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A GERINGONÇA DE LISBOA E A HABITAÇÃO

por falcao, em 06.04.23

 

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A LINHA VERMELHA - Na semana passada Carlos Moedas apresentou, pela segunda vez, a proposta de dar isenção de IMT a jovens de menos de 35 anos que comprem casas em Lisboa até 250 mil euros. Pela segunda vez, toda a oposição - PS, PCP, BE e Livre - chumbou esta proposta. Simultaneamente estes mesmos partidos apoiavam e promoviam uma manifestação que se apresentava como sendo pelo direito à habitação. Este é apenas o mais recente episódio da forma como a geringonça continua viva e actuante em Lisboa, a impedir reformas, desligada da realidade. Recordo que o problema da habitação, da gentrificação e do impulso aos alojamentos locais se aprofundou durante a governação do PS, de Costa e Medina. Em Lisboa há uma oposição que não respeita o princípio de não deixar governar quem ganhou as eleições. Reparem nisto: muita gente fala da importância de não passar linhas vermelhas na política. Mas foi o PS, na geringonça, o primeiro a pisar uma linha vermelha ao praticar uma política de alianças, que como se viu ainda mantém na Câmara Municipal de Lisboa, apoiada por forças políticas que têm uma concepção muito sui generis da democracia. Uma delas, o PCP, é pró-Putin, concorda com a invasão da Ucrânia, fica silencioso sobre a perseguição da oposição na Rússia e sobre a perseguição a minorias étnicas no seu território. Nisso, não é diferente de um Chega, que discrimina minorias, é pró-Bolsonaro e pró Trump. Em termos gerais estão bem um para o outro e nenhum deles é local que as pessoas sérias desejem frequentar. Já agora vem a propósito recordar uma sondagem conhecida na semana passada e que se traduz numa grande queda de intenções de voto no PS e num substancial aumento das mesmas intenções no Chega. Vários analistas disseram o que é evidente: o descontentamento com o PS é o que está a alimentar o Chega.

 

SEMANADA - No final do Governo de Passos Coelho cerca de um milhão de portugueses não tinha médico de família e agora, ao fim de vários anos de Governo de António Costa o número subiu para 1,6 milhões; mais de metade dos idosos não é seguida nos centros de saúde; os internamentos por anorexia triplicaram nos últimos cinco anos;  de acordo com os dados avançados pela Ordem dos Médicos, havia no fim do ano passado um total de 4.503 médicos estrangeiros inscritos, a maioria dos quais são espanhóis, seguidos por brasileiros; Portugal foi o país da zona euro que teve a inflação mais alta devido ao aumento dos preços dos produtos alimentares; o aumento homólogo em fevereiro do preço dos produtos alimentares não transformados foi de 20,1%, o mais elevado desde 1990; as investigações sobre lavagem de dinheiro quase triplicaram em três anos; o abuso de crianças  é o crime sexual mais praticado e a maioria das vítimas tem entre 8 e 13 anos; os crimes em contexto escolar alcançaram em 2022 o valor mais alto dos últimos seis anos; a greve dos funcionários judiciais iniciada a 15 de Fevereiro já provocou o adiamento de mais de 20 mil diligências e o respectivo sindicato anunciou que irá continuar com a greve pelo menos até meados de Abril; quase dois terços dos portugueses deram nota negativa ao Governo numa sondagem recente; segundo o eurodeputado do PS Pedro Marques “Costa é o grande autor moral da mudança” na Europa; a dívida pública portuguesa voltou a subir em Fevereiro e atinge agora os 279 mil milhões de euros.

 

O ARCO DA VELHA - Coisas da maioria absoluta: o executivo conseguiu no primeiro ano da actual legislatura ter mais projectos aprovados na Assembleia da República do que todos os outros partidos somados.

 

01_Marina di Ravenna, 1986 © Eredi di Luigi Ghi

AS PAISAGENS  - Esta semana o destaque vai para “Obra Aberta” , a primeira exposição do fotógrafo italiano Luigi Ghirri em Lisboa, reunindo setenta e nove fotografias produzidas na década de oitenta do século passado, e que fica na Garagem Sul, do CCB, até 4 de Junho (na imagem, Marina di Ravenna, de 1986 © Eredi di Luigi Ghirri). É uma seleção inédita de fotografias, com curadoria de Pedro Alfacinha, provenientes de trabalhos independentes, de diferentes momentos ao longo de uma década. Quase todas estas imagens aparecem sob o desígnio de Paesaggio Italiano,  a ideia que guiou  a totalidade da obra de Ghirri: uma obra aberta, uma nova forma de fazer fotografia e de olhar o mundo e que ainda hoje influencia outros artistas. Destaque também para a exposição “Algum Desenho a partir de Gaetan, obras da colecção Alberto Caetano”, que está patente na Galeria Principal da Casa da Cerca, em Almada. Na Brotéria (Rua de S. Pedro de Alcântara 3, em Lisboa) Paulo Brighenti e David Gonçalves apresentam “Braço Cruzado”. No Porto, em Serralves, pode ser vista uma retrospectiva de Carla Filipe, “In My Own Language I Am Independente”. A sua obra, onde o desenho tem um peso importante, explora a relação entre objetos de arte, cultura popular e ativismo. O destaque final vai para a exposição do norte-americano Jonathan Monk que está na Galeria Cristina Guerra (Rua de Santo António à Estrela 33, Lisboa). “Sunset On Sunset” é uma visão de uma cidade, 19 obras onde a fotografia serve de suporte à utilização da pintura, todas tendo por base Los Angeles e o Sunset Strip, algures entre o trabalho que Ed Ruscha ali desenvolveu e as explorações de Bruce Nauman.

