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Nas escadas de um prédio dei com este ramo de flores secas abandonado nos degraus. Creio que existem duas possibilidades: ou quem o recebeu não o quis, e deixou-o assim caído; ou quem o comprou para oferecer foi confrontado com alguma situação que o levou a largá-lo. Um ramo de flores abandonado, mesmo sendo secas as flores, é uma visão que evoca rupturas, é o testemunho de uma vontade de partilhar afectos que foi interrompida. Admito outra hipótese, de que gosto mais: foi deixado como uma secreta declaração de amor a alguém que ali vive. Ponho-me logo a imaginar uma paixão escondida, um amor clandestino alimentado a pequenos gestos. Ocorrem-me estas ideias assim, sabendo bem que serão publicadas neste Dia dos Namorados. O ramo apareceu-me no caminho, não o procurei. Por isso mesmo não resisto a citar este pequeno excerto de “Sossega Coração: Cartas de Amor”, um livro recentemente editado e que relata a correspondência apaixonada entre o poeta Friedrich Hölderlin e a sua amante Susette Gontard em finais do século XVIII: “Não me sai da cabeça a palavra “acaso” que usei e que não me agrada , soa a pequena e frieza, no entanto não consigo encontrar outra. Podemos também dizer que o secreto encantamento das coisas constitui para nós algo a que chamamos acaso e que, no entanto, é necessário. Por causa da nossa miopia, de nada, a esse respeito podemos ter um conhecimento antecipado e admiramo-nos quando as coisas acontecem de modo diferente do que tínhamos pensado.“ Este ramo de flores terá sido um desses acasos?
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