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Nesta altura do ano sonho com o barulho das cascas das nozes a estalar, quando, ao abrirem-se, desnudam aquelas asas deliciosas que sinalizam o Outono. Esta é também a estação do ano dos sabores únicos e frescos dos sedutores bagos de romã, da excitante marmelada recém cozinhada, das castanhas assadas a fumegar na rua. Uma prova da perfeição da natureza é perceber como estes sabores e odores se completam na perfeição. Posso imaginar-me a partir nozes durante uma tarde, com cuidado, sem as esmigalhar, enquanto intercalo com um pedaço de marmelada. Com sorte incluo neste bacanal outonal umas castanhas assadas, ainda mornas, abertas ao meio e com uma leve camada de manteiga dos Açores, da boa. E remato tudo com uns bagos de romã que trinco com volúpia. O verdadeiro e simples prazer das coisas do campo encontra-se na sua melhor forma nesta estação do ano. Nas outras há boas frutas, mas talvez seja o Outono aquela estação que tem em si o conjunto mais rico e explosivo para as nossas papilas gustativas. O mais curioso de tudo é que estas delícias, sendo boas por si sós, são tão ricas que partilham o que de melhor têm quando são misturadas com outras delícias numa salada, assadas no forno ao lado de uma peça de carne, ou servindo de companhia a um queijo bem curado. E não me esqueço das romãs, essas pérolas de prazer que alma gentil me descasca, salvaguardando-as num frasco de vidro que fica no frigorífico para eu ir assaltando ou para começar o dia da melhor forma, misturando-as no meu iogurte matinal. A vida feita de coisas simples pode ser boa. Nós é que muitas vezes a complicamos.
(estes pensamentos estão semanalmente em sapo.pt)
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