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OS DOIS ESTAROLAS - Aobsil, sabem o que é? Há bandeirolas e anúncios de rua por todo o lado com esta sigla: AOBSIL.  Eu explico - é a nova marca de Lisboa. Na realidade é a palavra Lisboa escrita ao contrário. Esta palavra de difícil pronúncia é a nova marca da capital portuguesa. A bem dizer faz sentido: a gestão de Medina virou a cidade do avesso, faz sentido virar a palavra ao contrário. A nova marca da cidade nasceu na gigantesca operação de propaganda realizada a propósito de Lisboa ser agora a capital verde da Europa. O Sr. José Sá Fernandes, vereador desta causa, considera certamente ambiental caixotes de lixo a transbordar para o chão nas zonas históricas da cidade,  o cheiro nauseabundo que emana dos contentores ou a falta de limpeza que se tornou regra nesta cidade. Mas resolveu criar uma nova marca gráfica para a cidade, dizem os seus defensores que para evocar uma árvore. Em todo este exercício de vaidade e auto-satisfação vão ser gastos dezenas de milhões de euros ao longo do ano. A propósito de oabsil um dos mais prestigiados especialistas em desenvolvimento de marcas, Carlos Coelho, da Ivity, interrogou-se se Madrid passou a chamar-se Dirdam, ou se Paris passou a Sirap ou ainda se Londres pós brexit será Serdnol. De facto a ideia de mudar a marca da capital significa tratar mal a identidade da cidade, perdendo-se a oportunidade de Lisboa aparecer em grande, e com a sua identidade própria, num evento internacional como este. Mas indiferentes a estas questões menores os dois estarolas que nos governam a urbe, Medina&Fernandes, lá vão satisfeitos arredando pessoas da cidade e descaracterizando-a.

 

SEMANADA - Um estudo divulgado esta semana indica que um médico que trabalhe num dos serviços de cuidados paliativos dispõe em média de um máximo de nove minutos por dia para cuidar de cada doente; os atrasos na atribuição de subsídio de funeral chegam a atingir uma ano; os apoios do Estado a deficientes estão atrasados cerca de dois anos; a sede da PSP em Lisboa, na Penha de França, esteve em risco de ver a electricidade cortada por atrasos de pagamento das facturas; os bombeiros portugueses que ajudaram nas cheias em Moçambique ainda não receberam o valor que lhes é devido pela Protecção Civil desde Março do ano passado; o Governo decretou em Maio apoio financeiro para filhos até 6 anos de bombeiros voluntários mas ainda não foi disponibilizada qualquer verba para esse efeito; a Associação Nacional de Municípios considerou o Orçamento de Estado “absurdo e inaceitável” por contemplar um corte de 35 milhões de euros às autarquias e por violar a Lei das Finanças Locais;  em várias prisões os detidos são abastecidos de droga, armas e telemóveis através de drones e só em Paços de Ferreira já se verificaram este ano vários casos; há mais de três mil imóveis devolutos em Lisboa.

 

ARCO DA VELHA - O contrato de leasing de cerca de três dezenas de veículos da Protecção Civil chegou ao fim e os serviços da entidade não fizeram novo contrato, o que levou a firma locadora a recolher os veículos.

 

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UMA SÓ NOITE - Quando lerem estas linhas já não vão poder ver a exposição a que elas se referem. É uma exposição que apenas ficou patente durante algumas horas. Vai acontecer quatro vezes este ano, cada uma integrando novos artistas. Chama-se, por isso mesmo, “Esta Noite” e decorre, como aconteceu terça 14 de Janeiro, no ateliê Pedro Cabrita Reis, no Beato, entre as nove e meia da noite e a uma da manhã. A ideia de Pedro Cabrita Reis foi complementada por João Ferro Martins que com ele escolheu os artistas, todos eles à data da escolha sem galeria. Estão mesmo em princípio de carreira, nesta primeira Noite foram dez, serão meia centena até à última mostra. Os que expuseram na estreia tiveram oportunidade de mostrar o seu trabalho a coleccionadores, críticos, outros artistas. Foram vistos, ouviram opiniões de quem os não conhecia. “Esta Noite” é uma montra para talentos. a ideia da montra é aliás recorrente na forma como Pedro Cabrita Reis gosta de partilhar o palco. Ao longo de um ano, entre Abril de 2017 e Abril de 2018 organizou nas montras do British Bar, ao Cais do Sodré, uma série de exposições de pequenas peças de artistas que convidou, na generalidade com nome feito. Agora, em vez de uma montra física a dar para a rua, no centro da cidade, passou para a montra que forçosamente é o ateliê de um artista, neste caso o seu próprio espaço, que cedeu para que outros o pudessem utilizar e mostrar o que fazem. É recorrente em Cabrita Reis este impulso de descobrir e mostrar obras de outros artistas - foi assim que criou a sua própria colecção, comprando a muitos no início de carreira. “Esta Noite” é uma ideia generosa. Na imagem obras de Xavier Almeida e Cândido. Destaque também para o trabalho de Diogo Pinto e Luísa Passos.

