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UM BECO SEM SAÍDA - Dois casos dominaram a semana: o aviso deixado pelo Presidente da República sobre a execução dos fundos do PRR, que se encontra num nível baixíssimo e essencialmente consumidos pela Administração Central, e a polémica em torno das acusações que pendem sobre o Secretário de Estado Miguel Alves, constituído arguido em dois processos, no seguimento dessas acusações. Os dois casos têm um pano de fundo comum: um grande silêncio de António Costa. O silêncio teve já um efeito colateral: surgiram vozes no PS incomodadas com o facto de um membro do Governo ser arguido sem que isso tenha consequências. Que me lembre é a primeira vez que, de dentro do PS, surgem críticas que têm um ponto comum com a oposição: a necessidade de se assumirem responsabilidades e daí se tirarem efeitos práticos. Costa, já se sabe, não fala sobre polémicas, escudando-se umas vezes no segredo de justiça de casos sob investigação, noutras com o facto de não querer comentar o que se passa no seu Governo enquanto está no estragngeiro. Mas, como nos últimos tempos tem estado bastante frequentemente além-fronteira - esta semana está no Egipto, na COP - é-lhe cada vez mais fácil evitar pronunciar-se sobre situações incómodas. Ainda na semana passada aqui falei sobre o desgaste que situações como a de Miguel Alves causam na democracia e no desencanto que provocam nos eleitores. Há mais casos que surgem todos os dias, vindos de outros partidos. Esta situação de ping-pong de acusações é outro facto de descrédito da actividade política e nada disto é inocente: “ai andas a acusar-nos? espera aí que já levas”. No meio de tudo isto raramente se sabe em tempo útil o desfecho de investigações, porventura há acusados inocentes e culpados ignorados. Assim não vamos a lado algum. Ou, para citar António Costa, que no COP teve, nas suas palavras, “um bonito encontro” com o presidente Venezuelano Nicolas Maduro, Portugal “vai andando”, mas “as coisas não estão fáceis”.

 

SEMANADA - Lisboa teve em Outubro mais 55 vôos nocturnos do que o permitido; os lesados do incêndio da Serra da Estrela de há três meses, ainda não tiveram quaisquer apoios e o processo de ajuda está muito atrasado; dos mais de 16 mil milhões contratados no âmbito do PRR só foram pagos um pouco mais de mil milhões até final de Outubro, 828 milhões dos quais foram recebidos pelo sector público; os maiores investimentos públicos feitos até agora com os fundos do PRR foram aquisição de computadores e material informático para serviços públicos e de helicópteros para combate a incêndios, o primeiro com  53,9 milhões e o segundo com 42,9 milhões; a produção de azeite este ano vai sofrer uma quebra entre os 30 e 40% em relação ao ano passado; o Banco Português de Fomento foi criado há dois anos e continua a ser acusado de não cumprir a sua missão de promoção e desenvolvimento da economia e, segundo a Comissão de Auditoria do Banco, continua a haver dificuldades, por falta de informação, em controlar o que se passa na instituição; o investimento em imobiliário por via do programa dos “vistos gold” representa 3,5% do montante total investido no mercado nacional na última década, mas este peso tem vindo a cair nos últimos anos e hoje representa apenas 1,5% do total; norte-americanos e brasileiros são, segundo as principais agências imobiliárias, os responsáveis pela maioria de compras de casas por estrangeiros em Portugal este ano, mas em Lisboa a liderança é dos franceses; existem cerca de 280 mil pessoas inscritas nos centros de emprego, das quais 120 mil não recebem qualquer subsídio; dados do Ministério da Justiça mostram que as insolvências dos particulares representam atualmente mais de 70% do valor total dos processos de insolvência decretados pelos tribunais portugueses.

 

O ARCO DA VELHA - Madrid tem 3,3 milhões de habitantes e Lisboa pouco mais que 500 mil, mas em Lisboa existem três vezes mais trotinetes eléctricas do que em Madrid.

 

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DESCOBRIR O OUTRO LADO DE CHAFES - Depois das exposições que estão patentes em Serralves e em Lisboa na Fundação Arpad-Szenes - Vieira da Silva, Rui Chafes apresentou um livro dedicado ao seu trabalho em desenho. Com quase 400 páginas, e editado pela Pierre Von Kleist com o apoio do Centro Internacional das Artes José de Guimarães, “Diários” reproduz uma extensa recolha de desenhos de Chafes que foram o tema da exposição “Desenho Sem Fim”, mostrada em Guimarães em 2018 e na Casa da Cerca, em Almada, em 2019. Extra-texto o livro reproduz uma conversa de Chafes com os curadores da exposição, Delfim Sardo e Nuno Faria, sobre a forma como o artista encara o desenho, tema em que é  sempre muito reservado. Antes de começar a fazer escultura, aos 18 anos, Rui Chafes conta que só desenhava e na conversa referida, sublinha: “O desenho é a base de tudo, do meu pensamento, do meu trabalho,da minha escultura, até das minhas palavras” -- é o seu outro lado. “Diários” reproduz, entre muitos outros, desenhos feitos desde 1988, para a exposição “Amo-te: o teu cabelo murcha na minha mão (entre este mundo e o outro, não tenham nem um pensamento a mais)”, desenhos para uma exposição de 2011 na Galeria João Esteves de Oliveira #Inferno (a minha fraqueza é muito forte)” e também desenhos feitos para a edição “Fragmentos de Novalis”, de 1992, entre muitos outros. Já que falo de Chafes desafio os leitores a uma visita a Serralves para verem “Chegar Sem Partir”, que tem trabalhos no interior do museu e no Parque, um deles feito expressamente para o local. No Museu, Chafes mostra o resultado de mais de três décadas de actividade com um conjunto de esculturas mas também com uma sala dedicada a desenhos. Mas arrisco dizer que a parte mais interessante da exposição decorre no Parque de Serralves onde há nove trabalhos espalhados, alguns quase escondidos, outros numa fusão com a natureza (na imagem) que chega a ser perturbadora. É aliciante percorrer o espaço do Parque de Serralves e procurar as esculturas, seguir o mapa como quem segue pistas de um enigma, que acaba e se revela na peça “Travessia”, uma passagem para outra dimensão do trabalho de Rui Chafes. 

