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QUE FAZER? A figura do Zé Povinho foi criada há 150 anos por Rafael Bordalo Pinheiro, um homem cosmopolita que fundou oito jornais humorísticos, viajou por toda a Europa, viveu no Rio de Janeiro quatro anos, um grande amante do teatro e das artes visuais. Ao fundo do Campo Grande, em Lisboa, há um museu com o seu nome que tem agora uma exposição que dá uma boa ideia do que fez. Perspicaz observador da sociedade portuguesa, viveu entre 1846 e 1905 e deixou uma obra notável: foi caricaturista, ilustrador, fez trabalhos gráficos diversos, figurinista, e também ceramista, decorador, empresário caricaturista, ilustrador. Criou a figura do Zé Povinho em 1875, personagem resignado perante a corrupção e a injustiça, ajoelhado pela carga dos impostos, criticando de uma forma humorística os principais problemas sociais, políticos e económicos do país e ao mesmo tempo caricaturando o povo português, sempre revoltado contra a classe política, mas sem fazer quase nada para alterar essa situação. Que diria Bordalo face a este país que se tornou campeão das filas, seja à porta dos Pastéis de Belém, seja nos aeroportos, nos serviços de legalização de imigrantes, nos serviços de urgência, e, agora, até filas de ambulâncias à espera da devolução de macas nos hospitais. No boletim de voto das eleições de 18 de Janeiro há uma fila de candidatos, a maior de sempre, e até há três que não vão a votos, mas estão lá para confundir. No meio desta barafunda, que diria o Zé Povinho de tudo isto? Resignamo-nos aos políticos com experiência de nos enganarem, ou, nestes tempos difíceis, escolhemos alguém diferente, com provas dadas na defesa do país e fora das guerrilhas partidárias? Preferimos um árbitro ou um cúmplice? Para mim o papel do Presidente da República passa por chamar a atenção para os problemas que o Governo desvaloriza, deve ser a voz da realidade e não a voz do dono, e deve compreender a complexidade do mundo actual e os desafios geoestratégicos que se colocam internacionalmente. Só vejo um candidato nestas condições e chama-se Gouveia e Melo.
SEMANADA - Cerca de 1,6 milhões de portugueses vivem a mais de meia hora do hospital mais próximo e a chegada até um serviço de urgências pode levar mais que uma hora, dependendo da resposta do INEM; há vários concelhos em que o Hospital mais próximo fica do outro lado da fronteira, em Espanha, como é o caso de Melgaço; no fim de 2025 mais de 1,5 milhões de pessoas não tinham médico de família; em 2025 mais de metade das primeiras consultas no SMS foram feitas fora do tempo adequado; na última década o número de portugueses com seguros de saúde duplicou e ultrapassa agora os quatro milhões; dos mais de 89 mil bebés nascidos no ano passado 28% têm mãe estrangeira; Portugal está na 5ª posição na lista dos países mais envelhecidos do mundo, liderado pelo Japão, Itália, Finlândia e Grécia; Portugal é o segundo país mais caro em habitação da UE, apenas ultrapassado pela Hungria; Portugal foi o país da Zona Euro onde os preços das casas mais subiram no terceiro trimestre do ano passado, quando aumentaram 17,7% face a 2024; a pesca perdeu cerca de 34% da sua força de trabalho na última década e desde o início do ano, 13 pescadores morreram no exercício da atividade; segundo a Marktest em 2025 apenas 29% dos portugueses leu ou folheou a última edição de um título de imprensa; nos últimos seis anos foram apreendidas pelas autoridades policiais mais de 19 mil armas; mais de 850 presos exigem indemnizações do Estado alegando más condições nas cadeias.
O ARCO DA VELHA - A juíza de instrução criminal do Tribunal do Funchal, deixou em liberdade, com pulseira eletrónica, um homem de 31 anos constituído arguido por violência doméstica, e poucos dias depois o mesmo homem foi detido pela violação e roubo de uma prostituta de 47 anos, com ameaça de faca.

UM CENTENÁRIO - Para celebrar o centenário do nascimento de Júlio Pomar é apresentada no CAMB- Centro de Arte Manuel de Brito, no Campo Grande, em Lisboa, uma exposição com uma seleção de obras de 1944 a 2004, que percorre praticamente todas as fases do artista. Júlio Pomar expôs na Galeria 111 durante quase meio século, é o artista mais representado na coleção Manuel de Brito e uma das obras expostas é este “Tigre et Tortues”, de 1979. Na Galeria estão expostas 51 obras, sendo 28 de grandes e médios formatos e vinte três de pequenos formatos, estas últimas oferecidas pelo próprio Júlio Pomar. Na folha de sala da exposição destaca-se que “a exaltação dos corpos humano e animal que, por vezes se fundem, são uma prática constante” na obra de Pomar. E cita-se uma frase do artista no seu livro Então e a Pintura ? “O fim que me propus: inscrever na tela o vivo da vida”. Por outro lado, no Atelier Museu Júlio Pomar continua até 5 de Abril a exposição “Húmus” que apresenta trabalhos de Júlio Pomar e Graça Morais, em contraste com obras de Daniel Moreira e Rita Castro Neves, duas gerações artísticas distintas. A exposição põe em paralelo obras de Pomar com um extenso conjunto de desenhos pouco conhecidos, mas marcantes, de Graça Morais. A exposição fica patente até 5 de Abril.

