; I was, I am, and I will be

Life is a wonder of wonders

 

O Velho Expresso da Patagónoa - Terra Incognita (

A VIAGEM - “O Velho Expresso da Patagónia”, uma das obras de referência de Paul Theroux, foi editado em 1979 e chega agora a Portugal pela mão da Quetzal na colecção Terra Incógnita, que a editora  criou para reunir “títulos e autores que desprezam a ideia de turismo e fazem da viagem um modo de conhecimento.” Paul Theroux tinha acabado de publicar “O Grande Bazar Ferroviário”, em 1975, quando iniciou a escrita deste livro prodigioso: entrar na estação de metro mais perto de casa arrastando a mala, mudar para o comboio daí a pouco e percorrer dois continentes inteiros, a América do Norte e a América do Sul… até terminar às portas da Patagónia e da Terra do Fogo, onde chegava o pequeno e velho comboio que designa como Expresso da Patagónia”.

Este livro, que chega oportunamente quando viajar está a ficar um prazer proibido, é considerado uma referência central e indispensável que mudou a história da literatura de viagens. A narrativa relata a viagem, de comboio em comboio, de fronteira em fronteira, do México à Costa Rica, do Panamá à Guatemala e aos Andes até à mítica linha ferroviária da Patagónia argentina. «Theroux não embeleza nenhum cenário, não se comove com romantismos literários, não cede nunca: quer procurar histórias e entrevistar gente que não figura nos romances», escreve Francisco José Viegas o editor da Quetzal, na introdução ao livro.



A COZINHA - Estamos pois confinados às nossas casas, façamos o melhor da situação. Esta é uma boa ocasião para vasculhar a dispensa e despachar algumas das coisas que estão por lá. Hoje estou numa de latas e nesta semana dedico-me às conservas e começo pelas de atum. Desde que seja uma das felizmente numerosas boas marcas, qualquer serve e nem tem que ser atum ao natural (o Tenório em azeite é o meu preferido). Ingredientes para quatro pessoas: duas latas de atum, conteúdo escorrido e desfeito; uma lata de tomate em cubos (prefiro) ou triturado; gengibre fresco; alcaparras ou azeitonas aos pedaços; azeite; esparguete ou tagliatelle. Coloque pedaços finos de gengibre fresco no azeite, acrescente o tomate e deixe cozinhar em lume brando, até borbulhar. Não uso propositadamente cebola para a coisa ficar mais leve, mas, se quiserem, experimentem cortar umas rodelas finas de alho francês e usem-no como base, junto com o gengibre, antes de deitarem o tomate. Nessa altura, já a borbulhar deito o atum desfeito e as alcaparras ou azeitonas e mexo tudo bem.  Ao lado cozam em água abundante, já a ferver, temperada com sal e um fio de azeite, a quantidade de massa que entenderem necessária durante o tempo recomendado para cada marca (eu tiro-a sempre um minuto antes não só para ficar al dente, mas também para acabar de cozinhar no molho). Depois de escorrida a massa atirem-na para dentro do molho, envolvam-na bem e deixem acabar de cozinhar mais um minuto antes de a levarem para a mesa. Pimenta a gosto, um pouco de cebolinho também não fica mal. É um petisco simples e rápido de preparar. Cozinhar não deve ser um stress - mas sim um momento criativo. Juntem outros ingredientes, usem outras massas, coloquem outras coisas no molho. Divirtam-se.



DIXIT - "Só se salvam vidas e saúde se entretanto a economia não morrer" - Marcelo Rebelo de Sousa

 

BACK TO BASICS - “No caso de doença generalizada há duas coisas a fazer: ajudar a curar e evitar piorar as coisas” - Hipócrates

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Quando este artigo foi escrito a crise gerada pelo COVID 19 só se desenhava. Não retiro uma linha do que escrevi. Mas reforço aqui o apelo a que todos colaboremos para diminuir os riscos de propagação e para aumentarmos o apoio que podemos dar uns aos outros. Reforço aqui a citação da grande investigadora que foi Marie Curie e que é hoje o Back To Basics:  “Nada na vida é para ser temido, mas sim para ser compreendido”.