 

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SABER OLHAR PARA O TERRITÓRIO - “Paisagem Portuguesa” é uma viagem pelo trabalho fotográfico de Duarte Belo sobre o território português. No livro, agora editado, e que tem textos do geógrafo Álvaro Rodrigues enquadrando cada imagem, há 141 fotografias. A primeira mostra a foz do Rio Minho, em  Vila Nova de Cerveira, em 2002, e a última, de 2006, mostra a  Ilha do Corvo, como é vista por quem chega por mar. Mas há fotografias recentes, de 2021 e 2022, nomeadamente da ilha da Fuzeta, da central solar fotovoltaica da Amareleja, de Sines ou de Barrancos. Este não é um livro de postais ilustrados, mas um registo do que é o território de Portugal, feito com rigor e de forma sistemática. O livro não mostra pessoas, mas o que existe à volta das pessoas - a paisagem dura, o mar, a serra, as planícies, e também os frutos da intervenção da mão humana, nas casas, nas estradas, em edifícios ou equipamentos diversos. Duarte Belo sublinha que “são virtualmente ilimitadas as possibilidades de representação da paisagem pela fotografia”. E Álvaro Domingues sublinha como o trabalho de Duarte Belo mostra “a diversidade e complexidade da paisagem portuguesa”. Duarte Belo, um arquitecto dedicado à fotografia, tem uma longa actividade que tem mostrado em exposições e em edições, como “Portugal: O Sabor da Terra”(1996-1997), “Portugal Património” (2007-2008) ou “Portugal luz e sombra” (2012) e a trilogia composta por “Caminhar oblíquo”, “Depois da estrada” e “Viagem maior” (2020).  O trabalho de mapeamento fotográfico do espaço português deu origem a um arquivo fotográfico de mais de 1 880 000 imagens. É editor do blogue Cidade Infinita. Expõe desde 1987 e participa regularmente em actividades pedagógicas, conferências e mesas redondas. “Paisagem Portuguesa” é uma edição da Fundação Francisco Manuel dos Santos.

 

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MÚSICA PARA UM BATERISTA - Paul Motian foi um dos mais importantes e influentes bateristas de jazz que acompanhou nomes como Bill Evans ou Keith Jarrett, tendo mais tarde formado um trio com o guitarrista Bill Frisell e o saxofonista Joe Lovano. Agora a editora ECM desafiou um grupo de músicos de várias gerações para a gravação de uma homenagem a Paul Motian - “Once Around The Room”. Nos seis temas desta gravação tocam Joe Lovano no saxofone, Jakob Bro na guitarra, Larry Granadier, Thomas Morgan e Anders Christensen no baixo e Joey Baron e Jorge Rossy na bateria. O disco recupera temas e sonoridades de várias fases da carreira de Paul Motian, com destaque para “Drum Music”, e inclui um improviso de todos os participantes, intitulado “Sound Creation”, além de temas de Lovano como  “For The Love Of Paul”: Destaque ainda para a envolvente balada “Song For An Old Friend”, que evoca o trabalho do trio de Motian, Lovano e Frisell. “Once Around The Room” está disponível nas plataformas de streaming.

 

ENTRE BACON E ESPARGOS COM MARMELADA A REMATAR - Hoje vou contar a minha aventura da semana: fazer um jantar a partir de espargos congelados. O primeiro passo, depois de os descongelar, é salteá-los em azeite até começarem a ficar tostados. Nesse ponto pode reservá-los em cima de papel absorvente e deixar arrefecer um pouco. O passo seguinte é fazer pequenos molhos de quatro-cinco espargos e enrolar à sua volta duas ou três fatias de bacon de boa qualidade - a ideia é que cada molho fique bem forrado pelas fatias enroladas do bacon. Uma vez feita esta parte volta tudo à frigideira, sem mais gordura, para tostar o bacon da forma mais uniforme possível, fazendo rolar cada molho de espargos. Quando esta parte estiver quase pronta pode fazer numa outra frigideira ovos mexidos, mal passados, e servi-los de imediato, juntando em cada prato os espargos com bacon. Acompanha com um vinho tinto de boa qualidade, um naco de pão levemente torrado e, para sobremesa, marmelada fresca deste ano com fatias de queijo de S. Miguel.

 

DIXIT - “Nunca o luxo vendeu tanto. Nunca tantos estiveram em risco de pobreza. É um paradoxo. Mas não é novidade que o excesso de liquidez aproveita mais aos ricos que aos pobres” - Luís Marques.

 

BACK TO BASICS - “Todo o ser humano deve ser inconformista” - Ralph Waldo Emerson

 

 

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