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QUE FAZER? - O resultado das eleições legislativas foi, para muita gente, uma surpresa e, para bastante, um choque. Esta surpresa e choque, em vez de motivarem acção, parecem ser o combustível para a inacção - a velha fatalidade lusitana. Vamos por partes: criado em 2019, no último ano da primeira legislatura de António Costa, o Chega foi levado ao colo por ele, desejoso de abrir uma brecha no PSD, o partido rival. O PS apaparicou o Chega desde então, com a preciosa ajuda, no Parlamento, do pior Presidente da Assembleia da República que este regime já teve, Augusto Santos Silva, que não perdeu uma oportunidade para dar palco a André Ventura, vitimizando-o e dando esteróides ao seu eleitorado; depois, o resultado das eleições resulta da avaliação feita aos Governos do PS que se encheram de casos e escândalos, incapazes de promover reformas, atirando Portugal, com a geringonça e a solo, para a cauda dos indicadores económicos da União Europeia. Passemos agora ao presente: o mal dos principais partidos  é que os seus líderes pensam somente em ganhar poder, nem sabendo bem como o exercer a bem do país. Daí o facto de PS e PSD se comportarem na política como o Benfica e o Sporting no futebol: rivais que nunca se entenderão e cujas claques se guerreiam. E daqui saltemos para o futuro: a situação resultante das eleições, com a emergência de um terceiro partido com dimensão apreciável, exige respostas forçosamente diferentes face aos novos problemas. Subscrevo totalmente aquilo que António Barreto escreveu no “Público” no dia a seguir às eleições, sob o título  “Bloco central, evidentemente!”: “Só há duas soluções possíveis, sem os arranjos habituais da classe política portuguesa. Primeira: maioria de direita, com coligação ou aliança entre a AD e o Chega. Segunda: um bloco central entre o PSD e o PS. Todas as outras são receitas para o desastre. Apoia, mas não vota. Vota, mas não trata. Faz aliança, mas não quer papel. Quer papel sem compromisso. Deixa passar a moção, mas o orçamento não ou logo se vê. Faz exigências para o orçamento, mas abstêm-se. Não apresenta moção, mas vota contra. Nem uma coisa nem outra, não há nada como evidentemente.” 

 

SEMANADA - O número de acidentes rodoviários provocados por animais selvagens duplicou nos últimos quatro anos; nos últimos três anos abriram em Portugal 418 novos hotéis e há mais 60 prestes a inaugurar; no final do ano passado o INE contabilizava 1623 hotéis em Portugal; a baixa produtividade da economia fez de Portugal o quarto país que menos cresceu na UE depois da entrada do euro; a economia portuguesa está entre as 20 mais lentas do mundo; os portugueses têm o sexto rendimento mais baixo da UE; já fomos ultrapassados pela Croácia, Letónia e Lituânia e apenas estamos à frente da Grécia, Hungria, Roménia, Eslováquia e Bulgária; em 2023 chegaram ao aeroporto de Lisboa 33,6 milhões  passageiros, quase metade do total do país; nos últimos três anos foram registadas mais de 31 mil vítimas de violência doméstica um aumento de 22,9%; no ano lectivo 22/23 os crimes nas escolas aumentaram 9%; o preço do azeite subiu 69% em Portugal no espaço de um ano; os portugueses gastaram mais 15 mil milhões de euros em jogos online em 2023, mais 35% que no ano anterior; mais de um quinto dos jovens que participaram num estudo sobre literacia digital afirmou já ter partilhado nas redes sociais informações que não tinham lido na íntegra e que depois perceberam ser falsas; graças ao sistema eleitoral vigente os distritos do interior perderam nove deputados entre 1991 e 2024; 673.382 é o número de votos que foram “desperdiçados” nestas eleições legislativas, ou seja, que não foram convertidos em mandatos, cerca de 11% do total de votos válidos. 

 

O ARCO DA VELHA - O Estado esqueceu-se das comemorações dos 500 anos de Camões, mas esta semana descobri que aquilo de que o Estado se esqueceu não passou despercebido ao  El Corte Inglés que nos seus espaços culturais programou  três conferências, um curso e duas leituras de poesia. Bem mais que as entidades públicas fizeram.

 

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A OFICINA - Fundada em 1914 a Cooperativa dos Pedreiros tem uma longa história ligada à construção na cidade do Porto, desde monumentos até edificios emblemáticos, como a actual sede da autarquia ou a estação de S. Bento. Na década de 60 do século passado a Cooperativa dos Pedreiros construiu na Rua da Alegria 598 o edifício Miradouro que tem uma das melhores vistas da cidade. No piso térreo de parte do edifício estavam as antigas oficinas da Cooperativa dos Pedreiros e é nesse espaço que há uns anos Nuno Centeno instalou a sua galeria de arte contemporânea, mantendo a traça e os materiais originais. José Pedro Croft expõe agora pela primeira vez na Galeria Nuno Centeno, com uma mostra a que deu o nome de “Cooperativa dos Pedreiros” e que ali ficará até 20 de Junho. A exposição integra 20 trabalhos novos de Croft, coexistindo desenhos a guache e tinta da china, frequentemente sobre gravura, formando por vezes dípticos, ao lado de esculturas em ferro, vidro e espelhos. No fundo a exposição retoma os eixos principais do trabalho de Croft, a escultura, a gravura e o desenho e desenvolve-se como uma evocação da oficina onde nas paredes estão desenhos que criam uma relação com as peças escultóricas das várias salas. No texto que acompanha a exposição Luís Quintais sublinha que o trabalho de Croft evoca uma “arte da memória que pretende evidenciar os espaços onde expõe”, combinando “o rigor do minimalismo com uma certa intensidade expressiva”.

