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ADOPTAR POLÍTICAS DE RUPTURA

por falcao, em 26.08.22

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SEM REFORMAS NÃO HÁ PROGRESSO - Na semana passada a SEDES, uma associação que tem reflectido de forma exemplar sobre a nossa sociedade, e que tem repetidamente apresentado sugestões, desde o funcionamento do sistema político até à necessidade da reforma da Lei Eleitoral, passando pelo diagnóstico da economia portuguesa, anunciou que no dia 1 de Setembro apresentará um livro com um estudo intitulado “Ambição: Duplicar o PIB em 20 anos. O estudo preconiza menos impostos, mercado de trabalho mais liberalizado e uma profunda reforma do Estado. A SEDES reúne personalidades de diferentes sensibilidades políticas e é actualmente presidida por Álvaro Beleza, membro da Comissão Política do PS, médico, antigo membro do secretariado na direcção de António José Seguro, que foi um dos coordenadores da obra. Abel Mateus, o outro coordenador do livro, avisa logo que não vai ser fácil e admite  a necessidade de “alguns sacrifícios”: “Para se poder levar a economia de uma trajectória de quase estagnação a um crescimento médio de 3,5% ao ano, é essencial um período de transição, em que teremos de fazer alguns sacrifícios e adoptar políticas de ruptura que só fruirão totalmente no médio e longo prazo.” - sublinha. No fundo este estudo mostra mais uma vez a imperiosa necessidade de o Governo desenvolver políticas reformistas como única solução para o nosso crescimento. Mas, como infelizmente bem sabemos, António Costa prefere usar a maioria absoluta para calar opositores em vez de desenvolver políticas que permitam mudar a estagnação em que nos encontramos. Fazia bem em tomar atenção ao que a SEDES recomenda e em aprender o significado da palavra reforma.

 

SEMANADA - Um em cada três desempregados está sem trabalho há mais de dois anos; durante a pandemia as penhoras subiram 15%; até ao mês de julho já tinham sido atribuídos 135 vistos gold a cidadãos dos Estados Unidos; até ao final de 2021 viviam em Portugal quase sete mil norte-americanos; segundo o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras actualmente vivem em Portugal cerca de 256 mil brasileiros; no primeiro semestre de  2021 emigraram para o Reino Unido, apesar do brexit, cerca de seis mil portugueses, tantos como durante todo o ano de 2020; mais de 6500 enfermeiros  já apresentaram escusas de responsabilidade invocando falta de condições de trabalho; segundo o Eurostat, Portugal regista, no segundo trimestre deste ano, o quinto pior desempenho da Europa face ao final de 2019, com base nos indicadores do produto interno bruto (PIB) real (a preços constantes);  em 2021os portugueses ficaram em casa dos pais, em média, até aos 33,6 anos, enquanto a média da União Europeia é sair de casa aos 26,5 anos;  segundo a Pordata Portugal é o país da União Europeia onde o indíce de envelhecimento tem aumentado com maior rapidez; em 2022 a Polícia Judiciária já apreendeu 14 toneladas de cocaína; desde o início do ano já ocorreram 62 mortes em acidentes de trabalho, a maioria no setor da construção; a secretária de estado dos incêndios, Patrícia Gaspar, considerou um êxito que a enorme área ardida este ano estivesse abaixo de previsões feitas com recurso a um algoritmo que assim deu pretexto a transformar o péssimo em bom.

 

O ARCO DA VELHA - Cerca de cinco mil e quatrocentos milhões de euros foi quanto os contribuintes portugueses pagaram a mais de impostos no primeiro semestre de 2022, face a igual período de 2021, um crescimento de mais de 30% . Em 2021 Portugal registou a carga fiscal mais elevada de sempre.

 

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MISTÉRIOS - Não tenho época especial para ler romances policiais, mas reconheço que os dias de férias no verão são um excelente momento para tentar resolver mistérios. Este ano dediquei-me a dois: “O caso Alaska Sanders” do suíço Joel Dicker, e “Campo de Lava” da norueguesa Yrsa Sigurdardóttir. De Dicker já tinha lido “O enigma do quarto 622” e “O livro dos Baltimore”. Comecei a ler “O caso Alaska Sanders” com bastantes expectativas. Mas depressa as fui perdendo à medida que ía avançando na leitura. Joel Dicker fala demasiado de si próprio, e acaba por ser a personagem central do livro, um misto de investigador, detective e filósofo de pacotilha. Em resumo, anda a repetir a mesma fórmula, neste até com mais uns quantos pormenores pessoais, sentimentais, que tornam toda a investigação um enfado. Apesar do mistério do desaparecimento de Alaska Sanders ser um bom ponto de partida o livro torna-se aborrecido e demasiado extenso, com muita escrita supérflua. Já “Campo de Lava” é bem diferente. Da autora já tinha lido “A Absolvição” e “Lisboa-Reykjavik” e o novo “Campo de Lava” foi a confirmação do seu talento como escritora - não apenas como contadora de mistérios. Yrsa Sigurdardóttir  vive em Reykjavik, é directora de uma das maiores empresas de engenharia da Islândia e este é o quarto livro da série DNA, que tem por protagonistas o detetive Huldar e a psicóloga infantil Freyja. Num antigo lugar destinado a execuções é encontrado um jovem e abastado investidor enforcado. Quando o corpo é trazido para o chão, constata-se que não se trata de um suicídio: tem um prego enterrado no peito, onde estava uma mensagem, entretanto desaparecida. Enquanto decorre a investigação um grupo de amigos da vítima recebe um vídeo que, num primeiro momento, parece uma brincadeira de mau gosto, mas que depois os vai inquietar cada vez mais. Está dado o tiro de partida. O livro, editado pela Quetzal, cativa da primeira à última página, num retrato perturbante da Islândia de hoje, numa história onde violência doméstica se cruza com pornografia, dark web e vingança.

