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AS MUITAS MANEIRAS DE VER TELEVISÃO

por falcao, em 05.04.24

 

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RETRATO MEDIÁTICO - Nos últimos 20 anos as mudanças no panorama de consumo dos media em Portugal sofreram mudanças enormes, propulsionadas pelo crescimento do acesso à internet e do desenvolvimento das redes sociais - recordo que o Facebook nasceu em 2004. Um dos sectores onde se registaram maiores mudanças foi na televisão tradicional, aquele que mais sofreu com o crescimento da internet. No início deste século, os canais generalistas (RTP1, RTP2, SIC e TVI) captavam a maioria dos espectadores, os canais de cabo eram ainda minoritários e streaming nem vê-lo. Hoje em dia a situação é completamente diferente. Na semana passada apenas 40% dos espectadores de televisão viram canais generalistas, os outros 60 por cento dividiram-se pelo cabo e pelas plataformas digitais, que englobam as gravações automáticas das boxes dos operadores, os videojogos e as plataformas de streaming como o YouTube ou a Netflix. Quer isto dizer que dos cerca de oito milhões que viram televisão apenas cerca de 3,2 milhões viram RTP1, RTP2, SIC ou TVI. No primeiro trimestre as preferências dos espectadores deram o primeiro lugar de audiências à TVI, seguida da SIC, RTP1 e CMTV - o indiscutível líder dos canais de cabo, com mais do dobro da audiência do seu rival mais directo, a CNN. No serviço público a RTP3 aparece no fim da tabela dos 20 canais mais vistos e a RTP2 já nem nos vinte mais aparece. A TDT revela-se a extravagância mais cara do sector, não chega a ser vista por 1% da audiência total o que dá o custo por espectador mais caro do mercado. 

 

SEMANADA - O número de pessoas em casas sobrelotadas aumentou quase 40% em 2023, o maior salto em 20 anos;  a renda mediana das casas fixou-se em 7,71 euros por metro quadrado no último trimestre de 2023, mais 11,6% que no mesmo período de 2022; infiltrações de água, humidade e mau isolamento térmico são problemas que afectam cerca de 30% das casas dos portugueses; pelo menos 30% dos terrenos rústicos estão em nome de defuntos; segundo o Relatório Anual de Segurança a criminalidade atingiu em 2023 o valor mais elevado dos últimos 10 anos; em 2023 foram denunciados 1020 crimes por dia, 42 a cada hora; os crimes com maior expressão são violência doméstica, condução com taxa-crime de álcool, agressões e burla; as agressões a profissionais de saúde quase duplicaram em 2023; segundo o Eurostat Portugal ultrapassou Espanha e Itália e tornou-se no ano passado o segundo país da União Europeia com mais peso de contratos precário; em 2023 registou-se um aumento de 8,2% do tráfego automóvel face a 2022; os gastos das famílias portuguesas durante o período da Páscoa com um cabaz de bens alimentares essenciais registaram, no espaço de um ano, uma subida de cinco euros e, face a 2022, uma subida de mais de 30 euros; os centros comerciais registaram um aumento do volume de vendas em dezembro do ano passado, com um crescimento de 15,9% face a 2019.

 

O ARCO DA VELHA - Em seis anos ficaram por reclamar prémios no valor de quase 68 milhões de euros nos jogos da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

 

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IDEIAS RECICLADAS - O artista plástico Yonamine nasceu em Luanda em 1975, vive na Grécia e trabalha entre Atenas, Luanda, Lisboa e Berlim. O seu trabalho utiliza nomeadamente a pintura, desenho, graffiti, fotografia e vídeo e as suas instalações multimédia assumem-se como diários pessoais e reflexões sobre a História de África e da sua política. Nas suas obras o artista utiliza uma grande variedade de trabalhos que vão desde páginas e fragmentos de jornais, serigrafias, desenhos e colagens reaproveitando materiais como cartazes relativos à cultura popular, cartazes de filmes, retratos de personalidades, de artistas populares e figuras políticas, passando ainda pelo reaproveitamento de material tecnológico de diversas proveniências. Até 11 de Maio pode ser vista na Galeria Cristina Guerra Contemporary Art, Lisboa, a exposição “ ETC - Extraction/Trade/Cashtration” . Esta exposição é também uma evocação e homenagem da obra de Paulo Kapela, um artista congolês que nos anos 90 se fixou em Luanda e que trabalhou com base “na ideia da reciclagem - não só de materiais mas também de pessoas e palavras”, como escreveu Alicia Knock, curadora do Centre Pompidou. Por isso, sublinha, o que Yonamine apresenta  é um novo Kapelismo, ou, nas palavras de Yonamine, “uma fusão de ideias, tendências e temporalidades”. A exposição inclui 15 obras, incluindo uma homenagem a Kapela em coexistência com fontes sonoras e painéis nas paredes. ETC ficará até 11 de Maio na Cristina Guerra Contemporary Art, Rua de Santo António à Estrela 33. 

