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A CONFIANÇA - “A meio da batalha não se mudam os generais” -  disse esta semana o Primeiro Ministro no Parlamento, a propósito das falhas registadas na actuação das autoridades de saúde e da necessidade de se mudarem os seus responsáveis. A situação provocada pelo Covid 19 está a mostrar as grandes lacunas que existem na coordenação, mas também na disponibilização de meios humanos e materiais e na articulação da informação a profissionais da saúde e público em geral. Em última análise a questão é a capacidade de o Estado desempenhar o seu papel em prol dos cidadãos. E, infelizmente como já aconteceu em situações anteriores - recordo apenas a falta de coordenação do combate aos incêndios 2017 - a obstinação de não mudar responsáveis quando surgem problemas não é uma boa ideia. A Ministra da Saúde, que tem tido um desempenho em geral fraco, é, em última análise, a responsável pelo que se está a passar e os seus desencontros com a Direcção Geral da Saúde são um sinal preocupante. O que está em causa aqui é a forma como vamos perdendo a confiança no Estado, como vamos aceitando passivamente que as coisas não funcionam. A resignação face a um Estado ineficaz é uma ameaça ao funcionamento da democracia e é o caminho que abre campo ao populismo.  Num país onde o funcionamento da justiça levanta tantas dúvidas, onde as finanças distorcem a realidade e onde a saúde defronta problemas graves, avolumam-se as razões para o descrédito do Estado. E isso nunca é uma boa notícia. O Estado que é omnipotente de um lado e ausente de outro é um perigo para todos.

 

SEMANADA - Os serviços postais apresentaram 28 mil reclamações em 2019, mais 18% do que no ano anterior e o atraso na entrega foi o motivo que registou uma maior percentagem de queixas; a dívida pública situou-se em 252,1 mil milhões de euros em janeiro, aumentando 2,3 mil milhões relativamente ao final de 2019; ao contrário do que a Lei prevê, as Finanças não publicam os encargos trimestrais do Estado com as PPP desde há um ano; o Sporting já teve 24 treinadores desde 2000 e sob a direcção de Frederico Varandas já teve seis em apenas um ano e meio; o presidente do Tribunal da Relação de Lisboa demitiu-se depois de surgirem suspeitas sobre a viciação dos sorteios de atribuição de processos, possibilitando a escolha de juízes de acordo com o interesse de uma das partes envolvidas; segundo o Eurostat Portugal está entre os países com sinais mais agudos de degradação do mercado de trabalho no arranque de 2020; Portugal tem quinta maior taxa de desemprego jovem da Europa; as chamadas por telefone fixo caíram 15% em 2019, a maior queda dos últimos quatro anos; os grandes contribuintes, com mais de 750 mil euros de rendimento ou património superior a cinco milhões de euros, aumentaram 34% em 2019; José Sócrates afirmou esta semana à saída do tribunal onde foi interrogado, que as perguntas do juiz sobretudo aquelas sobre umas férias no Algarve, eram "perguntas ridículas".

 

ARCO DA VELHA - Uma médica afirma ter telefonado 44 vezes para a Linha de Apoio Aos Médicos sobre o Covid 19 sem ter conseguido obter qualquer resposta e a linha Saúde 24 não atendeu 25% das cahamadas no pico da crise.

 

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DESENHOS NATURAIS - Esta semana sugiro uma ida à Galeria Monumental, que inaugurou recentemente duas exposições. A primeira mostra desenhos de Bárbara Assis Pacheco (na imagem), fruto das suas viagens, mas também das suas preocupações ambientais, baseadas na observação persistente da natureza. Num texto recente sobre uma das suas exposições dizia-se que Bárbara Assis Pacheco concorda com Goethe quando ele diz que «falamos demasiado — devíamos falar menos e desenhar». A artista é mesmo bastante lacónica e resume-se a si própria em quatro palavras: «Faz desenhos e coisas». A segunda exposição da Monumental tem um título retirado de um poema autobiográfico de William Wordsworth, “...quando as nuvens são pelo vento arrastadas do seu lugar favorito, onde descansam...” e usa livros em mau estado encontrados em alfarrabistas como a matéria prima, sobre cujas páginas a artista trabalhou. As duas exposições ficam patentes na Monumental até 28 de Março (Campo dos Mártires da Pátria 101). Outras sugestões: até sábado dia 7 ainda poderá ver na Fundação Carmona e Costa a exposição  ”The I Of The Beeholder” do colectivo Musa Paradisíaca, composto por Eduardo Guerra e Miguel Ferrão (Rua Soeiro Pereira Gomes, Lote 1). Para uma experiência perfeitamente diferente recomenda-se o Museu do Dinheiro, aberto em abril de 2016, distinguido em 2017 como “Melhor Museu do Ano” pela Associação Portuguesa de Museologia e que em 2019, cerca de 75 000 visitantes, interessados em saber mais sobre o dinheiro, a sua história e a sua evolução, em Portugal e no mundo. O Museu abriu agora um novo núcleo, “Compreender”, dedicado a explicar  a finalidade do Banco de Portugal, que ganhou relevância nos últimos anos pelos grandes contributos para a crise do sistema financeiro português (Largo de S. Julião).