ROTEIRO - O destaque desta semana vai para “Os Dias Mais Curtos”, de Joana Galego, na Galeria Belard (Rua Rodrigo da Fonseca 103B). É uma exposição invulgar: entre os dias 22 de Dezembro, 2025 e 8 de Janeiro 2026, a artista ocupou o espaço da Galeria como seu atelier de trabalho (na fotografia) . Joana Galego criou ali uma colagem que cobriu as paredes e tecto de uma sala inteira, que depois usou como base para as suas pinturas, utilizando toda a superfície disponível, num trabalho que procura “eliminar as fronteiras entre a criação artística e o seu consumo e subverter o posicionamento de uma galeria enquanto espaço neutro e estéril”. No CEFT - Centro de Estudos de Fotografia de Tomar pode ver a exposição "Na paisagem do Médio Tejo - a Fotografia como mediação cultural", que mostra o olhar de dois fotógrafos, António Ventura e Duarte Belo. Até este sábado pode ainda ver na Galeria 3+1 a exposição “Selva Oscura” de Tito Moraz. No sábado, pelas 17h00, decorre ali uma conversa entre o autor e outro fotógrafo, António Júlio Duarte. E na Galeria Diferença (Rua de S. Filipe Neri 42) pode ver duas novas exposições - na Espaço Quadrado está “Encontros com a Ilha” de Luís Brilhante, que apresenta catorze gravuras resultantes de uma temporada na ilha de São Miguel, nos Açores, e na sala e na Espaço Triângulo está “Escolha O Título”, do colectivo OTIA TVTA formado por Agostinho Gonçalves, André Catalão, Eduardo Petersen e Paulo Lisboa.

DE UM FÔLEGO SÓ - O novo romance de José Eduardo Agualusa, “Tudo Sobre Deus”, é bem diferente de “Mestre dos Batuques”, a sua anterior obra. O pano de fundo é sempre África, mas enquanto o “O Mestre dos Batuques” relatava uma aventura com um toque surreal, uma narrativa no domínio do fantástico que mistura acontecimentos históricos com as tradições e rituais do Bailundo, este novo “Tudo Sobre Deus” é um exercício de meditação sobre a vida e a morte, as relações familiares e a amizade. O livro conta a história de um homem que está a morrer e que procura um lugar onde possa passar os seus últimos dias. Encontra-o numa igreja abandonada, no meio do deserto, onde passa a viver, acompanhado do amigo que lhe resta neste fim da vida. Esta obra, que fica algures entre a ficção e a poesia, é assumidamente uma homenagem ao político e escritor senegalês Leopold Senghor. Ao longo da narrativa surge o relato de amores e desamores, os conflitos entre Pai e filha e o relato de uma amizade antiga que é o pretexto para uma das mais belas páginas do livro, onde Leopoldo Borges, o protagonista, se despede do seu amigo Inácio Brito Capitanga: “Nunca te disse, mas foi contigo que aprendi a verdadeira medida do silêncio que se pode partilhar sem constrangimentos. A ausência de explicações.” O livro deixa marcas, e lê-se de um fôlego só. África é o caderno onde Agualusa escreve os seus livros. Edição Quetzal.

AUTOBIOGRAFIA MUSICAL - O primeiro disco português do ano saíu a 1 de Janeiro nas plataformas de streaming, é de Miguel Araújo e chama-se “Por Fora Ninguém Diria”. É um exercício intimista, em torno da vida pessoal do músico, depois de se ter separado e se ter reencontrado e redescoberto. Integralmente tocado por ele em todos os instrumentos, foi gravado ao longo de vários anos no seu estúdio pessoal. Numa entrevista recente ao Diário de Notícias, Miguel Araújo explica como chegou a este disco : “Desde que tenho o estúdio em casa, desde finais de 2018, que tenho uma ética de trabalho que é ir trabalhando quase todos os dias em pedacinhos de ideias, coisas soltas, algumas coisas mais concretas, umas mais acabadas, outras menos. E vou gravando. Vou gravando assim numa perspetiva descomprometida, sem estar muito a pensar se aquilo depois um dia vai ser editado ou não (...) O disco fala sobre separação, as músicas têm todas elas algum ângulo sobre esse processo, seja de uma pessoa com quem se teve uma relação amorosa, um amigo, ou alguma outra coisa, mas as músicas têm todas isso. Algumas têm uma coisa que é o pós-separação, a esperança que aí vem.” Com 11 temas, os mais marcantes e conseguidos são “Sinto Muito”, “As Vidas Que Esta Volta Dá”, “Charlie Brown” e o derradeiro tema, um manifesto musical intitulado “Eu Não Vou Mudar”. O título do disco é tirado da primeira canção, “Meia Vida”, onde Miguel Araújo se confronta consigo próprio. “Por Fora Ninguém Dirá” vai ser apresentado ao vivo numa série de espectáculos que arranca dia 14 de Fevereiro, em Vila Real.
ALMANAQUE - No início do ano cabe destacar que almanaque só há um: o Borda d´Água e mais nenhum. Sob o slogan “O Verdadeiro Almanaque”, o Borda d´Água está com 97 anos de idade, custa três euros e apresenta-se contendo “todos os dados astronómicos e religiosos e muitas indicações úteis de interesse geral”, desde as fases da lua em cada mês até indicações sobre agricultura e jardinagem e as feiras e festas que se desenrolam ao longo do ano. Com tiragem de 100 mil exemplares, surge pela mão da Editorial Minerva. Todos os anos compro um.
DIXIT -”Coleccionar ambulâncias à porta dos hospitais porque as macas não são devolvidas (...) é só mesmo incompetência” - João Miguel Tavares, no Público
BACK TO BASICS - “Tudo é passado na nossa vida. O presente é apenas um poleiro com rodas, que o vento vai empurrando para cada vez mais longe” - Miguel Esteves Cardoso
A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS
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