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DESCALABRO -  A rotina portuguesa é esta: não há semana em que não surja um escândalo - seja de corrupção entre os políticos, seja em clubes de futebol. Chegámos a um ponto em que tudo parece ser permitido, em que existe um sentimento de impunidade que faz uma mistura explosiva quando aparece combinado com irresponsabilidade, como tem sido o caso. Os acontecimentos desta semana no Sporting, outros de semanas anteriores no Benfica, mostram isto mesmo. Tudo se passa como se os clubes de futebol tivessem deixado de ter direcções e passassem a ser governados por claques descontroladas.  Clubes que deviam ser uma referência inspiradora de bons comportamentos desportivos passaram a exemplo do que não pode acontecer. O que se passou no Sporting é, a esse nível, particularmente grave - trata-se de agressões a jogadores em duas ocasiões: dia 13, nas garagens do estádio, depois da chegada da Madeira, e dia 15, nas instalações da Academia, em Alcochete. Nos dois casos as agressões realizaram-se em instalações do Sporting, perante a ausência ou indiferença da segurança que aí devia existir - e que devia ser investigada por ter permitido o que se passou. Vale a pena ler estas duas citações - a primeira é de Bruno de Carvalho:  “Foi chato mas amanhã é um novo dia e temos que perceber que o crime faz parte do dia-a-dia”; e a segunda foi proferida pelo Presidente da República : “São acontecimentos graves que não podemos normalizar ou banalizar sob pena de permitirmos escaladas que são más para o desporto português e para a sociedade portuguesa no seu todo”. O desporto profissional, que devia ser uma motivação e um exemplo de fair-play, transformou-se em Portugal num vale tudo governado por arrivistas que se julgam acima da lei. Isto já não é desporto.

 

SEMANADA - Para fazer aumentar o número de alunos universitários no interior do país, o Governo vai cortar 1100 vagas em cursos superiores em Lisboa e Porto no próximo ano lectivo; menos de metade dos meios aéreos de combate a incêndios estão activos no início da fase de alerta, que começou dia 15; a carga fiscal em Portugal atingiu no ano passado o valor mais elevado desde 1995, cifrando-se em 34,7% do PIB; no primeiro trimestre o PIB português cresceu abaixo do previsto, numa travagem superior às estimativas oficiais; o decreto-lei de execução orçamental para 2018, foi publicado quarta-feira com dois meses e meio de atraso face ao prazo imposto por lei; as baixas médicas aumentaram 32% em quatro anos; há mais de 136 mil jovens e crianças sem médico de família atribuído; em 2017 os portugueses realizaram operações de multibanco - levantamentos e pagamentos - a uma média de 1,5 mil milhões de euros por dia, mais 118,3 milhões por dia que em 2016;  registam-se 992 novos registos por dia para apostas online; os processos em papel nos tribunais têm um custo de 20 milhões de euros por ano, dos quais 18 milhões são em despesas de correio; nos novos programas de ensino de História a adesão à CEE e a herança muçulmana quase desaparecem da disciplina de História.

 

ARCO DA VELHA - A associação Capazes recebeu 73 mil euros de fundos europeus para organizar cinco conferências com a duração total de sete horas e meia, num processo que decorreu ao longo de dois anos e que requereu dois funcionários a tempo inteiro.

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FOLHEAR - Manuel S. Fonseca, o editor da Guerra & Paz, iniciou uma colecção baseada em antologias de textos de Fernando Pessoa e seus heterónimos, textos que se organizam em torno de um tema. Primeiro fez “Absinto, Ópio, Tabaco e Outros Fumos”,  agora pegou nas ideias de viagem sugeridas por Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Fernando Pessoa ou Bernardo Soares e deu-lhe o título “Tenho Medo de Partir”. No fundo este livro retoma, em edição revista e acrescentada, o “Livro de Viagem”, publicado pela Guerra e Paz no final de 2009.  Esta colectânea começa pelo poema de Álvaro de Campos “Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir”, prossegue pela mão de Alberto Caeiro em “Para além da curva da estrada”, recorda com Ricardo Reis “Azuis os montes que estão longe param”, prossegue, pela mão do próprio Pessoa “No comboio descendente”, e com Bernardo Soares perde-se no “Devaneio entre Cascais e Lisboa”. No posfácio Manuel S. Fonseca classifica Álvaro de Campos como o viajante dramático, Alberto Caeiro como o viajante do lugar onde está, Ricardo Reis como o viajante imóvel, Bernardo Soares como o viajante nauseado e Fernando Pessoa como o viajante de si mesmo. Como dizia Bernardo Soares: “As viagens são os viajantes. O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos.”

