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CRÓNICA DE UM DESASTRE ANUNCIADO

por falcao, em 14.10.22

 

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COMO HÁ-DE A ECONOMIA CRESCER?  - Repetidamente temos notícia de que a execução dos apoios previstos numa variedade de fundos fica muito aquém do desejado. E repetidamente ouvimos candidatos a financiamentos queixarem-se da burocracia, da demora, por vezes até do desinteresse dos serviços em viabilizarem a execução de projectos que inclusivamente estão aprovados. O caso do agricultor Luís Dias, que teve que fazer uma greve de fome à porta do Primeiro Ministro, para ser ouvido, é exemplar. Aqui vai o resumo: o pedido foi feito em março de 2013, foi despachado positivamente um ano e meio depois, em Novembro de 2014, momento a partir do qual foram feitas, já em 2015, exigências mais tarde consideradas ilegais. Em 2019 foi reconhecida ao agricultor razão nas suas queixas e em 2021 o apoio contratado ainda não tinha sido integralmente pago, situação que se foi arrastando até hoje. Uma auditoria realizada depois de queixas à Provedora de Justiça reconhece erros mas considera que a sua responsabilidade está prescrita. Em resumo : um projecto que demorou ano e meio até ter um parecer positivo, levou meia dúzia de anos, muitas reclamações e duas greves da fome a ser pago no total acordado. Isto é o retrato do funcionamento do Estado: abuso, prepotência, falta de diálogo com os cidadãos. O Estado e muitos dos seus serviços não entendem um princípio básico: os cidadãos são simultaneamente clientes e fornecedores do Estado. Merecem ser bem tratados. Os seus projectos de desenvolvimento da economia, quando são aprovados, devem ser acarinhados, cumpridos, estimulados. Nada disto se passou. E o país que temos é este, o que rejeita o desenvolvimento da economia e o reforço do Estado. Assim não vamos a lado algum.

 

SEMANADA - Pela primeira vez desde 2013 o investimento vai registar este ano uma taxa de crescimento inferior à economia; nos últimos sete anos Portugal desceu para o 21º lugar do ranking europeu do PIB per capita em paridade do poder de compra; a  execução do investimento público este ano irá ficar 1022 milhões de euros abaixo do previsto em Maio, que era de 7317 milhões; o Orçamento de Estado para 2023, o primeiro de Medina, prevê as cativações mais altas desde 2015, quase 3% do total dos gastos projectados para as administrações públicas; dois milhões de portugueses estão numa situação considerada como à beira da pobreza; o cabaz básico de bens alimentares subiu 15% entre Outubro de 2021 e Agosto deste ano, com alguns produtos a dispararem 20%; no final de 2021 cerca de 18% da população nacional vivia com rendimento mensal inferior ou igual a 554 euros; o preço das casas em Portugal disparou 80% na última década; Portugal é o quarto país da União Europeia com a taxa de desemprego jovem mais elevada; os cortes nas áreas de operação e manutenção dos três ramos das Forças Armadas sofreram cortes de 10% nos ultimos dois anos; já foram recebidas denúncias de 432 casos de abusos sexuais na Igreja; há mais de quatro queixas por dia de partilha não consentida de imagens íntimas; segundo a Marktest quase 33% dos portugueses subscreve serviços de streaming e mais de seis milhões costumam ler notícias on line, o que significa 78,4% dos utilizadores da internet.

 

O ARCO DA VELHA -  Apesar dos ciberataques verificados, o plano para formar militares em ciberdefesa e operações no ciberespaço, que deveria ter começado este ano, ainda não arrancou.

 

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REALIDADE & FANTASIA - Serralves apresenta até 16 de Abril a exposição “Metamorfoses” da norte-americana Cindy Sherman, que integra uma série de obras que atravessam toda a carreira da artista. As salas do museu foram objecto de uma grande transformação, criando um cenário teatral para acolher a narrativa proposta pelas fotografias de Sherman. A mostra inclui também um trabalho inédito, um mural fotográfico, especialmente concebido para o Museu de Serralves. Cindy Sherman ganhou notoriedade com imagens em que se retrata como modelo da sua própria obra, num leque de personagens e ambientes que evocam a representação da mulher pelos mídia e a forma como estes encaram a representação do corpo e da identidade . O curioso é como, com base no retrato, melhor dizendo no auto-retrato, Sherman sai da aparente realidade das imagens fotográficas para uma narrativa ficcional, apagando a fronteira entre o real e o imaginado. Sherman, nascida em Nova Iorque em 1954, tem vindo a construir  desde os anos 70 um corpo de trabalho sólido elaborando muito a encenação das imagens. Desde o início dos anos 2000 Sherman passou a usar a tecnologia digital para manipular ainda mais as personagens que cria, reforçando o seu olhar cáustico e satírico sobre a sociedade. Para acompanhar a exposição da obra de Cindy Sherman em Portugal, o Museu de Serralves apresentará um catálogo da exposição que, além de reproduções de obras expostas, inclui a transcrição de uma conversa entre a artista e Sofia Coppola e também ensaios de Joanne Heyler, Philippe Vergne, Maria Filomena Molder e Sérgio Mah sobre questões como identidade, género, representação, e o papel das imagens na contemporaneidade. (a imagem da exposição aqui publicada é de Filipe Bargar).