 

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UM PAÍS DESIGUAL - As palavras que se seguem não são minhas, são de uma intervenção de Carlos Guimarães Pinto, ex-líder da Iniciativa Liberal, numa conferência recente sobre “Novas Desigualdades”.  É uma análise poucas vezes feita. E certeira. Excertos: “Há uma opção política clara de concentrar o poder político em Lisboa, de concentrar os negócios do estado na capital. Tendo o estado um peso tão grande na economia, esta concentração arrasta inevitavelmente o poder económico, e ambos arrastam o poder mediático. O centralismo garante que o poder no país está concentrado num pequeno círculo de pessoas distante do escrutínio da maioria, facilitando redes de nepotismo e corrupção. (...)  Cada vez mais a elite é um círculo fechado controlado por meia dúzia de famílias e dois ou três grupos mais ou menos secretos. A esmagadora maioria das pessoas neste país, por muito bons que sejam, não podem aspirar a chegar a altos cargos na política ou nas empresas. Esta ausência de meritocracia tem implicações graves na forma como o país e as grandes empresas são geridas. Para termos os melhores no topo, o acesso a esses lugares não pode estar restrito a quem tem o apelido certo ou pertence a uma qualquer organização secreta. Para além de aprofundar desigualdades, a concentração de poder faz com que se desperdice muito capital humano. Há um eixo de Braga a Coimbra onde se concentra muita da criação de conhecimento do país e, acima de tudo, onde ainda se vai concentrando uma boa parte da população jovem. Mas nesse eixo, onde se formam os jovens da geração mais bem preparada de sempre escasseiam as oportunidades de crescimento profissional. (...) Mais 5 anos e podemos ser o país mais pobre da Zona Euro. Daqui a 10 ou 15 anos poderemos ser o país mais pobre não só da Zona Euro como da União Europeia. Estamos num país centralista, com elevada carga fiscal onde redes de compadrio e nepotismo se substituem aos mecanismos de concorrência e mercado que deveriam guiar uma economia desenvolvida.”  É isto. É este o estado da Nação. 

 

SEMANADA - Mais de 60% dos hotéis do Algarve registam cancelamento de reservas; um quarto dos membros do Governo têm participações directas ou indirectas no capital de empresas e alguns dos casos não foram declarados no registo de interesses; a procura de cursos superiores de curta duração aumentou 21%; a Autoridade Nacional de Emergência e Protecção Civil emitiu um parecer desfavorável sobre o projecto do aeroporto do Montijo devido ao risco de acidentes com aves e aeronaves; os tempos de espera para marcações de exames e intervenções cirúrgicas levou mais de 700 mil portugueses a escolherem ser tratados em hospitais fora da sua área de residência; em Penamacor o presidente da Câmara forjou contrato com pais e irmãos da sua chefe de gabinete, e ex-vereadora, para dar cobertura a uma obra de quase 150 mil euros feita ilegalmente três anos antes; Portugal é o país da OCDE onde os custos com a habitação mais subiram; a maternidade depois dos 40 anos duplicou entre 2011 e 2018 devido à precaridade laboral; mais de metade dos bebés são filhos de mães solteiras; em Lisboa a esquadra de Turismo da PSP é a que tem mais denúncias de crimes; os transportes públicos de Lisboa são o serviço com os clientes mais insatisfeitos pelo sétimo ano seguido; nos últimos 15 anos centenas de processos da Relação de Lisboa foram distribuídos manualmente, o que agrava as suspeitas de viciação.

 

ARCO DA VELHA -  Segundo o “Correio da Manhã” a PSP está sem dinheiro para reparar viaturas e há agentes do Corpo de Intervenção que trazem papel higiénico de casa já que o mesmo não está por vezes disponível no local de trabalho.