 

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ARTES CRUZADAS -  No meio do parque de Serralves vive um tesouro chamado Casa do Cinema Manoel de Oliveira, bem guiada pelo seu Director, António Preto. Aí sucedem-se exposições sobre a obra, o trabalho e a vida de Manoel de Oliveira e também sobre outros nomes grandes do cinema. É o caso de “Luz e Sombra”, uma exposição dedicada a Agnés Varda que poderá ser vista até 22 de Janeiro. A belga Agnés Varda viveu entre 1928 e 2019 e ao longo da sua vida foi fotógrafa, depois cineasta (onde ganhou fama) e finalmente artista plástica. A exposição mostra essas diferentes fases e testemunha o modo como a sua produção artística se desenvolveu em diálogo com a sua obra cinematográfica. O contraste entre luz e sombra é o ponto de partida para visitar o trabalho da artista, e a exposição inclui duas instalações, “Une cabane de cinéma: la serre du bonheur” de 2018 e Patatutopia , de 2003. Foi também editado um belíssimo catálogo profusamente ilustrado, onde se destaca um texto do historiador de arte Hans Ulrich Obrist. Em 2009 Varda já tinha estado em Serralves e teve a oportunidade de se encontrar com Manoel de Oliveira, momento que a própria registou com a câmara de vídeo que sempre carregava consigo. Nessa sequência vemos os dois cineastas a imitarem Chaplin enquanto se filmam um ao outro, e são essas imagens que servem de preâmbulo a esta exposição: um encontro em que de forma divertida partilham as suas preocupações quanto ao cinema e à vida.

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SILVER JAZZ - Hoje proponho revisitar gravações feitas pelo grupo do pianista Horace Silver em Nova Iorque, durante actuações em vários clubes de jazz locais, em 1964, 1965 e 1966. “Horace Silver Quintet - Live New York revisited” é o CD que reúne algumas dessas gravações em novas remasterizações. Um dos factos interessantes deste disco é que os músicos não são sempre os mesmos, permitindo notar pequenas diferenças, mas sempre com uma vibração muito particular na forma como tocam. O disco tem cinco temas, dois deles apresentados em duas versões diferentes (“Que Pasa” e “African Queen”). O primeiro é do muito aclamado LP “Song For My Father”, de 1964. Nestas gravações ao vivo surgem os mesmos músicos que tocaram no disco original: Horace Silver no piano, Joe Henderson no sax tenor, Carmell Jones no trompete, Teddy Smith no baixo e Roger Humphries na bateria. São também eles que tocam mais duas faixas deste disco, “Song For My Father" e “The Natives Are Restless Tonight”. “African Queen” é de um curioso disco de 1965, “Cape Verdean Blues” (cuja escuta recomendo) e mostra Woody Shaw no trompete e Larry Ridley no baixo. O outro tema é “Señor Blues” do álbum “6 Pieces Of Silver”, de 1957. O papel de Horace Silver no jazz é muitas vezes injustamente subestimado mas a revisitação de discos como este permite perceber a verdadeira importância que ele teve e a sua enorme energia em palco, que transmitia a quem com ele tocava. O disco está disponível nas plataformas de streaming.



TAPEAR - Uma das coisas que me fascina quando estou em Espanha é a forma como as pessoas gostam de estar na rua, ao fim da tarde, sentados em esplanadas, a beber um copo, a falar. Os espanhóis gostam de viver na rua, um enorme contraste com o que se passa na maior parte dos casos em Portugal. A mais antiga rede social é um grupo de pessoas sentadas à volta de uma mesa a falarem umas com as outras. Outra das coisas boas em Espanha (e em Itália também, já agora) , é o hábito de servirem alguma coisa com a bebida. Em Portugal isso geralmente não se passa e  até os tremoços parecem uma espécie ameaçada. O que é simpático em Espanha e Itália é as bebidas serem servidas com umas tapas ou mesmo algum generoso petisco, desde os sítios mais simples aos mais sofisticados. Neste particular as conservas ocupam um papel especial nos nuestros hermanos: um lombo de cavala ou um filete de anchova em cima de um pedaço de pão é coisa barata mas que vale milhões com um copo de branco bem fresco ou uma imperial bem tirada. Dirão que por isso é que um copo de cerveja do lado de lá da fronteira é mais caro que em Portugal - é verdade, mas há um acolhimento diferente, uma partilha que deixa saudades. E temos também muitas e boas fábricas conserveiras à espera de poderem ser matéria prima para bons petiscos de fim de tarde.

 

DIXIT- “Se as cidades estão apostadas em que se possa circular de forma segura com bicicletas, porque é que não asseguram segurança aos peões e penalizam a circulação e o parqueamento de trotinetes nos passeios?” - ouvido na rua.



BACK TO BASICS - “A Democracia constrói-se no direito à divergência e à diferença, no direito das pessoas a terem posições opostas umas das outras” - Ben Okri, poeta nigeriano.



 




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