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ESTE PAÍS - Na edição desta semana do semanário “Sol”, o jornalista José Cabrita Saraiva fez uma entrevista com um guarda prisional da penitenciária da Carregueira. Vou citar um excerto dessa entrevista: “No caso da Carregueira estamos a falar de uma prisão que foi planeada para 500 reclusos e já vai nos 800. O que era uma cela para 4 pessoas passou a ser para 5, 6 ou 8. (...) É como se fosse uma cidade que está a ficar sobrepovoada. Você não tem uma enfermaria maior, não tem um pátio maior, não tem um refeitório maior, não tem nada maior. Mas tem mais reclusos. Menos guardas e mais reclusos.” Leio estas linhas e é impossível não pensar que este é também o retrato do nosso país hoje em dia. Temos mais gente mas no funcionamento do Estado tudo diminui: faltam professores, faltam médicos, faltam enfermeiros, faltam políticas eficazes de habitação. A culpa não é só deste Governo, bem entendido: é de uma sucessão de anos de má governação em que ninguém olhou para a realidade que se desenhava e que inevitavelmente produziria este resultado, apesar de muitos avisos terem sido feitos. O que na realidade acontece é que o Estado tem obrigação de assegurar que áreas cruciais como a saúde e a educação funcionem e deve desenvolver políticas que estimulem a habitação social. Nada disto está a ser feito e o novo Orçamento de Estado prevê mais cortes que vão piorar ainda mais a situação nestas áreas. Não se trata de seguir a conversa, que está na moda, de os portugueses se sentirem estrangeiros no seu país. É mais ao contrário: temos um Estado desligado do país e de quem cá vive.
SEMANADA - Segundo o bastonário da ordem dos médicos todos os anos saem 800 médicos de Portugal; quatro milhões de portugueses têm seguros de saúde; as famílias portuguesas gastam 20 milhões de euros por dia em despesas relacionadas com a saúde; o Governo deixou cair do PRR o novo Hospital Oriental de Lisboa, 18 centros de saúde, 3550 camas na rede de cuidados continuados e paliativos; na área da Cultura foram retirados 15 milhões de euros do PRR que se destinava a livrarias, apoios à tradução e edição de de obras literárias e digitalização de arquivos audiovisuais; o reforço e alargamento da cobertura das escolas com redes de wi-fi também foi retirado do PRR; trabalham hoje em Portugal 5,624 milhões de pessoas, o valor mais alto desde 1998; segundo promotores imobiliários a aprovação de novos empreendimentos é mais ágil no Porto do que em Lisboa, o que leva à fuga de investimentos na capital na área da habitação; os bancos portugueses concederam 18 mil milhões de empréstimos para a compra de casa nos primeiro oito meses do ano, um valor sem precedentes; os impostos sobre a habitação representam 80% da receita fiscal das autarquias; as exportações portuguesas caíram 0,1% no terceiro trimestre e as importações cresceram 5.2%; a dívida pública atingiu um novo máximo histórico de 294,3 mil milhões, ou seja cerca de 27 mil euros por habitante; há mais de 1200 horários ainda por preencher nas escolas; as polícias portuguesas apreenderam dez toneladas de cocaína em seis meses, o valor mais alto de sempre.
O ARCO DA VELHA - Mais de 30% da violência doméstica registada pela PSP no primeiro semestre é de filhos contra pais.

A SEDUÇÃO DA MONOTIPIA - A nova exposição de Ana Jotta e Jorge Nesbitt, que já têm um histórico de colaboração, tem um título baseado na música de Robert Wyatt, “Black Pudding”. Na realidade a exposição, que está patente na Galeria Miguel Nabinho, tem três momentos. O primeiro, e que está exposto (na foto), é constituído por um mural em rolo de papel, com a dimensão de 14 metros, no qual os artistas imprimiram monotipias a partir de linóleos previamente usados noutras circunstâncias. O segundo momento é uma série de 13 trabalhos feitos em papel japonês, também com monotipias e marcador com dimensões aproximadas de um metro por 1,60 m. E o terceiro é um conjunto de duas dezenas de livros de artista, com capa em serigrafia, reproduzindo um poema de um monge irlandês do século IX, e cada um tem dentro um desdobrável, prova única de monotipia e marcador em papel japonês, com 30 cm x 1,75 m. O grande mural exposto está concebido (e marcado) para poder ser vendido em segmentos de um metro. A exposição fica patente até final de Novembro na Galeria Miguel Nabinho, Rua Tenente Ferreira Durão 18.

AMORES CRUZADOS - Can Xue é considerada a maior escritora chinesa contemporânea, tem um novo romance editado em Portugal - “A Última Amante”, uma história de amores cruzados repleta de ironia. No romance desfila um conjunto de maridos, esposas e amantes, entrelaçados em relações complicadas. As personagens envolvem-se nas fantasias umas das outras, mantendo conversas que são autênticos jogos de adivinhação. Can Xue escreve sobre o desejo humano colocando as personagens em bares decadentes e ruas escondidas. O romance está repleto de personagens fabulosas, como Joe, vendedor de uma empresa de vestuário num país ocidental desconhecido, e a sua mulher, Maria, que realiza experiências místicas com os gatos e as roseiras da casa. Reagan, cliente de Joe, tem um caso com Ida, uma funcionária da sua plantação de borracha, enquanto Vincent, dono de uma loja de roupa, foge da mulher em busca de uma mulher de negro que desaparece sucessivamente. É no fundo um romance sobre a busca pelo amor, às vezes ingénua, outras desamparada. Edição Quetzal.