 

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ROTEIRO - Esta semana o destaque vai para a nova exposição de Paulo Brighenti, na Galeria Pedro Oliveira (Calçada de Monchique 3, Porto), que até 17 de Abril apresenta “Dobrar A Noite”, inspirada nem deambulações nocturnas em Maceira,  a aldeia onde o artista tem o seu atelier. Brighenti usa materiais como a cera de abelha, linho, cimento, cobre, pigmentos, aguarelas e tintas de óleo,  em torno de temas como resistência, ecologia ou a  permanência da memória (na imagem). Em Lisboa Ana Manso apresenta”Menstrum” na Galeria Pedro Cera, Rua do Patrocínio 67-E. A Galeria de Santa Maria Maior, em colaboração com a plataforma P’la Arte, apresenta a colectiva “Nós Que Acreditamos na Liberdade” que expõe trabalho de oito artistas surgidos após 25 de Abril de 1974: Fidel Évora, Francisco Gomes, Francisco Trêpa, Margarida Alfacinha, Maria Luz, Mariana Duarte Santos, Paulo Albuquerque e Thomas Mendonça. A exposição fica patente até 30 de Março, de segunda a sábado, entre as 15 e as 20h00 na Rua da Madalena 147.  Em Vila Franca de Xira, na Galeria Pedro Jaime Vasconcelos (Rua Miguel Bombarda 155), a artista plástica sérvia Marija Toskovic , que vive e trabalha em Lisboa, apresenta a exposição “O Outro Lado”. 

 

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MÚSICA QUE NÃO SE ESQUECE - J.P. Simões começou a incorporar nos concertos, desde há alguns anos,  versões suas de canções de José Mário Branco. Aliás, no seu disco de estreia a solo, “1970” já tinha incluído uma versão de um dos temas mais conhecidos de José Mário Branco, “Inquietação”. E agora, por desafio da editora Omnichord Records, seleccionou outros oito temas de referência da sua obra, entre os quais “Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades”, “Perfilados de Medo”, “Travessia do Deserto”, “Mariazinha” e “Sopram Ventos Adversos”. A direcção musical é de Nuno Ferreira, que efetuou um trabalho notável de recriação das canções para as actuações ao vivo e para este disco. Além de Nuno Ferreira, na guitarra e voz, JP Simões é acompanhado por  Pedro Pinto (contrabaixo), Ruca Rebordão (percussão) e Márcio Pinto (marimba e electrónica). Pela primeira vez JP Simões lança um disco onde é exclusivamente intérprete das canções de outra pessoa e considerou numa recente entrevista que este “é talvez o disco mais íntimo que alguma vez produzi”. J.P. Simões integrou os projectos Pop Dell’Arte, Belle Chase Hotel e Quinteto Tati,  tem já uma marcante carreira a solo, e além de músico e compositor é letrista, contista e dramaturgo. Este disco combina de forma sensível o enorme talento musical e poético de José Mário Branco, com a capacidade interpretativa de JP Simões, que verdadeiramente recriou os temas originais sem nunca os atraiçoar. O disco foi gravado entre Leiria e Sintra, está disponível nas plataformas digitais e tem edições limitadas em CD e vinil.

 

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POESIA PARA DIAS DIFÍCEIS - Atravessamos tempos difíceis no mundo, na Europa e também em Portugal. Seja pela guerra, pela economia ou pela incerteza quanto ao futuro, há uma tensão no ar que tem tendência a aumentar. Nestas alturas sabe bem ler e pensar, ler alguma coisa que nos ajude melhor a pôr os problemas em perspectiva e que nos ajude a aliviar a tensão. Por isso a minha recomendação de hoje é um livro publicado em Portugal há menos de um mês, “Tal como És: versos e reversos do Ryokan”. Trata-se de uma recolha da obra poética de Ryokan, um calígrafo e monge nipónico do século XIX. Esta edição foi traduzida a partir do japonês por Marta Moraes e constitui uma antologia que percorre a obra de Ryokan. “Tal como És” é uma colecção de poemas “ordenada numa espécie de narrativa ou história de vida, bebida algures no fazer da antropologia”, sublinha Marta Moraes numa introdução à obra que, juntamente com o posfácio, igualmente da sua autoria, ajuda a localizar tudo o que envolve Ryokan, a evolução da poesia japonesa e a importância da obra deste autor. A poesia de Ryokan é tocada por todas as formas tradicionais japonesas, revelando imagens fortíssimas que aliam um pendor contemplativo aos ensinamentos do budismo zen. Os mais de 400 poemas aqui compilados surgem alinhados em sete partes, de acordo com os momentos mais marcantes da vida do autor. Ryokan nasceu em 1758 e cedo renunciou ao mundo, seguindo os ensinamentos budistas da escola soto. Viveu o resto da sua vida como um eremita, e tornou-se conhecido nos dias de hoje pela sua dedicação às artes, naturalmente interligadas, da poesia e da caligrafia. Esta edição bilingue inclui cerca de 400 poemas, é ilustrada com algumas das caligrafias, está   pensada como uma narrativa da vida do monge e tem a chancela da Assírio & Alvim.

 

DIXIT - “Todos os votos do Chega são votos contra os outros partidos….Os partidos do contra só sabem ser do contra.Não servem para mais nada” - Miguel Esteves Cardoso

 

BACK TO BASICS - “Uma pessoa esperta resolve um problema; uma pessoa sábia evita-o” - Albert Einstein.

 

A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS

 

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