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NORTE-SUL - Ana Vidigal faz uma incursão na pintura sobre papel, pouco frequente na sua obra mais recente onde a colagem tem estado mais presente. O resultado é a exposição “amor-próprio” que abre sábado no Porto, no espaço 531 do galerista Fernando Santos. A história é simples - Ana Vidigal aceitou o desafio do galerista e de Pedro Quintas para realizar uma série de trabalhos em pequenos formatos para esta exposição (na imagem). Vidigal não utiliza geralmente esse formato com dimensões de cerca de 100 X 70. Mas desta vez estabeleceu uma dimensão e forçou-se a esse exercício de atelier que pode agora ser visto nesta exposição intitulada “amor-próprio” constituída por 16 pinturas sobre papel de 14 de Março a 02 de Maio de 2020 no espaço 531 da Galeria Fernando Santos, no Porto. Outra sugestão é a exposição de José Pedro Croft, “1 nova, 2 nem tanto” que apresenta três esculturas, todas obras inéditas. A peça central é composta por camadas, evocando a imagem de uma cabana, uma espécie de abrigo primitivo constituído por  placas de ferro unidas duas a duas, juntas num ponto, e pintadas. No meio das placas, um conjunto de duas grelhas, recorda os desenhos de Croft e reforça a luz como parte da obra. As outras duas esculturas —uma em madeira, mármore e gesso e a outra em madeira e gesso— são ambas feitas a partir de portas reutilizadas que perderam a sua função original. De 12 de Março a 2 de Maio, na Galeria Vera Cortês, em Lisboa, de terça a sexta das duas às sete e no sábado entre as dez e a uma e dentre as duas e as sete.

 

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POP ROCK - Hoje o tema é música pop, de inspiração electrónica, feita por um duo originário de Brooklyn e que dá pelo nome de Overcoats. O seu segundo álbum  é “The Fight”, acabado de publicar e disponível no Spotify. Hana Elion and JJ Mitchell são as duas compositoras e intérpretes que constituem o duo, cuja estreia foi em 2017 com o álbum “Young”. No início basearam-se na conjugação de um pop de instrumentação electrónica com algumas influências do folk, sobretudo na forma de cantar. Neste novo disco os arranjos são bem diferentes, entram guitarras e bateria e sente-se uma produção onde o rock se faz sentir mais presente, como no no tema “The Fool”, que foi o primeiro single Os dez temas do álbum são bastante diversos entre si, incluem uma balada acústica como”New Shoes”, a encerrar o disco, e um envolvente “I’ll Be There”, onde os arranjos vão crescendo ao lado das vozes. Outros temas em destaque: “Apathetic Boys”, “Leave If You Wanna” e “Fire And Fury”.

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EPISÓDIOS DA JUSTIÇA - Nos últimos anos ouvi numerosas crónicas de rádio de António Canêdo Berenguel, que, na TSF, contava episódios curiosos e algo rocambolescos da justiça portuguesa ao longo dos séculos. Berenguel é advogado em Portalegre e tem-se cruzado com muitas histórias no exercício da sua profissão - mas foi nos fundos dos arquivos judiciais que encontrou algumas das mais incríveis e surpreendentes, ocorridas nos finais do século XIX e início do século XX. Com o título “Histórias da Justiça”, essa sua rubrica da TSF contava coisas que vão da passagem de notas falsas em ceroulas até casos de  barbeiros abortadeiros, passando por furtos de galinha, queijos ou presuntos. Há histórias inacreditáveis como a de um político local que mudou a hora nacional, ou de ex- namorados que foram parar ao tribunal por uma disputa de sabonetes. Os títulos das histórias narradas são por si só um episódio: “A açorda e a morte suspeita”, “O tigre chamado Porfírio vivia no Rossio da vila”, “O porco comeu-lhe a merenda”, “O oficial de justiça apaixonado”, “As cartas da mulher do juiz”, “as mãos por baixo das saias” ou “mordeu a sogra junto à virilha” são alguns deles. O mais delicioso de tudo está nas citações dos registos dos julgamentos, a transcrição de sentenças  ou de boletins do registo criminal. É um retrato de Portugal num determinado tempo - mas em muitos momentos estes parecem ser casos de sempre, que se vão repetindo. Na introdução o autor constata que olhando para o país de então e para o país de hoje, muito mudou e interroga-se: O que mudou no essencial? Que povo fomos e somos? Que justiça é esta e foi a outra? Que valores cimentavam os laços sociais? Segundo o autor, «as respostas estão nos processos, um acervo documental único e o retrato fiel do país ao longo de séculos”. Edição Guerra & Paz.