MESA DE CABECEIRA - Os dois livros que destaco esta semana têm ambos um prefácio de Paulo Portas. Começo por “Algoritmo Cracia”, de Adolfo Mesquita Nunes. O subtítulo é “Como a IA está a transformar as nossas democracias” e Paulo Portas afirma que “este é um livro essencial para quem quer perceber a política dos nossos dias”. Mesquita Nunes é um advogado que tem estudado e trabalhado nos desafios jurídicos que as novas tecnologias e em particular a IA colocam. O autor sublinha que a Inteligência Artificial não é apenas uma inovação tecnológica, mas um dos maiores desafios à sobrevivência das democracias liberais” (edição D. Quixote). O outro livro é uma segunda edição, actualizada e aumentada, que conta o percurso de Rui Pedro Bairrada, “De Estafeta a CEO e de CEO a Chairman”, fundador da Doutor Finanças, uma empresa de intermediação de crédito que promove a literacia financeira. No seu prefácio Paulo Portas destaca três atitudes de Rui Pedro Bairrada que o impressionaram:” a disposição para mudar profissionalmente, a disposição para fazer uma introspecção com humanismo terapêutico e a disposição para partilhar experiências e vivências” (edição Contraponto)

NOVAS DESCOBERTAS DE DYLAN - “Through the Open Window” é a 18ª edição de gravações inéditas e piratas de Bob Dylan, conhecida por “The Bootleg Series”. Neste caso grande parte são gravações efetuadas quando Dylan tinha apenas 20 anos, pouco depois de chegar a Nova Iorque. A edição é uma caixa com oito discos baseada nas sessões de estúdio feitas em finais de 1961 para gravação do seu primeiro disco, com o produtor John Hammond. Ali estão gravações não aproveitadas dessas sessões, entre elas uma versão desconhecida do tradicional “Man of Constant Sorrow”, que Dylan tinha ouvido na voz de Judy Collins. Mas este conjunto de gravações vai mais longe e abarca o período entre 1956 e 1963, incluindo a primeira gravação conhecida de Robert Zimmerman, feita numa loja de música, uma versão de “Let The Good Times Roll”. Na realidade este conjunto de discos ajuda a seguir o percurso de Dylan, do Midwest até Nova Iorque, com registos efectuados em pequenos clubes, em casa de amigos e até em manifestações, cantando temas de Woody Guthrie. Ao todo há 48 faixas completamente inéditas, incluindo gravações da sua actuação no Gerde’s Folk City em 1961, o local onde um crítico do New York Times o ouviu e depois escreveu um texto que lançou a carreira de Dylan. A caixa, compilada por Steve Berkowitz e Sean Wilentz, encerra com a gravação integral do seu concerto no Carnegie Hall. Disponível nas plataformas de streaming.

ALMANAQUE - Esta semana o destaque vai para o leilão que a Cabral Moncada realiza em Lisboa no dia 10 de Novembro e que tem 217 obras de referência, 86 das quais provenientes da Colecção João Esteves de Oliveira. Coleccionador, galerista, mecenas, amante das artes e das letras, João Esteves de Oliveira (1946-2023) nasceu no Porto, estudou Economia e teve uma longa carreira na Banca internacional antes de se tornar um galerista de referência e uma figura incontornável no mercado Português de Arte Moderna e Contemporânea. Durante os tempos em que trabalhou na Banca, viveu em Londres e Paris, visitou galerias, museus e antiquários e criou relações de amizade com vários artistas, nomeadamente Júlio Pomar e Jorge Martins que, mais tarde, tiveram um papel relevante na galeria. Na sequência da reestruturação do sistema financeiro em Portugal, abandonou a Banca, e abriu a sua galeria “João Esteves de Oliveira Trabalhos sobre papel, Arte Moderna e Contemporânea”. A sua missão era promover as obras sobre papel, independentemente das técnicas utilizadas nesse suporte, o que era inédito no panorama artístico português da época. No texto que escreveu para o catálogo do leilão, Isabel Andrade Dias, que trabalhou com o galerista durante quase duas décadas, sublinha que “a atividade de João Esteves de Oliveira foi determinante para a valorização do trabalho sobre papel, conferindo-lhe uma visibilidade e um reconhecimento que até então lhe haviam sido recusados”. E prossegue: “segundo Pedro Cabrita Reis, pela mão de JEO o desenho deixou de estar guardado nas pastas dos ateliers dos artistas e ganhou autonomia e identidade”. Da sua colecção sobressaem obras de artistas com carreiras relevantes na arte contemporânea: Ana Jotta, José Loureiro, José Pedro Croft, Julião Sarmento (na imagem está a sua obra que vai a leilão), Pedro Cabrita Reis, Jorge Queiroz, Jorge Pinheiro, Fernando Calhau, António Sena, Álvaro Lapa, Ângelo de Sousa, Joaquim Bravo, Manuel Caldeira, Jorge Nesbitt, Marco Pires e Vasco Futscher, entre outros. O leilão, presencial, decorre na sede da Cabral Moncada, Rua MIguel Lupi 12D, no dia 10 pelas 18h00.
DIXIT - Cada vez há menos portugueses a acreditar que os dirigentes do PS não soubessem nada sobre o modo como Sócrates exercia o poder e beneficiava dele” - João Marques de Almeida, no “Sol”.
BACK TO BASICS - “Criou-se uma situação realmente trágica: ou o sujeito se submete ao idiota ou o idiota o extermina” - Nelson Rodrigues.
A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS
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