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Nesta coisa da pesca há todo um ritual, desde a preparação da cana à escolha do isco, passando pela busca do lugar perfeito para colocar o anzol de molho e ficar a aguardar. Os pescadores que trazem este arsenal - a cana, o banco, o balde, o saco - são as pessoas mais sábias na arte de passar o tempo. Se porventura o peixe não pica pensam apenas, para com os seus botões, que para a próxima será melhor e prepararam o regresso noutro dia. A pesca é o pretexto para se obrigarem a sair de casa e poderem ficar umas horas a contemplar o horizonte. São transparentes, sinceros, verdadeiros. A cana, a linha e o anzol não estão escondidos - toda a gente sabe o que fazem e o que procuram: o prazer de sentir o peixe a morder o anzol. Mas há outros pescadores, dissimulados, que não têm cana nem anzol à vista. Insinuam-se com falinhas mansas e não estão à beira de água. Mais facilmente se encontram numa mesa de um restaurante ou encostados ao balcão de um bar. À mesa portam-se bem, são generosos com a bebida que oferecem, cercam outra pessoa com perguntas e mostram-se hábeis a levar a conversa para onde querem; a sua pesca é conseguir que digam o que eles querem saber. Os pescadores de bar são mais evidentes e descarados. Copo na mão, varrem o horizonte com os olhos como se procurassem o melhor sítio para atirar a linha à água, Metem conversa com facilidade, gabam-se de proezas, são contadores de histórias que usam palavras como se fossem anzóis. Se alguém morder o isco são rápidos a apanhar a presa. Prefiro os tradicionais pescadores silenciosos, discretos, pacientes. Nos dias que correm muitos andam à pesca mas poucos são verdadeiros pescadores.
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