 

PETISCO - O Folar Limiano é o meu tema desta semana depois de ter levado um que fez sucesso num lanche de amigos há uns dias. Elaborado com carnes seleccionadas e enchidos tradicionais, como o lombo do cachaço, o chouriço de carne, a barriga fumada e o chouriço para grelhar, o seu maior segredo está na massa, regada com vinho verde de Ponte do Lima, que lhe confere um sabor e uma textura inesperados. Este Folar Limiano tem um peso aproximado de 650 gramas, é uma óptima ideia para um petisco de fim de tarde e mantém-se fresco alguns dias. As carnes têm um sabor intenso, a massa tem um paladar delicado numa consistência suave. A receita deste Folar foi criada pelo chef Vitor Lima, que está à frente da Casa do Folar Limiano, em Ponte de Lima. Outra das suas especialidades são os bombons limianos, elaborados a partir de chocolate belga, com recheio de vinho verde, aguardente velha. A casa do Folar Limiano fica na Rua Salvato Feijó em Ponte de Lima mas pode comprar o Folar em Lisboa na Garrafeira Néctar das Avenidas, Rua Pinheiro Chagas 50, nas Avenidas Novas em Lisboa. Aproveite que além do Folar tem lá bons queijos e uma excelente selecção de vinhos.

 

DIXIT - “O coronavírus vai ser a prova de algodão do Governo de António Costa. Pela qualidade do combate à epidemia se verá se ele é um político de mão cheia” - João Miguel Tavares

 

BACK TO BASICS - “Nada na vida é para ser temido, mas sim para ser compreendido” - Marie Curie



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A CONFIANÇA - “A meio da batalha não se mudam os generais” -  disse esta semana o Primeiro Ministro no Parlamento, a propósito das falhas registadas na actuação das autoridades de saúde e da necessidade de se mudarem os seus responsáveis. A situação provocada pelo Covid 19 está a mostrar as grandes lacunas que existem na coordenação, mas também na disponibilização de meios humanos e materiais e na articulação da informação a profissionais da saúde e público em geral. Em última análise a questão é a capacidade de o Estado desempenhar o seu papel em prol dos cidadãos. E, infelizmente como já aconteceu em situações anteriores - recordo apenas a falta de coordenação do combate aos incêndios 2017 - a obstinação de não mudar responsáveis quando surgem problemas não é uma boa ideia. A Ministra da Saúde, que tem tido um desempenho em geral fraco, é, em última análise, a responsável pelo que se está a passar e os seus desencontros com a Direcção Geral da Saúde são um sinal preocupante. O que está em causa aqui é a forma como vamos perdendo a confiança no Estado, como vamos aceitando passivamente que as coisas não funcionam. A resignação face a um Estado ineficaz é uma ameaça ao funcionamento da democracia e é o caminho que abre campo ao populismo.  Num país onde o funcionamento da justiça levanta tantas dúvidas, onde as finanças distorcem a realidade e onde a saúde defronta problemas graves, avolumam-se as razões para o descrédito do Estado. E isso nunca é uma boa notícia. O Estado que é omnipotente de um lado e ausente de outro é um perigo para todos.

 

SEMANADA - Os serviços postais apresentaram 28 mil reclamações em 2019, mais 18% do que no ano anterior e o atraso na entrega foi o motivo que registou uma maior percentagem de queixas; a dívida pública situou-se em 252,1 mil milhões de euros em janeiro, aumentando 2,3 mil milhões relativamente ao final de 2019; ao contrário do que a Lei prevê, as Finanças não publicam os encargos trimestrais do Estado com as PPP desde há um ano; o Sporting já teve 24 treinadores desde 2000 e sob a direcção de Frederico Varandas já teve seis em apenas um ano e meio; o presidente do Tribunal da Relação de Lisboa demitiu-se depois de surgirem suspeitas sobre a viciação dos sorteios de atribuição de processos, possibilitando a escolha de juízes de acordo com o interesse de uma das partes envolvidas; segundo o Eurostat Portugal está entre os países com sinais mais agudos de degradação do mercado de trabalho no arranque de 2020; Portugal tem quinta maior taxa de desemprego jovem da Europa; as chamadas por telefone fixo caíram 15% em 2019, a maior queda dos últimos quatro anos; os grandes contribuintes, com mais de 750 mil euros de rendimento ou património superior a cinco milhões de euros, aumentaram 34% em 2019; José Sócrates afirmou esta semana à saída do tribunal onde foi interrogado, que as perguntas do juiz sobretudo aquelas sobre umas férias no Algarve, eram "perguntas ridículas".

