Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



AS MÀSCARAS E OS DISFARCES

por falcao, em 26.07.19

62533444_10156104932606502_4933180392300609536_o (

PROMESSAS & DISFARCES - Ainda a campanha eleitoral mal começou e já se percebe que estes políticos que se servem de nós através do voto transformaram a política numa actividade pouco recomendável. Na semana passada surgiram muitos anúncios de obras, uma ideia recorrente dos anos eleitorais. Num balanço rápido e não exaustivo recordo-me de nos últimos dias ter ouvido prometer uma nova ponte sobre o Tejo, uma milionária linha circular de metro, uma nova “Expo” na zona ocidental da cidade e mais algumas coisas avulsas que, contas por alto, se atiram para centenas de milhões de euros em obras. Face a esta fartura de recursos só posso ficar espantado que não se encontre algum dinheiro para investir numa política de médio prazo de gestão florestal, que os meios aéreos continuam a faltar, que o ordenamento das zonas do interior, mais vulneráveis aos fogos, continue eternamente adiado. O que se passa nesta matéria é um retrato da política tal como ela é praticada - todos os anos se garante que se aprende com os erros cometidos e no ano seguinte lá estão os mesmos erros, as mesmas incúrias, as mesmas faltas. Há quem se preocupe muito - e com razão - com as fake news das redes sociais. Mas vejo muita pouca gente, em todo o espectro político, a preocupar-se com o mais recorrente problema da sociedade portuguesa: a realidade escondida, o disfarce usado para evitar que se vejam as coisas como elas de facto são. Nestes quatro anos de tirocínio a geringonça tirou um mestrado em camuflar a realidade. O pior aldrabão não é o que mente - é o que esconde, deturpa e disfarça.

 

SEMANADA - Os gastos do estado em assessoria jurídica quase duplicaram no primeiro semestre; no início da semana, em apenas dois dias, duplicou a área ardida desde o início do ano; o Primeiro Ministro tentou passar as culpas dos problemas no combate aos incêndios para os presidentes das Câmaras; quando estes incêndios começaram havia helicópteros de combate aos incêndios parados por falta de autorização da Agência Nacional da Aviação Civil; o transporte de um bombeiro ferido em estado grave para Lisboa demorou mais de quatro horas por uma série de falhas do INEM e de articulação com a Protecção Civil; durante a actual legislatura apenas dois deputados não tiveram faltas registadas no Parlamento; em contrapartida os deputados no seu conjunto faltaram em média 24 vezes ao plenário da Assembleia ao longo dos 4 anos da legislatura; a Protecção Civil  deve meio milhão de euros aos bombeiros relativos ao combustível utilizado nas deslocações para o combate a fogos; segundo o Ministério Público, no caso das armas roubadas em Tancos, o ex-Ministro da Defesa, Azeredo Lopes, exerceu o poder de “forma perversa, bem sabendo que estava a beneficiar e proteger criminosos”.

 

ARCO DA VELHA - “Com tantas sondagens pergunto se ainda vale a pena fazer eleições” - a pergunta foi feita por Rui Rio e é esclarecedora sobre o seu entendimento do funcionamento da comunicação na sociedade.

 

IMG_4614.jpg

NAVALHA & NERVOS - Na Rua da Esperança há uma livraria/galeria chamada Tinta Nos Nervos. A exposição que lá está até 30 de Agosto chama-se “Fio da Navalha” e inclui vídeos de William Kentridge, desenhos de Pedro Proença, desenhos e pequenas instalações de Ema Gaspar e fotografia manipulada digitalmente de José Cardoso. A representação de William Kentridge é assegurada por uma selecção dos seus flipbook films, pela projecção de “Second Hand Reading”, uma obra de 2013 com música de Neo Muyanga e de “Tango For The Page Turning”, com música de Philip Miller. Pedro Proença exibe uma série de 14 desenhos a que chamou “O Exílio dos Contos” (na imagem), que funcionam como pedaços isolados de uma banda desenhada do quotidiano. São desenhos cáusticos, onde o humor faz parte do sentido de observação e com o traço inconfundível de Proença. Cada um vale bem os 900 euros, o preço pelo qual estão à venda. Por ocasião desta exposição a Tinta Nos Nervos editou também um livro com desenhos de 2010 de Pedro Proença, “Tomai E Comei”, que tem por subtítulo “Os Teólogos Compra Carne no Talho Errado”, uma espécie de banda desenhada num registo fantástico que o autor fez para o seu filho e que é uma pequena delícia.  Se além da exposição derem uma vista de olhos nas prateleiras da livraria verão o muito que na área do desenho e da banda desenhada a Tinta Nos Nervos tem para oferecer. E ao fundo existe ainda uma pequena cafetaria com esplanada. Tinta Nos Nervos - Rua da Esperança 39, a Santos.