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VER - E à terceira, foi de vez. Esta é a melhor edição da ARCO Lisboa, quer pelas obras expostas, quer pela diversidade e importância dos artistas expostos, portugueses e estrangeiros, quer ainda pela ampliação do espaço consagrado a projectos individuais de artistas ou a área dedicada a novas galerias - o Opening, este ano com 12 galerias, seis nacionais e seis de fora. Ao todo estão 72 galeristas de 14 países, cerca de mil obras, e ainda um espaço dedicado a editores e livrarias que trabalham com livros de arte. A Feira de Arte Contemporânea de Lisboa pode ser visitada até Domingo (sexta e sábado das 14 às 21h00 e domingo das 12 às 18h00). Organizada pela IFEMA, que criou a original ARCO Madrid, a edição lisboeta tem um núcleo importante de galerias espanholas, além de novidades como a Krizinger (de Viena) ou a Greengrassi de Londres. Além da presença na ARCO os galeristas lisboetas desenvolvem várias iniciativas nas suas próprias galerias e a organização incentivou uma série de programas paralelos aos quais os coleccionadores e críticos de arte estrangeiros convidados são estimulados a ir. O edifício da Cordoaria, integralmente ocupado pela ARCO, conta ainda com a novidade de uma colaboração com a Trienal de Arquitectura, que através do atelier JQTS criou no pátio central do edifício um pavilhão temporário que aloja o restaurante da feira. Outra novidade este ano  é a primeira edição da JustLX, promovida pela ArtFairs, que em Madrid organiza há nove anos uma mostra alternativa à ARCO. A JustLX está no Museu da Carris, perto da Cordoaria, acolhe 43 galerias, 15 das quais portuguesas e decorre também até domingo.

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OUVIR - Nels Cline  ganhou fama como guitarrista dos Wilco, um grupo rock de Chicago que ganhou notoriedade na segunda metade dos anos 90 e na primeira década deste século. A revista Rolling Stone considerou Cline como um dos melhores guitarristas de sempre. Há uns anos começou projectos a solo mais centrados na área do jazz . primeiro o álbum “Room”, feito em parceria com o também guitarrista Julian Lage e, a seguir, a sua estreia na editora  Blue Note com o duplo-álbum “Lovers”, onde contou com uma orquestra. Agora, de novo na Blue Note, apresenta “Currents, Constellation”, com um quarteto a que deu o nome Nels Cline 4. Depois da aventura orquestral retoma a colaboração com Julian Lage e foi buscar uma secção rítmica composta pelo baixista Scott Colley e pelo baterista Tom Rainey, que acrescentam considerável energia ao diálogo, rico, entre as duas guitarras eléctricas. Se o som de guitarra eléctrica muito bem tocada vos entusiasma, este é o disco que vale a pena conhecer. Todas as composições são de Cline, à excepção de “Temporarily”, um original de Carla Bley e por sinal uma das demonstrações mais claras do trabalho deste quarteto. Há um tema que vem do álbum “Room”, “Amenette”, há uma clara homenagem a Ralph Towner em “As Close As That” e para mim o tema mais fascinante é “River Mouth”. CD Blue Note, distribuição Universal.

 

PROVAR - Ver programas sobre comida, à noite, tem efeitos terríveis. Comecei a ver a série “Ugly Delicious” na Netflix e logo no primeiro episódio aparece a pizza napolitana. O resultado óbvio disto foi que no dia a seguir fui à procura de uma pizza à hora de almoço e o local escolhido foi um restaurante recentemente aberto na Duque de Ávila, o Pátio Antico. O nome ecoava-me na memória e depressa descobri porquê: o chef Rosario Corsa é quem, há uns anos, abriu e dirigiu o restaurante de nome idêntico em Paço de Arcos onde tive vários bons momentos. Com a casa original em obras, resolveu abrir este espaço em Lisboa. Fiz três incursões até agora e todas honraram as memórias passadas. A pizza napolitana que escolhi, na senda dos desejos inspirados pela televisão, estava como se deseja na consistência da massa (fofa nos bordos, fina no centro, bem assada) e na qualidade e equilíbrio dos ingredientes. Nas outras vezes provei os pratos do dia - fettucine com pesto e burrata, umas almôndegas com recheio de mozarela e presunto, acompanhadas por raviolis de ricotta e espinafres com um toque de trufa e um spaghetti puttanesca fiel à ideia original. As massas, frescas, preparadas diariamente, vêm cozinhadas no ponto. A lista de vinhos não é extensa mas tem  propostas equilibradas e o Lambrusco da casa é uma boa escolha - há também vinhos italianos e portugueses a copo. Da lista faz parte nas entradas um bom misto de enchidos e queijos italianos, há risottos de polvo e camarão, de espargos e cogumelos e um extraordinário de caranguejo e courgette, além de diversos spaghetti (nomeadamente com tartufo negro), pizzas e propostas de carne. Serviço muito simpático. Avenida Duque de Ávila 169D, telefone 213 530 290.

 

DIXIT - "Sócrates como primeiro-ministro não se interessou pelo combate à corrupção" - João Cravinho, ex-Ministro e ex-deputado do PS.

 

GOSTO - A Gulbenkian anunciou ir apoiar com 150.000 euros projectos de investigação jornalística.

 

NÃO GOSTO - O trabalho da RTP e das equipas de produção externa que contratou foi brilhante mas o Festival da Eurovisão continua a ser uma pinderiquice musical.

 

BACK TO BASICS - “O Amor é a expressão maior da vontade de viver” - Tom Wolfe.

 

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