 

ARCO DA VELHA - Uma médica afirma ter telefonado 44 vezes para a Linha de Apoio Aos Médicos sobre o Covid 19 sem ter conseguido obter qualquer resposta e a linha Saúde 24 não atendeu 25% das cahamadas no pico da crise.

 

Barbara AP - Frente.jpg

DESENHOS NATURAIS - Esta semana sugiro uma ida à Galeria Monumental, que inaugurou recentemente duas exposições. A primeira mostra desenhos de Bárbara Assis Pacheco (na imagem), fruto das suas viagens, mas também das suas preocupações ambientais, baseadas na observação persistente da natureza. Num texto recente sobre uma das suas exposições dizia-se que Bárbara Assis Pacheco concorda com Goethe quando ele diz que «falamos demasiado — devíamos falar menos e desenhar». A artista é mesmo bastante lacónica e resume-se a si própria em quatro palavras: «Faz desenhos e coisas». A segunda exposição da Monumental tem um título retirado de um poema autobiográfico de William Wordsworth, “...quando as nuvens são pelo vento arrastadas do seu lugar favorito, onde descansam...” e usa livros em mau estado encontrados em alfarrabistas como a matéria prima, sobre cujas páginas a artista trabalhou. As duas exposições ficam patentes na Monumental até 28 de Março (Campo dos Mártires da Pátria 101). Outras sugestões: até sábado dia 7 ainda poderá ver na Fundação Carmona e Costa a exposição  ”The I Of The Beeholder” do colectivo Musa Paradisíaca, composto por Eduardo Guerra e Miguel Ferrão (Rua Soeiro Pereira Gomes, Lote 1). Para uma experiência perfeitamente diferente recomenda-se o Museu do Dinheiro, aberto em abril de 2016, distinguido em 2017 como “Melhor Museu do Ano” pela Associação Portuguesa de Museologia e que em 2019, cerca de 75 000 visitantes, interessados em saber mais sobre o dinheiro, a sua história e a sua evolução, em Portugal e no mundo. O Museu abriu agora um novo núcleo, “Compreender”, dedicado a explicar  a finalidade do Banco de Portugal, que ganhou relevância nos últimos anos pelos grandes contributos para a crise do sistema financeiro português (Largo de S. Julião).

 

image (2).png

MÚSICA DARK - Pesadelos, fantasmas, espíritos errantes são os personagens recorrentes das canções de Agnes Obel, uma dinamarquesa com um estilo musical muito próprio, uma voz entre o murmurado e o sinuoso e arranjos instrumentais austeros, com larga utilização de electrónica. Obel tem feito bandas sonoras para algumas séries de televisão dinamarquesas e alemãs, como The Rain e Dark, e até jogos video, como o violento Dark Souls III: The Fire Fades Edition . O seu novo disco, “Myopia”, foi editado pela Blue Note, está disponível no Spotify e foi escrito, tocado, produzido e misturado integralmente pela própria Agnes Obel, que assegurou a voz, piano, teclas, sintetizadores e caixas de ritmos. O primeiro tema do disco dá logo o mote na forma como Obel canta e no clima sonoro que encenou e que se adensa depois. Destaque para “Island Of Doom”, “Roscian”, para a faixa-título “Myopia” e para a última faixa, “Won’t You Call Me”, onde a voz de Obel e o piano se envolvem reforçando um ambiente de mistério, que afinal, é o de todo o disco. Música de câmara pop fantasmagórica é como uma das críticas descreve este “Myopia”, o quarto disco da autora.

