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AS AUTÁRQUICAS - Faltam cerca de três meses para as eleições autárquicas de 12 de Outubro. Vão ser três meses de intensa campanha eleitoral, que muitas vezes se vai confundir com as festas de verão que se realizam por todo o país. É inevitável surgirem grandes alterações, já que um número elevado de autarcas atingiu o limite de mandatos e terão que ser substituídos e também porque o leque partidário mudou. O Chega teve uma grande subida nas legislativas, mas nas anteriores autárquicas não conquistou nenhum concelho e agora apresenta 21 dos seus 60 deputados como candidatos a câmaras importantes. Acresce que é nestas eleições que surge um número elevado de candidatos independentes, fora do sistema partidário existente, o que também pode provocar surpresas. Nas autárquicas todos os candidatos, no entanto, se defrontam com uma situação bizarra, que não acontece noutras eleições: mesmo que ganhem podem ter que dividir a governação do município ou freguesia com pessoas que não são da sua confiança, e frequentemente são levados a acordos pouco naturais. Uma das queixas recorrentes dos autarcas nessa situação é a dificuldade em aplicar um programa e cumprir promessas quando, tendo vencido as eleições, a maioria dos vereadores é da oposição. A Lei Eleitoral Autárquica de 1976 criou, fruto da época e das contingências da então jovem democracia, executivos autárquicos onde coexistem vencedores e vencidos. Isto, apesar de a diversidade política e partidária se encontrar garantida nas Assembleias Municipais e de Freguesia, que têm importantes competências, nomeadamente em termos da aprovação dos orçamentos anuais. As sucessivas alterações à Lei Eleitoral de 1976 não mexeram nesta situação. Na minha opinião o candidato vencedor nas eleições autárquicas devia poder formar um executivo da sua escolha, tal como o Primeiro-Ministro escolhe os seus Ministros. As Assembleias Municipais ou de Freguesia seriam o órgão fiscalizador, com capacidade para votar algumas questões estruturais, tal como acontece entre Governo e Assembleia da República. Uma tarefa urgente e necessária em próxima revisão de leis eleitorais seria corrigir esta anomalia, devolvendo aos eleitores a concretização cabal das suas escolhas. Se assim não for fica difícil verificar se os vencedores, que tiveram bloqueios da oposição, conseguiram cumprir o que prometeram nas campanhas eleitorais. E assim se cria mais desconfiança no sistema e nos políticos.
SEMANADA - O Governo retirou a promoção da ética e responsabilidade na vida pública do seu novo código de conduta; o constitucionalista Jorge Miranda considera que a proposta de nova lei da nacionalidade do Governo contém várias inconstitucionalidades; dados da OCDE mostram que sem imigrantes, a população activa em Portugal diminuiria e aquela organização defende que é preciso continuar a atrair estrangeiros, sobretudo para áreas menos qualificadas; existem actualmente 515 mil pessoas com pedidos de nacionalidade pendentes, dez vezes mais que há uma década; apenas 25% das naturalizações são de migrantes residentes em Portugal há seis anos; 60% dos “novos portugueses” vivem fora do país; 21% dos comboios da CP sofreram atrasos em 2024, o valor mais elevado em 11 anos; o Alfa Pendular regista o pior desempenho, com atrasos em 66% das viagens; em Lisboa foi criada uma plataforma de associações cívicas que pretende diminuir o ruído nocturno e o consumo de bebidas alcoólicas na via pública; o número de agentes da Polícia Municipal de Lisboa está no valor mais baixo dos últimos anos e apenas estão instaladas 64 das 216 câmeras de videovigilância cujo licenciamento está efectuado há quase quatro anos; a proibição de voos nocturnos entre a uma e as cinco da madrugada, anunciada há sete meses, ainda não se concretizou e o Ministro das Infraestruturas, Miguel Pinto Luz, desculpa-se dizendo que a medida “ demora um tempo a ser implementada”; o Aeroporto de Lisboa, o oitavo com maior número de passageiros na União Europeia, registou 1137 voos noturnos nos últimos 14 dias de junho.
O ARCO DA VELHA - O transporte de emergência durante a noite conta com apenas um helicóptero para todo o território nacional e a empresa à qual o Governo entregou o helitransporte de emergência médica durante os próximos cinco anos não tem aeronaves nem pilotos e anda agora a tentar arranjá-los.

A EVOLUÇÃO DAS ESPÉCIES - Jason Roberts é um jornalista norte-americano que tem escrito ficção e sobre temas científicos. Já ganhou vários prémios, entre os quais um Pulitzer, pelo livro “A Invenção da Biologia - Linnaeus, Buffon e Todos os Seres Vivos”, publicado originalmente em 2024 e agora editado em Portugal. O livro, escrito como um relato de aventuras, traça as origens do darwinismo no século XVIII, ou seja antes do próprio Darwin. Roberts investigou durante uma década as vidas e os legados científicos de dois grandes pioneiros: Carl Linnaeus e Georges-Louis de Buffon. Nesse século XVIII ambos tinham a mesma idade mas personalidades totalmente opostas. E ambos dedicaram as suas vidas a identificar e descrever todas as formas de vida na Terra. Carl Linnaeus, um médico sueco muito devoto e com dotes de comerciante, considerava que a classificação devia corresponder a categorias ordenadas e estáticas. Pelo contrário, Georges-Louis de Buffon, aristocrata, polímata e diretor do Jardin du Roi de França, via a vida como um turbilhão dinâmico e complexo. O livro de Roberts narra de forma envolvente as vidas destes sábios e acaba por traçar, a partir dos trabalhos originais, um arco de descoberta e conhecimento que se estende depois por três séculos. Edição Temas & Debates.