 

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DESCOBRIR O JAPÃO - Quando olhamos para a sociedade japonesa, para a cultura do país e das suas gentes, há uma palavra que sintetiza tudo o que deve ser garantido: Bushido. O termo inclui os conceitos de rectidão, justiça, coragem, bondade, delicadeza, sinceridade, honra, lealdade e autodomínio. Esta definição figura no glossário de “O Crisóstomo e a Espada: Padrões da Cultura Japonesa”, um ensaio escrito por Ruth Benedict em 1946 e agora editado pela primeira vez em Portugal. E como nasceu este ensaio? Em Junho de 1944, os Estados Unidos da América não sabiam como encarar o seu inimigo japonês na II Guerra Mundial. Como lidar com e ocupar o Japão após a vitória militar? Para dissipar estas incertezas, o governo e as forças armadas norte-americanas pediram à antropóloga Ruth Benedict que estudasse os japoneses e traçasse um retrato das suas normas e valores culturais. E foi assim que Ruth Benedict apresentou ao mundo um estudo que abriu ao mundo a porta de entrada para o estudo e compreensão dos complexos padrões da cultura japonesa, que explicam não só o militarismo de tempos passados, mas também a fabulosa expansão pacífica levada a cabo pelo povo japonês no período do pós-guerra. Desde a sua publicação, há quase meio século, já foram vendidos mais de dois milhões e 300 mil exemplares no Japão e a sua leitura continua a ser, ainda hoje, indispensável para quem quer compreender a cultura do povo nipónico. Com tradução de Vera Rodrigues o livro inaugura a colecção “Os Livros Não se Rendem”, da editora “Guerra & Paz”.

 

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UM LIVRO DE FOTOGRAFIAS - A colecção Ph. é uma iniciativa da Imprensa Nacional que tem vindo a editar uma série de monografias sobre o trabalho de fotógrafos portugueses contemporâneos. Depois de edições dedicadas a nomes como Jorge Molder, Paulo Nozolino, Fernando Lemos, José M. Rodrigues, ou Daniel Blaufuks, entre outros, surge agora Alfredo Cunha. Trata-se do primeiro volume desta colecção que aborda o trabalho de um fotojornalista. Alfredo Cunha tem uma experiência de décadas bem diversificada - começou no “Notícias da Amadora”, depois no “Século”, trabalhou em agências noticiosas, foi fotógrafo oficial dos Presidentes Ramalho Eanes e Mário Soares, editor de fotografia do “Público” e “Jornal de Notícias”, colaborador em várias outras publicações, expôs em Portugal e no estrangeiro, realizou ensaios fotográficos e publicou três dezenas de livros. A selecção de fotografias escolhidas para este Ph.9, todas a preto e branco, com uma impressão cuidada mostra a diversidade da sua carreira, da reportagem ao retrato, da guerra à religião, da revolução à descolonização, da cidade ao campo - onde aliás vive desde há uns anos, em Vila Verde, no distrito de Braga. Algumas das suas fotografias do 25 de Abril são imagens já clássicas, feitas quando tinha apenas 20 anos. Na introdução ao livro António Barreto salienta sobre Alfredo Cunha: “A sua fotografia é humana, é a da condição humana, feita de dor e sofrimento, de alegria e paz. É a fotografia das crenças e dos sentimentos das pessoas. É a arte que privilegia o sentido do humano”.

 

RIGOR E ENGENHO - Pizzas há muitas, mas poucas se assemelham às que descobri em Sarilhos Pequenos, junto à baía que confronta o Montijo, localizada num antigo bar no edifício da Associação Naval Sarilhense. Falo da pizzaria Vela Latina, que foi buscar o seu nome a um barco que está nas traseiras do edifício. A história do local é curiosa: quando o Bica do Sapato encerrou o seu chefe de mesa, Hélder Ribeiro, um profissional com muitas provas dadas, decidiu mudar de vida e procurou um espaço onde pudesse construir o seu próprio restaurante. E foi ali, junto àquela baía, que meteu mãos à obra, com a pandemia pelo meio. Desde o princípio quis fazer uma pizzaria, mas diferente do que é vulgar encontrar - “não queria nada dessas coisas industriais que por aí existem”. Por isso instalou um forno italiano, a lenha, estudou receitas, experimentou farinhas, pesquisou produtos italianos e, juntamente com um sócio, lançou-se na recuperação do espaço, de forma cuidadosa. Após longas obras e os constrangimentos da pandemia, finalmente conseguiu abrir este ano a Pizzaria Vela Latina.  Nas entradas há ideias como anchovas sobre focaccia com manteiga, uma tábua de charcutaria italiana e uma com queijos da Sardenha, Toscânia e outras regiões. Na lista estão 17 pizzas diferentes e dois calzone. Os ingredientes são todos seleccionados por Hélder Ribeiro e importados de Itália, assim como a farinha utilizada para preparar a massa, que fica a levedar 24 horas. Assim se consegue uma massa leve, a base da pizza que vai ao forno com molho de tomate, também italiano. Os outros ingredientes só são colocados à saída do forno, o que faz toda a diferença. O resultado é uma pizza bem diferente do que se costuma encontrar por aí, rica, com os sabores bem diferenciados. A Pizzaria Vela Latina fica em Sarilhos Pequenos, Rua de São Domingos, e tem o telefone 967 102 251. Fecha às segundas e terças, aberto nos outros dias ao almoço e jantar, ao fim de semana é melhor marcar.

 

DIXIT - “Tenho uma dor aguda nas costas de suportar tantos impostos. É uma hérnia fiscal” - lido no Facebook

 

BACK TO BASICS - “O mundo é mais governado em função das aparências do que da realidade” - Daniel Webster

 





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