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AS APARÊNCIAS E A POLÍTICA

por falcao, em 12.06.15

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APARÊNCIAS - Enquanto a política andar a reboque da justiça a coisa, neste país, vai funcionar mal. Não deixa de ser irónico que tenha sido a esquerda, através de José Sá Fernandes por exemplo, a iniciar o périplo da transposição da luta política para decisões dos tribunais, numa evocação inconsciente do que o anterior regime fazia. Todos sabemos como a justiça funciona mal em Portugal, todos nos lembramos dos dislates, dos últimos anos, da Procuradoria Geral da República e do Supremo Tribunal em matérias delicadas, tentando apagar ou modificar o rumo da História, evitando que se investigasse, apagando provas. Este ainda adolescente século tem sido abundante em demonstrações de influência política na justiça - mas esta realidade nunca nos deve toldar o pensamento. Todos são inocentes até prova em contrário. Mas o senso comum, que permite olhar para a vida das pessoas e observar a forma como elas se comportam, faz parte da análise que fazemos do mundo: à mulher de César não bastam as aparências. E, das aparências, os políticos não se podem livrar. Nem a electrónica os salva.

 

SEMANADA - A cimeira do G7 custou 90 mil euros por minuto; o menu da cimeira, ocorrida na Baviera, teve em destaque salsichas e cerveja; o regime de pulseira electrónica proposto a José Sócrates foi criado pelos Governos PS, quando António Costa era Ministro da Justiça; Sócrates foi o primeiro detido a recusar pulseira electrónica; António Capucho apoia António Costa e anunciou que se o PS o convidar para “voos mais altos não digo que não”; o pastel de nata já se vende em dezena e meia de países - volta Álvaro Santos Pereira, que estás perdoado; são penhorados 833 mil euros por dia em depósitos bancários sem despacho de um juiz por dívidas em cobrança nos tribunais; atestar o depósito de um carro a gasolina está 10,35 euros mais caro do que no início do ano; três em cada cem casamentos celebrados em Portugal este ano foram de noivos estrangeiros; desde 2013 registam-se quase quatro queixas por dia contra seguranças privados; os prejuízos das empresas públicas aumentaram 23% no final de 2014; a coligação PSD-PP adoptou a sigla PàF; 40% dos médicos dizem que a falta de material nos hospitais está a interferir no seu trabalho; Portugal vendeu 37 mil milhões de activos a estrangeiros; a casa de Jorge Jesus foi colocada sob protecção policial; o primeiro parque de campismo naturista abriu em Marvão, uma iniciativa privada sob o lema “economia da felicidade”; o PS tem um passivo de 18 milhões e é responsável por mais de metade da dívida total dos partidos.

 

ARCO DA VELHA - António Costa reivindicou ter diminuído a dívida da Câmara Municipal de Lisboa em 40%, e acusou o Governo de ter aumentado a dívida do país em 18%. Esqueceu-se de dizer que a razão principal da sua proclamada diminuição de dívida veio do negócio dos terrenos do Aeroporto, que o Estado pagou à Câmara - que significou 43% do montante em dívida, libertando o município do pagamento de mais de 22 milhões de euros de juros anuais.

 

FOLHEAR - Fernando Martim de Bulhões e Taveira Azevedo, nascido em 1195, quem é? Pois fiquem sabendo que é um conhecido nosso, que o correr dos tempos foi associando às festas dos santos populares. Amanhã, sábado, dia 13, recordo, é Dia de Santo António, o padroeiro de Lisboa e de Pádua, o inicial Fernando deste parágrafo. O Santo tem uma História que se cruza com lendas e atravessa os séculos. O Papa Leão XIII chamou-lhe o santo de todo o mundo e reza a história que, com os seus sermões da Quaresma, inspirou a “Divina Comédia”, de Dante. António Eça de Queiroz publicou em 2010 a primeira edição de “Santo António - A História do Santo mais popular de Portugal”, Na introdução o autor conta como ficou surpreendido pelo facto de Santo António exceder largamente aquilo que o comum dos lisboetas pensa. Vale a pena ler este livro, reedição recente da “Guerra & Paz” - devora-se de um trago e aprende-se muito.