 

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UMA MULHER DESLUMBRANTE - Natália Correia foi uma mulher intensa, excessiva, criativa, iconoclasta, rebelde. E foi, além de uma grande poeta, uma mulher activa na sua sociedade, amante de tertúlias, palavras certeiras sempre na ponta da língua em qualquer polémica, como aconteceu quando foi deputada nos anos 80. Filipa Martins, escritora e jornalista, que já havia sido co-autora do argumento da série da RTP1 “3 Mulheres”, onde as vidas de Natália Correia, Snu Abecassis e Vera Lagoa se cruzam, escreveu ao longo dos últimos anos a biografia de Natália Correia. O título que lhe deu “O Dever de Deslumbrar” evoca um dos poemas de Natália. Ao longo de cerca de 600 páginas esta biografia percorre a vida da poeta, desde que nasceu, nos Açores, em 1923, até à sua morte súbita, em 1993. A organização da biografia está dividida em oito décadas, percorre as suas amizades, as suas lutas, os seus amores e desamores, os livros que editou, as peças de teatro que escreveu, as guerras travadas com a censura. Foi jornalista e aí deu os primeiros passos em 1945 com uma série de entrevistas a personalidades açorianas. Em 1976 aceitou o convite para dirigir a “Vida Mundial”, uma publicação de referência do grupo “Século”. O Botequim, o bar que fundou em 1971 tornou-se no seu quartel-general. Local de tertúlias e conspirações, entre a literatura e a política, após o 25 de Abril passou a ser o palco de todas as movimentações da época. Mas se a política marcou a vida de Natália, desde que aderiu ao MUD (Movimento de Unidade Democrática), logo na sua fundação, foi a poesia que lhe deu a dimensão com que hoje é recordada e, nesta biografia, cada um dos oito capítulos  começa por uma citação dos seus poemas. O livro termina com esta frase de Natália: “A poesia é o défice das nossas inibições. Viver poeticamente é viver as coisas em potência”. “O Dever de Deslumbrar”, de Filipa Martins, edição Contraponto.

 

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UMA VOZ ÚNICA - A norte-americana Cécile McLorin Salvant é uma das grandes vozes do jazz contemporâneo. Realizou há poucas semanas um concerto no CCB e já este ano lançou o álbum “Mélusine”, cantado em creoulo e em francês, e que é um dos grandes discos dos últimos meses. O álbum tem 14 faixas, dos quais cinco originais compostas pela própria Salvant, e nove versões de temas que vão desde o século XII até ao século XX. Salvant gosta de versões: já no álbum anterior, “Ghost Song”, ela tinha surpreendido com o tratamento que deu  a “Wuthering Heights”, de Kate Bush. Mas neste “Mélusine” vai ainda mais longe. Veja-se por exemplo a forma como interpreta “La Route Enchantée” de Charles Trenet ou “Il m’a Vue Nue”, de Mistinguette. Mas a versão mais surpreendente surge logo na faixa de abertura,”Est-ce Ainsi Que Les Hommes Vivent?”, de Louis Aragon e Léo Ferré, uma belíssima balada que vive apenas com piano e voz de Salvant. Dos cinco temas originais de Salvant destacam-se “Doudou”, cheia de ritmos latinos e a faixa que dá o nome do disco, “Mélusine”, baseada numa lenda do século XIV que conta a história de uma mulher que se transforma todos os sábados numa serpente, da cintura para baixo. Descubram este disco, está nas plataformas de streaming. E aproveitem para ouvir os trabalhos anteriores de Cécile McLorin Salvant.

 

A ARTE DO PEIXE - Ao longo dos anos fui-me habituando a frequentar um dos sítios onde se encontra melhor peixe na região de Setúbal. A coisa começou na Quinta do Conde, no Arpão, depois passou para O Pescador em Brejos de Azeitão, a seguir para o Dom Pescador em Palmela e agora, de novo, na Quinta do Conde, sob o nome Sabor & Arte. O elemento comum destas quatro localizações é o dono e inspirador destas casas, o Sr. Manuel. O segredo está em ter peixe fresco da melhor qualidade, bom marisco para quem quiser e, na cozinha, ter especial cuidado em confeccionar tudo com cuidado e arte, realçando os sabores. A nova casa está no sítio do Arpão original, mas foi bem redecorada, é simples e confortável, com uma esplanada para os dias que aí vêm. Nas entradas destaco as ameijoas à Bolhão Pato e aviso que a casa tem um emblema que deve ser provado: a canja de  garoupa com ameijoas, espinafres, e, claro, arroz. É muito saborosa, com peixe e bivalve abundantes. Uma boa aposta também são os filetes de peixe galo com uma excelente açorda de ovas. Outras possibilidades a ter em conta são linguadinhos ou pregado fritos com arroz de coentros. Fiquei curioso com um caril de vieiras, que ficará para próxima ocasião. O vinho da casa branco é o Catarina, a preço honesto, à base das castas Arinto, Chardonnay e Fernão Pires. Nas sobremesas destaque para a maçã assada e as farófias, familiares. Na sala o Sr, Manuel garante que o serviço é atento. Um bom regresso às lides, neste  Sabor & Arte, Avenida Aliados, Lote 1989, Quinta do Conde, telefone 964402657

 

BOM - A proposta da Iniciativa Liberal de acabar com a renovação da Certidão Permanente das empresas e dos custos da sua regular renovação.

 

MAU - O encerramento da linha telefónica para denunciar abusos sexuais na Igreja.

 

DIXIT - É melhor um Governo acossado que um Governo sem freio”- Luís Marques 

 

BACK TO BASICS - “Nunca me envergonho de citar um mau autor se o que ele diz for relevante” - Séneca

 




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