 

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O PRAZER POP - Se quiserem ter uma ideia sobre o estado da música pop no arranque da segunda década do século XXI aconselho a que ouçam o álbum “Seeking Thrills”, de Georgia, agora editado. Está disponível no Spotify e em outras plataformas. Trata-se do segundo disco da intérprete britânica (o primeiro é de 2015) claramente centrado em conquistar as pistas de dança, com uma determinação assinalável e uma eficácia incontornável. Mas este não é só um disco de dança. Como todo o bom pop que se preza é um prazer para os ouvidos, uma companhia perfeita para várias ocasiões. Georgia Barnes tem 29 anos e foi construindo uma carreira de produtora paralelamente à de intérprete. Georgia faz parte de uma geração que quer recuperar a noção da natureza, que pretende uma vida saudável e se preocupa com o planeta, temas recorrentes das canções deste disco. Esta é a nova contemporaneidade que atravessa cada vez mais campos da criação artística, da música à literatura, passando pelas artes plásticas. Este é um disco onde o ritmo comanda - não é de admirar, Georgia é também baterista e, por exemplo, tocou com Kate Tempest. Musicalmente o álbum vai buscar referências aos anos 80, dando-lhes um tratamento sonoro actual - a capa é aliás um grupo de raparigas a dançar fotografadas em 1988 por Nancy Honey. “Seeking Thrills” é um compromisso entre influências musicais antigas com a sonoridade ajustada e preocupações sociais actuais. É, também por isso, um desafio. E um grande disco pop.

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ARTE EM PAPEL - Fundada em 2009 a revista “Elephant” é publicada em Londres quatro vezes por ano, sazonalmente, e propõe-se acompanhar as tendências da arte contemporânea. Tem uma forte presença online, num site próprio (elephant.art) e está no twitter, facebook e instagram. O seu lema é “life through art”. A revista dedica especial atenção a artistas emergentes e entre as suas actividades criou um laboratório onde promove residências artísticas, que depois são mostradas e relatadas nas várias plataformas. O site é permanentemente actualizado, com uma agenda diferente da edição em papel e, por exemplo, esta semana a notícia em destaque era uma visita à casa das Histórias Paula Rego, em Cascais. Já a edição em papel, datada deste Inverno, a número 41, parte de uma pergunta: “Será que a Arte pode salvar-nos, a nós e ao planeta?”. O debate sobre as alterações climáticas serve de pano de fundo para uma série de artigos e imagens que colocam em primeiro plano a forma como o mundo natural e os animais são apresentados visualmente. O lema da edição é conseguir voltar a tornar o mundo mais selvagem, com menor peso da intervenção humana. Regularmente há ideias editoriais interessantes - por exemplo a volta ao mundo em cinco cidades, falando do que do ponto de vista da arte contemporânea se passa em cada uma delas ou ainda a “Paper Gallery” onde se mostra de forma alargada a obra de um artista. Ligados ao tema da edição destaco o artigo “10 ideias sobre arte e meio ambiente” . Outro bom artigo fala sobre a importância do trabalho dos assistentes dos artistas, neste caso a propósito da montagem de uma peça complexa de Kara Walker  no enorme espaço da Turbine Hall da Tate Modern. A revista em papel pode ser comprada na Under The Cover, na Rua Marquês Sá da Bandeira 88, em Lisboa.

 

PETISCO - Esta semana vi-as, pela primeira vez neste ano, a serem vendidas à beira da estrada, em pequenos sacos - falo das túberas, esses tubérculos maravilhosos a que alguns chamam as trufas portuguesas. Mais abundantes no Alentejo, aparecem também no Ribatejo e normalmente entre finais de Janeiro até meados de Abril. Não é fácil perceber onde estão, debaixo da terra e descobri-las é um segredo bem guardado, que passa de pais para filhos. O seu sabor não é tão intenso como o da trufa, mas é delicado e envolvente. Misturadas com ovos mexidos é a forma mais frequente como são apresentadas. No restaurante lisboeta Salsa & Coentros elas fazem parte da lista de entradas e são muito bem confeccionadas. Por mim fico bem com ovos mexidos com túberas como prato principal, acompanhado de um bom pão fatiado fino. É um petisco. Em casa do meu Pai, que era um apreciador, às vezes eram feitas de fricassé - e ficam também deliciosas. Noutras vezes eram servidas como aperitivo, cortadas em fatias de uns 2mm que são bem grelhadas na chapa e polvilhadas com sal grosso. Ainda hoje, quando lhes deito a mão, não dispenso guardar algumas para fazer este aperitivo. Mas a minha preferência vai para os ovos mexidos, muito mal passados, com as túberas pelo meio. Para as cozinhar assim devem ser lavadas muito bem e descascadas, tendo cuidado para remover toda a terra. Se não forem consumidas nos dias mais próximos, podem ser congeladas depois de descascadas. Mas vamos à receita, bem simples: o ideal é cortar as túberas em fatias finas como se fossem batatas para fritar às rodelas, a seguir salteá-las  em azeite até estarem passadas, juntar ovos batidos com sal (com um pouco de pimenta se gostarem) e envolver. Os ovos devem ficar mal passados.  Para além da beira da estrada às vezes aparecem em boas lojas como a histórica Frutaria Bristol, na Rua das Portas de Santo Antão, junto ao Coliseu.

 

DIXIT - “Uma obra de arte é tão importante na construção da cidade quanto a habitação social, ou o desporto e a cultura…”  - Pedro Cabrita Reis.

 

BACK TO BASICS - “Os políticos deviam ler mais ficção científica e menos policiais e livros de cow-boys” - Arthur C. Clarke





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publicado às 12:15


1 comentário

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De Anónimo a 18.01.2020 às 10:06

Caro Manuel,

Na verdade sendo Lisboa famosa desde o séc. XIV é um profundo disparate o que os aprendizes de feiticeiros estão a fazer. Devíamos também tratá-los invertidamente para poderem parecer normais.

Abraço. João

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