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D. MEDINA I, O DESPOVOADOR

por falcao, em 28.06.19

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OS ASSASSINOS DA CIDADE  - Nos últimos dias vários amigos que vivem em zonas históricas de Lisboa disseram que estão a ponderar sair das casas onde sonharam viver porque já não aguentam o barulho e a feira permanentemente instalada por todo o lado. Percorre-se a cidade e ela está desfigurada - basta olhar para o que permitiram fazer no Jardim de São Pedro de Alcântara, invadido por barracas horríveis e um barulho constante. Ali deixou de haver miradouro, um dos melhores locais para se apreciar as sete colinas está reduzido a uma feira foleira. Um pouco mais à frente o Princípe Real é o retrato do caos. No ar sente-se tensão, à noite o barulho continua, quem ali mora deseja fugir e os alojamentos locais multiplicam-se a uma velocidade desconcertante. Não vejo isto em nenhuma outra capital e cidades há, como Berlim, onde acabou de ser decretado o congelamento do preço das casas durante cinco anos para tentar travar a especulação imobiliária. Dez cidades (Amesterdão, Barcelona, Berlim, Bordéus, Bruxelas, Cracóvia, Munique, Paris, Valência e Viena) pediram a intervenção da União Europeia para impedir o crescimento explosivo do Airbnb, que está a pôr os habitantes locais para fora de suas casas. Contraste: em Lisboa o executivo municipal parece apostado em fomentar uma política de expulsão dos habitantes da cidade. Como afirmava Ana Margarida Carvalho num texto sobre a situação em Lisboa, a propósito do ruído e da confusão permanentes: “Se calhar, a ideia é mesmo essa: tornar de tal maneira insuportável a vida em bairros residenciais, até que estes deixem de ser residenciáveis.”. A edição mais recente da revista “Monocle” coloca Lisboa na décima posição entre as melhores 25 cidades, mas sublinha: “O fluxo de entrada de pessoas coloca questões sobre o turismo descontrolado, nomeadamente o aumento das rendas de casa, situação particularmente dramática num país que tem o menor salário mínimo da Europa Ocidental”. A Câmara Municipal, sugere a revista, “deveria agir rapidamente para evitar que os habitantes locais, que são quem dá vida à cidade tenham que sair para longe”.  

 

SEMANADA - Segundo um organismo do Conselho Europeu Portugal ignorou a maioria das recomendações para aplicação de medidas anticorrupção relativamente a parlamentares, juízes e procuradores; o Ministro das Finanças disse que as cativações não afectam o Serviço Nacional de Saúde; Marcelo Rebelo de Sousa afirmou-se preocupado com o calendário de “contenção de despesas”; o hospital da Guarda está em ruptura com falta de médicos e equipamentos; a Urgência do  Hospital de Santa Maria tem escalas incompletas para 17 dias de Agosto; nas maternidades portuguesas faltam 150 obstetras; a maternidade Alfredo da Costa só tem anestesistas para cinco dias em Agosto; um estudo desenvolvido pela Fundação da Aliança de Democracias indica que Portugal é o terceiro país do mundo onde menos se acredita no governo; a compra de casas a pronto e em dinheiro está a aumentar; os partidos políticos têm um património imobiliário superior a 50 milhões de euros, a maioria isenta de IMI; apesar de proibidos os copos descartáveis continuaram a ser usados nas festas de Lisboa; m 2018 registaram-se 6536 visitas para sexo nas prisões portuguesas; o número de funcionários públicos aumentou 26 mil desde 2016; há quatro mil projectos urbanísticos pendentes na Câmara Municipal de Lisboa, com um atraso considerável e há casos em que as decisões são tomadas de forma mais rápida sabe-se lá porquê.

 

ARCO DA VELHA - Em Guimarães um conjunto de salas de ensaio equipadas, que custaram cerca de 800 mil euros e se destinavam a apoiar o trabalho de músicos locais, foram demolidas três anos depois de terem sido inauguradas devido a falhas estruturais no edifício.

 

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CONTAR HISTÓRIAS EM IMAGENS - Como Carolina Trigueiros escreve no texto  sobre a exposição “Sal Nos Olhos”, que abriu sábado passado na Galeria Diferença, Ana Vidigal “é uma contadora de histórias” que nas suas obras estabelece conexões de pessoas, lugares e momentos. Da mesma forma as obras de Ana Vidigal são histórias, que recorrem à utilização de recortes de imagens e texto, com recurso à colagem e também à pintura,  num processo de cruzamento de informação com um enquadramento plástico que faz cada obra transcender o significado inicial das referências que utilizou. São obras de intervenção, mas acima de tudo de observação do mundo à sua volta, sempre com um sentido de humor acutilante. Frequentemente mostram um olhar entre o crítico e o desapontado, mas na maior parte das vezes são uma narrativa crua que se desenvolve como um manifesto das suas ideias. Também na Diferença, em simultâneo com a exposição de Ana Vidigal, Hugo Brazão, um artista madeirense que trabalha em Londres, faz uma incursão entre a ficção e a realidade. Partiu de uma descoberta científica na Ponta de São Lourenço, na Madeira, para especular sobre os efeitos do erro humano no ambiente. “O’Mouse an’Man” de Hugo Brazão e “Sal Nos Olhos” de Ana Vidigal estão na Diferença até 27 de Julho - Rua de São Filipe Neri 42.