 

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MÚSICA DARK - Pesadelos, fantasmas, espíritos errantes são os personagens recorrentes das canções de Agnes Obel, uma dinamarquesa com um estilo musical muito próprio, uma voz entre o murmurado e o sinuoso e arranjos instrumentais austeros, com larga utilização de electrónica. Obel tem feito bandas sonoras para algumas séries de televisão dinamarquesas e alemãs, como The Rain e Dark, e até jogos video, como o violento Dark Souls III: The Fire Fades Edition . O seu novo disco, “Myopia”, foi editado pela Blue Note, está disponível no Spotify e foi escrito, tocado, produzido e misturado integralmente pela própria Agnes Obel, que assegurou a voz, piano, teclas, sintetizadores e caixas de ritmos. O primeiro tema do disco dá logo o mote na forma como Obel canta e no clima sonoro que encenou e que se adensa depois. Destaque para “Island Of Doom”, “Roscian”, para a faixa-título “Myopia” e para a última faixa, “Won’t You Call Me”, onde a voz de Obel e o piano se envolvem reforçando um ambiente de mistério, que afinal, é o de todo o disco. Música de câmara pop fantasmagórica é como uma das críticas descreve este “Myopia”, o quarto disco da autora.

 

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RECEITAS & PETISCOS - Desde há bastante tempo que sigo o blogue “O Homem Que Comia Tudo”, do jornalista Ricardo Dias Felner, onde ele vai relatando as suas avaliações sobre restaurantes, petiscos ou coisas tão triviais como iogurtes de supermercado. Aí escreveu guias esclarecedores sobre, por exemplo, o bacalhau que por cá se come e anualmente atribui os prémios Cometa que têm uma extensa lista de nomeações, que vai das melhores sardinhas de conserva até à melhor sobremesa ou melhor empregado do ano. É uma lista incontornável. Agora “O Homem Que Comia Tudo” passou a livro, pela mão da Quetzal, e com o subtítulo “Aventuras culinárias, receitas e restaurantes de Portugal e do mundo”. A nota de introdução ao livro, uma citação de um dos textos de Felner, é por si só todo um episódio: “Se vou em viagem de carro e passo por um boi, começo logo a apreciar os cortes: o lombo, o acém, as abas gordas. No Oceanário toda a gente de volta dos tubarões e dos peixes coloridos e incomestíveis e a única coisa que me detém são as garoupas gordas, as douradas, os pargos”. E depois vem a contextualização da música e da comida, que é uma coisa que me toca muito - de John Cage o autor escolheu a citação “Cheguei à conclusão de que podemos aprender muito sobre música se prestarmos atenção ao cogumelo”; e, de Black Francis, dos Pixies: “ O nosso amor é arroz e feijão e banha de cavalo”. Citações à parte, o livro começa por uma cachupa, passa pelas sardinhas e carapaus e acaba na lagosta, descrita como  o insecto aquático da aristocracia”. Há avaliações de lugares, manuais de instrução para cozinhar, um guia de produtos culinários e considerações sobre a arte da restauração e da comida. Corro o risco de dizer que o livro é tão delicioso como as comidas de que fala com o maior empenho.

 

PÃO COM MANTEIGA - Hoje dedico-me ao pão - e, voltando ao livro de Ricardo Dias Felner acima citado, ele recorda a busca da perfeita baguette em Paris e elogia a baguette da padaria Isco, em Alvalade, na rua José de Esaguy 10. Claro que há outras boas padarias como a incontornável Gleba (Rua Prior do Crato 4, a Alcântara). Mas, voltemos à baguette e à geração de novas padarias que apostam em retomar a tradição da fermentação lenta. Encontrar uma baguette estaladiça é um exercício de perseverança e continuo a considerar que as baguettes são a melhor matéria prima para fazer boas sanduíches. Procurem-nas, então no Isco e já que estão em Alvalade vão ao mercado local, ali perto, e pesquisem queijo ou charcutaria do vosso agrado para rechear a baguette - naquele mercado há das melhores bancas lisboetas para esses produtos - também há bom pão regional, do pão de milho tradicional do norte do país ao pão de centeio.  Como curiosidade não resisto a recordar que a CNN considerou recentemente o pão de milho português como um dos 50 melhores pães do mundo e o da Gleba é muito bom. Se não tiver paciência de ir à Gleba ou ao Isco pode experimentar outras possibilidades. Por exemplo, um dos melhores pães alentejanos, que está disponível em vários supermercados, é produzido pela Fermentopão de Beja, tem uma massa saborosa, com o toque ázimo tradicional e é fácil de encontrar em Lisboa. Outra hipótese, de género diferente, mas também de muito boa qualidade, é o Pão da Lagoinha, produzido pela Maranata, em Palmela. São duas variedades de pão feito com recurso às receitas tradicionais das respectivas regiões, cozinhados diariamente sem recurso às massas congeladas que abundam em muitos locais. São óptimos consumidos frescos em fatias finas para petiscar com queijo, boas azeitonas ou presunto e muito bons, no dia a seguir, em fatias mais grossas, para torradas matinais - com manteiga Rainha do Pico, dos Açores, claro.

 

DIXIT - “Ninguém tira a Nuno Artur Silva o mérito de ter criado as Produções Fictícias e de ter gerido tantos talentos e tantos egos. Mas virtudes passadas não apagam vícios presentes. O equilibrismo que anda a tentar fazer desde 2015 entre cargos públicos e negócios privados não tem defesa possível.” - João Miguel Tavares

 

BACK TO BASICS - “O silêncio é a virtude dos idiotas” - Sir Francis Bacon.






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publicado às 12:56


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