 

VER - Não é nada frequente uma grande empresa prestar uma homenagem assim à arte de ver. Essa é uma das razões que me leva a dizer que a nova campanha da EDP, “Um século de energia”, inspirada num trabalho de Manoel de Oliveira, extravasa a noção tradicional que temos de publicidade. E, no entanto a ideia - arriscada- foi da MSTF Partners, uma agência de publicidade portuguesa, que ousou desafiar o cineasta a pegar numa sua obra antiga e fazer dela ponto de partida para uma campanha publicitária. Em 1932 Manoel de Oliveira filmou o arranque da central do Ermal, em Guilhofrei, no Rio Ave, obra na qual o pai teve um papel importante. O pai, Francisco José Oliveira,  tem aliás uma história ligada  à energia - foi também o impulsionador da primeira fábrica de lâmpadas eléctricas. Com a central do Ermal, Manoel de  Oliveira fez um documentário chamado “Hulha Branca”, a preto e branco, com planos magníficos, a recordarem o que de melhor na época se fazia no cinema - utilizando restos de película do seu marcante “Douro, Faina Fluvial”. A partir dessas imagens antigas, Oliveira mostra a evolução na criação de energia. Esta era uma ideia no fio da navalha, que ainda por cima cruzava com a música e a dança, e que se arriscava a correr mal. Mas a verdade é que Oliveira, já nos últimos meses de vida, filmou o que quis, e embora a edição final tenha sido feita após a sua morte, ele deixou também uma recomendação: queria que este filme fosse divulgado numa dezena de cidades portuguesas, projectado ao ar livre, numa grande parede branca, para que as pessoas, todas as pessoas, o pudessem ver. A iniciativa - e o filme - podem criar sentimentos divididos - mas esta campanha fez mais pelo cinema português e por um dos seus maiores do que múltiplas declarações de intenção. A versão integral pode ser vista em https://1seculodeenergia.edp.pt ,  assim como o making of do filme. Que me lembre é a primeira vez que uma grande empresa portuguesa fez uma campanha publicitária que divulga a obra de um grande artista.



OUVIR - Depois da incursão pela World Music feita no seu disco “The Absence”, de 2012, Melody Gardot dedica-se agora à tradição musical americana dos anos 60 e 70, sob o manto da soul e do funk, numa série de novas canções originais  temperadas com letras que mostram as suas preocupações sociais. Este seu quarto álbum de estúdio mostra-a na melhor forma, vocalmente madura, servida por arranjos  do francês Clément Ducol e por uma produção exemplar de Larry Klein. Ouve-se bem o baixo a cruzar-se com um orgão Hammond, os arranjos são a prova de como a tradição não deve ter medo de se abrir à inovação. Este novo álbum, “Currency Of Man”, é um passo exemplar na carreira de Gardot, que não evita escrever e cantar sobre temas difíceis, alguns de clivagem - um passo arriscado para quem vem de uma zona de soft jazz candidata a prémios Grammy. Mas embora as letras sejam empenhadas, é sobretudo na experimentação musical que este álbum se destaca e é aí que ele mostra que Melody Gardot acabou de abrir as portas para um novo posicionamento na sua carreira musical. (CD Decca/ Universal)

 

PROVAR - A época dos caracóis abriu e o assunto deve ser olhado com atenção, Este ano regressei a um local onde não ía há anos, o Tico Tico, na Avenida Rio de Janeiro 19, esquina com a Avenida da Igreja. É um dos restaurantes históricos de Alvalade. A ementa vai de cabidela de frango a peixes grelhados, escolha ampla. Nesta época do ano a maior parte das mesas, ao fim da tarde, na esplanada, ostenta belíssimos caracóis. É preciso dizer que, nesta casa, os caracóis não são temperados em demasia nem afogados em ervas. O tempero é q.b., por forma que o sabor do animal saia na sua plenitude. Bem sei que há por aí uma campanha contra o hábito de comer caracóis - porque eles são cozidos vivos e há umas almas que se indignam sobre o tema. Mas a minha impressão é que o ridículo mata e prefiro provar caracóis bem cozidos a ouvir dislates. A seguir aos caracóis a tradição manda um prego, mas aqui pode pedir-se um bitoque do lombo a meias, cada metade com seu ovo estrelado, uma travessa de batatas fritas aos palitos, não congeladas, como acompanhamento. O resultado final está a par da cerveja de pressão, que é magnífica. Uma pratada de caracóis custa sete euros, o serviço é sempre atento e a carne tinha boa qualidade. Eu gostei destes caracóis.

 

DIXIT - “É preciso ter confiança no país de contas certas. Com o PS há sempre o risco de as contas deixarem de ser certas” - Paulo Portas

 

GOSTO - O nordeste transmontano foi classificado como reserva da biosfera.

 

NÃO GOSTO - Os taxistas propuseram que a bandeirada de 20 euros dos aeroportos fosse estendida dos portos de cruzeiros marítimos.

 

BACK TO BASICS - “Quanto mais evidentes são os  actos que envergonhem um homem,  mais ele é temido” - George Bernard Shaw

 

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publicado às 10:23


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