 

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ROTEIRO - Hoje destaco uma peça teatral - Sábado e Domingo são os últimos dias para poder assistir a “Gertrude Stein e Acompanhante”, uma peça de Win Wells que desenvolve em cena um diálogo improvável entre a escritora e poetisa americana Gertrude Stein  e a sua companheira de 36 anos de vida, Alice B. Toklas, levando-a a falar sobre os seus assuntos preferidos: ela própria, a literatura, a pintura, as artes.  O espaço cénico e os figurinos são de António Lagarto e em palco estão Cucha Carvalheiro, Lucinda Loureiro e Nuno Vieira de Almeida. Na sala Mário Viegas do Teatro de S. Luiz. Voltando às exposições destaco “A Chuva Cai Ao Contrário”, uma mostra marcante de João Jacinto na Sociedade Nacional de Belas Artes (Rua Barata Salgueiro 36, até 20 de Julho). Trata-se de um impressionante conjunto de obras de grandes dimensões, numa montagem excepcional num corredor artificial criado no salão nobre da instituição. As 24 obras apresentadas foram aliás propositadamente feitas para este espaço, numa exposição patrocinada pela Fundação Carmona e Costa e com curadoria de Manuel Costa Cabral e Nuno Faria. 

 

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CALIFORNIA SOUNDS - Mesmo quando julgamos que Springsteen não nos podia surpreender, eis que, quase aos 70 anos, ele dá de novo sinais de vida. Depois da sua experiência de estar um ano, noite após noite num pequeno teatro da Broadway, o seu novo disco, “Western Stars” salta para os grandes horizontes americanos e entra musicalmente pela música country e por evocações da sonoridade pop dos anos 60 e 70 de uma forma que ele não havia ainda feito. Este é, digamos, um disco californiano - em vez de operários nas fábricas surge a história de um actor secundário cuja fama vem de ter levado um tiro de John Wayne num western. Os arranjos musicais fazem também lembrar a época, há momentos em que se sente quase a presença do som de Phil Spector e nos coros há um trabalho vocal que não se encontra habitualmente nos discos de Springsteen - que se posiciona ele próprio como um actor que está a querer desempenhar um papel diferente do habitual. “There Goes My Miracle” mostra-nos Springsteen a cantar de forma pouco usual e “Hello Sunshine”, quase no fim do disco, é um exemplo perfeito de todo este “Western Stars”, tal como, aliás “The Wayfarer” ou “Drive Fast (The Stuntman)”.

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DE ONDE VEM A VIAGEM?  - Michel Onfray é um filósofo francês que escreve sobre temas que incluem a gastronomia, a história, a pintura e a geografia, entre outros. Assume-se como um hedonista, numa pose quase libertária e tem cerca de meia centena de títulos publicados. Em tempos “Teoria da Viagem” já havia sido editado em Portugal, mas foi agora recuperado na bela colecção “Terra Incógnita”, que sob a direcção de Francisco José Viegas está a oferecer edições muito interessantes. Publicado em França em 2007, e como refere o editor no preâmbulo, este “Teoria da Viagem” cruza “a literatura propriamente dita com uma aproximação irregular e melancólica à geografia, a poesia com a prosa. O livro fala do desejo de partir, sobre o que nos leva a querer viajar - “Sonhar com um destino é obedecer a um imperativo que, no nosso íntimo, fala uma língua estrangeira.». E que poderemos encontrar nesta obra? - perguntas como qual é a origem do desejo de viajar? Por que razão nos sentimos mais nómadas ou mais sedentários? Porque somos impelidos para o movimento constante, a deslocação, ou amamos o imobilismo e as raízes?  O objectivo da colecção "Terra Incógnita"  é reunir "títulos e autores que desprezam a ideia de turismo e fazem da viagem um modo de conhecimento". 

 

PROVA ALBICASTRENSE - Volta e meia o acaso leva-nos a um restaurante desconhecido e que nos deixa boas recordações. Numa recente viagem pela Beira Baixa descobri O Palitão, que fica numa urbanização relativamente recente de Castelo Branco e que pratica a gastronomia da região. Em primeiro lugar destaco a simpatia e eficácia do serviço, em segundo lugar o cuidado em pormenores como um pão de boa qualidade, embrulhado em pano como deve ser. Do ritual deste restaurante faz parte um cortejo de entradas que inclui ovos mexidos com farinheira, espargos selvagens, saladas frias de polvo e orelha e grão com bacalhau, além de uma salada de tomate saborosa como poucas. Nos pratos principais provaram-se os filetes de polvo e o laminado de carnes que são propostos com uma variedade de acompanhamentos, incluindo arroz com feijão e migas. O prato do dia era ensopado de borrego, elogiado noutras mesas. A garrafeira é variada, os preços são sensatos e a doçaria inclui bolo rançoso e sericaia. As operações são dirigidas por Frederico Vinagre, que ali se estabeleceu há 14 anos. O Palitão fica na Avenida de Espanha Lote 7, o telefone é o 272 323 608. A casa enche cedo, vale a pena marcar.

 

DIXIT - A corrupção é uma "epidemia que grassa pela sociedade" e isso em parte deve-se também a um sistema partidário que escolheu a via do "encastelamento", onde "o mérito foi substituído pela fidelidade partidária" e no qual "a administração pública foi colonizada" pelos partidos  - Ramalho Eanes.

 

BACK TO BASICS - “O principal sinal de que a corrupção está bem viva numa sociedade é a ideia de que os fins justificam os meios” - Georges Bernanos







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publicado às 11:30


1 comentário

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De Isabel falcão e Silva a 07.07.2019 às 19:25

Desculpar-me-á ter de corrigir o que escreve sobre a obra de Michel Onfray que, este ano, publicou nada mais nada menos que o seu centésimo livro intitulado “sagesse”. Há, no YouTube a possibilidade de ouvir numerosas conferências e entrevistas que tem dado sobre os livros que vai publicando e sobre a actualidade política francesa. É conhecida a sua posição crítica de Macron, expressa de forma extremamente virulenta em cartas abertas ao presidente francês.

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