 

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ROTEIRO - Começo este roteiro por recomendar um passeio no Jardim das Amoreiras onde, desde a semana passada, pode ser vista a escultura que Cristina Ataíde criou para assinalar a homenagem à Vigília da Capela do Rato. A partir de duas grandes peças de mármore, unidas entre si por um jogo de peças metálicas que as mantêm em equilíbrio, a obra simboliza um dos marcos mais importantes da resistência dos sectores católicos à ditadura. A escultura prossegue a paixão de Cristina Ataíde pela pedra, aproveita o seu conhecimento na forma de trabalhar o mármore e proporciona um diálogo com o aqueduto das águas livres, que marca aquele local (na fotografia). Outros destaques: no Mercado do Forno do Tijolo, em Arroios, José Pacheco Pereira apresenta a exposição documental “10 Dias que Abalaram Portugal”, a partir do arquivo da Ephemera. Até 26 de Abril Ângela Ferreira apresenta “Campo Experimental”, um trabalho feito em colaboração com Alda Costa na Galeria Rialto (Rua do Conde Redondo 6, apenas às sextas entre as 15 e as 19h30). Em Coimbra, no Centro de Arte Contemporânea, pode ser vista a exposição “Do Lado Mais Visível das Imagens”, que agrupa obras da colecção Norlinda e José Lima e também da Colecção de Arte Contemporânea do Estado com obras de artistas como Ana Cardoso, Fernando Calhau, José Pedro Croft, Pedro Cabrita Reis, Marisa Ferreira e Sandra Baía, entre outros. Na galeria No-No (Rua de Santo António à Estrela 39, pode ver até 25 de Maio “ST#17641”, uma exposição de cinco novas obras de Rui Neiva. Finalmente, na Galeria das Salgadeiras (Avenida dos Estados Unidos da América 53D), está patente até 24 de Maio “Escavar Uma Nuvem”, de Rui Horta Pereira, que agrupa desenhos e esculturas feitas  a partir de materiais recolhidos no Parque Natural da Arrábida.

 

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UM LIVRO ESPECIAL - Depois de ter frequentado a Escola de Belas Artes, em Lisboa, Rui Chafes aprofundou os seus estudos, de 1990 a 1992, na Kunstakademie Düsseldorf com Gerhard Merz onde desenvolveu a sua pesquisa sobre a cultura e arte alemãs. Foi nessa época que traduziu de alemão para português os “Fragmentos de Novalis", que foi editado originalmente em 1992 pela Assírio & Alvim. Há muito tempo esgotado, mesmo depois de  uma segunda edição em 2000, a tradução que Chafes fez de “Fragmentos de Novalis” teve agora nova edição, também bilingue e com 25 dos seus desenhos. Os fragmentos de Novalis seleccionados por Rui Chafes vêm de oito textos diferentes, escritos entre 1797 e 1800 e, citando Chafes, “espalhando fragmentos de ideias, fragmentos de pensamentos, instaura-.se a possibilidade de eles florescerem algures.”  Novalis é o  pseudónimo de Philipp Friedrich von Hardenberg, que viveu entre 1772 e 1801, no tempo do esplendor do idealismo alemão, dos poetas e filósofos do romantismo. Os idealistas e  pensamento estético do Romantismo Alemão tem sido uma das bases de trabalho de Rui Chafes. Na tradução, sempre que possível, Chafes tentou manter “o jogo musical e conceptual das palavras, procurando guardar a limpidez cristalina das palavras de Novalis”. E são também dele estas palavras: «Não sou escritor nem tradutor. Nem tenho essa pretensão. Esta é uma tradução de escultor, não de escritor. Este livro é um projecto completo, pois compreende a tradução de fragmentos de Novalis, por mim seleccionados, acompanhada de um bloco de desenhos que não são, de modo algum, uma forma de ilustração dos textos: eles existem em simultâneo com a tradução. Ambas as coisas se interpenetram aqui, fazendo que este objecto, este livro, tenha o estatuto de escultura.» Termino com um dos escritos de Novalis incluídos no livro: “Toda a ciência se torna poesia - depois de se ter tornado filosofia”.

 

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IMPERDÍVEL  - Rezam as más línguas do mundo pop que Beyoncé terá decidido fazer um álbum baseado no universo da country music depois de, em 2016, ter sido vaiada na gala dos prémios da Country Music Association. Uma cantora negra entrar no terreno da country music, sulista, branca de nascimento, pode parecer algo de estranho - apesar de grande parte dos músicos mais procurados para acompanharem as gravações nos estúdios de Nashville, a capital da música country, serem de origem afro-americana. A country, recordo, é o terreno de origem de Taylor Swift, onde ela cresceu e se fez uma estrela. No fundo Beyoncé entrou a pés juntos nesse mundo da música branca tal como Eminem tinha entrado a pés juntos no terreno do rap, na época dominado por negros. Do ponto de vista de produção este “Cowboy Carter” vai buscar influências a muitos lados e do ponto de vista de distribuição de royalties vai ter uma factura pesada - ela foi buscar inspiração a nomes como Dolly Parton, Willie Nelson, Chuck Berry, Lee Hazelwood, Beach Boys, Hank Cochran e até Beatles. As suas versões de “Blackbird” dos Beatles e “Jolene” de Dolly Parton vão ficar para a história da pop. Mais que fazer um disco country, Beyoncé trabalhou sobretudo a partir da tradição da música cajun, do Louisiana, envolvendo-se aqui e ali nos blues. Nas 27 faixas que se desenrolam em 80 minutos, na versão disponível nas plataformas de streaming, mais longa que as versões editadas em formato físico em CD e LP.  Temas como “16 Carriages” ou “Daughter”, com o pano de fundo de guitarras sobre as quais surge a incontornável voz de Beyoncé são também imagens sonoras do seu enorme talento , assim como o hip hop de “Spaghetti” é o contraponto do country de “Texas Hold’Em”. Este “Cowboy Carter” é um marco da música popular norte-americana. Não o percam - está nas plataformas de streaming.

 

DIXIT - “ O Parlamento está refém de um irresponsável. Esse irresponsável chama-se André Ventura” - Rui Rocha

 

BACK TO BASICS - “A obra precisa do espectador para ganhar existência”- Rui Chafes

 

A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS

 

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