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CIDADES SEM ROSTO - A paisagem das cidades portuguesas perde identidade com a proliferação de milhentos artefactos destinados a criar um cenário em vez de uma realidade. Muito do que hoje em dia vejo em Lisboa, no Porto, e, até em Coimbra, não vejo noutras cidades europeias com forte atracção de turistas, mas onde os habitantes locais são o destinatário preferencial dos cuidados de quem as governa. Noutras cidades europeias os visitantes são bem vindos mas os autarcas e as instituições não se vergam a eles. Pensam nos eleitores e não nos visitantes. Aqui está a dar-se o fenómeno contrário. A paisagem urbana está a degradar-se, não só pelo encerramento de lojas ou pela especulação imobiliária. No centro do problema está a atitude de quem tem poder. O mesmo se passa a nível nacional. Os trágicos acontecimentos do ano passado vieram pôr a nu aquilo que todos sabíamos mas que ninguém queria recordar: a cada vez maior desertificação do interior, o abandono de vilas e aldeias, o encerramento de tribunais, de estações de correios, de agências bancárias, a dificuldade em restabelecer coisas básicas como ligações telefónicas, a ausência de meios de socorro e a descoordenação dos existentes. A desertificação é tanta que, como um amigo me dizia, até já as lojas chinesas que encerram e fogem de vilas do interior. Se os serviços públicos encerram, porque hão-de os privados ficar? Há um dever do Estado em manter a vida no país. Esse dever anda a ser esquecido há décadas e nos últimos anos degradou-se para além do razoável. Depois da desertificação do interior começa a degradação das cidades. É a fase em que estamos.

 

SEMANADA - Um estudo divulgado esta semana indica que a plantação de eucaliptos tem cinco vezes mais apoios que a plantação de espécies da floresta nativa; em Portugal um casal com dois filhos e salários médios é sujeito a uma carga fiscal sobre o trabalho acima da média da União Europeia e de entre as economias comparáveis somos dos países que pior trata estas famílias; o Ministério da Saúde não conseguiu recrutar nenhum dos 67 médicos de que precisava para reforçar o quadro hospitalar do Algarve durante o Verão; apenas três das instituições de ensino superior públicas têm creche ou jardim de infância destinados aos filhos de professores, funcionários ou estudantes; um em cada quatro automobilistas que morreram em acidentes de viação tinha mais álcool no sangue do que a lei permite; em ano de seca extrema o consumo de água aumentou 4%; o Chefe de Estado Maior do Exército recusou informar os deputados da lista de material recuperado após o assalto a Tancos; a procura do ensino superior registou uma quebra de 9%; o PSD foi o partido parlamentar que mais donativos recebeu em 2017; segundo dados da Marktest um terço do investimento publicitário em Portugal vem dos sectores alimentar, automóvel e farmacêutico; segundo Madonna Portugal é o país do Fado, Futebol e Fátima e assemelha-se a uma Cuba algo pobrezinha mas pitoresca

e simpática.

 

ARCO DA VELHA - Na terceira sessão parlamentar desta legislatura os deputados deram 1500 faltas, apenas 32 dos eleitos nunca faltaram ao plenário e o PSD foi o partido com maior taxa de absentismo, com 42% do total de ausências verificadas.

 

 

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ALTA TENSÃO - O número 2 de “Electra”, a revista de crítica e ensaio publicada pela Fundação EDP e dirigida por José Manuel dos Santos, tem por tema de capa  a “Estupidez”, desenvolvido a partir de um artigo de António Guerreiro que no seu enigmático estilo habitual elabora sobre “A Nossa Querida Estupidez” e, ao longo das cinquenta páginas seguintes, apresenta várias variantes de pensamentos sobre estupidez e idiotia por diversos autores. Confesso alguma dificuldade de compreensão da escolha editorial e da urgência da discussão de tal tema, pese embora a existência de tanta estupidez na política e no exercício do poder, quer em Portugal, quer lá fora. Ora aqui está uma análise que seria interessante: como a estupidez afecta a actividade e o discurso político no poder e nos partidos em Portugal. Mas daí, foge Satanás! Do ponto de vista gráfico a revista melhorou em relação ao primeiro número e apresenta-se menos cinzenta, embora continue a mostrar menos do que podia e a elaborar mais do que era necessário. É  preciso chegarmos à página 137, das 192 da revista, para encontrarmos o primeiro artigo interessante - “Que diabo vêm os turistas ver a Barcelona?” do poeta catalão José Angel Cilleruelo; mais à frente outro artigo que vale a pena ler é “A Cidade Sitiada” do historiador de arte italiano Salvatore Settis. Duas dezenas de páginas francamente boas em quase duas centenas é uma percentagem reduzida. O facto de uma publicação de crítica e ensaio ser uma raridade no panorama nacional acrescenta-lhe responsabilidade, não a retira. “Electra”, publicação trimestral editada pela Fundação EDP.