UMA CASA PROVOCADORA - O destaque da semana vai para a nova exposição de Serralves, “Sussurro”, que mostra 26 obras do artista italiano Maurizio Cattelan e que poderá ser visitada até 11 de Janeiro. A exposição está montada na Casa de Serralves, um edifício Art Deco dos anos 30, e que se situa no extenso parque da Fundação de Serralves. As 26 obras estão distribuídas pelos dois andares da casa e pelo seu parque e foi concebida e desenvolvida para esta localização, com curadoria de Philippe Vergne, director do Museu de Serralves. Ali podem ser vistas algumas das peças mais conhecidas de Cattelan, como a imagem do Papa caído, dois homens dormindo num estreito leito, um cavalo suspenso (na fotografia, de NV Studio) e várias outras, como como Him, L.O.V.E., Comedian, La Nona Ora, Breath e Daddy Daddy, que são apresentadas pela primeira vez em Portugal. A obra de Cattelan, polémica, provocante, com um sentido de humor especial, é apresentada como uma reflexão sobre a história do nosso tempo e nas palavras de Philippe Vergne “demonstram o interesse de Maurizio Cattelan pela História: mudanças históricas, traumas históricos e ícones históricos (...) O instante suspenso e fugidio entre a infância e a idade adulta, entre a vida e a morte, entre eras históricas, entre o riso e o choro, é a origem da sua iconografia. Ele transforma esses momentos em ícones”

ROTEIRO - Por estes dias, se forem visitar a magnífica exposição de Miriam Cahn no MAAT Central não deixem de ver, no mesmo local, a exposição “lápis de pintar dias cinzentos - obras da colecção de arte da Fundação EDP”. Inspirada num título de um projecto de Carlos Nogueira, a exposição inclui obras de nomes como Ângelo de Sousa, Carlos Nogueira,Eduardo Batarda, Eduardo Gageiro, Helena Almeida, Jorge Martins, José Loureiro, Luísa Cunha, Maria Beatriz, Maria José Oliveira e René Bertholo na imagem), entre outros. Para apresentar esta exposição, com curadoria de Margarida Almeida Chantre, o MAAT remodelou o espaço Cinzeiro 8, no rés do chão do edifício Central, criando divisões que permitem uma nova forma, muito bem conseguida, de expôr e ver. “lápis de pintar dias cinzentos” fica até 27 de Outubro. Outras sugestões: na Sociedade Nacional de Belas Artes o fotojornalista Luiz Carvalho apresenta uma selecção de imagens que fez logo nos primeiros dias de liberdade com o título “50 de 25”, um documento importante de uma época. Também em Lisboa, no MUDE, pode ser vista até 12 de Outubro a retrospectiva da obra de João Machado, um dos mais importantes e influentes nomes do design gráfico português, a partir da colecção doada pelo próprio. E para finalizar no Museu Berardo Estremoz, focado na azulejaria, pode ver novas aquisições, com destaque para o conjunto de azulejos provenientes do Paço Ducal de Vila Viçosa que revestiam as salas mais requintadas deste palácio. Estes azulejos fizeram parte da uma encomenda do Duque D. Teodósio às oficinas de Antuérpia e é considerado um verdadeiro tesouro nacional, por se tratar do primeiro programa azulejar renascentista do país. O Museu está localizado no Palácio Tocha.

JAZZ PORTUGUÊS - O Indra Trio é uma das formações de jazz portuguesas que tem mantido uma actividade mais constante. O seu novo disco, “Brahma”, o terceiro de originais, continua a contar com a participação de Luís Barrigas na composição e piano, Jorge Moniz na bateria e João Custódio no contrabaixo, mas acrescenta a participação do saxofonista alemão Uli Kempendorff. O disco continua no caminho da combinação dos ambientes do jazz europeu contemporâneo, com influências do folclore português, como em “Mondadeira Alentejana”, um dos nove temas do álbum. O Indra Trio procura agora a internacionalização e o concerto de apresentação vai ter lugar dia 16 de Julho no Zig Zag Jazz Club, em Berlim. Disponível em CD e nas plataformas de streaming.

ALMANAQUE - Desta vez a recomendação do Almanaque mistura comida com Arte. Para celebrar os seus 25 anos de existência, a pizzaria Casanova (na Bica do Sapato, junto ao Lux) convidou Pedro Calapez a criar duas obras que estão na parede de entrada e criam um novo ambiente no espaço, agora também remodelado e ampliado do restaurante. As pizzas continuam boas, a esplanada pede um Campari e, se lhe apetecer outra coisa, a lista vai além das pizzas.
DIXIT - “Voto em (...) quem demonstre que está realmente interessado nos serviços municipais, no espaço público, na beleza das cidades, no conforto dos cidadãos, na paz e no sossego das pessoas, no descanso de quem trabalha, na alegria de viver em comunidade” - António Barreto
BACK TO BASICS - “Tenho a teoria de que a verdade nunca é dita em funções oficiais” - Hunter S. Thompson
A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS
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