5605231073721.jpg

O DISCO - “Com Que Voz”, de Amália Rodrigues, por muitos considerado como o melhor disco português de sempre, conjugando coerência artística, elevação poética e requinte musical - como faz notar Frederico Santiago, que se tem dedicado a recuperar o arquivo de gravações de Amália, Acabado de gravar em Janeiro de 1969, “Com Que Voz” só foi editado em Março de 1970. Trata-se do primeiro disco de Amália em que todos os fados foram compostos por Alain Oulman, para acompanhar poetas como, entre outros, David Mourão ferreira, Cecília Meireles, Alexandre O’Neill, Ary dos Santos e Luís de Camões - cujo “Com Que Voz” dá aliás título ao álbum. A capa foi concebida pelo atelier Conceição e Silva e as fotografias eram de Nuno Calvet. O LP original tinha 12 temas, incluindo “Havemos de Ir A Viana”, “Gaivota”, “Formiga Bossa Nova” ou “Naufrágio”, entre outros. Neste disco estão incluídos mais nove registos, gravados na época, alguns deles inéditos. O disco foi gravado em pouco tempo, com Fontes Rocha e Carlos Gonçalves na guitarra e Pedro Leal e Fernando Alvim na viola. O trabalho de Fontes Rocha com Alain Oulman foi discreto, mas marcante, nas introduções e finais dos temas, como refere Nuno Vieira de Almeida no texto que escreveu para esta edição. E Nuno Vieira de Almeida finda o texto descrevendo “Com Que Voz” como um “disco perfeito” cujos doze números musicais são “verdadeiras preciosidades” que evidenciam “uma unidade vocal e de tratamento poético invejáveis para qualquer músico”. CD Valentim de Carvalho.

 

O Comboio da Noite.jpg

UMA INVESTIGAÇÃO POLICIAL - Um facto curioso sobre Martin Amis, um dos mais afamados escritores britânicos contemporâneos, é que até meio da adolescência apenas lia banda desenhada. O seu pai, Kingsley Amis, trabalhou com os serviços secretos ingleses e nessa qualidade esteve em Portugal no tempo da guerra - daí resultando o romance “I Like It Here”. Martin estudou literatura inglesa em Oxford e começou a escrever bem cedo - o seu primeiro romance, “ The Rachel Papers” foi publicado em 1973, tinha ele 24 anos. Mas foi mais tarde que ganhou notoriedade e fama com “Money” (1984) e “London Fields” (1989), ambos centrados na emergente forma de vida de jovens profissionais com êxito na sociedade britânica daquela época. “The Night Train” é bem diferente - foi publicado em 1997, já tinha sido editado há uns anos em Portugal e a Quetzal reeditou-o agora numa nova e boa tradução de Telma Costa. “O Comboio da Noite” é um “thriller” que tem como protagonista Mike Hoolihan, uma mulher polícia de uma cidade americana, que investiga a morte de Jennifer Rockwell, filha do seu antigo chefe, Tom Rockwell. Tudo aponta para um suicídio, Jennifer Rockwell, uma astrofísica bem sucedida e respeitada, não tinha aparentemente razão para tirar a sua própria vida. A detective Hoollihan, uma alcoólica em recuperação, envolve-se no caso e descobre uma série de factos que a levam a mudar de opinião, ou pelo menos a ter muitas dúvidas. perturbada com o que descobriu sobre os últimos dias da vida de Jennifer, a detective entra num bar onde volta a beber… Aqui está um belo policial para este verão.

COMO PARTILHAR UM MOLHO? - Fui cheio de esperança ao restaurante Attla, sobre o qual li e ouvi numerosos elogios. Saí um bocado desiludido. Não comi mal e reconheço que a maior parte do que comi tinha uma preparação cuidada. O problema é que o próprio restaurante incentiva a que os pratos sejam partilhados e na maioria dos casos a partilha é difícil e frustrante. As doses são pequenas, o que até se pode compreender, e partilhá-las é uma tarefa complicada na maior parte dos casos, até porque os molhos são parte essencial da maioria das propostas da carta e os pratos sem esses molhos perdem muito da sua personalidade e interesse. E partilhar molhos é coisa complicada… Por outro lado o próprio empratamento dos pratos a partilhar torna a tarefa ainda mais difícil. Talvez se forem só duas pessoas a coisa se torne mais simples, mas numa mesa de meia dúzia de pessoas a partilha é impossível. Teria ficado bem mais satisfeito se me dessem a possibilidade de me atirar a doses inteiras, e um pouco mais generosas, de algumas das coisas boas como o camarão de ova azul, com leite de amêndoa, bisque e noodle de batata ou a massa de azeite glaceada com cacau, sapateira, sour cream e flor de chagas ou ainda os  cogumelos cantharellus com barigoulle de carapau, trigo sarraceno, nori e espuma de batata. Já a couve flor glaceada com vinagre de sabugueiro, satay de espinafres e azedas foi uma desilusão. Desigual esteve a sobremesa, chocolate do Equador, bolacha de alfarroba e avelã, acompanhado de gelado de eucalipto. A bolacha de alfarroba era insípida e o gelado dominava os outros sabores. A lista de vinhos é curta mas esse não é o maior problema deste restaurante - que terá de decidir se quer privilegiar as provas difíceis ou uma refeição com os sabores e experiências que propõe mas mais tradicional no serviço. O Attla fica em Alcântara, na rua Gilberto Rola 65, está aberto de terça a sábado ao jantar e com reservas através das aplicações habituais ou do telefone 211 510 555.

 

DIXIT -  “O nacionalismo e o populismo extremista - que dantes eram fenómenos marginais na política europeia - tornaram-se agora problemas centrais. Parece-me que a Europa está num estado de espírito semelhante ao dos anos 30” - Graydon Carter, na apresentação da nova publicação online Air Mail.

BACK TO BASICS - “Em última análise ou queremos ser recordados pelo que nos aconteceu ou queremos ser recordados pelo que fizémos” - Randy K. Milholland.



Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 12:30



Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.



Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2006
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2005
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2004
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2003
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D