 

O homem que comia tudo.jpg

RECEITAS & PETISCOS - Desde há bastante tempo que sigo o blogue “O Homem Que Comia Tudo”, do jornalista Ricardo Dias Felner, onde ele vai relatando as suas avaliações sobre restaurantes, petiscos ou coisas tão triviais como iogurtes de supermercado. Aí escreveu guias esclarecedores sobre, por exemplo, o bacalhau que por cá se come e anualmente atribui os prémios Cometa que têm uma extensa lista de nomeações, que vai das melhores sardinhas de conserva até à melhor sobremesa ou melhor empregado do ano. É uma lista incontornável. Agora “O Homem Que Comia Tudo” passou a livro, pela mão da Quetzal, e com o subtítulo “Aventuras culinárias, receitas e restaurantes de Portugal e do mundo”. A nota de introdução ao livro, uma citação de um dos textos de Felner, é por si só todo um episódio: “Se vou em viagem de carro e passo por um boi, começo logo a apreciar os cortes: o lombo, o acém, as abas gordas. No Oceanário toda a gente de volta dos tubarões e dos peixes coloridos e incomestíveis e a única coisa que me detém são as garoupas gordas, as douradas, os pargos”. E depois vem a contextualização da música e da comida, que é uma coisa que me toca muito - de John Cage o autor escolheu a citação “Cheguei à conclusão de que podemos aprender muito sobre música se prestarmos atenção ao cogumelo”; e, de Black Francis, dos Pixies: “ O nosso amor é arroz e feijão e banha de cavalo”. Citações à parte, o livro começa por uma cachupa, passa pelas sardinhas e carapaus e acaba na lagosta, descrita como  o insecto aquático da aristocracia”. Há avaliações de lugares, manuais de instrução para cozinhar, um guia de produtos culinários e considerações sobre a arte da restauração e da comida. Corro o risco de dizer que o livro é tão delicioso como as comidas de que fala com o maior empenho.

 

PÃO COM MANTEIGA - Hoje dedico-me ao pão - e, voltando ao livro de Ricardo Dias Felner acima citado, ele recorda a busca da perfeita baguette em Paris e elogia a baguette da padaria Isco, em Alvalade, na rua José de Esaguy 10. Claro que há outras boas padarias como a incontornável Gleba (Rua Prior do Crato 4, a Alcântara). Mas, voltemos à baguette e à geração de novas padarias que apostam em retomar a tradição da fermentação lenta. Encontrar uma baguette estaladiça é um exercício de perseverança e continuo a considerar que as baguettes são a melhor matéria prima para fazer boas sanduíches. Procurem-nas, então no Isco e já que estão em Alvalade vão ao mercado local, ali perto, e pesquisem queijo ou charcutaria do vosso agrado para rechear a baguette - naquele mercado há das melhores bancas lisboetas para esses produtos - também há bom pão regional, do pão de milho tradicional do norte do país ao pão de centeio.  Como curiosidade não resisto a recordar que a CNN considerou recentemente o pão de milho português como um dos 50 melhores pães do mundo e o da Gleba é muito bom. Se não tiver paciência de ir à Gleba ou ao Isco pode experimentar outras possibilidades. Por exemplo, um dos melhores pães alentejanos, que está disponível em vários supermercados, é produzido pela Fermentopão de Beja, tem uma massa saborosa, com o toque ázimo tradicional e é fácil de encontrar em Lisboa. Outra hipótese, de género diferente, mas também de muito boa qualidade, é o Pão da Lagoinha, produzido pela Maranata, em Palmela. São duas variedades de pão feito com recurso às receitas tradicionais das respectivas regiões, cozinhados diariamente sem recurso às massas congeladas que abundam em muitos locais. São óptimos consumidos frescos em fatias finas para petiscar com queijo, boas azeitonas ou presunto e muito bons, no dia a seguir, em fatias mais grossas, para torradas matinais - com manteiga Rainha do Pico, dos Açores, claro.

 

DIXIT - “Ninguém tira a Nuno Artur Silva o mérito de ter criado as Produções Fictícias e de ter gerido tantos talentos e tantos egos. Mas virtudes passadas não apagam vícios presentes. O equilibrismo que anda a tentar fazer desde 2015 entre cargos públicos e negócios privados não tem defesa possível.” - João Miguel Tavares

 

BACK TO BASICS - “O silêncio é a virtude dos idiotas” - Sir Francis Bacon.






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