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ESCULTURAS NUM JARDIM - A exposição incontornável deste ano passa-se no espaço do Museu e dos jardins de Serralves e é a primeira mostra em Portugal de Anish Kapoor, um dos mais importantes artistas contemporâneos. A exposição reúne uma seleção de trabalhos de exterior representativos das esculturas  de Kapoor, como a da imagem, onde estão sempre presentes a escala, o relacionamento com a arquitetura, a paisagem e o próprio observador. A sua escolha e a sua localização relativa no Parque de Serralves foram cuidadosamente definidas pelo artista para criar um itinerário através do tempo, do espaço, das formas de percepção e de atribuição de significado. A apresentação no espaço central do Museu de 56 maquetas de projetos executados e não executados concebidas nos últimos quarenta anos evoca a escala pessoal do ateliê do artista, como espaço de pensamento e de experimentação. Até 6 de Janeiro, em Serralves. Em Lisboa, no espaço Chiado 8, até 14 de Setembro, mostra-se a obra dos cinco finalistas da primeira edição do Prémio Navigator Arte Em Papel. Para além de Francisca Carvalho e Pedro Paixão a lista dos cinco finalistas inclui o libanês Haig Aivazian, o indiano Shreyas Karle e ainda Seulgi Lee, de origem sul-coreana, mas que reside e trabalha em Paris há já mais de duas décadas.

 

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SAMBA & JAZZ - O nome Salvador da Silva Filho provavelmente não vos diz muito. O nome Dom Salvador já pode dizer alguma coisa aos apreciadores de jazz que tenham seguido o que nessa área se fazia no Brasil nos anos 60 e 70. Pianista, compositor e produtor, na segunda metade dos anos 70 tocou predominantemente nos Estados Unidos, onde conviveu com nomes como Thelonius Monk e Charles Lloyd. Foi a época em que o samba e a bossa nova procuravam pontos comuns com o jazz e, no caso de Dom Salvador o samba era o principal ponto de ligação. O seu álbum Rio 65 Trio é um exemplo disso, contrastando com o que se passava na jazzificação da Bossa Nova e procurando, em alternativa, um caminho mais próximo da fusão. Raridade hoje em dia, esse foi o disco que serviu de inspiração ao baterista Duduka Da Fonseca, que tocou com Salvador em Nova Iorque nos anos 80. “Duduka da Fonseca plays Don Salvador”, o álbum agora editado, é uma boa revisitação dos temas originais do já citado Rio 65 Trio e de vários outros do músico. O tema “Farjuto” é um bom exemplo das diferenças existentes: não se trata de uma cópia, trata-se de uma nova versão feita por quem admira o autor original e o conhece bem - e aqui Don Feldman, que ocupa o piano originalmente de Dom Salvador, tem um desempenho notável. Outros destaques vão para os temas “Mariá” e “Para Elis”, duas baladas fora de série e para o arrebatador “Gafieira”. Resta dizer que além de Duduka da Fonseca na bateria e de David Feldman no piano, o trio completa-se com Guto Wirtti no baixo. Em “Para Elis” o violoncelo está nas excelentes mãos do convidado especial Jacques Morelembaum. Disponível no Spotify.



O COMENSAL - Há uns meses,  no restaurante de um dos chefs que apareceram nos últimos anos e tiveram passagens pela televisão, fiquei espantado com a boa qualidade da comida, o facto de a clientela ser maioritariamente portuguesa e de os preços serem razoáveis. O nome do chef em questão, ou melhor dizendo o  nome profissional, é Chakall. No fim do jantar, quando ele passou pelas mesas estivemos um pouco a falar e comentando eu a clientela maioritariamente portuguesa, ele explicou-me uma evidência: trabalhar para os clientes portugueses significa fazer as coisas de maneira a que voltem - a comida tem que corresponder às expectativas, o serviço tem que ser simpático e eficaz e a conta não pode ser agreste. Um estrangeiro está de passagem, vem cá hoje e não volta amanhã, por isso ele quer ter clientes que voltem e que, quando abrir outro restaurante noutro local, queiram experimentar o que lá faz. Infelizmente esta maneira de ver as coisas está a perder-se. Cada vez mais o serviço anda atabalhoado, os preços aumentam e a qualidade não corresponde ao esperado. Já vi casos em que, quando protestei com os preços em comparação ao que eram há uns tempos ouvi como resposta que aqueles são preços para turista, para os clientes portugueses o preço é especial. É isto que está a estragar tantas coisas boas que temos. Quem trabalha para turistas aposta muitas vezes no engano passageiro. Quem trabalha para os clientes do dia seguinte terá certamente vida mais longa.

 

DIXIT - “O que a direita faz é criar casos que minem todo o debate sobre o direito à habitação” - Catarina Martins, na RTP3, sobre a revelação dos negócios imobiliários de Ricardo Robles.

 

GOSTO - Da festa que é sempre a Volta a Portugal em bicicleta, a mais popular das competições desportivas.

 

NÃO GOSTO - Catarina Martins culpou os jornalistas e os orgãos de informação sobre a crise que assolou o Bloco por terem revelado as negociatas de Robles.

 

BACK TO BASICS - O mais radical dos revolucionários será um conservador no dia a seguir à revolução - Hannah Arendt.

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publicado às 13:20


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